21/01/2017

As regras da casa

   
    Salvo por situações excepcionais, como risco de morte ou coerção, ninguém te obriga a entrar em uma casa, um clube ou qualquer outro lugar. É assim na sua casa, por que não poderia ser na casa em que entrares?

    É muita gente que entra em uma residência sabendo que os donos têm animais, que eles vivem soltos, mas mesmo assim já entram pedindo que os amarrem. Vamos deixar uma coisa clara, aqueles bichos são moradores da casa, as regras internas foram formuladas levando-os em consideração, para permitir o bom convívio de humanos com animais. Não venha fazer-se de inocente e vítima, porque a presença de cães e gatos são notadas de cara, quando se entra na casa, isso quando o próprio morador não avisa previamente que há animais na casa. Se alguém tem que sair ou ser amarrado ali, é tu.

    O mesmo acontece quando há crianças pequenas no ambiente. São filhos dos donos da casa, tudo ali foi preparado para essas crianças virem ao mundo, todos os cômodos foram preparados para elas crescerem com um mínimo de segurança. Até animais de estimação podem estar lá, pensados para ajudar no desenvolvimento dos petizes. Mesmo assim, uma criatura chega aos genitores e diz, na cara de quem carregou os pequenos por nove meses e amamentou por mais seis, para mandá-los ir brincar lá fora, mesmo que não estejam incomodando ninguém. Depois reclama de ter feito um vôo não controlado da porta da casa até a calçada pública.

    Pedir desculpas e fazer as pazes com a parte ofendida? Que nada! Vai às redes sociais falar mal do casal, da casa, das crianças, fazer militância contra animais de estimação e pregar que as pessoas devem ficar até a adolescência trancadas em internatos, só saindo quando estiverem prontas para satisfazer seus caprichos do que deveria ser o mundo. Ah, claro, não se furta o direito de exigir desculpas por não terem mudado as regras da casa por sua causa, e de apagar os comentários contrários à sua vontade.

    Eu não sei vocês, mas quando entro em um lugar estranho, me comporto como visitante de baixa importância. Normalmente eu não conheço as regras, então fico comportado e atento ao comportamento geral, que me dirão quais são elas e se eu devo ou não permanecer lá. Se não concordar, eu saio, não faço protestos contra tudo isso que aí está pra forçar a barra e mudar as partes que não me convém. Aquele ambiente não é meu, a hierarquia dele não é minha, a prioridade lá não é a minha vontade; quem deve mudar ou ir embora assim que possível, sou eu.

    Claro, não estou me referindo a organizações criminosas, reuniões de corruptos e coisas assim. Em encontros de lesadores sociais, a história é outra, mas a recomendação de manter o bom comportamento é maior, de preferência que ninguém note sua presença. Depois dê um jeito de dar conhecimento aos federais, mas enquanto estiver entre eles, mantenha o bico fechado!

    Assim como é em clubes, agremiações, associações, fraternidades, sindicatos e afins. Ao ingressar, o neófito é previamente informado das regras, das penalidades, dos riscos, dos ônus e dos bônus. Se tiver entrado de livre e espontânea vontade, a responsabilidade aumenta, porque o grupo terá feito um investimento em alguém que de certa forma e em princípio, não queria entre eles. Os riscos de sua crueza estragar algo muito importante, é grande, por isso as regras são muitas vezes rígidas com novatos. Não lhe cabe determinar o que é certo ou errado naquele ambiente e naquele momento. Não gosta? Saia!

    O interessante é que na maioria das vezes, especialmente quando o caráter do grupo é meramente recreativo, or mais cretino que seja o conceito de recreação do mesmo, o cidadão até lava latrinas na maior satisfação, só por fazer parte da turma. Depois sai furando sinal, andando na contramão, estacionando onde não se deve e ameaçando quem achar ruim o facto de não ter seguido as regras de trânsito. Lá dentro do meu grupo, eu até como o que os chefes deixarem na latrina, mas aqui fora eu sou o maioral e reivindico imunidade às leis.

    Notaram a diferença? Quem contesta regras de uma casa, um grupo sério ou um país, geralmente é de todo submisso às regras de onde escolheu entrar, ainda que essas regras sejam nocivas a terceiros. É como o caso do indivíduo que perde a casa da família na jogatina, por aposta meramente verbal, mas faz pouco até da gravação de uma câmera que o tenha pego em flagrante delito. Quem quer mudar as regras alheias, quase absolutamente sempre não tolera que não se idolatrem suas próprias regras. Os critérios são "Quem está conosco só pode ser bom, quem está com vocês só pode ser mau". Não literalmente é claro. Prolixia e retórica altamente repetitiva, são usadas para disfarçar o caráter completamente subjectivo da formulação dessas regras.

