06/04/2018

Noel negou


   Nikolau e Nikole aproveitam o piquenique ao sol suave da primavera boreal, um dos poucos momentos de descanso que têm ao longo do ano. Vêem cincunflexamente Rudolph se aproximando, com o nariz brilhando de tão rubro. A aproximação da rena simpatia é sempre bem recebida, mas aquela cara não diz boa coisa, e aquele nariz não se acende sem necessidade; não estão voando sob nevasca, então é problema...

    - Papai, uma cartinha...
    - Mas em Abril???
    - Você não estava esperando uma carta da Branca de Neve?
    - Sim, mas ela disse que seria melhor mandar um arquivo em um pendrive, é muito grande para folhas de papel.
    - De quem é... Rudolph...

    Ele mostra o nome do remetente e eles entendem a cara de contrariedade. Não é novidade um politico brasileiro escrever com pedidos absurdos, um até pediu para ser presidente dos Estados Unidos, antes de ser cassado e preso por mais crimes do que um advogado conseguiria se lembrar. Aquilo, porém, ultrapassou os limites. Normalmente as cartas são lidas a partir de Junho, depois de os gnomos as separarem e organizarem, mas esta ele pede que a rena leia agora, para não estragar o clima de comoção e festa, quando começar a realmente trabalhar...

    - "Querido Papai Noel, como vai?"
    - Ia bem, até agora...
    - "Espero que esteja bem. Neste ano eu fui um bom menino..."
    - RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA, RA...
    - "... por isso me dei a liberdade de escrever esta singela cartinha".
    - Pois aproveita essa liberdade enquanto a tem, mala.
    - "Querido doutor senhor excelentíssimo nobre Papai Noel"
    - Pronto, começou a puxar saco!
    - Estava bom demais! Eles não aprendem! Não conseguem não bajular quando estão na pior!
    - Bem, tem um parágrafo só de puxa-saquismo, vou poupar vocês dele.
    - GLÓRIA!
    - "Coisas terríveis têm acontecido ultimamente, querido Papai Noel! Forças ocultas me tentam ao covarde acto da renúncia antes de findar o meu sacro mandato popular"
    - Agora deu pra plagiar o Jânio? Daqui a pouco anda com uma vassoura na mão e tenta proibir o biquíni de novo!
    - Só falta usar óculos e deixar o bigode crescer, porque os pés ele tem trocado desde que perdeu o juízo e entrou pra política. Continue...

    Alguns plágios mais e a leitura segue para o que interessa. Não que eles quisessem ouvir aquilo, mas não querem perder tempo...

    - "O senhor sabe da minha lisura, minha honestidade, meu compromisso inabalável para com o bem comum de brasileiras e brasileiros..."

    Rudolph interrompe a leitura, esperando que mais uma rajada de risadas termine. Se ele ler "pratrazmente e prafrentemente", Nikolau manda imediatamente uma interdição psiquiátrica como presente antecipado de natal...

    - "Tudo o que eu lhe peço, oh, baluarte da esperança, é que faça a justiça ser feita preventivamente! Que poupe o meu amado país de um vexame e um incorrigível desvio histórico! Que faça, enfim, com que tudo o que é bom, certo e justo prepondere sob o lábaro estrelado que ostentamos"... gente, desculpe, mas...

    Agora os três riem desatadamente. Por um instante pensaram que fosse pedir para Nikolau voltar no tempo e impedir que seus pais se conhecessem. Continuam minutos depois...

    - "Os inimigos da democracia e da liberdade não poupam esforços para calar a voz que ousa amparar os desamparados! Peço, assim, glorioso guardião da infância, que impeça a antijustiça que se avizinha à minha augusta pessoa, a bem dos vastos serviços por mim já prestados ao país. Me safa dessas denúncias, por favor... te prometo um ministério assim que eu for eleito! Com amor..." Cara... Que é isso? Tô chocado!

    - Tentando me subornar, playboyzinho de meia idade! Mas eu já sei qual foi o meu erro! Eu estava ocupado demais e não levei adiante as investigações contra o Zé Bigode, foi aí que tudo começou!
    - A extinção dos dinossauros ainda está impune!
    - Sim, pobres animaizinhos! E ainda fui piedoso demais com o Nandinho Loco-loco-loco, comecei minha coleção de Fiat Elba por remorso, ele deveria ter saído de lá num camburão!

    Há um breve silêncio entre os três, enquanto a efêmera amenidade climática daquela latitude acaricia a relva viçosa. Nikolau olha para sua companheira de milênios, depois para sua rena mais eficiente, pensa na desgraça que pode vir a acontecer, se mais esse deslize se der...

    - Vai ignorar esta também, Papai?
    - Não. Desta vez eu vou dar o que ele merece. Não o que ele quer, mas o que ele merece. E que sirva de exemplo para os outros! Vai caminhar no solo argiloso da estrada que escolheu trilhar, sob as trevas frias que escolheu seguir. Eu não devo arbitrar em orbes que não me competem, mas posso e devo guiar aos que buscam, no caminho de sua estrita escolha e responsabilidade. Não poupei Lulu Nove Dedos, não vou poupar ele, mas a exemplo daquele, o sofrimento e o desgaste serão tão maiores quanto mais ele relutar em aceitar seu destino. Rudolph, peque o pergaminho, a pena, a tinta e escreva a minha resposta.

    Ele não se demora, quer interromper o mínimo possível o descanso de um casal que jamais tirou férias, e trabalha incansavelmente desde que começou a empreitada...

    - Margem, Papai?
    - Sim, claro! Margem, cantoneiras, tudo a que tem direito.
    - Certo... Pronto.
    - Anote então: Ah, é, siô? Never!

