03/12/16

Sobre meu hiato

    Caríssimos, já vieram me indagar sobre o meu sumiço. Após um ensaio de reanimação, praticamente parei de escrever. É um hiato que me permiti, até por falta de escolha. Há épocas em que as coisas simplesmente não fluem, isso atrelado a situações que não vem ao caso contar aqui.

    O ano foi ruim para todos, nestes últimos meses até para os corruptos, comigo não foi diferente. A situação global se arrasta e se agrava desde 2008, mais ou menos. Neste corrente as coisas estouraram, me deixaram sem condições de reagir e, bem... O resto vocês podem deduzir. O que posso garantir é que não desisti de escrever, comunicar, puxar orelhas e tudo mais.

    Para não delongar, se eu não escrever mais nada até o fim do ano, Boas Festas, Boa Passagem de ano e tenham juízo!

14/11/16

O custo do preço


    Não é de hoje que as pessoas tentam esticar seus vencimentos, para poderem ter algo melhor em casa ou viajar para mais longe, de vez em quando. A justiça desta prática está no conceito de que cada um tem as suas prioridades e ninguém, nem a família, nem entidades e muito menos o Estado, deve dizer até onde cada um deve ir, dentro do que preconiza a lei. Apesar de a medição cronológica ser padronizada no mundo inteiro, o tempo de cada um só cada um sabe, aguardar trâmites e pareceres pode simplesmente inviabilizar algo pelo que se trabalhou por anos. Pode não ser só a aquisição em si, mas os efeitos que ela precisa gerar, estes geralmente têm prazos de implementação e de validade.

    Aqui vem o lado B dessa história. Há lugares onde a lei simplesmente submete a pessoa ao Estado, que muitas vezes é o próprio governante, seja um indivíduo ou um partido. Aqui o indivíduo não é um cidadão, mas um refém do governo. Como refém, o seqüestrador faz o que bem entende dele, quase sempre com leis escritas de modo que qualquer interpretação estatal seja válida. É assim que muitos, mas muitos países mesmo, conseguem legalizar a mão de obra semiescrava ou mesmo escravizada, esta muitas vezes de presos políticos e até de sua famílias inteiras, para reduzir os preços de venda.

    Sabem aquele "perfume" Chanel baratinho, vendido por menos da metade do original? Acreditam mesmo que aquilo é Chanel? Que perfumistas altamente gabaritados e bem pagos são técnicos responsáveis pelo conteúdo daquele vidro? Repensem, porque muita gente se recusa a fazê-lo, porque vai acabar concluindo que nem mesmo a embalagem do perfume original custa só aquilo. O sujeito quer acreditar que está usando Chanel, vestindo Balmain, carregando uma Louis Vuitton, calçando Leon Verres, vendo as horas em um Cartier... Até vale ter uma imitação de carro de luxo para mentir a si mesmo que anda de Rolls Royce. Graças a essa gente que não mede conseqüências para parecer o que não é, muitas ditaduras conseguem parecer "democracias populares" aos olhos dos que querem se convencer de que defendem o povo.

    Um artesão com remuneração minimamente decente, não consegue competir com os preços de varejo de uma linha de montagem, por isso ele tem três caminhos básicos para conseguir sua clientela, só uma não é cara: Fazer muitas peças simples e parecidas entre si, mas com diferenças visíveis a distância, pois não haveria tempo para controle de padrão; Fazer peças para nichos de mercado, muito personalizadas e difíceis de produzir em larga escala; Fazer peças exclusivas sob encomenda, para clientes selecionados. A primeira opção é a única não cara, a última opção é só para os ricos, ou para quem poupar uma vida inteira para ter uma peça assinada por aquele artista.

    Fora isso, a única opção para se vender peças com um bom grau de personalização e bom padrão de acabamento e qualidade, é investir bilhões em uma fábrica gigantesca, repleta de prototipadoras rápidas de última geração e altíssima precisão, com mão de obra altamente especializada em cada canto, até mesmo na faxina, para o quê seria necessário ter uma demanda muito grande, sob o risco de se perder todo o investimento e todos os empregos gerados. Também há a opção de ajudar a financiar uma ditadura famosa por maltratar diplomatas de outros países mesmo em seus respectivos países. Não, obrigado! Fico sem, mas não compro deles.