    Não é raro pessoas assim serem muito maltratadas em seus lugares de origem, buscarem amparo ou mesmo refúgio, se beneficiarem da estrutura local e depois se revoltarem contra ela, alegando que o seu jeito de viver é melhor do que as regras que no momento o protegem. Os centros de recuperação de toxicômanos sabem o que é isso. Os países que estão recebendo refugiados sabem o que é isso. Sair de um inferno e tentar transformar em outro inferno o ambiente que o socorreu, é comum entre os viciados, seja em tóxicos, seja em religiões, seja em certezas absolutas, seja qualquer outra droga.

    Se um lugar lhe parece ser muito conservador ou muito liberal para o seu gosto, evite entrar. Não tente mudar as regras de um lugar só porque tu achas que tem que ser do teu jeito. Se esse lugar te acolheu de bom grado, então é tua obrigação moral seguir o máximo possível das regras dele. Se uma mulher dando ordens te desagrada, vá embora. Se uma criança arcando com responsabilidades desde cedo, te desagrada, vá embora. Se o gosto de artefatos bélicos te desagrada, vá embora. Se a presença de outras religiões livremente exercidas te desagrada, vá embora. Se o gosto declarado por alguns valores antigos te desagrada, vá embora.

    Não existe meio termo aqui, ou se respeita, ou se retire. Se ficar, tenha a fineza de não estragar uma estrutura que uma população pode ter levado séculos para construir. Não lhe cabe mudar os outros e seus lares. Quem estiver em tua casa, estará sujeito às tuas regras, mas tu em casa alheia, respeite as regras dos outros.

20/12/2016

Motivos teria eu para odiar vocês! Mas não odeio.

    Correndo o risco de afastar dezenas de amizades, mais centenas de contactos e conhecidos, vai mais uma bronca aqui! Podem me abandonar se quiserem.

    A "família tradicional" (mãe, pai e filhos) a que tantos tanto declaram ódio; Eu teria motivos para odiá-la. Teria motivos para ser um terrorista desagregador na acepção da palavra. Eu sofri castrações não simplesmente humilhantes, mas incapacitantes. Tornei-me por décadas incapaz de me defender, me afirmar e até de gostar de mim mesmo... Até hoje não vou muito com a minha cara.

    Minha intenção no começo era ser eremita, me isolar de tudo e de todos para morrer onde ninguém mais me aborrecesse. Cheguei ao ponto de simplesmente não perceber que estava sendo maltratado e humilhado, porque para mim era a vida normal. Comecei a trabalhar antes dos seis anos, mas raramente tive carteira assinada, em grande parte por influência familiar. Ficar anos sem conseguir trabalho, remendando sapatos com papelão, cola e linha de costura, tornou-se rotina.

    Eu nunca correspondi às expectativas de ninguém, ainda que tentasse, talvez por isso tenha aprendido dolorosamente a não fazer nenhuma. Isso não me poupou, porém, de desgostos. Eu nunca fui machista, mas vivi em um meio misógino que aos poucos me hostilizou explicitamente por eu não ser cafajeste. Vivi cercado de famílias de formação tradicional que eram a própria encarnação do farisaísmo bíblico. Eu não conhecia outras faces da realidade, então aquilo para mim era o normal.

    Mas eu não queria esse normal, queria me afastar ainda que todas as minhas tentativas tivessem fracassado. Passei a ter ódio de mim por não conseguir isso, afinal não poderia odiar a família, era um tabu muito sólido. Aos poucos e a duras penas consegui olhar para fora de mim. O processo todo é muito longo e intrincado para eu descrever aqui, mas posso dizer que é um labirinto de espinheiros.

    Vejam bem, minha vida foi completamente anulada para eu me encaixar no modelo que me fora imposto, mas não me encaixei. Havia uma alta e relativizante tolerância à corrupção entre os ingredientes, mas corrupção no aspecto mais amplo do termo: Se é para mim, tudo se justifica; se é para o outro, tudo se pune. Eu tinha motivos para odiar essa estrutura? Nos critérios de muitos de vocês eu teria. Odiaria família, religião, autoridade, mercado, idolatraria ditadores, romancearia tiranos e tudo mais.

