17/11/2018

O motorista a 80

Experição ZE Rádio Cultura

    Nesta semana um colega veio me dizer, após uma conversa banal, que só Deus agrada todo mundo, no que soltei "menos os ateus". Eu esperava que tudo terminasse por aqui, mas ele ficou realmente transtornado. Disse mais de uma vez (bem mais, diga-se de passagem) que deve ser muito triste a vida e quem não acredita em nada, que seria uma vida vazia e sem sentido; como se o índice de suicídios entre os teístas fosse zero.

    Vamos a alguns factos. Algumas das melhores pessoas que conheço são ateias ou agnósticas, o que para muita gente é a mesma coisa, mas não é. Essas pessoas lêem muito, pesquisam muito, esmiúçam todas as vertentes possíveis do que estão investigando, conhecem as principais religiões melhor do que muitos de seus sacerdotes. Não que sejam imunes a algum dia abraçarem alguma fé, assim como é bem comum fieis antigos deixarem de ver sentido no que fazem e não passarem a enxergar nada mais do que palavras escritas por homens, onde antes viam a palavra divina.

    Não confundir ateus e agnósticos com aquela turminha de que já falei: os chateus, teofóbicos e misoteístas, estes merecem um pé nos fundilhos e um bloqueio em qualquer rede social e antissocial.

    Voltando aos que valem à pena, os ateus e agnósticos não acreditam simplesmente porque não foram convencidos. Ninguém acredita no que não convence! Acreditar porque "assim está escrito" é fanatismo, é dogma. Ateus são cientistas inatos e habilidosos, não se dão o direito de portar uma verdade absoluta. Ainda que uma ideia não possa ser comprovada de imediato ou a curto prazo, eles ainda aceitam uma explicação convincente e minimamente respeitosa com a lógica. Não a TUA lógica pessoal e doutrinada, mas A LÓGICA, aquilo que quase sempre pode ser expresso em equações e não faz troça com as leis da física.

    Posto que a ideia de uma divindade não os convence, portanto não tem sua adesão, para eles simplesmente não existe. Simples assim.

    Não existe, então não faz falta. Não faz falta, então a ausência não implica em tristeza. Eles não são tristes por não acreditarem no que vocês acreditam, ou por acreditar no que vocês não acreditam. e quando acreditam, não é por fé, é por comprovação ou, no mínimo, por coerência com o mundo real.

    Imagine que um motorista viaje a 80km/h em uma boa estrada. Não há sinalização, não há guardas de trânsito informando, não há nem mesmo indicação no mapa. Ele para em um posto e aproveita para comer. No restaurante, enquanto come, ouve gente falando com espanto de um carro cuja descrição corresponde ao seu. Todos criticam, mas cada um por seus próprios motivos. Alguns dizem que ele estava rápido demais, que nem dava para ver a placa e que causaria um acidente. Outros diziam que ele estava atrapalhando o trânsito por andar devagar, que causaria um acidente e morreria de velho antes de chegar ao seu destino.

    Curioso e atento, como todo motorista que se preze, ele prestou atenção ao que estavam falando. Os que criticavam sua rapidez estavam parados ou de bicicleta. Ele passou por alguns pedestres e ciclistas, mas estava longe deles, às vezes as bicicletas estavam na pista secundária ao lado da estrada, livres de qualquer risco. Concluiu então que as queixas destes não faziam sentido, não para aquela situação.

    Os que criticavam sua lentidão eram os que passaram zunindo por ele. Motorista habilidoso e consciente que é, sempre se mantém à direita até ser necessário ultrapassar. E o movimento da estrada era pequeno, houve poucas ultrapassagens ao seu carro, destas, nenhuma se deu com mudança de faixa, ou seja, os apressados estavam sempre na pista da esquerda. Não precisou sequer tencionar o braço esquerdo para dar passagem. Concluiu então que essas queixas, para aquela situação, também não faziam sentido.

    Ele não tinha pressa, a estrada não estava ruim, seu carro estava em óptimas condições e ele simplesmente não põe álcool na boca quando dirige. Viu o relógio, ainda tinha tempo de sobra, chegaria antes do pôr do sol. Continuou a comer, depois pagou a conta e foi embora. Nenhum dos queixosos disse algo que invalidasse sua decisão e seu modo de dirigir.

    Chegar antes não lhe daria ganho e se atrasar seria perder o pôr do sol que queria registrar, durante sua estadia.

    Haveria um modo de dirigir? Provavelmente sim, com toda certeza ele poderia conseguir algo melhor, mas o método e os motivos para tanto não lhe foram apresentados. Simplesmente bradavam "O meu modo é que é o certo" e "motorista de verdade dirige como eu".

