15/03/12

Ciber-trouxas

Vende-se Chrysler Turbine conversível V8 0km placa preta. Para desocupar garagem.

Início de século XIX, parece que tudo copia o início do século XX, não necessáriamente o que seria interessante.

Recentemente, no Blog dos  Carros Antigos (este aqui) o amigo Nikollas publicou dois casos de conto do vigário que me deixaram pasmo. Parecie que eu lia uma página policial da bélle époque.

O primeiro (este) oferecendo um Mercury coupé 1951 em restauração, com o teto rebaixado e pronto para um excelente hot rod. Preço da pechincha: R$ 6.000,00. Fossem R$ 60.000,00 eu me calaria e acharia barato, mas o anúncio do Mercado Livre ofereceu o carro todo por menos do que vale o motor. O mais intrigante, é que o patife não se deu o trabalho de editar as phorographias, quem investigou chegou rapidamente à oficina americana onde ele está sendo reconstruído. Isso mesmos, amigos, o carro nem mesmo está no Brasil, não está à venda e o dono certamente não conhece ninguém em Santa Catarina, de onde o malandro diz que é. O golpe é tão grosseiro, que ele sequer apagou o link www.fquick.com que está no rodapé das imagens. Um dos leitores do Nikkolas foi lá, leu o anúncio, xingou o sujeito de diabo e todo mundo, mas ele parece não ter tomado vergonha.

O segundo (este) oferece um Cadillac Coupe DeVille 1954, um tremendo clássico que pode ser visto nos melhores filmes dos anos cinqüenta e sessenta, apenas precisando ser pintado e montado, por sensuais R$ 5.000,00... O motivo seria desocupar espaço na garagem... Cinco pilas não compram nem os pneus de um Caddy desta estirpe! Um carro desses, ruim, vale setenta mil, muito bem comprado. Mais uma vez o vigarista não se preocupou em disfarçar e, como no outro anúncio falso, encheram-no de elogios pela raridade.

Ele também publicou no blog uma photographia da Lana Del Rey no estilo pin-up ingênua, mas isto é outra história. Vejam-na aqui. Mas advirto que nem ela, nem a Chevrolet em que fez a cena, está à venda.

Vocês, jovens, devem estar se perguntando 'como uma ferramenta tão boa como a internet pode ser usada para fins tão torpes?', no que eu respondo que SEMPRE FOI ASSIM. Quando as notícias vinham só por papel, os vigaristas publicavam anúncios tentadores nos jornais, oferecendo de tudo por preços inacreditáveis, com histórias comoventes para justificar a pechincha. O otário, comovido e vendo a chance de um negócio espetacular, dava o sinal e aguardava os trâmites legais para a transferência do bem vendido. O vigarista se despedia com a grana no bolso e ia encontrar outra vítima, quando todas estavam devidamente depenadas, desaparecia da cidade. Não, garotada, o golpe é maias velho do que cair de costas, e vocês não são nem um pouco mais esperto do que seus antepassados, só porque sabem mexer em brinquedos cibernéticos que eles nem sonhavam ter. Vocês são tão trouxas quanto eles. Aliás, o facto de muitos de vocês se acharem muito espertos, os faz alvos fáceis, porque eles sabem se passar por idiotas, para vocês ganharem autoconfiança demais e deixarem a prudência de lado.

Sites falsos de empresas renomadas, nada mais são do que as caravanas itinerantes, que se diziam representantes de grandes marcas que ainda não tinham representação da região, vendiam quinquilharia de baixa qualidade e nunca mais davam as caras; isto, aliás, ajudou a dar a má fama aos plásticos, vendendo tupperwares genéricos feitos de material ruim, logo depois de a verdadeira linha ter se firmado no mercado. Da mesma forma, vocês vêem um artigo com preço de ocasião, com todas as garantias virtuais possíveis, paga o boleto ou (pior) passa os dados do cartão e... Quem foi que comprou mesmo aquele carro no teu nome??? Pois é, bem, a proliferação desse golpe prova que o velho ditado precisa ser revisto. Antes, 'a cada cinco minutos, nascia um otário', hoje nem o sexagésimo segundo eles esperam para pipocar aquii em baixo.

O princípio básico é o mesmo. O trapaceiro vê algo que esteja com procura crescente (no caso, antigomobilismo e memorabilia) e planeja com cuidado o golpe. Vê em que ponto pode conseguir vítimas e lá se instala, tendo o cuidado de jamais revelar sua identidade, dando nomes falsos, contactos falsos, mas sempre procurando envolver o pato a ser depenado. A conta para dar o sinal, esta sim é verdadeira, a documentação usada para abrí-la, nem sempre. Anunciando uma pechincha, por motivos que aos leigos parecem plausíveis, ele aceita vários compradores, recebendo vários depósitos de sinais e nunca mais dá notícias. Depois faz outro anúncio falso, com outra pechincha, outro nome falso, telephone falso, et cétera. Ele sabe que alguém vai querer aproveitar uma bagatela, que alguém não resistirá em levar vantagem, que muito jovem ansioso por ser antigomobilista, ficará cego com o anúncio.

Levar vantagem é o principal motor de quem cai nesses golpes. Sabem aqueles desenhos animados 'antigos', em que alguém vente a Ponte do Brooklin? Pois é verdade. Durante os anos da Grande Depressão, muitos pilantras, que convenciam suas vítimas de que eram representantes do governo americano, vendiam monumentos por preços inacreditáveis. Convenciam porque todo mundo estava duro e comprar coisas boas por merreca era comum. Virou piada recorrente, mostrar um personagem irritado porque ninguém lhe pagava pedágio, por passar na sua ponte. Quando a Missão Apolo 11 voltou à Terra, mais uma leva de trouxas apareceu, comprando terrenos na Lua. Inclusive em Rio Verde, no sudoeste goiano, muita gente comprou por uma ninharia, lotes que davam vista para a terra inteira. Preciso dizer que tiveram que agüentar piadas pelo resto da vida?

