11/06/2018

A cidade não perdoa erros

Imagem de "Beverly Hillbilies" (A família Buscapé) 1960s

    Não é de hoje, mas a facilidade com que as notícias circulam neste século, a quantidade de pessoas que são engolidas pelas metrópoles parece ser suficiente para formar outas metrópoles. Parece algo fora de moda, a história do caipira que vai para a cidade grande tentar a sorte e se dá mal... e é. O grande problema hoje é de gente de cidades pequenas e médias que vão confiantes (ou desesperadas) demais tentar a sorte em uma metrópole.

    Isso é no mundo inteiro, mas só em democracias as notícias viajam à vontade, e vêm dos Estados Unidos as cenas mais tristes, como o caso de mãe e filha que foram tentar a sorte como cantoras em (JUSTO ONDE, MEU DEUS) Hollywood. Assim, sem degraus, sem preparo, só acreditando que talento e vontade de trabalhar fossem suficientes, pensando que alguém de uma gravadora ou programa de televisão as veria no shopping, se encantaria com suas vozes e as chamaria para uma estreia exclusiva. Não é um caso isolado, mas é o que mais me dói na memória, porque são duas gerações juntas na pobreza das ruas de Los Angeles... literalmente nas ruas.

    Também por isso eu sempre digo que os jovens de hoje são amis trouxas do que os da minha época. Meus amigos, a severa crise de 2008 (em parte) passou, sim, mas uma crise é como uma doença econômica, e esta durou muito tempo! Antes da metade dos anos vinte não teremos o optimismo de 2006 de volta, ainda mais com gente querendo que os sintomas perdurem.

    É sim verdade que uma metrópole está cheia de oportunidades, mas não são para quem quiser. Não basta chegar a São Paulo com um detector de metais e procurar por seus tesouros, quem dera fosse tão simples! Para começar, quem chega pela primeira vez a uma cidade grande, simplesmente se perde em seu gigantismo; ou seja, chegar sem saber precisamente para onde ir é um réquiem para o desastre. Para saber aonde ir, é preciso ter conhecido alguém que lhe tenha indicado confiavelmente para onde ir, porque por algum tempo tu terás que ficar sob a tutela de um nativo ou veterano daquela cidade. É a forma mais segura de ser apresentado a uma metrópole.

    Até o começo do século a pessoa precisava ter amigos de infância ou parentes na cidade, para recebe-la, não havia alternativas. Hoje temos redes sociais, qualquer celular barato consegue acesso a elas. E com isso temos mais um problema que acomete nossos aventureiros da vida real, a falta de planejamento. Não se fixa moradia em uma terra estranha. Não é porque hoje é perigoso, SEMPRE foi perigoso, simplesmente porque é uma terra estranha e o sujeito não sabe nem para que lado cair, se tropeçar na guia calçada. Longe de mim querer que uma pessoa fique o resto da vida em um rincão onde não é feliz, mas cada cidade tem suas próprias regras e elas nem sempre são claras; as de uma metrópole quase nunca são claras.

    Então, antes de fazer as malas e dar adeus à tua cidadezinha, saiba realmente para onde estás indo. O ideal é fazer pelo menos três visitas em épocas diferentes, em todas conhecer lugares diferentes, SEMPRE ACOMPANHADO, para inclusive saber se aquilo é realmente o que quer para si. Uma terra estrangeira trata de formas completamente diferentes o turista, o temporário e o residente; só este conhece todos os rigores e todas as armadilhas que sua terra oculta a olhos forasteiros. Por isso cuide de conhecer o máximo que puder do lugar aonde pretendes ir, de preferência faça as viagens que recomendei, e mesmo com elas não dispense as pesquisas em livros, jornais e internet; são fontes completamente diferentes, com focos completamente diferentes, que te darão todos os meandros e caprichos que uma metrópole reserva.

    A primeira coisa que precisas saber, por mais que te doa em teus sonhos, é se aquela região REALMENTE TE QUER LÁ como morador. Porque um morador demanda um investimento muito alto, é alguém que os concidadãos terão que aturar pelo resto da vida. Muito provavelmente alguns hábitos de tua região serão mal vistos em outra, e vice-versa. Há lugares que não entendem pessoas reservadas, que dá cumprimentos mínimos e protocolares, há outras que simplesmente não toleram exibicionismo e barulho em áreas residenciais. Para um pode não ser exibicionismo, para outro pode não ser frieza, são as regras de berço da cada um. Se vais mesmo mudar de região, deves seguir as regras do teu destino, ou ele vai te rejeitar sumariamente e tu vais difamar o lugar por algo que pode ter sido de tua estrita responsabilidade. Aceite as regras da casa que te acolher, ou não entre lá.

    Outra coisa que as pessoas negligenciam é o preparo. Achas mesmo que tua cidade de um milhão de habitantes é agitada, apressada e estressante? Juras? Experimente viver e trabalhar normalmente por apenas um mês em São Paulo! Na segunda semana vais desejar uma vida de ermitão. Para isso servem as pesquisas e as viagens. A permanência gradualmente mais prolongada vai amortecer o impacto das diferenças, e evitar que o tem problema de ideal de vida se torne um problema social em um lugar que NÃO TE CONVIDOU para morar lá. Duro? Sim, mas é assim que as coisas funcionam. Experimente ir para uma cidade bem menor do que a tua, bem no interior do país e veja como as pessoas podem simplesmente se escandalizar, mesmo hoje, com o teu comportamento.

    Para maior ou para menor, a mudança de cidade SEMPRE demanda um gradiente, o que pode inclusive ajudar a conseguir uma hospedaria até tu poderes caminhar com tuas próprias pernas.