19/03/2018

Lição de política com uma minissaia


    Imaginem a cena: Uma adolescente pretende sair para estrear a minissaia que acabou de ganhar da avó porralouca. Nem é curta demais, pelo contrário, mas é mais curta do que costuma usar, e não faz muito tempo (muitos anos, aliás) que andava pela casa com uma boneca de pano nas mãos; ainda tem a boneca no quarto. Ela sabe que o pai vai encrencar com o comprimento daquela saia, mesmo tendo modelagem de primeira. O tecido é fluído, mas denso. A cor é viva, mas lisa, sem brilho nenhum. O modelito se movimenta bem, quando anda, mas está longe de deixar aparecer o que não quer que apareça.

    Ela quer muito sair usando a minissaia nova, mas sabe que será descer à sala e seu pai arregalar os olhos, babar, fazer cara de cão raivoso e demolir a casa, mandando-a tirar aquela pouca vergonha imediatamente. Nem adianta dizer que foi presente da vovó, porque a vovó em questão é sogra dele, sempre teve um prazer sádico em irritá-lo e nunca perdoou a filha por não ter se casado com aquele bancário promissor, que hoje é alto executivo do banco na Inglaterra. Ele rasgaria a saia e a faria voltar pelada para o quarto, de castigo até descer com uma burca decente.

    Pensa em disfarçar com acessórios. Põe uma bolsa maior, mas o tiro sai pela culatra, ela deixa a saia ainda mais curta, e reforça o ar de menininha que sua adolescência ainda mantém. Põe uma bolsa menor, também não funciona, a silhueta fica mais longilínea e as pernas parecem maiores em relação à peça, dando a impressão de que a qualquer passo vai aparecer tudo. Dispensa as bolsas e pega uma carteira de bom tamanho, esperando que isso resolva... mas o espelho malvado diz o contrário. Sem nada mais, a novidade fica muito evidente, a cintura e as pernas ficam muito destacadas e ela ganha um ar de artista de cinema que não evoca boas impressões por seu pai.

    Sabe que salto alto e minissaia são tradicionais inimigos, mas experimenta usar um para ver o que acontece. Lá estão suas longas e bem formadas pernas, com as panturrilhas encolhidas evidenciando o derrière, dando a impressão que até quando parada um sujeito na posição certa veria a calcinha. Os tênis também não ajudam, eles retomam o ar de garotinha do papai com as pernas de fora, que o faria chorar, fazer chantagem emocional e deixá-la com sentimento de culpa pelo resto da vida. Experimenta aqueles sapatinhos meio caretas que evita usar, acreditando que eles aliviarão o visual. Mas que nada! O aspecto de santinha do pau ôco piorou tudo!

    Experimenta mudar a blusa. Põe uma regata com camisa por cima et voilà! Parece uma punk da terra dos telettubbies, toda coloridinha e, o que é pior, com um ar de Lolita que percebeu que vai atrair olhares de marmanjos que quer bem longe! Põe só a camisa branca e piora tudo, fica parecendo aquelas garotinhas dos hentais do irmão caçula que o pai lê escondido. Experimenta uma camiseta e lá está de novo a menininha do papai com as pernas de fora, mas agora com ancas e cinturinha destacadas a milhas de distância. Põe uma jaqueta e só o que aparece é a minissaia. O último recurso é deixar a blusa para dentro, mas então todo o potencial de uma minissaia emerge. Desiste!

    Senta-se desolada na cama, como mamãe lhe ensinou, coma s pernas juntinhas e inclinadas, mostrando só a elas e mais nada. Lá está a prova de que sabe se portar e que a peça não é pequena com parece. Vai ao facebook desabafar, quando se depara com a guerra ideológica de que tinha se esquecido com seu drama. Desta vez ambas as partes concordam, mas se atacam assim mesmo, por causa de mais uma medida absurda do governo que acabou sendo revogada: a obrigatoriedade cara de curso e aulas sempre que se for renovar a habilitação. Não é a primeira vez, já conversou com amigos que o Planalto está jogando essas atrocidades sabendo que vai revogar, só para o povo se acostumar a elas e aceitar melhor uma barbárie comunzinha que ele sancionar depois.

    Pensa em destilar sua raiva na direita, na esquerda, no centro e no próprio presidente, quando se dá conta da última e desesperada chance que tem de estrear sua minissaia. Tira a roupa, pega um lenço de cabelo e ata abaixo da cintura, um bustiê de ginástica e esconde suas alças, põe aqueles saltos altos, se empeteca com maquiagem, enfuna o cabelo e ensaia o andar mais vulgar de que consegue se lembrar; tem colegas que transam para ganhar nota e usam roupas bem mais comportadas, sabe em quem se inspirar. Como lingerie, mesmo incomodando, torce o biquíni até enfiar atrás e na frente. Faz o sinal da cruz e reza para não levar uma surra por isso.

    Desce a escadaria como quem vai arranjar clientes na esquina, chamando a atenção auditiva dos pais, e a gritaria começa assim que eles se viram para si...

    - PARE AÍ MESMO! VOCÊ NÃO DESCE ESSE ÚLTIMO DEGRAU NEM MORTA COM ESSE UNIFORME DE QUENGA!
    - VOLTE JÁ PRO SEU QUARTO! AGORA!
    - Mas eu marquei de sair com a turma da escola...
    - Você vai é dormir com o couro queimando e der mais um passo!
    - Mas mãe, você deixaram...
    - Eu deixei você sair para se divertir, não pra fazer todo mundo pensar que mora numa zona! VAI JÁ TROCAR DE ROUPA! E TIRE ESSA FANTASIA DE PALHAÇA DA CARA!