Crianças, jantares grátis até existem (ou pensam que seus pais esperam que vocês dêem retorno financeiro?) mas nunca em relações comerciais. Uma provável evolução humana, nestes milênios de civilização, foi muito pequena para fazer a diferença, quando se tem a chance de passar o outro para trás. Quando o sujeito decide viver disso, e não consegue virar político, ele parte para a vigarice sem o menor pudor. Ele não vai querer saber se aquele é todo o dinheiro que a sua família tem para passar o mês, se é para comprar o remédio controlado que o goverrno se recusa (mesmo com ordem judicial) a fornecer, ele não está nem aí, ele quer tirar seu dinheiro e sumir do mapa.

Não são só os vigaristas que enganam o incauto, websites de empresas tradicionais também fazem besteira, e muita. Os jornais estão repletos de leitores reclamando de entregas não feitas, productos quebrados não trocados, dinheiro não devolvido (é ruim!) e mais uma pancada de queixas. Balcões virtuais de empresas aéreas, então, vendem a mesma poltrona para dois ou três passageiros sem constrangimentos. Certo, aqui é erro do sistema, mas quem programa o sistema é a empresa, há como bloquear a revenda de lugares. Não é tão inevitável assim, as ocorrências são muito mais freqüentes do que seria aceitável. Até sites governamentais costumam fazer o anti-vírus disparar.

Não existe receita para evitar cair em um golpe, até gente culta e experiente, com tudo favorável, pode perder seu suado dinheirinho para um golpista com aspecto acima de qualquer suspeita. Mas há comportamentos que facilitam muito a vida do malandro. Quem quer levar vantagem e se acha muito esperto é o pato do dia, sempre. Confiar em histórias comoventes, que explicariam preços exageradamente baixos, é outro sintoma de trouxite aguda. Quem está desesperado, vai dar um baita desconto, sim, mas não vai oferecer um artigo fino para leigos e nem dá-lo de graça, como os falsos anúncios supracitados. Em um desespero, o vendedor honesto dará o desconto sem jamais desvalorizar o producto, oferecerá para gente que conhece do assunto, porque leigos e curiosos só vão encher a paciência. Não dará detalhes de sua vida pessoal para todo mundo ver e não publicará imagens que não forem do que está vendendo, fornecendo todos os dados para que o potencial comprador possa se assegurar da sua idoneidade. Dizer que vai mandar um amigo, que mora na região, examinar o artigo, quebra a perna do vigarista. Principalmente no caso de carros antigos, em que muita gente conhece entusiastas de várias partes do país.

Jantar grátis, só em casa, e só enquanto se é criança. Não tenha preguiça nem pressa de verificar a autenticidade dos sites, é muito fácil colocar uma extensão a mais, e dar credibilidade a uma página falsa. Não tenha preguiça nem pressa de procurar quem conhece o assunto, é muito fácil enrolar leigos com termos técnicos fajutos e falsos, pela internet. Não tenha preguiça nem pressa de imprimir o boleto e ir pagar no banco, pelo menos nas primeiras compras, assim evita-se passar dados de seu cartão a bandidos, uqe podem te envolver em cousas piores com isso. Não tenha preguiça nem pressa de consultar o procon de tua cidade (aqui) ou região, o pilantra pode até ainda não ter sido pêgo, mas se tiver é garantia de se safar de um golpe. Por último, mas não menos importante: Filhos, vocês não são espertos, são tão otários quanto seus bisavós. Quem se acha muito esperto, é justamente o primeiro a perder as calças no jogo.

14/03/12

O Trem-Bala das Sete; Paródia

fonte, o óptimo blog http://meusbrinquedosantigos.blogspot.com/

Ói, ói que trem! Vem surgindo no comercial do governo, ói o trem!

Ói, ói que trem!  Nem existe e já dá prejuízo de mais de quinhentos milhões!

Ói! Já é vem! Italiano bufando, e nos processando, é o calote do trem!

Ói, ói que trem! Não precisa bagagem, pois nem mesmo trilho ele tem!

Quem vai chorar, quem vai sorrir?

Quem vai desviar, quem vai assistir?

Pois o trem está chegando, mas só na imaginação!

É o trem-bala cheio de horas! É uma esculhambação, esculhambação.

Ói, olhe o céu! Já foi pro beleléu, a verba já foi cedo demais!

Vê! Ói que céu! É um céu engasgado e ultrajado com a lama em mar!

Vê, é o sinal! De que os picaretas, conspiram em reuniões!

Ói, lá vem Deus! Neneando a cabeça por tantos milhões de tantãs!

Ói, olhe o mal! Vem para dar abraços, pedir votos, ter seu aval!

Meeeeeeeeeeeeu Deus!!!!!!!!!!!!!!!




Esta é mais uma paródia, agora da música "O Trem das Sete" (ver letra aqui) maestralmente cantada por Raul Seixas. Não sei se os leitores sabem, mas o governo empurrou tanto com a bariga o projecto (supérfulo, para o momento) so trem-bala, que já nos rendeu um processo do governo Italiano por uqebra de contracto e calote com uma empreiteira deles. Nem rodou um milímetro, sequer existe, e já nos ameaça com prejuízos. Não sou contra, pelo contrário, mas estão gastando, mesmo sem começar a colocar nem mesmo um dormente, fortunas com a burocracia envolvida nisso, fora o desarranjo diplomático que os últimos governos tornaram comum.

Enquanto o povo se diverte com a novela da Copa, que será outra vergonha para traumatizar uma geração inteira, esquece de um pilar vital à infra estrutura e ao desenvolvimento sócio-econômico de qualquer nação continental. As ferrovias, apesar dos alardes que tem sido feitos, e que custaram dinheiro público para serem veiculados, estão mais abandonadas do que cachorro que caiu da mudança. Sim, novas estão sendo abertas, a passos de tartaruga, mas as já existentes estão servindo de sucata. Locomotivas ainda fáceis de colocar em movimento estão apodrecendo ao relento, depois da privatização mais tacanha da história da humanidade, e em relação à qual nenhuma ação foi tomada pelo governo que na época era oposição.

Aliás, uma boa malha ferroviária comercial em funcionamento, para carga e passageiros, ajudaria muito a baratear e acelerar um trem-bala que valesse à pena. Mas reduziria muito a margem para mutretas e conchavos.

09/03/12

A era do cinismo; ou: O adulto perdido


Atenção! Texto longo! Quem estiver com preguiça, volte mais tarde!