    Mais um erro que as pessoas cometem é não quererem outro trabalho que não seja aquele dos seus sonhos. Meus amigos, Brad Pitt fez com maestria o papel de garçom até ser chamado e se estabilizar em sua próspera carreira! Não é humilhação! Não superestime teus talentos, acreditando que a metrópole vai desenrolar um tapete vermelho na rodoviária para te receber. Nem para seus filhos ela faz isso, imagine tu, aventureiro petulante! Uma metrópole não mima ninguém! As gigantescas como São Paulo, New York e Los Angeles não perdoam um erro sequer, e tu podes cometer um monte deles assim que puser os pé em uma delas, mesmo sem perceber!

    Tu achas que canta bem? Mesmo? Então tente primeiro ter a admiração de teus concidadão, exponha-se às críticas deles, seja humilde. SEJA HUMILDE. Nem bilionários podem ser arrogantes à vontade, que dirá tu! Rico arrogante em território alheio, é pato a ser depenado. Pobre arrogante em território alheio, é pato servido em molho pardo. Mantenha a cabeça erguida, mas abaixe teu topete.

    Quando fui a São Paulo, fiquei lá só por um dia, mas segui à risca as instruções que estou lhes passando. Resultado? Todos me trataram muito bem: polícia, cobrador de ônibus, do metrô, enfim, TODOS me ajudaram como puderam. Isso vindo de uma cidade que a mídia se espera em maldizer todos os dias. Não voltei para lá porque não deu mesmo, vontade e motivos não me faltam.

    Assuma-se como um caipira, que não sabe nada da vida fora dos teus limites, que precisa aprender tudo de novo se pretender mudar de Cocalzinho para Jataí. Faça um curso informal sobre com ser jataiense, e saiba esperar o momento certo. Não é o teu tempo que vai dizer isso, é o tempo da cidade. Jataí é uma cidade bem desenvolvida do sudoeste goiano, mas nem de longe se compara a Anápolis, que é muito menor do que Goiânia, que é um beija-flor se comparada ao gavião real que é São Paulo.

    Antes de sair da segurança, por desconfortável que seja, de tua cidade, conheça bem a aprenda tudo o que lhe for possível sobre o teu destino, e prepare-se para ele; porque ninguém gosta de quem chega pedindo uma chance, mas não sabe o que fazer com ela.

24/05/2018

Esteja presente

   
A falta de recursos não é pior do que o Estado ausente, do que pais ausentes, do que parceiros ausentes, do que você ausente de si mesmo. Recursos se arranjam, com maior ou menor dificuldade, se improvisam, mas a ausência é, neste contexto, o vazio de um recipiente que deveria estar pleno, talvez até transbordando. Há de se lamentar a ausência de outrem, tanto mais quanto maior o compromisso feito, mas não se pode justificar a auto ausência naquilo que se dispuser a fazer.

    A maior carência de quem busca por momentos de prazer, nem sempre é o prazer. A pessoa vai ao lugar fazer algo, arca com os custos e riscos, então sai de lá (se vivo) sentindo-se mais vivo. Isso inclui a moda de esportes radicais, onde o risco de morte é o que atrai muita gente. A descarga de adrenalina, uma vez cessada, dá lugar à serotonina e a diferença de potencial resultante pode dar ao corpo a sensação de estar flutuando, a ponto de pequenos ferimentos nem serem considerados.

    É como estar em um campo de batalhas e sair vivo. Ninguém sobrevive se corpo e mente não estiverem lá, unidos, focados em fazer bem feito o que deve ser feito. Não se pensa na namorada, no desafeto, no programa de televisão, enfim, em nada que não seja concluir a contento aquilo que se foi fazer. O mesmo vale para cirurgiões, que precisam controlar até a respiração, esquecer-se da própria fadiga após oito horas contínuas com o paciente aberto. Em ambos os casos, a pessoa precisa estar presente no que faz para não causar uma tragédia.

    Não é raro uma notícia ou vídeo de motoristas que destruíram famílias inteiras, por se ausentarem momentaneamente da direção para mexer em alguma bobagem cibernética, mesmo que só para alterar o toque do smartphone. Parece ser algo banal, rápido, mas lembremos que qualquer veículo em baixa velocidade percorre uma quadra antes que a mudança de toque seja feita; uma quadra que o motorista não viu passar. Imagine um caminhão em uma rodovia, percorrendo mais de vinte metros a cada segundo! Qualquer distração pode significar de cinqüenta a cem metros de ausência das funções em andamento, se o indivíduo for rápido.

    Sejam quais forem a atividade e seus objectivos, o que quase todos querem na realidade é se sentirem mais vivos no final, fazendo todo o restante da semana valer à pena. Para se sentir mais vivo, o indivíduo precisa estar todo focado no momento que vive, relevando todo o restante; ele precisa estar presente consigo. Isso vale para tudo, inclusive para religiões.

    O que separa, basicamente, uma religião de uma mera superstição, é a presença do fiel durante os procedimentos, especialmente as preces. Memorizar e recitar uma oração complexa tem pouco valor, se a cabeça estiver em outras paragens, ou na malha colada da moça no banco da frente. Ok, o ambiente precisa de mais sobriedade, mas fixar-se e manter olhares no alvo é tua escolha. Não se trata de uma praia, não se está lá para apreciar a paisagem. Se tu não prestas atenção ao que está fazendo, então não acredita realmente no que está fazendo. Rezar pensando exclusivamente na prosperidade que espera conseguir com aquilo, também é ausência.

