06/09/16

O sistema, novamente ele.

Art by Shag

    Imaginem um grupo humano primitivo, ainda mal sabendo falar. Nesse grupo não haveria, em princípio e como conhecemos, leis, sistema ou Estado. Para muita gente parece ser a sociedade ideal, para muita gente parece ser um cenário pós apocalíptico. Vamos ver.

    Em uma decisão comum, como geralmente acontece, esse grupo decide por maioria ir em uma direção, enquanto uma parcela pequena insiste que na outra a caça é mais fácil e melhor servida de água e pequenas frutas, para o caso de demorarem a encontrar animais que possam comer, em vez de serem comidos por eles. Mas a maioria venceu.

    O grupo discordante é relativamente pequeno, mas necessário, ou não teria sido ouvido, provavelmente nem teria sido levado em conta na hora de planejar a caçada. Então, sendo esse pequeno grupo necessário, ele é coagido de alguma forma a ir ajudar na caçada. Não pode ser de qualquer jeito, ou a maioria parte logo para a briga e eles perdem uma ajuda importante, alguém media e impõe, com ou sem negociação. Temos então uma liderança, mesmo que temporária, portanto temos uma hierarquia, que tem suas leis ainda que informais e, portanto, temos um Estado primitivo. Com o Estado temos o sistema que o rege.

    No decorrer da jornada, os discordantes podem comentar entre si sobre as dificuldades que enfrentam agora, e que seriam mais tênues no outro caminho. A cada posição do sol sem se alimentar a contento, o descontentamento aumentaria. Os resmungos também aumentariam e logo passariam a incomodar, a não ser que obtivessem carne suficientemente boa e numerosa para aplacar sua fome e convencer de que aquele caminho era realmente o melhor.

    Quem conhece um pouco do assunto sabe o quanto a caça pode ser difícil. Mesmo com a vegetação viçosa, amplos espaços para uma manada correr, água abundante e poucos predadores de outras espécies, pode levar muito tempo para se conseguir abater um animal. Alguns dias, talvez mais de uma semana. A sobrevivência fora da civilização, por mais hostil que esta pareça ser, é muito difícil. Não há um supermercado depois da próxima cachoeira para trocar uns pedaços de papel por uma semana de subsistência.

    Como passar fome é a regra na natureza, ainda que por apenas uma grande parte do dia, não demoraria muito para o grupo discordante esfregar na cara do líder o seu erro, e ganhar adeptos. Ainda que conseguissem caçar o mínimo necessário para todos, a má impressão e a argumentação, ainda que primitiva e tosca do grupo discordante, ganharia força nos planejamentos seguintes. O líder daquela caçada seria pressionado a negociar das próximas vezes, mesmo que ele não tenha tido a menor intenção de ser líder. Apresentou-se, agora é.

    Com a demanda mais intelectualizada do grupo geral, as regras precisariam ser menos informais. Precisaria haver um revezamento de métodos e roteiros, a fim de evitar que a escassez em um sítio de caça comprometesse a sobrevivência do grupo. Gostando ou não, temos aqui um sistema com regras e hierarquia, que agora sustenta um Estado primitivo. Sozinho, as chances de um homem sobreviver na vida selvagem são mínimas, ainda mais em um contexto que o prive de aprender técnicas de sobrevivência, que na maior parte da história da humanidade se resumiram a comer e não ser comido.

    Agora a hipótese de o grupo maior considerar que o pequeno não é importante, não a ponto de seus queixumes precisarem ser tolerados. Não querem vir? Vão embora. Eles vão, mas vão ressentidos. A falta de uma sociedade formal não inibe a formação de um caráter rancoroso e vingativo, isso é conversa de quem não conhece a psique. A criança nasce com suas tendências, como agressividade, persistência, volubilidade e outras. A sociedade acentua ou atenua, porque ninguém nasce conhecendo métodos de vingança, mas as tendências estão lá, prontas para serem lapidadas e usadas para o bem ou para o mal.

