25/04/2017

VAMOS PROIBIR TUDO!!!

Tudo em uma só imagem!
    Vamos proibir os barcos de madeira! Eram de madeira as naus que levaram os europeus para o novo mundo, onde causaram destruição, devastação e degradação dos povos primitivos que viviam cem por cento em paz entre si e com os outros! Toda a animosidade teve origem no ocidente, onde nasceu tudo o que é de ruim, com o intuito de oprimir e escravizar os povos africanos e asiáticos, que viviam aos beijos e abraços em uma terra perfeita!

    Continuar a usar barcos de madeira é utilizar um recurso historicamente perverso, que presta unicamente à depredação do meio ambiente, além de jogar na cara dos negos e indígenas que a situação vai continuar como está! Pior ainda é permitir a existência de oficinas que ainda hoje reproduzem caravelas e galeões, embarcações historicamente utilizadas para dominar e escravizar os povos africanos. Aliás, vamos proibir tudo que for de madeira!

    NÃO É MIMIMI! É EXIGIR RESPEITO E REPARAÇÃO AOS QUE JÁ MORRERAM E NÃO VÃO VER A COR DA GRANA!

    Vamos proibir os productos para bebês! Eles são uma opressão do mercado que visa lucro, para manter a mulher no papel de reprodutora restrita ao ambiente doméstico, submissa ao marido, ao irmão, ao tio, ao pai, ao filho e ao espírito santo, AMÉM! Basta de sugerir que a maternidade é boa, que alguém gosta de ter filhos! É tudo mentira! É tudo construção da sociedade patriarcal judaico-cristã ocidental para convencer a cidadã em situação de mulher, que sua única razão de viver é reproduzir! Isso só existe no ocidente, o oriente médio é diferente, é o paraíso!

    Proibiremos também saias e vestidos, essas peças estigmatizadoras e segregadoras, que identificam e rotulam visualmente a cidadã em situação de mulher, dando à sociedade satisfação de gênero, tirando historicamente a individualidade e direito de escolha por uma repressão velada que só existe no ocidente eurocultural! Usar saias e vestidos é condenar a mulher ao assédio! À violência! À biologização de seu gênero! A prova é que muitas mulheres que foram agredidas, usavam saias e vestidos, e das que ousaram desafiar o machismo eurocultural, usando calças, muitas foram agredidas!

    NÃO É MIMIMI! É EXIGIR RESPEITO E IGUALDADE DE UMA SOCIEDADE OPRESSORA QUE SÓ EXISTE ONDE HOUVE DOMÍNIO EUROPEU!

    Vamos proibir a música clássica! Os acordes eurocastradores culturais de um estilo anti-natural, imposto pelo eurocentrismo opressor e xenofóbico que só existe na Europa, tolhem as culturas tradicionais dos povos milenares que ainda preservam o modo de tocar de seus ancestrais. O ocidente judaico-cristão patriarcal que não estudou história, oprime historicamente as culturas orientais e pré-colombianas, quando mostram aos membros das civilizações tradicionais que existem outras opções de música!

    Proibiremos ainda que os habitantes de cada região sejam obrigados a só ouvir o que surgiu em sua região, as histórias que surgiram em sua região, usar as roupas que surgiram em sua região, os conhecimentos que brotaram do nada em sua região! Nada de catalogar e ensinar para a posteridade, é preciso isolar, ou haverá degradação e conseqüente desaparecimento. É preciso isolar as culturas para preservar o multiculturalismo, que é o único modo autêntico e legítimo de convivência entre os povos! Todos os intelectuais afirmam que é, então é!

    NÃO É MIMIMI! É FAZER JUSTIÇA E IMPOR AOS COLONIZADORES, ATRAVÉS DE SEUS DESCENDENTES, O MESMO MAL QUE CAUSARAM A OUTROS POVOS!

    Vamos proibir a ciência! Ela ultraja e segrega aos cantos obscuros, os conhecimentos tradicionais dos povos primitivos! São conhecimentos baseados na cultura, nos costumes, na sabedoria, na harmonia, na vida utópica das tribos assoladas pela dominação europeia! Conhecimento científico não é nada! Conhecimento tradicional de culturas historicamente perseguidas é tudo! O facto de a ciência ter respaldo em todos os cantos do mundo, e os conhecimentos tradicionais de um povo muitas vezes desmentir os de outros, não é nada! A ciência tem que ser proibida e os conhecimentos ancestrais têm que ser impostos! Na marra! Queiram ou não seguir!

