28/10/2011

Falo pelos paulistas

Fonte: http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Sao_Paulo/Sao_Paulo/photo1159942.htm

Não me refiro àqueles que se intitulam O paulista modelo único padrão e sem opcionais, que xenofobia é doença como toda fobia e deve ser tratada.

Me refiro aos amigos que conquistei, à boa gente que me recebeu com presteza e paciência, à Cidade-Estado que em breve terá cento e cinqüenta carros eléctricos em sua frota pública, aos bons compatriotas que sabem que o são.

Em nome desses numerosos amigos, de seus conterrâneos e toda gente que sabe receber bem, digo aos brasileiros que são todos bem-vindos à São Paulo. Todas as pessoas que lá descerem, com intenções honestas e ordeiras, serão incondicionalmente bem-vindas à terra da garoa. Todas mesmo, incluindo nordestinos.

Fosse verdade o que pregam os separatistas, noventa por cento da população nacional sequer desembarcariam nos aeroportos paulistas, onde seria exigido um atestado de "pureza ariana" com teores mínimos para ingresso à cidade. A única semelhança genética que tenho com os arianos é a quantidade de cromossomos, mas o bom cidadão paulista soube guiar com naturalidade e discrição alguém que jamais tinha saído de seu Estado natal, dando infornações precisas e bem detalhadas; não me perderia por lá nem que quisesse. A falta de pedigree não constituiu, em momento algum, motivo para sequer manterem distância.

Afirmo então, seguro da aprovação de meus amigos, e os amigos deles, bem como os amigos desses amigos deles, além dos consecutivos amigos que se seguem, que vocês podem viajar, pernoitar, se hospedar, eventualmente até mesmo morar na cidade gigante, que tem itinerários de ônibus com mais de sessenta quilômetros... maior que as distâncias entre muitas cidades no interior do país.

Convido meus concidadãos, os que partilham meu gentílico, a gente boa deste país a visitarem São Paulo, sem medo. Quem lê as notícias por inteiro sabe o quão mal quistos são os que discriminam, agridem e tentam segregar. São marginais, ainda que de classe média alta. Vão e preparem seus tubos digestivos para um festival gastronômico sem par, começando pelas cantinas, passando pela pizzaria e terminando na drogaria, para acalmar a digestão.

Convido a todos aos eventos culturais que seriam notícias de primeira página na maioria absoluta das cidades, mas por lá apenas constam nos cadernos culturais. Podem ir sem temores, tenha respeito pela casa do paulista e serás tratado como um morador. Vá e leve uma boa câmera, não se esquecendo de levar souvenires na volta. Cultura e contra-cultura te esperam de braços abertos. E Nova Iorque não é a maior e mais cabal prova de que as culturas se complementarm, e que é a presença do Estado e não a segregação que torna uma cidade boa de se viver?

A Cidade-Estado está tão repleta de diversidade, que só o teu assombro e encantamento dirão que és forasteiro. Mas pode ir tranqüilo, tua pele corada e teu sotaque carregado não serão vistos como confissão de crime, ao contrário do que gostariam os que causam vergonha e arranham a imagem da cidade. Meus amigos nativos terão prazer em te orientar e ajudar no que lhes for possível.

Aos que intencionarem morar lá, apenas recomendo uma fase de adaptação, uma ou duas viagens de reconhecimento e uma terceira para atar laços com nativos, porque São Paulo não é apenas seu município, todas as cidades da região metropolitana se servem de suas virtudes, então recomendo conhecer a região onde pretendes se instalar e o percurso diário a ser percorrido como rotina, porque na pressa sim, podes se perder.

Por mais provocações que lhe dirijam, ninguém pode tolher o teu direito a uma paulisséia desvairada, pipocar em museus dos mais diversos temas, sêbos com tudo o que não se encontra noutras cidades, o legítimo e inimitável pastel de vento, conhecer o metrô para ter experiência a passar aos seus concidadãos e cobrar da tua prefeitura. A violência existe, os paulistopatas existem, mas nada disso te impedirá de acompanhar teus amigos a passeios noturnos nos parques da cidade, de ver a vida continuando depois do pôr do sol em lojas, mercados, restaurantes e tudo mais. Não é por jamais desembarcar em São Paulo que vais ficar livre de meliantes.

Tudo isso falo em nome da Amanda, da Cristiane, da Mônica, da Paula, da Paula, da outra Paula também (meu Deus quantas Paulas há naquela cidade?) da Renata, do João, do Leandro, da Flávia, da Clarissa, do Dener, do Stefano, da Carolina, da Carolina, e tem mais Carolina ainda, da Diva, da Fabiana, da Priscila, da Serena, do Marcelo, do Gabriel Felipe, do Laerte, da miríade de pessoas do balacobaco que a internet me permitiu conhecer, e muitas das quais tive que encarar vis a vis.

Por esta gente boa e brasileira que pulula por terras paulistas, assevero que São Paulo é para o paulista, também para o cearense, para o paraense, para o gaúcho, para o goiano, para o acreano, para o potiguar, para o uruguaio, para o novaiorquino, para o berlinense, para o atlante, para a tonga da mironga do cabuletê. 
Porque São Paulo se apóia na sua história, mas não vive do passado.

21/10/2011

Apresentando Ironia, a fina.

Ah, se zangaste? Venga, toro!