Antes de mais nada, é preciso deixar claro o que chamo de 'adulto'. Alguém que tenha entrado em coma aos oito anos e acorde aos dezoito, não pode ser considerado um adulto. Embora com plena capacidade de reprodução e agressão pela subsistência biológica, sua capacidade de discernimento e tolerância à frustração permanece estacionada na infância. Ele não conseguiu a vivência necessária ao amadurecimento psicológico, à formação moral e à capacidade de arcar plenamente com as conseqüências de seus actos. Há adultos com senso de humor afiado e crianças mau humoradas, então não é tampouco a cara fechada que os separa. Não confundamos o sujeito fanfarrão e de bem com a vida com o infantil, que se recusa a assumir os ônus de ser um adulto bem resolvido.

Antigamente (nem tanto, não faz nem cinqüenta anos) o adolescente começava a ser encarado com seriedade quando começava a ganhar seu próprio dinheiro; mais ainda se o ganho esporádico começasse na infância. Quando isso acontecia, aquilo que ele fosse capaz de suprir passava a ser negado pelos pais. Não, não havia crueldade nenhuma nisso, o arcar com suas despesas significava uma economia par a família, o dinheiro que os pais não precisavam dar ao filho para seu lazer, era empregado na casa, inclusive nos irmãos menores, que ainda não conseguiam se manter; era comum ter três ou quatro filhos, há alguns anos. O efeito era imediato. De um lado vinha a responsabilidade de alguém que via de onde o dinheiro saía, e assim também que ele não seria reposto se acabasse antes da hora. Por outro lado, o adolescente se via na regalia de não dar satisfações do uso que fazia de seu dinheiro, sempre estufando o peito e enchendo a boca para dizer "Meu dinheiro" a qualquer um que criticasse ter comprado um gibi do Zé Carioca. Ainda que os hormônios da pouca idade agissem, a razão sempre puxava a orelha por alguns excesso. A garota tinha que moderar a compra de maquiagem e roupas, com isso passava a prestar mais atenção à despensa da casa, primeiro comprando o que queria comer, mas aos poucos colaborando para o consumo da família.

Qualquer ser pensante é contra a exploração do trabalho infantil, mas também é contra a histeria que transforma a vida da  criança em uma bolha de prazeres e conveniências, isenta de responsabilidades. Querer processar uma mãe que manda o petiz lavar o prato em que comeu, é uma das muitas atrocidades civilipatas que já li em jornais. Não, caros leitores, não estou brincando, o episódio já aconteceu mais de uma vez no triste reino dos Goyazes. Se a criança não tem obrigação de ajudar nas lidas da própria casa, nem mesmo cuidando de sua sujeira particular, vai sentir-se na obrigação de arcar com o quê? Ao contrário do que acontece no que escrevi no parágrafo acima, aqui teremos um jovem pouquíssimo tolerante à autoridade, mesmo àquela que poderá lhe pagar os proventos, com grandes chances de não parar em emprego nenhum. Não que o passado tenha sido uma maravilha, um paraíso perdido, tem cousas ruins e tabús supérfulos que gostaria que ficassem por lá mesmo, mas também tem cousas excelentes que fazem muita falta nos dias correntes, a preparação da criança para a vida adulta é uma delas.

Alguém, nos últimos anos, andou espalhando por aí que felicidade é só um hormônio. O maior problema desta afirmação, é o facto de que um hormônio só é produzido em situações propícias. O bocó de mola acabou afirmando, por tabela, que ser feliz é ter tudo rápido, fácil e sem custo. Alguém mais andou espalhando que a felicidade é um direito inato e tudo danou-se, porque ninguém mais quer fazer por merecê-la. Alguém, nos últimos anos, soube se aproveitar muito bem disso. Caso alguém aí tenha pulado o curso da vida, aviso que eu freqüentei todas as aulas e uma das lições era, justamente, a de que para tudo existe um custo, nem sempre financeiro. As pessoas passaram a pagar para não sofrer, como se o sofrimento por um episódio não pudesse der absolutamente nada de proveitoso.

O ditado que diz "Aprender é obrigatório, sofrer é opcional" é uma jóia, diz tudo e dá entrelinhas para muita reflexão. Infelizmente as pessoas raramente aprendem sem sofrer, que o digam os maganões que passam o semestre todo na esbórnia e se ajoelham aos pés do colega nerd, às vésperas da prova final. Neste contexto ilustrativo, é fácil perceber que a maturidade plena não existe no reino dos homens, mas também que não precisamos dela para sermos adultos plenos e bem resolvidos, mais úteis do que perigosos à sociedade. Aprendemos como podemos, de acordo com as nossas limitações individuais, se quisermos aprender algo com a vida. Aliás, se pudéssemos ser plenamente maduros, não seríamos humanos, seríamos anjos e não estaríamos aqui, eu não precisaria escrever a respeito para vocês e viveríamos felizes para todo o sempre. Aos que não acreditam, não adianta dizer, aos demais devo esclarecer um mito sobre os anjos: Eles não ficam deitados em nuvens, tocando harpa pela eternidade. Anjos trabalham dura e continuamente, arcando com responsabilidades e dificuldades cada vez maiores à medida que aprendem e crescem. Vida de anjo é responsabilidade eterna.

As conseqüências de a criança não se acostumar às frustrações e responsabilidades, inerentes a qualquer vida mental saudável, se refletem nos noticiários de atrocidades cometidas por garotos que não aprenderam a compreender a dor alheia, simplesmente porque não aprenderam que o outro (no caso, seus pais) se esforça para trazer comida e conveniências para dentro de casa. Ele não vê a comida sequer saindo da cozinha, já a encontra arrumadinha sobre a mesa, come à moda suína e deixa a bagunça para trás, apenas querendo que tudo esteja arrumado quando voltar. A cena descrita, antes restrita a jovens mimados de classes mais abastadas, agora é democraticamente distribuída entre jovens mimados até das famílias mais pobres. Estão poupando as crianças de tudo, inclusive do que lhes garantiria a própria felicidade, sem ter que comprá-las em uma drogaria, ou uma boca de fumo: sua noção de limites, deveres e direitos. Saber até onde pode e deve ir, para usufruir ao máximo da parcela de liberdade que lhe cabe. Sim, queridos leitores e queridas leitoras, a parcela de liberdade que lhe cabe, porque quem excede o que lhe é de direito, invade o direito alheio e tolhe sua liberdade, como os mongos que ligam som automotivo no último volume, se lixando se por perto há residências, uma escola ou mesmo um hospital. Isto é um exemplo tênue, perto do que já estou perigosamente acostumado a ver.