    Lá vai ela, assustada, vestir a blusa branca, com sapatos baixos e, principalmente, a minissaia xadrez vermelho que ganhou da avó. Capricha no batom, na sombra, no penteado, põe bijuterias de turmalina e então desce, andando como anda normalmente, com a mãe lhe ensinou, como o pai sempre gostou de vê-la andar. Pois o choque funciona. Até o ranzinza elogia a roupa, se emociona em ver como a filha está crescendo e tudo mais. Chega a turma, o casal os põe para dentro, dá recomendações e manda que avisem a qualquer problema, que saem no meio da noite se for preciso e trazem todo mundo de volta em segurança.

    A garota vai feliz para sua festa. Feliz, mas muito preocupada, porque se isso funcionou tão facilmente com seus pais, então o jogo do governo também funciona com o povo.

03/02/2018

Disney & Microsoft

OLHA O PERIGO!

    Está todo mundo com medo que a Disney compre todo mundo, não sem razão, afinal corremos o risco de dormirmos em nossas camas e acordarmos dentro de caixas padronizadas, com milhares de réplicas nossas, em uma loja de brinquedos. Mas existe outro perigo à espreita, outro bicho-papão com quase infinita disponibilidade de liquidez, que também está fagocitanto tudo o que encontra pelo caminho, só que de modo mais discreto: a Microsoft!

    Enquanto nossas atenções se voltavam para a terra das teorias conspiratórias de sempre, Bill Gates começou a assediar de modo quase sexual algumas empresas de tecnologia, inclusive de jogos virtuais. E vejam só que coisa, a Disney tornou-se uma empresa de tecnologia, e é uma sociedade anônima, portanto...

    Aparentemente o apetite dessas duas insaciáveis está longe de ser aplacado, mais do que nossa dívida externa de ser paga, elas são capazes de ressuscitar concorrentes extintas só para poderem compra-las em seguida! Aventemos então duas hipóteses, em que uma compra a outra, com as conseqüências devastadoras decorrentes nas mais variadas áreas da sua vida, caro leitor. Também aventemos uma terceira e bizarríssima hipótese, com desmembramentos tão aterradores que a deixarei por último.

Se a Disney comprasse a Microsoft
  • Para começar, o logo da Microsoft ficaria redondo e ganharia orelhas;
  • O Windows seria inicializado com uma das vinhetas clássicas da Disney, e a Sininho abrindo tudo com um toque de pó mágico;
  • Os alertas de som seriam dados pelo Donald, inclusive os de erro;
  • Quando vocês baixassem um programa pirata, apareceria o Tio Patinhas cobrando royalties;
  • O Outlook mail passaria a se chamar Magic-Mail-Land;
  • Suas contas Microsoft, todas elas, passariam a ser também cadastros oficiais Disney;
  • Todas as informações que Gates acumulou a seu respeito, passariam a ser domínio da Disney;
  • Quem teve conta nas priscas eras do Hotmail, seria insistentemente convidado pelas princesas Disney a reactivá-la;
  • Qualquer producto Disney viria acompanhado de um aplicativo Microsoft;
  • Com esses cadastros todos garantindo um público, suas contas te dariam descontos e facilidades em tudo o que leva a marca Disney, e é MUITA COISA;
  • Seu antivírus oficial se chamaria "Darth Vader Cleaner";
  • Gadgets sem ao menos um aplicativo Microsoft, ficariam mais lentos dentro do parque;
  • Onde quer que se venda qualquer coisa da Microsoft, também se venderiam artigos da Disney;
  • Os custos das duas marcas cairiam e seus productos seriam onipresentes
  • A Disney compraria a Paramount;

Se a Microsoft comprasse a Disney
  • Para começar, o logo da Disney ganharia quatro cores e o aviso "Aguarde enquanto o filme é carregado";
  • Os personagens, inclusive Marvel e Star Wars, se tornariam nerds e dariam dicas explícitas de informática, sempre alertando contra cópias piratas;
  • O Clube do Mickey seria transmitido do Mundo Digital do Vale do Silício;
  • Filmes clássicos, que fizeram a fama da Disney, virariam jogos interativos, com o jogador alterando a trama e o final;
  • Todos os cadastros que a Disney tem, se tornariam contas das Microsoft, inclusive e-mail;
  • Todos os dados que a Disney acumulou a seu respeito, passariam a ser domínio da Microsoft;
  • Quem visitou a Disney nos últimos cinqüenta anos, receberia e-mails institucionais convidando os descendentes a reviverem o sonho de seus avós;
  • Qualquer aplicativo Microsoft viria acompanhado de um bonequinho Disney, inclusive softwares corporativos;
  • Com esses cadastros todos garantindo um público, inclusive aquelas cartinhas para a Branca de Neve, suas contas te dariam descontos e facilidades para tudo o que tem o logo Microsoft;
  • Gadgets com qualquer software Microsoft dariam descontos na entrada da Disneylândia;
  • Onde quer que se venda qualquer coisa da Disney, se venderiam também artigos da Microsoft;
  • Os custos das duas marcas cairiam e seus productos seriam onipresentes;
  • A Microsoft compraria a Apple;

    Se ambas se comprassem simultaneamente, em uma tentativa de chegar uma na frente da outra, usando das mesmas artimanhas para fechar negócio primeiro, teríamos o colapso econômico de um moto perpétuo de compra e retrocompra, que faria um capital gigantesco girar alucinadamente, cada vez mais rápido, gerando um quadro de hiperdeflação que faria a produção de uma mega corporação não valer nada, com o mesmo efeito para pequenos produtores rurais, o que obrigaria o governo americano a declarar Estado de Exceção e interferir nas duas companhias, antes que toda a liquidez do mundo virasse pó; mas então as duas já teriam comprado a China.