Caríssimos, meu apreço por vocês é proporcional ao esforço que têm feito para desenvolver moral e intelecto, conjuntamente. Nem imaginam como é grande, ocupa quase metade do meu dedal de costura.

Lamento, porém que esta estima não tenha correspondência à altura, na realidade vem sendo cada vez mais minguada pela negligência para com os pensamentos mais elevados. Sim, pensamentos elevados, bem acima dos enaltecedores pensamentos pubianos, que têm gerado tamanha harmonia em fóruns de internet. Compreendo a imensa importância de vocês quererem estar certos a qualquer custo, ainda que estejam mais errados do que cair para cima, mas por conta desse comportamento infantilesco estão se esquecendo de cousas muito importantes. Não tão importantes quanto agredir quem nega um beijo, provando que Darwin estava errado ao dizer que evoluíram de animais avançados como as amebas, mas são cousas que facilitariam muito resolver problemas práticos, como criminalidade, violência no trânsito, delinqüência juvenil, corrupção, entre outros que seu assoberbamento tem feito deixar de lado.

Uma dessas "cousas" é a mais antiga professora de lógica e philosophia da humanidade; euzinha, Miss Ironia, a fina.

A ironia é vulgarmente conhecida como "o acto de dizer uma cousa querendo dizer outra". Meia verdade. Na realidade eu ensino a contar uma história inteira em poucas palavras, às vezes apelando à psicologia reversa, o que a paixão arrebatada pela prolixia retórica tem feito empoeirar na estante. Aliás, para os que não sabem, Prolixia Retórica é minha prima, ela não é a mais bonita da família, mas é a mais dada ao que se propõe, por isso tem mais companhias do que todas nós juntas. Alguém aí não entendeu? Ah, deixe pra lá.

Uma de minhas funções é fazer as pessoas ajustarem contas sem terem que recorrer à violência explícita, seja verbal ou física. Isto pode, a muitos dos ultra gênios de plantão, parecer hipocrisia, mas Hipocrisia é minha tia amarga e mal amada que jamais conseguiu inalgurar sua loja, por isso tenta esvaziar as das outras. Uma ironia bem aplicada desnorteia o agressor, que se vê na encruzilhada de mostrar ao mundo o que ele realmente é, ou recuar do ataque. Meu trabalho, então, é poupar vocês de sofrimentos desnecessários, quando a animosidade e as divergências se mostram inexoráveis. Mas como vocês gostam de sofrer!

Vocês têm acumulado conhecimento e malícia, acreditando piamente que a isto se resume ser culto. Talvez até seja cultura mesmo; Ticos e Tecos estressados cultivando cogumelos ardentes.

A recusa em aceitar meus préstimos tem levado vocês à intolerância cega, que é quase um pleonasmo. Vocês acham que quem não for suas cópias fiéis é seu inimigo, acham que as gravações de uma câmera são mentiras de um software golpista, acham que comentários de quem não for da turma é uma tentativa de golpe, acham que suas pessoas podem ser usadas como padrões para julgar e setenciar todo o resto da humanidade, enfim, vocês acham tudo. Estão meio perdidos, não acham?

Vocês desaprenderam a diferenciar uma piada, uma brincadeira, de uma afronta, disto os agressores contumazes se aproveitam para afrontar e alegar que estão sendo perseguidos, quando há iminência de punição. Se vocês não sabem diferenciar, como vão dizer aos malandros o que eles estão fazendo? Eles usam do relativismo compulsivo de vocês para dizerem que tudo depende do ponto de vista. Com minha larga experiência eu digo a vocês, só suas idéias geniais dependem de ponto de vista, as leis da física estão se lixando para elas. Vocês também desaprenderam a diferenciar ponto de vista, de opinião e palpite.

A despeito de toda a evolução tecnológica das duas últimas décadas, a mentalidade social de vocês regrediu meio século para cada uma delas. O Século XIX ainda era marcado pela cultura para poucos, de cujas sobras se servia a população em geral, embora a efervecência intelectual tenha multiplicado os títulos e barateado (relativamente, aqui sim cabe dizer) a literatura. Uma casa com uma enciclopédia e meia dúzia de títulos era uma casa de letrados, de gente culta e atenta aos acontecimentos do mundo. Hoje vocês baixam tudo de graça, em segundos. Talvez esta mesma facilidade lhes tenha tolhido a capacidade de raciocinar para além de seu umbigo, afinal é a única baliza de que se servem hoje em dia. Sugiro que tirem seu bastão do meio do século e o coloquem à direita, andarão com mais facilidade... Século XXI, crianças.

Reconheço que a boa ironia não é fácil de se compreender, que é preciso mais do que ter leitura, mas muito mais ter o hábito de investigar e interpretar a leitura adiquirida. É para bem poucos mesmo, uma minoria da população mundial, só para quem tem quarenta e seis cromossomos. É preciso ter disposição para aceitar que as suas idéias maravilhosas, na prática, podem não ter previsto todas as variáveis embutidas na questão. Estando aberto a este facto, a interpretação de uma leitura torna-se menos tendenciosa, mais atida à realidade, o que geralmente machuca. Ah, sim, esqueci-me de dar nome a esta atitude, é a minha irmãzinha mais linda e delicada, a Humildade. Infelizmente muita gente a confunde com a prima Miséria, que como ela é branquinha e frágil, mas é barraqueira e chama mais atenção. Por favor, não confundam as duas, minha irmã é delicada e bem proporcionada por sua compleição, a outra é esquelética de ruim mesmo.