    À parte a perversidade desses governos autoritários, boa parte da culpa é do consumidor, que não hesita em ver o preço, mas não quer saber quando uma reportagem, como esta, denuncia o tráfico de escravos em pleno século XXI. Por longas décadas, as crianças precisaram se conformar com o poder aquisitivo dos pais e se contentar com brinquedos muitas vezes simples, sem qualquer apelo além da estimulação da imaginação, mas que por isso mesmo eram mais valorizados e acabavam durando mais tempo; e sempre tinha como fazer um remendo aqui e ali, até o aniversário ou o próximo natal. O melhor é que eram brinquedos feitos por funcionários minimamente remunerados, com folgas, férias, planos de aposentadoria, et cetera. Não adianta a imprensa denunciar todos os dias, se o consumidor não educar a si mesmo e seus rebentos para usufruírem ao máximo do que têm, em vez de sonhar em parecer o que não são.

    Não digo que ninguém pode aspirar ser um magnata, muito pelo contrário. Eu nunca caí naquela conversa superficial de que "toda propriedade é ilegítima", mas enquanto não fores um magnata, e nunca serás se não souber fazê-lo, precisas administrar teu orçamento e tuas condições de vida! Se está difícil mantendo o controle, imagine se perde-lo! Não preciso repetir aqui o que já escrevi sobre crianças mimadas e incapazes de lidar com frustrações, vocês podem ver isso por si em seu cotidiano. O foco aqui é a sua festa, por simples que seja, não transformar o natal de outrem em um inferno. Para isso vale também a criatividade, que as pessoas se acostumaram a só usar para levar vantagem sobre o outro. Algumas folhas de papel cartão, cola escolar, glitter e barbantes coloridos, podem fazer milagres na decoração de uma casa humilde. Principalmente se cada morador da casa ajudar pelo menos um pouco na tarefa. Um galho caído de uma palmeira ou um cacho vazio de açaizeiro, e muitas cidades estão repletas deles, pode ser uma perfeita substituição para uma árvore comprada. Sugestões não faltam pela internet, como estas, estas, estas e estas, além de muitas outras, basta procurar por "decoração econômica de natal".

    Verão o que sempre lhes disse, não é preciso gastar os tubos para ser elegante. Muitas vezes o dinheiro acaba sofrendo nas mãos de gente completamente tosca, mimada e sem absolutamente nenhuma classe! Muitos de vocês provavelmente se descobrirão aristocratas andando de ônibus. Experimentem e verão o que digo.

  Minha intenção aqui, deixo bem clara, é vocês fazerem suas comemorações às suas próprias custas, não às custas da vida alheia. É fazer um natal digno, honesto, sem hipocrisia e livre de pesos. O baratinho só é realmente barato se for muito simples, feito em muito larga escala, for ponta de estoque ou tiver em grande promoção. Para qualquer outra situação pode ter havido até sangue subsidiando o teu luxo. Não se deve ser avarento, mas tampouco um ilusionista social, porque o feitiço dessa ilusão vai se voltar contra vocês e contra quem foi obrigado a realiza-lo.

06/10/16

Doutrinados




Ainda hoje há gente que pensa que Jesus é paraense. Ignorando que existem muitas cidades homônimas pelo mundo, e sem sequer conhecer o significado do nome em muitos casos, parecem não se incomodar com o contraste da paisagem desértica citada na bíblia, com a exuberância hídrica e florestal quase sensual que Belém do Pará exibe sem pudores.

Não bastasse isso, ainda ignoram que a bíblia nunca citou as nações indígenas. Os peixes enormes, alguns gigantescos abundantes no Amazonas, simplesmente teriam arrebentado as redes dos pescadores galileus, isso quando não os arrastasse para a morte certa no fundo do rio. Vejam bem, eu disse “rio”, quando o novo testamento cita claramente as águas salgadas de um mar. Os barcos deles jamais ficariam no lugar, esperando pelos peixes, como descrito nos textos, se estivessem em um rio.

