19/06/2019

O destino dos SUVs


O que vai ser? Pick-up, furgão ou o "carrão" da família?

    Imagine um Range Rover Evoque, o que lhe vem à mente? Um shopping? Boate? Um passeio em um condomínio fechado de alto padrão? Um jogador se exibindo com uma modelo que sequer conhece direito? Sim, talvez, hoje é mais ou menos isso que acontece mesmo. Mas imagine esse modelo com o interior depenado, do motorista para trás, pintura descascando, plásticos quebrados, usando motor e pneus de D20, carregando equipamento de construção civil e um servente suarento de carona; quiçá até mesmo uns sacos de cimento e alguns tijolos. Oh, já estou vendo pêlos eriçarem e olhos esbugalhando! Não me batam ainda.



    Por ter revolucionado, até certo ponto, o design automotivo, ele é o queridinho dos “suveiros”, mas por isso mesmo tem o ônus de envelhecer rápido. E o que envelhece rápido, cai em desgraça no conceito do mesmo público que o ascendeu. Fora que, reclamação recorrente, a manutenção de um Land Rover moderno paga fácil a compra de outro carro, e por isso é fácil uma seguradora dar perda total por qualquer dano mais sério. Às vezes basta a colisão ser forte o bastante para acionar o airbag, o que não é difícil.



    Mas vamos para um patamar mais mundano e classimediano. Imagine o antigo Tucson simplesmente cortado para servir de pick-up, com pneus de S10 e um Perkins no lugar do motor original. Imagine-o executando trabalhos pesados para os quais simplesmente não foi dimensionado (ou seja, para o qual não tem estrutura física) e com sensores apitando a toda hora pela falta de resposta dos equipamentos que foram retirados na transformação. Herdaria assim a sina que hoje castiga e sucateia Belinas e Caravans. Para elas ainda existe farta oferta de peças e boa mão de obra, já esses hatches abrutalhados de suspensão elevada e preços desproporcionais, costumam ser hóspedes prolongados em oficinas. Adivinha o que acontece quando envelhecem?



    O caso do Tucson é mais tênue, porque ele foi pensado como “SUV para as massas”, por isso sofre menos com desvalorização e não leva a pecha de resto de rico, ou de penso-que-sou-rico. Ninguém, ou quase ninguém, vai se sentir mal em sair da garagem e ver outro Tucson modelo antigo carregando sucata com a tampa traseira aberta, ou mesmo rodando sem ela. Ao menos não por enquanto e não com o modelo antigo. Por menos de trinta mil se compra um com dez anos de uso em boas condições, esse dificilmente viraria burro de carga, mas basta encontrar um dos mais antigos e em situação mais precária para enxergar um carro de frete. Enquanto funcionarem, os equipamentos serão usados, mas será pifar e a troca por outros genéricos vir, ou mesmo abrir-se mão deles. Então um carro que veio recheado de fábrica, torna-se um pé de boi com contagem repressiva para o ferro-velho.



    Feirante, serralheiro e pedreiro, no Brasil, não se importam com seus carros. Quase todos eles. Simplesmente usam até fundir e abandonam sem olhar para trás. Há exceções, claro, mas não pesam na estatística. Para aparecer um SUV com para-choques improvisados, sem praticamente nenhum plástico externo, com todos os componentes à mostra, rodando clandestinamente repleto de caixas, barracas, ferragens e afins, não vai muito mais tempo. Carro batido nunca foi bonito, mas carro moderno batido é horrível! E olha que me referi ao “Fusca” dos SUVs! Imagine um Mojave nessas condições! Maior e mais robusto, viraria carregador de tralhas sem cerimônia! Bateu forte atrás? Vira pick-up sem choro e nem vela! E assim rodaria até pifar de vez e virar carga de alto-forno.



    Agora a coisa preocupou um pouco mais, não só aos amantes de carros; aliás, esses não são afeitos à onda de SUVs, preferem as tradicionais e recatadas peruas. Mojave está pelo menos dois degraus sociais acima do velho Tucson, já incomoda quem compra esse tipo de carro pelo status ou para seguir a moda. Daí já é possível imaginar uma Freemont na mesma situação, de onde se pode imaginar um Compass (infinitamente mais competente) puxando um enorme reboque para a feira, e já estamos batendo às portas da classe média alta se pensarmos que faltaria pouco para imaginar um Audi série Q na mesma situação. Eu posso imaginar. E imagino com gosto.



    Não é só pela minha antipatia a essa “categoria” de veículos que escrevo este texto, nem só pela arrogância asquerosa com que pseudointelectuais da imprensa automotiva apontam o dedo pra o meu nariz dizendo “Você ainda vai ter um, queira ou não”. É pela observação de fatores que a empolgação cega deixa passar. O mercado está saturado de modelos e versões, de tal modo, que falar “SUV” não significa mais nada, qualquer veículo de dois volumes (compartimento do motor e carroceria bem distindos) com suspensão elevada e plásticos idiotas espalhados, é considerado um SUV; exceto os “cross” da vida, esses nem para isso servem. Uma olhada numa tabela de modelos e versões e vocês verão o quão rapidamente estamos saturando o mercado com SUV.



    Simplesmente estão banalizando e, para compensar, apelando para estratégias marketing mais agressivas e apelativas, tanto que às vezes descambam para a infantilidade. TODOS são intitulados “O SUV dos SUVs”. Todos são superiores aos outros. Todos sofrem pela absoluta carência de argumento de venda. Todos são mais caros, mais pesados, mais desajeitados e menos espaçosos do que seus equivalentes em carrocerias hatch e perua. Não são como Veraneio e Rural, que saem da estrada sem medo de perder plásticos pelo caminho e não são condenadas à sucata por uma colisão grave. SUV só serve para desfilar em lugares caros e atrapalhar a visibilidade dos pedestres.



    Quando a Audi cometeu a estupidez de lançar “SUV coupé”, eu achei ridículo. Piorou quando foi um sucesso de vendas, se agravando quando as outras marcas começaram a copiar o (falta de) conceito e também obtiveram êxito de vendas. Falar de coupé quatro portas já me faz perder a fé na humanidade, colocar pneus aro 20” e suspensão alta, com penduricalhos de plástico em baixo inutilizando essa altura livre, me faz ligar para a central de atendimento do apocalipse e perguntar onde está o maldito meteoro.