    Voltando ao grupo dissidente, ele vai pelo outro caminho e, como seu líder disse, encontra mais frutas e água pelo caminho. Talvez até pequenos répteis e roedores, para agüentarem até encontrarem a caça grande. Com essa tranqüilidade eles vagam mais descansados e menos estressados, mais aptos a fugir de predadores ou afugentá-los. Com menos estresse o entrosamento aumenta, com ele a troca de experiências e o conseqüente incremento cultural, favorecendo o intelecto e a maior identificação de cada indivíduo como parte daquele grupo.

    Se decidirem voltar, mesmo que não tenham obtido um volume estrondoso de caça, voltarão mais felizes e saudáveis. O outro grupo, por sua vez, voltaria cansado, irritado e sem poder colocar a culpa nas queixas do menor. Provavelmente nem todos voltariam. Aqui nasceria um conflito social, ainda que tênue, porque a diferença entre os dois grupos seria notável, especialmente pela quantidade de ferimentos nos indivíduos de cada um. Claro que as mulheres do grupo passariam a preferir o que aparenta ser mais saudável, porque é assim que funciona a natureza.

    Ao fim de algumas gerações, teríamos uma sociedade mais complexa, com leis, hierarquia, especialização profissional e regras de convivência formando um sistema, que sustentaria um Estado menos primitivo. E como chegamos a este estágio? Com a troca de experiências, a comunicação, o entrosamento, o respeito que os vencedores conseguiram em sua sociedade. É o sucesso que indica quem vai se reproduzir, gerando mais sucesso. Para manter o grupo coeso, um dos expedientes seria narrar como os fundadores daquela civilização a viabilizaram, o que a falta de uma escrita precisa e um conceito sólido de história transformaria em lenda, fábula, talvez até em religião.

    Os conflitos apareceriam com o aumento populacional, com eles as intervenções, com elas nasceriam as leis e a sociedade ficaria mais complexa. Seriam injustas? Talvez. Mas sem leis não há convivência, mesmo esporádica. Ruim com elas, pior sem elas. Alguns se perguntariam sobre a propriedade. Bem, no começo aquele pedaço de pedra estava quieto em seu canto, alguém o pegou, o lascou, se houver refinamento tecnológico suficiente ele também o poliu e fez sua ferramenta de caça, culinária e defesa pessoal. Seu desempenho na caçada seria maior e suas chances de voltar vivo e bem também seriam, assim como seu sucesso em mediar conflitos. Claro, na hora de defender o grupo de invasores errantes aquela lança seria mais eficaz, porque não ter armas não significa que outros grupos não vão usar as suas. Ser pacífico não deve ser motivo para baixar a guarda.

    Ele ganharia algum status dentro da sociedade, pois seria mais útil e poderoso, seria mais ouvido e talvez abusasse de vez em quando. Claro que isso geraria ciúmes e inveja, é comum, embora sejam sentimentos perigosos. E quem disse que os outros no lugar dele não fariam o mesmo, com uma ferramenta tão bem elaborada? Por que ele deveria deixá-la à disposição do grupo? Quem garantiria que este lhe devolveria assim que precisasse dela? Só porque a pedra veio de graça? E o trabalho que ele teve lascando e polindo aquela pedra? Ele em si estaria à disposição do grupo, faz parte da convivência, não precisaria abrir mão de algo de que precisa em seu cotidiano.

  Opressão? Repressão? Haveria. Estamos falando de um grupo humano, não de seres celestes. Quem não quer viver sob as regras do grupo, que volte para a floresta, mas certo de que suas chances de sobreviver são menores, e que obrigar alguém a aceitar seu ideal de vida também é opressão. Não és tu que sabe qual a necessidade do outro, talvez nem ele saiba! Se quiser ajudar, ajude, mas não vais querer que alguém te force a viver de outro jeito, então não faça o mesmo. Seria opressão!

    Não dá para fugir do sistema! É sair de um e cair em outro, que pode te iludir com as cores vivas de suas penas, mas pode ser uma ave de rapina; provavelmente será. Eu já disse aqui que existem casos de pessoas que foram bem sucedidas não por causa dele, mas apesar dele e de todas as suas falhas, eu conheço algumas. Não é essa ou aquela ideologia ou crença que vai formar um sistema justo, é o indivíduo que faz parte dele. E lamento informar, não dá para ser justo com todo mundo o tempo todo, mas 85% são um índice alcançável. Quem quer uma sociedade justa, não aponta culpados, resolve problemas. Os culpados são naturalmente punidos pelos problemas resolvidos, porque perdem poder e talvez até a razão de viver. O certo é que em uma sociedade de indivíduos maduros e bem resolvidos, suficientemente sofisticada e bem entrosada, a intervenção do Estado é mínima, assim como a quantidade e sofisticação das leis. Estamos longe disso!