    Proibiremos também os livros, que são uma forma eurocultural de transmissão da opressão judaico-cristã patriarcal! Todo conhecimento deve ser transmitido da forma tradicional, oralmente! No máximo em caracteres das culturas milenares historicamente oprimidas em cascas de árvore, peles de animais, pedras e afins! Morte aos livros! Morte à ciência ocidental! NA MARRA!

    NÃO É MIMIMI! É FAZER JUSTIÇA E BANIR TUDO O QUE MACULA A PUREZA CULTURAL, ÉTNICA E GENÉTICA DAS TRIBOS TRADICIONAIS!

    O que foi? "Não é bem assim"? Estou deturpando? Onde? Sua opinião é demasiadamente sujeita aos seus critérios, que podem não ser científicos como imagina. Tanto menos quanto mais carregada de bordões, frases de efeito, citações e discursos alheios. Quero que justifique e fundamente. Eu estudei história, mas toda a história, não só a parte do ditador bonzinho que lutou contra a democracia malvada. Quer fazer justiça? Faça, mas não aos mortos, nem usando seus túmulos como palanque; eles não precisam dela. Ajude o outro a se levantar e capacite a fazer suas próprias escolhas, mesmo que seja o modo de vida tipicamente ocidental.

31/03/2017

Ignorância; luxo supérfluo

    Muita, mas muita gente mesmo considera a ignorância um alento, como se desconhecer um disparo tornasse alguém à prova de balas. Eu poderia tecer um artigo quilométrico a respeito, mas me aterei a três casos de que tenho conhecimento na prática, resguardando nomes e características pessoais, ara evitar problemas. Inicio com o caso de uma diarista desastrada, facto recente, que reescalonou meu conceito de alienação;

    A mãe de uma amiga contractou uma diarista que lhe fora indicada, diziam saber fazer bem o serviço doméstico. A dona da casa saiu para arcar com seus compromissos, confiante, quando a certa altura do dia, a diarista liga questionando, indignada, o que eles tinham feito para as panelas ficarem tão encardidas. Disse ter sido necessário usar uma faca para raspar a sujeira, que estava grudada nas peças, que tinha levado o dia inteiro na tarefa. Voltando para casa, ela viu o que temia: a diarista raspou todo o teflon que havia naquela cozinha.

    Não, ninguém é obrigado a conhecer o que não faz parte de seu cotidiano, mas se sair do pequeno mundo onde ele é possível, o desconhecimento do mundo exterior vai trazer problemas; a questão não é "se", mas "quando" vai acontecer o pior. Principalmente se a pessoa insistir em usar de seus modos costumeiros em um ambiente que desconhece, ambos podem ser e geralmente são incompatíveis. Sair da clausura cultural que lhe dá a torpe sensação de felicidade, vai exigir que abra mão do conforto alienativo que pode ser muito caro ao indivíduo, como parecia ser para aquela diarista.

    Outro caso é o de um candidato a motorista, que foi fazer um teste na transportadora de um amigo que não vejo há vinte anos, talvez. Acontece que essa transportadora só utilizava caminhões de ponta, que utilizava tecnologia de última geração, que ainda hoje nem todos os caminhoneiros se preocupam em conhecer. O problema ocorreu com o diferencial, cuja função explicarei para ajudar a terem uma idéia do que houve; Por conta da largura de um veículo, e tanto mais quanto mais largo, as rodas da direita e da esquerda giram em velocidades diferentes, em uma curva. Em um caminhão isso é muito crítico, porque é um veículo muito largo, muito pesado e tem pneus com aderência muito grande, o que poderia gerar quebras freqüentes, não fosse aquele componente enorme que se vê por baixo e detrás, que parece uma bola, ele permite que as rodas do lado de fora da curva não sejam arrastadas pelas do lado de dentro, e não atrasem estas, evitando forçar demais componentes muito caros.

    Pois bem, não sei a que aquele candidato estava habituado, mas com o diferencial travado (recurso para facilitar sair de atoleiros e outras emergências) ele não só fez uma curva fechada durante o teste, como a fez em alta velocidade, e ainda deu cavalo de pau! Resultado? Um barulho horroroso de metal sendo quebrado, triturado e moído. Um prejuízo que poderia facilmente comprar um carro popular. Claro que ele foi dispensado e claro que a empresa arcou com o estrago, iria cobrar como, daquele duro?