Ainda há no nordeste uma comunidade que acredita que passando por uma fenda, por sob uma imensa pedra, seus pecados estariam automaticamente perdoados. As pessoas até se machucam, para passar pela fenda. Como chamam essa fenda? “Jerusalém”. Para eles, aquela pedra no meio do sertão de caatinga é a Jerusalém em que Jesus pregou. Mesmo com a bíblia se referindo a uma cidade próspera, não a um lugarejo com uma pedra. Acontece que o desejo de se livrar das conseqüências de seus actos fala mais alto do que a razão. Eles ficam cegos e afirmam a qualquer um, com firmeza marcial, que aquilo é Jerusalém!

Não saber diferenciar uma pedra de uma cidade, não impede que muitos deles consigam citar qualquer passagem bíblica de cor, mas mesmo assim não se pararem para pensar que as descrições por vezes preciosas, destoam completamente daquilo em que acreditam. Não dá para alegar ignorância, porque o que lêem é completamente diferente do que vêem. Não se trata de um conhecimento acadêmico ou uma notícia de um telejornal da madrugada, é algo que os alphabetizados, e muitos deles demonstram ser, podem conferir e conferem cotidianamente a contradição que ignoram.

Há um fator importante a ser considerado aqui. Não são pessoas que pegaram a bíblia e saíram interpretando como lhes convinha. Elas têm padres e pastores, que muitas vezes seguem como se fossem mensageiros divinos. Não raro lhes atribuindo poderes celestiais. Há uma conivência muito íntima, nem sempre sutil, nesta história. Ou seja, são comunidades que têm uma doutrina, mesmo com seus membros desconhecendo e/ou ignorando conhecimentos tão essenciais, que sem eles o indivíduo mergulha em um mundo de ilusões mais perigosas do que as que Alice enfrentou no País das Maravilhas.

Mesmo sendo ilusões completamente incompatíveis com a realidade, talvez por isso mesmo, eles as defendem como se fossem suas vidas; ou as vidas de suas mães. Rechaçam não raro com violência qualquer contestação, mandam ler a bíblia para aprender, mandam respeitar as obras de Deus, mandam obedecer e ponto final, ameaçam tornar-se inimigos do contestador, enfim, é muito fácil descambarem para um fanatismo similar ao do estado islâmico.

Não são grupos formados só por gente inculta, há muitos, mas muitos diplomados no meio deles, cujos títulos acadêmicos não impedem de incidirem no mesmo erro. Crêem cegamente que aquele caminho repleto de placas de “proibido molhar o lago” é o único, verdadeiro e compulsório para a salvação. Quem não o seguir não fica só fora da glória eterna do Senhor, fica explicitamente ameaçado de sofrer sanções de todo tipo, desde constrangimentos até execução. Sim, são todos pessoas boas, cumpridoras de seus deveres e tementes a Deus, mas “não matarás” fica facilmente relativizado quando alguém parece capaz de ameaçar todas as esperanças e todos os sonhos sobre que se deposita a estrutura de sua vida.

Esquecer que Cristo pregou o amor ao próximo, a fraternidade, a igualdade no trato sem distinções, que acolheu em vez de repreender ladrões e prostitutas, que mandou os discípulos respeitarem as cidades que não queriam se converter, nada disso é visto como contradição, mesmo com as instruções claras deixadas no novo testamento.

Entendem? São coisas básicas, sem as quais nenhum deles sequer poderia se dizer plenamente cristão, porque sem elas fica impossível distinguir uma parábola de uma história. Aliás, para piorar, a maioria das pessoas não sabe o que é uma parábola. Sem isso, não há como saber se o que se passou foi uma lição ou um relato, que têm aplicações muito diferentes na vida de uma pessoa. Mas como já disse, são membros de comunidades, com padres ou pastores os guiando, eles seguem uma doutrina. Mesmo com erros tão crassos, são doutrinados.

Acontece que para muitos “líderes” não importa se a pessoa conhece bem os fundamentos do que estiver seguindo. Na verdade para vários deles é importante que a pessoa não tenha mesmo consciência da barbaridade que está defendendo, basta ela acreditar que está fazendo o bem, que tudo o que fizer é do bem, que não há outro bem possível no mundo e que quem não seguir sua doutrina, é um ignorante ou um canalha; em ambos os casos passível de advertência e até punição.