    A cultura de se ter tudo aqui e agora na potência máxima, é uma das grandes inimigas do compromisso para consigo. Entre os servos dessa inimiga, estão os "antenados" que querem que todos estejam plenamente cientes daquilo que consideram mais importante do que tudo, o que no Brasil tem se traduzido na figura do militante político/ideológico; infelizmente ele superou de longe o fanático religioso, que não tem a chancela da aparência de intelectualidade. O problema é que esses dois costumam ser carismáticos e demonstram sincera decepção para com os que não se alinham, alimentando a culpa e tirando a pessoa de si mesma para a carapuça apertada que querem que vista.

    Nem vou falar dos maníacos que tentam saber de tudo ao mesmo tempo e têm dezenas de abas abertas ao mesmo tempo no computador, e se consideram o suprassumo da inteligência. Bem, já falei, então serei breve, para não me perder de mim aqui. Há uma diferença sutil entre estar ciente de tudo o que nos cerca, e ter pleno conhecimento de tudo o que nos cerca; o primeiro é o salutar e necessário, o segundo é uma utopia insalubre que muita gente persegue. Perseguir uma utopia é correr de si mesmo a toda velocidade e depois se queixar da perda, culpando outros pela própria escolha.

    Aceitar se perder de si, muitas vezes significa abrir mão da própria personalidade, tornando-se mais um número a se parecer paulatinamente com todos os outros auto ausentes. Nem sempre parece, porque é gradual e nem todos escalam as graduações, mas os que o fazem tornam-se modelos para os outros e são tidos como corajosos, quando na verdade estão fugindo de si mesmos para não enfrentarem a própria ira, por terem traído o que mais acalentavam. E acabam destruindo aquilo que pretendiam, em princípio, proteger. Infelizmente esta é uma regra sem exceções, o radicalismo te toma de si mesmo e destrói as tuas bases mais caras, sem o quê a doutrinação e a lavagem cerebral não seriam possíveis; esta última a ausência total de si mesmo. É como usar palavras como drogas, o efeito é bem similar.

    E como fazer para não se ausentar de si mesmo?
    Prática. Prática contínua e persistente. Tentar ao máximo focar no que se estiver fazendo, deixar para depois o que pode ser deixado para depois, não olhar o gatinho que passa ali perto, não dar conversa para fofocas, não parar um minuto para ver o casamento do não sei quem com a nunca ouvi falar, não olhar as horas a cada cinco minutos; enfim, treinar estar presente naquilo que se estiver fazendo. Se algo realmente grave não acontecer, tente não se desviar. Não é fácil, ninguém diz que é, mas é necessário.

    Com o tempo, o teu compromisso para consigo mesmo aumenta, e passas a ter prazer e sentir-se vivo com as coisas mais banais e cotidianas, mesmo que só aconteçam uma ou duas por dia. Com o tempo não vais mais procurar prazeres todas as noites, porque já os tens ao teu alcance. Com o tempo, a culpa deixa de ter lugar na tua vida e ela cede lugar à responsabilidade, que é até parecida, mas não é histérica e violenta.

    Com o tempo e a prática, o resto do mundo pouco vai importar, porque não terá maias peso em tuas decisões e tuas opiniões, estas que não terás mais necessidade de mostrar todas a todo mundo. Vias descobrir eu uma hora sentado, tomando chá e meditando, muitas vezes é todo o prazer de que precisa na tua vida.

25/04/2018

Eu roubo sim de você; paródia

Art by Benett

Malandro sem mutreta
Licitação sem treta
Sou eu sem me corromper!

Caixa dois pro espaço
Comissão bem abaixo
Sou eu sem me corromper!

Por que que tem que ser assim,
Se minha ganancia não tem fim?
Cobiço a todo instante
Nem dez mil palanques
Vão poder mentir por mim!

Eu não resisto em me corromper
E a delação é meu pior castigo
Eu compro votos pra me eleger
Mas o Sérgio Moro tá de mal comigo!

Por quê? Por quê?

Rouanet mais reta
Sonegação discreta
Sou eu sem me corromper!

Merenda sem atraso
Professor bem pago
Sou eu sem me corromper!

Por que que tem que ser assim?
Eu quero mais do que dindin!
Eu minto a todo instante
Pior que meliante
Roubar é parte de mim!

Eu não resisto em me corromper
E a delação é meu pior castigo
Du carteirada pra me eleger
Mas o Sérgio Moro tá de mal comigo!

Por quê? Por quê?


06/04/2018

Noel negou


   Nikolau e Nikole aproveitam o piquenique ao sol suave da primavera boreal, um dos poucos momentos de descanso que têm ao longo do ano. Vêem cincunflexamente Rudolph se aproximando, com o nariz brilhando de tão rubro. A aproximação da rena simpatia é sempre bem recebida, mas aquela cara não diz boa coisa, e aquele nariz não se acende sem necessidade; não estão voando sob nevasca, então é problema...

    - Papai, uma cartinha...
    - Mas em Abril???
    - Você não estava esperando uma carta da Branca de Neve?
    - Sim, mas ela disse que seria melhor mandar um arquivo em um pendrive, é muito grande para folhas de papel.
    - De quem é... Rudolph...

    Ele mostra o nome do remetente e eles entendem a cara de contrariedade. Não é novidade um politico brasileiro escrever com pedidos absurdos, um até pediu para ser presidente dos Estados Unidos, antes de ser cassado e preso por mais crimes do que um advogado conseguiria se lembrar. Aquilo, porém, ultrapassou os limites. Normalmente as cartas são lidas a partir de Junho, depois de os gnomos as separarem e organizarem, mas esta ele pede que a rena leia agora, para não estragar o clima de comoção e festa, quando começar a realmente trabalhar...

