15/10/2011

Desculpas ao contribuinte

Esta autarquia é das bem equipadas!

Peço desculpas ao contribuinte. Apesar da precariedade de nossas condições de trabalho, de muitas vezes usarmos de nossos recursos pessoais para conseguir um carimbo ou uma xerox, sempre conseguíamos arcar com as necessidades do cidadão. Apesar da internet lenta, na verdade uma interlerd banda lerda, perseverávamos e fazíamos gambiarras nos buscadores para a consulta de seus dados demorar menos.

Infelizmente, contribuinte, os últimos prefeitos conseguiram ser muito piores do que os anteriores. Peço então desculpas porque depois deles, não temos mais conseguido arcar com suas necessidades. A queda inevitável na qualidade de nossos serviços, pelos quais seus impostos pagam muito caro, não é culpa nossa. A maioria absoluta do funcionalismo trabalha no limite o tempo todo, na tentativa de fazer o serviço a contento.

O material de uso contínuo nunca foi farto, mas agora tem sido regrado e cercado de burocracias, com documentos que afrontam a língua portuguesa, fazendo com que tenhamos saudades do cansaço que era a busca de material. Antes eram duas pessoas ou duas viagens, para buscar tudo no almoxarifado, que já não temos. Subíamos as escadas com esforço. Hoje basta um para buscar o material de quinta qualidade que mal pesa nos braços. Preciso dizer que tudo acaba antes da hora e precisamos complementar do nosso bolso? Pois nem assim, contribuinte, as autarquias conseguem arcar com suas funções. Para cada caneta que funciona, descartamos cinco ou seis que já vêm inúteis da caixa. Usamos as nossas.

Longe das propagandas eleitoreiras do Estado, as condições de nossa informática é de se chorar. Se antes a dificuldade estava na lentidão, hoje está também na censura dos filtros. A Sinavisa, por exemplo, departamento da Anvisa para atender às demandas do cidadão e Vigilâncias Sanitárias, freqüentemente é bloqueada. Não podemos assim consultar a situação do contribuinte, que já paga os pecados com burocracia fútil e taxas elevadas, tendo que dispensá-lo sem ter resolvido seu problema. Sim, ele sai xingando, esbravejando, quase enfartando, coberto e recheado de razão. A culpa não é nossa, mas também não é dele, que paga ao Estado justo para ter seus assuntos públicos geridos, e poder cuidar de seus assuntos privados. Nossas máquinas não funcionam a contento faz... Bem, desde que foram compradas.

O software de todas é pirata, por isso não dá para receber as actualizações de que precisam. Parece ruim? Pois por burocracias fúteis que politipatas adoram, não podemos mais refazer as configurações que atenuavam nossas deficiências, tudo tem que vir de uma autarquia "especializada" que nunca resolve absolutamente nada, no máximo remedia até a próxima recaída. Parece medonho? Experimente ir a um posto de saúde para ver cousa muitíssimo pior.

Por motivos de burocracia, também peço desculpas ao contribuinte por não atendermos às suas denúncias como antes. Houve época em que recebíamos as reclamações e repassávamos directametne aos fiscais, onde quer que estivessem. Hoje vocês precisam ligar pra um telephone que não funciona, simplesmente não funciona. Nem nós conseguimos formalizar as denúncias do que vemos nas ruas. Temos que encaixar as tarefas nas vistorias de rotina, mas por falta de uma denúncia formal os atendentes nem sempre conseguem dar uma resposta ao cidadão reclamante, ainda que o problema tenha sido resolvido. Geralmente é resolvido, porque temos apreensões e interdições diárias para coibir quem brinca com a saúde pública. Asseguro, porém, que até multinacionais temos conseguido fazer andar na linha... Sabe Deus até quando.

Peço ainda desculpas por vocês não encontrarem auxílio todas as vezes que buscam informações. Já é uma rotina triste sabermos de colegas competentes, que não conseguiram manter o vínculo entre o serviço público e suas necessidades de uma vida digna; eles debandam. Vocês não imaginam o que é ter que ouvir malandros ameaçando chamar algum deputado, um secretário, um raio que o parta, para forçar a emissão ilegal de um documento, ou mesmo ver o coitado do mensageiro ligar para a contabilidade e ouvir do chefe que ele não sabe se impor. Ainda que ganhássemos bem, a lida diária com o vício dos corrompidos nos estressaria muito.

Repito que a maioria absoluta do funcionalismo público é honesta e dedicada, não é o servidor a causa da falência do serviço público. Transformar autarquias em cabides de emprego, travar com burocracias quem incomoda o jogo político (porque par eles é tudo um jogo, e vocês são apenas moeda de troca) e deixar tudo se deteriorar para depois dar esmolas maquiavélicas de bondade, tudo isto é que quebra o serviço público, como quebrou a Caixego.

Peço desculpas, contribuinte, não é por me sentir culpado. Deito minha cabeça dolorida no travesseiro com a consciência tranqüila. Eu conheço o meu serviço, conheço a fundo e sei como poderia ganhar ilícitos apenas segurando documentos por uns dias. Só uns poucos dias em cada infração, bastariam para multiplicar por dez os meus rendimentos. Mas continuo dependendo de um dos piores e mais politicados transportes públicos do país. Peço desculpas, contribuinte, porque tenho certeza de que quem as deve não vai pedí-las, pois seria a confissão do crime. Peço desculpas porque, a exemplo do fucnionalismo, dá gosto atender à maioria absoluta de vocês. Vocês merecem estas desculpas.

Nos desculpe, faremos o máximo de nossas possibilidades para atender às suas demandas.

3 comentários:

Vy disse...

Passa lá no Passe de Mágica e vê o que achei!! Beijo! Vy

New disse...

Sensacional... e triste. A verdade quase sempre o é.

Bjks

Nanael Soubaim disse...

E é esta a minha rotina.