Asseguro, porém, que não é tão hercúleo assim compreender minhas lições, basta separarem Tico e Teco, colocarem-nos em seus respectivos postos e mandar que trabalhem em vez de brigar. Muito daquilo em que vocês acreditam pode cair por terra, é um risco, mas também um excelente adubo. Eu não tenho nenhuma obrigação de ser agradável, mas aos que se esforçam em tento.

Enquanto não reaprendem, vamos adiantando:
  • Nem todos que discordam de vocês são seus inimigos, bem poucos o são. Na realidade, se pensarem direito, o único inimigo de verdade mora no espelho;
  • O facto de um escritor da béle époque ter dito "Aquela negrinha era muito esperta" constitui um elogio, que pode ter custado a antipatia dos conservadores da época. Aprendam a considerar época e local de uma obra;
  • Nem todos os caras que te cumprimentam estão flertando. Quem te pergunta as horas não está necessáriamente te chamando para o motel, talvez ele nem seja da região para saber dessa neurose local, então não ataque preventivmente, que o outro e torna a vítima;
  • Quem abre mão de exercer um direito não está ameaçando o exercício dos teus, evite alimentar a idéia de que quem o faz é um inimigo potencial;
  • Lembra de maquiavel? Ele não ensinou a corrupção, ele tentou alertar o povo dos métodos dos corruptos. Lembra de Marx? O que ele disse se concretizou nos países nórdicos. Não tentem interpretar uma obra sem conhecer um pouquinho de seu autor, ele é um humano e suas idéias podem ser diferentes do que parecem;
  • Se a piada te desagrada, procure referências fora do teu círculo de amizades, porque nele a mentalidade tende a ser muito uniforme, e se um estiver errado os outros também estarão. Isto evita o apedrejamento de um inocente, bem como a absolvição de um sacana;
  • Teus heróis são humanos, eles erram; Teus vilões também são humanos, uma hora eles acertam; Não tenha medo de reconhecer isso, faz um bem danado e alivia os ombros.
Embora muitos de vocês tentem, não podem me destruir, vivo no reino das idéias, estou fora do alcance de seu imenso poderio verborrágico. Enquanto vocês se empenham em ser lembrados como os únicos humanos relevantes de sua época, muito mais gente se empenha em ser relevante sem pleitear ser lembrada, é essa gente que me mantém viva e saudável.

Aos que compreenderam o recado, meus parabéns, estarei com vocês o tempo todo, à disposição e com o bom humor costumeiro.

Aos que não compreenderam como gostariam, mas querem empenhar-se no caminho, meus parabéns, estarei com vocês o trmpo todo, à disposição e com o bom humor costumeiro.

Aos que não entenderam, não gostaram e estão fazendo birra, meus pêsames, estarei pertinho de vocês, usando-os como mau exemplo em minhas lições de humor negro e mau gosto.

Agora podem voltar às conquistas maravilhosas das idéias em que estavam imersos até agora.

20/10/2011

Ah, a urna electrônica!

Enquanto a moda não pega...

 - Um avanço e tanto, não é mesmo?

 - E como! Lembra das eleições suspeitíssimas nos Estados Unidos? Eu conversei com uns parentes que moram lá, e eles disseram que muita gente não tinha certeza de em quem tinha votado.

 - E tem gente que reclama do Brasil! Esse negócio de contar cédulas de papel padronizadas já é complicado, imagina com cada Estado tendo seu próprio padrão!

 - É, dificulta até nossas maracutaias!

 - E viva a urna electrônica! Eu lembro do meu pai sendo convocado para ser mesário, o coitado só voltou pra casa dois dias depois.

 - Sacanagem! E ainda chamam isso de voluntariado! Nem dá pra receber comissão por indicar gente nossa!

 - É ruim pra todo mundo. Meu pai sempre conta das aberrações que encontrava nas urnas.
 - Ah, eu lembro. Na minha primeira legislatura, que graças a Deus ganhei logo na primeira eleição, teve gente que colocou cartas de ameaça de morte na urna, em vez do voto. Só que nunca encontramos os responsáveis. Ainda bem que conseguimos censurar o caso, iria causar um pânico dos diabos!

 - Eu já peguei a electrônica, me livrei disso.

 - Acenda uma vela por isso. Teve vezes em que os bichos do zoológico recebiam mais votos do que os candidatos. Várias vezes o povo elegia antas e macacos, com larga margem. Uma vez eu fui o vereador mais votado, com direito a assumir é claro. Acontece que um chimpanzé chamado Tião recebeu mais votos do que eu, e no dia seguinte apareceu uma charge me retratando como macaco!

 - Que absurdo! O colega fez o que?

 - No começo eu pensei em mandar os milicos darem cabo do sujeito, mas ia ficar na cara demais e o apelido ia pegar. Em vez de Sebastião Barnabé, teria que aceitar ser chamado de Tião Chimpanzé pelo resto da vida, porque dá para calar um cartunista, mas calar um povo inteiro é tarefa pra bomba atômica... Por isso a gente censurava o que não interessava. Bom, passei óleo de peroba na cara e apareci rindo da charge, elogiando a criatividade do artista brasileiro... Mas claro que não deixei barato, deixei passar um ano e consegui colocar o safado no olho da rua, por debaixo do pano. O pior é que nem dava pra acusar o cara de racismo, não sou negro!

