04/12/2015

Testemunhas de Papai Noel

  A campainha toca. O rapaz tenta imaginar quem seria capaz de incomodar um pobre trabalhador em seu dia de folga, tão cedo, ao meio dia da manhã. Imagina que sejam aquelas testemunhas de Jeová novamente, devem querer desforra por ter comparado a bíblia aos contos dos irmãos Grim, já que "desculpe, sou ateu" não os convenceu a procurar outra vítima.

  Olha pelo monitor, olha para o chão, para o monitor novamente, esfrega os olhos, bate na cabeça para ver se o cérebro pega no tranco, mas parece que aquela cena bizarra é real. Uma rena de nariz vermelho está tocando a campainha, aguardando pacientemente ser atendida...

  - Porra... Que merda enfiaram na minha tequila, mano?

  Vai ao interphone, e a rena fala. Não, não é truque, ele vê a sincronia entre a imagem de alta resolução e o som que ouve...

  - Bom dia, Ricardo! Você teria um minuto para ouvir a palavra de Papai Noel?

  Agora a coisa ficou brava! O que quer que tenham colocado na tequila, tornou a alucinação permanente e estendida a todos os outros sentidos. Pede que espere um pouco, tira a cara de monstro do pântano e vai lá fora. Quem sabe com o ar fresco as idéias se organizam e o efeito da droga passa. Vai mastigando uma bala de menta da mais cara, para que o bafo de múmia não torne a conversa mais desagradável do que o necessário. Só vai dizer "Sou ateu, me desculpe, não falo de religião" e dispensar o rapaz de camisa de mangas longas e gravata.

  Abre o portão e lá está... A rena de nariz vermelho. Ele gostaria de rezar agora, mas é ateu há tanto tempo e se esforçou tanto, que não se lembra nem mais de uma Ave Maria. Tenta embarcar na alucinação, para ver se ela se desvanece sozinha...

  - Bom dia. Olha, vai me desculpar, mas eu sou ateu, evito ao máximo falar de religião.
  - Não vim falar de religião, Ricardo. Meu nome é Rudolph, vim trazer as palavras de amparo que Papai Noel mandou para você.

  Ele raciocina um pouco, pelo menos tenta. Olha para os lados, aproveita que ninguém está olhando e pede que a rena entre, esperando que o IBAMA não tome conhecimento deste episódio. Como acordou muito tarde, ainda não teve tempo para bagunçar a casa. Menos um vexame. Para acompanhar a visita, se senta com ela no carpete...

  - Já faz muito tempo que você não comemora o natal. Papai Noel compreende seus motivos. Inclusive por religiosos hipócritas, que vêm lhe oferecer uma salvação em troca do seu livre arbítrio. Você endureceu tentando preservar seus valores.
  - Mais ou menos... Natal é cartão de crédito! Quem tem saldo, tem noite feliz, noite de paz... Quem não tem fica lambendo propaganda pela televisão.
  - Sim! Isto é conseqüência do comportamento egoísta de quem reza para o altar, mas não para o coração. Se a felicidade depende de trocar sua vida por uma promessa, então a vida não tem realmente valor, nem mesmo a de uma criança que vê anúncios de chocotones, mal tendo pão comum para comer.
  - É isso que me revolta nessa papagaiada de "feliz natal". O cacete! Efeméride só vai até onde sua conta bancária alcança!
  - É aqui que a conversa realmente começa. Ricardo. Você está sendo duro demais consigo mesmo, está desmerecendo o seu próprio trabalho, ao afirmar que ninguém faz natal de verdade.
  - Como assim? Fiz algo que de eu não tenha conhecimento?
  - Você tem conhecimento de todas, só não se deu o valor. Você ganhou uma baita cesta de natal da empresa, mas a deu para o primeiro catador de papel que encontrou.
  - Eu não precisava dela, ele tem crianças pequenas, ele precisa.
  - Esse homem iria pedir dinheiro a um agiota, naquele dia, para comprar uma ceia magra de natal. No mesmo dia você comprou todas as flores de uma vendedora e pediu que ela as distribuísse pelo metrô.
  - Tô sozinho, ia dar flores pra quem?
  - Ontem você deixou cair, deliberadamente, duas notas de cem reais na bolsa de uma senhora que estava na fila do caixa, quando viu que ela não encontrava dinheiro na carteira.
  - E eu ia deixar a dona passar vexame por causa de um vagabundo que deve ter furtado a grana dela? Eu sei o que é passar fome!
  -  Você não se identificou, não pediu aplausos, não esperou por gratidão, você se fez Papai Noel para essas pessoas, e são só os três últimos casos. Você não precisa tentar resolver os problemas do mundo, sua função é resolver os seus, se puder os que estiverem ao seu alcance. Mas você tenta assim mesmo.
  - Tem que ser filho da puta pra ver gente por baixo, poder e não fazer nada.
  - E se tiver chance de fazer de novo, você faz.
  - Mas é claro!

  A esta altura ele não se questiona mais sobre como uma rena falante de nariz vermelho pode saber tanto a ser respeito, se nunca fez questão de contar. A rena continua...

  - Quando Papai Noel começou a distribuir brinquedos, não era para mimar e estragar as crianças, como se faz hoje. Ele frisava que só as crianças boas ganhariam presentes, mas isso com o tempo se tornou argumento para barganha e chantagem. Nunca houve uma geração tão mimada, materialista e chantagista como esta. E em "materialista" eu incluo aquelas que vão às igrejas, cantam, gritam e choram só para receber um pedaço de céu. Não é por amor que fazem isso, é barganha.
  - Tu entende do assunto, Rudolph! Tu entende muito!
  - Então você concorda que gestos simples e desinteressados fariam um natal de verdade.
  - Totalmente! O que você tem em mente?
  - junte uns amigos, ponha uma fantasia no Borges e resto você sabe o que fazer.

Ele pensa por um minuto, se vira para a rena, mas ela já não está lá. Liga, passa e-mail, WhatsApp, mensagens em redes sociais, convoca todos os que pode para  uma balada. Arranja uma roupa vermelha de algodão, para o amigo não morrer desidratado, recolhe o dinheiro da vaquinha e providencia tudo. Na madrugada do dia 24 para 25, lá estão todos aqueles malucos vestidos de Papai Noel, Mamãe Noel e gnomos ajudantes, com um caminhão rodando creches, asilos, hospitais públicos e plantonistas de várias profissões. No final das contas, com o dia raiando, viram que o dinheiro deu para mais do que pensavam e a noite foi longa o suficiente. Agora vão eles comemorar o natal que ajudaram a construir.

16/11/2015

Filho é atraso, né... Não é? Hein?

Tudo bem se vocês não querem isto, mas teu desafeto quer!
  Não, eu não estou insensível às tragédias dos últimos dias, todas elas anunciadas. Não entrarei em méritos específicos, nem direi que foi bem feito, não sou tão mau assim! O que quero tratar agora é do efeito causa e conseqüência.

  Há muito tempo as pessoas têm comentado, voltando do exterior, o quanto o índice de orientais tem crescido no ocidente. Ninguém se deu o trabalho de estudar as ramificações e o horizonte que esse fenômeno nos apresentava, mas ele estava ali, bem nas nossas frontes o tempo todo, dizendo e firmando fé de sua aproximação. O aumento de famílias de origem oriental estava acompanhado rente do encolhimento e envelhecimento da população nativa européia.

  Não quero condenar o desejo de jovens casais adiarem e reduzirem ao mínimo a cria, as últimas seis gerações foram educadas a pensar primeiro em si, nos seus sonhos e, como virou moda, nos seus direitos, para depois ver o que faz por outro que nem nasceu ainda, e talvez nem nasça. O problema, no caso, é que com isso a população demora mais a se renovar e se renova menos. A questão não é só demográfica, é também econômica.

  A maioria absoluta das pessoas, tão logo planeja a vida profissional, pensa em trabalhar até certo ponto e parar, viver da renda a que tem direito e ter vida mansa na velhice. Sabemos que isso quase nunca acontece, mas é a meta de quase todo mundo: Até aqui eu contribuo e ajudo a sustentar os aposentados, depois é a vez de eu ser sustentado. Até meados dos anos oitenta isso funcionava muito bem, o mundo nem se preocupava com o envelhecimento da população porque a previdência (social e  privada) estava recebendo mais do que pagava. Só que isso mudou.

  A partir dos anos noventa a balança seguiu uma senóide descendente, a massa de trabalhadores estava ficando muito, mas muito próxima à de aposentados. De então até o momento as previdências têm apresentado déficits praticamente no mundo inteiro, há lugares onde os aposentados já superaram o número de trabalhadores na activa. O que isso significa? Quem leu os editoriais de economia nos últimos vinte anos sabe muito bem, está cada vez mais difícil tapar o rombo, o dinheiro que entra nem sempre cobre o que sai.

  Os sindicatos encresparam todas as vezes que uma equipe econômica acena para a necessidade de se aumentar o tempo de serviço, para compensar em parte o envelhecimento e encolhimento da população. Bem, não vou dizer o que penso desses sindicatos, só digo que a ação deles teve uma conseqüência, o encolhimento da base de pagadores das previdências. Certo, foi a escolha deles, essa escolha moveu uma máquina que só agora está mostrando para que lado anda.

  Existe uma verdade que é muito mal interpretada e, muitas vezes, deliberadamente distorcida para interesses de grupos, que agora e a mim não interessa especular da nobreza ou não de suas intenções. O mundo tem cerca de sete e meio bilhões de habitantes, a maioria deles vive no vasto oriente, do próximo ao extremo. Criou-se a histeria de que haveria muito mais gente no mundo do que seríamos capazes de alimentar e medicar, qualquer multidão localizada é utilizada para validar o mito. Na verdade toda a população mundial viveria bem no sudeste brasileiro, ninguém precisaria dormir em pé e a simples existência de mercado tão concentrado facilitaria muito a logística, facilitando assim, também, a geração de empregos para todo mundo.

  Não vou falar das mazelas políticas, ideológicas, econômicas, dogmáticas et cétera. Não viveria tempo suficiente para discorrer sobre todas as ramificações do caso, então me aterei ao que o título sugere.

  Bem, a natureza odeia o vazio. O espaço cedido por um corpo é rapidamente tomado por outro. Não há bondade e tampouco maldade nisso, é simplesmente uma das leis mais elementais do universo. A população só está crescendo muito no oriente, que é tradicionalmente tido como mais conservador. No ocidente, são justamente os que se assumem conservadores que têm mais filhos, os que se dizem progressistas não raro detestam crianças, as consideram incômodos e entraves no gozo da vida plena de uma pessoa. Não é implicância, pode perguntar a quem trata de saúde mental e verá o que digo.

  No Japão já estão chamando descendentes de emigrantes, antes desprezados, para repovoar o país, oferecendo vantagens que os nativos não têm. A população, ciente da gravidade presente, não reclama muito. Não faz muito tempo alguns países europeus começaram a conceder cidadania a descendentes de nativos, para também tentar reverter a situação. O temor deles, especialmente dos mais chegados ao nacionalismo, é que os imigrantes da África e Ásia vão pagar suas aposentadorias. Chineses, muçulmanos de várias origens e etnias, pessoas que são normalmente mais conservadoras com relação às ditas conquistas modernas.

  Bem, se para você um filho antes dos trinta anos é um estorvo, acredite, para uma argelina típica é uma bênção. Ao contrário do ocidente, que tenta poupar as crianças de tudo e trancá-las em uma redoma de cristal, os orientais não vêem problemas em seus rebentos ajudarem nas tarefas de casa, lavarem o banheiro da escola onde estudam, levarem reprimendas severas em público... Tudo o que a sociedade do "viver por prazer" tolhe de seus descendentes.