Se lessem direito, estudando além do que seus líderes mandam, se abrissem seus olhos e corações à possibilidade de decepção para consigo mesmos, e conseqüente misericórdia própria, cairiam fora rapidinho da maioria absoluta das seitas, igrejas e agremiações, porque perceberiam que seus líderes nada querem além de exercer poder e usufruir dele em todas as suas possibilidades. Acontece que o poder, para quem não está e quase ninguém está preparado para ele, é uma droga insensibilizante que exige doses cada vez maiores e mais freqüentes a cada uso.

O seguidor não precisa saber o que realmente está defendendo, basta adorar seu dogma e hostilizar tudo o que estiver fora dele. O efeito manada do grupo ajuda muito a sustentar esse tipo de mentalidade.

Ninguém precisa saber sequer o básico para ser doutrinado, basta acreditar que fora do que estiver fazendo, tudo é mau e condenável.

27/09/16

O soldado não tinha pernas para oferecer


    Era um soldado com as pernas comprometidas, praticamente não se sustentavam mais, mas o resto do corto ainda era forte e operante. Experiente, com mente lúcida, contornava como podia a necessidade de se arrastar para se locomover no acampamento. Fazia serviço burocrático e às vezes ajudava na manutenção do armamento. Às vezes usava um andador, mas era incômodo para o trabalho duro do destacamento.

    A logística difícil de um acampamento avançado e sua utilidade, mesmo com a mobilidade comprometida, afastavam a hipótese de ser mandado de volta. Pelo menos por enquanto. Acordava cedo como todos os outros, fazia como podia os exercícios de condicionamento, comia com os companheiros e ia fazer seu serviço. Até pequenos namoros, dentro do que permitia o estado de guerra, aconteciam.

    Ocorreu de precisar ir com um grupo de reconhecimento, pela sua competência na lida com instrumentação de precisão e bom conhecimento para reparos de emergência, nas viaturas e no armamento. Para isso levava algumas ferramentas e peças.

    Não foi preciso um ataque ou mesmo uma mina para causar um acidente. Uma ponte de madeira que não estava tão boa quanto parecia, depois que a chuva levou parte da sustentação, fez o GMC desembestar a uma velocidade maior do que era capaz de atingir em reta. Nenhuma baixa, mas todos feridos gravemente, exceto o soldado que já tinha o aleijão. Seus ferimentos foram pequenos, o comandante o tinha obrigado a usar o cinto, coisa que não pode ser feita por um soldado apto a saltar e combater, então pôde sair sozinho do caminhão tombado.

    As dores às quais já estava acostumado, em sua maior parte já ignorada pelo cérebro, praticamente imobilizavam seus companheiros, que eram alvos fáceis naquela posição. Foi ao rádio, pediu socorro, mas sabia que demoraria mais tempo do que seria prudente esperar naquela ribanceira. Faltava-lhe a força nas pernas, pelo que dependia do grupamento para praticamente tudo no acampamento, mas tinha força de sobra nos braços, no tronco e em sua lucidez.

    As pernas dos companheiros tinham a força que faltava nas suas, então bancou o sargento e deu ordens curtas e explícitas, como "Apoie-se em mim", "Afirme-se, soldado", "Empurre com as pernas" em tom de comando. Um a um, em um esforço hercúleo, sem pensar em outra coisa além de fazer o que era necessário fazer, mesmo sem ter pernas para carregar alguém. Usou a força de cada soldado, a conciliou com seu equilíbrio e tirou a todos das posições perigosas em que estavam. Se um não pudesse mesmo se mover, poderia agarrá-lo e arrastar-se com ele apenas usando seus braços.

    Os primeiros socorros ele fez sozinho, como aprendeu no acampamento. Identificou prováveis fraturas e algumas pistas de ferimentos internos. Medicou como pôde, dentro de sua competência, acalmou os companheiros e se pôs a esperar pelo resgate.

    O socorro demorou a chegar por conta da topografia e da distância que já tinham percorrido. A preocupação do destacamento, era a pouca capacidade de ação do único soldado lúcido o suficiente para pedir socorro. Pouca, sim, mas foi suficiente para levar os sete companheiros para a segurança, sob uma vegetação que lhe permitia ver sem ser visto do alto. Ouvir sons de motores não é necessariamente uma boa notícia, então esperou até reconhecer as vozes, então se revelou.

    Não havia espanto pelo acidente, nem pelas condições precárias em que estavam os sete soldados. Havia espanto em todas aquelas providências terem sido tomadas por quem acreditavam que não conseguiria fazê-lo. Ele virtualmente não tinha pernas, como poderia ajudar quem as tinha em boas condições? Pois ajudou.

