04/11/2015

Talvez o burro seja eu!

  Estou mantendo distância de velhos amigos, com quem já confabulei e dividi momentos dos mais diversos, in loco ou via internet. Mantenho justo para não macular a amizade, para não ter que escolher entre ser um burro ou um canalha.

  Sim, cari leitori, chegamos ao ponto em que a dissolução desnecessária de um laço só pode ser evitada com a esporadicidade de contactos. Não só isso, mas também a escolha meticulosa das circunstâncias e dos tópicos a serem tratados, visto que qualquer vírgula mais para um lado do que para o outro pode redundar em uma discussão ideológica tão fútil quanto abrasiva.

  O motivo é o velho discurso de superioridade acadêmica e ideológica, que finge parafraseados de piedade em dados momentos, para passar mel no que foi dito e tentar se resguardar dos frutos amargos do que se dirá em seguida. Quem não compartilha desse ponto extremamente polarizado de vista seria burro ou canalha; a burrice poderia ser revertida com estudos, segundo os MUITOS adeptos desses discursos, quase sempre populistas de direita E de esquerda.

  Francamente, estou me lixando para os conceitos e rótulos que cada um se atribui. Mando os mais exaltados fazerem exame de fezes e degustarem o resultado. Eu já evito ler mais do que o enunciado, pois sem ele infelizmente não há como saber do conteúdo, quando o assunto são as paixões ufanistas dos ideólogos, principalmente os que se declaram intelectuais. E não precisa se dizer intelectual, a arrogância e o modo como se pronuncia, tanto pior quanto mais prolixia e retórica, são quase como cartaz e cola a exibir em letras berrantes "EU SOU INTELECTUAL, NÃO SE ATREVA A CONTRARIAR O QUE EU DELIBERAR, ENQUANTO PENSADOR, QUE É O CERTO, SEU IGNORANTE OU MAU CARÁTER".

  Feito que meu perfil está muito longe de ser o de um canalha, e essas pessoas confiam cegamente em seus julgamentos, todas elas, incluindo amigos, devem me considerar um completo ignorante. Eu falo mal do governo, não só os pontos discursivos ideologizados em que muitos exprimem o desejo de radicalização, mas os rompantes de autoritarismo e corrupção que muitos negam que existam. Eu uso um peso e uma medida para tudo, se o que os anteriores fizeram era condenável, o mesmo feito pelo actual também é.

  Não, a Dilma não inventou a corrupção, o Lula não inventou a corrupção, o FHC não inventou a corrupção, o Collor não inventou a corrupção, o Geisel não inventou a corrupção, o Vargas não inventou a corrupção, Deodoro da Fonseca não inventou a corrupção, Dom João VI não inventou a corrupção, ninguém inventou a corrupção! Se isso fosse motivo para me calar e me posicionar pró alguém, o faria por todos eles. Não lamento dizer que não é. Muito do que a imprensa diz contra o governo, eu vejo acontecer do meu posto de trabalho, inclusive as últimas que o ministério da saúde tenta desmentir,

  Já disse aqui que ideologia e todas as "boas intenções" correlatas tornaram-se dogmas, à imagem dos dogmas religiosos mais fundamentalistas. Quem se apega a um dogma acredita ter a verdade em suas mãos. Alguns dizem ser apenas a "sua verdade", mas ela é tão glorificada que para o infectado torna-se A VERDADE. Bem, carissimi, quem tem A VERDADE tem medo da verdade. Mas o que é a verdade? Dê um tiro de fuzil na própria cabeça e descubra. Tente achar que nada de relevante aconteceu e saberá do que estou falando. Radical? Não, isso é apenas para mostrar de modo inequívoco que "a verdade pessoal" de cada um não significa absolutamente nada para mim, inclusive a minha, que nunca promovi a mais além da patente de opinião predominante.

  Já me senti burro muitas, mas muitas vezes, inclusive depois de velho. Mas não tenho medo da verdade, ainda que ela me obrigue a mudar completamente os rumos de minhas conclusões. Foi assim que virei ateu, foi assim que deixei de ser ateu, et cetera. O que eu defendo, e isso é cada vez menos público, é o que eu vi funcionando de forma autônoma, estável e perene NA PRÁTICA. Na teoria um Fusca precisaria de 85CV para manter 140km/h, na prática ele consegue um pouco mais do que isso com 59CV. Foi a engenharia que precisou desenvolver outro padrão de cálculo para explicar isso. Na prática.