    Por que? Porque isso demonstra que as pessoas não querem SUV porcaria nenhuma! Estão simplesmente agindo como gado! O formato tradicional que caracterizaria um utilitário esportivo não é mais levado em conta, é como decair o teto de um furgão até a altura das lanternas e ainda assim o venderem como furgão! A Maybach apresentou recentemente um “conceito” de “SUV sedã”, que nada mais é do que um carro comum compacto ampliado em cerca de 50% em todas as suas medidas, resultando em um desenho tosco, sem proporções e indigno da marca. O Gordini foi mais bem desenhado, e era mais honesto.



    As pessoas querem carros espaçosos e imponentes, mas mal conseguem o primeiro e nem de longe o segundo. Conseguem aparente imponência com a suspensão elevada, mas mesmo assim os adereços desenhados para atenuar a péssima aerodinâmica fazem a frente raspar em qualquer guia de calçada. Uma Fiat Weekend NORMAL é muito mais baixa e sofre bem menos com isso, tem muito mais espaço do que um SUV com o mesmo comprimento e, enfim, seria um texto só para enumerar as vantagens das boas e velhas peruas. Nem vou falar da saudosa Caprice Wagon com sua capacidade de levar até nove pessoas e ainda ter espaço para malas.



    O que o comportamento tem me revelado é que as pessoas querem carrões. Carrocerias vastas com espaço interno de sobra e capacidade para passar por irregularidades do asfalto sem transformar o carro em um liquidificador. Acontece que ficou socialmente menos aceitável ter um carro assim, pois consome mais combustível e ocupa vagas maiores no estacionamento, mentalidade que deu aos picaretas imobiliários licença informal para construir aquelas vagas IMPRATICÁVEIS em edifícios residenciais. Mas essa restrição social não se aplica a veículos de trabalho, mesmo que tenham conforto para passageiros. Um sedã ocupar dez metros quadrados é um escândalo, mas um utilitário ocupar o mesmo espaço e ainda obstruir a visão de uma criança que esteja para atravessar a rua, é perfeitamente aceitável. Se for um “utilitário esportivo”, então até parar em local proibido é perdoável.



    As pessoas não estão mais agindo pela emoção, como quando se escolhia um caro de desenho rebuscado, estão agindo simplesmente pelo efeito manada, e dentro desse efeito escolhem o que a manada permite escolher. Só que uma manada muda de direção ao menor sinal de perigo ou escassez, e o risco de perder status é neste caso ambos. Nem todos os SUVs vão directo do leilão da seguradora para a sucata, já tem gente querendo o gosto de dirigir um desses mesmo que por pouco tempo, daí para pipocarem os utilitários de rico em casa de pobre, então as pessoas verão a quantidade de Cherokee mal conservadas que rodam por aí, ainda invisíveis pelo deslumbramento coletivo; quando isso acontecer, a queda será cara e dolorosa, porque a indústria automobilística está quase totalmente comprometida com a fabricação de SUVs.



    Claro que muita gente vai comprar carros relativamente bons a preços baixos, mas quase ninguém vai querer restos de ricos. A classe média, que poderia absorver esses restos, é ávida demais por status para se permitir ser apontada nas ruas, então há dois caminhos plausíveis: sucata e casa de pobre na periferia, para virar pau pra toda obra em estradas ruins e enfrentando escassez de manutenção. Enquanto houver sucata suficiente e a preços acessíveis, eles rodam como carro da família, ou do mano. Quando as peças de sucata escassearem, vai tudo virar mula de carga.



    Decerto que os colecionadores terão farta oferta de um registro triste da história de nossa indústria e da decadência de nossa cultura, mas fora eles, quase ninguém vai querer esses carros, assim como ninguém queria os Dodge V8, Maverick e Landau nos anos 1980; com o agravante de que SUVs não têm carisma e nem estilo que sobram naqueles carrões. Também não têm memória afetiva como eles. SUV é, na maioria absoluta dos casos, carro para exibicionismo puro e simples. Um sedã full size, por outro lado, traz toda a tradição e memória de épocas em que a vida era muito mais simples, em que havia optimismo, que as moças podiam manobrar sem precisar de auxílio hidráulico, ao redor do qual a família se reunia para lavar e depois ir passear, com um porta-malas cavernoso à disposição… se fosse um conversível familiar então… enfim… Não é algo que se conversa no programa de televisão e some da memória quando se muda de canal, é uma experiência de vida que se guarda no subconsciente e é fácil de ser compartilhada e, assim, vivida virtualmente por quem ouve a história. Já as “aventuras” vazias da balada…



    Um executivo da Ford perguntou a um jornalista especializado, quando foi a última vez em que ele suspirou por um sedã da marca, então me veio a pergunta “Qual foi a última vez em que desenharam carros para gente comum com a mesma paixão de outrora e mesmo empenho com que desenham um SUV”? Já viram a dificuldade para se entrar e sair pelas portas traseiras desses sedãs modernos, por causa do desenho do teto e da soleira alta? Os japoneses se cansaram de dar sinais, cada vez mais escancarados, de que estavam fazendo corpo mole e perdendo a mão. Ouviram? Não, não ouviram. A culpa de tudo isso é deles mesmos. E a fatura do fim da famigerada era dos SUVs também será. E veremos Evoque baratinho no Mercado Livre, esperando meses para trocar de mãos, para então ser transformado em caminhoneta de serralheiro.

03/06/2019

A lição chinesa.



    À parte ser uma ditadura sangrenta, em que até a memória do cidadão é censurada, vide o massacre da Praça da Paz(?) Celestial, a China nos dá lições que a cabeça dura e a relativamente recente covardia ocidental nos privam de usufruir. A sabedoria milenar oriental, deturpada e indevidamente apropriada pelo partido comunista, tem tudo a ver com isso.



    Antes de continuar, temos um adendo. A postura ocidental não é “errada”, classifico “certo e errado” o que está ou não de acordo com o objectivo. A solidez e sentimentalidade ocidentais asseguraram um século de desenvolvimento tecnológico e corporativo que demos DE GRAÇA para que ainda hoje dá de ombros para propriedade intelectual ocidental. O “errado” na postura ocidental é que essa solidez toda acaba se transformando em rigidez, o que durante tempestades intensas e prolongadas produz perdas severas. Sobrevive-se, sim, mas essa sobrevivência se dá a duras penas e graças às raízes profundas que gerações de antes da covardia crônica cultivaram.