 - A urna é um fio de civilidade neste país bárbaro.

 - Nem tenha dúvida. Você pega a memória da urna, insere no computador e tem o resultado na hora! Só dá pra votar em quem estiver no arquivo, e só dá pra optar em votar no candidato, em branco ou anular o voto. E o melhor, a letra é de imprensa. Você não imagina os garranchos que eu já vi... Misericórdia! A apuração da sessão inteira era paralizada por causa de um filho d'égua que fugiu do Mobral! Teve um que passou dois dias em análise, até um juiz eleitoral com bom senso anular o voto, porque ninguém conseguia ler o que tava escrito. Seis candidatos a deputado estadual estavam disputando aquele voto.

 - E eles?

 - Chiaram, mas não tinha como decifrar aquilo! Era um rabisco. Até hoje eu lembro, parecia esse desenho aí na sua camiseta... É japonês?

 - É, significa "Sabedoria".

 - QUÊ??? Puta que pariu!!! Esse era o meu bordão, naquelas eleições! O voto era pra mim!

 - Que blosta! Pelo menos não fez diferença, fez?

 - Não, não fez, mas era meu! Tá vendo? Até nisso a urna electrônica é um avanço incontestável! O meu voto vem pra mim, não tem como extraviar! O cidadão tem certeza de em quem votou e que seu voto será computado para quem ele escolheu. Não entendo como um país como os Estados Unidos não adoptaram isso ainda.

 - Eles já não são os mesmos...

 - Nem tanto, meu jovem, nem tanto. O que nós vemos é muito mais sensacionalismo da imprensa do que o nível real da crise. Nenhum país no mundo tem cacife pra peitar eles, até hoje. Acha que os credores deles estão por cima? Por que acha que quem estava cantando de galo resolveu piar baixo? Se eles decidirem dar o calote, todo mundo sai perdendo, e quem mais emprestou é que mais perde.

 - Em suma, todo mundo ainda está nas mãos deles.

 - Todo mundo. Sei porque eu sou um dos credores, eu tenho activos deles, pra justificar uns ganhos, sabe... E saí comprando de todo mundo que se desesperou quando estava em baixa. Claro que o povão não precisa saber disso.

 - Claro que não... Mas, me fala, vai concorrer de novo, não vai?

 - Claro! O pasto lá em Brasília está cada vez melhor. Só me preocupa um traidorzinho (este aqui) do Distrito, mas ele ainda é uma excessão e não vai causr problemas sérios tão cedo. Vamos aproveitar enquanto gente como ele não se dissemina... Aliás, falando em traidor, lembrei dos aliados mais fiéis. Desculpe o atraso, quero agradecer de coração pelo apoio e lealdade no último pleito.

 - A, que é isso. Nossos interesses não podiam ser comprometidos por uma vaidade minha.
 - Você vai longe... Então vou te fazer uma proposta, vem ser meu suplente. Falamos juntos no mesmo palanque, unimos nossos eleitorados para garantir uma vitória arrasadora, e você ganha experiência no Congresso Nacional pra quando for concorrer. E podemos ainda usar essa conversa, de ter descoberto que aquele voto era meu... Podemos até reutilizar o lema da "sabedoria" na campanha.

 - Eu como seu suplente no Congresso Nacional? Que honra! É claro que eu aceito!

 - Você, que é da minha mais alta confiança, trabalha comigo, ganha experiência e na hora de sair candidato, usa essa experiência a seu favor, na campanha. Eu trabalho por você, você trabalha por mim e ficamos numa boa.

  - E o povo não vai ter escolha, vai ter que votar em um de nós, sem choro.

Acertam tudo, enquanto chegam à Assembléia Legislativa no carro oficial, após terem viajado a lazer.

15/10/2011

Desculpas ao contribuinte

Esta autarquia é das bem equipadas!

Peço desculpas ao contribuinte. Apesar da precariedade de nossas condições de trabalho, de muitas vezes usarmos de nossos recursos pessoais para conseguir um carimbo ou uma xerox, sempre conseguíamos arcar com as necessidades do cidadão. Apesar da internet lenta, na verdade uma interlerd banda lerda, perseverávamos e fazíamos gambiarras nos buscadores para a consulta de seus dados demorar menos.

Infelizmente, contribuinte, os últimos prefeitos conseguiram ser muito piores do que os anteriores. Peço então desculpas porque depois deles, não temos mais conseguido arcar com suas necessidades. A queda inevitável na qualidade de nossos serviços, pelos quais seus impostos pagam muito caro, não é culpa nossa. A maioria absoluta do funcionalismo trabalha no limite o tempo todo, na tentativa de fazer o serviço a contento.

O material de uso contínuo nunca foi farto, mas agora tem sido regrado e cercado de burocracias, com documentos que afrontam a língua portuguesa, fazendo com que tenhamos saudades do cansaço que era a busca de material. Antes eram duas pessoas ou duas viagens, para buscar tudo no almoxarifado, que já não temos. Subíamos as escadas com esforço. Hoje basta um para buscar o material de quinta qualidade que mal pesa nos braços. Preciso dizer que tudo acaba antes da hora e precisamos complementar do nosso bolso? Pois nem assim, contribuinte, as autarquias conseguem arcar com suas funções. Para cada caneta que funciona, descartamos cinco ou seis que já vêm inúteis da caixa. Usamos as nossas.