    Nesse cenário, o público acabaria querendo ver qualquer coisa que não levasse a janela de quatro cores ou a bolinha de orelhas, e pequenos empreendedores de garagem teriam seu público, apenas dizendo "No Disney and no Microsoft" em suas fachadas, e a hipercorporação não poderia fazer nada sem o risco de perder clientela por queda de popularidade, o que geraria trilhões de dólares de prejuízos na bolsa, como sempre tem sido; mas o mundo já não seria mais o mesmo, Charles.

26/01/2018

Da Lapônia tão distante, vêm os Sami

 

    Quem já pensou em "Círculo Polar Ártico", provavelmente trocou as bolas. A maioria logo pensa nos Inuits, que não gostam muito de serem chamados de "esquimós", vivendo em iglus, caçando focas e pescando em buracos no gelo. Isso quando não pensa em pinguins, que são aves antárticas. Não é de se recriminar, o que acontece naquela região fica quase sempre restrito aos países que ela une, quando algo vem ao resto do mundo é quase sempre alguma matéria rasa e sem noção sobre Papai Noel, com "Oh, eles matam renas para comer", como se nós não fizéssemos o mesmo com bois; os indianos também comeriam renas, se pudessem.

    Bem, os Inuits até estão nesse rolo, mas são apenas a parte mais conhecida e estereotipada da que tem sua maior parte na Finlândia, assim como a Amazônia, que abrange vários países, está quase toda no Brasil Como? Sim, é onde vive Papai Noel! Agora já sabe para onde mandar sua cartinha, mas isso é outra conversa, então boa sorte e voltemos ao tema.

    Graças ao Alasca, comprado dos russos por uma fortuna bem antes de o petróleo ter peso econômico, os Estados Unidos têm uma pequena área dentro do Círculo Polar Ártico, que abrange o norte também do Canadá, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Na Europa, é a região convencionalmente chamada de Lapônia. A região é chamada de Sápmi pelos nórdicos, e seus habitantes, que chamamos de lapões, são os Sami, que chegaram lá há mais de quatro mil anos, ou seja, antes de os países escandinavos existirem formalmente. Já havia lá gente há pelo menos oito mil anos, mas as coisas mudavam muito devagar naquela época. Não é um lugar para qualquer um viver, só mesmo os sami (ou saami, ou same) se sentem à vontade em um lugar onde gelo à temperatura ambiente, ao ar livre, não causa espanto. Daí vocês podem deduzir que eles não matam renas por sadismo, elas são o centro de toda a sua cultura, por séculos eles dependeram quase que exclusivamente delas para sobreviver. Isso é por necessidade, não por maldade. Com quatro milênios nessas condições, pedir que troquem repentinamente o bife de rena por uma salada macrobiótica, francamente, é idiotice!

    Apesar de todos falarem o idioma sami (mas fluentes em sueco, norueguês, finlandês, russo, alemão e francês, até vão bem no inglês) e terem peles apropriadas a uma região que passa metade do ano no escuro, as caraterísticas físicas deles são muito, mas muito diversificadas. Desde indivíduos de aparência embrutecida até adultos que parecem bebês, o leque é quase infinito. Lembremos que havia habitantes na Lapônia quatro mil anos antes de os sami chegarem, o longo isolamento preservou características primitivas, como queixo forte, nariz largo, lábios fartos e cenho proeminente. Diga-se de passagem, são características comuns a muitos grupos de negros africanos, o que ajudou pesquisadores a descobrirem as origens da espécie humana.

    O gosto por padrões em cores fortes também é algo em comum entre os samis e as tribos africanas, mas a própria separação geográfica milenar encerra por aqui as semelhanças. Para começar, viver com pouco, quase nenhum sol a maior parte do ano, com uma pele muito pigmentada, é um problema sério. Pele negra é espessa e forte, quase não entra luz nela, com isso a produção de vitamina D fica prejudicada, imaginem isso em lugares mais centrais, longe de qualquer fonte de pesca. E pele negra com a neve de fundo, mesmo usando peles com pelagem clara, fica muito evidente, perigoso em uma época em que a camuflagem natural era uma das poucas defesas de um primata desengonçado: nós. Uma pele muito clara, se é bem mais frágil, aproveita melhor a pouca luz disponível, e a facilidade com que cora permite ver com rapidez e precisão qualquer problema causado pelo frio, a transição do rosado para o arroxeado fica muito evidente. Não que não haja gente mais corada entre os sami, há, o que só enriquece muito a genética deles, mas é regra encontrar gente com praticamente nenhuma melanina e cabelos praticamente transparentes. Esses cabelos acabam agindo como um isolamento, deixando a luz passar, mas separando o couro cabeludo do ar frio.

    Decerto que com o tempo, e a organização social mais sofisticada, se esconder de predadores não era mais tão necessário, mas identificar alguém do grupo de longe, era, especialmente crianças. Com tanto tempo de isolamento, eles desenvolveram sua própria cultura, e o gosto por cores fortes migrou para a indumentária, que tem em matizes intensas de cores primárias e secundárias quase uma identidade nacional. Talvez tenham deles os russos herdado a arquitetura básica de seus trajes típicos, há muitas semelhanças. A necessidade de se destacarem da neve, em prol de sua própria sobrevivência, os faz harmonizar cores fortes até com o bege do couro cru. Com variações étnicas e de vestuário típico de país para país, um sami reconhece outro e todos são reconhecidos pelos escandinavos.