    Acha mesmo que não existem regras, hierarquias e sistemas na natureza? Olhe de novo. Mesmo animais solitários precisam evitar perigos e ocasionalmente procriar, o que em certos casos pode ser um dilema, então as regras se sofisticam e pronto! Adeus idealização de uma vida totalmente livre! Se o indivíduo entra no território (A-HA!) de um predador sem o devido cuidado, vira refeição. Há leis, há hierarquias, há um sistema e entre certas espécies até rascunhos de Estados, tudo isso na natureza que aos olhos leigos parece ser tão generosa e simples. Não é! Ela é abundante, mas quem quiser sobreviver tem que se virar! Fora do sistema, as chances de sobreviver são proporcionais à equação de capacidade física com a mental. Não preciso dizer o que aconteceria a um eficiente físico, preciso? Fora da sociedade, ele seria apenas mais uma refeição.

25/08/16

Fim de infância






NÃO ESTACIONE GARAGEM

Por favor, não insista! Não estacione sua garagem aqui! Pode estacionar patins, skate, bicicleta, moto, carro, caminhão, locomotiva, avião, transatlântico, nave espacial, até um planeta inteiro! Mas garagem, nem pensar! Procure um estacionamento privado, há muitos por aí.



NÃO ESTACIONE, GARAGEM

Pô, garagem, eu já pedi pra não estacionar aqui! Vá estacionar lá na frente, aqui do lado também tem uma vaga, mas esta vaga aqui não é pra você! Aqui só se pode estacionar sala de estar e varanda! Como vou sair com o meu banheiro com uma garagem estacionada bem na saída? Daqui a pouco chega minha mulher dirigindo a cozinha e ela vai entrar como?



NÃO, ESTACIONE GARAGEM

É proibida a parada, bem como o estacionamento veicular nesta vaga, ela é de uso exclusivo de garagens. Não adianta vir com alpendre ou sacada, não vai me enganar! Ou vem com uma garagem, que seja um diorama, ou não pode parar aqui. Sujeito a demolição.


NAÕ ESTÁ SIÕNE

Nois fojiu du Mobral e naõ aprendreu a iscreve mais nois e bediboi xei diatidudi e naõ que ki para caro aki na frente sinaõ nois naõ vai pude sai e poriso voçe fica isperto ki nois vai detona seu caro se voçe para seu caro aki na frente no noso portaum valew. Gezuis tia abeçõe.


GARAGEM

Sim, aqui é uma garagem, pode ver, está escrito no portão! E daí? Daí nada! Era só para informar mesmo.


NÃO ESTACIONE

Se vira! Dá um jeito de abastecer e trocar pneus com o carro em movimento, mas não pode estacionar, é terminantemente proibido! Não me interessa se vai ficar cansado e causar um acidente por fadiga, você vai dirigir para sempre! AH! AH! AH! AH! AH!


NÃO ESTACIONE. GARAGEM!

Esta é a parte que me cabe da via pública, tenha a fineza e a civilização de não estacionar seu veículo aqui, nem por um minuto! As chances de outros idiotas pararem perto demais e te impedirem de manobrar, quando eu precisar sair, são grandes, então evite transtornos, danos e extravios! Não estacione aqui! Pode consultar a legislação de trânsito, ela me ampara.


Dez anos de Palavra de Nanael, infelizmente sem muito para comemorar.
Triste início de adolescência.

15/08/16

Esther e Sarah; fortaleza frágil




Sarah chega cansada em casa. Cansada, mas feliz, com o boleto de comprovação do depósito de seu primeiro salário. Não que seja necessário, mas entrega metade dele nas mãos de sua orgulhosa mãe. O sorriso sereno de quem sabe que acertou a mão na educação dos filhos. O olhar preocupado de quem sabe que isso não os poupa de tristezas...