Longe das propagandas eleitoreiras do Estado, as condições de nossa informática é de se chorar. Se antes a dificuldade estava na lentidão, hoje está também na censura dos filtros. A Sinavisa, por exemplo, departamento da Anvisa para atender às demandas do cidadão e Vigilâncias Sanitárias, freqüentemente é bloqueada. Não podemos assim consultar a situação do contribuinte, que já paga os pecados com burocracia fútil e taxas elevadas, tendo que dispensá-lo sem ter resolvido seu problema. Sim, ele sai xingando, esbravejando, quase enfartando, coberto e recheado de razão. A culpa não é nossa, mas também não é dele, que paga ao Estado justo para ter seus assuntos públicos geridos, e poder cuidar de seus assuntos privados. Nossas máquinas não funcionam a contento faz... Bem, desde que foram compradas.

O software de todas é pirata, por isso não dá para receber as actualizações de que precisam. Parece ruim? Pois por burocracias fúteis que politipatas adoram, não podemos mais refazer as configurações que atenuavam nossas deficiências, tudo tem que vir de uma autarquia "especializada" que nunca resolve absolutamente nada, no máximo remedia até a próxima recaída. Parece medonho? Experimente ir a um posto de saúde para ver cousa muitíssimo pior.

Por motivos de burocracia, também peço desculpas ao contribuinte por não atendermos às suas denúncias como antes. Houve época em que recebíamos as reclamações e repassávamos directametne aos fiscais, onde quer que estivessem. Hoje vocês precisam ligar pra um telephone que não funciona, simplesmente não funciona. Nem nós conseguimos formalizar as denúncias do que vemos nas ruas. Temos que encaixar as tarefas nas vistorias de rotina, mas por falta de uma denúncia formal os atendentes nem sempre conseguem dar uma resposta ao cidadão reclamante, ainda que o problema tenha sido resolvido. Geralmente é resolvido, porque temos apreensões e interdições diárias para coibir quem brinca com a saúde pública. Asseguro, porém, que até multinacionais temos conseguido fazer andar na linha... Sabe Deus até quando.

Peço ainda desculpas por vocês não encontrarem auxílio todas as vezes que buscam informações. Já é uma rotina triste sabermos de colegas competentes, que não conseguiram manter o vínculo entre o serviço público e suas necessidades de uma vida digna; eles debandam. Vocês não imaginam o que é ter que ouvir malandros ameaçando chamar algum deputado, um secretário, um raio que o parta, para forçar a emissão ilegal de um documento, ou mesmo ver o coitado do mensageiro ligar para a contabilidade e ouvir do chefe que ele não sabe se impor. Ainda que ganhássemos bem, a lida diária com o vício dos corrompidos nos estressaria muito.

Repito que a maioria absoluta do funcionalismo público é honesta e dedicada, não é o servidor a causa da falência do serviço público. Transformar autarquias em cabides de emprego, travar com burocracias quem incomoda o jogo político (porque par eles é tudo um jogo, e vocês são apenas moeda de troca) e deixar tudo se deteriorar para depois dar esmolas maquiavélicas de bondade, tudo isto é que quebra o serviço público, como quebrou a Caixego.

Peço desculpas, contribuinte, não é por me sentir culpado. Deito minha cabeça dolorida no travesseiro com a consciência tranqüila. Eu conheço o meu serviço, conheço a fundo e sei como poderia ganhar ilícitos apenas segurando documentos por uns dias. Só uns poucos dias em cada infração, bastariam para multiplicar por dez os meus rendimentos. Mas continuo dependendo de um dos piores e mais politicados transportes públicos do país. Peço desculpas, contribuinte, porque tenho certeza de que quem as deve não vai pedí-las, pois seria a confissão do crime. Peço desculpas porque, a exemplo do fucnionalismo, dá gosto atender à maioria absoluta de vocês. Vocês merecem estas desculpas.

Nos desculpe, faremos o máximo de nossas possibilidades para atender às suas demandas.

09/10/2011

Controle vicia


Por meandros que dizem respeito à psique de cada um, muita gente não se sente confortável se não estiver no controle da situação. A questão não é delegar os rumos de sua vida a terceiros, é querer estar sempre no comando, o tempo inteiro, inclusive durante o sono.

Estar no controle é útil quando necessário, quando de sua decisão dependem os rumos de um assunto importante. Mas as ocasiões e os períodos salutares para se estar no controle não são os mesmos para todos, e mesmo para os que mais precisam dele, é nocivo ter o comando o tempo todo.

O conforto de se estar no comando é a garantia extra de ter suas necessidades satisfeitas. Isto é o básico, o que justifica ter uma dose de poder nas mãos. Viver sem controle nenhum da própria vida, é ser como um balão de ar quente, que depende totalmente das correntes de ar e pode ser derrubado por uma delas.