    Acontece que eu nunca tive, e isto foi um motivo para punições, a política de dois pesos e duas medidas. Se o que um fizesse fosse bom, o mesmo feito por outro também seria. Eu vi gente de famílias de formação tradicional, voluntariamente e sem alarde, fazendo o bem para outros que sequer conheciam. Estudei o comportamento dessas pessoas e vi gente onde muitos de vocês vêem apenas réus por crimes que o milésimo antepassado pode ou não ter cometido. Não foi difícil, apenas demorado, descobrir que muitas, mas muitas pessoas que vocês odeiam simplesmente porque seus dogmas intelectuais mandam odiar, são justo os operadores que tentam consertar as mazelas.

    Bem como não foi menos fácil perceber que a maioria dos heróis revolucionários, se estivessem do outro lado, seriam tratados por vocês como monstros criminosos passíveis de morrer na fogueira. Não estou imaginando isso, eu vi esse grau de ódio SELETIVO emergir. Onde? Onde vocês se recusam a ver, porque estão muito preocupados em culpar o outro pelo sofrimento de alguém. Eu sei que estou te irritando, mas não menos do que suas declarações de ódio camuflado me aborreceram.

    Quando estudei a sério o que vocês chamam de sistema, sem recorrer aos livrinhos tradicionais. Fui às fontes. Sabem o que encontrei? Gente! Não havia uma entidade sobrenatural gerenciando tudo, só havia gente. Empresas são gente, famílias são gente, governos são gente, religiões são gente, não há absolutamente nenhum outro componente relevante além de gente.

    Eu amarguei quatro décadas de infelicidade extrema nas mãos de gente, cogitei suicídio várias vezes para escapar de gente, cheguei a passar meses sem um centavo no bolso por causa de gente. Eu sou gente, não há um de vocês que não seja gente, mesmo que seja alienígena, aqui é denominado gente. E enfiem esses livrinhos bitolados e unidirecionais no picotador, conheço essas porcarias. Não há um que não adule um lado e demonize o outro.

    Sabe o que eu vi funcionando contra o sistema? Entrar nele, resistir às tentações do poder, mostrar resultados e usá-lo. Tem gente fazendo isso. Não me refiro só a Bill Gates e Elon Musk, tem GENTE fazendo isso em empresas pequenas e médias, em repartições públicas, em igrejas, até mesmo nas ruas, sem alarde, às vezes sendo descoberta pela imprensa e depois esquecidas, pois VOCÊS MESMOS não gostam de ver notícias de que algo no "sistema" e na "família tradicional" possa funcionar. Tem gente barrando a corrupção em seus postos de trabalho, em vez de idolatrar e defender raivosamente seus corruptos preferidos.

    O que atemoriza empresários inescrupulosos é a união de boicote e concorrência. Se VOCÊS pararem de comprar porcarias feitas por mão de obra escrava de seus paraísos idealizados, as coisas já começam a melhorar no planeta inteiro. Se derem preferência a quem não precisa apelar para marketing popularesco para vender, as coisas começam a melhorar muito em suas cidades. Se comprarem realmente daqueles sujeitos que tentam oferecer algo decente, não haverá pressão de multinacional que o faça quebrar. Aliás, as grandes corporações já ofereceram mais de uma vez inovações interessantes, inclusive o cinto de segurança nos anos 1950, mas foi o público quem as rejeitou, não a mão do "deus sistema".

    Livrem-se de uma vez dessa doença que os faz culpar os outros e o abstrato pelas porcarias que VOCÊS fazem! Estão agindo como neopentecostais mais fanáticos e pensam que são racionais! Declaram decepção e repúdio contra um lado, mas fazem vistas grossas para o mesmo que o outro faz.

    Se por um lado eu tenho a consciência tranqüila con trema, por não ter me deixado contaminar com a mentalidade porca daquelas "famílias tradicionais", por outro estou tanto quanto por não ter cedido ao apelo fácil e confortável de eleger a família tradicional como um demônio a ser exorcizado. "Ninguém está contra a família só..." Está sim! Eu vi onde vocês se recusam a ver, em seus própios contactos, o ódio declarado a tudo o que cartilhas idiotas mandam odiar, tal qual fazem os fanáticos religiosos, em que os outros religiosos de mesma congregação preferem colocar panos quentes.

   Eu, na mentalidade utopista de vocês, tenho motivos para odiar, remoer e destruir tudo isso. Eu teria motivos até para matar vocês, por não corresponderem às minhas expectativas de um peso e uma medida. Eu teria e tive a chance, mas não o fiz. A minha vida foi destruída, meu amor próprio nunca floresceu, as minhas idéias foram ridicularizadas em público por professores, que chegaram a me chamar de burro em sala de aula. Eu teria motivos, mas estes motivos exigiriam minha corrupção.