         - Você não está feliz como deveria, Sarah.

- Itzhak – diz, sabendo que não se pode mentir para Esther.

A matriarca manda o mastim Israel ir brincar lá fora, obedecida de pronto, senta-se com a filha nas cadeiras vista a vista da varanda e faz a cara de “sou toda ouvidos”. A moçoila cruza as pernas com a classe e elegância que a mãe lhe ensinou desde a mais tenra idade e começa...

- Ele está arredio, mamma. Eu acreditei que conseguiríamos engrenar o namoro, mas ele demonstra ter medo de se envolver.

- Como o demonstra?

- Quando a questão é problema, ele entra de cabeça e vai comigo até o fim, mesmo se queimando com muita gente, ele não tem medo de nada! Quando a questão é boa, ele vai até certo ponto, começa a se fechar e se retira cabisbaixo.

- É medo, você tem razão. Conhece a história dele?

- Um pouco.

- Conte o que sabe.

- Ele é depressivo, chegou a tentar suicídio na adolescência. A família nunca levou isso a sério, ele foi reprimido, era saco de pancadas de todo mundo e ainda levava a culpa pelos desentendimentos. Ele é forte, parece agüentar tudo... Tá ficando claro, né?

- Meu D’Us!

- Pelo que conversei com a psicóloga da firma, ele nunca conseguiu e até hoje tem muita dificuldade em se expressar. Sabe, ele foi reprimido, parece que era nele que todo mundo se aliviava, desde criança.

- Você tem praticado os ensinamentos de enfermagem que te mostrei como transpor para a vida etérea?

- Sempre, mamma, inclusive com ele.

- Então você vai entender o que direi. As feridas na alma não são diferentes das carnais, Sarah. Você não pode pedir que uma pessoa com dores e feridas abertas se comporte com naturalidade, ela não vai conseguir. Você precisa antes acalmar os nervos, antes de começar a tratar a doença.

- Tentei, mas ele se retraiu.

- Tentou como? Pediu que ele falasse do que o incomodava?

- Estou vendo que posso ter errado, mas foi basicamente isso mesmo...

- E errou. Falar do que incomoda, para uma pessoa que sempre foi ferida, é o mesmo que expor os ferimentos a novas lâminas. Primeiro acalme, depois medique.

- E como eu vou medicar uma pessoa tão arredia, mamma?

- Ele não precisa saber que está sendo tratado, só precisa saber que será bem cuidado. Não tente elogiar; ele vê elogios como subornos para tentar esquecer maus tratos reincidentes, ele com certeza já recebeu muitos. Vocês já ficaram abraçados e em silêncio?

- Algumas vezes.

- Quietos, só aproveitando um a companhia do outro? Ele não ficou muito mais cooperativo depois disso?

- “O silêncio é uma prece”...

- Uma prece, uma poesia e um remédio.

Sarah medita diante da mãe vigilante. Ela nota o nítido interesse do rebento pelo colega de trabalho. Os olhares se cruzam, o sorriso da genitora não esconde o que pensa, ela não consegue segurar e também sorri...

- Preciso de privacidade para ele se deixar envolver.

- Traga-o para um fim de semana. Vocês terão toda a privacidade de que precisarem, mas não se esqueça de deixar ele retribuir seu carinho, isso é muito importante.

Ela não consegue conter os risos e o rubor. Esther complementa...

- Não relaxe sua postura, minha jóia. Ele só confia em você porque o respeita. Aprenda com as lições de seus pais; Pode faltar dinheiro, pode faltar ânimo, pode faltar até tesão, tudo isso pode ser reposto; Mas se faltar respeito, terá faltado tudo.

- Faltou a vida inteira, mamma. Mas eu vou cuidar dele.

- É o que faço com Joseph desde que o conheci. Do que ele gosta?

- É um pouco saudosista, gosta de carros dos anos 50.

- Um rabino tem um Bel Air 1952, vamos convidá-lo também.

Combinam. Sarah sobe para seu banho e Esther começa a planejar a visita do pretenso genro.