    Assim funciona, a grosso modo, a mente de um ateu, ou um agnóstico. Dizer que ele é triste por não ter um deus é como dizer que uma andorinha sente falta de um sofá. As pernas da andorinha não foram feitas para ela se sentar e seu traseiro não foi feito para suportar seu peso, uma superfície acolchoada não lhe faz a menor diferença. Seus ovos precisam de algo que absorva o impacto, mas é só. Elas não ficam tristes por repousarem em um galho rígido, aquilo supre suas necessidades de descanso e talvez até de pernoite.

    Meus caros, não é o ateu que fica triste por não ter fé, a vossa fé fraca é que necessita da adesão alheia. Não confundam as coisas.

31/10/2018

Epitáfio de um vivo



  Não lamento as perdas ditadas pelo ciclo do inevitável, cuja vacância resultante abre a porta para o novo; sem a respiração deste ciclo a vida estagna e apodrece.
    Não lamento as perdas mais caras que cumpriram com seu dever, cuja dor resultante empunha a forja do caráter; sem os golpes deste ciclo o espírito enfraquece e sucumbe.

    Lamento somente a porta trancada que não permitiu a entrada do novo, deixando a perda crua e seu ônus descoberto sem a bonificação.
    Lamento silente a perda que em vão deixou sua vaga vazia e ressonante nas quatro paredes duras do vazio que se estabeleceu perene.

    De tudo o que perdi, vi cego em flashes fugazes a fuga do que fazia a diferença, levando consigo seu valor. Ainda que tudo perdesse havia então a esperança de tudo recobrar, ainda tinha eu a vontade pujante de viver.

    De tempos em tempos mais um pedaço que tinha morrido deixava o vazio maior, evaporando no nada em que as lembranças de apoiavam; Era duro sustentar tanto peso no vazio.
    De tempos perdidos eu já tinha um cervo que adoçava com a calda da esperança, evaporando as lágrimas vertidas das dores lavadas; Era duro perceber que ainda assim a dor aumentava.

    Cantei silente a melodia que aos poucos se desvanecia da memória sobrecarregada, deixando em brumas tudo o que tinha nitidez.
    Cantei inocente a esperança de que toda perda eu recobraria no fim da estrada, mas a força pujante sem reposição um dia se esgota.

    De tudo o que perdi, vi já não tão cego, mas ainda nebuloso a fuga da esperança remanescente, levando consigo seu calor. Ainda que tudo perdesse havia então a decisão de tudo recobrar, ainda tinha, petulante, a firme decisão de viver.

    Já havia mais passado do que porvir, o prazo escasseando indiferente ao que eu sonhava ou deixava de sonhar, e o sonho perdeu as cores como uma photographia exposta à chuva e ao sol; É duro perceber que só lembro o que sei, que o sentimento desapareceu com os rostos.
    Já havia mais pesares do que sorrir, os olhos secando pela lágrima faltante hoje dificultam dormir, e dormindo não há mais sonhos que refaçam a lucidez perdida, somente monstros das lembranças distorcidas; É duro enxergar mais do que pelo espelho se vê.

    Chorei mudo o choro seco que a meus olhos irritava, vindo então como única certeza o campo estéril que meu trabalho não foi capaz de fertilizar.
    Chorei alheio ao mundo em meu mundo fechado para não ser incomodado, vendo minha distopia desmoronar e revelar a areia suja do tempo de quem sofre só.

    A inércia mantém o movimento, Deus sabe até quando. A estrada não parece ter fim, o aclive mais íngreme a cada passo, mas parar não me pouparia do cansaço, só aumentaria a dor da fadiga. Não viria o desenlace para tudo terminar, só aumentaria o sofrimento da dor crescente. Músculo quente dói menos, músculo só se aquece em movimento.

    De tudo o que perdi, vi então ante minha cegueira moribunda, nada mais fazia diferença, nada mais tinha sabor. Ainda que tudo recobrasse nada mais serviria em meu favor. Já tinha eu, sem perceber, perdido a mim mesmo.

23/10/2018

Cartilha do que é Pedro


Isto é Pedro / Não é mais.

Segundo as definições acadêmicas, catedráticas e intelectuais sobre Pedro, Pedro é um homem de barba cheia com olhar vago e cabelos longos. Pedro usa camisa xadrez verde e jeans índigo tradicional, com sapatos marrons de bico largo. Ou seja, isto é Pedro! Pedro tem barba, assim ele foi definido e só assim será reconhecido e devidamente tratado. Está claro e inequivocamente descrito em nossos conceitos escritos em linguagem adequadamente academizada e prolixa, com os neologismos pertinentes.