    Houvesse a capacidade de flexibilizar, mesmo que apenas em resposta à crise, essa solidez toda proporcionaria perdas mínimas e rapidamente repostas; mas não a temos. E não a temos porque não queremos, não há absolutamente nenhuma diferença de genótipo que torne os chineses mais capazes disso do que nós, tampouco há segredos ocultos para isso. O que eles têm é praticamente o que todo o extremo oriente tem, só que alguns em absurdo excesso. Enumero alguns:








        Eles têm um profundo respeito para com seu país e um desejo quase selvagem de vê-lo em destaque no cenário mundial em todas as áreas. Aqui vem o excesso, eles não dão a mínima para os outros países e não se importam com os danos que lhes causarem, e não hesitariam em tomar posse dos vizinhos, como fizeram com o Tibete, se não houvesse uma oposição poderosa o suficiente para isso; leia-se USA, gostem ou não.


        Eles não cultivam a culpa. Fazem o que for necessário para atingir seus objectivos e não se importam com a opinião internacional, ao contrário do medo de ofender os costumes dos povos ribeirinhos do deserto do Sifuquistão Centro-Ocidental do Norte. Aqui novamente o excesso de uma ditadura que não estaria lá, se a cultura local não permitisse; em vez de simplesmente não se importar, o partido ataca com tudo o que pode quem diz “Ei, pisou no meu pé” e ainda incentiva fora de seus domínios, comportamentos que proíbe e pune severamente dentro.



        Eles não tem medo do ridículo. Não se importam em errar até acertar, ainda que para isso sejam vítimas de bullying no exterior. Eles simplesmente aceitam as críticas constructivas e as aplicam sem perda de tempo, as chacotas eles simplesmente guardam na gaveta da vingança e esperam esfriar para se servirem, como têm feito. E como eles sabem se vingar!


        
        Eles começam como podem, não esperam as condições de mercado serem favoráveis e a comunidade apóia quem tem essa iniciativa. Quando digo “comunidade” me refiro ao país inteiro. A China toda se debruça para apoiar e incentivar quem quer abrir seu próprio negócio. Praticamente não há empecilhos para quem precisa de um financiamento condizente com o que pretende, a contrapartida é o modo PCC do governo em cobrar resultados, quando o modo bancário ocidental de cobrança tem se mostrado suficiente para isso. A profusão de veículos eléctricos, dos mais absurdamente espartanos aos mais sofisticados, é resultado disso.





        Eles praticamente não vêem diferença ente seu sucesso e o sucesso do país, por isso deixam de lado o bordão “Nada pessoal, só negócios”, porque ao menos dentro do território chinês é pessoal, eles não desistem até que absolutamente todas as possibilidades estejam esgotadas; mais ou menos como negociar com uma máfia, faltar com o negócio é ofender a família. Excesso que o governo sabe aproveitar, mas em moderação serviria bem de exemplo a ser seguido por patrões e empregados ocidentais. Ah, claro: marca desactivada é marca disponível, então se alguém decidir abrir uma nova Pontiac ou Oldsmobile, a GMC terá problemas.

        Eles são flexíveis e, dentro dessa flexibilidade, são humildes. E suas plantas são aptas a modificações relativamente rápidas e a custos exequíveis. À parte a frouxidão de caso com que o país trata o ser humano e o meio ambiente, o empreendedor não encontra problemas em mudar o foco ou ampliar a gama de produção; que é parte do sucesso da Xiaomi, por exemplo. Não que a Ford deva fabricar panela de pressão na linha de montagem do Mustang, mas licenciar à moda das franquias a sua marca, para ganhar dinheiro com tudo o que tem a ver com seus productos e sua história; já fabricou de rádios a aeronaves.

        Eles têm essa mesma flexibilidade com a legislação. Basicamente, o fabricante é responsável pelos danos que seus productos (e se for o caso até serviços) causarem, não há firulas, somente penas duras e garantia de que a família terá que pagar pela bala do fuzilamento, se algo grave acontecer; se o caso for de corrupção, lembre-se, o PCC é uma máfia e seus métodos são implacáveis. Tudo certo? Está pronto para assumir as conseqüências e usufruir das benesses? Então siga as regras e seja feliz.

        Eles têm consciência de que uma bolha de fibra de vidro com três ou quatro rodas não é mais insegura do que uma motocicleta, por isso carros de baixo desemprenho e uso exclusivo urbano são comuns por lá, e são baratíssimos; mesmo as versões eléctricas. Ao menos nisso a legislação deles é muito melhor do que a nossa, não há esse tipo específico de hipocrisia, então pequenos fabricantes proliferam e suprem a demanda, sem vergonha de compartilhar componentes entre si e até com motocicletas, às vezes incluindo os pneus. Por US$ 1000,00 ou menos o cidadão livra a si e mais dois da dependência de ônibus. Não importa se a tecnologia usada é cambriana, eles querem que funcione pelo preço que o producto vale, sem que a imprensa especializada tente comparar um Chevrolet Onix a um Cadillac CT6; propostas TOTALMENTE diferentes.

        Eles não têm discussões prolixas sobre o temor do que já está acontecendo e nada há para se fazer se alguém se tornar poderoso demais. É uma discussão INÚTIL que tem minado recursos e até amizades no ocidente. Se houver o que fazer a respeito, eles fazem; se não houver, eles se adaptam aos novos tempos. Simples assim. Problematizar um assunto é garantia de afastar as pessoas e, em último caso, sofrer sanções legais, porque a pessoa vai atrapalhar o progresso coletivo e eles não admitem isso. Sem esses excessos, seria muito bom nós isolarmos essa turma por aqui. Os divulgadores das coisas chinesas, pelo contrário, recebem todo o incentivo possível e destes algumas críticas constructivas são aceitas; algo que os problematizadores não toleram receber.



   Em resumo, porque quanto mais escrevia, mais desmembramentos eu enxergava, a China está longe de ser exemplo para qualquer regime do mundo, até a Rússia é preferível, mas ela dá lições que deveríamos aprender imediatamente, e colocar em prática o quanto antes, para o nosso próprio bem.

23/05/2019

Marchetaria, Hakone e Nerikomi


Imagem de Lurury Wood Flooring

    Antes de responder gritando “É A MÃE”, adianto que não são xingamentos. Marchetaria, hakone e nerikomi são artes ancestrais da madeira e da cerâmica, sendo as últimas tipicamente japonesas. E quando digo “ancestrais”, me refiro a tradições milenares, que a maioria das pessoas sequer imagina que existam.