10/08/16

Deus me livre do bem intencionado



 
Art by Vladimir Kazak

Eu tenho mantido distância de pessoas bem intencionadas, elas tendem a ser as mais cruéis e insensíveis com suas vítimas. Elas não reconhecem que estão fazendo mal a alguém, não admitem a mais remota hipótese de as suas ações serem perniciosas, sempre amparadas em suas boas intenções e sua preocupação para com os mais vulneráveis, com o país ou seja lá que escudo elejam.

No discurso elas estão sempre preocupadas com todo mundo, em defender os fracos e oprimidos, muitas vezes acreditando realmente que se o mundo não seguir suas regras, vai simplesmente se desmanchar. Essas mesmas pessoas costumam refutar e até rejeitar com vigor regras alheias, tachando de “cagador de regras” os que simplesmente dizem por que diretórios se orienta. Regras que não forem as suas são sempre mal intencionadas.

Deus me livre dos bem intencionados, porque eles não suportam a idéia de estarem enganados. Radicalizam, querem colocar o mundo inteiro sob suas asas, quando não seus grilhões, argumentando que isto é o único caminho possível para a humanidade, que os outros são absolutamente todos a via da ruína e da extinção da espécie. Recorrer a quem pratica o que afirmam detestar, não lhes soa nem um pouco contraditório, porque as intenções são boas, então o resultado também será.

Não que ele não goste de quem alegue proteger, ele gosta, mas acredita que isto é justificativa para determinar até como uns olharão para os outros, para terem sua liberdade plena e garantida de concordarem com suas boas intenções. Ele simplesmente não enxerga que está fazendo mal, por isso é facilmente influenciado e manipulado por canalhas que adoptem o mesmo discurso.

Fica muito difícil dizer “Não” a um bem intencionado, porque ele se cerca de discursos agradáveis, tem certeza de quem são os heróis e os vilões do contexto, se empenha em adular aquele e combater este, abraça com carinho seu protegido até sufocá-lo, consegue facilmente te fazer sentir-se culpado por não aderir à sua causa. A facilidade e freqüência com que se magoa é tocante, para quem não o conhece direito, ele se faz de vítima de suas vítimas de forma muito convincente.

O lado mais negro, no sentido moral do bem intencionado, é que ele se sente muito facilmente traído por quem não o segue. Isto te torna um ignorante ou um canalha, em ambos os casos, incapaz de expressar o que pensa em público, estando sujeito a repressão e censura, mesmo que o bem intencionado seja contra esses expedientes de controle. Para ele, não há contradição alguma em deter e isolar em nome da liberdade.

O bem intencionado tem milhares de rótulos no bolso da memória, todos concebidos previamente para serem aplicados com eficiência e precisão. Se alguém se comporta como ele julga ser um mal intencionado, há uma centena de rótulos com bula explicativa para ele poder grudar na testa, basta escolher, e AI de quem se opuser a essa rotulagem, torna-se traidor de sua causa e inimigo de seus protegidos. Ele não quer conhecer quem tiver julgado, quer simplesmente neutralizá-lo, pois trata-se de uma ameaça a tudo em que acredita e venera.

É muito difícil saber se ele é lobo ou cordeiro, mas quase sempre é um kelpie, porque se apresenta como um mimoso pônei falante que vai levar seus convidados em segurança, mas os derruba e se revela um monstro gigantesco, para devorá-los vivos em seguida, porque este mundo é muito perigoso para as pessoas que precisam de proteção, se estiverem vivas elas podem morrer.

Deus me livre e guarde de quem se declara bem intencionado, porque enquanto uma mão está em posição de súplica pelos desvalidos, a outra está em prontidão com uma arma pronta para a degola. A facilidade com fala de um mundo de paz e amor é a mesma com que se livra de escrúpulos, não hesita em ser temido e odiado para manter o controle dos que alega defender.

Por dizer sempre a verdade, mesmo que esteja mentindo, o bem intencionado é habilidoso em conseguir aliados, que sob as brumas de seus discursos prolixos não conseguem enxergar os perigos de que porventura forem alertados. O bem intencionado é facilmente convencido, às vezes pelo próprio ego, de que é o salvador do mundo, que a única forma de preservar a paz, a liberdade e a livre expressão, é pela força, pela repressão e pela censura. Ele tem um cabedal imenso de literatura, mas se baliza sempre pelas conclusões de outros bem intencionados; é uma bola de neve ensangüentada.