Com tamanha pseudo-liberdade dada aos jovens, sem qualquer contrapartida cobrada, a juventude deixou de ser uma fase dourada para se tornar um sonho de consumo, esperta e perversamente deturpado como tudo o que pode dar dinheiro. Marmanjos com filhos já grandes, se comportando como se fossem adolescentes, especialmente ao volante, proliferaram assustadoramente, mais do que mamona em campo aberto. Já disse uma vez e repito: Sua vida não é da minha conta enquanto não invadir a minha vida. O problema é que essa gente perde completamente a noção de limites, e acaba acreditando (e agindo como) que qualquer lugar em que esteja é seu território, e que todos lá estão exclusivamente para lhe dar prazer. Experimente, moça, recusar uma cantada nos dias de hoje. Experimente, rapaz, recusar uma oferecida nos dias de hoje. Eles invadem a vida alheia e muitas vezes querem se apoderar dela.

Mas se são questionados por sua conduta, acham-se no seu direito, bradam e retorizam bizarramente para continuarem a invadir o direito alheio. Com a ideologia da liberdade sem limites, as pessoas estão se acostumando a serem cínicas, fazer de conta que não é com elas e partir para o ataque se houver insistência em tirar seu carro da saída de ambulâncias. Uma das táticas verbais é relativizar tudo ao extremo, como afirmar que "no meu ponto de vista, não estou atrapalhando, estou em via pública, bla, bla, bla", ou mesmo descer e agredir fisicamente, com ameaças, o cidadão indignado. Uma parcela demasiadamente expressiva da população acabou acreditando que o mundo é seu quintal particular, e enquanto não encontrar alguém mais forte pela frente, age como se os outros fossem obrigados a lavar o prato sujo que deixou na mesa.

Patrocinando tudo isso, há um congresso que faz leis permissivas não pensando na proteção do cidadão, mas na própria contra o cidadão. Dar ao garoto o direito de voto, mas negando-lhe a responsabilidade criminal na medida de sua compreensão, é um meio de proteger os próprios filhos. Ainda hoje não esqueço do filho do ex-ministro que dirigiu sem carteira, matou e saiu impune. Vem dessa gente, aliás, a demonstração mais contundente de que o Brasil tornou-se uma nação de cínicos, onde dar de ombros ao direito do outro é aceitável, ser pêgo em delito e sorrir para a câmera dá status, entre outras fofuras. Disseminam seu comportamento egoísta e infantilesco, a despeito das rugas, pelos escalões inferiores de seus partidos, fazendo todos acreditarem que é normal ser cínico. Sendo cínicos, eles conseguem jamais admitir que podem estar errados, que sua ideologia pode conter erros, que seus actos podem ser errados, que seu partido pode estar errado. O "errado" passa a ter o significado que eles querem, de acordo com seus desejos no momento, desejos que mudam com as oportunidades.

As bases partidárias não ficam de fora, afinal é a massa de manobra dos malandros. Simpatizantes são orientados a atacarem qualquer um que demonstre não concordar com as diretrizes do partido, não importa que seus líderes tenham sido filmados em pleno exercício do ilícito. Neste momento, todos os de fora são golpistas, inimigos da nação, inimigos do povo, inimigos do direito particular, inimigos, na verdade, dos caprichos pessoais que eles colocam no pedestal, como se fossem a coisa mais importante e carente de proteção em todo o universo. Sim, queridos leitoras e leitores, nossos dirigentes não são simplesmente pilantras, eles são necessitados de tratamento psiquiatrico urgente, são incapazes de conviver pacificamente em sociedade sem prejudicá-la. Mas nem pensem, os mais exaltados, em dar cabo de um deles; vira mártir da causa, passa a ter sua vidinha torpe romanceada e passa a figurar como herói nas cartilhas do partido.

Uma forma eficiente de disseminar esse cinismo, é pela infiltração nas academias. Com a facilidade de hoje, com que se relativiza toda e qualquer expressão, fica fácil fazer interpretações absolutamente novas a qualquer frase, imaginem então um facto histórico. Convencendo os garotos de que querem tolher seu direito individual ou liberdade de escolha, assim apelando para os hormônios em ebulição, cria-se uma massa apaixonada que agride qualquer um pela "causa". Nada muito diferente das torcidas organizadas, só que estas sabem que estão defendendo apenas um entretenimento, enquanto eles realmente se convencem de que a coisa é séria. Questionamentos contrários? Cinismo neles! Com os aplausos da cúpula da academia, até quebrarem a cara, quando se virem sozinhos no mundo real, vão fazer malcriações e morder as mãos que poderiam ajudá-los, como se fossem reivindicaç~eos de gente séria. Não importa resolver o problema, importa discutir junto ao enquanto perante no nível de, enquanto a infra estrutura do país se esfarela.

No ano passado, um amigo do Rio de Janeiro propôs uma marcha contra a corrupção,  convidando os cariocas com grande antecedência, animado pelo sucesso da parada gay e seus 2,5 milhões de manifestantes. Ele conseguiu o impressionante contingente de zero mil zerocentos e zerenta e zero participantes. Em vez de uma marcha pelo bem comum do país, acabou tendo que fazer um passeio solitário pela orla. Quando o interesse é próprio, restrito à turma e seus prazeres pessoais, fica fácil arregimentar simpatizantes. Quando a coisa é pela necessidade de todos, pelo que até os seus desafetos serão beneficiados, então o interesse desaparece. Todos querem um Brasil melhor, desde que o outro grupo seja excluído. Estão no seu direito, né! Por que citei a parada? Porque é o exemplo mais contundente, nem os participantes dela, que poderiam ter assim conseguido a simpatia de quem ainda tem preconceito, fizeram o favor de mandar alguns representantes, que fosse. O Renato passeou com a esposa e alguns cães de estimação, acabou sendo uma cão-minhada contra a corrupção em família. Mas o Renato, que perde os dentes, mas não perde a piada, é adulto e não guardou mágoas de ninguém; só guardou os nomes, sobrenomes, endereços e já entregou tudo para uma bruxa resolver.