    Como me recuperei? Ainda não me recuperei. Se me apegasse à minha experiência, também me revoltaria contra "a família tradicional do sistema" como vocês fazem. Eu teria motivos, mas não tenho verdadeiramente nenhum.

    Hoje estou tentando começar uma vida em uma fase em que não tenho mais tempo e nem vigor para fazer o que eu queria fazer na juventude, e não é nada daquilo que vocês gostam de fazer nas mesmas condições. Tenho planos para reduzir esse prejuízo, planos que beneficiariam mauito mais gente do que eu, mas hoje tenho também o desgosto de saber que estou sozinho nisso. Não posso contar com nenhum de vocês. Também não posso dizer que estou decepcionado, isso seria de um egoísmo imenso, ninguém tem obrigação de se encaixar em expectativas alheias, se não se dispuser e se comprometer a isso. Estou me apegando ao que é bom, bonito e indiscriminadamente justo. Sozinho, é só o que eu tenho.

10/12/2016

Danem-se as conseqüências

Para o bom entendedor, não precisa de legenda


    Que problema há em disseminar notícias falsas, em links cheios de referências e montagens, mas que não apresentam prova realmente nenhuma? É só mais um trabalho. Afinal, se outros fazem maldades pelo mundo, se outros ganham com a desgraça alheia, se outros e outros e outros, por que não eu?

    Interferir em eleições alheias, que mal há? Aqui ninguém se importa em quem vota alguém a mais de dez mim quilômetros de distância... Como se o mundo ainda fosse formado por tribos e aldeias isoladas. O que importa, se trago vinte ou trinta mil euros para casa? A moral é minha, a moldo e estico como eu quiser.

    Tenho audiência, não mato ninguém para fazer meu trabalho. É só um trabalho! E se me pagam, é porque tem quem goste de ver alguém se dando mal, mesmo que seja a nação mais poderosa de todos os tempos, com capacidade para dizimar toda a humanidade apenas apertando um botão! Aliás, deve ser por isso mesmo que me pagam.

    Nem quero saber se quem me paga são mafiosos, traficantes, ditaduras e toda sorte da pior estirpe. Pagando, monto notícias como quero, ou como me encomendam. Se o pagante é contra o sistema, monto uma notícia convincente contra o sistema, ainda que esse sistema seja o que me mantém vivo. Quem se importa se tiranos e genocidas tiram proveito disso?

    Não é uma mentira, é uma encomenda. Mentira é o que os outros contam, eu só faço meu trabalho, não há nada de ilícito nele. Se outros já mentiram e ganharam com suas mentiras, por que eu não posso também? Mas não são mentiras, são notícias encomendadas. Tem muitos intelectuais que acreditam e disseminam, isso é bom para mim, os pagantes ficam felizes e me remuneram mais.

    Não estou preocupado se esses pagantes escravizam e mantém seus povos cativos na base do medo e da censura inflexível. Que me importa? Meus leitores incluem gente afamada em academias, intelectuais famosos, que querem acreditar e embasam o que escrevo com um monte de teorias oficiais. Eu, me preocupar com a alienação pseudointelectual? Não, só estou trabalhando.

    Eu não roubo, não mato, não minto... Só invento histórias para quem paga. Eles sim, roubam, matam, mentem, escravizam e têm gente intelectualizada a seu favor. É contra o inimigo deles, então eles acreditam em tudo o que escrevo, por tanto me pagam e portanto eu escrevo. Desmoronar economias alheias não é da minha conta, na minha conta tem sim é o pagamento pelo meu trabalho. É só um trabalho como outro qualquer. Quem dirige carro polui, por que não posso arruinar a reputação de uma montadora?

    Não é nada contra ninguém, é só o meu trabalho. É um trabalho como outro qualquer, e a recessão é a melhor desculpa para justificar não me importar de onde vem o dinheiro. O sistema é que é o culpado. Se o sistema tivesse me dado bons exemplos, se o sistema tivesse sido honesto, se o sistema tivesse sido justo, se o sistema tivesse sido bonzinho, é tudo culpa do sistema. Não fosse pelo outro, eu não precisaria trabalhar nisso, mas é só um trabalho.

    Olha, eu sei que algumas pessoas podem ficar magoadas, mas eu não posso fazer nada, me pagam para escrever e eu escrevo. Ninguém na minha cidade me condena, então estou agindo certo. Estou ponto comida na mesa, é só o que importa. Não faço mal a ninguém, só sou pago. Quem paga é que faz mal, se valendo dos efeitos do que escrevemos e disseminamos, nós somos inocentes, absolutamente gentis e ordeiros.