O bem intencionado pode até ter boas intenções, por isso é comum nunca utilizar suas próprias referências, às vezes nem mesmo as constrói, sempre tem uma alheia para se justificar, e em quem colocar a culpa se tudo der errado.

Deus me livre e guarde do bem intencionado.

02/08/16

Emilia e Marcela



Gladys Cooper

- Não era isso que você queria, Marcela?


- Era.


- Por que essa cara, então? Passou a vontade?


- Depois que se morre, não adianta muito receber medicamentos.


- Credo, que comparação! Você queria era ter isso, não era?


- Não... Ter isto era um meio de conseguir o que eu queria.


- E o que te impede de conseguir? Nunca é tarde!


- Vai me servir de quê agora, Emília?


- Então não era ter ao menos um momento de regozijo que você queria?


- Não, não era. Essas coisas não me importam.


- “Não importam” como? Não te dão tesão na vida, é isso?


- Não é isso, Emília! Eu nunca procurei gozo, nunca foi meu foco. Eu sou insensível a esses prazeres, entende?


- “Insensível”?


- Não é por desprezo ou ingratidão que eu não dou risadas naquelas festas, aquela euforia não me contagia. Eu volto a cair rapidamente nas minhas elucubrações.


- Você não é velha para ter seu sonho. Nunca se é!


- Sou para o que eu queria. Eu queria uma tradição. Não se consegue isso em menos de quarenta anos. O resto simplesmente não me convém.


- Você está sendo exigente demais.


- Talvez, mas é só o que me serve. Vocês me apresentaram de tudo até agora, às vezes na marra, só conseguiram aumentar minha rejeição.


- O que porventura tiver perdido, pode ser reposto.


- Tempo não pode ser reposto. O que eu tenho pela frente não basta, não tenho mais o viço e a esperança necessários.


- Você fala como se não gostasse de viver.


- Não gosto. Tenho obrigação de levar isto até o fim elevarei.


- Que triste, Marcela! A maioria das pessoas brilharia de felicidade em ter essa oportunidade, mas você não consegue nem enxergá-la!


- Oportunidade para quê, Emília? Chegar ao portão do palácio e morrer assim que ele se abrir? Desculpe, mas estão me dando migalhas após consumirem o banquete que preparei.


- Você perdeu o gosto pela vida, Marcela! Nada mais te alegra!


- Tudo parece ter gosto de pão velho e mal armazenado. É assim que eu sinto a vida, Emília. Eu não posso simplesmente fechar os olhos e comer alimento estragado, fingindo que está bom. Quando ele estava bom, vocês não me permitiram comê-lo.


- Acreditávamos que você gostaria das outras ofertas.


- Não gostei e não me nutriram.


- O que podemos fazer por você, então?


- Vocês podem fazer algo?


- Se soubermos, talvez possamos.


- Se souberem, façam. Eu não faço a mínima idéia.


- Você não é velha.


- Nem jovem.


- Não viveu paixões, aventuras, não viveu sua mocidade para atenuar essa sensação.


- Eu não fiz caca para os outros limparem. Acha bonito se destruir a própria vida e a alheia por prazer em transgredir?


- Não, não é isso! Você não conseguiu se interessar, já entendemos... O que vai fazer de sua vida?


- Importa?


- Importa.


- Eu não sei. Vou tocar.


- Posso te acompanhar?


- Desde que não me atrapalhe.


- Talvez encontre algo ou alguém. Um dia você terá sua redenção.


- “Um dia” não existe, “Um dia” é promessa, promessa é véspera de traição.


- Você não gosta de alimentar esperanças?


- Não às custas do alheio. As minhas foram consumidas pela subsistências das suas.


- Eu sempre acreditei que a esperança fosse a última a morrer.


- E foi.


- Você está viva, Marcela.


- Meu olhar é o de um ser vivo, Emília?


- Por que insiste em me chamar assim, minha filha?


- Desculpe, mãe... Eu não sei actuar fora do palco.