E tudo isso começou em casa, com a criança sendo poupada de tudo, até do dever de fazer metade de tudo o que faz na vida: estudar. A outra metade é existir. Esta única obrigação, para que não seja alvo de traumas, frustrações e todo um discurso de quem jamais pisa em sala de aula, faz o petiz ter certeza de que vai para o ensino médio sem sequer saber desenhar o próprio nome. Afinal, né, tem balada toda noite e não vai deixar de postar photographia de bebedeira e promiscuidade no orkut, para estudar e aprender o que não quer. Os pais, quando a directoria se dá a dignidade de convocar, apenas dizem que não sabem o que fazer e que deixam nas mãos da escola toda a criação dos seus filhos. Filhos, muitas vezes, gerados ainda na adolescência, quando a cultura de massas da felicidade pela permissividade estava se consolidando no Brasil... E de certa forma, no resto do mundo inteiro.

Mães e pais, vamos ser um pouco duros com as nossas crianças sempre que necessário, desde bem cedo, para que elas aprendam de forma segura que a vida pode ser (e quase sempre é) muito dura e perigosa com quem não respeita suas regras. Elas precisam aprender que todo o universo tem regras, que não existe liberdade plena nem sem conseqüências. Depois de aprendido, se puderem, se houver mérito por parte dos pequenos, sejam legais com eles. Assim eles serão adultos realmente felizes, mesmo que não tenham tudo o que desejam na hora e sem fazer por merecer. Sai até mais barato do que ser permissivo. Dizer sim, quando percebem que já se pode, faz bem às duas partes. Eu estou pedindo com carinho, porque a vida não será nem um pouco carinhosa, nem com eles, nem com vocês.

05/03/12

O que é o Fusca?

O terceiro mais vendido? Está láááá atrás!

Para os leigos, especialmente aqueles que acreditam em tudo o que ouvem, ele é muitas cousas, poucas delas agradáveis.

Muita gente reclama da pouca estabilidade; meia verdade. Basta dizer que a Divisão 3, formada exclusivamente por Fuscas, foi sucesso de público por muitos anos, especialmente em Brasília e no eixo Rio-São Paulo. Mesmo com a falta de recursos dos anos setenta, aqueles redondos faziam curvas incríveis, eram diversão garantida. A questão é ter sensibilidade e perceber os limites do carro, que mesmo original pode render boa diversão em fins de semana. E seus motores duravam muitas provas sem serem refeitos, às vezes uma temporada inteira sem precisar abrir. Mesmo com as saídas de traseira, os pilotos conseguiam dominar os carros, então é mais questão de conhecer o próprio carro do que qualquer outra cousa. Basta agora dizer que já houve corrida de Kombi, em que os motoristas experientes deixavam os expectadores com o coração na garganta, saindo incólumes das curvas... Isso antes de a Kombosa ganhar a suspensão nova, pelos idos de 1977.

Alegar que é um carro ultrapassado, também é meia verdade. Tendo sido concluído em meado dos anos 1930, eu adoptei 1936 como seu ano de nascimento, os anos vinte estão nos detalhes, e os trinta por toda parte. Para começar, ele tem estribos. Que raios de carro teria estribos, hoje em dia? Olhe bem e veja os chamados crossovers; em sua maioria carros de tração dianteira, imprópria pra o fora-de-estrada, que recebem penachos de plástico para parecerem bravos. A moda dos SUVs trouxe o estribo de volta à voga. Embora ruidoso, para os padrões vigentes, o bom e velho motor boxer refrigerado a ar, de onde nasceram os cascas-grossas da Porsche e da Subaru, foi devidamente regulado pela Chamonix para equipar suas réplicas de Porsche, exportadas até para a Alemanha, onde as leis de emissões são rigorosíssimas. Além do mais, ele não usa a tóxica mistura de água e fluido anti-térmico, que jamais deveria sair dos radiadores directo para a rede pluvial. Certo, os cabeçotes (peça onde 'acontece' a queima do combustível) foram desenhados como quem faz pão-de-queijo com gorgonzola, mas imaginem se tivesse sido bem projectado!

Apesar da idade, é um carro de vocação militar e quatro metros de comprimento com o peso de um Mille três portas; quase meio metro menor. A questão da deformabilidade, instalação de air bag e abs, enfim, toda essa sopa de letrinha que tanto faz a alegria dos publicitários, é até mais fácil de se instalar no Fusca do que nos carros modernos. Porque o gordo é totalmente desmontável, não precisa de muitas modificações para ele receber novos equipamentos. E já que até o Jeep recebeu pára-lamas de plástico de alto impacto, por que não o Fusca? Vocês, em sua maioria absoluta, não imaginam como é complicado pegar uma chapa PLANA e fazer aqueles pára-lamas bojudos em uma só peça! Apesar de ser basicamente simples, é um carro complicado de se fabricar.

Reclamam muito da falta de espaço. Outra meia-verdade. O NOSSO Fusca é um carro apertado. De 1968 para frente, o alemão começou a evoluir mais rápido e o nosso parou no tempo. Em 1973, eles já tinham o modelo 1303, o ápice da carroceria de um Fusca que, só para terem uma ideia, tem no porta-malas da frente o triplo da capacidade do nosso. Concorre com qualquer hatch popular, sem a ajuda do chiqueirinho, aquele espaço atrás do banco traseiro. Quem paga quase trinta pilas para andar de Celta, vamos fazer o favor, não me venha falar em falta de espaço interno! E nem do acabamento, que no Fusca sempre foi de boa qualidade, mínimo, mas de boa qualidade. O problema, novamente, é que o público leigo, que prefere matar um neurônio por dia com a televisão, não se informou de cousa alguma e deu conversa para jornalista que entende menos de carro, do que eu de da coleção de calcinhas que o Wando deixou. Com 1000cm³ e a tecnologia dos anos noventa, um Fusca renderia mais do que o 1300cm³ à etanol. Com um público tãããããão desinformado, ficou fácil deixar o bem-bom longe de nossas sanhas.