    A índole sami é boa e agradável, eles são muito acolhedores e gostam de tratar bem as visitas, mas não é chegar como tu chegas à asa da tua avó e ir abrindo a geladeira (que no caso pode ser qualquer porta de saída) auto lá! Eles são pastores, faz pouco tempo que "sami" e "pobreza" eram quase sinônimos, em países que só começaram a desenvolver seus interiores depois da segunda guerra. Faz bem pouco tempo que o preconceito contra os índios da Escandinávia começou a baixar. Sim, "índios", pois eram a população original do extremo norte da Europa, é assim que até hoje são vistos. E sabe o que mais? Isso não os incomoda, desde que tratados com respeito. Por tudo isso, apesar de se alegrarem com praticamente qualquer coisa, eles são bem reservados, ainda hoje havendo quem viva do pastoreio de renas, tanto mais quanto mais ao norte, onde plantar uma horta é quase impossível; o Alasca sabe o que é pagar peso de ouro por uma folha de alface!

    Por essa lida tão antiga com as renas, os pastores se tornaram habilidosos no pastoreio, preparando o laço e indo ao seu alvo com a desenvoltura que só vemos em espetáculos de cowboys americanos, tudo com uma naturalidade espantosa, para quem não é sami. Embora a tração animal ainda seja MUITO importante, snowmobils modernos são comuns, e os esquis são para eles quase como as
bicicletas para nós, só que sem o risco de soltar a corrente. Eles até acham engraçado quando alguém de fora ATÉ HOJE chega e se espanta ao verem-nos morando em confortáveis casas de madeira, com todas as conveniências modernas. Até hoje, mesmo na Europa, há quem pense que eles vivem naquelas mesmas tendas de couro com armação de madeira, no estilo dos índios americanos, que também há muito não vivem assim. Um sami está mais bem adaptado ao modo de vida moderno até do que a gente do sul, o que para eles é praticamente todo mundo. E usufrui dessa modernidade sem medo, sem as culpas e neuroses que tomaram conta do ocidente.


    Meu amigo, estamos no século XXI! Ninguém foi para a parte mais inóspita do continente em buscca de refúgio espiritual, aquela gente migrou para onde era mais fácil sobreviver na época. Toda a cultura que eles formaram, foi forjada pelo ambiente! Eles preservam essa cultura com muito prazer, mas não faz sentido correr o risco de morrer de hipotermia só para atender às expectativas de puristas. Virtualmente tudo está preservado, inclusive a "Aceitação" que equivale mais ou menos ao debute. A vida dura de trabalho árduo faz parte dessa cultura, faz parte da identidade sami. A simplicidade quase previsível dos campos gelados, facilita meditar e desestressar, porque eles sabem que as coisas não virão antes do tempo porque querem que venham, então nem adianta fazer beicinho, não é para baladeiros. Claro que com isso, a civilidade também é potencializada, porque eles sabem que vão cedo ou tarde, depender da ajuda dos amigos.

    Quando eu digo "gente civilizada" não me refiro à finesse sofisticada e repleta de códigos da aristocracia inglesa. Eles não são grossos, mas se reconhecem como indígenas, que no caso é quase o mesmo que "caipira". Sua boa educação é adaptada à rusticidade da vida que ainda é comum entre eles. A civilidade é voltada mais ao respeito pelo próximo e pelo que é do próximo; inclusive o espaço do próximo, entenderam, manés de som automotivo? São fortes, dado o estilo de vida que levam, mas não se privam de apreciar as delicadezas que sua própria cultura ajudou a valorizar. Se tu irritares um deles, saberá o que é um casca-grossa no pior estilo viking. Se caíres em suas graças, meu amigo, pode deixar e-mail, perfis de redes sociais, endereço e até número de telephone; vão te cobrar mais visitas.


    No início do século, eles começaram a se organizar e exigir tratamento digno de seus países. Nada de pedir favores a políticos e órgãos estatais, eles foram mostrar que existem e eram tratados como se não existissem, que os escandinavos estavam enriquecendo rápido, mas o fluxo de recursos públicos não chegava como deveria até eles. Daquela forma ordeira e contundente dos nórdicos, eles se fizeram ouvir e respeitar. Em países acostumados a respeitar seu povo, isso foi relativamente fácil. A cultura, que era a identidade sami, torna-se hoje também um negócio. Os europeus, especialmente nórdicos, vão ver e até viver um pouco de suas origens. Ainda há tendas tradicionais, ainda há gente vivendo como há milênios, mas não com a precariedade de outrora.


    Agora, quanto ao que eu disse sobre a aparência deles... Quando eu falei de adultos parecendo bebês, eu não estava brincando! É ver um rosto arredondado e suave, com boca pequena e olhos vivos, mas com corpos esculturalmente formados abaixo do pescoço. Não é modo de falar, é literalmente assim! É comum entre os escandinavos, às vezes gera constrangimento com quem sai do continente americano, mas naquela latitude, é muito comum! Por isso recomendo cautela aos turistas, porque a unidade familiar ainda é muito valorizada naquela latitude, mesmo com toda a liberdade de que novas gerações usufruem. Justamente essas novas gerações são as que mais tem literalmente vestido suas tradições, especialmente vendo o europeu médio pisar em ovos para assumir a própria.


    Não são uma sociedade fechada, tampouco arreganhara para qualquer um, a hospitalidade que citei reforça isso, mas aprender o idioma sami ajuda muito a lidar com eles. Não, não é obrigatório, mas é um sinal de boa vontade que eles sabem retribuir. Respeitando a cultura deles, ao contrário do que acontece na maior parte do oriente, eles respeitarão e se interessarão pela sua. Afinal eles são a raiz de praticamente toda a Europa, mesmo assim se valem de toda a tralha cibernética moderna como qualquer pessoa comum, especialmente os jovens, como eu já disse, para divulgar e perpetuar sua cultura ocidental bem diante dos detratores idólatras de utopias.