    Mas como toda tradição de artes manuais, que pareciam em processo de extinção no último terço do século XX, essas três foram retomadas com paixão e vigor desde a virada do século. Assim como já há gente vivendo da forja tradicional, máquinas a vapor, aparelhos valvulados, carpintaria e marcenaria artísticas, alfaiataria e estilo de vida do meio de século passado, podemos dizer que voltou a crescer o contingente de mestres no tema deste texto. Explicarei, dois pontos…

 
Art déco





    A marchetaria é, simplificadamente, a arte de juntar madeiras diferentes para formar padrões e efeitos visuais. Pega-se, por exemplo, um pedaço de ipê-branco, trabalha-se sua madeira, corta-se em tamanhos e formatos desejados, então junta-se com um pau-brasil que tenha passado pelo mesmo processo. Os pedaços recebem um adesivo apropriado (nem tente usar cola escolar para isso) são unidos de acordo com o que o marcheteiro planejou e então submetidos a grandes pressões por períodos prolongados. O método tradicional é simplesmente amarrar o mais apertado possível, enrolando a corda por toda a extensão do material; se for o caso de peças longas e finas, pô-las entre tábuas robustas serviria para evitar empenamento.

Painel do Rolls Royce Phantom. A Rolls Royce oferece marchetaria como opcional


Marchetaria decorativa
    Ainda que se utilizem métodos modernos, para acelerar a produção sem prejuízo à qualidade, as partes essenciais do processo de marchetaria ainda dependem do trabalho directo de artesãos qualificados. Por isso, mesmo que peças enormes sejam feitas em larga escala para baratear o producto final, a necessidade do trabalho manual meticuloso e tranqüilo mantém os custos relativamente altos.



    É muito diferente de apenas pegar cacos de madeira, cortar e colar em cima de uma superfície. Embora folhas tiradas de peças marchetadas possam ser, e são, coladas sobre outras superfícies, os elementos e figuras dessas folhas fazem parte do conjunto como se tivessem nascido assim, dentro da árvore que cedeu sua madeira. Pedaços colados podem se soltar uns dos outros com o uso, uma peça de marchetaria não. A coesão é tão forte, que peças marchetadas podem ser usinadas e trabalhadas para fazer utensílios e peças de arte, como uma tora de madeira comum.



    A técnica é tão eficaz, que pode ser aplicada até mesmo a outros materiais, como pedras e marfim. O suporte porém continua a ser a madeira. Há uma irmã, a Intársia, que se presta a trabalhos muito mais elaborados e com proposital ilusão óptica de profundidade.

Mais sobre marchetaria, clicar aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Parece papel, mas é madeira; Hakone



    O hakone é, simplificadamente, a laminação da marchetaria. Como nesta, peças de madeira, muitas vezes restos para reciclagem, são selecionadas e trabalhadas para formar padrões e figuras geométricas, acrescentando-se aqui a obsessão dos japoneses pela precisão de medidas. Quase sempre as peças têm superfícies bem pequenas e são feitas em grande número, com cada peça colada e prensada individualmente em seus elementos. Quando prontas, as peças são coladas entre si e o processo de pressão e espera se repete, até que se obtenha o painel nas dimensões e proporções desejadas.

 
Da madeira se tira a fina folha


    Até aqui é como a marchetaria ocidental, inclusive na possibilidade de tirar folhas da peça pronta. Em ambos os casos o folheamento confere uma beleza estonteante à peça coberta e uma grande agregação de valor.



    A diferença é que a folha é o objectivo do hakone. A espessura de 0,2mm torna essas folhas tão translúcidas quanto as de papel, a ponto de muitas vezes serem usadas em luminárias. Pegue uma régua de boa qualidade, não aquelas de plástico genérico vagabundo vendidas am pacotes de centenas por um real, e veja os dez traços que subdividem a escala de centímetros; o espaço ente cada um desses traços poderia empilhar cinco, talvez até seis, folhas de hakone. Os padrões intrincados e harmoniosos, derivados da facilidade de quem cresce acostumado à matemática, algarítmica ou não, dão a beleza característica dessa arte. A impressão é que quanto mais nos aproximamos, mais detalhes aparecem.



    Por serem folhas muito finas, em espessuras próximas ao limite de resistência do material, são muito fáceis de serem trabalhadas e moldadas a superfícies com curvaturas em direções diferentes, como peças de cantos abaulados. É quase como trabalhar com papel. Em mãos hábeis de um bom artesão, não precisa ser extraordinário, peças vulgares podem ganhar um refinamento digno de obras de arte. E por serem como papel, como tal, costumam-se colar várias folhas, lado a lado, como se fossem papéis de presente, só que sem a fragilidade climática do papel.

 
1 iene, hoje, vale 0,037 real. Não há centavos no iene, por isso parece pouco.



    As peças decoradas, e mesmo folhas avulsas, não são baratas, mas estão longe de serem caras. As técnicas de laminação do hakone permitem produzir em escala muito maior do que na marchetaria ocidental, por isso os preços caem bastante, a ponto de serem acessíveis ao bolso do cidadão comum. Em geral, por cem reais um turista traz uma linda peça decorada do Japão. E é uma peça única, apesar de a “estampa” poder ser encontrada em outras. E as peças podem ser as mais inimagináveis, fugindo do óbvio da decoração de interiores, incluindo katanas e varas de pescar.. ou até o painel do teu carro, se o artesão se dispuser a isso.


Mais sobre hakone clicar aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.




    A técnica nerikomi é como suas irmãs, só que aplicada à cerâmica... NÃO! Não é catar caquinhos de cerâmica e juntar com cola! Olha o respeito!



    O processo inicial é parecido com a fabricação artesanal de massas comestíveis. Porções de argila de várias cores são trabalhadas, amassadas e esticadas, então o perfil é moldado até que se obtenha a forma desejada para a “estampa”. Isso é feito e repetido em várias unidades do “macarrão” até que todas possam ser juntadas e então formarem o padrão desejado, para quem olha pelas extremidades. Aqui terminam as semelhanças com o trabalho em madeira.




    Após unir todas as peças de argila, o conjunto é literalmente batido. Pancadas controladas em todas as faces da massa, para não danificar os padrões formados, ajudam a compactar e dar coesão à peça. Quase sempre as faces superior e inferior são descartadas, porque receberam directamente as pancadas e nem sempre mantém a contento os desenhos feitos pelo ceramista. Pode variar desde um padrão simples no centro de um prato até uma jarra com padrões complexos e ricamente estudados. Claro que os preços acompanham a complexidade.



    Aqui há dois caminhos básicos para a massa: moldagem e laminação, mas ambas podem ser extraídas da peça, depende do talento e da experiência do artesão. Em peças de grandes áreas, a laminação é a mais aplicada. Com um fio fino e resistente tira-se a folha de argila e molda-se-a ao formato desejado. Bandejas, canecas, copos, grandes jarros, abajures, quadros, enfim, uma infinidade de peças para uma infinidade de usos. Em geral são as peças mais baratas feitas com a técnica nerikomi.