    Outro caso é o de um policial, no início dos anos 1980, que foi ao Paraguai em uma excursão de sacoleiros. Foi o "boom" da muamba paraguaia no Brasil e ele quis pegar a boquinha, só que era um sujeito meio xucro, que não abria mão de falar do jeito que falava e nos termos que sempre falava, quase sempre sem se preocupar se iria ofender, afinal sempre freqüentava os mesmos lugares, falava com as mesmas pessoas e nem mesmo se importava com notícias de fora do país. Ele foi ao Paraguai. Acontece que entrou na loja de um chinês, não filho ou neto de chineses, mas um chinês autêntico made in China, com todo o complexo e melindroso código de honra dos orientais.

    A certa altura, falando pelos cotovelos, rindo, perguntou brincando se aquela mercadoria era legítima ou se era falsificação; foi expulso aos berros da loja, sem entender o motivo de tê-lo sido. Este caso poderia ter culminado em um assassinato, e a polícia paraguaia da época teria dado razão ao chinês. Ele confiou que sua larga experiência de vida e serviço, o gabaritaria a lidar com qualquer pessoa em qualquer situação, mas outra cidade não é a mesa de bar costumeira com a roda costumeira de amigos, que dirá outro país! Que dirá alguém do outro lado do mundo!

    Há ainda um agravante relativamente recente ao apego de costumes locais, é a insistência de muita gente em classificar essa alienação como "sabedoria comunitária", não raro tentando impor a idéia de que isso é vida autêntica, como se ignorância fosse um elixir contra a corrupção. Como se não houvesse parlamentares com diplomas de faculdades pay & play, quando não falsificados. Por corrupção entenda-se todo e qualquer comportamento que cause danos em proveito próprio a terceiros, o que no meu padrão inclui furar fila.

    Há uma diferença tão sutil quanto perigosa, entre falar a linguagem que o outro compreende, e simplesmente imitar o que ele fala, este o expediente mais utilizado para tentar "socializar" alguém. A imitação deliberada não melhora a vida do imitado, só o priva de se aprimorar e crescer como pessoa. Aliás, vai uma informação que nem todos conhecem, sobre o modo de falar de gente que nasce a praticamente morre sem sair do campo; é imposto. Sou descendente de gente assim, o modo como eles falavam era imposição dos coronéis locais, que não admitiam que alguém dentro de seus domínios demonstrasse mais cultura do que eles. Em suma, não é uma cultura verbal gestada e formada, é a continuação inconsciente de uma repressão duríssima ao próprio desenvolvimento humano do indivíduo como ser humano.

    Uma das muitas lições que aprendi, lidando com adolescentes problemáticos, é que ninguém ajuda o outro simplesmente lhe facilitando as coisas, às vezes a facilidade só atrapalha. Quer ajudar? Mas quer mesmo ajudar? Não tenha pena, tenha respeito; são coisas parecidas, mas uma é a Ruth, a outra é a Raquel.

24/02/2017

Thomash desencantou-se

    Esta é uma história real. Nomes e detalhes podem ter sido alterados ou omitidos para preservar as partes prejudicadas, em clara situação de perseguição burocrática.

    Thomash era um jovem idealista, ele acreditava que meia dúzia de garotos decididos e bem intencionados mudariam o mundo. Mas o mundo que ele enxergava, limitações da pouca maturidade em sua idade escassa, era aritmética simples, quando o mundo real funcionava com algo mais complicado do que a relatividade especial.

    O conheci quando era ele ainda um petiz com metade do meu tamanho, o que já é pouca coisa. Alguns anos se passaram até revê-lo e ver, surpreso, que a escala 2/3 se inverteu para 3/2. Mas a barba e o timbre mais grave não escondiam até então,  o garoto cheio de boa vontade e preocupado com seu próximo.

    Estudioso, muitas vezes em excesso, Thomash às vezes se esquecia até do sono e da fome, entretido e envolto em livros e apostilas. As notas acompanhavam esse empenho todo, com seu perfeccionismo crônico atormentando em sua consciência, cada vez que tirava menos de 10,0. Excessos também prejudicam o desempenho, leitores, aprendam isso.

    Com muito custo, Thomash conseguiu entrar para uma faculdade pública, acalentando o sonho de ser professor e ajudar seus alunos a mudarem o mundo. Com relativa facilidade e um bom alemão, ele conseguiu um intercâmbio nos domínios de Fräu Merkel. Lá foi ele, por um ano, aprender muito mais do que esperava na Alemanha unificada. Viu com pesar que alguns de seus heróis eram na verdade, os vilões carismáticos da história, mas também viu com alegria que quase tudo o que se fala mal dos teutões é mito.