A "quantidade" salutar de controle depende das necessidades do indivíduo. Quem comanda milhares de pessoas precisa de muito poder, não só para impor respeito aos comandados mais arredios, mas também para garantir a integridade dos mesmos e seus postos de trabalho. Quem só comanda a própria ferramenta de trabalho, e olhe lá, não precisa de mais do que pequenas doses esporádicas de poder em sua própria vida, raramente de doses maiores e sempre por curtos períodos. Mas ninguém precisa de controle absoluto em momento algum, isto é ilusão com viés patológico.

Há momentos em que o comandante e o comandado precisam exactamente do mesmíssimo nível zero de controle da situação, como quando estão aos cuidados de terceiros, sob supervisão médica, por exemplo. Há pessoas que evitam ir ao médico para não ouvirem o que não querem, são praticamente as mesmas que se recusam a iniciar um tratamento psicológico, pelos mesmos motivos.

O maior problema de se (acreditar) estar no controle o tempo, todo é começar a acreditar que se está certo o tempo todo. Quanto mais e mais consistentes forem os resultados desse estado de poder, mais o indivíduo se convence de que o seu modo de ser e agir é o acertado, com o tempo pode se sentir tentado a recusar delegar poderes. Neste nível, fica-se muito vulnerável à adulação.

Com  uma vida bem gerenciada, trabalho bem planejado e eventos previstos com a devida antecedência, a ilusão confortável de se estar no controle da vida torna-se consistente. Isto é fácil de se ver em executivos bem sucedidos, militares de alta patente... e políticos profissionais; estes geralmente querem poder por safadeza mesmo, mas é conversa para outro artigo. Quanto mais sucesso e mais reconhecimento, mais o cidadão se convence de que está no caminho certo, mas com freqüência e trema também se convence de que poderia fazer mais e melhor com mais controle da situação, e passa a pleitear mais poderes; e também tende mais a procurar culpados para eventuais falhas.

Os prejuízos sociais são claros, a pessoa passa a se isolar paulatinamente de seus entes, cercando-se apenas de profissionais, dando brechas para que um adulador (como já disse aqui) tome o lugar da família. O adulador passa a dar o tom pessoal de que só as máquinas prescindem, mesmo sem a vítima perceber. Com o tempo, este passa a ter algum poder sobre seu chefe, por tabela também sobre os colegas, tornando a vida na empresa um inferno.

É difícil convencer alguém a delegar um pouquinho que seja do controle. É como querer tirar o controle remoto da tevê das mãos de um viciado em programas, ele sempre dará uma desculpa, um bom motivo, uma razão razoável para continuar com o controle nas mãos, ou mesmo um ultimato para que tu nem tente tocar naquele aparelhinho. Em ambos os casos, a pessoa acaba abrindo mão de sua vida pessoal em prol daquilo a que se dedica, com progressivo aumento do controle sobre o que está fazendo, estendendo esse mesmo controle à sua intimidade, recusando ajuda de quem consegue adentrar um pouco, mas geralmente querendo saber e dar pitacos na vida do recém-chegado. Raramente não é com a melhor das intenções, mas incomoda receber palpites de quem não os aceita.

O afã de se ter o controle da vida costuma tornar o indivíduo muito ansioso, impaciente em receber satisfações dos resultados que aguarda. O estresse e as doenças que o acompanham não tardam a aparecer. Piora o facto de poucos desses indivíduos aceitarem ajuda, alegam que tudo está sob controle e que irão ao profissional competente assim que terminarem a agenda, mas a agenda é crescente.
Outro complicador para quem insiste em manter o controle da vida, é que acaba se cercando de gente acomodada, que viaja de carona nos resultados obtidos. Não bastasse o desgaste acentuado pela escolha, ainda há parasitas que não fazem sua parte a contento, obrigando o controlador a assumir responsabilidades alheias. Mas se ele tem tanto controle, como não consegue controlar também esses relaxados? É porque o controle total não passa de uma ilusão, um autoconforto que o indivíduo se concede inconscientemente. Os parasitas percebem essa falha e sabem se aproveitar dela, sempre evitando um confronto no qual se dariam muito mal, é claro.

A fragilidade emocional costuma rondar essas pessoas. Com raras exceções, os sentimentos e todos os devaneios de juventude ficam legados ao esquecimento. Como os músculos e o cérebro, a vida sentimental também precisa ser posta em prática para fortalecer o indivíduo naquela área, mas para isso é necessário baixar a guarda de vez em quando, o que implica em abrir mão de se ter o controle da situação o tempo todo e sempre no nível máximo. Quanto mais se insiste nesse controle, mais atrofiada fica a parte emocional, e maior é o temor em baixar a guarda, porque (ainda inconscientemente) a pessoa sabe que a fragilidade lhe renderá feridas.

Não existe receita pronta e acabada que sirva para todo mundo, em área alguma, principalmente para a psique. O único consenso é que a abertura deve sempre partir da fonte, não adianta colocar um fuzil na cabeça do cidadão e obrigá-lo a dizer que abrirá mão desse controle, ele estará mentindo, tanto mais quanto mais arraigado este hábito estiver; de algum modo ele vai exercer o controle, e tão mais patologicamente quanto maior a pressão para que não o faça. Aqui não se trata só de teimosia, trata-se de defender o controle dos rumos da própria vida, que é legítimo, porque quem tenta mudar o outro à força, acaba querendo fazer dele um clone de si.