    Um trabalho misto costuma ter resultados muito bonitos, apesar de relativamente simples. De tarugos com não mais do que a largura de um punho fechado, tiram-se pedaços em espessuras uniformes e estes são dispostos em uma mesa. Geralmente os padrões são espirais ou em forma de alvo, os mais fáceis e rápidos de se conseguir, ficam parecendo biscoitos de frutas, então manter longe das crianças pequenas. Esses biscoitos de argila são postos juntos ou com espaços preenchidos por outra argila, então o processo de amassar, umedecer e alisar recomeça, com mais delicadeza. O resultado pode ser facilmente transformado em copos, pratos e bandejas. Como sempre, o talento e a experiência do ceramista faz sapo virar príncipe.



    Moldar uma argila nerikomi é bem complicado, o ceramista precisa antever a deformação que seus padrões sofrerão durante o trabalho. O simples facto de necessitar espessuras maiores já implica em deformação. Entretanto, os resultados podem ser de uma beleza ímpar de uma personalidade única. E como toda boa cerâmica, ainda pode receber apliques de laminados finos, seja para reforçar, seja para realçar ou mesmo ambos.


Parece pintura, mas o padrão está dentro da cerâmica. Ar by Eiko Maeda.



    Acabamento e queima são os padrões, mas as peças não. Existem argilas prontas no mercado, mas os mestres ceramistas têm suas próprias fórmulas e geralmente vivem próximos às fontes.

Mais sobre nerikomi clicar aqui, aqui, aqui e aqui.



    Além das similaridades, essas três técnicas têm em comum o prazer de quem assiste aos vídeos, são fáceis de encontrar em qualquer bom canal de vídeos.

Bônus, a cidade de Hakone, no Japão, clicar aqui.

15/05/2019

Hanna Barbera para maiores


Mas é claro que eu editei! Isto é um blog de família!

    Não é de hoje que os fãs dos personagens da Hanna Barbera esperam pelo retorno da grife ao mundo da animação e, quiçá, seu glorioso ingresso ao crescente e altamente lucrativo universo das versões live action. Sim, tivemos Scooby-Doo, mas sinceramente não foi o que nós, mais velhos, conhecemos quando o desenho era repetido ad infinitum na televisão.



    Nem vou falar daquele vexame que fizeram com o Manda-Chuva que foi um personagem rico, mas incompreendido pelos americanos na época porque se tratava de um malandro tipicamente brasileiro, o que eles ainda hoje simplesmente não comprendem.



    Que dirá dos Jetsons? Era moderno demais para a época, dizem alguns especialistas, mas eu acredito mesmo é que as pessoas não estavam tão interessadas em ver então uma série futurista baseada no cotidiano de um cidadão comum; ainda mais que os problemas tipicamente mundanos estavam presentes e escrachados no desenho.





    Eu poderia passar anos escrevendo e não abrangeria decentemente todos os personagens HB, seria um livro só para listar os nomes de todos eles.



    Acontece que mesmo com a simplicidade extrema da maioria das animações, a Hanna Barbera conseguia o feito de dar carisma e personalidade a TODAS elas, mesmo quando não pareciam ser mais do que versões diferentes de um mesmo tema; o que geralmente era, mas aí vai o talento de uma equipe que pega um Fusca e transforma em Variant, Brasília, TL, TC, Karmann Ghia, Kombi, Puma, Miura, MP Lafer, bugues infinitos e kits a perder de vista. Todos têm a mesma base e origem, mas cada um tem seu próprio comportamento e prazer de dirigir para tipos diferentes de motorista.



    Era esse o mote da HB. Fazia o pasteurizado ter personalidade, como se uma montadora tivesse divisões ou concessões homologadas para customização para versões de nicho. Alô, General Motors, esse puxão de orelha não é uma indirecta, é para vocês mesmo!




    Voltando ao tópico de entretenimento, é justo essa versatilidade que fazia personagens que eram praticamente copiados e colados terem personalidades próprias, e fazia a legião de fãs angariada relevar uma base secreta do alto de um edifício no centro de uma metrópole de onde saía um jato e NENHUM VIZINHO SEQUER PERCEBIA O ESTRONDO. É um absurdo? Sim, é um tremendo absurdo, mas fazia parte da diversão; era para rir mesmo, quem quisesse chorar assistia ao jornal logo a seguir.



    Ao contrário do que se pensava até os malfadados anos 1990, essa legião de fãs não só não desapareceu como cresceu. Gente que nunca tinha visto as reprises no festival Hanna Barbera, nas tardes ao longo da semana, simplesmente ama a grife. Gente que sequer tinha nascido quando a internet começou a trazer toda essa nação de personagens de volta à tona, constitui uma verdadeira torcida organizada.



    Basta um ilustrador talentoso divulgar um pôster alusivo e a rede se enche de esperançosos pelo não só retorno à programação televisiva, ou por streaming, como por filmes block busters que realmente valham o ingresso e a memória de William e Joseph. Perceberam o que quero dizer? Em uma época em que as franquias de heróis veteranos se expande mais rápido do que o universo, há um público cativo ávido por gastar seu suadi dinheirinho em ingressos e bugigangas com a marca Hanna Barbera. É um pomar de bilhões só esperando pela colheita.



    Ok, já apresentei o paraíso, agora mostrarei o purgatório. Assim como a Marvel com o quarteto fantástico, as melhores intenções para com a HB esbarram em um imbróglio incompreensível de licenças e patentes em que NINGUÉM se senta para discutir a divisão de dividendos, que seriam imensos, decorrentes do sucesso da exploração adequada desses personagens. Fica todo mundo emburrado de cara para a parede e mostrando a língua para quem tenta argumentar. É como se um monte de confeiteiros tivesse cada um, um ingrediente para um bolo viciante, mas nenhum se dispusesse a entregar o seu para fazer esse bolo.



    Só que ao contrário do que acontece com o quarteto, zombado com memes (“As coisas estão estranhas”, “esticaram demais o filme”, “roteiro invisível”, “a franquia se queimou”) os fãs da HB dedicam sua fúria aos executivos engomadinhos que não saem de suas salas climatizadas; síndrome da Chrysler, talvez: excelentes carros e péssimas decisões.





    Enquanto isso, os fãs continuam a se nutrir de versões independentes na internet, onde artistas e roteiristas (que são artistas das letras) esbanjam seus talentos em quadrinhos e pôsteres de fazer inveja a qualquer estúdio gigantesco de Hollywood. Eu me surpreendi há uns dez anos, quando digitei os nomes de alguns personagens e vi uma miríade, do mais tosco ao mais refinado, de desenhos independentes relacionados. Mesmo com a estilização que a maioria impunha, cada personagem era perfeitamente reconhecível, desde as versões mais fofas e inocentes até as mais adultas… e picantes… e indecentes... e outras coisas que nem se o que são… é aqui que a porca torce o rabo, meus amigos.