    Há teorias acadêmicas, philosóphicas, sociológicas, antropológicas, pedagógicas e historiológicas que justificam tudo o que eu faço, todas elas dizem que tenho o direito de arruinar com uma nação inteira! Não sou eu quem diz isso, são os intelectuais de academias, eles são os gênios respeitados, então eu posso continuar a escrever sem me preocupar com a verdade. Mas o que é a verdade? Se eu me convencer de que posso andar no ar, por exemplo, eles afirmam que eu posso ir de um edifício a outro caminhando sobre o ar entre seus topos. É tudo relativo!

    Quem se importa? As vítimas sempre seremos nós.

03/12/2016

Sobre meu hiato

    Caríssimos, já vieram me indagar sobre o meu sumiço. Após um ensaio de reanimação, praticamente parei de escrever. É um hiato que me permiti, até por falta de escolha. Há épocas em que as coisas simplesmente não fluem, isso atrelado a situações que não vem ao caso contar aqui.

    O ano foi ruim para todos, nestes últimos meses até para os corruptos, comigo não foi diferente. A situação global se arrasta e se agrava desde 2008, mais ou menos. Neste corrente as coisas estouraram, me deixaram sem condições de reagir e, bem... O resto vocês podem deduzir. O que posso garantir é que não desisti de escrever, comunicar, puxar orelhas e tudo mais.

    Para não delongar, se eu não escrever mais nada até o fim do ano, Boas Festas, Boa Passagem de ano e tenham juízo!

14/11/2016

O custo do preço


    Não é de hoje que as pessoas tentam esticar seus vencimentos, para poderem ter algo melhor em casa ou viajar para mais longe, de vez em quando. A justiça desta prática está no conceito de que cada um tem as suas prioridades e ninguém, nem a família, nem entidades e muito menos o Estado, deve dizer até onde cada um deve ir, dentro do que preconiza a lei. Apesar de a medição cronológica ser padronizada no mundo inteiro, o tempo de cada um só cada um sabe, aguardar trâmites e pareceres pode simplesmente inviabilizar algo pelo que se trabalhou por anos. Pode não ser só a aquisição em si, mas os efeitos que ela precisa gerar, estes geralmente têm prazos de implementação e de validade.

    Aqui vem o lado B dessa história. Há lugares onde a lei simplesmente submete a pessoa ao Estado, que muitas vezes é o próprio governante, seja um indivíduo ou um partido. Aqui o indivíduo não é um cidadão, mas um refém do governo. Como refém, o seqüestrador faz o que bem entende dele, quase sempre com leis escritas de modo que qualquer interpretação estatal seja válida. É assim que muitos, mas muitos países mesmo, conseguem legalizar a mão de obra semiescrava ou mesmo escravizada, esta muitas vezes de presos políticos e até de sua famílias inteiras, para reduzir os preços de venda.

    Sabem aquele "perfume" Chanel baratinho, vendido por menos da metade do original? Acreditam mesmo que aquilo é Chanel? Que perfumistas altamente gabaritados e bem pagos são técnicos responsáveis pelo conteúdo daquele vidro? Repensem, porque muita gente se recusa a fazê-lo, porque vai acabar concluindo que nem mesmo a embalagem do perfume original custa só aquilo. O sujeito quer acreditar que está usando Chanel, vestindo Balmain, carregando uma Louis Vuitton, calçando Leon Verres, vendo as horas em um Cartier... Até vale ter uma imitação de carro de luxo para mentir a si mesmo que anda de Rolls Royce. Graças a essa gente que não mede conseqüências para parecer o que não é, muitas ditaduras conseguem parecer "democracias populares" aos olhos dos que querem se convencer de que defendem o povo.

    Um artesão com remuneração minimamente decente, não consegue competir com os preços de varejo de uma linha de montagem, por isso ele tem três caminhos básicos para conseguir sua clientela, só uma não é cara: Fazer muitas peças simples e parecidas entre si, mas com diferenças visíveis a distância, pois não haveria tempo para controle de padrão; Fazer peças para nichos de mercado, muito personalizadas e difíceis de produzir em larga escala; Fazer peças exclusivas sob encomenda, para clientes selecionados. A primeira opção é a única não cara, a última opção é só para os ricos, ou para quem poupar uma vida inteira para ter uma peça assinada por aquele artista.