Muitos, ainda, revelando que há um tronco amebíaco na evolução da humanidade, alegam que "fusca não é carro, iac! iac! iac!". Novamente eu digo para compararem o acabamento dos populares de hoje com o do Fusca Itamar, porque nos da época era muito mais pobre. No começo dos 'populares', só o Fusca tinha pára-choques da cor do carro, pára-sol direito, luz de ré esquerda e tampa no porta-luvas; este em alguns dos outros, nem como opcional vinha. Pára-choque pintado até hoje é opcional, entre os populares. Se fosse feito hoje, ele custaria entre vinte e sete mil e trinta mil Reais, dependendo do acabamento. Por este preço, ele acompanha a maioria dos 4X4 de verdade, com a tração total engatada, sendo que ele só tem traseira. Atolou? Dois caras descem e empurram, depois seguem viagem. Experimente tirar um jipão do atoleiro, no muque. Tem que guinchar com outro jipe, com cabo de aço, sob o risco de este arrebentar e matar uns três no chicote; não, não é brincadeira, um cabo de aço tenso que se arrebenta, mata facilmente quem estiver no caminho. Um Fusca não tem esse grilo, se conseguir instalar dois motorzinhos eléctricos na frente, para ter um 4X4 mais simples, então!

Fusca "é carro de pobre" é um dos argumentos mais paupéééééééééérrimos da história da humanidade, é pior do que a da manga com leite. Dê uma busca pela internet e veja a quantidade de gente bacana que tem Fusca, não só para figurar em museus, mas para uso comum, especialmente aqui, neste curto e completo artigo do amigo Guilhon, do Planeta Fusca. É notório, no meio automotivo, que muitos compradores do Fusca Itamar gastavam o equivalente ao preço do carro para aprimorá-lo, com equipamentos e alguns cavalos a mais no motor. E a internet está cheia de provas de arrancada em que humildes Fusquinhas dão pau em V8 e afins, por uma fração do preço. Nenhum carro dá mais resultado por real aplicado do que o Fusca.

Se alguém vir com a balela de que Fusca quebra à toa, vai levar na buzanfa! Nem Rolls Royce agüenta sem manutenção. Eu conheço um Fusquinmha 1953 que é usado no dia a dia, sem dar problema. Fusca quebrar a barreira de um milhão de quilômetos sem abrir o motor, é rotina. Placa preta, ítem de carro de colecionador, quando o veículo passa de trinta anos em perfeitas condições, e no mínimo 81% de originalidade, é a predestinação de todo Fusca bem cuidado. Houvesse ilhas e pontes suficientes, seria rotina ver caravanas de Fuscas indo para a Europa, rodando, todos os anos, para os vários encontros de fusqueiros e afins que lá há com abundância. Mesmo mal refrigerado (um desleixo que a fábrica teve) é virtualmente inquebrável. Havendo posto de combustível pela frente, só precisa trocar de motorista durante a viagem. O Fusca mais antigo no Brasil está em Fortaleza, é um raríssimo modelo 1948, de quando a produção ainda era pequena. "Quebra fácil", heim? Antes que venham falar em desempenho fraco, pergunto quantos de vocês andam a mais de 110hm/h no trânsito urbano, porque esta é a máxima do Fusca 1200, o mais fraco que tivemos. O Itamar à álcool (hoje etanol) vai a 140km/h e faz de 0 a 100 em 14s, mas há quem tenha feito em bem menos; Precisa mais que isto no dia a dia? Não, então qual é a reclamação? O outro respeitar os limites de velocidade é crime?

O que é o Fusca então? O "Bom senso sobre quatro rodas"? Não, isto é o slogan mais verdadeiro da história da propaganda, mas é só um slogan. O Fusca é um conceito que começou a ser rabiscado nos anos vinte do século XX, com ideias esparsas existentes desde o fim do século XIX, e que ganhou forma pelas mãos do engenheiro mecânico autodidata Ferdnand Porsche, criador do Lohner no fim do século anterior, que é o primeiro híbrido da história. Ver mais sobre o Lohner aqui, aqui e aqui. Trata-se (o Fusca, não o Lohner) de um conceito com quase um século de estréia, que ainda hoje guarda aperfeiçoamentos que, para os conhecedores, ainda levará um tempo até chegar aos carros 'modernos'. É também uma instituição, que tem história própria e a regalia de ter nascido antes da empresa que o levou ao mundo inteiro. Ao contrário do que se pensa, é o Fusca o carro mais vendido da história. Corolla, Golf e outros, absolutamente nada têm a ver com os primeiros carros que traziam seus nomes. Se alguém disser que o Corolla vendeu mais do que o Fusca, pode-se perguntar "Qual Corolla?" O primeiro, apresentado em 1967, era praticamente um Opala  com dimensões menores. O nome Corolla vendeu mais, mas ninguém passeia em um nome, nem põe a esposa prestes a parir no banco do nome para correr até a maternidade. Mais de vinte e um milhões de exemplares tornam o Fusca, praticamente o mesmo carro do início dos anos trinta até o Vocho mexicano de 2003, o mais vendido da história. Mesmo o avançado modelo 1303 é conceitualmente o mesmo carro daquela época. O segundo mais vendido, com mais de quinze milhões e deixando os outros muito para trás, sumindo do retrovisor, é o Ford Model T.

Por que eu estou escrevendo isto, agora? Porque hoje, caríssimos, é aniversário do Volks Clube de Goiás, filiado à federação Brasileira de Veículos Antigos, e que reza por sua rigorosa planilha de qualidade, na hora de conceder ou não o atestado de originalidade, com a conseqüente placa preta. Um clube que nasceu sob a incredulidade, e até escárnio, dos céticos azedos, mas hoje colhe os frutos de seu trabalho sério e perseverante. Querem conhecer? Cliquem aqui e sejam felizes.