    Voltou mais maduro ao Brasil, mantendo a mesma disposição para mudar o mundo e ajudar seus alunos a encontrarem seu espaço nele. Retomou os estudos para o mestrado, empenhou-se como de costume e enfiou-se nos livros, como sempre. A namorada dele realmente o ama, ou já teria arranjado outro.

    Veio aos poucos, em uma curva elíptica, a decepção com a instituições que, em sua cabeça bem intencionada, deveriam ser baluartes da justiça e da honestidade; ainda que não 100%, pelo menos 85% deveriam ser.

    Sem absolutamente nada a ganhar com isso, presumindo então que a inveja e orgulho ferido orquestraram tudo. Vendo o rapazote tão empenhado, apesar das dificuldades, os preguiçosos se incomodaram com seu empenho; vendo seu sorriso tão entusiasmado, apesar das decepções, os amargos se irritavam vê-lo sorrir; vendo seus resultados tão primeiromundistas, apesar das sabotagens que já sofria, os invejosos se revoltaram contra seu sucesso.

    Justo os que apontavam seus dedos rígidos para a "perversidade da sociedade ocidental", usaram de suas morais maleáveis para colocar a burocracia interpretativa contra alguém que, ironia, justamente queria acabar com as injustiças da sociedade, só que agora incluindo as orientais, que então sabia serem tão boas e ruins quanto a sua.

    O usufruto do poder outorgado pelo cargo público, adorado pelos perseguidores, vitimaram Thomash com progressiva intensidade. Pessoas que fazem o que querem e não aceitam sequer receber a outra parte para esclarecimentos; Democracia é só do lado de fora, aqui a lei é a do meu "pensador" preferido.

    Por falhas dos setores da faculdade, deliberada vista grossa de quem poderia corrigir as falhas, acrescidas agora pelos rompantes de autoridade de ideólogos que jamais deram uma aula ao rapazote, e portanto não poderiam avaliá-lo, uma nota com injustos décimos a menos o fez perder não só o semestre, com isso também o mestrado, como também a bolsa que custeava suas actividades acadêmicas.

    Um dos espessos compêndios que Thomash estudou, para apoiar seu mestrado, versa justamente sobre a avaliação integral do aluno, em vez de puní-lo com acento por oscilações pontuais, ainda mais sem sequer chamá-lo para avaliar-se a situação.

    A pessoa não quer saber, simplesmente usou de uma caneta para destilar a peçonha de sua inveja, aproveitando a viagem de férias do reitor, para jogar no lixo anos de estudos metódicos e disciplinados. Isso já faz quem um dia defendia com unhas e dentes o serviço público, pensar com seriedade a favor da privatização de, pelo menos, parte dos trabalhos das autarquias; ao menos algo que obrigue o funcionário a pensar que é um empregado da instituição, não um de seus reis e juízes.

    Se ele vai recorrer? Sim, já está arranjando meios e recursos para tanto, ainda e com mais fervor desejando mudar o mundo através de seus alunos, mas os anos dedicados terminaram em vão... E sua inocência também.

21/01/2017

As regras da casa

   
    Salvo por situações excepcionais, como risco de morte ou coerção, ninguém te obriga a entrar em uma casa, um clube ou qualquer outro lugar. É assim na sua casa, por que não poderia ser na casa em que entrares?

    É muita gente que entra em uma residência sabendo que os donos têm animais, que eles vivem soltos, mas mesmo assim já entram pedindo que os amarrem. Vamos deixar uma coisa clara, aqueles bichos são moradores da casa, as regras internas foram formuladas levando-os em consideração, para permitir o bom convívio de humanos com animais. Não venha fazer-se de inocente e vítima, porque a presença de cães e gatos são notadas de cara, quando se entra na casa, isso quando o próprio morador não avisa previamente que há animais na casa. Se alguém tem que sair ou ser amarrado ali, é tu.

    O mesmo acontece quando há crianças pequenas no ambiente. São filhos dos donos da casa, tudo ali foi preparado para essas crianças virem ao mundo, todos os cômodos foram preparados para elas crescerem com um mínimo de segurança. Até animais de estimação podem estar lá, pensados para ajudar no desenvolvimento dos petizes. Mesmo assim, uma criatura chega aos genitores e diz, na cara de quem carregou os pequenos por nove meses e amamentou por mais seis, para mandá-los ir brincar lá fora, mesmo que não estejam incomodando ninguém. Depois reclama de ter feito um vôo não controlado da porta da casa até a calçada pública.