Isso é parte dos cânones dos anais retóricos de nossa conceituologia amplamente debatida democraticamente enquanto empoderamento ao nível de contribuição acadêmica a uma sociedade que deve se adequar ao decidirmos que assim seja. Foi decidido e aceito por ampla maioria e decretado que todos deve aceitar que assim o é. E “TODOS” inclui VOCÊ, seu subversivo! Foi decretado democraticamente em reunião da qual só nossos membros foram avisados, portanto TODOS DEVEM SE SUBMETER democraticamente às definições do colegiado!

O que temos aqui NÃO É PEDRO! Não tem barba! Todo o resto coincide, mas NÃO TEM BARBA! Portanto NÃO É PEDRO! Pare de insistir que esse aí é Pedro, seu ignorante sem pompa universitária! Seu disseminador de fake news! Seu inimigo de tudo em que eu acredito! Vai estudar Pedro, vai! Sua marionete de interesses estrangeiros enquanto neocolonialismo globalista!

Quem você pensa que é para contrariar meus filosofinhos de estimação? Eles disseram que esse aí não é Pedro, portanto NÃO É PEDRO! NÃO É PE-DRO! Você só lê coisas de exactas, coisas de matemática, que é inútil! Eu li Nietzsche! Eu rinite! Tendinite! Portanto eu sou intelectualmente superior e você é hierarquicamente inferior, portanto tem que calar a boca e respeitar minhas deliberações!

Veja aqui, seu ignorante sem argumentos! Aqui está escrito o que é Pedro! Você sabe ler? Sabe, seu ignorante? Então leia o que está escrito aqui! Pedro tem barba! Não me interessa o que essa cara aí faz, ele não tem barba, portanto ELE NÃO É PEDRO! Sua falta de intelectualidade canonicamente aceita em nossos manuais te fez aceitar idéias que estreitaram sua visão crítica, que só existe dentro do meu círculo! Aceite e se submeta, se sabe o que é melhor pra você, seu sabotador!

Validação? "VALIDAÇÃO"? O que você quer dizer com isso? Você devia ser morto por acreditar nessas coisas! As deliberações de nossa entidade não precisam de validação externa, nós somos autovalidantes! Nós temos os intelectuais! Nós temos a literatura! Nós não precisamos resolver problema nenhum, nossa existência se basta! Você é que tem OBRIGAÇÃO de seguir o que decidirmos! E nós decidimos que se não tem barba, não é Pedro! Só será Pedro quando a barba voltar a crescer e tiver o corte determinado por nossos manuais!

Enfia esses documentos no rabo! Você nem devia estar aqui, num lugar de intelectuais imprescindíveis ao mundo! E joga essa p@##* de documentos fora agora! Isso não vale nada! Nossa cartilha decretou que Pedro tem barba, então ele não é Pedro! Enfia a constituição lá também, só seguimos as deliberações do comitê, essas leis aqui a gente usa pra limpar a bunda! Vai se #*@& babaca! E sai logo da nossa área senão vai ver, a polícia ainda não pode entrar aqui!

- Ok, Pedro, vamos oferecer os estágios remunerados com casa, comida, roupa lavada e passeios turísticos em Michigan para outro grupo.

- Aqueles ali, conversando alegres com quem não concorda com eles, deve aceitar.

P.S: Texto curto baseado no que eu já li, vi e ouvi... e ainda ouço.

29/09/2018

Esther; ritual de desaceleração


    Esther conclui o que lhe cabe na limpeza da casa. Certifica-se de que está tudo dentro de seus rígidos padrões de qualidade. Tira o avental branco de babado e o pendura com o avesso ao sol. Vai ver o que o mastim Israel está fazendo, ele já é adulto, mas seria pedir demais que fosse também um exemplo de civilização; se nem a humanidade o é.

    Atravessa o canteiro de dedaleiras, que cercam as cenouras e abobrinhas. Há outras dessas combinações no amplo quintal. Lá está ele, brincando com o gatinho malhado Hebron. Ajeita o longo vestido chemisier de estampa mineral em tons de verde escuro, afaga os dois e então sim, volta para dentro e vai usufruir de seu descanso. Há uma diarista que a ajuda duas vezes por semana, após longa insistência da família, mas ela não baixa a guarda por isso. Desloca sua esbelta massa até a biblioteca, pega um livro de psicologia no meio milhar de títulos disponíveis, então começa o ritual de desaceleração.

    Passa pelo laptop desligado sobre a mesa e vai ao toca discos. Ganhou de Joseph um long play de Adele. Examina a capa, confere as músicas, tira o disco da embalagem e abre o aparelho. Tudo em gestos suaves e delicados, a parte pesada do dia já terminou e seus filhos já não são mais crianças para se preocupar com pequenas demoras; eles têm suas próprias vidas e ela sempre recebe mensagens dos dois.