  São sociedades repressoras, que geram traumas e tolhem a individualidade? Sim, até certo ponto sim. Nossa sociedade é demasiadamente permissiva e frouxa na formação moral do cidadão? Sim, até certo ponto sim. O problema é que esses pontos se cruzam e dão espaço suficiente para que um lado ocupe os espaços deixados pelo outro. Não é porque uma atitude ou palavra saiu de seus desafetos, que tu deves desconsiderá-la, os inimigos que elegeste também podem estar certos e o que eles dizem também pode ser benéfico para ti e tua sociedade.

  Enquanto o estereótipo da mulher ocidental vê um filho como incômodo e, isso já acontece, pode até abortar até o limite da lei só para ter um filho mais próximo do que deseja ter, uma africana ou asiática em seu estereótipo releva facilmente o sofrimento do parto e aceita o que vier. Vejam bem, eu disse que são estereótipos, mas assim como os mitos, os estereótipos têm raízes fortes nas sociedades que os criaram. Uma mulher religiosa e conservadora não vê problemas em ter seis filhos, ainda mais se puderem planejar bem. Será uma mulher infeliz, hipócrita que viverá uma alegria falsa para dar satisfações à sociedade e à família? Errado! Muitas mulheres que não são tidas como conservadoras, lamentam não poderem ter tido vários filhos. O facto de alguém não sair todas as noites, não transar sem compromissos, não ser adepto de entretenimentos radicais, não ser simpático ao modismo de viver de photossintese para não magoar as plantas, não significa que seja conservador. Hitler era vegetariano.

  Perceberam como mesmo aqueles que se dizem ativistas que lutam contra os preconceitos, podem ser os maiores propagadores de um ou mais, só mudando o rótulo?

  Pois bem, enquanto o mundo ocidental se digladiava nessa ladainha estéril, os pragmáticos orientais simplesmente chegaram e tomaram os espaços ociosos, o que inclui empregos, escolas, casas, bairros inteiros, enfim. Eles estão por toda parte, tomaram conta de uma fatia considerável da sociedade ocidental, sem precisar protestar contra tudo isso que aí está, sem depredar, sem pichar fachadas, apenas se aproveitaram de uma sociedade que se julga moderna, se julga tolerante, se julga avançada, se julga poderosa e perdeu décadas debatendo bobagens, não raro coisas que deveriam ficar entre o psiquiatra e seu paciente, a ponto de cogitar que o Estado faça leis para absolutamente todas os aspectos da vida humana, para evitar que alguém espirre em um ângulo inadequado e ofenda os valores e as conquistas de outro cidadão.

  Nota: Vocês estão fazendo o que todos os ditadores da história tentaram. meus parabéns, imbecís.

  Certo, ninguém é obrigado a ter três filhos, a se casar, a dedicar vinte ou trinta anos da vida que poderia ser preenchida só com prazeres, para colocar um pedaço petulante de gente no caminho do crescimento. Mas os orientais e os ocidentais conservadores não vêem nenhum problema nisso, pelo contrário. O mito da matriarca italiana poderosa e dominadora, que bate no rosto e corrige o filho mesmo que ele já tenha netos, não é mito. Ela existe e é mais numerosa do que vocês imaginam. Só não mora mais em uma casa de pedras nos rincões da Itália, não a maioria delas, é claro, mas é facilmente reconhecida por quem se dispuser a vê-la.

  Se vocês acham que um filho é um obstáculo, não tenham filhos, mas saibam que para muita gente, e quase sempre gente que não gosta do tipo de vida que vocês levam, ter vários filhos é um sonho, não necessariamente uma imposição. Esses numerosos filhos vão ocupar o espaço dos que vocês não quiseram ter, e sendo numerosos, terão mais peso político. eles vão pagar suas aposentadorias, sim, mas só até quando quiserem. Afinal, se eles acharem que seu estilo de vida contribuiu para a decadência do mundo, podem forçar leis para que vocês, mesmo velhos e quase sem forças, sejam obrigados a procurar novamente trabalho ou, Deus os livre, pedir esmolas.

  A escolha é de vocês, é seu livre arbítrio, mas as conseqüências também são.

09/11/2015

A segunda-feira mais sexta-feira de todos os tempos!


  Cheguei ao trabalho como todos os dias, ou como deveria ser em todos os dias, se a porcaria do transporte público de Goiânia não tivesse decaído de "exemplo" para "lição amarga". De madrugada, neste famigerado horário de verão, que por si já atrapalha bastante. Estou acostumado a me levantar às 04h45 ou antes, às vezes antes mesmo de o despertador tocar, depende do meu nível de esgotamento; e hoje estava esgotado como se tivesse trabalhado sete dias seguidos.

  Tão logo terminei os preparativos, me deparei com a típica cena de sexta-feira, as peças fiscais que normalmente só aparecem no fim de semana estavam lá, com a prolixia, a retótica, o abiso de vícios de linguagem e os garranchos hieroglíficos típicos de sexta-feira. O clima estava formado. eu via "09 de Novembro" no calendário que eu pendurei na sala, no começo do ano, mas tudo tinha cara de dia 12!

  Os olhos já cansados, estavam com a fadiga típica de fim de semana, como se tivessem sido forçados por uma semana inteira seguida, para descobrir que raios queriam dizer aqueles três rabiscos completamente diferentes entre si, para depois eu descobrir que era "555"... Depois de muita investigação, com o sistema TODO EM DOS travando o tempo todo.

  Cometi os erros típicos de uma dura e pesada sexta-feira, como confundir as duas Lucienes e perguntar a uma pelos erros da outra. Claro que ela curtiu com a minha cara, com a elegância característica, é claro, mas também com todo o direito que tinha... E com testemunha.

  Hora mais tarde, minha, hoje única colega de recepção chegou com os queixumes de sempre, que não seriam novidade se já fosse sexta-feira. Mas o calendário não me deixava enganar, ainda era e é segunda-feira. Até os malas, os casos difíceis, os tropeços e os capilés que costumam aparecer na sexta, apareceram hoje! Eu tinha a falsa sensação de que voltaria pra casa, desarmaria tudo e no dia seguinte dormiria até tarde, por volta das 08h; mas é claro que eu não vou dormir até tarde, amanhã é terça-feira!

  As faxineiras terceirizadas atrapalharam o atendimento como se fosse sexta-feira, como se a sala tivesse acumulado quatro longos dias de sujeira e suor. Fui contrariado para fora, como se fosse sexta-feira, porque a qualquer momento poderia aparecer um documento pra encaminhar e, dependendo do nível de complexidade e garrancho, seria de meia a uma hora só nele!

  Ah, sim, o chá também acabou mais cedo, como se fosse sexta-feira...

  Na saída, apesar de tudo, fui para o ponto de ônibus a pouco mais de um quilômetro dali com o falso alívio de que descansaria no dia seguinte. Até peguei um caminho ligeiramente diferente, como se fosse sexta-feira! O palco da ilusão estava formado! Eu sabia que ainda era começo, mas tudo tinha cara de fim de semana, até a bateria da câmera, com apenas um pique, rendeu dezenas de photographias!

  Em casa almocei com gosto de sexta-feira. Não, não é um sabor agradável como pode parecer, até a língua fica cansada demais para registrar todas as nuances do sabor, o frango acabou com gosto de chuchu assado levemente flavorizado. A sesta que tiro de vez em quando, apesar do calor, acentuou o clima de sexta-feira. Acreditem, eu realmente preciso desse intervalo, ou surto!

  Comer um donut assado, sem aquele peso de óleo e aquela lambreca de açúcar, que comprei de uma menina com sotaque portenho, deu pane de vez em meus sentidos. Conscientemente eu sei que é segunda-feira, mas o corpo está no clima de sexta-feira, nem quero sofrer por antecipação em imaginar a reação dele em se recusar a sair da cama, quando o despertador tocar!

  Completando a confusão, hoje, no fim da tarde do horário real, uma intensa luz amarelo intenso entrou pela porta da copa, dando aquela sensação de alívio que só uma verdadeira sexta-feira dá, com a perspectiva de não enfrentar o ônibus no dia seguinte. Nada mais falso! Nada mais cruelmente falso! Eu, que normalmente gosto da segunda-feira, por este caráter enganador, estou detestando esta!

  Pérfida!

04/11/2015

Talvez o burro seja eu!

  Estou mantendo distância de velhos amigos, com quem já confabulei e dividi momentos dos mais diversos, in loco ou via internet. Mantenho justo para não macular a amizade, para não ter que escolher entre ser um burro ou um canalha.

  Sim, cari leitori, chegamos ao ponto em que a dissolução desnecessária de um laço só pode ser evitada com a esporadicidade de contactos. Não só isso, mas também a escolha meticulosa das circunstâncias e dos tópicos a serem tratados, visto que qualquer vírgula mais para um lado do que para o outro pode redundar em uma discussão ideológica tão fútil quanto abrasiva.

  O motivo é o velho discurso de superioridade acadêmica e ideológica, que finge parafraseados de piedade em dados momentos, para passar mel no que foi dito e tentar se resguardar dos frutos amargos do que se dirá em seguida. Quem não compartilha desse ponto extremamente polarizado de vista seria burro ou canalha; a burrice poderia ser revertida com estudos, segundo os MUITOS adeptos desses discursos, quase sempre populistas de direita E de esquerda.

  Francamente, estou me lixando para os conceitos e rótulos que cada um se atribui. Mando os mais exaltados fazerem exame de fezes e degustarem o resultado. Eu já evito ler mais do que o enunciado, pois sem ele infelizmente não há como saber do conteúdo, quando o assunto são as paixões ufanistas dos ideólogos, principalmente os que se declaram intelectuais. E não precisa se dizer intelectual, a arrogância e o modo como se pronuncia, tanto pior quanto mais prolixia e retórica, são quase como cartaz e cola a exibir em letras berrantes "EU SOU INTELECTUAL, NÃO SE ATREVA A CONTRARIAR O QUE EU DELIBERAR, ENQUANTO PENSADOR, QUE É O CERTO, SEU IGNORANTE OU MAU CARÁTER".

  Feito que meu perfil está muito longe de ser o de um canalha, e essas pessoas confiam cegamente em seus julgamentos, todas elas, incluindo amigos, devem me considerar um completo ignorante. Eu falo mal do governo, não só os pontos discursivos ideologizados em que muitos exprimem o desejo de radicalização, mas os rompantes de autoritarismo e corrupção que muitos negam que existam. Eu uso um peso e uma medida para tudo, se o que os anteriores fizeram era condenável, o mesmo feito pelo actual também é.

  Não, a Dilma não inventou a corrupção, o Lula não inventou a corrupção, o FHC não inventou a corrupção, o Collor não inventou a corrupção, o Geisel não inventou a corrupção, o Vargas não inventou a corrupção, Deodoro da Fonseca não inventou a corrupção, Dom João VI não inventou a corrupção, ninguém inventou a corrupção! Se isso fosse motivo para me calar e me posicionar pró alguém, o faria por todos eles. Não lamento dizer que não é. Muito do que a imprensa diz contra o governo, eu vejo acontecer do meu posto de trabalho, inclusive as últimas que o ministério da saúde tenta desmentir,

  Já disse aqui que ideologia e todas as "boas intenções" correlatas tornaram-se dogmas, à imagem dos dogmas religiosos mais fundamentalistas. Quem se apega a um dogma acredita ter a verdade em suas mãos. Alguns dizem ser apenas a "sua verdade", mas ela é tão glorificada que para o infectado torna-se A VERDADE. Bem, carissimi, quem tem A VERDADE tem medo da verdade. Mas o que é a verdade? Dê um tiro de fuzil na própria cabeça e descubra. Tente achar que nada de relevante aconteceu e saberá do que estou falando. Radical? Não, isso é apenas para mostrar de modo inequívoco que "a verdade pessoal" de cada um não significa absolutamente nada para mim, inclusive a minha, que nunca promovi a mais além da patente de opinião predominante.