    Não foi a falta de pernas, a pouco autoestima que de vez em quando o abatia, nem a tristeza de ter que voltar para casa daquele jeito que o impediu de arrastar os outros, encorajar e reanimar, manter a moral do grupo alta e dar-lhes esperanças. Ele tinha a vontade e a convicção de que deveria fazer e o fez da melhor forma como pôde. Fez e salvou.

06/09/16

O sistema, novamente ele.

Art by Shag

    Imaginem um grupo humano primitivo, ainda mal sabendo falar. Nesse grupo não haveria, em princípio e como conhecemos, leis, sistema ou Estado. Para muita gente parece ser a sociedade ideal, para muita gente parece ser um cenário pós apocalíptico. Vamos ver.

    Em uma decisão comum, como geralmente acontece, esse grupo decide por maioria ir em uma direção, enquanto uma parcela pequena insiste que na outra a caça é mais fácil e melhor servida de água e pequenas frutas, para o caso de demorarem a encontrar animais que possam comer, em vez de serem comidos por eles. Mas a maioria venceu.

    O grupo discordante é relativamente pequeno, mas necessário, ou não teria sido ouvido, provavelmente nem teria sido levado em conta na hora de planejar a caçada. Então, sendo esse pequeno grupo necessário, ele é coagido de alguma forma a ir ajudar na caçada. Não pode ser de qualquer jeito, ou a maioria parte logo para a briga e eles perdem uma ajuda importante, alguém media e impõe, com ou sem negociação. Temos então uma liderança, mesmo que temporária, portanto temos uma hierarquia, que tem suas leis ainda que informais e, portanto, temos um Estado primitivo. Com o Estado temos o sistema que o rege.

    No decorrer da jornada, os discordantes podem comentar entre si sobre as dificuldades que enfrentam agora, e que seriam mais tênues no outro caminho. A cada posição do sol sem se alimentar a contento, o descontentamento aumentaria. Os resmungos também aumentariam e logo passariam a incomodar, a não ser que obtivessem carne suficientemente boa e numerosa para aplacar sua fome e convencer de que aquele caminho era realmente o melhor.

    Quem conhece um pouco do assunto sabe o quanto a caça pode ser difícil. Mesmo com a vegetação viçosa, amplos espaços para uma manada correr, água abundante e poucos predadores de outras espécies, pode levar muito tempo para se conseguir abater um animal. Alguns dias, talvez mais de uma semana. A sobrevivência fora da civilização, por mais hostil que esta pareça ser, é muito difícil. Não há um supermercado depois da próxima cachoeira para trocar uns pedaços de papel por uma semana de subsistência.

    Como passar fome é a regra na natureza, ainda que por apenas uma grande parte do dia, não demoraria muito para o grupo discordante esfregar na cara do líder o seu erro, e ganhar adeptos. Ainda que conseguissem caçar o mínimo necessário para todos, a má impressão e a argumentação, ainda que primitiva e tosca do grupo discordante, ganharia força nos planejamentos seguintes. O líder daquela caçada seria pressionado a negociar das próximas vezes, mesmo que ele não tenha tido a menor intenção de ser líder. Apresentou-se, agora é.

    Com a demanda mais intelectualizada do grupo geral, as regras precisariam ser menos informais. Precisaria haver um revezamento de métodos e roteiros, a fim de evitar que a escassez em um sítio de caça comprometesse a sobrevivência do grupo. Gostando ou não, temos aqui um sistema com regras e hierarquia, que agora sustenta um Estado primitivo. Sozinho, as chances de um homem sobreviver na vida selvagem são mínimas, ainda mais em um contexto que o prive de aprender técnicas de sobrevivência, que na maior parte da história da humanidade se resumiram a comer e não ser comido.

    Agora a hipótese de o grupo maior considerar que o pequeno não é importante, não a ponto de seus queixumes precisarem ser tolerados. Não querem vir? Vão embora. Eles vão, mas vão ressentidos. A falta de uma sociedade formal não inibe a formação de um caráter rancoroso e vingativo, isso é conversa de quem não conhece a psique. A criança nasce com suas tendências, como agressividade, persistência, volubilidade e outras. A sociedade acentua ou atenua, porque ninguém nasce conhecendo métodos de vingança, mas as tendências estão lá, prontas para serem lapidadas e usadas para o bem ou para o mal.