    Pedir desculpas e fazer as pazes com a parte ofendida? Que nada! Vai às redes sociais falar mal do casal, da casa, das crianças, fazer militância contra animais de estimação e pregar que as pessoas devem ficar até a adolescência trancadas em internatos, só saindo quando estiverem prontas para satisfazer seus caprichos do que deveria ser o mundo. Ah, claro, não se furta o direito de exigir desculpas por não terem mudado as regras da casa por sua causa, e de apagar os comentários contrários à sua vontade.

    Eu não sei vocês, mas quando entro em um lugar estranho, me comporto como visitante de baixa importância. Normalmente eu não conheço as regras, então fico comportado e atento ao comportamento geral, que me dirão quais são elas e se eu devo ou não permanecer lá. Se não concordar, eu saio, não faço protestos contra tudo isso que aí está pra forçar a barra e mudar as partes que não me convém. Aquele ambiente não é meu, a hierarquia dele não é minha, a prioridade lá não é a minha vontade; quem deve mudar ou ir embora assim que possível, sou eu.

    Claro, não estou me referindo a organizações criminosas, reuniões de corruptos e coisas assim. Em encontros de lesadores sociais, a história é outra, mas a recomendação de manter o bom comportamento é maior, de preferência que ninguém note sua presença. Depois dê um jeito de dar conhecimento aos federais, mas enquanto estiver entre eles, mantenha o bico fechado!

    Assim como é em clubes, agremiações, associações, fraternidades, sindicatos e afins. Ao ingressar, o neófito é previamente informado das regras, das penalidades, dos riscos, dos ônus e dos bônus. Se tiver entrado de livre e espontânea vontade, a responsabilidade aumenta, porque o grupo terá feito um investimento em alguém que de certa forma e em princípio, não queria entre eles. Os riscos de sua crueza estragar algo muito importante, é grande, por isso as regras são muitas vezes rígidas com novatos. Não lhe cabe determinar o que é certo ou errado naquele ambiente e naquele momento. Não gosta? Saia!

    O interessante é que na maioria das vezes, especialmente quando o caráter do grupo é meramente recreativo, or mais cretino que seja o conceito de recreação do mesmo, o cidadão até lava latrinas na maior satisfação, só por fazer parte da turma. Depois sai furando sinal, andando na contramão, estacionando onde não se deve e ameaçando quem achar ruim o facto de não ter seguido as regras de trânsito. Lá dentro do meu grupo, eu até como o que os chefes deixarem na latrina, mas aqui fora eu sou o maioral e reivindico imunidade às leis.

    Notaram a diferença? Quem contesta regras de uma casa, um grupo sério ou um país, geralmente é de todo submisso às regras de onde escolheu entrar, ainda que essas regras sejam nocivas a terceiros. É como o caso do indivíduo que perde a casa da família na jogatina, por aposta meramente verbal, mas faz pouco até da gravação de uma câmera que o tenha pego em flagrante delito. Quem quer mudar as regras alheias, quase absolutamente sempre não tolera que não se idolatrem suas próprias regras. Os critérios são "Quem está conosco só pode ser bom, quem está com vocês só pode ser mau". Não literalmente é claro. Prolixia e retórica altamente repetitiva, são usadas para disfarçar o caráter completamente subjectivo da formulação dessas regras.

    Não é raro pessoas assim serem muito maltratadas em seus lugares de origem, buscarem amparo ou mesmo refúgio, se beneficiarem da estrutura local e depois se revoltarem contra ela, alegando que o seu jeito de viver é melhor do que as regras que no momento o protegem. Os centros de recuperação de toxicômanos sabem o que é isso. Os países que estão recebendo refugiados sabem o que é isso. Sair de um inferno e tentar transformar em outro inferno o ambiente que o socorreu, é comum entre os viciados, seja em tóxicos, seja em religiões, seja em certezas absolutas, seja qualquer outra droga.

    Se um lugar lhe parece ser muito conservador ou muito liberal para o seu gosto, evite entrar. Não tente mudar as regras de um lugar só porque tu achas que tem que ser do teu jeito. Se esse lugar te acolheu de bom grado, então é tua obrigação moral seguir o máximo possível das regras dele. Se uma mulher dando ordens te desagrada, vá embora. Se uma criança arcando com responsabilidades desde cedo, te desagrada, vá embora. Se o gosto de artefatos bélicos te desagrada, vá embora. Se a presença de outras religiões livremente exercidas te desagrada, vá embora. Se o gosto declarado por alguns valores antigos te desagrada, vá embora.

    Não existe meio termo aqui, ou se respeita, ou se retire. Se ficar, tenha a fineza de não estragar uma estrutura que uma população pode ter levado séculos para construir. Não lhe cabe mudar os outros e seus lares. Quem estiver em tua casa, estará sujeito às tuas regras, mas tu em casa alheia, respeite as regras dos outros.