    - "Querido Papai Noel, como vai?"
    - Ia bem, até agora...
    - "Espero que esteja bem. Neste ano eu fui um bom menino..."
    - RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA...
    - "... por isso me dei a liberdade de escrever esta singela cartinha".
    - Pois aproveita essa liberdade enquanto a tem, mala.
    - "Querido doutor senhor excelentíssimo nobre Papai Noel"
    - Pronto, começou a puxar saco!
    - Estava bom demais! Eles não aprendem! Não conseguem não bajular quando estão na pior!
    - Bem, tem um parágrafo só de puxa-saquismo, vou poupar vocês dele.
    - GLÓRIA!
    - "Coisas terríveis têm acontecido ultimamente, querido Papai Noel! Forças ocultas me tentam ao covarde acto da renúncia antes de findar o meu sacro mandato popular"
    - Agora deu pra plagiar o Jânio? Daqui a pouco anda com uma vassoura na mão e tenta proibir o biquíni de novo!
    - Só falta usar óculos e deixar o bigode crescer, porque os pés ele tem trocado desde que perdeu o juízo e entrou pra política. Continue...

    Alguns plágios mais e a leitura segue para o que interessa. Não que eles quisessem ouvir aquilo, mas não querem perder tempo...

    - "O senhor sabe da minha lisura, minha honestidade, meu compromisso inabalável para com o bem comum de brasileiras e brasileiros..."

    Rudolph interrompe a leitura, esperando que mais uma rajada de risadas termine. Se ele ler "pratrazmente e prafrentemente", Nikolau manda imediatamente uma interdição psiquiátrica como presente antecipado de natal...

    - "Tudo o que eu lhe peço, oh, baluarte da esperança, é que faça a justiça ser feita preventivamente! Que poupe o meu amado país de um vexame e um incorrigível desvio histórico! Que faça, enfim, com que tudo o que é bom, certo e justo prepondere sob o lábaro estrelado que ostentamos"... gente, desculpe, mas...

    Agora os três riem desatadamente. Por um instante pensaram que fosse pedir para Nikolau voltar no tempo e impedir que seus pais se conhecessem. Continuam minutos depois...

    - "Os inimigos da democracia e da liberdade não poupam esforços para calar a voz que ousa amparar os desamparados! Peço, assim, glorioso guardião da infância, que impeça a antijustiça que se avizinha à minha augusta pessoa, a bem dos vastos serviços por mim já prestados ao país. Me safa dessas denúncias, por favor... te prometo um ministério assim que eu for eleito! Com amor..." Cara... Que é isso? Tô chocado!

    - Tentando me subornar, playboyzinho de meia idade! Mas eu já sei qual foi o meu erro! Eu estava ocupado demais e não levei adiante as investigações contra o Zé Bigode, foi aí que tudo começou!
    - A extinção dos dinossauros ainda está impune!
    - Sim, pobres animaizinhos! E ainda fui piedoso demais com o Nandinho Loco-loco-loco, comecei minha coleção de Fiat Elba por remorso, ele deveria ter saído de lá num camburão!

    Há um breve silêncio entre os três, enquanto a efêmera amenidade climática daquela latitude acaricia a relva viçosa. Nikolau olha para sua companheira de milênios, depois para sua rena mais eficiente, pensa na desgraça que pode vir a acontecer, se mais esse deslize se der...

    - Vai ignorar esta também, Papai?
    - Não. Desta vez eu vou dar o que ele merece. Não o que ele quer, mas o que ele merece. E que sirva de exemplo para os outros! Vai caminhar no solo argiloso da estrada que escolheu trilhar, sob as trevas frias que escolheu seguir. Eu não devo arbitrar em orbes que não me competem, mas posso e devo guiar aos que buscam, no caminho de sua estrita escolha e responsabilidade. Não poupei Lulu Nove Dedos, não vou poupar ele, mas a exemplo daquele, o sofrimento e o desgaste serão tão maiores quanto mais ele relutar em aceitar seu destino. Rudolph, peque o pergaminho, a pena, a tinta e escreva a minha resposta.

    Ele não se demora, quer interromper o mínimo possível o descanso de um casal que jamais tirou férias, e trabalha incansavelmente desde que começou a empreitada...

    - Margem, Papai?
    - Sim, claro! Margem, cantoneiras, tudo a que tem direito.
    - Certo... Pronto.
    - Anote então: Ah, é, siô? Never!

19/03/2018

Lição de política com uma minissaia


    Imaginem a cena: Uma adolescente pretende sair para estrear a minissaia que acabou de ganhar da avó porralouca. Nem é curta demais, pelo contrário, mas é mais curta do que costuma usar, e não faz muito tempo (muitos anos, aliás) que andava pela casa com uma boneca de pano nas mãos; ainda tem a boneca no quarto. Ela sabe que o pai vai encrencar com o comprimento daquela saia, mesmo tendo modelagem de primeira. O tecido é fluído, mas denso. A cor é viva, mas lisa, sem brilho nenhum. O modelito se movimenta bem, quando anda, mas está longe de deixar aparecer o que não quer que apareça.

    Ela quer muito sair usando a minissaia nova, mas sabe que será descer à sala e seu pai arregalar os olhos, babar, fazer cara de cão raivoso e demolir a casa, mandando-a tirar aquela pouca vergonha imediatamente. Nem adianta dizer que foi presente da vovó, porque a vovó em questão é sogra dele, sempre teve um prazer sádico em irritá-lo e nunca perdoou a filha por não ter se casado com aquele bancário promissor, que hoje é alto executivo do banco na Inglaterra. Ele rasgaria a saia e a faria voltar pelada para o quarto, de castigo até descer com uma burca decente.