    Abre as cortinas como se estivesse em um movimento de balé clássico; elegante, delicada e perfeitamente sincronizada. Admira seu jardim e então sim, põe o disco no pick-up, liga, regula o volume, põe a agulha com cuidado e senta-se na poltrona à mesinha do telephone de baquelite rosa. Para quem vê, se parece com uma fada austera, para quem a conhece é a ama e senhora de tudo e todos entre os muros do lote.

    O disco gira e a agulha finalmente inicia a primeira faixa, coincidindo com o início da leitura. Ela balança a perna sobreposta, acompanhando a música, começando a se esquecer das vezes em que tentaram convertê-la no decorrer da semana. Ficou muito irritada com a petulância, mas agora quer dissipar tudo. Lê pacientemente cada página, às vezes fazendo anotações, em hebraico, no bloquinho que tem junto ao telephone, com sua clássica Parker 51.

    Cada parágrafo é uma pausa para meditar sobre o que foi lido, revisar as anotações e voltar a meditar. Evita pensar em problemas, pensa em planos. Volta à leitura com o mesmo cuidado, que já é seu modo natural de ler. Não está alheia ao ambiente, só está concentrada no que está fazendo.

    O lado A do disco termina. Levanta-se em movimentos femininos até o toca discos, levanta a agulha, vira o disco e recomeça tudo. Volta à poltrona e retoma sua leitura. mas é leitura mesmo, não apenas uma passada de olhos para memorizar algumas partes. Lê palavra por palavra, ouvindo-se mentalmente a narrar a leitura, para assegurar-se de que está lendo o que está impresso, não o que uma mente distraída e impaciente inventaria.

    O lado B termina e ela conclui a leitura por hoje, põe um marcador na página e vai em passos semicirculares à estante de onde o tirou. Guarda também o disco e vai à cozinha, fazer o chá da tarde. Escolhe a xícara, com pintura de rosas cor de rosa e bordas douradas, e a colher que usará. Faz sua alquimia com as ervas para ter o que deseja, então inicia outro ritual, de aquecimento, fervuras controladas e filtragem. O que resta vai virar adubo para seu jardim. Adiciona mel, mistura e começa a tomar, agora sentada na cadeira de balanço da varanda. Nesse ínterim chega Sarah, ela está visivelmente aborrecida. Esther diz para que faça um chá e a acompanhe, enquanto conversam a respeito.

    Faz tal qual a mãe lhe ensinou, repetindo os procedimentos que ela executou há pouco, e com o controle que se acostumou a ter nesse processo, boa parte da irritação se dissipa, a ponto de ela conseguir conversar a respeito sem alterar a voz. Não é nada de extraordinário, ela está acostumada como a mãe a se envolver no que está fazendo, assumir a responsabilidade e arcar com todos os ônus...

    - Mas as pessoas lá fora nem sempre são assim, Sarah. Você não pode exigir de uma pessoa mais do que ela pode oferecer e nem o que ela não estiver disposta a oferecer. Eu sei o quanto isso é irritante, foi para isso que lhe ensinei a desacelerar. Uma cabeça acelerada pensa rápido, mas não raciocina direito e é virtualmente incapaz de meditar sobre qualquer coisa. Você não pode esperar muito de quem não se compromete com a própria vida, que dirá com os colegas! Respire e tome seu chá.

    A moça acata. Embora os problemas não se dissipem, e nem é esse o objectivo, os resultados daninhos do que passou hoje sim. Aos poucos o cheiro de estresse e fuligem se desvanece de sua memória. Respira fundo, olha para aquela dama sorridente à sua frente e não tem como não sorrir também. Ama aquela mulher de forma quase devocional, ama aquela casa como se não houvesse no mundo outro lugar habitável. Logo não tem mais do que reclamar, estaria apenas repetindo a ladainha alheia de como o mundo é mau e injusto.

    Retoma com a mãe a conversa de ontem, sobre seus planos e a firme intenção de dar-lhe netos.

23/08/2018

O mundo a vapor


Doble E-20 Steam Special de Jay Leno
   Algumas pessoas sabem que nos primórdios do automóvel, não havia posto de gasolina. Para abastecer era preciso comprar em galões ou mesmo na pharmácia... sim, na pharmácia! Petróleo na época era considerado um cosmético e até lhe atribuíam algum poder terapêutico... Foi uma época muito louca.
A compacta caldeira do Doble E-20

    Por essa escassez de abastecimento, até a primeira grande guerra o motor a combustão interna não era unanimidade, em muitos casos os eléctricos eram preferidos, afinal rodava-se pouco e a baixíssimas velocidades naquela época. Mas a exemplo das locomotivas, também havia os carros a vapor. Não eram apenas aquelas máquinas pesadas e tratores que povoam filmes e desenhos da era clássica, eram carros de passeio, e isso durou praticamente até a quarta-feira negra.