  Já me senti burro muitas, mas muitas vezes, inclusive depois de velho. Mas não tenho medo da verdade, ainda que ela me obrigue a mudar completamente os rumos de minhas conclusões. Foi assim que virei ateu, foi assim que deixei de ser ateu, et cetera. O que eu defendo, e isso é cada vez menos público, é o que eu vi funcionando de forma autônoma, estável e perene NA PRÁTICA. Na teoria um Fusca precisaria de 85CV para manter 140km/h, na prática ele consegue um pouco mais do que isso com 59CV. Foi a engenharia que precisou desenvolver outro padrão de cálculo para explicar isso. Na prática.

  O problema dessas pessoas é que suas "verdades" têm rostos, nomes, histórias e muita, mas muita "estória". São vistas como grandes heróis intelectuais paradigmas infalíveis suprarracionais da humanidade. Se são atacados, é porque têm razão, certo? Errado. Se eu estiver comendo e alguém puser a mão no meu prato sem minha permissão, a coisa vai ficar feia para o lado do invasor. Ele estará cem por cento errado da silva sauro em pegar sem pedir e será atacado. Às vezes as pessoas são atacadas não por serem portadoras da voz de grupos bla-bla-bla, muitas vezes é porque fizeram maldade e não a repararam. Muitas vezes essa maldade é feita com justificativas que fazem o revide parecer perseguição. De todos os lados, não há só dois.

  Eu tenho um componente que agrava muito tudo isso, eu descobri que aparento acreditar sacramente em tudo o que digo. Mais, eu aparento querer converter todo mundo ao meu "ponto de vista", entre aspas mesmo, para enfatizar a falta de valor dessas paixões acadêmicas. E é tudo tão intenso, as pessoas recebem isso com tamanho impacto, que aparentemente me vêem como um alto sacerdote a condená-las por seguirem suas próprias linhas de pensamento. Ok, eu até acredito no que digo, ou não diria, mas eu simplesmente não me levo a sério! Eu me acho um porre, entendem?

  Infelizmente as pessoas me levam muito, mas muito a sério. Mais a sério do que seria higio. Felizmente eu tendo a levar esses ataques quase tão a sério quanto a mim mesmo. Eu sei que não são dirigidos a mim, me atingem, mas são metralhadoras giratórias, é como se fossem pombos que cheiraram creolina, eles voam sem saber para onde e acabam atingindo os outros pombos ao redor. como sei? É uma historinha que um dia conto a vocês, posso adiantar que vi a cena acontecer bem na minha frente.

  Por essas e outras que recebo também o rótulo de alienado. Rótulo que não gruda na minha testa oleosa. Isso porque parei de publicar postagens politizadas, antenadas, engajadas, activisdas, assadas, grelhadas caramelizadas e cobertas com o delicioso chocolate nestllé. Meu perfil no facebook tem hoje quase nada que possa ser vinculado ao que intelectuais gostam de ver e ouvir, esses mesmos que desdém Adele, por ela não ser um estereótipo da intelectualidade.

  Crianças, o meu trabalho e a minha vida já são muito estressantes por suas próprias naturezas. Eu não vou me desgastar pelo que não vale à pena. E dane-se quem me achar alienado, política NÃO VALE À PENA. Até porque no Brasil não se faz política, é um jogo dos tronos em que patetas seguem seus reis para a morte certa. Eu não tenho heróis, eu não tenho paradigmas, eu não tenho casa própria! Não me levem a mal, e mesmo que levem, dane-se, eu não vou gastar recursos com o que faz muito barulho e dá zero resultado confiável.

  Talvez eu seja um burro, ausente do orbe em uma vida etérea sem ancoragem no mundo palpável. Talvez eu seja um canalha que se finge de burro para distrair suas atenções, afim de fazer tudo por debaixo do pano e derrubar seus heróis ideológicos, religiosos, artísticos, celebráticos, históricos, histéricos e donos da verdade única e absoluta. Talvez esses heróis sejam os canalhas da história, então os burros seriam vocês. Já pensaram nisso?

  Prestem atenção na imagem de texto que utilizei. Vejam, visualizem, mentalizem e meditem. Não é difícil compreender que eu quero e necessito de um mínimo de sossego na vida social, é? Eu não gosto realmente de uma vida social, nos parâmetros usuais, mas tenho que me conformar com esta. Então, se querem continuar a me ver, me ler e me compreender de facto, peço um pouco de respeito, pois se ele falta, tudo mais falta.

21/10/2015

De volta para o passado

Parece que foi ontem... E foi mesmo!
  É hoje a data, segundo a saga De Volta Para o Futuro, em que Martin McFly chega ao ano de 2015. Desde anos antes, muita gente dizia querer pedir o DeLorean emprestado para corrigir um erro. É compreensível, mas lamento, não é possível. Ainda que se consiga voltar no tempo, qualquer alteração faria desaparecer a motivação da viagem, não permitindo a façanha e mantendo tudo como estava. Quem volta algumas horas para comer o sanduíche que acaba de ver na mão do cunhado mala, ficará satisfeito e não voltará, ou seja, o estorvo vai encontrar o sanduíche lá.

  Futuros alternativos são histórias da carochinha, se prestam muito bem para revistas em quadrinhos com crises de criatividade e inspiração, na prática eles nem podem ser levados a sério. e se existissem, bem, não consertariam o teu futuro, mas o de um seu "eu" alternativo que gozaria do teu trabalho, tu mesmo continuarias no aço.

  Francamente? Essa conversa de mudar o passado tem mais fundo depressivo, por frustração ou trauma, ou ambos, do que de utilidade real. O passado é um tempo que já não existe, o futuro é só uma especulação que pode ser mais ou menos conduzida.

  Mas se fazem questão, há algo que um viajante do tempo poderia fazer e se enriquecer muito, sem precisar bancar o herói da humanidade. Ele poderia fazer viagens periódicas a épocas de seu interesse e vivê-las, se integrar a elas. Isso causaria pequenos nódulos, no máximo, mas nenhum trauma na malha temporal. Se alguém engravidasse disso, bem, é porque alguém já pariu, a coisa já teria acontecido mesmo. Amores de verão, entendem? Dois jovens se encontram, não se controlam e nunca mais se vêem... Belo tema para um filme!

  Voltando ao assunto... Imaginem um fã dos Beatles. Naquela época, e até no início dos anos noventa, era praticamente impossível localizar de pronto alguém que não quisesse ser encontrado. Um documento forjado com a tecnologia de hoje, há até vinte anos convenceria facilmente qualquer autoridade, ainda mais policiais comuns. Com todas as precauções legais e formais tomadas, esse fã poderia simplesmente ir aos primeiros shows dos garotos de Liverpool! Imaginem uma câmera de celular embutida em um broche! Naquela época, ninguém desconfiaria.

  Imagine voltar ao século XXI com revistas, cartazes, discos, bugigangas e outras coisas do quarteto que hoje valem uma fortuna! E tudo novo, sem uso, na caixa. Até os reclames das lojas hoje são valiosos, como a da famosa Biba's de Londres. Ok, isso custa dinheiro, por pouco que hoje pareça ser, mas se o passado teve, e realmente teve mazelas, que o presente não resolveu, também tinha facilidades fascinantes, que por si já valeriam a aventura.

  Existe um termo para preciosidades encontradas praticamente abandonadas após anos, décadas esquecidas em um lugar fechado e escondido: Barn Find. Imagine-se sabendo exactamente onde procurar, ou mais, imagine-se fazendo o teu próprio, voltando diariamente, de ano em ano, para cuidar do tesouro, até que chega o dia de hoje e lá está tua cápsula temporal, intacta e pronta para fazer queixos caírem ao chão. Não há limites e, melhor, não há problemas éticos, já que tudo aquilo é teu mesmo.

  Noutros tempos era relativamente fácil conseguir trabalho sem dar satisfação aos Estados, então não haveria problema em arranjar dinheiro para bancar a estadia temporal. Que tipo de trabalho? Vá a 1948, pegue uma reportagem para fazer, volte, peça ajuda ao Google e dê ao jornal da época uma matéria inesquecível. O repórter da casa pode levar o crédito, qual o problema? Perde-se a fama, ganha-se a hospedagem. Sim, isto é só um exemplo! As ferramentas baratas de hoje fazem serviços profissionais como as mais antigas nem sonhavam! Fazer um carro de passeio de alumínio, até o início do século, era coisa para artesãos muito habilidosos, que cobravam os olhos da cara pela trabalheira ingrata. Hoje há estampadoras que fazem o serviço numa pancada só.

  Problemas mundanos resolvidos, e ciência do lado B de cada época, vamos ao que interessa. Elvis Presley começou bem de baixo. Sua primeira gravação ele tirou do bolso. Imagine-se se oferecendo para ajudar nos custos em troca de uma cópia autographada... Neste meio tempo, coisas que hoje são cultuadas por vintagistas e nerds do gênero poderiam ser encontradas por uma ninharia, aos montes, algumas até de graça, jogava-se muita coisa fora, e algumas eram amostras grátis.

  Aquele arrepio quando ouve "Rien de Rien" por Edith Piaf , sabe? Imagine ouvindo-a ao vivo, na primeira fileira do teatro. Maria Callas em sua melhor forma, no auge de sua carreira, em uma fresca noite de primavera, também ao vivo. Emilinha Borba, ao vivo, com direito a pedir-lhe tua canção favorita... MEEEEEEEEU DEUS! E vocês preocupados com mimimi "Tô magoado com o passado"? Ah, façam-me o favor! Cresçam!

  Ah, claro! Dividir uma roda de samba com Cartola! Um chorinho de raiz com Pixinguinha! Chorar mágoas no ombro de Elizeth Cardoso... Indo para o Velho Mundo, dividir a mesa e o drinque com Charles Aznavour... Ver Dalida iniciar sua carreira, Gigliola Cinqueti em San Remo AO VIVO! Depois alguém te chama para ver um detalhe estranho em um filme clássico, um cara que se parece demais contigo, até na voz e nos trejeitos... Ah, se eles soubessem!

  Mas o mais valioso, o mais importante desse tipo de viagem, e de todas as viagens possíveis na vida real, é o contacto com as pessoas. Poder levar um papo gostoso com Elvis Presley enquanto ele abastecia o caminhão, trocar idéias com John Lennon, descobrir o gênio matemático e a puerilidade de Marilyn Monroe, ser assistente de camarim de Audrey Hepburn, dividir um cruzeiro com Grace Kelly, uma mesa em um bistrô com Marlene Dietrich... Estão entendendo? Então continuemos.

  Imagine-se presente nos principais discursos de Getúlio Vargas, ouvir o que ele realmente disse e ver a real reação do público. Ler, e trazer para o presente, edições de jornais da época, cartões postais que então eram quase brindes em bancas de jornais... Imagine ver gente que vai às ruas para passear, se distrair ou se divertir, que vai aos restaurantes para relaxar e comer em vez de postar selfies cafonas, que chega em casa e vai ter com a família, em vez de zapear nos 1.577.328 canais da tevê por assinatura, fora o pay per view, gente escrevendo cartas e esperando uma ou duas semanas pela resposta, em vez de dar tiros no computador porque levou mais de dois segundos para abrir a página de pesquisa, enfim... Gente sendo gente!