    Fora isso, a única opção para se vender peças com um bom grau de personalização e bom padrão de acabamento e qualidade, é investir bilhões em uma fábrica gigantesca, repleta de prototipadoras rápidas de última geração e altíssima precisão, com mão de obra altamente especializada em cada canto, até mesmo na faxina, para o quê seria necessário ter uma demanda muito grande, sob o risco de se perder todo o investimento e todos os empregos gerados. Também há a opção de ajudar a financiar uma ditadura famosa por maltratar diplomatas de outros países mesmo em seus respectivos países. Não, obrigado! Fico sem, mas não compro deles.

    À parte a perversidade desses governos autoritários, boa parte da culpa é do consumidor, que não hesita em ver o preço, mas não quer saber quando uma reportagem, como esta, denuncia o tráfico de escravos em pleno século XXI. Por longas décadas, as crianças precisaram se conformar com o poder aquisitivo dos pais e se contentar com brinquedos muitas vezes simples, sem qualquer apelo além da estimulação da imaginação, mas que por isso mesmo eram mais valorizados e acabavam durando mais tempo; e sempre tinha como fazer um remendo aqui e ali, até o aniversário ou o próximo natal. O melhor é que eram brinquedos feitos por funcionários minimamente remunerados, com folgas, férias, planos de aposentadoria, et cetera. Não adianta a imprensa denunciar todos os dias, se o consumidor não educar a si mesmo e seus rebentos para usufruírem ao máximo do que têm, em vez de sonhar em parecer o que não são.

    Não digo que ninguém pode aspirar ser um magnata, muito pelo contrário. Eu nunca caí naquela conversa superficial de que "toda propriedade é ilegítima", mas enquanto não fores um magnata, e nunca serás se não souber fazê-lo, precisas administrar teu orçamento e tuas condições de vida! Se está difícil mantendo o controle, imagine se perde-lo! Não preciso repetir aqui o que já escrevi sobre crianças mimadas e incapazes de lidar com frustrações, vocês podem ver isso por si em seu cotidiano. O foco aqui é a sua festa, por simples que seja, não transformar o natal de outrem em um inferno. Para isso vale também a criatividade, que as pessoas se acostumaram a só usar para levar vantagem sobre o outro. Algumas folhas de papel cartão, cola escolar, glitter e barbantes coloridos, podem fazer milagres na decoração de uma casa humilde. Principalmente se cada morador da casa ajudar pelo menos um pouco na tarefa. Um galho caído de uma palmeira ou um cacho vazio de açaizeiro, e muitas cidades estão repletas deles, pode ser uma perfeita substituição para uma árvore comprada. Sugestões não faltam pela internet, como estas, estas, estas e estas, além de muitas outras, basta procurar por "decoração econômica de natal".

    Verão o que sempre lhes disse, não é preciso gastar os tubos para ser elegante. Muitas vezes o dinheiro acaba sofrendo nas mãos de gente completamente tosca, mimada e sem absolutamente nenhuma classe! Muitos de vocês provavelmente se descobrirão aristocratas andando de ônibus. Experimentem e verão o que digo.

  Minha intenção aqui, deixo bem clara, é vocês fazerem suas comemorações às suas próprias custas, não às custas da vida alheia. É fazer um natal digno, honesto, sem hipocrisia e livre de pesos. O baratinho só é realmente barato se for muito simples, feito em muito larga escala, for ponta de estoque ou tiver em grande promoção. Para qualquer outra situação pode ter havido até sangue subsidiando o teu luxo. Não se deve ser avarento, mas tampouco um ilusionista social, porque o feitiço dessa ilusão vai se voltar contra vocês e contra quem foi obrigado a realiza-lo.

06/10/2016

Doutrinados




Ainda hoje há gente que pensa que Jesus é paraense. Ignorando que existem muitas cidades homônimas pelo mundo, e sem sequer conhecer o significado do nome em muitos casos, parecem não se incomodar com o contraste da paisagem desértica citada na bíblia, com a exuberância hídrica e florestal quase sensual que Belém do Pará exibe sem pudores.

Não bastasse isso, ainda ignoram que a bíblia nunca citou as nações indígenas. Os peixes enormes, alguns gigantescos abundantes no Amazonas, simplesmente teriam arrebentado as redes dos pescadores galileus, isso quando não os arrastasse para a morte certa no fundo do rio. Vejam bem, eu disse “rio”, quando o novo testamento cita claramente as águas salgadas de um mar. Os barcos deles jamais ficariam no lugar, esperando pelos peixes, como descrito nos textos, se estivessem em um rio.