    Em minhas buscas aleatórias eu me deparei com um leque muito amplo de carros movidos a vapor. Alguns deles se parecem muito com os carrões de sonhos dos anos 1920, a ponto de parados parecerem carros comuns. A miríade de modelos e versões me surpreendeu e alimentou minha humildade, reafirmando que eu não sei praticamente de nada sobre carros antigos; e quem tiver juízo chegará à mesma conclusão, para todas as áreas da vida.
Orout a vapor carregado um carro a combustão interna 1880s

    De início eram máquinas rudimentares com baixíssima eficiência térmica, quase sempre não excedendo os 5% que as locomotivas conseguem aproveitar da energia produzida pela queima do carvão. Entretanto, pesavam a seu favor o torque quase instantâneo e a ausência da embrenhagem. Era só aquecer a água o suficiente e liberar o vapor para o carro começar a andar. Tudo com suavidade, silêncio e ganho rápido de velocidade.

White pré primeira guerra

    Ao contrário dos carros a combustão interna da época, o funcionamento dos carros a vapor era extremamente suave e silencioso, e os gases do escapamento nem de longe incomodavam como os da gasolina. Provavelmente por lembrarem o cheiro de uma lareira acesa, por algum tempo a combustão externa prosperou e teve seus avanços tecnológicos. Falar de carro barato na época é piada, mas havia dos modelos mais simples e rudimentares aos mais sofisticados, como é até hoje com os carros ciclo Otto, e até com os eléctricos.
Um frugal Stanley pré primeira guerra

    Até a primeira guerra os motores a combustão interna eram rudimentares, trabalhando com baixíssimas pressões e velocidades idem. Para terem uma idéia, muitos usavam pavios acesos em vez de velas eléctricas para queimar o combustível. Sim, um pavio, um pedaço de corda como o de uma vela de parafina, nele se colocava fogo, se tampava o motor e então se dava a partida por manivela. E cuidado para não apagar o pavio, senão começa tudo de novo. Em suma, as máquinas a vapor deviam muito em eficiência, mas não em eficácia aos motores a combustão interna. Carros a vapor ultrapassavam facilmente os a gasolina do começo do século XX.

    Enquanto os tratores, escavadeiras e outras máquinas pesadas ainda se pareciam muito com locomotivas caricaturadas, carros e caminhões tomaram rapidamente formatos próprios, acompanhando a evolução estilística de seus correspondentes eléctricos e a combustão interna. O desperdício de vapor para o meio ambiente e o manuseio do carvão em brasa, quando se estacionava o carro, eram um problema sério. Não para locomotivas, navios e enormes máquinas de trabalho fora de estrada, mas faziam alguns donos olharem com mais simpatia para os ainda primitivos motores a gasolina.

Um modernoso Lorry Super Sentinel anos 1900

    Os riscos de a caldeira estourar eram os mesmos de uma locomotiva, e a inflamabilidade do pó de carvão em suspensão, em caso de acidente, eram notórios. Enfim, os prós superaram os contras por muito mais tempo do que os leigos imaginam, inclusive eu. A morte comercial dos carros a vapor não veio antes da quebra da bolsa de Nova Iorque, eles evoluíram muito rapidamente.
Pontiac 1970 convertido para combustão externa

    Com o tempo, os mais sofisticados se serviram de soluções que aumentavam a eficácia e a praticidade, as caldeiras ficaram menores e o manuseio mais prático. Utilizando o mesmo princípio de resfriamento dos motores a gasolina, o ciclo Otto, os carros a vapor se valeram de radiadores belamente emoldurados para coletar, resfriar e condensar boa parte do vapor que saía do motor, devolvendo a água ao tanque.

    Chegaram a fazer até um avião a vapor viável e, ainda hoje inédito, com marcha ré na hélice. Girar em sentido único é uma limitação do motor de ciclo Otto.

    O motor, aliás, deixava de ser um mero conjunto de cilindros avulsos, eles passaram a trabalhar dentro do mesmo bloco, como os motores Otto. Seguramente o ridículo índice de 5% de eficiência foi superado, nos últimos anos da indústria automotiva a vapor. O problema para esses motores, é que os Otto já estavam em um patamar evolutivo muito superior, um motor ruim ultrapassava os 15% de eficiência, e comer poeira de carro a vapor não era mais uma certeza, principalmente em trajetos longos, com a rede de reabastecimento proliferando pelas estradas.

Doble Steam carroceria Murphy Pharton 1924

    A memória da mobilidade a vapor é preservada por gente que ama e entende do assunto. A Inglaterra reúne o maior séquito de entusiastas e colecionadores. Há inclusive gente que fabrica modelos em escala funcionais de locomotivas, tratores e caminhões a vapor do início do século passado. Há inclusive gente que adapta motores a vapor em carros convencionais. Bizarro? Mas há não só quem faça, mas também, ensina letargicamente a quem quiser aprender.