    Pensa em disfarçar com acessórios. Põe uma bolsa maior, mas o tiro sai pela culatra, ela deixa a saia ainda mais curta, e reforça o ar de menininha que sua adolescência ainda mantém. Põe uma bolsa menor, também não funciona, a silhueta fica mais longilínea e as pernas parecem maiores em relação à peça, dando a impressão de que a qualquer passo vai aparecer tudo. Dispensa as bolsas e pega uma carteira de bom tamanho, esperando que isso resolva... mas o espelho malvado diz o contrário. Sem nada mais, a novidade fica muito evidente, a cintura e as pernas ficam muito destacadas e ela ganha um ar de artista de cinema que não evoca boas impressões por seu pai.

    Sabe que salto alto e minissaia são tradicionais inimigos, mas experimenta usar um para ver o que acontece. Lá estão suas longas e bem formadas pernas, com as panturrilhas encolhidas evidenciando o derrière, dando a impressão que até quando parada um sujeito na posição certa veria a calcinha. Os tênis também não ajudam, eles retomam o ar de garotinha do papai com as pernas de fora, que o faria chorar, fazer chantagem emocional e deixá-la com sentimento de culpa pelo resto da vida. Experimenta aqueles sapatinhos meio caretas que evita usar, acreditando que eles aliviarão o visual. Mas que nada! O aspecto de santinha do pau ôco piorou tudo!

    Experimenta mudar a blusa. Põe uma regata com camisa por cima et voilà! Parece uma punk da terra dos telettubbies, toda coloridinha e, o que é pior, com um ar de Lolita que percebeu que vai atrair olhares de marmanjos que quer bem longe! Põe só a camisa branca e piora tudo, fica parecendo aquelas garotinhas dos hentais do irmão caçula que o pai lê escondido. Experimenta uma camiseta e lá está de novo a menininha do papai com as pernas de fora, mas agora com ancas e cinturinha destacadas a milhas de distância. Põe uma jaqueta e só o que aparece é a minissaia. O último recurso é deixar a blusa para dentro, mas então todo o potencial de uma minissaia emerge. Desiste!

    Senta-se desolada na cama, como mamãe lhe ensinou, coma s pernas juntinhas e inclinadas, mostrando só a elas e mais nada. Lá está a prova de que sabe se portar e que a peça não é pequena com parece. Vai ao facebook desabafar, quando se depara com a guerra ideológica de que tinha se esquecido com seu drama. Desta vez ambas as partes concordam, mas se atacam assim mesmo, por causa de mais uma medida absurda do governo que acabou sendo revogada: a obrigatoriedade cara de curso e aulas sempre que se for renovar a habilitação. Não é a primeira vez, já conversou com amigos que o Planalto está jogando essas atrocidades sabendo que vai revogar, só para o povo se acostumar a elas e aceitar melhor uma barbárie comunzinha que ele sancionar depois.

    Pensa em destilar sua raiva na direita, na esquerda, no centro e no próprio presidente, quando se dá conta da última e desesperada chance que tem de estrear sua minissaia. Tira a roupa, pega um lenço de cabelo e ata abaixo da cintura, um bustiê de ginástica e esconde suas alças, põe aqueles saltos altos, se empeteca com maquiagem, enfuna o cabelo e ensaia o andar mais vulgar de que consegue se lembrar; tem colegas que transam para ganhar nota e usam roupas bem mais comportadas, sabe em quem se inspirar. Como lingerie, mesmo incomodando, torce o biquíni até enfiar atrás e na frente. Faz o sinal da cruz e reza para não levar uma surra por isso.

    Desce a escadaria como quem vai arranjar clientes na esquina, chamando a atenção auditiva dos pais, e a gritaria começa assim que eles se viram para si...

    - PARE AÍ MESMO! VOCÊ NÃO DESCE ESSE ÚLTIMO DEGRAU NEM MORTA COM ESSE UNIFORME DE QUENGA!
    - VOLTE JÁ PRO SEU QUARTO! AGORA!
    - Mas eu marquei de sair com a turma da escola...
    - Você vai é dormir com o couro queimando e der mais um passo!
    - Mas mãe, você deixaram...
    - Eu deixei você sair para se divertir, não pra fazer todo mundo pensar que mora numa zona! VAI JÁ TROCAR DE ROUPA! E TIRE ESSA FANTASIA DE PALHAÇA DA CARA!

    Lá vai ela, assustada, vestir a blusa branca, com sapatos baixos e, principalmente, a minissaia xadrez vermelho que ganhou da avó. Capricha no batom, na sombra, no penteado, põe bijuterias de turmalina e então desce, andando como anda normalmente, com a mãe lhe ensinou, como o pai sempre gostou de vê-la andar. Pois o choque funciona. Até o ranzinza elogia a roupa, se emociona em ver como a filha está crescendo e tudo mais. Chega a turma, o casal os põe para dentro, dá recomendações e manda que avisem a qualquer problema, que saem no meio da noite se for preciso e trazem todo mundo de volta em segurança.

    A garota vai feliz para sua festa. Feliz, mas muito preocupada, porque se isso funcionou tão facilmente com seus pais, então o jogo do governo também funciona com o povo.

03/02/2018

Disney & Microsoft

OLHA O PERIGO!

    Está todo mundo com medo que a Disney compre todo mundo, não sem razão, afinal corremos o risco de dormirmos em nossas camas e acordarmos dentro de caixas padronizadas, com milhares de réplicas nossas, em uma loja de brinquedos. Mas existe outro perigo à espreita, outro bicho-papão com quase infinita disponibilidade de liquidez, que também está fagocitanto tudo o que encontra pelo caminho, só que de modo mais discreto: a Microsoft!