02/03/12

Balada n° 171 - paródia

Do genial Benett. Vai lá: http://chargesbenett.wordpress.com/

Sua prisão num escândalo, um povo bravio
Querem torcer seu pescoço ao menos uma vez
O velho pateta recorda as armações felizes
Martando gente inocente e gerando exclusão

Hoje outros temem cair na sua mesma roubada
Na malha fina balança seu último jogo
Mas pela denúncia em escondido parou
E para sempre a jogatina acabou
Suas propinas roubadas valeram de nada
Em acto flagrante dançou

Cadeia em você, cadeia em você, você roubou
Até remédio contra câncer desviou
Cadeia em você, cadeia em você, te abandonou
Do vídeo quem não foi pêgo e logo se mandou

Esconde os braços e corre pra dentro algemado
Vai dedilhando na tinta pois foi condenado
No parlamento só corrupção
Tantas mães em luto e dor no coração
Que idosas na fila caídas, por seu caráter tão bizonho
Que confiante demais um dia vacilou

Cadeia em você, cadeia em você, você matou
Até merenda de escolinha desviou
Cadeia em você, cadeia em você, te abandonou
Toda a corja que um dia você ajudou

Esta é uma paródia de "Balada Número Sete", homenagem de Moacyr Franco a Mané Garrincha, que ao contrário dos que em breve pedirão o teu voto, só deu alegrias ao Brasil, em vida. Abram os olhos! E fechem os bolsos. Abaixo, a canção com slides.



Letra original, genial e muito chorosa, clicar aqui.
Minha singela homenagem ao Moacyr, no Talicoisa, clicar aqui.

24/02/12

Maria Cristina 5

Chevy Caprice http://blogs.automotive.com

Maria Cristina, linda menina, na flor da idade em plena maturidade.

Jovial que se ouve pela voz em toques de seda perolada, sincera que se vê nos olhos em timbre piano de suave balada.

Procuro no Google, às vezes, novidades com seu nome. Nada a desabona, absolutamente nada. Para quem não tem o hábito, digite o próprio nome entre aspas, no buscador, sabe-se lá o que estão aprontando com ele! O de Maria Cristina continua como sempre esteve, desde a época do escândalo dos cartões corporativos; limpo e cristalino.

O sorriso cansado desta laboradora abnegada em seu nobre labor, ainda que denuncie as máculas enfrentadas pelo caminho íngreme, sempre derrama um jorro de luz divina em quem se dispõe a aceitar sua ajuda. Aceitar sua ajuda é dar-lhe um presente, ela fica feliz em ajudar, só com a felicidade alheia, seja quem for. Mas a orgulhosa nem sempre aceita a nossa, hm!

Apesar da turba despótica que ora transforma em um pardieiro acadêmico, aquela que noutrora foi a escola mais respeitada e disputada de um Estado da Federação, que também não anda muito malhor das pernas, sua dedicação aos seus filhos adoptivos temporários é digna de uma verdadeira mãe. Marmanjos se encabulam, pedindo licença e demonstrando o respeito que os outros não conseguem, porque não abrem a via de retorno.

A vida nestas décadas, tem sido madrasta. O uso de recursos próprios para o que deveria ser provido pelo Estado, só acelera o desgaste a que se submete. Ela tentou, há alguns meses, fazer seu mestrado, mas para isso teria que abandonar o trabalho que ama; perdeu a chance e o dinheiro já investido. Por que teria que abandonar? Porque a política da estatística acima de tudo, permite que os outros não façam a contento o seu trabalho, sem serem importunados. Quem tem amigo ou parente no funcionalismo público, sabe do que estou falando. Ela poderia estar rica, se cedesse um milímetro naquilo em que os outros se atiram por inteiro.

Apesar do cansaço visível, ela trabalha. Ama trabalhar. Quando pode faz uma boa refeição, às vezes dia sim, dia não. Ama trabalhar em um ambiente onde isto é quase um crime. Resolve problemas em um ambiente onde empurrar com a barriga é a regra. Ela incomoda muitos acomodados pela simpatia partidária, porque faz suas falhas aparecerem, mas adivinhem se alguém tem culhões para encarar! Ela é frágil, delicada, mas tem autoridade inata, que salta mesmo quando fala manso. É delicadinha, mas durona, tem o sangue quente da avó espanhola correndo nas veias.

Quem pensa que Maria Cristina gosta de hatches pequenininhos e fáceis de estacionar, mesmo perdendo um pouco de espaço, está esphericamente enganado. A mulher é poderosa. Ela gosta de sedans imponentes, tem uma simpatia indisfarçada pelo Opala Diplomata, de preferência preto. Um carro que não só mostre que a chefe chegou, mas também permita à chefe levar e trazer seus pupilos com conforto e segurança... Creio que teria gostado do Caprice e seu corpo full size. Se bem que ela precisa é de um ônibus de piso alto.

Quem pensa, porém, que ela é uma mulher amarga, frustrada e de mal com a vida, por tudo de que abre mão... Chora, porque ela se sente realizada no que faz. Ela é realizada, apesar de todas as abdicações que tem feito ao longo de uma vida inteira. Enquanto os pseudo defensores do povo festejam cada corrupto que sai impune, e os pseudo defensores da moralidade fazem barulho pelo mesmo motivo, ela não deixa o trabalho parar. Os alunos, como na época do director Ludwig Von Waldoo, são a prioridade desta ítalo-hispânica encrenqueira e mandona. Ela não é como gente dissimulada, que manda fingindo pedir um favor, ela manda deixando claro que está mandando.

Sabem aquela mania que ela tinha, de reconferir duas vezes o trabalho feito? Bem, ela não tinha, ela tem. O perfeccionismo de quem faz bem feito ou não faz, assusta muitos "colegas" e acaba por afstá-los, o que não deixa de ser uma benece. Essas gente já está desistindo de ocupar seus ouvidos com o discurso retórico e ululante em que se resumem as reuniões que marcam, com única intenção de marcar a reunião seguinte. Assim tem mais tempo para dedicar-se àquilo que ama, que é a assistência social em sua mais pura acepção. Claro que sua beleza doce e refinada ajuda a angariar a simpatia, mas não duraria se não tivesse tanto conteúdo, muito mais e mais intenso do que se espera para sua pouca idade.

Dói vê-la desiludida com seu emprego, com sua chefia, desde o mais baixo escalão até a presidenta. Ela poderia ter um emprego melhor, com remuneração decente e tempo para a vida pessoal, se abdicasse do sacerdócio em que transformou sua dedicação aos alunos. Ela pensa nisso, então a desilusão encolhe, sai com o rabinho ente as pernas e a deixa trabalhar. É para isso que ela está lá, às vezes varando a noite e a madrugada com horas extras que já sabe, jamais receberá.