Como para qualquer mania, e também phobia, é preciso ter tato na lida com essa gente. Como tudo o que vicia, o controle da situação é uma muleta para o indivíduo, é naquilo que ele sabe andar e não vai largar se não aprender outros meios. Para quem não acredita em nada além do seu bem-estar pessoal, como políticos profissionais, tanto faz, estou aqui falando de gente boa, que erra e acerta tentando acertar, sociopatas de colarinho branco não são objecto de minhas letras.

O elogio sincero é um modo de ajudar, primerio porque é um reconhecimento aos esforços, segundo porque ajuda a afastar o adulador, terceiro porque o indivíduo geralmente merece o elogio. Com o ganhar da confiança, que inclui não elogiar o que não se quer, mas sem tecer comentários depreciativos, o amigo consegue penetrar mais na couraça até se instalar em seu interior, onde está a pessoa em sua real compleição. Lá instalado, o amigo pode ajudar a fortalecer a parte emocional, tornando a muleta do controle menos necessária até que ele consiga caminhar sem ela. Talvez não a dispense, mas certametne a trabalhará, fará ornamentos e a usará como um cetro símbolo de seu poder, que será então um adendo e não uma necessidade. Então, ciente de que ninguém tem o controle total de cousa alguma na vida, nem na própria, o indivíduo estará pronto para dar ao poder, conquistado a duras penas, o uso àquilo em que realmente acredita.

03/10/2011

Postura é tudo


Esther intermedia a conversa. Sarah contou-lhe de uma amiga que estava sendo hostilizada pelas outras colegas, convenceu a mãe de que seria uma boa moderadora e conseguiu que todas se reunissem para desbastar as arestas. O pivô da desavença avisou de antemão que chegaria uns dez minutos depois das outras, o que deu a estas tempo para destilar sua peçonha...

 - É uma periguete que vive dando em cima do namorado das outras! Cê não imagina o tamanho das mini saias dela!

 - E ainda se faz de santa, fala que não quer nada com ninguém, que nunca deu em cima de ninguém, mas facilita...

Esther vai traçando o perfil de acordo com o que as garotas indignadas relatam. Ela olha para Sarah, que fala em hebraico para evitar jogar lenha na fogueira sem necessidade...

 - E então?

 - Não é verdade, mamma. Elas descreveram de forma exagerada as roupas de Letícia, mas o que disseram dela não é de modo algum verdade.

 - Estão mentindo, se aproveitando que ela não está aqui para se defender?

 - Mais ou menos. Letícia é catarinense, chegou ao colégio no início do ano. Ela está acostumada a andar de mini saias, shorts, calças de malha por Blumenau sem ser incomodada. Ela está acostumada a trabalhar na confeitaria da família, de quando sai da aula até tarde da noite, ralando duro, sem tempo pra dar atenção a gracejos. Ela vai se atrasar porque tem que ajudar nos negócios, mas prometeu apressar o quanto puder o serviço.

 - E o que os pais dela dizem sobre essas roupas?

 - Nada, eles confiam na educação que deram. Há algo que minhas colegas não disseram, é sobre a postura dela, que eu prefiro que a própria mamma veja assim que ela chegar.

E a moça chega. Esther fica impressionada com a beleza da blumenauense. Está muito acima da média, não só os traços, como a forma física e o frescor juvenil. O andar tem o requebrado natural de uma mulher em maturação, sem forçar, com as pernas se alternando em semi-círculo, sem trotes. A cintura fina articulando o quadril largo sob a mini saia negra de cós alto, com o busto farto sob a blusa branca de mangas curtas e tecido denso. Seus dois metros e dez de brancura fantasmagórica se aproximam das judias, já tendo cumprimentado protocolarmente os desafetos...

 - Senhora Esther Gutemman, que prazer. Sou Letícia Soubaim.

 - O prazer é meu, Letícia.

 - Sarah fala tanto e tão bem da senhora, que fiquei curiosa em conhecê-la, posso dizer que admiro muito o seu modo de criar os irmãos...

A judia vê a imagem de meretriz, pintada pelas outras, desaparecer rapidamente. Para começar, apesar de curtíssima, a saia não precisou ser ajeitada em momento algum, se moldando ao corpo com conforto e sem marca de lingerie, apesar das pernas longas e grossas darem passos largos. O conteúdo da conversa da moçoila é  de uma maturidade e relevância que lembra os anciãos. Ela nota as pernas juntas e levemente inclinadas à esquerda, impedindo qualquer visão indesejada, e ela parece estar confortável assim. A coluna erecta evidencia o busto, mas a delicadeza e feminilidade de seus gestos não o faz balançar demais. Nos pés, sapatinhos baixos, pretos, com delicados laços brancos. Mais do que isso, em momento algum ela consome sua lábia no ataque às acusadoras...

 - Então seus antepassados são judeus? E você tem algum conteúdo dessa época?

 - Meus pais nos ensinam a preservar nossa memória - o sotaque é carregado - para termos consciência de quem somos. Uma tradição faz muita diferença em uma família.

 - Meninas, desculpem, mas onde está a pessoa que me descreveram?

Elas começam a tagarelar, apontando a saia curta, a forma física invejável, a beleza angélica, a "pose de santa", mas enquanto isso deixam suas saias (mais longas e muito mais justas) subirem, os decotes abrirem, precisam levantar as calças, se equilibrar nas plataformas, enfim, As duas judias vêem a sociedade encarnada naquelas três, que apontam, julgam e condenam a moça de chanel curto nigérrimo...