20/12/2016

Motivos teria eu para odiar vocês! Mas não odeio.

    Correndo o risco de afastar dezenas de amizades, mais centenas de contactos e conhecidos, vai mais uma bronca aqui! Podem me abandonar se quiserem.

    A "família tradicional" (mãe, pai e filhos) a que tantos tanto declaram ódio; Eu teria motivos para odiá-la. Teria motivos para ser um terrorista desagregador na acepção da palavra. Eu sofri castrações não simplesmente humilhantes, mas incapacitantes. Tornei-me por décadas incapaz de me defender, me afirmar e até de gostar de mim mesmo... Até hoje não vou muito com a minha cara.

    Minha intenção no começo era ser eremita, me isolar de tudo e de todos para morrer onde ninguém mais me aborrecesse. Cheguei ao ponto de simplesmente não perceber que estava sendo maltratado e humilhado, porque para mim era a vida normal. Comecei a trabalhar antes dos seis anos, mas raramente tive carteira assinada, em grande parte por influência familiar. Ficar anos sem conseguir trabalho, remendando sapatos com papelão, cola e linha de costura, tornou-se rotina.

    Eu nunca correspondi às expectativas de ninguém, ainda que tentasse, talvez por isso tenha aprendido dolorosamente a não fazer nenhuma. Isso não me poupou, porém, de desgostos. Eu nunca fui machista, mas vivi em um meio misógino que aos poucos me hostilizou explicitamente por eu não ser cafajeste. Vivi cercado de famílias de formação tradicional que eram a própria encarnação do farisaísmo bíblico. Eu não conhecia outras faces da realidade, então aquilo para mim era o normal.

    Mas eu não queria esse normal, queria me afastar ainda que todas as minhas tentativas tivessem fracassado. Passei a ter ódio de mim por não conseguir isso, afinal não poderia odiar a família, era um tabu muito sólido. Aos poucos e a duras penas consegui olhar para fora de mim. O processo todo é muito longo e intrincado para eu descrever aqui, mas posso dizer que é um labirinto de espinheiros.

    Vejam bem, minha vida foi completamente anulada para eu me encaixar no modelo que me fora imposto, mas não me encaixei. Havia uma alta e relativizante tolerância à corrupção entre os ingredientes, mas corrupção no aspecto mais amplo do termo: Se é para mim, tudo se justifica; se é para o outro, tudo se pune. Eu tinha motivos para odiar essa estrutura? Nos critérios de muitos de vocês eu teria. Odiaria família, religião, autoridade, mercado, idolatraria ditadores, romancearia tiranos e tudo mais.

    Acontece que eu nunca tive, e isto foi um motivo para punições, a política de dois pesos e duas medidas. Se o que um fizesse fosse bom, o mesmo feito por outro também seria. Eu vi gente de famílias de formação tradicional, voluntariamente e sem alarde, fazendo o bem para outros que sequer conheciam. Estudei o comportamento dessas pessoas e vi gente onde muitos de vocês vêem apenas réus por crimes que o milésimo antepassado pode ou não ter cometido. Não foi difícil, apenas demorado, descobrir que muitas, mas muitas pessoas que vocês odeiam simplesmente porque seus dogmas intelectuais mandam odiar, são justo os operadores que tentam consertar as mazelas.

    Bem como não foi menos fácil perceber que a maioria dos heróis revolucionários, se estivessem do outro lado, seriam tratados por vocês como monstros criminosos passíveis de morrer na fogueira. Não estou imaginando isso, eu vi esse grau de ódio SELETIVO emergir. Onde? Onde vocês se recusam a ver, porque estão muito preocupados em culpar o outro pelo sofrimento de alguém. Eu sei que estou te irritando, mas não menos do que suas declarações de ódio camuflado me aborreceram.

    Quando estudei a sério o que vocês chamam de sistema, sem recorrer aos livrinhos tradicionais. Fui às fontes. Sabem o que encontrei? Gente! Não havia uma entidade sobrenatural gerenciando tudo, só havia gente. Empresas são gente, famílias são gente, governos são gente, religiões são gente, não há absolutamente nenhum outro componente relevante além de gente.

    Eu amarguei quatro décadas de infelicidade extrema nas mãos de gente, cogitei suicídio várias vezes para escapar de gente, cheguei a passar meses sem um centavo no bolso por causa de gente. Eu sou gente, não há um de vocês que não seja gente, mesmo que seja alienígena, aqui é denominado gente. E enfiem esses livrinhos bitolados e unidirecionais no picotador, conheço essas porcarias. Não há um que não adule um lado e demonize o outro.