    Eles não fazem discursos prolixos e retóricos, quando dão bom dia, simplesmente se assumem sami com tudo a que tem direito, naturalmente. São pessoas simples, pragmáticas pela necessidade histórica, que não vão perder tempo com o que e quem não lhes interessa. Ninguém verá em seus perfis no facebook "Bom dia, eu sou sami! Eu que sou sami, estou aqui para dizer que sou sami, como vão vocês, sami e não sami?" eles sabem quem são e vivem o que são, não precisam que lhes seja ensinado por quem não vive entre eles.

    Enfrentam alguns problemas comuns com o resto do ocidente, como a baixa da natalidade, o que só fez aumentar o arraigamento cultural. Eles querem que a posteridade usufrua de sua cultura, mas para isso precisam de uma posteridade, e estão lutando bravamente para a terem. Porque se dependerem de gente de fora, mesmo dos "bem intencionados" o sami some.

Um artigo interessante de quem viveu algum tempo com eles, clique aqui.

Sobre os sami, ver aqui e aqui.

23/11/2017

A Maldição dos Templos - resenha

   



    Demorei, mas li o quarto livro da saga OS DRAGÕES DE TITÂNIA, do meu amigo Renato "Matthew" Rodrigues. Não é por ser meu amigo, mas o sem-vergonha sabe escrever!


    Aos desavisados, este livro pode parecer mais do mesmo, mas devo lembrar que não se trata de uma série de histórias sobre a ordem paramilitar, cada livro é uma parte da longa história; se ele fosse colocar tudo em um livro só, seria um catatau imenso e pesadíssimo, que ninguém conseguiria ler. E sim, "A Maldição dos Templos" é o arroz com feijão que ele sempre serve, mas cada livro tem seus temperos e seus acompanhamentos. Não só isso! Este livro faz jus e dá seqüência com trema prefeita aos anteriores. Um leitor novato poderia devorá-lo sem medo de não entender a trama, mas conhecendo os outros, o sabor é mais refinado.

    E por falar nisso, o refinamento da história merece um comentário à parte! A necessidade de administrar a quantidade crescente de personagens, sem que um se pareça com os outros, sem trocar nomes e sem atropelar o modo de vida de cada um, demonstra o profissionalismo e a organização que se escondem no jeito debochado de ser do autor. E nenhum personagem é supérfluo! Todos eles, mesmo os figurantes, têm suas funções, por mais efêmera que seja a participação. Entre os principais, o leitor pode ser pego de surpresa, ao se defrontar com um sujeito que não dá as caras há livros!

    Diga-se de passagem, este livro tem surpresas agradáveis para os que sentiram os lutos dos amigos. Certamente não da maneira como gostaria, mas o sabor desse acepipe de acompanhamento é igualmente aprazível, e dá sinais de que será servido novamente em outra oportunidade; só não me perguntem quando; mesmo que eu soubesse, não diria ainda que um cinísio halterofilista me ameaçasse.

    O que temos de particular neste quarto livro, é o modo lépido e consistente com que o autor aborda a corrupção, e se embrenha nas suas causas expondo a sordidez como algo arraigado no cotidiano de um corrupto, pois mais do que a ganância, é necessário haver o completo desdém para com a vida alheia para alguém se corromper. Boas intenções não resistem à primeira vantagem ganha de modo torpe. Isso inclui a forma didática e eficaz como ele mostra a formação de um monopólio, baseado em um problema que o próprio corrupto ajudou a formar. Qualquer semelhança com a política brasileira NÃO É mera coincidência! Renato tem se indignado de modo contundente, nos últimos dois anos, em uma seriedade em que ele quase não se faz reconhecer.

    O mais interessante, é que esses quatro livros compreendem o tempo de pouco mais de um ano. Daí não é de o leitor se espantar com o tamanho e a quantidade de arestas ainda por aparar, que todos os personagens têm uns com os outros. A coisa é muito recente, compreendem? Eles não conhecem todos os defeitos dos parceiros de ordem, ainda há muitas esquisitices para cada um revelar aos outros e, diga-se de passagem, vocês não devem cair na armadilha de acreditar que já conhecem o senhor Augustos Máximus Khosta. Saber que ele é um baita nó cego e um grandicíssimo safo, é tudo a que vocês podem se apegar.

    Outro tempero próprio deste livro, é que o amor está no ar. Não só a paixão complicada entre uma freira nórdica e um príncipe misterioso, mas a coisa pega fogo... ou quase... bem, em dados momentos, pega fogo mesmo, mas podem tirar seus pégasos da chuva, não é nada impróprio para menores. Seus mentes poluídas!

    Em alguns momentos, parece que um caso vai se resolver, que um ou dois vão se entender com os pares, mas a coisa fica na promessa. Não de graça, é claro, afinal os figurantes querem seus cachês! O costumeiro gancho que Renato sempre dá para o próximo livro, neste foi replicado várias vezes. Há personagens antigos que não davam as caras há tempos, há personagens novos que deixaram marcas cordiais em suas curtas aparições, em ambos os casos eles ainda têm o que fazer nesta saga, e podem reservar seus exemplares do quinto livro, porque eles serão importantes.