  Com um celular disfarçado no traje a rigor, seria fácil e até divertido ter imagens da estréia de My Fair Lady no teatro, com Bibi Ferreira e Paulo Autran. Imagine-se voltando com o canhoto do bilhete! Era uma época ainda distante da famigerada reserva de mercado, dos anos setenta, que só fez atrasar o Brasil, e ainda hoje persiste na cultura burocrática imbecil deste país. Na época viam-se carros nacionais, simples e práticos, ao lado de bólidos e encantos importados. Já viste um Cadillac 1956 zero quilômetro? Um televisor Crosley na loja? Um refrigerador General Electric azul bebê na vitrine? Meus amigos, o vosso espanto seria similar ao de visitantes do passado nos tempos correntes, mas com a vantagem de que nós sabemos como aproveitar e usufruir daquelas épocas.

  Ouvir o Repórter Esso com a locução original, festejando o fim da guerra... Asseguro que as bobagens que a CBF hoje chama de futebol, não vêem nem a sombra da festa, dos choros, do alívio, da emoção e do sentimento de esperança no futuro que aquelas pessoas sentiram. Vocês estão me compreendendo? Há uma riqueza imaterial, a material é indiscutível, incalculável para quem conseguisse fazer essa viagem. A visão de mundo e do teu mundo seria completamente modificada.

  Um flerte com teus avós, quando eles eram jovens? Talvez, mas as próprias regras do tempo impediriam que algo mais acontecesse, ou não existirias para fazer isso. O bom seria chegar à tua mãe, quando fosse levar a família para visitar, e soltasse um "Como vai a minha Jabuticabinha? Tomou seu Biotônico, tomou?". Imagine a cara que ela faria.

  Bem, meus amigos, a função mais nobre do passado é justamente enriquecer os vivos, material e imaterialmente. Principalmente imaterialmente. Meus amigos, mudar o passado para quê? Intacto ele tem muito mais a oferecer do que com tentativas fúteis de fechar feridas psicológicas, isso é trabalho para a psicologia. O passado tem em si todas as soluções para o presente guardadas em suas entrelinhas, basta que o deixemos mostrar seu lado mais belo, porque a unha encravada os historiadores azedos fazem sem dó, até piorando o que já era ruim... Depois falam da imprensa!

  Se eu faria essas viagens? Mas decerto que sim! Eu praticamente viveria intertemporalmente! Dos anos 1930 até 1980 eu não teria dúvidas! Viveria um milhão de vidas e cresceria todas elas em uma só. O passado pode ser redimido, nunca apagado! Aceite, dói menos.

10/10/2015

Jacob e o troll

Agora cai fora, antes que me irrite, troll safado!
  Jacob conversa com colegas sobre o festival de cosplay que estão organizando. Não conseguiram espaço no colégio, mas uma transportadora cedeu o pátio, com isso ficou menos difícil conseguir infraestrutura adequada. Vão estimular pelo bolso, com entrada menor e desconto no comércio interno de quem for caracterizado.

  Por redes sociais já confirmaram uma presença maciça. A fantasia de cada um é a parte mais fácil da empreitada, ele está dividido entre Doutor Estranho e Buck Rogers. Mostra os esboços que fez e um cálculo prévio de quanto custaria cada uma, para os outros também se balizarem. Antes que eles possam ajudar na escolha, aparece um aluno estranho ao grupo que vive trollando os outros na internet...

  - Marvel é merda! Marvel é pra criança! Não vem com mimimi, que DC é muito melhor, é mais sombrio, é pra adulto. É porque é!

  Jacob o fita do ápice à base, com o olhar de desprezo que herdou da mãe e o faz mandar alguém tomar naquele lugar sem precisar abrir a boca...

  - Ninguém te perguntou nada.
  - Mas eu falei, pronto! Todo mundo sabe que Marvel é lixo, é festinha alegrinha! Adulto gosta é de depressão e porrada! Batman é muito mais foda do que qualquer Marvel!
  - Jacob, porque não tenta Harry Potter? Você parece com ele!
  - Por isso mesmo! Não quero o óbvio! E me identifico mais com heróis menos festejados.
  - Ah, ra, ra, ra, ra, ra, ra! Só faltava essa! Vir de Harry Potter! Aí é que a criançada pira! Ah, ra, ra, ra! Vai logo de Banana de Pijama! Ui! Tenho medo do escuro! Não quero nada de triste, senão não durmo...

  O rapaz perde a paciência. Levanta rapidamente a mão direita e lhe acerta a orelha, agarra a nuca e o derruba. Forte, pelos rigores que a mãe sempre impôs aos irmãos, o segura facilmente contra o gramado. Ele protesta, evoca os direitos humanos, a liberdade de expressão e se esquece rapidamente que tolhe os dos outros. Estava tão acostumado a atacar opinião alheia e atrapalhar conversas em caixas de diálogo, que desta vez se esqueceu que não está ao seu computador, trollando os outros em redes sociais, onde faz o que quer e no máximo tem os comentários apagados.

  Agora tem que lidar com gente de verdade, não está em condições de bancar o machão e xingar mãe alheia, até porque sabe o que aquele judeu é capaz de fazer pela sua. Não pode simplesmente clicar em "cancelar respostas", não existe esse botão na vida real. Alguns minutos de luta inútil e ele se acalma. Todos ali têm queixas contra o sujeito e querem esfregar verdades na sua cara debochada, mas ele parece não se importar com os danos que lhe reportam, na verdade demonstra satisfação com isso...

  - E você ainda reclama que é discriminado, se faz de vítima quando apanha e volta a fazer merda...
  - Você é que deveria se fantasiar pra vir pro colégio, mas de homem invisível, pra ninguém ter que agüentar essa sua cara nojenta!
  - Fala aí! Vai querer ser tratado como escroto até a formatura, babaca?

  Ele não tem tempo para ofender os outros, não é como pela internet, onde simplesmente ignora o que já foi postado e escreve o que quer. Começa a se sentir sufocado por não conseguir responder a todos e do jeito a que está acostumado, tampa os ouvidos e sai correndo para a lanchonete. Já eram quinze pessoas que há muito estavam com ele até o pescoço.

  O rapaz volta para casa com o cenho franzido. Desce de banho tomado e é interceptado pela mãe. Não entra em detalhes sórdidos, Esther não precisa deles e não entra em caixas de comentários quando abre o navegador. Ela afaga a cabeça do adolescente...

  - Vocês já tinham tentado outras formas de abordagem, Jacob?
  - Muitas, mamma! Mas quanto mais a gente fala de constrangimento e respeito, mais ele faz troça! Eu não entendo, não existe motivo pra ele fazer isso!
  - Existe sim, Jacob. Ele é vazio, provavelmente a família dele o acostumou desde muito cedo a usar uma armadura para impor respeito, mas se descuidou do corpo que a veste. Ele deve tentar preencher esse vazio sugando a alegria de vocês.
  - Faz sentido, mas mesmo assim foi um episódio tão desagradável...
  - Ele teria entendido outra linguagem?
  - Acho que não.
  - Ele deixaria vocês em paz, se simplesmente o ignorassem?
  - Não, quando é ignorado ele passa a alisar e bater nas pessoas.
  - A direção do colégio já sabia desse comportamento?
  - Já, ele é reincidente, mas tratam tudo genericamente como "discussão de adolescentes".
  - Então, meu filho, você não tinha escolha. E se é tudo "discussão de adolescente" e ele se aproveitava disso, não poderá reclamar das conseqüências. Vocês tentaram todas as vias diplomáticas, esgotaram os argumentos pacíficos e ele só piorava.
  - Acho que consegui um inimigo.
  - Faz parte da vida, meu filho. Os inimigos aparecem, quer você os procure, quer não. Às vezes você não sabe que tem um até ser vítima dele. Não precisa de pretexto, eles inventam um e perseguem só de não ir com a sua cara. Se ele se tornou seu inimigo, não foi pela imobilização em público, ele já acalentava esse rancor de bem antes. Pense bem e tente se lembrar.

  Ele se esforça. Encontra na memória duas ou três ocasiões em que impediu o assédio dele a amigas de turma. Se recosta no sofá e começa a se lembrar de ofensas aparentemente gratuitas, desde então...

  - Não, ele não pode ser tão infantil!
  - Sim, Jacob, ele pode. Provavelmente o pai dele é tão quanto, para relevar esse tipo de comportamento. Meu amado, não se engane, são poucas as famílias que se ocupam em educar e formar seus filhos, em vez de simplesmente dar-lhes o que não tiveram em suas infâncias. É por isso, meu filho, que às vezes eu sou tão dura com vocês. Não generalize os portadores da condição de "pai", porque como o seu não se encontra fácil, são poucos os que ensinam seus filhos a controlar seus impulsos e ajudam a resolver seus problemas. Olha pra mim... Você foi mais paciente do que precisaria, desenrugue essa testa.
  - Tá, mamma. A senhora já tinha dito que as pessoas gostam do mal porque ele sempre te dá razão.
  - Sempre. O mal te faz acreditar que só a sua causa é justa e que só você é bom.
  - Gostam do Darth Vader por ele ser supostamente mau, mas se esquecem que ele se regenerou e se redimiu no último instante e que por isso a trilogia teve aquele final feliz.
  - As pessoas confundem o mal com poder, quando na verdade é apenas falta de escrúpulos.
  - Certo, vou de Darth Vader para esse festival. A senhora vai de?

  Esther ri. Não se imagina fantasiada no meio de um monte de garotos, mas quer prestigiar a primeira empreitada séria dos filhos. Promete que vai pensar em algo, só não esperem que apareça de maiô cavado em público.

22/09/2015

Thea não se casou

Não é nada disso que vocês estão pensando!
  É uma daquelas notícias que normalmente causariam comoção, mas depois descambariam para o deboche dos programas vespertinos de auditório. Uma menina de doze anos aparentemente se casa com um homem de trinta e sete. Fora os idiotas que cumprimentariam o sujeito como o machão do ano, conheço uma dúzia de policiais que começariam a treinar com o cassetete, para fazer omelete com frango entre as pernas dele.

  A história foi publicada em um blog pela própria menina, que embora no termo absolutamente biológico esteja apta a procriar, é uma criança, com toda a falta de noção de perigo e inconseqüência inerentes. O caso tornou-se viral, todos se indignando e se perguntando onde estariam os pais da menina. Bem, para alívio geral, a notícia era falsa, foi criada para chamar a atenção das pessoas para um problema que infelizmente ainda existe e ganha adeptos.

  O problema é que a polêmica se estabeleceu apenas no seio de um grupo restrito, provavelmente poucas pessoas fora dos países nórdicos soube disso. Alguém virá dizer "Eu já sabia! Eu já sabia! Eu já sabia" e eu respondo "Por que não divulgou, idiota? Por que não divulgou, idiota? Por que não divulgou, idiota?". Sim, porque tenho contacto com os quatro cantos do planeta e ninguém tocou no assunto.

  O mundo está tão profícuo de atrocidades, mais parecendo um revival das piores fases da idade antiga, que polêmicas frutíferas como esta passam desapercebidas, enquanto o cidadão superexposto pela mídia às mazelas se preocupa com os cornos de uma sub celebridade qualquer. Ou pior, em desfazer amizades por causa de políticos e ideologias. Daqui a pouco começam a correr atrás de visigodos... de novo!