  O problema dessas pessoas é que suas "verdades" têm rostos, nomes, histórias e muita, mas muita "estória". São vistas como grandes heróis intelectuais paradigmas infalíveis suprarracionais da humanidade. Se são atacados, é porque têm razão, certo? Errado. Se eu estiver comendo e alguém puser a mão no meu prato sem minha permissão, a coisa vai ficar feia para o lado do invasor. Ele estará cem por cento errado da silva sauro em pegar sem pedir e será atacado. Às vezes as pessoas são atacadas não por serem portadoras da voz de grupos bla-bla-bla, muitas vezes é porque fizeram maldade e não a repararam. Muitas vezes essa maldade é feita com justificativas que fazem o revide parecer perseguição. De todos os lados, não há só dois.

  Eu tenho um componente que agrava muito tudo isso, eu descobri que aparento acreditar sacramente em tudo o que digo. Mais, eu aparento querer converter todo mundo ao meu "ponto de vista", entre aspas mesmo, para enfatizar a falta de valor dessas paixões acadêmicas. E é tudo tão intenso, as pessoas recebem isso com tamanho impacto, que aparentemente me vêem como um alto sacerdote a condená-las por seguirem suas próprias linhas de pensamento. Ok, eu até acredito no que digo, ou não diria, mas eu simplesmente não me levo a sério! Eu me acho um porre, entendem?

  Infelizmente as pessoas me levam muito, mas muito a sério. Mais a sério do que seria higio. Felizmente eu tendo a levar esses ataques quase tão a sério quanto a mim mesmo. Eu sei que não são dirigidos a mim, me atingem, mas são metralhadoras giratórias, é como se fossem pombos que cheiraram creolina, eles voam sem saber para onde e acabam atingindo os outros pombos ao redor. como sei? É uma historinha que um dia conto a vocês, posso adiantar que vi a cena acontecer bem na minha frente.

  Por essas e outras que recebo também o rótulo de alienado. Rótulo que não gruda na minha testa oleosa. Isso porque parei de publicar postagens politizadas, antenadas, engajadas, activisdas, assadas, grelhadas caramelizadas e cobertas com o delicioso chocolate nestllé. Meu perfil no facebook tem hoje quase nada que possa ser vinculado ao que intelectuais gostam de ver e ouvir, esses mesmos que desdém Adele, por ela não ser um estereótipo da intelectualidade.

  Crianças, o meu trabalho e a minha vida já são muito estressantes por suas próprias naturezas. Eu não vou me desgastar pelo que não vale à pena. E dane-se quem me achar alienado, política NÃO VALE À PENA. Até porque no Brasil não se faz política, é um jogo dos tronos em que patetas seguem seus reis para a morte certa. Eu não tenho heróis, eu não tenho paradigmas, eu não tenho casa própria! Não me levem a mal, e mesmo que levem, dane-se, eu não vou gastar recursos com o que faz muito barulho e dá zero resultado confiável.

  Talvez eu seja um burro, ausente do orbe em uma vida etérea sem ancoragem no mundo palpável. Talvez eu seja um canalha que se finge de burro para distrair suas atenções, afim de fazer tudo por debaixo do pano e derrubar seus heróis ideológicos, religiosos, artísticos, celebráticos, históricos, histéricos e donos da verdade única e absoluta. Talvez esses heróis sejam os canalhas da história, então os burros seriam vocês. Já pensaram nisso?

  Prestem atenção na imagem de texto que utilizei. Vejam, visualizem, mentalizem e meditem. Não é difícil compreender que eu quero e necessito de um mínimo de sossego na vida social, é? Eu não gosto realmente de uma vida social, nos parâmetros usuais, mas tenho que me conformar com esta. Então, se querem continuar a me ver, me ler e me compreender de facto, peço um pouco de respeito, pois se ele falta, tudo mais falta.

2 comentários:

v8andvintage disse...

Prezado:
Para os donos da verdade, eu ignoro e faço questão de manter distância de segurança. No caso do virtual, a "verdade deles" te invade e te destrói sem cerimônia.
Não tenho pudor nenhum em descartar "amizades" do face e de não falar com as pessoas que não me agradam. Não sou grosseiro: se vier com um bom-dia, opa! ou beleza? retribuo pois não desaprendi a ser educado.

Nanael Soubaim disse...

O meu caso é um tento mais delicado, existe história pré-ideologia. Mas rechaçar aproximações desse tipo é uma prática salutar, até para quem foi rechaçado.