    Digite “Captain Caveman” e aparecerão milhares de resultados, alguns impróprios para menores. Acrescente “hot” e, em vez de restringir, os resultados serão maiores e mais diversificados. Coloque “hentai” ou “porn” e vais se surpreender tanto com a quantidade quanto com a ousadia. Isso vale para todos os personagens, aliás, podem até procurar genericamente por “Hanna Barbera” que esses resultados dignos da Sexta Sexy aparecem, ainda mais acrescentando as extensões. Pinterest e Deviant Art estão repletos deles. Nem adianta colocar filtros, porque aparecem assim mesmo e, dou a mão à palmatória, a arte geralmente é invejável. Os produtores dessas versões se esmeram em realçar a beleza facial das garotas como nenhum estúdio oficial foi capaz até hoje. Quem não está procurando por onanismo simplesmente fica hipnotizado pelos rostos que eles pintam.





   Torcendo mais o rabo da porca, conclui o que já suspeitava há tempos, a indústria da pornografia é a que mais preserva e divulga a memória do entretenimento, e também a que mais lucra com isso. Alguns vão dizer que estou de sacanagem, mas asseguro meus amigos, aquilo que os filtros tentam barrar sem sucesso é justo o que me levou a conhecer versões renovadas e não eróticas dos clássicos da Hanna Barbera. Hoje não me rendo mais ao rubor, é digitando “Josie and the Pussycats hentai” que as versões em arte mais finas e bem-acabadas, e apresentáveis à família, são encontradas com mais facilidade e profusão. Eu não estou brincando, precisaria praticamente viver disso para poder vasculhar todas as opções de censura livre! Imaginem as com tabela etária…



    Enquanto os estúdios de quadrinhos e filmes se digladiam, cada um escondendo seu ovo e sua farinha, a enxuta e ágil indústria do erotismo vende pequenos e bem-feitos bolos em larga escala. Os bocós não querem ganhar fortunas de uma só vez com nababescos bolos de noiva? Eles ganham fortunas com pequenos cupcakes de fino acabamento vendidos aos milhares, não se envergonhando em desenhar mulheres com traços graciosos e encantadores. Enquanto muitas vezes os estúdios apelam ao “custo/benefício” e depois se perguntam o que teria dado errado, os independentes ouvem seus seguidores e fazem o melhor que eles querem comprar, e fazem em grandes quantidades; e vendem tudo.






    Eles não perdem tempo com disputas internas e reuniões intermináveis, eles focam nos interesses comuns e depois acertam o resto, o importante é atender à demanda e pagar os custos da produção, os dividendos e a distribuição da renda resultante são meras conseqüências dessa agilidade e racionalidade: o fã quer, o fã tem. Ah, claro! Eles LÊEM os quadrinhos e VÊEM os desenhos clássicos, discutem em iguais condições com os nerds mais avançados, enquanto o executivo engomadinho com NBA em coaching pensa que Ben Grimm é um dos irmãos Grimm!



    Sem trocadilhos infames, os estúdios deveriam voltar às suas origens, reaprender a atender ao público vendo seus rostos e se inserirem até o fundo daquela caverna de criatividade e frescor que há décadas eles não conhecem, mas os artistas independentes, livres leves e soltos exploram com fervor.



    Até lá… Well… Até lá vamos continuar digitando “Penelope Pitstop hot” para suprir superficialmente a demanda que os engravatados não conseguem, inclusive com os crossovers mais bacanas que se possam imaginar… mas o mimimi corporativo proíbe.

11/04/2019

São Valentim atrasado

Feliz dia de São Valentim

Um texto que ficou por anos como rascunho, perdido e esquecido. A data passou, mas a mensagem é válida.



No Brasil não se fala, ninguém sabe que é, não há comércio ofertando, só chocolate e afins. A loucura insana para ter namorado, a quantidade insana de namoros terminados para poupar maiores gastos, procissões de gente pedindo um cobertor de orelha antes da data, nada disso se vê por aqui.



Na Europa os presentes sob larga nevasca não são só para amores. Para o chefe camarada que compreende a mancada postais de uma praia ensolarada, para o chefe ruim uma gravata de corda com um laçarote.



Lembrando dos amigos que nos aturam as mazelas, da moça do bistrô que é uma bela donzela, o irmão mais velho que buscou na delegacia e o mais novo que riu da covardia.



Os pais recebem, que a data é geral, não só as paixões. E sem os pais, quem haveria então para comemorar? Eles também valentinaram na juventude e merecem uma valentinação de gratidão.



Na América do Norte é pouco diferente, mais espalhafatoso e com mídia mais eficiente, mas o espírito da troca de presentes sem muito compromisso também é inerente. Artistas que saíram de filmes sanguinolentos dizem que o amor é lindo, que as flores são belas e se deve dar tudo de si pela próximo.



Cartas bem elaboradas com mensagens comoventes, cartas mal coladas com mensagens borradas, cartas bem lacradas com palavras comprometedoras, talvez indecentes. Também há cartas prontas, com espaços para nomes, como postais para quem tem pouco tempo ou memória de peixinho dourado.



No dia de São Valentim não logra o preconceito, mas é hora propícia para acertar os ponteiros. O noivado que se arrasta há tanto tempo pede uma decisão, de preferência já se trazendo bombons e a caixa de alianças na mão. O flerte sem compromisso, mas hoje tão longevo, pede para se descarregar ou desocupar a moita de uma vez.



Aos românticos de plantão, que têm seus alvos em retrato, a época no Brasil é quase esquecida e o presente sai bem mais barato. Para quê esperar dia doze de Junho, data transferida por conveniência comercial? Vá a uma banca de revistas, compre umas bobagens e faça uma linda carta de colagens. Não é difícil, não demora e encanta. Leve um guarda-chuva que o tempo é instável e reze para chover, os dois sob o impermeável, juntinhos, buscando um lugar para se esconder. Não precisa de coragem, basta esperar o momento, ela abre a porta e o galã adentra o apartamento.



Neste ano a lua é nova, as estrelas cintilam com mais vontade no abismo acima. Basta uma mesa com espaguete e almôndegas, um castiçal bem fixado e o MP3 ao lado. Deixem as piadas se soltarem, casos e lembranças virem à tona, pelo acaso se conhece o outro. Não esqueça de lhe dar a bolinha derradeira, seja de boi, frango ou soja, a atitude é certeira.