    Voltando ao grupo dissidente, ele vai pelo outro caminho e, como seu líder disse, encontra mais frutas e água pelo caminho. Talvez até pequenos répteis e roedores, para agüentarem até encontrarem a caça grande. Com essa tranqüilidade eles vagam mais descansados e menos estressados, mais aptos a fugir de predadores ou afugentá-los. Com menos estresse o entrosamento aumenta, com ele a troca de experiências e o conseqüente incremento cultural, favorecendo o intelecto e a maior identificação de cada indivíduo como parte daquele grupo.

    Se decidirem voltar, mesmo que não tenham obtido um volume estrondoso de caça, voltarão mais felizes e saudáveis. O outro grupo, por sua vez, voltaria cansado, irritado e sem poder colocar a culpa nas queixas do menor. Provavelmente nem todos voltariam. Aqui nasceria um conflito social, ainda que tênue, porque a diferença entre os dois grupos seria notável, especialmente pela quantidade de ferimentos nos indivíduos de cada um. Claro que as mulheres do grupo passariam a preferir o que aparenta ser mais saudável, porque é assim que funciona a natureza.

    Ao fim de algumas gerações, teríamos uma sociedade mais complexa, com leis, hierarquia, especialização profissional e regras de convivência formando um sistema, que sustentaria um Estado menos primitivo. E como chegamos a este estágio? Com a troca de experiências, a comunicação, o entrosamento, o respeito que os vencedores conseguiram em sua sociedade. É o sucesso que indica quem vai se reproduzir, gerando mais sucesso. Para manter o grupo coeso, um dos expedientes seria narrar como os fundadores daquela civilização a viabilizaram, o que a falta de uma escrita precisa e um conceito sólido de história transformaria em lenda, fábula, talvez até em religião.

    Os conflitos apareceriam com o aumento populacional, com eles as intervenções, com elas nasceriam as leis e a sociedade ficaria mais complexa. Seriam injustas? Talvez. Mas sem leis não há convivência, mesmo esporádica. Ruim com elas, pior sem elas. Alguns se perguntariam sobre a propriedade. Bem, no começo aquele pedaço de pedra estava quieto em seu canto, alguém o pegou, o lascou, se houver refinamento tecnológico suficiente ele também o poliu e fez sua ferramenta de caça, culinária e defesa pessoal. Seu desempenho na caçada seria maior e suas chances de voltar vivo e bem também seriam, assim como seu sucesso em mediar conflitos. Claro, na hora de defender o grupo de invasores errantes aquela lança seria mais eficaz, porque não ter armas não significa que outros grupos não vão usar as suas. Ser pacífico não deve ser motivo para baixar a guarda.

    Ele ganharia algum status dentro da sociedade, pois seria mais útil e poderoso, seria mais ouvido e talvez abusasse de vez em quando. Claro que isso geraria ciúmes e inveja, é comum, embora sejam sentimentos perigosos. E quem disse que os outros no lugar dele não fariam o mesmo, com uma ferramenta tão bem elaborada? Por que ele deveria deixá-la à disposição do grupo? Quem garantiria que este lhe devolveria assim que precisasse dela? Só porque a pedra veio de graça? E o trabalho que ele teve lascando e polindo aquela pedra? Ele em si estaria à disposição do grupo, faz parte da convivência, não precisaria abrir mão de algo de que precisa em seu cotidiano.

  Opressão? Repressão? Haveria. Estamos falando de um grupo humano, não de seres celestes. Quem não quer viver sob as regras do grupo, que volte para a floresta, mas certo de que suas chances de sobreviver são menores, e que obrigar alguém a aceitar seu ideal de vida também é opressão. Não és tu que sabe qual a necessidade do outro, talvez nem ele saiba! Se quiser ajudar, ajude, mas não vais querer que alguém te force a viver de outro jeito, então não faça o mesmo. Seria opressão!