  O que essa norueguesinha quis foi alertar para os casamentos arranjados de garotinhas com homens(?) que, não raro, poderiam ser seus avós. Cousa muito tolerada do oriente médio ao extremo oriente, onde mulheres, especialmente em tenra idade, são vistas como um peso para a família e empurradas facilmente para quem oferecer um dote. "Ah, não é bem assim, é o aspecto cultural bla-bla-bla" UMA OVA! Ninguém com menos de vinte deveria ter filhos, a cabeça ainda está muito oca e caótica, quanto mais alguém que nem sempre completou dez anos. Eu posso listas uma série de "aspectos culturais" contra os quais todo mundo luta, porque é sabido e comprobe que podem arruinar uma civilização, que dirá a vida de sua vítima.

  Mas não é este o caso, desta vez. O caso é o de uma menininha ter feito um alerta a uma sociedade tradicionalmente permissiva, que estava enxergando flores em tudo o que leva rótulos como "aspecto cultural", "movimento social", "ecologicamente correcto" e aceitava até pagar para ajudar a manter as tradições fundamentais milenares dos outros... Os nossos aspectos milenares, por sua vez, já são tradicionalmente vistos como ruins e passíveis de reprimendas.

  Não sei se é por ter partido de uma portadora de vagina muito jovem, os esforços não desceram muito na latitude, talvez se o pai da menina tivesse se gabado de se casar com uma criança, o caso tivesse mais repercussão. Não, não é feminismo de minha parte, devemos reconhecer que quando as posições de invertem, o alarde é sempre maior. Talvez se a mãe dela contasse que se casou com um menino, quem sabe... Não... Provavelmente viraria chacota, a Thea era a pessoa certa para fazer isso.

  Só que algo desprovido de terror ou pretensões políticas, que são quase a mesma coisa, não fez gente suficiente repensar seu comportamento e seus apoios. As pessoas continuam passando de uma baixaria para outra mais profunda, de um escândalo para outro mais chocante, de uma atrocidade para outra mais aterradora, sempre depois afirmando que a humanidade não deu certo, que ninguém presta, que aquela novela inutilmente horrorosa é que está certa, enfim... Isso cansa... Mas ainda não encontrei outro planeta para viver, então continuarei a atormentar vocês mesmo.

  O interessante é que a maioria das pessoas que ignora, prejulgando só de ver a carinha de Barbie da criança, se gaba de ver séries "fodásticas! fodão-fodão-fodão! Uh-uh-uh! Badass-badass-badass! Uh-uh-uh!" ou "séries intelectuais que promovem meios de estabelecer uma discussão junto à sociedade em vista de potoca, potoca, potoca..." que poderiam se restringir a uma só temporada, se realmente servissem para as pessoas se repensarem. Sim, aquela PORCARIA de Breaking Bad é uma delas. Toda a maldade e toda a transformação poderiam ter sido destiladas em um ano, que quem não entendesse não entenderia pelos anos seguintes; como não entenderam, ou todos teriam se tornado pessoas muito melhores. Lamento, sincericídio é uma de minhas características mais cruéis, inclusive comigo mesmo. Se alguém não aprende sobre a dor com o espinho de uma rosa, não vai aprender com o fio da espada. E a garotinha da Noruega fez tudo na medida, picando a parte mais delicada do dedo, mas vocês continuam brincando com facas.

O blog dela, em norueguês, é claro, o Stopp Bryllupet.

09/09/2015

Contrariando, pró ocidente

Art by Shag
  Texto longo. Vão descansar suas cabeças e voltem depois, porque pode ser também indigesto.

  Eu sempre digo que governos mentem, governos corruptos mentem muito, governos ditatoriais mentem mais do que a própria boca. Digo e reafirmo. Mas ao contrário do que parece, esta posição encontra resistências ásperas, quando o sentido mais amplo e profundo vem à tona. Governos democráticos não são a regra na civilização global.

  A recende onda de refugiados do oriente médio para a Europa começou a receber ataques. Recentemente um vídeo com uma suposta adolescente síria, em trajes muito ocidentais (camiseta e jeans) acusou o ocidente de forjar tudo, alegando subliminarmente que se aqueles fossem refugiados reais, teriam pedido ajuda a países vizinhos. Mas o cenário despertou minha completa desconfiança, porque era a escadaria de um prédio oficial com a bandeira síria ao fundo. Não preciso dizer que foi justo a Síria que começou a sufocar a onda de protestos da chamara "primavera árabe", preciso? Mas já disse.

  Vamos a um facto notório e assumido pelos orientais; Quando um deles, de qualquer país, vem para o ocidente, mesmo com a discriminação que um estrangeiro sofre DESDE QUE A HUMANIDADE DESCEU DAS ÁRVORES, ele pode viver de acordo com seus costumes e sua cultura, e às vezes usa isso para burlar leis locais de defesa aos mais fracos. Quando um ocidental faz o mesmo, ai dele se tentar viver como vivia aqui. Leis de proteção diplomática podem ser sumariamente desprezadas, como rotineiramente são. Percebem? É o uso de dois pesos e duas medidas.

  Ah, quer que eu vá estudar história? Faça o mesmo. mas faça-o sem o ufanismo ideológico que lhe incutiram, estude toda a história nos mais obscuros meandros que puderes encontrar, e veja o que os antepassados dos orientais fizeram a outros povos, como o Império Persa, que subjugou e praticamente escravizou o berço de nossa civilização contemporânea; por ruim que seja, só ela te permite falar asneiras sem o risco de seres punido só por emitir uma opinião. SÓ ELA.

  Afirmar que a riqueza ocidental é fruto de espoliação e a oriental é legado cultural, é novamente o uso de dois pesos e duas medidas. Miséria e servidão não foram inventadas por um povo específico e não começaram na Idade Moderna, começaram com a própria civilização e existem até na natureza, em outros graus, como a homossexualidade existe entre os animais; eu flagrei cães mais de uma vez, não me venha com sermões teóricos de quem não sabe do que realmente está falando.

  O poder trocou de mãos, após milênios. Novamente tocando na história, por milhares de anos as potências orientais deixaram o ocidente na pré-história, ainda éramos bárbaros quando a China se destacou. Praticamente só a Grécia acordou cedo. O Império Romano só foi o que foi porque bebeu na fonte helênica. Mas como eu disse, o poder trocou de mãos. Não sejam ingênuos em acreditar que simplesmente ser oriental tornava um rei justo e bondoso com seu povo. E não faz muito tempo, não tem nem um milênio direito, os mouros ainda amedrontavam a Europa em plena Idade Média. Ou seja, em princípio ainda temos milênios de hegemonia pela frente.

  Aos críticos, que dizem que o ocidente perdeu sua identidade e se esqueceu de quem é, procure um oftalmologista e vá ver direito a pintura, ela é caótica, mas é um tanto menos triste do que seu astigmatismo lhe mostra. Aqui, como eu já disse, pode-se ser idiota, protestar, falar asneiras, reclamar do líder do país e emitir opiniões absurdas do ponto de vista lógico. Nada disso seria motivo para sanções. Ser ateu, aqui, não é crime, senhores intelectuais de sala de aula! Em muitos lugares, quase todos no oriente, és obrigado a fingir às últimas conseqüências que acreditas no credo predominante, que geralmente é também o único. e muitas vezes esse credo obriga o indivíduo a permanecer na margem da sociedade por sua própria iniciativa.

  No ocidente, que muitos diplomados criticam tanto, essa hipótese geraria revolta, e seria justa. Da mesma forma como um valentão que espanca a esposa é execrado aqui, mas em muitos lugares ela é vista como um bicho de estimação e reprodução do marido; novamente muitos de vocês usam pesos e medidas diversos, chamando isso de "traço cultural", enquanto aqui é "opressão da sociedade patriarcal". Tente dizer isso na Arábia Saudita. Oficialmente, terias direito, na prática o governo saudita faz vistas grossas para quem reagir com violência, inclusive violência policial. Oficialmente, tu és livre para decidir tua vida, na prática as escolhas se resumem a adereços que também podem legitimar represálias populares.

  O ocidente nunca perdeu sua identidade, simplesmente porque ainda a está construindo. O agravante é essa construção ter começado com o advento e progresso acelerado dos meios em massa de comunicação, que permitem fazer comparações entre "nós" e "eles" o tempo todo, nem sempre com o senso crítico e raciocínio cético que deveriam acompanhar a observação. O oriente se formou quando era normal uma pessoa morrer sem jamais saber da existência de outra cidade, que para ele era o mundo inteiro. Um ocidental na primeira infância já sabe que existem até outros países e que precisa viajar muito para chegar a eles. Em muitos países do oriente, os governos e o clero não fazem questão de que um adulto saiba disso.

  É por isso que a cultura atribuída aos americanos é tida como a padrão das massas no ocidente. Acontece que eles receberam, principalmente, as culturas britânica, francesa, espanhola e uma pitada da oriental, quando chineses foram trabalhar nas ferrovias. Destes eles pegaram o modelo de trabalhador que gostariam de ter em seu país, mas foi só. Desde aquela época as mulheres já arremessavam panelas em maridos folgados, enquanto no extremo oriente elas muitas vezes nem podiam tocar as sombras dos maridos. Não estou brincando! Até pouco depois da Segunda Guerra, isso ainda acontecia no Japão. A cultura americana, na verdade, é o trabalho feito em cima da cultura européia e asiática, e até um aroma da indígena local, feito e adaptado para a realidade de um país que é tão maior do que a Europa, que um carro médio europeu só serve como transporte urbano por lá. Assim como o Halloween NÃO NASCEU na Inglaterra, não em sua origem pura, a cultura típica ocidental não nasceu nos Estados Unidos da América. Acontece que eles mandam, eles têm a mídia, se quiserem cortam a internet do mundo inteiro, enfim... Eles fazem de modo muito menos traumático o que TODOS OS POVOS QUE PUDERAM, FIZERAM COM OS OUTROS. Vá estudar história, vá.

  Todas as mazelas ocidentais só aparecem porque aqui elas podem ser mostradas, apesar de políticos adorados por intelectuais de ar condicionado se esforçarem para tolher qualquer tentativa. Sabem qual é realmente a maior mazela ocidental? Aquela que inclusive gera protestos e idealizações de um oriente paradisíaco? O ocidente sofre de um agudo e crônico excesso de autocrítica. Eu sei o que é isso, tenho o mesmo mal, e ele quase sempre vem acompanhado de uma depressão bem severa. Tem seu lado bom, mas os excessos de rigores de sua intensidade causam efeitos colaterais muito graves, como os extremismos ideológicos, e a mania de muita gente em fazer mea-culpa pelos erros dos bisavós, enxergando todo e qualquer estrangeiro como coitadinho que precisa ser defendido de tudo a todo custo. Dê uma lida sobre o que muitos refugiados muçulmanos fazem com cristãos, no meio do Mediterrâneo. Eles não são mais e nem menos danosos do que nós, só o são à sua maneira. Entre os inocentes que realmente fogem da carnificina, há muitos mal intencionados que querem estendê-la à Europa, e alguns até tomar o poder por lá.

  Eles não querem viver em paz, não querem restaurar a cultura tradicional islâmica, não querem libertar os povos do jugo ocidental, não é essa a intenção real. Eles querem simplesmente se garantir no céu. Não é por amor ao próximo que fazem isso, fazem porque "deus mandou" e vai punir ou recompensar. É interesse, causa própria, compreendem? Seguem à risca, ao pé da letra as normas que acreditam que os levarão pra o céu, como todo fanático religioso. Matar quem desconfiam que não seja um clone mental deles, o que muitas igrejas brasileiras pregam por debaixo do pano, faz parte. É tudo por interesse pessoal. Quem tem fé sadia, não se abala por vírus psicológicos.