Já me enjôo com circunflexo de ver imagens de carnaval, piadas de carnaval, flashes de carnaval, ofertas de carnaval (queria saber o que escovas de dente têm a ver com o folguedo) e bacanais de carnaval. Volto minhas atenções para o que não se anuncia, o que exige busca e empenho.



Não exagere para não assustar, pois o brasileiro já perdeu o costume, seja singelo. Um lanche para quem tem plantão, uma visita para o enfermo, faça de coração que São Valentim é assim mesmo. Vale a intenção, mas melhos se houver atitude.



Agora, se a decisão lhe toma e a vontade saltita, não hesite. Aproveite a euforia e refine a indumentária, para mostrar que é sério leve logo as alianças e que lhe valha o santo amigo. Se inspire pelo caminho, passos largos e peito para fora, que um homem decidido impõe mais respeito. Seja cortês, vá directo ao assunto e se declare "Quer se casar comigo?".

24/03/2019

Coisas de que reclamamos

 
Tuppeware 1958
     Mas não deveríamos.

Pagar faturas;

    Se bem me lembro, a máfia ainda não registra em cartório e nem paga impostos sobre seus ilícitos, portanto é razoável eu concluir que de tudo o que vocês pagam, vocês usufruíram de um modo ou de outro, mesmo que só em fins de semana ou feriados.

    Sim, claro, sempre tem aqueles malas sem alça que sugam o nosso trabalho e se sentam na aba do chapéu alheio, mas aí a questão é outra, familiar ou policial. Não dá para comparar isso com o facto de tu teres comprado aquele televisor enorme para ver suas séries em full hight ultra over galactic HD, porque desse trambolho de tela grande tu usufrui sempre que quereres, é para isso que pagas a fatura da tv a cabo e a conta de energia.

    Pare de reclamar do seu usufruto, porque tu não gostarias que teu patrão ignorasse teu trabalho e se recusasse a pagar teu salário. É praticamente a mesma coisa, ele usufrui de tuas horas e paga por elas; se achas que mereces um aumento é outra conversa, é questão de negociar e reivindicar, mas ele tem que pagar pelo teu trabalho, a empresa dele e, quem sabe até os empregos de teus colegas, depende que teu vencimento esteja na conta no dia combinado.

    Da mesma forma as lojas e as prestadoras de serviço esperam que honres os custos pelos benefícios que te entregaram. Se tu não pagas, eles não têm como manter os serviços. Aliás, gente que usufrui e não paga é um dos maiores custos que eles têm, é como se o empregador te pedisse horas extras e não pagasse por elas.

    Resumindo, pagaste porque usufruíste.

Trabalhar;

    Quase uma continuação da anterior. Eu até dou razão quando o trabalho é mal pago e as condições degradantes, mas reclamar pelo simples facto de ter que trabalhar depõe muito contra nossa espécie. A rigor, quem não trabalha está sugando o trabalho de alguém. Não entrarei no momento em méritos de herança, invalidez, cárcere restritivo e outros, são exceções que mereceriam textos à parte.

    Sim, o Brasil não gosta de gente honesta e maltrata muito quem trabalha honestamente. Sim, a cultura nacional foi toda (aqui cabe o termo) construída nas coxas para desvalorizar o trabalho árduo e honesto. Sim, o brasileiro é um perfeito boi de abate, que se comporta cegamente como manada e corre para onde os outros correm, mesmo que seja um despenhadeiro; isso inclui repetir o bordão terceiro-mundista de que o trabalho não compensa.

    Eu já disse e agora vou desenhar: O trabalho é como um sistema pneumático, o compressor suga o ar ambiente e espreme dentro de uma espécie de tambor que é o reservatório. Com o ar espremido lá dentro, a tendência é suplantar a pressão que o ar normal exerce. Assim que uma válvula for aberta, o ar comprimido se expande e empurra tudo o que estiver pela frente, inclusive braços mecânicos, pistolas de pintura, infla pneus, gira brocas de dentista e uma infinidade de outras coisas.

    Enquanto o ar comprimido estiver sendo utilizado para algo útil, mesmo que seja só encher balões para uma festinha infantil, o trabalho do compressor está gerando frutos. Se alguém abre a válvula só para se divertir ouvindo o ar escapando ou para fazer bagunça no ambiente, está parasitando o trabalho do compressor, e o trabalho de quem paga as faturas de energia e da manutenção do equipamento. É como alguém que não trabalha se servindo de modo torto do trabalho alheio. Mas para que um vagabundo possa sobreviver, muitas pessoas precisam trabalhar.

    Ou seja, até quem não gosta de trabalhar se beneficia do trabalho. Não, ninguém é obrigado a gostar do que incomoda, mas simplesmente se recusar a fazer e ainda assim esperar ter um mínimo padrão de vida e consumo, lamento informar que qualifica a pessoa como potencial indesejável, porque está tirando dos outros o que não fez por merecer.

    Faça qualquer coisa. Qualquer mesmo! Ainda que seja visitar os amigos e escutar suas lamúrias e seus desabafos, isto É trabalho porque te faz servir e traz benefícios a terceiros; já te fez merecer as refeições em casas alheias, que então não são mais grátis, já estão na sua conta.

    Trabalhe e terás como pagar as faturas do que desejas ter.

Estudar;

    Como disse um sábio amigo uma vez "Jovem faz duas coisas na vida; existir e estudar, e odeia metade delas". Eu trabalhei um ano e meio como porteiro de colégio barra pesada a atesto o que ele disse, e os pirralhos ainda se fazem de vítimas quando são repreendidos.

    Eu não falo apenas em freqüentar a escola, isso realmente costuma ser maçante especialmente em comunidades distantes e sem infraestrutura; falo de pegar os livros, ver diferentes pontos de vista, inclusive diferentes dos professores, não se prender a ideologias, sensos comuns e dogmas. Isto é o básico, mas demanda queima de phosphato e glicose. Quase nunca é divertido.

    Mas vocês estão tão acostumados a acreditar que nascem merecendo tudo sem jamais terem feito nada, que se recusam a fazer algo que lhes tire de suas caixinhas, embora exijam que os outros saiam das suas. Preferem ler, ver ou ouvir aquilo que lhes dá conforto ou confirma o que já pensam, rejeitando com rispidez outras obras. Não vou falar daqueles que simplesmente querem ficar de papo pro ar o dia todo, estes são (ou deveriam ser) unanimemente considerados casos graves e carentes de internação psiquiátrica. Querer horas de lazer não é o mesmo que querer viver de lazer.