    Como sempre, claramente auxiliado pela primeira dama da magia brasileira, Renato nos dá algumas lições que, façam o favor, não me digam que vocês não notarão! Eis algumas:
  • Às vezes as aparências não enganam! O que (ou quem) parece ser ruim é realmente ruim, mas quase sempre esconde o seu pior para quando for dar o golpe, então não meça prudência se precisar lidar com gente assim;
  • A diferença básica entre um parlamento e uma arena de luta, é que o lutador se apresenta quando vai dar o golpe, o parlamentar se apresenta quando o golpe já foi dado;
  • Não superestime sua capacidade, não importa o quão grande seja, de reconhecer o perigo. Sempre haverá alguém mais perigoso e experiente do que você, e vai te enganar direitinho! Tenha sempre um pé atrás e um punhal oculto para se defender;
  • Nunca tente completar, por falar nisso, o que o outro está tentando dizer. Em vez de ajudar, pode deixar o outro mais nervoso e atrapalhar ainda mais o seu julgamento. Ajude, se for necessário, mas não tente fazer por ele o que só ele deve fazer;
  • Os motivos do outro, especialmente se for um pai de família desesperado para não perder sua casa! Por mais baixo que ele PAREÇA estar descendo, o facto consumado pode ser o exacto oposto do que você está pensando;
  • O fanatismo não desaparece se seus fundamentos forem proibidos, pelo contrário! Uma população desprevenida e crente de seu desaparecimento, é incapaz de evitar que ele se ramifique; então não reclame dos idiotas se mostrarem como são, nas redes sociais, incógnitos eles são mais perigosos;
  • SEMPRE, mas SEMPRE MESMO, desligue o corrector automático do Office! Ele não sabe que não precisa colocar todas as palavras de uma oração na mesma concordância em que uma das trezentas foi colocada! Ele é burro!
    Sem mais, meus queridos, é mais uma obra literária de entretenimento com boas lições morais enxertadas, digna do nosso bom amigo! Eu recomendo!

    Agora só mais uma coisa... De onde surgiu em minha cabeça, a musiquinha irritante e TOTALMENTE SEM NOÇÃO "Shokozug! Shokozug! Shokozug! A fada do amor!"?

14/11/2017

O que o operário faz?

Disneyland 1950-60s
    Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Ford, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1. Bolo de mandioca;
  2. Garrafa térmica;
  3. Automóveis;
  4. Não faz idéia do que sai na ponta da linha de montagem;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Embraer, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1. Televisores;
  2. Roupa de inverno;
  3. Aeronaves;
  4. Operário não sabe o que está fabricando;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Estrela, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1.  Tijolos furados;
  2. Cerveja;
  3. Brinquedos;
  4. Quando me aposentar vou até o fim da linha e vejo o que é;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Erlan, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1. Microprocessadores;
  2. Chapa de aço cromo-níquel de alta liga;
  3. Doces;
  4. Empregado não precisa saber o que está fabricando;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Toshiba, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1. Dentadura;
  2. Revistas pornô;
  3. Aparelhos electrônicos;
  4. Só quem sabe é o patrão;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Malwee, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1. Vidraria;
  2. Discos de vinil;
  3. Roupas;
  4. Se eu soubesse eu seria burguês;

     Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma cozinha do Habib's, o que diria às pessoas que ajuda a preparar?
  1. Barcos;
  2. Baterias de íons de lítio; 
  3. Comida;
  4. Operário simplesmente vende sua força de trabalho;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego nos estúdios Disney, o que diria às pessoas que ajuda a fazer?
  1. Seringas de injeção;
  2. Alho poro;
  3. Filmes e programas de televisão;
  4. Desde quando operário sabe até mesmo onde trabalha?

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue ingressar no exército, o que diria às pessoas que ajuda a fazer?
  1. Cerimonial de debute;
  2. Música ruim para cantores "cool";
  3. A defesa do território nacional;
  4. Empregado só bate ponto e nada mais;

    Tens certeza? Ok, então vamos à próxima questão. Se alguém consegue um emprego em uma linha de montagem na Rolex, o que diria às pessoas que ajuda a fabricar?
  1.  Preservativos;
  2.  Biquínis;
  3.  Relógios
  4. Vou pedir ajuda aos universitários, que sabem menos do que eu;
     Tens certeza? Ok, então vamos à última questão. Se alguém consegue um emprego na NASA, o que diria às pessoas que ajuda a fazer?
  1. Gravações infames para carros de mensagens ao vivo;
  2. Mapa astral;
  3. Exploração espacial;
  4. Ah, cansei, você não é intelectual como eu. Adeus!
    Salvo em ditaduras extremamente fechadas, que escravizam seu povo, um operário sabe sim o que está fabricando e o que sairá  na ponta da linha de montagem. Em alguns casos, sabe até mais do que o CEO da companhia. Em última instância, é só ler o contracto de trabalho, ele diz exactamente o que a empresa faz. Essa discussão foi inventada por quem não sabia do que estava falando, ou queria confundir quem jamais pôs seus pés em uma fábrica.

06/11/2017

Uma coisa sobre o amor

1940s

    Vamos deixar logo de cara a verdade, tu não levas absolutamente nada de quem amas. Mas nada mesmo! Essa coisa aí, entre as suas pernas, meus amigos, não é amor, na melhor das hipóteses é expectativa. Não, eu não quero saber de definições dadas por intelectuais, philosophos famosos e artistas cultuados; a maioria deles também não sabe o que é o amor. Não sabem e, em não sabendo, sofreram e os vivos ainda sofrem pelo que pensam que sentem.

    Digo sem medo de ferir, porque melhor para a alma é um ferimento pontual do que uma chaga cultivada em campos florais: amor é aquilo que tu dá pelo outro, não necessariamente ao outro. Explico, dois pontos:

    Essa coisa egoísta e possessiva que faz o corpo tremer, tender a correr e agarrar, agredir quem se puser no caminho e tudo mais, é conseqüência de reações hormonais que trazemos desde a origem de nossa espécie, e serve tão somente para garantir a perpetuação de sua linhagem genética. Os cuidados que a maioria e nós sente que tem obrigação de dispensar aos rebentos, é subseqüência disso. Na natureza, assim que o filhote consegue caçar sozinho, o risco de ele se tornar persona non grata no bando é muito grande, até porque ele provavelmente não vai mais enxergar seus genitores como "pai e mãe", um será o potencial parceiro de cópula e o outro o concorrente; ou talvez ambos sejam concorrentes, acontece.