Chassi do Doble E-20, talvez o melhor carro a vapor já produzido

    Se há uma vantagem do motor a vapor sobre o a combustão, é sua comparativa extrema simplicidade, o que o torna fácil de projectar e construir sem necessidade de maquinários sofisticados, na verdade muitas peças de motor a combustão ou compressores de ar podem ser e são utilizadas por esses inventores. Com a tecnologia de hoje, especialmente o monitoramento electrônico em tempo real das funções da máquina, isolamentos mais eficientes, lubrificação moderna e usinagem de ponta, reciclagem do vapor, aproveitamento de resíduos para a combustão, enfim... um motor a vapor conseguiria ser economicamente viável.

    Para regiões desprovidas de recursos financeiros e com limitações de potencial hídrico, uma máquina a vapor resolveria muitos, mas muitos problemas. Enfim, se até os dirigíveis estão voltando, para fins turísticos, e as locomotivas clássicas sendo restauradas para uso normal, por que não?

    Para saber mais: Fusca a vapor aqui, site sobre máquinas a vapor aqui, uma associação dedicada à máquina a vapor aqui e o avião a vapor aqui com vídeo da época.

Dois belos vídeos da garagem do abusado do Jay Leno

Mais um.

01/08/2018

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    Não consiste novidade o poder das redes sociais para a proliferação de lendas urbanas, teorias conspiratórias, campanhas difamatórias e notícias descaradamente falsas; às quais os tendentes não se dão o trabalho de investigar, esperam que as lideranças da manada lhes digam o que fazer. E é justamente este, o efeito manada, que tem tornado a vida em redes sociais tão difícil. Também é esse efeito manada que dá tanto poder à difamação e às teorias conspiratórias letais, estas que fazem pais se recusarem a vacinar as crianças e comunidades lincharem pessoas inocentes. Não foi um laboratório que inventou a vacina, não foi a NASA que descobriu que a Terra é redonda, e o Fusca não foi criado no Brasil.

    O grande problema é o crônico dos meios modernos de comunicação, existe uma facilidade gigantesca em produzir e fazer circular informações a uma velocidade jamais imaginada por nenhuma ficção cientifica pré internet. E como eu já disse aqui mil milhões de bilhões de trilhões de vezes, a facilidade tem sido uma das drogas mais tóxicas e viciantes da humanidade. É pela facilidade em  fugir da realidade, aliás, que os tóxicos ainda existem mesmo notoriamente danosos.

    Um ingrediente perverso foi acrescentado nesta década. Ditaduras, que simplesmente não toleram liberdade de expressão em seus países, têm se valido da redes sociais que proíbem para disseminar notícias falsas misturadas a factos que podem (ou não) fazer sentido. Poder ou não fazer sentido é mais perigoso do que fazer, porque activa o instinto de auto preservação, o indivíduo passa a desconfiar mais do meio em que vive, especialmente se for jovem, tornando-o mais propenso a  aceitar as teorias conspiratórias mais estapafúrdias e, aos poucos, se voltar contra o mesmo modo de vida que lhe permite fazer o que os disseminadores tolhem em seus territórios, muitas vezes com ameaças de execução do mesmo, quando não da família inteira.

    Até a Reuters tem perdido credibilidade, lançando notícias sobre seus desafetos, em especial Donut Trump, para logo em seguida noticiar o contrário; não desmentindo e se desculpando, mas publicando uma notícia oposta à anterior, sem dar maiores explicações, às vezes sem se explicar em absolutamente nada! Não é de hoje que jornalistas calejados ainda acreditam em sociedades de almoços grátis, mesmo não assumindo com estas palavras, eles AMAM APAIXONADAMENTE a prolixia redundante com pitadas fartas de ladainhas pleonásticas, para parecerem intelectuais. Não é de hoje que jornalistas manipulam as notícias ao gosto do editor, do patrocinador, de correligionários ou de seus próprios interesses. Não é de hoje que jornalistas são humanos, e por isso deveriam se despir da capa inapropriada de defensores da verdade; opinião não é "verdade", não cura perna quebrada.

    E as tais ditaduras se aproveitam muito disso. Não só elas, mas também os governos corruptos. Em ambos os casos o escrúpulo é só uma palavra no dicionário, a que dão o sentido que desejam. E quando eu separo ditaduras de governos corruptos, não significa que aquelas não o sejam, muito pelo contrário, pois corrompem até história de seus próprios países, editando-a e forçando a população a esquecer a versão anterior; ditadura não é governo, é uma lavadora de cérebros que aponta o dedo para os outros e amputa os que se atrevem a apontar para si. Depois mandam estudar história, mas só a historinha que acabaram de lançar na edição revista e ampliada para o louvor ao bem amado líder.