    Enquanto nossas atenções se voltavam para a terra das teorias conspiratórias de sempre, Bill Gates começou a assediar de modo quase sexual algumas empresas de tecnologia, inclusive de jogos virtuais. E vejam só que coisa, a Disney tornou-se uma empresa de tecnologia, e é uma sociedade anônima, portanto...

    Aparentemente o apetite dessas duas insaciáveis está longe de ser aplacado, mais do que nossa dívida externa de ser paga, elas são capazes de ressuscitar concorrentes extintas só para poderem compra-las em seguida! Aventemos então duas hipóteses, em que uma compra a outra, com as conseqüências devastadoras decorrentes nas mais variadas áreas da sua vida, caro leitor. Também aventemos uma terceira e bizarríssima hipótese, com desmembramentos tão aterradores que a deixarei por último.

Se a Disney comprasse a Microsoft
  • Para começar, o logo da Microsoft ficaria redondo e ganharia orelhas;
  • O Windows seria inicializado com uma das vinhetas clássicas da Disney, e a Sininho abrindo tudo com um toque de pó mágico;
  • Os alertas de som seriam dados pelo Donald, inclusive os de erro;
  • Quando vocês baixassem um programa pirata, apareceria o Tio Patinhas cobrando royalties;
  • O Outlook mail passaria a se chamar Magic-Mail-Land;
  • Suas contas Microsoft, todas elas, passariam a ser também cadastros oficiais Disney;
  • Todas as informações que Gates acumulou a seu respeito, passariam a ser domínio da Disney;
  • Quem teve conta nas priscas eras do Hotmail, seria insistentemente convidado pelas princesas Disney a reactivá-la;
  • Qualquer producto Disney viria acompanhado de um aplicativo Microsoft;
  • Com esses cadastros todos garantindo um público, suas contas te dariam descontos e facilidades em tudo o que leva a marca Disney, e é MUITA COISA;
  • Seu antivírus oficial se chamaria "Darth Vader Cleaner";
  • Gadgets sem ao menos um aplicativo Microsoft, ficariam mais lentos dentro do parque;
  • Onde quer que se venda qualquer coisa da Microsoft, também se venderiam artigos da Disney;
  • Os custos das duas marcas cairiam e seus productos seriam onipresentes
  • A Disney compraria a Paramount;

Se a Microsoft comprasse a Disney
  • Para começar, o logo da Disney ganharia quatro cores e o aviso "Aguarde enquanto o filme é carregado";
  • Os personagens, inclusive Marvel e Star Wars, se tornariam nerds e dariam dicas explícitas de informática, sempre alertando contra cópias piratas;
  • O Clube do Mickey seria transmitido do Mundo Digital do Vale do Silício;
  • Filmes clássicos, que fizeram a fama da Disney, virariam jogos interativos, com o jogador alterando a trama e o final;
  • Todos os cadastros que a Disney tem, se tornariam contas das Microsoft, inclusive e-mail;
  • Todos os dados que a Disney acumulou a seu respeito, passariam a ser domínio da Microsoft;
  • Quem visitou a Disney nos últimos cinqüenta anos, receberia e-mails institucionais convidando os descendentes a reviverem o sonho de seus avós;
  • Qualquer aplicativo Microsoft viria acompanhado de um bonequinho Disney, inclusive softwares corporativos;
  • Com esses cadastros todos garantindo um público, inclusive aquelas cartinhas para a Branca de Neve, suas contas te dariam descontos e facilidades para tudo o que tem o logo Microsoft;
  • Gadgets com qualquer software Microsoft dariam descontos na entrada da Disneylândia;
  • Onde quer que se venda qualquer coisa da Disney, se venderiam também artigos da Microsoft;
  • Os custos das duas marcas cairiam e seus productos seriam onipresentes;
  • A Microsoft compraria a Apple;

    Se ambas se comprassem simultaneamente, em uma tentativa de chegar uma na frente da outra, usando das mesmas artimanhas para fechar negócio primeiro, teríamos o colapso econômico de um moto perpétuo de compra e retrocompra, que faria um capital gigantesco girar alucinadamente, cada vez mais rápido, gerando um quadro de hiperdeflação que faria a produção de uma mega corporação não valer nada, com o mesmo efeito para pequenos produtores rurais, o que obrigaria o governo americano a declarar Estado de Exceção e interferir nas duas companhias, antes que toda a liquidez do mundo virasse pó; mas então as duas já teriam comprado a China.

    Nesse cenário, o público acabaria querendo ver qualquer coisa que não levasse a janela de quatro cores ou a bolinha de orelhas, e pequenos empreendedores de garagem teriam seu público, apenas dizendo "No Disney and no Microsoft" em suas fachadas, e a hipercorporação não poderia fazer nada sem o risco de perder clientela por queda de popularidade, o que geraria trilhões de dólares de prejuízos na bolsa, como sempre tem sido; mas o mundo já não seria mais o mesmo, Charles.

26/01/2018

Da Lapônia tão distante, vêm os Sami

 

    Quem já pensou em "Círculo Polar Ártico", provavelmente trocou as bolas. A maioria logo pensa nos Inuits, que não gostam muito de serem chamados de "esquimós", vivendo em iglus, caçando focas e pescando em buracos no gelo. Isso quando não pensa em pinguins, que são aves antárticas. Não é de se recriminar, o que acontece naquela região fica quase sempre restrito aos países que ela une, quando algo vem ao resto do mundo é quase sempre alguma matéria rasa e sem noção sobre Papai Noel, com "Oh, eles matam renas para comer", como se nós não fizéssemos o mesmo com bois; os indianos também comeriam renas, se pudessem.