  Tem, tem mesmo muita besteira veiculada, gerada por paranóia, que é um dos efeitos colaterais de que falei. Por isso também falei em senso crítico e raciocínio cético. Não é para tu seres cético, é para a lógica do teu raciocínio ser, para não sofrer influências de paixões e empatias de qualquer espécie, porque elas sabotam tudo sem que percebas. Não acredite pura e simplesmente nos teus próprios pensamentos, eles podem ser apenas frutos de tuas aspirações mais altruísticas, e por isso te fazem acreditar que todas as conclusões derivadas dele são conclusões lógicas. Preciso dizer que tudo isso é virtualmente inviável em muitos países de lá? Não, não preciso esmiuçar. Difícil? Vá ao berço do ocidente e beba da fonte limpa, lá tem o manual de instruções bem claro.

  Por último, me lembrei de um caso que, se não me engano, foi publicado na Super Interessante, quando revista digital ainda era panaceia. Um casal decidiu largar tudo, abandonar a civilização que passaram a desprezar e viver com os ursos, que julgavam ser criaturas doces, meigas e gentís, apenas incompreendidas pela visão maniqueísta ocidental, bla-bla-bla e blo-blo-blo. Um vídeo foi encontrado algum tempo depois, no acampamento deles, ao lado de corpos destroçados e praticamente descarnados. No vídeo, o rapaz, que assistia à esposa ser devorada por um urso Kodjak, se lamentava pelo erro, afirmando que não era nada do que pensavam, que era só brutalidade e selvageria. A fome do urso não lhe permitiu fazer um discurso muito longo. Até a natureza é impiedosa. Esse conceito de fraternidade, piedade e amor ao próximo, como todas as utopias e todos os sonhos modernos de paz e harmonia entre os povos,  meus queridos, é essencialmente ocidental. Encontra pouco eco no oriente.

  O único povo que jamais fez mal a outro, é aquele que ainda não teve a chance.

03/09/2015

O Facebook é do Zuckerberg e ele deixa eu postar o que eu quiser!

Cortesia da Beth!
  Houve época em que eu até ajudava a disseminar apelos, campanhas e cousas mais. Sempre fui selectivo, pensava duas vezes, mas ajudava assim mesmo. Era um direito meu, assim como eu sempre respeitei as tosqueiras que os outros postavam.

  Acontece que cansou. Não, eu não deixei de me importar com as criancinhas famintas do Sifuquistão, nem com a ameaça de extinção da ararinha cor de abóbora de topete verde da tundra ocidental, assim como não deixei de me indignar com a corrupção e tudo mais. Acontece que cansei mesmo!

  Em parte porque eu vejo muita gente compartilhando muita coisa sem muito resultado. A maioria é de causas muito específicas que afetam pouco ou quase nada a população, com isso é muito restrita e quase sempre efêmera. Não questiono os méritos, só quem compartilha algo sabe que intenções tem com isso, às vezes nem a pessoa sabe, diga-se de passagem. O facto é que há uma explosão de causas e protestos que não se via desde a biodiversidade louca do cambriano. A coisa está tão longe do controle, que tem gente compartilhando até hoje o apelo pela cirurgia para extirpar o câncer no cérebro do garotinho que morreu em 2006.

  Nem vou me dar o desgosto de tratar das amizades combalidas por motivos ideopatológicos, dogmáticos, xenológicos, generológicos e analógicos. Muitas vezes até ficar do lado do Capitão América, no Guerra Civil, é motivo.

  As pessoas têm compartilhado até cinco vezes seguidas, eu contei, publicações de sua simpatia sem ler direito, aparentando mal terem lido o enunciado, sem perceber que a íntegra do texto é uma metralhadora giratória que acerta até mesmo a própria mãe. Algumas vezes amigos praticamente me chamaram de canalha, ao defender algo e atacar outros. Sem perceber mesmo, sem (muita) maldade, só discurso prolixo e politizado de qualquer porcaria politipatizada.

  Tudo o que escrevi até agora é só a cabeça da tênia, não vou ocupar seus olhos já sofridos com tudo o que já vi, as tristezas que enumerei já dizem o que se passa sem eu precisar me ater à sordidez.

  Eu estou me lixando para quem me considerar alienado, há um botão de "desfazer amizade" e outro de "bloquear" disponíveis no cabeçalho dos perfis. Podem usar, eu não guardo rancores e, sinceramente, não vou chorar por quem escolher ir embora. Se fosse para guardar mágoas, eu teria motivos de sobra; não consigo guardar nem dinheiro!

  Um dos parâmetros para decidir o que publicar, é "por que publicar isso?" Mas é um parâmetro bem rígido, não há espaço para discursos de quem pensa que é intelectual porque decorou obras de "pensadores". Outro parâmetro é "o que quero que aconteça se eu publicar?" Para não ser mais um compartilhador biônico que repassa cegamente tudo o que os heróis disso ou daquilo mandam. Outro é "quem realmente se importa?" que leva a "as pessoas vão realmente ler isto?" e lendo "alguém realmente sério vai levar a termo?".

  Ocupar minha concessão só para mostrar politização, ideologia, engajamento, hai hai hai mil vai pra fora do Brasil, não me interessa. Me desculpem, mas absolutamente não me interessa. Quando alguém, me confia um problema, se eu aceitar, eu o resolvo e ele nunca mais dá as caras. Mas é resolver mesmo, não trocar um problema por outro, na velha trapaça política de tirar de um grupo para fazer média com o outro. Eu não me rendo a discussões intermináveis de quem PENSA QUE SABE o que está fazendo e dizendo, só porque o outro lado quer e não admite que ele consiga.

  Decidi não fazer coro com os que gritam para o próprio ego ideológico ouvir, e isso me custou amizades caras, já aviso aos que têm essa mesma decisão em mente. Minhas escolhas, meu caminho, minhas pedras.

  Eu tenho publicado cousas bonitas, pelo menos cousas que agradam meu senso estético. Já fui taxado de racista, machista, esculhambolista e nãodesista só porque gosto da estética clássica européia. Por que eu deveria esconder isso? Gosto, publico e publicarei enquanto tiver o espaço para isso. Não vou publicar alguma coisa só para ajudar um artista regional, se ele for ruim. E como tem gente ruim apontando o dedo para os bem sucedidos, culpando-os pelo seu fracasso! Passasse menos tempo reclamando e se dedicasse mais à arte, quem sabe conseguisse algo?

  Não escondo em momento algum minha preferência pelo meio de século passado, tanto que assino e freqüento o Mid Century Fashion, é um pequeno paraíso virtual, a Beth é uma simpatia. Também tenho uma página vintage, muito modesta, mas limpinha e com minhas contribuições, o Klub Retro Revival. Tenho especial apreço por essa época porque ela foi uma explosão de esperança no futuro, houve uma democratização do bom gosto e as pessoas REALMENTE tentaram ser melhores; não terem conseguido é outra conversa, falem com um profissional de saúde mental a respeito.

  Também tenho publicado imagens da alvorada da janela do meu emprego. Infelizmente o tempo está tão seco, que não há nuvens para formar os desenhos e o gradiente do escarlate para o amarelo claro. Os encontros de veículos antigos também têm álbuns, cada um com centenas de imagens de boa qualidade. Ultimamente, os leitores mais antigos sabem de meu viés levemente monárquico, tenho publicado coisas que encontro quase sempre acidentalmente a respeito. Sabia que a princesa de Liechtenstein é negra? Quem se importa? Eu me importo, ou não teria publicado no meu perfil. Se não se importas, o problema é só teu e ninguém tasca.

  O que eu espero conseguir com tudo isso? Nada. Absolutamente nada. Só quero tocar a vida e tentar dar cabo dela antes que ela dê cabo de mim. eu não devo satisfações a terceiros e o que eu faço para mudar a situação do país e do mundo, é restrito ao meu escopo. Eu sei o que e como estou fazendo, gostaria de poder fazer muito mais, ninguém de fora do meu círculo secreto e conspiratório precisa saber. A CIA provavelmente sabe, mas deve achar que eu não represento risco, por isso ainda estou vivo.

  Sinceramente? Eu gosto do que é belo, e meu conceito de beleza está atado à harmonia entre os elementos de um conjunto. Estou espalhando beleza pela rede social, com isso tenho conseguido ajudar muito mais gente do que revoltadinhos acadêmicos repetidores de discursos prontos. Como eu consigo isso é algo que eles não estão abertos para compreender, nem me interessa que compreendam. O Zuckerberg deixou, eu publico. Simples assim.

23/08/2015

Nem todos são caçadores

  Paulo Coelho disse certa feita que as pessoas são, basicamente, caçadores ou fazendeiros. Gostar ou não do que ele escreve, é outra conversa, até porque só os iniciados em magia tiram o devido proveito de seus livros. A questão aqui é outra.

  Recentemente a Ford trocou o nome do Focus sedan para Focus Fastback, com a alegação dos marqueteiros de que não queriam a imagem de carro de tiozão... De novo isso, não bastava a Nissan perder minha preferência. Não é de hoje que a indústria pegou phobia de maturidade, tentando a todo custo parecer adolescente em todas as circunstâncias. Será que terei que construir eu mesmo meu próprio carro?

  Quem é o tiozão, nos termos ditos? É o fazendeiro ao qual Coelho se refere, ele mesmo um caçador assumido. O fazendeiro é aquele cara que tem compromissos com um lugar e as pessoas que o habitam, por isso mesmo é muitas vezes taxado de conservador, às vezes até é mesmo, mas isso não significa que a máscara festiva do caçador não esconda um conservador ainda mais arraigado, uma noite não mostra o que um ano de convivência escancara. Bem, eu sou tiozão, já disse isso aqui.

  O fazendeiro não procura por emoções novas a cada noite, ele prefere cultivar a família e as amizades consistentes a conseguir dez amigos rasos de balada a cada noite. Estranha quando ouve "novos amores a cada fim de semana" porque se doar a um relacionamento, em vez de simplesmente sugar o que pode de uma noite, é o que ele entende por "amor". Jogar pessoas fora por causa de uma decepção, para simplesmente evitar um sofrimento, não faz parte da política do fazendeiro. Ele tenta até não ter mais como.

  Sim, há caçadores disfarçados de fazendeiros, esses são os piores, praticamente psicopatas que aprenderam a chorar com convicção. Assim como há fazendeiros que aparentam em tudo um caçador.

  Alguém que não sabe o que é cultivar a própria cozinha, experimentar suas próprias invenções, emergir suas próprias novidades, aprimorar as receitas tradicionais, tatear as verduras e preparar algo apenas para o lanche da tarde, sem tentar ser "cool", não pode falar da vida de um fazendeiro. Não pode falar nem da própria, seria como ler notícias da imprensa oficial, que só diz o que agrada ao governo. O fazendeiro geralmente tem, por isso, uma casa grande, porque pretende ficar nela o máximo de tempo possível, assim como pretende que seus hóspedes fiquem mais do que durar uma comemoração, quem sabe para pernoitar.

  O facto de os fazendeiros não tentarem aparentar a idade que já não têm, mesmo que seus trajes esbanjem frescor e leveza, rende tanta ou mais implicância do que a minissaia curtíssima da adolescente. As pessoas parecem ter medo de que a "velhice" aparente do fazendeiro seja contagiosa, a ponto de repreendê-lo publicamente por não se vestir como um garotão descolado, aí, mano, tamos nas quebrada... Argumentação mesmo, nenhuma.

  A tragicômica busca por juventude ganhou impulso com as redes sociais, novamente beneficiando a vida do caçador em detrimento do fazendeiro. Fazer sua vida parecer uma eterna balada já excedeu as raias da sanidade. O fazendeiro até gosta de festas... Ok, nem todos, mas a maioria não faz muitas objeções. Mas ele tem os pés no chão, sabe que a diversão é SEMPRE sustentada pelo trabalho de alguém, e que faz muito bem o festeiro trabalhar para financiar suas noitadas. A vida, ele sabe bem, tem o lado B e está ciente de que precisa lidar com ele, em vez de simplesmente reclamar.