    É assim, onde o impulso hormonal impera. Os adultos não se importam com o que vai acontecer ao descendente, assim que ele tomar seu rumo, e é bom para ele que nunca mais se cruzem, alimento na natureza é escasso. Fora do universo dos mamíferos, quase todas as espécies são assim, inclusive as plantas.

    O comportamento altruísta para com a prole, às vezes até com conhecidos não consangüíneos, pode ser aprendido, para que a pessoa tenha aceitação social e aumente suas chances de sobreviver até a morte natural. Neste caso, é uma construção social. Mas no caso das pessoas que realmente se importam com os outros, mais numerosas do que a imprensa faz parecer, às vezes se contraria a posição da família ou do grupo, para ajudar a outra pessoa. Claro, também há os que fazem questão de contrariar e provar que não cederam à "construção social", mas esse é outro caso para outro texto, caso de bobos que foram placidamente montados por quem berra a todo pulmão que a sociedade é uma montagem. Vamos ao que interessa aqui...

    O que basicamente diferencia a atitude de amar do mero impulso passional, é querer o bem do outro, ou do grupo, mesmo que lhe doa muito; e às vezes mesmo que doa ao outro. Pelo bem do outro, infelizmente muito mais freqüente do que gostaríamos, é necessário deixar que ele padeça até certo ponto, para ele compreender o erro que cometeu.

    O que faz o apaixonado? Tenta encher o outro de prazeres e facilidades a qualquer custo, mas qualquer custo mesmo! Se faz de servo, mas exige magistralmente reciprocidade dessa paixão, muitas vezes de forma asfixiante, mesmo que o pagamento seja noutra moeda; como um masoquista que se apaixona por um sádico, por exemplo... caso de muitos, mas muitos casais, quase todos inconscientemente. A paixão te cega para absolutamente tudo o que o outro fizer de errado, desde que não frustre as tuas expectativas, porque se o fizer, meus amigos, a paixão se volta contra o objecto de desejo e se torna o ódio mais estúpido. É assim que acontecem os "crimes passionais", que absolutamente nada têm de amor, mas tão somente desejo e sentimento de posse.

    Caso não consiga destruir o antigo "amor", aquele que por contracto hormonal deveria satisfazer a todas as suas expectativas, uma rixa que pode durar décadas, até séculos, pode colocar duas famílias em pé de guerra, como foi o caso até recente das famílias Alencar e Saraiva. E AI de quem estiver no meio do fogo, a paixão é cega e insaciável, para o mal e para o pior! Porque a simples recusa de um caso rápido, pode desencadear um ódio tão intenso, que matar se torna a única razão de viver do que foi frustrado.

    Isso não é amor! É preciso muita maturidade e, quase sempre, muita serenidade para deixar o amor crescer. Às vezes é preciso até mesmo se ferir, porque assim a ira hormonal se volta contra o ferimento e deixa o outro se revelar como é, para o indivíduo discernir se existem afinidades suficientes e sincronia para que esse amor tenha uma potencial relação a dois para cultivar. Isso vale tanto para uma pessoa, quanto para um grupo ou mesmo uma causa; só muda o foco, é amor do mesmo jeito. Bonito? Talvez não, quem ama o feio sabe que é feio, não o ofende e não romanceia a aparência, mas trata com amor do mesmo jeito.

    Acontece, maus amigos, que uma relação precisa ser renovada de tempos em tempos, algumas até continuamente. Não, nada a ver com aquelas demências televisivas de "loucuras por amor"! Eu já disse, o amor demanda muita serenidade e muita maturidade, características que não dão espaços parra arroubos exibicionistas. Eu tenho experiência no caso, mais do que quase todos os que me cercam imaginam, bem como base científica de décadas de convívio com psicoloucos, digo, psicólogos.

    Infelizmente, nem todas as relações são renováveis. Infelizmente em termos, porque nem todas foram feitas para a eternidade, a maioria se presta para nos dar lições, e é aqui que o amor se diferencia realmente da paixão. O sofrimento dos que amam não tem com o que se retroalimentar, dura enquanto a dor da separação durar e depois passa, sem com isso privar a pessoa de tocar sua vida. Talvez, se a separação for uma perda traumática, dure muito tempo, mas a pessoa não alimenta a dor, ela tenta atenuar até eliminá-la, para continuar vivendo e, principalmente, não tenta fazer os outros ao seu redor sofrerem também.

     Às vezes, bons amigos, a única coisa que se pode fazer por quem se ama, seja uma pessoa ou um grupo, é ir ou deixar ir embora. A tristeza se origina mais naquilo que ainda queríamos fazer pelo foco do amor do que pela separação em si, sejamos francos; todos fazem expectativas, por mínimas que sejam, inclusive eu. Esperar poder participar de algo com alguém, por banal que pareça, é uma expectativa. O que diferencia o apaixonado do que ama, é que este se recusa a vampirizar a vida do outro e o deixa partir. Às vezes o outro nem sabe, às vezes só desconfia, mas para o que ama a chance de esse outro (ou esse grupo) estar bem a longo prazo, é suficiente. Molham-se alguns lenços, talvez até um início de depressão, todos somos humanos, então se retoma a vida, ainda que aos poucos.

    Aqui, meus queridos, vem a diferença estrutural mais gritante: O amor liberta! tanto quem deixou ir quanto quem foi. E num dia qualquer, em um reencontro, ainda que um rubor denuncie, haverá sorrisos. Dependendo do que aconteceu, ou o que ficou por ser conversado, haverá risos. Porque sem os grilhões da obsessão, a tolherem seu desenvolvimento, ambos terão crescido. Apenas tente não fazer expectativas, não caia nessa armadilha, mas esse hipotético reencontro pode ter sucedido o hiato de que uma renovação perene necessitava para acontecer.

Só o amor vale à pena