Ainda há no nordeste uma comunidade que acredita que passando por uma fenda, por sob uma imensa pedra, seus pecados estariam automaticamente perdoados. As pessoas até se machucam, para passar pela fenda. Como chamam essa fenda? “Jerusalém”. Para eles, aquela pedra no meio do sertão de caatinga é a Jerusalém em que Jesus pregou. Mesmo com a bíblia se referindo a uma cidade próspera, não a um lugarejo com uma pedra. Acontece que o desejo de se livrar das conseqüências de seus actos fala mais alto do que a razão. Eles ficam cegos e afirmam a qualquer um, com firmeza marcial, que aquilo é Jerusalém!

Não saber diferenciar uma pedra de uma cidade, não impede que muitos deles consigam citar qualquer passagem bíblica de cor, mas mesmo assim não se pararem para pensar que as descrições por vezes preciosas, destoam completamente daquilo em que acreditam. Não dá para alegar ignorância, porque o que lêem é completamente diferente do que vêem. Não se trata de um conhecimento acadêmico ou uma notícia de um telejornal da madrugada, é algo que os alphabetizados, e muitos deles demonstram ser, podem conferir e conferem cotidianamente a contradição que ignoram.

Há um fator importante a ser considerado aqui. Não são pessoas que pegaram a bíblia e saíram interpretando como lhes convinha. Elas têm padres e pastores, que muitas vezes seguem como se fossem mensageiros divinos. Não raro lhes atribuindo poderes celestiais. Há uma conivência muito íntima, nem sempre sutil, nesta história. Ou seja, são comunidades que têm uma doutrina, mesmo com seus membros desconhecendo e/ou ignorando conhecimentos tão essenciais, que sem eles o indivíduo mergulha em um mundo de ilusões mais perigosas do que as que Alice enfrentou no País das Maravilhas.

Mesmo sendo ilusões completamente incompatíveis com a realidade, talvez por isso mesmo, eles as defendem como se fossem suas vidas; ou as vidas de suas mães. Rechaçam não raro com violência qualquer contestação, mandam ler a bíblia para aprender, mandam respeitar as obras de Deus, mandam obedecer e ponto final, ameaçam tornar-se inimigos do contestador, enfim, é muito fácil descambarem para um fanatismo similar ao do estado islâmico.

Não são grupos formados só por gente inculta, há muitos, mas muitos diplomados no meio deles, cujos títulos acadêmicos não impedem de incidirem no mesmo erro. Crêem cegamente que aquele caminho repleto de placas de “proibido molhar o lago” é o único, verdadeiro e compulsório para a salvação. Quem não o seguir não fica só fora da glória eterna do Senhor, fica explicitamente ameaçado de sofrer sanções de todo tipo, desde constrangimentos até execução. Sim, são todos pessoas boas, cumpridoras de seus deveres e tementes a Deus, mas “não matarás” fica facilmente relativizado quando alguém parece capaz de ameaçar todas as esperanças e todos os sonhos sobre que se deposita a estrutura de sua vida.

Esquecer que Cristo pregou o amor ao próximo, a fraternidade, a igualdade no trato sem distinções, que acolheu em vez de repreender ladrões e prostitutas, que mandou os discípulos respeitarem as cidades que não queriam se converter, nada disso é visto como contradição, mesmo com as instruções claras deixadas no novo testamento.

Entendem? São coisas básicas, sem as quais nenhum deles sequer poderia se dizer plenamente cristão, porque sem elas fica impossível distinguir uma parábola de uma história. Aliás, para piorar, a maioria das pessoas não sabe o que é uma parábola. Sem isso, não há como saber se o que se passou foi uma lição ou um relato, que têm aplicações muito diferentes na vida de uma pessoa. Mas como já disse, são membros de comunidades, com padres ou pastores os guiando, eles seguem uma doutrina. Mesmo com erros tão crassos, são doutrinados.

Acontece que para muitos “líderes” não importa se a pessoa conhece bem os fundamentos do que estiver seguindo. Na verdade para vários deles é importante que a pessoa não tenha mesmo consciência da barbaridade que está defendendo, basta ela acreditar que está fazendo o bem, que tudo o que fizer é do bem, que não há outro bem possível no mundo e que quem não seguir sua doutrina, é um ignorante ou um canalha; em ambos os casos passível de advertência e até punição.

Se lessem direito, estudando além do que seus líderes mandam, se abrissem seus olhos e corações à possibilidade de decepção para consigo mesmos, e conseqüente misericórdia própria, cairiam fora rapidinho da maioria absoluta das seitas, igrejas e agremiações, porque perceberiam que seus líderes nada querem além de exercer poder e usufruir dele em todas as suas possibilidades. Acontece que o poder, para quem não está e quase ninguém está preparado para ele, é uma droga insensibilizante que exige doses cada vez maiores e mais freqüentes a cada uso.