  Note-se que as cenas de noitadas em comerciais, nos últimos anos, têm desprezado totalmente o entretenimento familiar, que o fazendeiro aprecia. Mostrar amigos em um restaurante não tem mais apelo, tem que ser uma lanchonete de flash food repleta de slogans, em um ambiente feito para se ficar por poucos minutos. Foi-se a época em que oferecer o ambiente social era parte do programa. Muita gente, mas muita gente mesmo sente falta dessa interação calma e pormenorizada.

  Isso porque o fazendeiro não pode se dar o luxo de aprender os sinais e só procurar por ameaças, ele precisa atentar aos detalhes da fazenda, todos os dias. Tudo é relevante. com isso ele aprende a também cultivar os mínimos detalhes de uma relação, inclusive familiar; às vezes irrita, reconheço. O fazendeiro ganha então ares de uma mamma calabresa da mais pura linhagem. Você simplesmente odeia amar alguém assim, nunca assume, mas geralmente ama.

  Não ter vergonha de não estar actualizado com absolutamente todas as novidades da internet, não é motivo de vergonha para ele. É motivo de receio o péssimo tratamento que recebe de quem se diz aberto e livre de preconceitos, porque para este tipo não basta não gostar, é preciso localizar, identificar e hostilizar quem gosta. Por isso o fazendeiro se desilude rapidamente de redes sociais, ao contrário do caçador, que simplesmente se cansa e procura outra. Se ele consegue um bom número de contatos ou mesmo tem uma página temática, simplesmente passa a ser menos visível e evita os desconhecidos... Se bem que esse comportamento é típico dele mesmo na vida real... Abandonar o que conseguiu construir é uma opção muito remota.

  Às vezes o fazendeiro dá a louca e destrambelha pelo mundo, mas isso não é uma rotina e ele não está em busca de emoções tão intensas quanto superficiais, tampouco se sempre obrigado a fazer selfies para todo mundo acreditar que está feliz em um lugar descolado agitando altas sei lá o quê. O fazendeiro sai do ninho para espairecer ou por necessidade, mas sempre com a intenção de voltar. Não se iludam, sua rejeição à superficialidade o faz aprender muito com o que vê e vive, umas poucas viagens lhe ensinam muito mais do que uma vida cigana à maioria de vocês.

  Por tudo isso o fazendeiro se ressente da indústria, inclusive, como disse, da automotiva. Essa mania dos marqueteiros acharem que todos são "mucho locos, mano" afasta um tipo de consumidor que simplesmente sustenta uma marca em crises prolongadas. O caçador, vendo que não há caça, se manda e não quer saber do resto, quem cultiva e cuida da terra para voltar a produzir, é o fazendeiro. Alguém aí notou que as marcas retrô progrediram, enquanto os outros encolheram ou desapareceram, no pior da última crise mundial? Uma olhada pelo Facebook, uma busca rápida por esse tipo de página e vocês verão o que digo.

  Não preciso dizer que o gosto pela mansidão e pela rotina já produz rejeição sumária, privando os preconceituosos de conhecerem o fazendeiro e sua história de vida, que ao contrário das lorotas de caçadores ávidos por aplausos, é real. Muita gente provavelmente acabaria descobrindo que é fazendeira, contrariando tudo o que alimentava até então; é um risco que poucos querem correr, seria uma perda brutal de popularidade.

  Desdenhar um público é perigoso, especialmente um tipo emotivo e teimoso como o fazendeiro. Ele pode interpretar isso como um fora ou, pior, como uma traição. Trair o fazendeiro é ter certeza de perder para sempre, inclusive o cliente. Essa neurose estúpida não vai durar muito mais, ela cansa, os próprios consumidores que as campanhas idiotas adulam, um dia se cansam delas. Da mesma forma é um equívoco acreditar que um tratamento aceito pelo senso comum, vai agradar a todos, nem todos gostam de intimidades com estranhos, muito menos em público.

  Se lhe parece pífia e sem sal a vida do fazendeiro, bem, boa sorte na tua vida louca, mano! Só não se esqueça de manter o devido respeito, porque disso ele faz questão. Caçadores que se prezem sabem bem que o fazendeiro, para defender seu rebanho, aprendeu a administrar vários alvos móveis ao mesmo tempo, ciente de que nenhum deles pode sair vivo da invasão.

29/07/2015

Alugam-se legendas

  Ei, você! Sim, você mesmo! Cansado de ser um total inepto, de ter sua mentalidade esdrúxula contestada só por disseminar suas idéias estapafúrdias? Sonha em ter vencimentos gordos, incompatíveis com seu intelecto desprezível? Em ser chamado de doutor mesmo mal sabendo desenhar seu nome? Em algum dia ter poder quase ilimitado sobre a vida dos outros, mesmo sendo incompetente até para gerir a própria? NÓS TEMOS A SOLUÇÃO!

  Alugue uma legenda! Candidate-se e tenha a chance de mamar no erário mesmo sem ser eleito! Não se importe com as dívidas de campanha, de um jeito ou de outro é o eleitor otário quem vai pagar.

  Não importa a sua ideologia, sua orientação sexual, sua religião, seus planos de vida ou mesmo a total ausência de tudo isso, nós temos a legenda que cabe no seu bolso e na sua capacidade em se fingir de homem honrado! Facilitamos tudo no cartão de crédito, no carnê, aceitamos carro, imóvel, jóias e tudo o que puder ser transformado em dólares em paraísos fiscais.

  Aproveite a oportunidade de ser catapultado pela votação expressiva a pseudocelebridades que temos de monte em nossos partidos de aluguel. Com a lei do quociente eleitoral, (como aqui) basta um deles atingir uma votação mínima e você terá a chance de alçar seu primeiro vôo político, mesmo que nem você tenha votado em si mesmo! Mesmo que sua votação seja negativa, os seus segundos no horário eleitoral gratuito (uma ova, é pago pelo erário) já valerão sua participação.

  Lei? Que lei? Nós as fizemos, nós sabemos como contorná-las! Ninguém precisa ficar sabendo! Não perca seu tempo trabalhando honestamente, nós mesmos fizemos por onde para isso não compensar neste país, ou seja, você não tem escolha! A não ser de legenda, é claro! Temos dezenas, todas com discursos que agradam em cheio sua clientela, todas elas em condições de te dar o sonhado certificado de ficha limpa, e a chance de ser um laranja aprendiz de um cacique com ficha mais suja do que pau de galinheiro.

  Não se preocupe com seus discursos, está tudo incluído no preço! Fazemos algo compatível com o seu nível, por mais baixo ou insignificante que seja, mas sem fazê-lo parecer o completo idiota que realmente é. Nós te faremos falar directo ao coração e às cabeças vazias do mercado consumidor a quem vai vender sonhos que JAMAIS serão entregues... talvez até sejam, em pequenas porções, a dois ou três mortos de fome, para divulgação na mídia. A verba de gabinete dá e sobra para isso. Teores homophopbicos, misóginos, eterophobicos, xenophobicos, de apologia às drogas e tudo o que é ilegal não são problema, te ensinaremos a fazer-se de vítima e sair como perseguido político por expressar sua livre express]ao de acordo com os dispostos na carta magna de 1988 e suas emendas, com base na declaração universal dos direitos humanos e amparado pelos preceitos bíblicos; Discursos pra enrolar e enganar são nossa especialidade.

  E por falar em discursos, não tema por sua inexperiência! Para isso serve a tecnologia! Com pontos electrônicos, você poderá fingir que está ensaiando seu discurso e o terá em tempo real durante o comício. Simpatizantes com sua cara feia em camisetas, para fazer número e aplausos estão incluídos no preço.

  Tenha também a oportunidade de ter sua photo digitalizada e montada em santinhos coletivos, com políticos tradicionais com eleitorado consolidado. Sua cara de imbecil não é problema, foi para isso que inventaram o editor de imagens. Ainda temos a opção de photos em monumentos públicos, onde o discreto merchandising de nossos corruptores dará direito a pose exclusiva. Insiste em aparecer com um figurão e o monumento? Melhor ainda! sua imagem vai infestar a cidade e demorará muito a decidirem a quem culpar por isso., talvez mais do que o prazo do seu primeiro mandato. De um modo ou de outro, você já terá eleitorado e sempre poderá se abrigar no meio dos trouxas.

  Por um módico acréscimo, que dividimos em prestações confortáveis, forjamos factos heroicos e dramas comoventes com base da sua insignificante e tediosa história de vida... Se é que podemos chamar isso de vida. Os escândalos podem facilmente ser convertidos em vida agitada e plena, capacitante à lida com a juventude e toda a baboseira que temos de sobra em nosso cabedal. frases banais com abordagens dramáticas, efeitos de luz e sombras, temos tudo para até você parecer saber do que fala.

  Os jingles mais grudentos e irritantes estão praticamente prontos, só esperando para serem adaptados ao seu nome de guerra. Nenhum direito autoral precisará ser pago, e se cobrarem não pagaremos. O aluguel inclui a adaptação de músicas com alto apelo popular em letras que, acredite, conseguimos fazer piores do que as originais. Temos candidatos fajutos para entulhar o tribunal eleitoral justamente para fazer suas infrações parecerem pequenas e insuficientes para merecerem sua atenção, em comparação com as atrocidades que nossos fajutos farão durante o pleito.

  E ATENÇÃO PARA A MAIOR PROMOÇÃO DA HISTÓRIA! Se você concordar em levar a culpa pelas danuras de um dos nossos caciques, sua campanha pode sair absolutamente de graça! ISSO MESMO, DE GRAÇA, porque quem vai pagar é o erário e a classe média não sabe que impostos paga, então suas reclamações legítimas serão rechaçadas pelas nossas direita e esquerda de redes sociais. E tem mais! se sua candidatura for impugnada, você receberá um alto cargo como homem de confiança de uma de nossas múmias políticas, ganhando os tubos para fazer porcaria nenhuma pelo povo, e ainda voltar como herói nas próximas eleições!

  Então, o que está esperando, seu paspalho? Filie-se agora mesmo! Não se preocupe com as legendas grandes e tradicionais, é de baixo que se começa, inclusive nos métodos... E você realmente acredita que há diferença entre partidos? Que nossas legendas de aluguel não são meros puxadinhos para caixa dois de outros? Pois é! Se suas ambições são tão altas quanto sua moral for baixa, então você é um de nós! Sigam-nos os maus!

17/07/2015

Quinhentos anos de conversa

  O céu tomado de nuvens densas, de horizonte a horizonte, impedia qualquer orientação visual. Se dependessem da luz para enxergar, estariam completamente cegos naquele lugar. A escuridão e os ventos fortes baixavam tanto a temperatura, que só por debaixo do espesso gelo a água conseguia correr. Avistam sua figura no cume daquela montanha, um pensamento quase obsessivo nos últimos anos...

- Vamos para casa.
- Estou em casa.
- Aqui não é lugar para você.
- Meu lugar é onde me respeitarem.
- Quem te respeita aqui, neste deserto gélido?
- A solidão sozinha me respeita mais do que todos durante a vida inteira.

  Novamente aquela queixa. Dez anos de solidão não bastaram, naquele exílio voluntário, para que esquecesse das falhas que caíram sobre seus ombros...