    Se vocês não sabem por que os orientais de democracias são tão admirados e tomam tantos empregos, basta verem o que vocês se recusam a fazer e imaginar que eles o fazem com extrema (às vezes excessiva) dedicação. Um japonês mediano costuma ter mais consciência do mundo que o cerca do que um ocidental com doutorado; a julgar pelos temas estúpidos que já vi, creio que até uma criança japonesa resolve problemas reais com ais desenvoltura.

    Eles só fazem prova UMA VEZ NA VIDA e costuma ser suficiente. Claro, isso é só um exemplo para esfregar nas caras de vocês que serão todos paus mandados dos outros, terão que se contentar com empregos de baixa qualificação com diplomas que não atestam conhecimento nenhum... isso para quem tem o tal diploma. Para os outros resta a sombria perspectiva de que as máquinas estão ocupando TODOS os trabalhos entediantes ou perigosos.

    Até para ser atendente é preciso ter cabedal, porque vai precisar lidar com pessoas de todo tipo, de todas as culturas e terá que sair de saias justas sem ficar nu na frente do cliente. E olha que, em tese, QUALQUER UM consegue ser atendente. Sabem aqueles empregos de balconista em redes de fast food, que até um completo retardado é capaz de executar a contento? Os aplicativos de celular já estão acabando com eles.

    Se tu não estudar, mesmo que por conta própria, não vais ter emprego para pagar as faturas de cujas cobranças desejas usufruir.

04/03/2019

Evasão blogueira

The Writing Cooperative

    Recentemente um amigo decidiu abandonar tanto seu blog quanto seu canal de vídeos, ele não é o único e sequer o primeiro. Os motivos são muitos, basicamente os mesmos que tornam minhas publicações tão esporádicas, mas acrescentemos aqui o fator frustração. A era de ouro dos blogs passou e durou pouco, deixando a pouquíssimas pessoas um contingente significativo de seguidores.

    Em geral as pessoas não gostam de ler. Se um texto tiver mais do que dois ou três parágrafos, as chances de êxito são mínimas. Há os que conseguem se adaptar a isso, simplesmente porque o que têm a dizer pode ser dito com poucas (ou até nenhuma) palavras. De outro extremo há os apaixonados por textos prolixos, retóricos e verborrágicos, do tipo que gasta três capítulos pra dizer as horas. O leitor equilibrado e paciente, que era o público maior da maioria dos blogueiros, não está mais disponível. Não sei se a situação é perene, mas certamente não se reverterá tão cedo.

    Some-se a isso o pacote de expectativas que mesmo os de pensamento mais a longo prazo trazem e protegem. Passar anos sem resultados expressivos, desanima. Um deles reclamou de estar cansado de se esforçar para ter seis ou sete comentários nos textos, e não mais do que uma dúzia de acessos em seus vídeos; cifras que há anos eu não conheço. É como conversar com o espelho. Para algumas pessoas, isso basta, mas não para quem quer passar conteúdo. E meus amigos têm MUITO conteúdo para passar. Eles têm cultura, têm acesso a livros e filmes, conversam rotineiramente com técnicos especializados e, principalmente, eles estudam muito aquilo de que pretendem falar.

    Eu não os culpo. A situação chegou a um ponto em que só quem vive de renda ou do blog, pode se dar o prazer de fazer textos e publicar vídeos todos os dias. O mundo real dos trabalhadores comuns, mesmo os de classe média, não permite isso. Quando se tem família, a coisa complica ainda mais, e geralmente a família é o pior dos públicos; o que menos acessa e o que mais critica. Viver de blog ou canal de vídeos não é para todos, os patrocínios não são infinitos e os contadores de acessos não vão com a cara da maioria de nós. E tem piorado. Recentemente alguns canais de divulgação simplesmente fecharam, o último foi o "Google+", que respondia por metade ou mais dos meus parcos leitores.

    Aliás, um dos meus antigos blogs foi apagado. O Wordpress não aceita mais o meu perfil, não com os baixos acessos que eu tenho. Bem, eles têm custos, têm que pagar os funcionários e impostos; amor ao próximo é uma prática e não um meio de vida.

    Não é tão fácil com parece colocar as idéias com acento no papel, ou no seu monitor. O cérebro não é um computador, é uma coisa MUITO mais complicada e melindrosa, um simples mau humor ou uma irritação no decorrer do texto, pode arruinar a publicação. E não é tampouco só questão de se esperar pelo tempo oportuno, porque somos adultos e as atribulações do cotidiano REAL podem simplesmente desvanecer aquela idéia que não for publicada imediatamente. Enfim, viver de blog ou de vídeos é para quem pode se dedicar totalmente a isso, salvo raras exceções.

    Um dos elementos apontados como vilões é a rede social, que dá seus recados rapidamente com textos curtíssimos e memes, embora lá também haja os que queiram lacrar com textões desnecessariamente gigantescos; estes eu simplesmente lacro com um bloqueio. Ironicamente, essas redes sociais têm sido as grandes divulgadoras do que eu faço, mas talvez só porque minhas chamadas com link não têm mais do que duas linhas. Bem, acessam, se lêem até o final é outra conversa... realmente frustrante.

    Até quando este blog estará no ar, eu não sei. Sei que me manterei nisto até quando me for permitido, não será por minha vontade que esta página de quase treze anos se fechará. As esperanças pueris de viver de canais de internet, porém, jazem. Tampouco me importa mais ver as estatísticas de acessos, são tão pífias que continuar a vê-las só alimentaria minha depressão.

    Eu teria desistido há anos se tivesse ainda a vã esperança de receber um centavo por acesso; daria o quê? Uns quinze reais por mês, quem sabe. Talvez tivesse desistido há anos, se o volume de acessos ainda fosse uma preocupação, porque baixar o nível eu não vou!

    Por que então eu teimo feito um touro indignado? Porque algum dia o que eu publico aqui terá alguma relevância para a arqueologia digital. Não é ficção, já há gente gastando seu tempo com isso, como hobby. E como todo hobby, somando-se as pistas que publicações regulares dão sobre a sociedade de seu tempo, um dia será algo sério e relevante. É para isso que eu teimo. Não pé para mim, nem para o público que já não tenho, é para a posteridade. Penso em no mínimo cinqüenta anos adiante. Provavelmente não estarei mais aqui e, sinceramente, não quero estar.



    Não, meus amigos, isto não é uma despedida. é apenas uma satisfação aos pouquíssimos que restaram. Eu não vou parar enquanto tiver como continuar.