    A miséria não foi inventada no século XVIII, e em nenhum momento da existência humana duas tribos deixaram de se engalfinhar e matar crianças só porque falavam o mesmo idioma, não necessariamente a mesma língua. E descobertas arqueológicas têm desmentido o mito de povos puros e de harmonia plena com seu meio ambiente. Te fazer se sentir culpado pelos erros alheios, ocultando o lado B do assunto, faz parte dos métodos.

    Cão em território alheio, fica de rabo entre as pernas. Em seu território ele rosna para qualquer um. Se for do tipo de toma como seu território qualquer lugar em que urine, tenta ser o líder da matilha que encontrar pelo caminho; e essa "matilha" pode ser até mesmo de humanos. Basta ele sentir a sensação de que pode fazer, e o fará.

    Tudo então posto, vem agora o real potencial nocivo do efeito manada em uma rede social, especialmente uma gigantesca como o Facebook. É uma ferramenta extremamente fácil e rápida de usar, é extremamente fácil e rápido reunir um grande contingente e dar a impressão de que o grupo é invencível, é extremamente rápido e fácil atacar um alvo e fazê-lo parecer o agressor. A gerra ideológica resultante disso tem feito vítimas, porque é humanamente impossível aferir todas as denúncias e todos os perfis falsos, então os funcionários e os algoritmos entram em pane fazendo todo o seu possível. A armadilha aqui é que esse "possível" significa dar preferência a padrões, como quantidade de denúncias, e um grupo organizado consegue facilmente uma avalanche com milhares delas para calar seus desafetos; como fazem em seus domínios os regimes com que simpatizam.

    Transformar amigos de longa data em inimigos ferrenhos não dói nem um pouco aos disseminadores de mentiras. Para eles vale a máxima do príncipe de Maquiavel: os MEUS fins justificam os MEUS meios; e ai de vocês se fizerem o mesmo contra mim! Esses disseminadores não se importam inclusive com o facto de suas mensagens falsas serem letais, muita gente já morreu vítima de violência causada pelas fake News, inclusive no Brasil. O caso mais recente foi o de uma mulher acusada de matar crianças para rituais de magia negra, no Rio de Janeiro. Remorsos? Não espere isso de um psicopata.

    Ah, eu sei sim o que vocês estão pensando, e como sempre ERRARAM! Não, eu não gosto do Trump, não concordo com uma tonelada das opiniões dele e sempre me pareceu demasiadamente arrogante, mas tenho amigos morando em vários Estados dos Estados Unidos, e sei de cousas muito boas que a imprensa não conta; notícia boa não vende. Não gostar e não respeitar deixaram de ser coisas diferentes, desde que essa onda de noticiários encomendados começou a varrer as redes sociais que, repito, nos países que promovem essa guerra cibernética são sumariamente censuradas.

    Bem, meus amigos, ainda existe um lugar onde suas opiniões podem ser expressas sem que tu sejas automaticamente detectado pelas hordas cibernéticas; onde o efeito manada é muito difícil, lento e às vezes até mesmo caro de ser formado. Um lugar na internet onde o algoritmo não pode fazer muito mais do que colocar um aviso de classificação etária no acesso ao teu conteúdo. Este lugar é justo a ferramenta que as redes sociais e sua viciante facilidade ameaçou extinguir, mas sobrevive bravamente pelas mãos de cabeças-duras como eu.

    Volte para teu blog. Se o fechaste, reabra. Se não tens, abra um. Enquanto adoradores de ditaduras negam que seus deuses sejam ditadores, se bem que já ouvi "o povo precisa de um ditador para discipliná-lo", as pessoas que escolheres terão acesso às tuas idéias com acento e sem facilitações idiotas da deforma ortográphica. Para quem teve todo o conteúdo gramatical, parece ser fácil e desnecessário informar regras, acentos e pontuações, mas experimente aprender outro idioma e verás a falta que eles fazem.

    Voltem para os blogs. Não existe em tua caixa de comentários a opção de o desaforado de bloquear para evitar ser bloqueado e assim continuar a te atacar, tu simplesmente apagas o comentário dele e ponto! Tu escreves as besteiras ou as maluquices extremamente intrincadas que quiseres, e nenhum moderador de grupo, nenhum vigia de denúncias, nenhum manipulador de algoritmos vai conseguir te punir. Se estiver dentro da lei, nada vai te acontecer.

    Se dê o direito de um pouco de dificuldade, vai te fazer bem pesquisar e publicar teu próprio conteúdo. Diminua a importância, e conseqüentemente com trema o poder destrutivo das redes sociais. Volte para o blog.