O seguidor não precisa saber o que realmente está defendendo, basta adorar seu dogma e hostilizar tudo o que estiver fora dele. O efeito manada do grupo ajuda muito a sustentar esse tipo de mentalidade.

Ninguém precisa saber sequer o básico para ser doutrinado, basta acreditar que fora do que estiver fazendo, tudo é mau e condenável.

27/09/2016

O soldado não tinha pernas para oferecer


    Era um soldado com as pernas comprometidas, praticamente não se sustentavam mais, mas o resto do corto ainda era forte e operante. Experiente, com mente lúcida, contornava como podia a necessidade de se arrastar para se locomover no acampamento. Fazia serviço burocrático e às vezes ajudava na manutenção do armamento. Às vezes usava um andador, mas era incômodo para o trabalho duro do destacamento.

    A logística difícil de um acampamento avançado e sua utilidade, mesmo com a mobilidade comprometida, afastavam a hipótese de ser mandado de volta. Pelo menos por enquanto. Acordava cedo como todos os outros, fazia como podia os exercícios de condicionamento, comia com os companheiros e ia fazer seu serviço. Até pequenos namoros, dentro do que permitia o estado de guerra, aconteciam.

    Ocorreu de precisar ir com um grupo de reconhecimento, pela sua competência na lida com instrumentação de precisão e bom conhecimento para reparos de emergência, nas viaturas e no armamento. Para isso levava algumas ferramentas e peças.

    Não foi preciso um ataque ou mesmo uma mina para causar um acidente. Uma ponte de madeira que não estava tão boa quanto parecia, depois que a chuva levou parte da sustentação, fez o GMC desembestar a uma velocidade maior do que era capaz de atingir em reta. Nenhuma baixa, mas todos feridos gravemente, exceto o soldado que já tinha o aleijão. Seus ferimentos foram pequenos, o comandante o tinha obrigado a usar o cinto, coisa que não pode ser feita por um soldado apto a saltar e combater, então pôde sair sozinho do caminhão tombado.

    As dores às quais já estava acostumado, em sua maior parte já ignorada pelo cérebro, praticamente imobilizavam seus companheiros, que eram alvos fáceis naquela posição. Foi ao rádio, pediu socorro, mas sabia que demoraria mais tempo do que seria prudente esperar naquela ribanceira. Faltava-lhe a força nas pernas, pelo que dependia do grupamento para praticamente tudo no acampamento, mas tinha força de sobra nos braços, no tronco e em sua lucidez.

    As pernas dos companheiros tinham a força que faltava nas suas, então bancou o sargento e deu ordens curtas e explícitas, como "Apoie-se em mim", "Afirme-se, soldado", "Empurre com as pernas" em tom de comando. Um a um, em um esforço hercúleo, sem pensar em outra coisa além de fazer o que era necessário fazer, mesmo sem ter pernas para carregar alguém. Usou a força de cada soldado, a conciliou com seu equilíbrio e tirou a todos das posições perigosas em que estavam. Se um não pudesse mesmo se mover, poderia agarrá-lo e arrastar-se com ele apenas usando seus braços.

    Os primeiros socorros ele fez sozinho, como aprendeu no acampamento. Identificou prováveis fraturas e algumas pistas de ferimentos internos. Medicou como pôde, dentro de sua competência, acalmou os companheiros e se pôs a esperar pelo resgate.

    O socorro demorou a chegar por conta da topografia e da distância que já tinham percorrido. A preocupação do destacamento, era a pouca capacidade de ação do único soldado lúcido o suficiente para pedir socorro. Pouca, sim, mas foi suficiente para levar os sete companheiros para a segurança, sob uma vegetação que lhe permitia ver sem ser visto do alto. Ouvir sons de motores não é necessariamente uma boa notícia, então esperou até reconhecer as vozes, então se revelou.

    Não havia espanto pelo acidente, nem pelas condições precárias em que estavam os sete soldados. Havia espanto em todas aquelas providências terem sido tomadas por quem acreditavam que não conseguiria fazê-lo. Ele virtualmente não tinha pernas, como poderia ajudar quem as tinha em boas condições? Pois ajudou.

    Não foi a falta de pernas, a pouco autoestima que de vez em quando o abatia, nem a tristeza de ter que voltar para casa daquele jeito que o impediu de arrastar os outros, encorajar e reanimar, manter a moral do grupo alta e dar-lhes esperanças. Ele tinha a vontade e a convicção de que deveria fazer e o fez da melhor forma como pôde. Fez e salvou.