 - Parem! Fiquem do jeito que estão. Não movam um músculo sequer. Sarah, abra aquela porta de vidro... Óptimo. Agora vocês três se vejam. Vejam suas posturas, o estado de suas roupas, seus gestos e tentem se lembrar do tom de voz que usaram.

Dá dois minutos para elas meditarem imóveis. Elas vêem seu estado, pensam e imediatamente de recompõe, voltando ao banco em que estavam...

 - Quero que me digam como vocês reagem a uma cantada. Primeiro Letícia.

 - E eu tenho tempo para isso? O cara que fala besteira sem querer compromisso não merece minha atenção!

 - Ah, vai! Vai falar que cê não fica se achando gostosa? Toda mulher gosta de ouvir um machão gritando pra ela do carro... Né?

 - Uai, é! Você não gosta, Sarah?

O olhar de piedade é resposta suficiente. Pergunta à catarinense qual foi a última vez em que recebeu uma cantada grosseira...

 - Estás brincando, não estás? Eu não sou mulher de dar conversa para moleque. Se um deles me cantou alguma vez, não me recordo, pois não dou pelotas para esse tipo. Nem quando era solteira eu me importava com isso.

As três arregalam os olhos, parece que só às judias a aliança não passou desapercebida, no que Esther pede a mão da moça para mostrar bem a o anel de noivado...

 - Estão vendo? Você tem alguma coisa contra suas colegas, Letícia?

 - Nada. Só não gosto das atitudes e da postura delas, não seriam minhas companhias para um passeio, fora isso nada.

Esther começa a falar de aparências, de máscaras e de comportamento. Mostra na pequena gigante os elementos de uma mulher jovem, que vive sua juventude, mas sabe dos limites de seu comportamento. Explica às três que foi o conjunto de beleza, comportamento e simpatia de Letícia que atraiu tanto os rapazes do colégio, porque para transar eles têm quem se disponha a servir ao caso...

 - Já ela, pelo contrário, é só um sonho que eles não podem realizar. Digam, vocês trabalham?

 - Tamos desempregadas, mas temos emprego em vista, já fizemos entrevista e tudo.

 - E o que fazem durante esse hiato?

 - A gente espera... Que mais pode fazer? Os bicos que aparece não paga bem!

- Novamente eu digo, não é só pelas roupas nem pela exuberância plástica que seus colegas babam por ela, é muito mais pela postura. Ela se veste como a moça jovem e cheia de brilho que é. Vocês disseram várias vezes que se vestem para matar... E conseguem. Só que a caça dura pouco, o abate é só um momento, depois os caçadores esquecem de vocês e vão procurar outras. Desculpem a franqueza, mas vocês não se valorizam. Ela se valoriza e por isso consegue usar o que quer sem chamar mais atenção do que o porte já chama. Em algum momento vocês a viram ajeitar a saia? Os seios dela parecem sair do decote? As nádegas dela estão mais arrebitadas por algum salto? 

- Desculpe interromper, eu aprendi um pouco com Lynda Carter, minha mãe sempre foi fã dela. Ela sempre contava em entrevistas que nunca recebeu uma cantada grosseira, minha mãe disse que isso foi por causa da postura que ela tem diante das pessoas, mesmo com as roupas que usava na série. Vocês três podem ficar tranqüilas com relação a mim, eu sou comprometida, me caso em breve, seus namorados não me interessariam nem se eu os conhecesse, mas não posso impedir que garotos pensem bobagem e inventem fantasias, para isto o tamanho da roupa não é barreira.

 - Isso mesmo; postura é tudo. Nada vai impedir que um cafajeste tente falar bobagens, mas a postura é uma boa barreira. Prestem mais atenção à sua volta e verão muitas pistoleiras fantasiadas de mulher decente. Podem usar mini saia, sem problema. Eu usei e foi um aprendizado muito bom, me fez ter mais cuidado com as pernas e com minha postura. Claro que a maestria de nossa amiga é coisa raríssima, mas dá para se usar sem medo de aparecer nada, é questão de treino, de costume e repito, de postura. Vocês percebem? Enquanto gastam energias acusando sua colega, os rapazes que vocês querem estão atrás de quem dá mole, porque vocês sabem que quando alguém quer safadeza, ela fica escrita em neon, na testa.

Mais fácil do que imaginou, graças à persona da acusada, Esther apazigua e esfria os ânimos das três, porque a "branquela exibida" não tem tempo para picuinhas. Elas confundiram o estilo pessoal, o jeito de ser com aquilo a que estão acostumadas e ver em seu meio, que é confirmadamente incompatível com a vida de trabalho árduo e dedicação à família que Letícia leva. Antes de saírem, elas têm uma pergunta...

 - Você usa fio dental, não usa?

 - De vez em quando, na piscina. Em público não se pode facilitar, uso lingeries confortáveis no dia a dia. Dona Esther, a Sarah falou tanto da senhora, que eu acabei falando pra mamãe e ela disse que quer conhecê-la. Pode ser?

As duas aceitam. Vão conversar na confeitaria mesmo, entre um serviço e outro, que é assim que os Soubaim estão acostumados a viver, com o trabalho fazendo parte da vida, e ajudando a moldar o caráter e a postura de seus entes.