06/07/2018

A madrugada, um homem e dez cães

   
https://serbiananimalsvoice.com/

    No ponto de ônibus, esperando pela condução para o trabalho e me perguntando como reporia o sono depois; era essa a minha situação na manhã de hoje. Por volta de 05h20. Não costuma acontecer muita coisa nesse horário, além de meliantes com o producto do furto nas mãos, viciados procurando algo para queimar o a erva, enfim... O trivial de uma metrópole que JÁ FOI um bom lugar para s e viver.

    Fora, talvez, uma cena no verão do ano passado, quando uma loura estava visível do tórax para cima, pelo teto solar de um Civic, provavelmente voltando da balada; a carinha e a dança mostravam que tinha acontecido algo mais.

    Mas hoje uma cena pitoresca me chamou a atenção. Um velho senhor barbudo, aparentando ser um desabrigado, com suas vestes maltratadas, um saco nas costas e um cano plástico de enrolar fazenda de tecido lhe servindo de cajado. Ele se aproximou de mim, passando mais rente do que seria prudente em uma cidade violenta como Goiânia se tornou, mas ele parecia mais preocupado em suas meditações do que em desviar de desconhecidos potencialmente perigosos, aos quais talvez esteja acostumado.

    Enquanto ele se aproximava, uns seis cães, mais diversificados do que pacote de biscoitos sortidos Fortaleza, atravessavam a 24 de Outubro, indo para a esquina da Caixa Econômica Federal. Lá costuma funcionar uma barraquinha de churrasquinho e "jantinha", eles devem ter sentido o cheiro. Não me chamaram a atenção, de início, mas enquanto aquele senhor se afastava, ressonando o ruído do tubo plástico na calçada, os cães começavam a correr para perto dele. Em tempo, essas "barraquinhas" cresceram muito nos últimos anos e quase sempre atrapalham muito, porque tomam as calçadas e vagas de estacionamento como se fossem áreas particulares. Falta regulamentação e fiscalização não é de hoje, nem só neste caso.

    Contei um... dois... três e me perguntei onde estariam os outros. Logo veio o quarto. O quinto e o sexto se demoraram mais, devem ter encontrado espetos ou guardanapos que ainda valiam umas lambidas. Me tocou o modo como eles seguiam aquele senhor, imagino que ele deva trata-los com muito respeito; não necessariamente com suavidade, pois a vida tem o mau hábito de embrutecer até  quem tem um teto estável, imagine a quem vive pelas ruas, esperando restos alheios!

    Mas os cães o seguiam, sem se esfregarem nele, mas sempre por perto. Me surpreendi quando um sétimo cão foi rapidamente sucedido pelo oitavo, ambos com problemas nas patas traseiras esquerdas, mesmo assim andando com desenvoltura em sua dança canina pela avenida ainda fria. Nenhum deles era muito magro, nenhum estava gordinho, mas todos estavam fortes e serelepes, então todos eles e o senhor provavelmente tinham o necessário em intervalos salutares para subsistir.

    Antes que o senhor chegasse à outra esquina, com o cano a ressonar na manhã escura e fresca deste inverno esquizofrênico, mais dois cães se apressaram em virar a esquina oeste e alcança-lo. Então eram dez cães, dos quais um homem muito pobre e velho cuidava a contento, mesmo com todas as dificuldades e não só a parte alimentar, porque os dez estavam muito mansos, sem nem se importar com os poucos carros e os ônibus que circulavam àquela hora.

    Eu não posso fixar atenção em um só ponto, pois a região naquele horário é erma e quanto mais atento estiver, menos riscos eu corro, mas observei aquele senhor e os dez cães em uma convivência clara e totalmente espontânea, se afastarem até sumirem no único horário em que não seriam tratados como agentes patogênicos. Talvez por isso ele não tenha tentado se afastar mais de mim, nem me olhado, nem me cumprimentado, talvez ser invisível tenha sido a regra de ouro para evitar mais dissabores do que a vida ingrata já lhe trazia.

    Tão repentinamente quanto surgiu, o som do tubo na calçada sumiu. Com ele o senhor e seus dez cães. Talvez para ele não faça a mínima diferença e, não fossem dez cães dependendo de si, talvez para ele fosse até um alívio desaparecer pura e simplesmente.

    Estamos no segundo semestre, as propagandas de natal não tardam muito a aparecer, então me veio à mente os antigos filmes sobre Papai Noel, em que o bom velhinho podia se disfarçar em alguma forma desafortunada para testar a reação das pessoas. Bem, eu não fui gentil com ele, não do modo como me acostumei, também tenho meus traumas e aprendizados e não incomodar um estranho em situação que me desfavorecem se tornou um hábito quase automático. Ficarei sem presente neste natal, ao que me parece.