    Não dá para fugir do sistema! É sair de um e cair em outro, que pode te iludir com as cores vivas de suas penas, mas pode ser uma ave de rapina; provavelmente será. Eu já disse aqui que existem casos de pessoas que foram bem sucedidas não por causa dele, mas apesar dele e de todas as suas falhas, eu conheço algumas. Não é essa ou aquela ideologia ou crença que vai formar um sistema justo, é o indivíduo que faz parte dele. E lamento informar, não dá para ser justo com todo mundo o tempo todo, mas 85% são um índice alcançável. Quem quer uma sociedade justa, não aponta culpados, resolve problemas. Os culpados são naturalmente punidos pelos problemas resolvidos, porque perdem poder e talvez até a razão de viver. O certo é que em uma sociedade de indivíduos maduros e bem resolvidos, suficientemente sofisticada e bem entrosada, a intervenção do Estado é mínima, assim como a quantidade e sofisticação das leis. Estamos longe disso!

    Acha mesmo que não existem regras, hierarquias e sistemas na natureza? Olhe de novo. Mesmo animais solitários precisam evitar perigos e ocasionalmente procriar, o que em certos casos pode ser um dilema, então as regras se sofisticam e pronto! Adeus idealização de uma vida totalmente livre! Se o indivíduo entra no território (A-HA!) de um predador sem o devido cuidado, vira refeição. Há leis, há hierarquias, há um sistema e entre certas espécies até rascunhos de Estados, tudo isso na natureza que aos olhos leigos parece ser tão generosa e simples. Não é! Ela é abundante, mas quem quiser sobreviver tem que se virar! Fora do sistema, as chances de sobreviver são proporcionais à equação de capacidade física com a mental. Não preciso dizer o que aconteceria a um eficiente físico, preciso? Fora da sociedade, ele seria apenas mais uma refeição.

25/08/16

Fim de infância






NÃO ESTACIONE GARAGEM

Por favor, não insista! Não estacione sua garagem aqui! Pode estacionar patins, skate, bicicleta, moto, carro, caminhão, locomotiva, avião, transatlântico, nave espacial, até um planeta inteiro! Mas garagem, nem pensar! Procure um estacionamento privado, há muitos por aí.



NÃO ESTACIONE, GARAGEM

Pô, garagem, eu já pedi pra não estacionar aqui! Vá estacionar lá na frente, aqui do lado também tem uma vaga, mas esta vaga aqui não é pra você! Aqui só se pode estacionar sala de estar e varanda! Como vou sair com o meu banheiro com uma garagem estacionada bem na saída? Daqui a pouco chega minha mulher dirigindo a cozinha e ela vai entrar como?



NÃO, ESTACIONE GARAGEM

É proibida a parada, bem como o estacionamento veicular nesta vaga, ela é de uso exclusivo de garagens. Não adianta vir com alpendre ou sacada, não vai me enganar! Ou vem com uma garagem, que seja um diorama, ou não pode parar aqui. Sujeito a demolição.


NAÕ ESTÁ SIÕNE

Nois fojiu du Mobral e naõ aprendreu a iscreve mais nois e bediboi xei diatidudi e naõ que ki para caro aki na frente sinaõ nois naõ vai pude sai e poriso voçe fica isperto ki nois vai detona seu caro se voçe para seu caro aki na frente no noso portaum valew. Gezuis tia abeçõe.


GARAGEM

Sim, aqui é uma garagem, pode ver, está escrito no portão! E daí? Daí nada! Era só para informar mesmo.


NÃO ESTACIONE

Se vira! Dá um jeito de abastecer e trocar pneus com o carro em movimento, mas não pode estacionar, é terminantemente proibido! Não me interessa se vai ficar cansado e causar um acidente por fadiga, você vai dirigir para sempre! AH! AH! AH! AH! AH!


NÃO ESTACIONE. GARAGEM!

Esta é a parte que me cabe da via pública, tenha a fineza e a civilização de não estacionar seu veículo aqui, nem por um minuto! As chances de outros idiotas pararem perto demais e te impedirem de manobrar, quando eu precisar sair, são grandes, então evite transtornos, danos e extravios! Não estacione aqui! Pode consultar a legislação de trânsito, ela me ampara.


Dez anos de Palavra de Nanael, infelizmente sem muito para comemorar.
Triste início de adolescência.