    Sabe o que eu vi funcionando contra o sistema? Entrar nele, resistir às tentações do poder, mostrar resultados e usá-lo. Tem gente fazendo isso. Não me refiro só a Bill Gates e Elon Musk, tem GENTE fazendo isso em empresas pequenas e médias, em repartições públicas, em igrejas, até mesmo nas ruas, sem alarde, às vezes sendo descoberta pela imprensa e depois esquecidas, pois VOCÊS MESMOS não gostam de ver notícias de que algo no "sistema" e na "família tradicional" possa funcionar. Tem gente barrando a corrupção em seus postos de trabalho, em vez de idolatrar e defender raivosamente seus corruptos preferidos.

    O que atemoriza empresários inescrupulosos é a união de boicote e concorrência. Se VOCÊS pararem de comprar porcarias feitas por mão de obra escrava de seus paraísos idealizados, as coisas já começam a melhorar no planeta inteiro. Se derem preferência a quem não precisa apelar para marketing popularesco para vender, as coisas começam a melhorar muito em suas cidades. Se comprarem realmente daqueles sujeitos que tentam oferecer algo decente, não haverá pressão de multinacional que o faça quebrar. Aliás, as grandes corporações já ofereceram mais de uma vez inovações interessantes, inclusive o cinto de segurança nos anos 1950, mas foi o público quem as rejeitou, não a mão do "deus sistema".

    Livrem-se de uma vez dessa doença que os faz culpar os outros e o abstrato pelas porcarias que VOCÊS fazem! Estão agindo como neopentecostais mais fanáticos e pensam que são racionais! Declaram decepção e repúdio contra um lado, mas fazem vistas grossas para o mesmo que o outro faz.

    Se por um lado eu tenho a consciência tranqüila con trema, por não ter me deixado contaminar com a mentalidade porca daquelas "famílias tradicionais", por outro estou tanto quanto por não ter cedido ao apelo fácil e confortável de eleger a família tradicional como um demônio a ser exorcizado. "Ninguém está contra a família só..." Está sim! Eu vi onde vocês se recusam a ver, em seus própios contactos, o ódio declarado a tudo o que cartilhas idiotas mandam odiar, tal qual fazem os fanáticos religiosos, em que os outros religiosos de mesma congregação preferem colocar panos quentes.

   Eu, na mentalidade utopista de vocês, tenho motivos para odiar, remoer e destruir tudo isso. Eu teria motivos até para matar vocês, por não corresponderem às minhas expectativas de um peso e uma medida. Eu teria e tive a chance, mas não o fiz. A minha vida foi destruída, meu amor próprio nunca floresceu, as minhas idéias foram ridicularizadas em público por professores, que chegaram a me chamar de burro em sala de aula. Eu teria motivos, mas estes motivos exigiriam minha corrupção.

    Como me recuperei? Ainda não me recuperei. Se me apegasse à minha experiência, também me revoltaria contra "a família tradicional do sistema" como vocês fazem. Eu teria motivos, mas não tenho verdadeiramente nenhum.

    Hoje estou tentando começar uma vida em uma fase em que não tenho mais tempo e nem vigor para fazer o que eu queria fazer na juventude, e não é nada daquilo que vocês gostam de fazer nas mesmas condições. Tenho planos para reduzir esse prejuízo, planos que beneficiariam mauito mais gente do que eu, mas hoje tenho também o desgosto de saber que estou sozinho nisso. Não posso contar com nenhum de vocês. Também não posso dizer que estou decepcionado, isso seria de um egoísmo imenso, ninguém tem obrigação de se encaixar em expectativas alheias, se não se dispuser e se comprometer a isso. Estou me apegando ao que é bom, bonito e indiscriminadamente justo. Sozinho, é só o que eu tenho.

10/12/2016

Danem-se as conseqüências

Para o bom entendedor, não precisa de legenda


    Que problema há em disseminar notícias falsas, em links cheios de referências e montagens, mas que não apresentam prova realmente nenhuma? É só mais um trabalho. Afinal, se outros fazem maldades pelo mundo, se outros ganham com a desgraça alheia, se outros e outros e outros, por que não eu?

    Interferir em eleições alheias, que mal há? Aqui ninguém se importa em quem vota alguém a mais de dez mim quilômetros de distância... Como se o mundo ainda fosse formado por tribos e aldeias isoladas. O que importa, se trago vinte ou trinta mil euros para casa? A moral é minha, a moldo e estico como eu quiser.