- Você poderia ter ignorado, era sua escolha.
- Queriam que eu fingisse alegria com uma lâmina rasgando minha carne?
- Então é isso?
- Isso pode ser reparado.
- Por que não repararam?
- Ainda não era hora. Não se poderiam tolher suas oportunidades de então.
- As oportunidades que me interessavam foram tolhidas desde o começo. Antibióticos não fazem efeito em tecido necrosado. Se insistem em colocar seu tempo ridículo sobre as necessidades lineares, então não queriam realmente reparar cousa alguma.
- Você teve oportunidades.
- Para o que não presta. Só para o que não presta. Baixar a cabeça aos quadrúpedes nunca me conveio. Alegria na marra não existe.
- Vai continuar aqui?
- A quem isso importa?
- Você sabe, não faça injustiça.
- Se a alguém importou, por que não houve providência? Se alguém se importou, a este também não foi permitido agir segundo sua consciência, então tudo foi mais grave do que sei. Deixem-me, daqui não atrapalho vocês.

  A frustração é acrescida pelo pedido não atendido de bem quistos e preciosos membros. A mágoa ainda era visível nos tons ocres de sua fala. Talvez devesse-se ter-lhe permitido recobrar a aparência antiga, talvez isso tivesse atenuado a níveis toleráveis o desconforto, talvez o auto exílio não tivesse ocorrido com essa demonstração mínima de respeito... Novamente o item "respeito". Retornam quando os ventos estão mais claros, tendendo para tons pastéis e aromas remotamente cítricos, sinal de que um pouco de paz se instalara. Sua fronte, no entanto, permanecia melancólica como antes, como sempre desde que decidiu-se pelo exílio...

- Pensou melhor?
- Com a paz da solidão, sempre pensa-se melhor.
- Solidão mão é boa companhia.
- Não vos estou impondo o que me apraz.
- Você deixou muitos tristes, com sua saída.
- Alguns voltaram sem sequer terem te reencontrado.
- Já não tiveram o que queriam de mim? Não cumpri com tudo o que me foi imposto?
- Queremos você.
- Sua inactividade física não te impediu de trabalhar nestes cem anos. Sabemos que os últimos acontecimentos tiveram sua influência.
- Portanto não precisam que eu saia de onde escolhi ficar.

  Voltam com mais uma frustração. Da próxima vez, um será substituído, tem outro retorno a fazer e não pode mais adiá-lo. Alguns subiram e também se frustraram não só pela ausência, mas também pelos seus motivos. O frescor da nova companhia talvez traga novas esperanças, é o que esperam. O semblante ainda duro e as lágrimas retidas ainda estão lá, mas os tons pastéis se estabeleceram e os aromas florais se anunciam. Canções do século XX ainda permeiam todo o ambiente, com suas lembranças e suas oportunidades perdidas. Alguns de seus intérpretes voltaram mais de uma vez, mas aquela figura que já se confunde com a paisagem continua lá...

- Queremos agradecer pelo bálsamo derramado.
- Não respondeu.
- Mas sabe que estamos aqui. Talvez você tenha sucesso.
- Sente-se confortável?
- Não busco por conforto.
- Entre não buscar e rejeitar dessa maneira, existe um abismo.
- É onde estou.
- Irônico... O abismo em um cume...
- Você não é o pouco que pensa.
- Não me for permitido ser o que sou.
- Não poderia ter se esforçado em ser feliz naquela trilha?
- Ninguém é feliz no caminho alheio. O meu foi-me negado.
- Mas era o que você tinha, não poderia ter trabalhado nele?
- Trabalhei, paguei pela minha liberdade e não quero perdê-la.
- Mas você sempre foi livre.
- Para o que não me convinha.

  Apesar do ambiente mais ameno, a voz continua em um bemol gutural e bastante pausado. Poderia ser aproveitada em algum filme antigo de suspense. Sabem que aquela aparência não corresponde totalmente à realidade, provavelmente assim como sua aparência não corresponde à realidade que vestira. Apesar de não mais mover um músculo desde que se sentou naquele cume, seus serviços de então em diante não podem ser ignorados, só não estão mais sujeitos à hierarquia que abandonou. A longa pausa lhes permite apreciar um pouco do que lhes fora dito, antes de saírem a mais uma tentativa. É muito difícil se sincronizarem àquela condição, há tantos e tão grandes espinhos ao seu redor, que só quem se acostumou a eles poderia mesmo suportá-los. Sentam-se cada um a um seu lado, sem ambicionar muita coisa...

- Algumas cosias que você fez naquele vale estão servindo de norte.
- Era questão de tempo para tanto. Não está feliz?

  O silêncio permanece, exceto pelo vento ainda gélido, que daria cabo de qualquer ser vivente em poucos minutos. Está trabalhando. Olham para o vale e acompanham, pela primeira vez, uma figura de longos cabelos ondulados em um longo vestido branco cinturado a pairar sobre os demais. Não se contenta em pegar o lixo, recicla-o e devolve-o como algo de proveito. A facilidade com que o faz demonstra a longa prática no exercício, sua facilidade beira o inacreditável. A figura desaparece, eles se voltam para aquela fronte e testemunham ainda tênues e ínfimos pontos de luz se desvanecendo naquele cenho franzido. Voltam para contar e demonstrar o que viram, foi para isso que foram desta vez. Quando chegam, percebem que algumas de suas manchas também foram limpas.

  Voltam e vêem o ambiente mais ameno. Ainda está escuro, mas cores e odores já poderiam ser dados aos cuidados de inexperientes. O vento, no entanto, continua inclemente. Qualquer carne sucumbiria imediatamente àquela glaciação. Lá está quem a produz, ainda naquela posição, naquela mesmíssima posição, teimosamente há mais de dois séculos. Sentam-se ladeando e aguardando. Assim que sentem o aroma de frutas...

- Você não sente falta das pessoas que deixou?
- Me deram lembrar de quando nos encontramos pela última vez.
- Arco com as conseqüências de meus actos e escolhas.
- Ele não é frio assim, eu me lembro!
- Não é frieza, é dor. Lembra-se de como se recolhia, quando sentia dores?
- É dor? Dê-me então a mão, quero ajudar.

  Tenta tocar-lhe a mão, mas a dor irradiada faz-lhe recolher rapidamente a própria. Se olham, ambos sentiram. Voltam agora mais preocupados do que frustrados, aos outros. Dedica-se a curar a dor alheia, mas não consegue sequer atenuar a própria. A avalanche de lembranças que partilharam não é, provavelmente, um átimo da que lhe atormenta, mas foi suficiente para comprometer-lhes a respiração naquela fração de segundo. Contam tudo, olham todos para o horizonte e aquela nuvem tempestuosa continua lá. Perguntam-se se é aquela nuvem aterrorizante que habita seu coração. Verificam o monitoramento, impressiona-lhes o controle que tem dos pensamentos, mais ainda de isso não lhe tirar daquela condição.

  Voltam com uma companhia. Eles sentam-se aos lados e o terceiro paira à sua frente..

- Você não deveria estar aqui nem por um segundo, quanto mais por quinhentos anos.

  Não responde. mantém os olhos fechados, a palma esquerda virada para cima e a direita para baixo. Os aromas são definitivamente primaveris, as cores estabilizadas em tons pastéis, mas a escuridão e o frio permanecem ali. Recorda-se da última conversa, ríspida, mas civilizada que tiveram. Era para que aprendesse uma lição, mas descobriram que também lhes cabia uma...

- Nós não somos perfeitos.
- Agiram como se considerassem-se. Tiveram o que queriam, respeitem meu exílio.
- Você sabe que não está só. Ninguém está só, ou não haveria o desejo de ter-lhe novamente conosco.
- Tem muita coisa nova acontecendo desde que você subiu e depois se afastou.
- Nada é novidade. Nada.
- Como poderíamos ter-te de volta e ajudar-te a recompor-se?
- Nada o faria.
- Nada?
- Nada.
- Quase quinhentos anos aqui e você nunca disse isso. As guerras já foram extintas, em parte por tua intervenção, mas só agora compreendo. Nada te demoverá?
- Nada me demoverá.
- Você acaba de trocar minha culpa pela esperança. Nada te demoverá, mas não será interrompido seu trabalho e não será desrespeitada a sua vontade. Vamos, o que se deveria fazer, está feito.

  O casal o acompanha sem compreender. O ancião aparente explica que deveria ter sido menos hierárquico e cedido naquele ponto desde o começo, mas sem perceber a ajuda acabara de ser solicitada e estava em andamento. Antes do meio milênio se completar, uma criança de curto corte chanel toma o lugar dos que tanto tentaram e se frustraram. Ela se aproxima em seu vestidinho de cores vivas entre as flores que dançam à brisa matinal. Só se vêem nuvens no horizonte, poucas e tingidas de ruivo pelo sol matutino. O cheiro da relva úmida se mescla com o das flores sob o céu de azul ainda cálido, a uma temperatura tão confortável que é quase monótona. A menina se põe diante da figura já coberta pela grama e nada acontece. Nada acontece. Nada diz, a criança apenas mostra seu dedinho anelar esquerdo, que exibe uma quase imperceptível ferida por espinho. Mostra e espera. Nada diz. A figura move seu rosto pela primeira vez desde que lá sentou-se e encara a criança. Nada diz. Nada! Nada diz, ajeita seus longos cabelos ondulados, seu vestido em um tom ultra claro de azul e põe a menina no colo. Nada diz, beija seu dedinho e cura-o.

  É com surpresa e estupefação que todos vêem-na voltando, sóbria, mas não mais taciturna, com a menina nos braços. Nada lhe diz, quem vê apenas admira aquela mulher irradiando luz azul. Não é mais aquela figura que saíra segurando os prantos, nem mais se parece com o que se foi, agora é o que deveria ter sido. Se esforçaram em demovê-la de sua decisão, quando na verdade precisava enfrentar seu inferno sozinha. Nada deveria ter feito. Nada.

10/06/2015

Raoni diz love


  Findada a abertura, uma dos membros do fã clube vai perguntar a um grupo mais próximo de beatlemaníacos sobre uma canção de que nunca tinha ouvido falar. Bem, nem eles. A estranheza é generalizada. Nenhum deles tinha ouvido falar dessa canção premonitória, assim como todos os outros membros no ambiente. Vão à directoria elucidar o mistério...

  - Como é que é???
  - Uma canção premonitória sobre o cacique Raoni.
  - Sua diarista ouviu essa canção e a rádio confirmou o grupo, é isso?

  Pesquisam o acervo de milhões de páginas, mas nenhuma faz sequer menção à canção. Falam com clubes do mundo inteiro, mas nem os da Inglaterra têm notícias da obra. É sabido que os Beatles fizeram muitas músicas que jamais lançaram, inclusive algumas na esperança remota de a banda se reunir, então a dúvida procede. Decidem falar com a diarista, para evitar desprendimento de esforço desnecessário.

  Na terça-feira, um grupo visita a sócia e aguarda a diarista desocupar...

  - Uai! Cês que é fã não sabe? Eu que não sô ovo quase todo dia! Eles previro que o cacique Raoni ia existir e ia precisar de moral, então fez a música pra ele. Eles era só talentoso não, era também preventivo.

  Pane! Não só pelos maus tratos ao idioma, mas também porque alguém afirma que os garotos de Liverpool eram videntes. Agora doeu-lhes nos brios. Aquilo é quase como chamá-los de analphabetos e incompetentes. Pedem que cante um trecho, já que ela não sabe inglês, mal sabe português, mas afirma se lembrar direitinho da música...

  - É assim, ó: Num sei lá o quê, num sei lá o quê... Tra lá lá... Tra lá lá... Raoni diz love, pa pararara...

  Lhe providenciam um cursinho de inglês e português básico e encerram o caso.