Muita gente me pergunta "Essa mulher existe mesmo?". Eu respondo que faz mais de vinte anos que a conheço, que ainda costumo obedecê-la, então ela existe. É muita virtude exposta, em um meio acostumado a louvar os vícios e os factóides, é luz demais cegando as criaturas das trevas. É Maria Cristina.

21/02/12

A mãe EU!


Como você é inútil! Depois de tudo o que investi em você, o que me dá? NADA!

Dei tudo o que você precisava, tudo! Dediquei minha vida ao seu sucesso, à sua glória e à sua supremacia! O que tenho em troca, hem, seu inútul? NADA! VOCÊ NÃO ME DEU ABSOLUTAMENTE NADA EM TROCA!!!

Você estudou nas melhores escolas, teve os melhores professores, tinha à disposição os melhores livros dos melhores autores! E as aulas de música? Não poupei recursos na sua educação, não poupei tempo na sua educação, eu gastei uma fortuna para te dar a melhor das oportunidades!

Mas não. Você não deu valor. Eu me anulei em seu favor, mas você não deu o mínimo valor. Desgraçado! Como se atreveu a frustrar minhas expectativas?

Você não faz ideia do que eu agüentei por sua causa, verme! Suportei toda uma sociedade contrária aos meus métodos, por sua única e exclusiva causa. Tudo para quê? Para redundar nisto! INÚTIL! Você é um INÚTIL!!!

E agora? O que você tem a me dizer? Nada, é claro. Exactamente o que recebo em troca. Exactamente o que você vale. Você vale NADA!!! E eu te dei TUDO!!! Não há em toda a história uma mãe melhor do que eu, ironicamente nunca houve, e provavelmente não haverá um filho pior do que você, seu estorvo.
Desde que você nasceu, eu te encaminhei para o melhor dos caminhos. Te deixei chorar muito, antes de te dar o peito, para que aprendesse o valor da sobrevivência. É claro que essas mães frouxas do ocidente me criticaram, usando até Bill Gates como exemplo, mas isto não me convém e portanto não será tratado aqui.

O que importa é que eu te fiz andar pelo único caminho certo que existe, o meu. Eu quis te fazer um homem desde cedo. Você não teve nenhum brinquedo, simplesmente porque são bobagens que te distrairiam do seu dever! Não é porque não entendia o significado das palavras, que estava dispensado de ignorar minhas ordens expressas.

Te fiz correr e se exercitar no auge do inverno, lá fora, pelado, em um país onde isso é crime - apesar de eu não tolerar que um ocidental alegue desconhecer as leis do meu país - para te tornar um homem forte. Dane-se que ainda estivesse na primeira infância, era seu dever ser forte e resistir!

Surras gratuitas todos os dias, para te lembrar quem é que manda, mas nem assim você aprendeu, seu palerma. Te fiz sangrar tantas vezes para quê? O que você me deu em troca, maldito? Eu deveria ter te matado de uma vez, para me poupar deste desgosto.

Te obriguei a estudar dezesseis horas por dia tudo o que eu quis que você estudasse, te obriguei a praticar piano para não te deixar desocupado, te neguei um só dia de folga em toda a sua inútil vida para que não perdesse tempo com distrações. Por que? Me diga, por quê? Por que você me decepcionou desta maneira tão vergonhosa?

Eu moldei a sua personalidade com todo o cuidado do mundo, a plasmei de acordo com a minha vontade para tudo sair perfeito, fiz tudo como se faz para lapidar um diamante bruto. Mas descobri que não passava de vidro vagabundo. É o que você sempre foi, na realidade, um vagabundo! No seu íntimo, você sempre quis brincar, sempre quis comer um doce, sempre quis ter um aniversário, VOCÊ ME TRAIU, DESGRAÇADO! MALDITO!

A sua obrigação era me levar ao topo da hierarquia da sociedade mundial, e lá me manter até a minha morte. A sua obrigação era fazer todas as mães do mundo terem inveja de mim, e pagarem o que eu exigisse por uma simples consulta em grupo. A sua obrigação era fazer as pessoas se prostrarem à minha presença, beijarem o chão em que eu piso e vasculhar meu lixo como um saco de tesouros.

Já com esta idade, o que você conseguiu? NADA! Você teve tudo e me devolveu nada! Agora não serei mais uma nobre entre as mulheres. POR CULPA SUA! EXCLUSIVAMENTE SUA!

Depois de tudo, o que você tem a me apresentar? Você não tem um império mantido com pulso de ferro, para me render glórias pela sua educação. Você não tem escravos em minas de diamantes, para me cobrir de jóias, que eu descartaria depois do primeiro uso. Você não é venerado em nenhum país do mundo!

Eu te eduquei para que dominasse o mundo! Você deveria ter feito o que Hitler falhou em tentar! Você foi preparado para conquistar o mundo! Para tornar o nosso gentílico, um título de nobreza por si mesmo! Para humilhar os americanos e todos os que não compartilham de nossa mentalidade! Para me tornar uma rainha em nosso país!

Mas não! Você tinha que me decepcionar! Eu deveria ter te abortado! Ter encomendado nanorrobôs para te picotar e depois te expelir, como uma menstruação. Eu te odeio! TE ODEIO! ODEIO! ODEIO! ODEIO!

Você não podia ter feito isso. Justo agora, você não podia ter feito isso! Só por que te impus o rigor disciplinar mais perfeito do mundo, você tinha que morrer??? Com oito anos de idade, você morreu sem me dar uma alegria sequer! E agora nem posso sair do país, porque serei presa se pisar em qualquer solo estrangeiro! MALDITO! Você acabou com os meus sonhos, as minhas aspirações, os meus desejos, os meus caprichos, as minhas taras, você acabou com tudo! Nem caixão você merecia! Eu cuspo em você! Eu! Eu!

Eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu! eu!

Este texto é uma homenagem aos beócios, que acham lindo, plural e democrático, uma sociedade estar polarizada entre a completa permissividade, e a completa perversidade dos pais. Àqueles que adoram e esgotam edições de livros nasifascistas com títulos do tipo "Tenha prazer em espancar seus filhos todos os dias" ou "Tire a roupa e fique de quatro para seus filhos todos os dias". Graças a vocês, grupos extremistas têm onde se apoiar pelo mundo inteiro, porque encontram eco em parcelas consideráveis da população.