    Tenho audiência, não mato ninguém para fazer meu trabalho. É só um trabalho! E se me pagam, é porque tem quem goste de ver alguém se dando mal, mesmo que seja a nação mais poderosa de todos os tempos, com capacidade para dizimar toda a humanidade apenas apertando um botão! Aliás, deve ser por isso mesmo que me pagam.

    Nem quero saber se quem me paga são mafiosos, traficantes, ditaduras e toda sorte da pior estirpe. Pagando, monto notícias como quero, ou como me encomendam. Se o pagante é contra o sistema, monto uma notícia convincente contra o sistema, ainda que esse sistema seja o que me mantém vivo. Quem se importa se tiranos e genocidas tiram proveito disso?

    Não é uma mentira, é uma encomenda. Mentira é o que os outros contam, eu só faço meu trabalho, não há nada de ilícito nele. Se outros já mentiram e ganharam com suas mentiras, por que eu não posso também? Mas não são mentiras, são notícias encomendadas. Tem muitos intelectuais que acreditam e disseminam, isso é bom para mim, os pagantes ficam felizes e me remuneram mais.

    Não estou preocupado se esses pagantes escravizam e mantém seus povos cativos na base do medo e da censura inflexível. Que me importa? Meus leitores incluem gente afamada em academias, intelectuais famosos, que querem acreditar e embasam o que escrevo com um monte de teorias oficiais. Eu, me preocupar com a alienação pseudointelectual? Não, só estou trabalhando.

    Eu não roubo, não mato, não minto... Só invento histórias para quem paga. Eles sim, roubam, matam, mentem, escravizam e têm gente intelectualizada a seu favor. É contra o inimigo deles, então eles acreditam em tudo o que escrevo, por tanto me pagam e portanto eu escrevo. Desmoronar economias alheias não é da minha conta, na minha conta tem sim é o pagamento pelo meu trabalho. É só um trabalho como outro qualquer. Quem dirige carro polui, por que não posso arruinar a reputação de uma montadora?

    Não é nada contra ninguém, é só o meu trabalho. É um trabalho como outro qualquer, e a recessão é a melhor desculpa para justificar não me importar de onde vem o dinheiro. O sistema é que é o culpado. Se o sistema tivesse me dado bons exemplos, se o sistema tivesse sido honesto, se o sistema tivesse sido justo, se o sistema tivesse sido bonzinho, é tudo culpa do sistema. Não fosse pelo outro, eu não precisaria trabalhar nisso, mas é só um trabalho.

    Olha, eu sei que algumas pessoas podem ficar magoadas, mas eu não posso fazer nada, me pagam para escrever e eu escrevo. Ninguém na minha cidade me condena, então estou agindo certo. Estou ponto comida na mesa, é só o que importa. Não faço mal a ninguém, só sou pago. Quem paga é que faz mal, se valendo dos efeitos do que escrevemos e disseminamos, nós somos inocentes, absolutamente gentis e ordeiros.

    Há teorias acadêmicas, philosóphicas, sociológicas, antropológicas, pedagógicas e historiológicas que justificam tudo o que eu faço, todas elas dizem que tenho o direito de arruinar com uma nação inteira! Não sou eu quem diz isso, são os intelectuais de academias, eles são os gênios respeitados, então eu posso continuar a escrever sem me preocupar com a verdade. Mas o que é a verdade? Se eu me convencer de que posso andar no ar, por exemplo, eles afirmam que eu posso ir de um edifício a outro caminhando sobre o ar entre seus topos. É tudo relativo!

    Quem se importa? As vítimas sempre seremos nós.

03/12/2016

Sobre meu hiato

    Caríssimos, já vieram me indagar sobre o meu sumiço. Após um ensaio de reanimação, praticamente parei de escrever. É um hiato que me permiti, até por falta de escolha. Há épocas em que as coisas simplesmente não fluem, isso atrelado a situações que não vem ao caso contar aqui.

    O ano foi ruim para todos, nestes últimos meses até para os corruptos, comigo não foi diferente. A situação global se arrasta e se agrava desde 2008, mais ou menos. Neste corrente as coisas estouraram, me deixaram sem condições de reagir e, bem... O resto vocês podem deduzir. O que posso garantir é que não desisti de escrever, comunicar, puxar orelhas e tudo mais.

    Para não delongar, se eu não escrever mais nada até o fim do ano, Boas Festas, Boa Passagem de ano e tenham juízo!