15/08/16

Esther e Sarah; fortaleza frágil




Sarah chega cansada em casa. Cansada, mas feliz, com o boleto de comprovação do depósito de seu primeiro salário. Não que seja necessário, mas entrega metade dele nas mãos de sua orgulhosa mãe. O sorriso sereno de quem sabe que acertou a mão na educação dos filhos. O olhar preocupado de quem sabe que isso não os poupa de tristezas...

         - Você não está feliz como deveria, Sarah.

- Itzhak – diz, sabendo que não se pode mentir para Esther.

A matriarca manda o mastim Israel ir brincar lá fora, obedecida de pronto, senta-se com a filha nas cadeiras vista a vista da varanda e faz a cara de “sou toda ouvidos”. A moçoila cruza as pernas com a classe e elegância que a mãe lhe ensinou desde a mais tenra idade e começa...

- Ele está arredio, mamma. Eu acreditei que conseguiríamos engrenar o namoro, mas ele demonstra ter medo de se envolver.

- Como o demonstra?

- Quando a questão é problema, ele entra de cabeça e vai comigo até o fim, mesmo se queimando com muita gente, ele não tem medo de nada! Quando a questão é boa, ele vai até certo ponto, começa a se fechar e se retira cabisbaixo.

- É medo, você tem razão. Conhece a história dele?

- Um pouco.

- Conte o que sabe.

- Ele é depressivo, chegou a tentar suicídio na adolescência. A família nunca levou isso a sério, ele foi reprimido, era saco de pancadas de todo mundo e ainda levava a culpa pelos desentendimentos. Ele é forte, parece agüentar tudo... Tá ficando claro, né?

- Meu D’Us!

- Pelo que conversei com a psicóloga da firma, ele nunca conseguiu e até hoje tem muita dificuldade em se expressar. Sabe, ele foi reprimido, parece que era nele que todo mundo se aliviava, desde criança.

- Você tem praticado os ensinamentos de enfermagem que te mostrei como transpor para a vida etérea?

- Sempre, mamma, inclusive com ele.

- Então você vai entender o que direi. As feridas na alma não são diferentes das carnais, Sarah. Você não pode pedir que uma pessoa com dores e feridas abertas se comporte com naturalidade, ela não vai conseguir. Você precisa antes acalmar os nervos, antes de começar a tratar a doença.

- Tentei, mas ele se retraiu.

- Tentou como? Pediu que ele falasse do que o incomodava?

- Estou vendo que posso ter errado, mas foi basicamente isso mesmo...

- E errou. Falar do que incomoda, para uma pessoa que sempre foi ferida, é o mesmo que expor os ferimentos a novas lâminas. Primeiro acalme, depois medique.

- E como eu vou medicar uma pessoa tão arredia, mamma?

- Ele não precisa saber que está sendo tratado, só precisa saber que será bem cuidado. Não tente elogiar; ele vê elogios como subornos para tentar esquecer maus tratos reincidentes, ele com certeza já recebeu muitos. Vocês já ficaram abraçados e em silêncio?

- Algumas vezes.

- Quietos, só aproveitando um a companhia do outro? Ele não ficou muito mais cooperativo depois disso?

- “O silêncio é uma prece”...

- Uma prece, uma poesia e um remédio.

Sarah medita diante da mãe vigilante. Ela nota o nítido interesse do rebento pelo colega de trabalho. Os olhares se cruzam, o sorriso da genitora não esconde o que pensa, ela não consegue segurar e também sorri...

- Preciso de privacidade para ele se deixar envolver.

- Traga-o para um fim de semana. Vocês terão toda a privacidade de que precisarem, mas não se esqueça de deixar ele retribuir seu carinho, isso é muito importante.

Ela não consegue conter os risos e o rubor. Esther complementa...

- Não relaxe sua postura, minha jóia. Ele só confia em você porque o respeita. Aprenda com as lições de seus pais; Pode faltar dinheiro, pode faltar ânimo, pode faltar até tesão, tudo isso pode ser reposto; Mas se faltar respeito, terá faltado tudo.

- Faltou a vida inteira, mamma. Mas eu vou cuidar dele.

- É o que faço com Joseph desde que o conheci. Do que ele gosta?

- É um pouco saudosista, gosta de carros dos anos 50.

- Um rabino tem um Bel Air 1952, vamos convidá-lo também.

Combinam. Sarah sobe para seu banho e Esther começa a planejar a visita do pretenso genro.