    Bem, os Inuits até estão nesse rolo, mas são apenas a parte mais conhecida e estereotipada da que tem sua maior parte na Finlândia, assim como a Amazônia, que abrange vários países, está quase toda no Brasil Como? Sim, é onde vive Papai Noel! Agora já sabe para onde mandar sua cartinha, mas isso é outra conversa, então boa sorte e voltemos ao tema.

    Graças ao Alasca, comprado dos russos por uma fortuna bem antes de o petróleo ter peso econômico, os Estados Unidos têm uma pequena área dentro do Círculo Polar Ártico, que abrange o norte também do Canadá, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Na Europa, é a região convencionalmente chamada de Lapônia. A região é chamada de Sápmi pelos nórdicos, e seus habitantes, que chamamos de lapões, são os Sami, que chegaram lá há mais de quatro mil anos, ou seja, antes de os países escandinavos existirem formalmente. Já havia lá gente há pelo menos oito mil anos, mas as coisas mudavam muito devagar naquela época. Não é um lugar para qualquer um viver, só mesmo os sami (ou saami, ou same) se sentem à vontade em um lugar onde gelo à temperatura ambiente, ao ar livre, não causa espanto. Daí vocês podem deduzir que eles não matam renas por sadismo, elas são o centro de toda a sua cultura, por séculos eles dependeram quase que exclusivamente delas para sobreviver. Isso é por necessidade, não por maldade. Com quatro milênios nessas condições, pedir que troquem repentinamente o bife de rena por uma salada macrobiótica, francamente, é idiotice!

    Apesar de todos falarem o idioma sami (mas fluentes em sueco, norueguês, finlandês, russo, alemão e francês, até vão bem no inglês) e terem peles apropriadas a uma região que passa metade do ano no escuro, as caraterísticas físicas deles são muito, mas muito diversificadas. Desde indivíduos de aparência embrutecida até adultos que parecem bebês, o leque é quase infinito. Lembremos que havia habitantes na Lapônia quatro mil anos antes de os sami chegarem, o longo isolamento preservou características primitivas, como queixo forte, nariz largo, lábios fartos e cenho proeminente. Diga-se de passagem, são características comuns a muitos grupos de negros africanos, o que ajudou pesquisadores a descobrirem as origens da espécie humana.

    O gosto por padrões em cores fortes também é algo em comum entre os samis e as tribos africanas, mas a própria separação geográfica milenar encerra por aqui as semelhanças. Para começar, viver com pouco, quase nenhum sol a maior parte do ano, com uma pele muito pigmentada, é um problema sério. Pele negra é espessa e forte, quase não entra luz nela, com isso a produção de vitamina D fica prejudicada, imaginem isso em lugares mais centrais, longe de qualquer fonte de pesca. E pele negra com a neve de fundo, mesmo usando peles com pelagem clara, fica muito evidente, perigoso em uma época em que a camuflagem natural era uma das poucas defesas de um primata desengonçado: nós. Uma pele muito clara, se é bem mais frágil, aproveita melhor a pouca luz disponível, e a facilidade com que cora permite ver com rapidez e precisão qualquer problema causado pelo frio, a transição do rosado para o arroxeado fica muito evidente. Não que não haja gente mais corada entre os sami, há, o que só enriquece muito a genética deles, mas é regra encontrar gente com praticamente nenhuma melanina e cabelos praticamente transparentes. Esses cabelos acabam agindo como um isolamento, deixando a luz passar, mas separando o couro cabeludo do ar frio.

    Decerto que com o tempo, e a organização social mais sofisticada, se esconder de predadores não era mais tão necessário, mas identificar alguém do grupo de longe, era, especialmente crianças. Com tanto tempo de isolamento, eles desenvolveram sua própria cultura, e o gosto por cores fortes migrou para a indumentária, que tem em matizes intensas de cores primárias e secundárias quase uma identidade nacional. Talvez tenham deles os russos herdado a arquitetura básica de seus trajes típicos, há muitas semelhanças. A necessidade de se destacarem da neve, em prol de sua própria sobrevivência, os faz harmonizar cores fortes até com o bege do couro cru. Com variações étnicas e de vestuário típico de país para país, um sami reconhece outro e todos são reconhecidos pelos escandinavos.


    A índole sami é boa e agradável, eles são muito acolhedores e gostam de tratar bem as visitas, mas não é chegar como tu chegas à asa da tua avó e ir abrindo a geladeira (que no caso pode ser qualquer porta de saída) auto lá! Eles são pastores, faz pouco tempo que "sami" e "pobreza" eram quase sinônimos, em países que só começaram a desenvolver seus interiores depois da segunda guerra. Faz bem pouco tempo que o preconceito contra os índios da Escandinávia começou a baixar. Sim, "índios", pois eram a população original do extremo norte da Europa, é assim que até hoje são vistos. E sabe o que mais? Isso não os incomoda, desde que tratados com respeito. Por tudo isso, apesar de se alegrarem com praticamente qualquer coisa, eles são bem reservados, ainda hoje havendo quem viva do pastoreio de renas, tanto mais quanto mais ao norte, onde plantar uma horta é quase impossível; o Alasca sabe o que é pagar peso de ouro por uma folha de alface!

    Por essa lida tão antiga com as renas, os pastores se tornaram habilidosos no pastoreio, preparando o laço e indo ao seu alvo com a desenvoltura que só vemos em espetáculos de cowboys americanos, tudo com uma naturalidade espantosa, para quem não é sami. Embora a tração animal ainda seja MUITO importante, snowmobils modernos são comuns, e os esquis são para eles quase como as
bicicletas para nós, só que sem o risco de soltar a corrente. Eles até acham engraçado quando alguém de fora ATÉ HOJE chega e se espanta ao verem-nos morando em confortáveis casas de madeira, com todas as conveniências modernas. Até hoje, mesmo na Europa, há quem pense que eles vivem naquelas mesmas tendas de couro com armação de madeira, no estilo dos índios americanos, que também há muito não vivem assim. Um sami está mais bem adaptado ao modo de vida moderno até do que a gente do sul, o que para eles é praticamente todo mundo. E usufrui dessa modernidade sem medo, sem as culpas e neuroses que tomaram conta do ocidente.


    Meu amigo, estamos no século XXI! Ninguém foi para a parte mais inóspita do continente em buscca de refúgio espiritual, aquela gente migrou para onde era mais fácil sobreviver na época. Toda a cultura que eles formaram, foi forjada pelo ambiente! Eles preservam essa cultura com muito prazer, mas não faz sentido correr o risco de morrer de hipotermia só para atender às expectativas de puristas. Virtualmente tudo está preservado, inclusive a "Aceitação" que equivale mais ou menos ao debute. A vida dura de trabalho árduo faz parte dessa cultura, faz parte da identidade sami. A simplicidade quase previsível dos campos gelados, facilita meditar e desestressar, porque eles sabem que as coisas não virão antes do tempo porque querem que venham, então nem adianta fazer beicinho, não é para baladeiros. Claro que com isso, a civilidade também é potencializada, porque eles sabem que vão cedo ou tarde, depender da ajuda dos amigos.

    Quando eu digo "gente civilizada" não me refiro à finesse sofisticada e repleta de códigos da aristocracia inglesa. Eles não são grossos, mas se reconhecem como indígenas, que no caso é quase o mesmo que "caipira". Sua boa educação é adaptada à rusticidade da vida que ainda é comum entre eles. A civilidade é voltada mais ao respeito pelo próximo e pelo que é do próximo; inclusive o espaço do próximo, entenderam, manés de som automotivo? São fortes, dado o estilo de vida que levam, mas não se privam de apreciar as delicadezas que sua própria cultura ajudou a valorizar. Se tu irritares um deles, saberá o que é um casca-grossa no pior estilo viking. Se caíres em suas graças, meu amigo, pode deixar e-mail, perfis de redes sociais, endereço e até número de telephone; vão te cobrar mais visitas.


    No início do século, eles começaram a se organizar e exigir tratamento digno de seus países. Nada de pedir favores a políticos e órgãos estatais, eles foram mostrar que existem e eram tratados como se não existissem, que os escandinavos estavam enriquecendo rápido, mas o fluxo de recursos públicos não chegava como deveria até eles. Daquela forma ordeira e contundente dos nórdicos, eles se fizeram ouvir e respeitar. Em países acostumados a respeitar seu povo, isso foi relativamente fácil. A cultura, que era a identidade sami, torna-se hoje também um negócio. Os europeus, especialmente nórdicos, vão ver e até viver um pouco de suas origens. Ainda há tendas tradicionais, ainda há gente vivendo como há milênios, mas não com a precariedade de outrora.


    Agora, quanto ao que eu disse sobre a aparência deles... Quando eu falei de adultos parecendo bebês, eu não estava brincando! É ver um rosto arredondado e suave, com boca pequena e olhos vivos, mas com corpos esculturalmente formados abaixo do pescoço. Não é modo de falar, é literalmente assim! É comum entre os escandinavos, às vezes gera constrangimento com quem sai do continente americano, mas naquela latitude, é muito comum! Por isso recomendo cautela aos turistas, porque a unidade familiar ainda é muito valorizada naquela latitude, mesmo com toda a liberdade de que novas gerações usufruem. Justamente essas novas gerações são as que mais tem literalmente vestido suas tradições, especialmente vendo o europeu médio pisar em ovos para assumir a própria.


    Não são uma sociedade fechada, tampouco arreganhara para qualquer um, a hospitalidade que citei reforça isso, mas aprender o idioma sami ajuda muito a lidar com eles. Não, não é obrigatório, mas é um sinal de boa vontade que eles sabem retribuir. Respeitando a cultura deles, ao contrário do que acontece na maior parte do oriente, eles respeitarão e se interessarão pela sua. Afinal eles são a raiz de praticamente toda a Europa, mesmo assim se valem de toda a tralha cibernética moderna como qualquer pessoa comum, especialmente os jovens, como eu já disse, para divulgar e perpetuar sua cultura ocidental bem diante dos detratores idólatras de utopias.


    Eles não fazem discursos prolixos e retóricos, quando dão bom dia, simplesmente se assumem sami com tudo a que tem direito, naturalmente. São pessoas simples, pragmáticas pela necessidade histórica, que não vão perder tempo com o que e quem não lhes interessa. Ninguém verá em seus perfis no facebook "Bom dia, eu sou sami! Eu que sou sami, estou aqui para dizer que sou sami, como vão vocês, sami e não sami?" eles sabem quem são e vivem o que são, não precisam que lhes seja ensinado por quem não vive entre eles.

    Enfrentam alguns problemas comuns com o resto do ocidente, como a baixa da natalidade, o que só fez aumentar o arraigamento cultural. Eles querem que a posteridade usufrua de sua cultura, mas para isso precisam de uma posteridade, e estão lutando bravamente para a terem. Porque se dependerem de gente de fora, mesmo dos "bem intencionados" o sami some.

Um artigo interessante de quem viveu algum tempo com eles, clique aqui.

Sobre os sami, ver aqui e aqui.