18/11/2010

Goiânia ao léu

Avenida Goiás, década de 1940
Não faz muito tempo, era seguro atravessar as ruas de Goiânia. Com o devido cuidado, até as ruas mais nervosas podiam ser transpostas sem grandes dificuldades.
Hoje a indústria da multa, que rende bem à prefeitura, permite as maiores barbaridades inimagináveis apenas para cobrar os acréscimos no IPVA, por conta das infrações.
Ônibus furando sinal é o básico. Carros estacionados em cima da faixa, diante de uma guia rebaixada para cadeirantes e em cima da esquina, com o dono caçando briga com quem reclamar, são uma cena já rotineira em uma cidade que já foi civilizada.
Motociclistas pressionando motorispas para a ultrapassagem pela direita já vi dois em menos de meia hora, e eles buzinam com raiva, como se fosse obrigação do carro se enfiar debaixo do ônibus para dar passagem. Aliás, calçadas com guia para cegos são o estacionamento preferido dos motociclistas, especialmente os que se dizem antenados e preocupados com as minorias e discriminados, estes são os maiores tropeços de quem precisa de sinais em relevo para se guiar com a bengala.

Não faz muito tempo, Goiânia era uma cidade limpa. Havia poucos papéis de bala nas calçadas. As lixeiras eram bem conservadas e a coleta era pontual.
Hoje é raro encontrar um lugar limpo nesta cidade, cheia de lixeiras depredadas e sem conservação, sem padronização e concentradas onde o prefeito acha que pode ser um ponto turístico. Gente pessimamente mal acostumada, que não recebeu criação em casa, invadiu e transformou em lixeira ruas onde antes se podia lamber sem medo. Não há fiscalização, tanto que lojas amontoam seus artigos nas calçadas estreitas da cidade do art-deco como se fossem donas dela. Obras usam até parte das pistas de rolamento como extensão, aproveitando que a Secretaria da Ação Urbana foi desmantelada e sucateada. Quando se dignam a fazer algo, anunciam com antecedência para, no acto do espetáculo, tudo estar em ordem e os indícios desaparecerem. Quanto às obras abusivas, estas nada sofrem, continuam empurrando o pedestre para debaixo dos carros e estes para debaixo dos veículos pesados.
E por falar em art-deco, quase não a temos mais. O gabarito de cada bairro foi sumariamente rasgado pelo ex-prefeito e candidato derrotado ao governo. Estão erguendo edifícios altíssimos em bairros onde doze andares eram o máximo permitido, inclusive pela mecânica do solo. Nenhum deles no estilo art-deco, que era característica da Goiânia que hoje só existe nos postais defasados. Não temos uma secretaria de turismo que valha o nome e atente a este detalhe básico. De Goiânia eles só querem o sangue.

Não faz muito tempo, o transporte coletivo de Goiânia era exemplo para o país inteiro. Pagava-se sem reclamar o preço da passagem pelo bom serviço prestado.
Hoje nos dão paus-de-arara em horários sofríveis, que são alterados sem aviso prévio à população, com "esquemas de férias" implantados em pleno último mês de aulas, para retirar mais ônibus das linhas. Não bastasse terem eliminado os cobradores, com o uso de catracas electrônicas e leitoras de bilhetes, é comum ver veículos parados por falta de manutenção, gambiarras como furos na lataria para refrigerar o motor e poupar dinheiro de um reparo decente, troca de botoeiras por cordões bastando aquelas pifarem. Fora os ônibus usados que vieram de várias partes do país para tapar os buracos, hoje nem a isso se dignam. Linhas confortáveis e seguras foram extintas sem quaisquer satisfações e, assim, muita gente passou a precisar de mais do que um itinerário para cada viagem, ou um bom par de pernas quando a distância permite; como eu.
Há alguns anos um perueiro veio e botou na cabeça de gente humilde que deveriam explorar uma modalidade que as empresas estabelecidadas ignoravam, o uso de vans e microônibus. Não demorou para que tudo terminasse em violência policial, logo as "concessões" feitas foram suspensas e gente se matou por conta das dívidas pela combra do veículo. As empresas que jamais sofreram uma licitação de verdade, rancorosas, se vingaram na população como se tivessem nos feito um favor em dar transporte decente, em algum lugar do passado. O perueiro hoje é político "das causa populá" e está se lixando para quem foi atirado na miséria. A prefeitura? E ela se importa?
Metrô? O povo é besta e não cobra, então o prefeito se acomoda e deixa onde está quem sempre esteve, ainda que se diga de um partido progressista e popular. Da câmara municipal, que fez um prédio HORROROSO, uma cicatriz ao lado da antiga estação ferroviária, não se pode esperar o que presta. Só fogos de artifício. Projectos e verba para metrô já foram anunciados, na época do então governador Henrique Santilo. O que se deu depois dos discursos eu não sei.

Não faz muito tempo, Goiânia era uma cidade segura. Viam-se poucos pedintes pelas ruas, todos nela por necessidade. Se podia andar a qualquer hora da noite sem medo, levantar de madrugada e seguir caminho mesmo sem ninguém poe perto.
Hoje está cheia de gente que está nas ruas porque quer ficar lá, facilitando o serviço de ladrões e traficantes, tornando até um passeio de fim de tarde arriscado. Gente capaz de acordar os moradores de uma casa para pedir uma moedinha, que certamente não será para comprar pão. Aos que "acham" que ninguém está na miséria porque quer, venha e tenha uma palavra com eles. A maioria tinha casa, fugiu para usar drogas sem a família incomodar.
A iluminação pública passou de razoável para cegante, por obrigar a forçar demais as vistas. Lâmpadas potentes trocadas por tomatinhos que só fazem revelar silhuetas. Muitos postes estão com reactores defeituosos, mas trocar lâmpada vagabunda é mais barato, então trocam a lâmpada que logo se queima de novo.
Pixações à luz do dia já não constrangem, só indignam os que ainda lembram de como a cidade era. Talvez o actual prefeito ache que é um canal de livre expressão lúdica da juventude amordaçada pelo sistema injusto e segregatório de um contexto histórico de conflitos sociais no raiar do século de aquário. Para quem tem que pagar pela repintura, inclusive de prédios públicos, é só vandalismo exibicionista mesmo.
Um prefeito que não cuida de Campinas, bairro de onde nasceu a cidade e que lhe dá a maior arrecadação comercial, não surpreende que vire as costas para a civilidade básica de cada dia.

Não faz muito tempo, Goiânia era uma cidade agradável de se viver. Eram poucos os pontos críticos de ruído e poluição, sempre em horários determinados e pontuais para a calmaria voltar.
Hoje o inferno dura o dia inteiro, não raro varando a noite, em muitos pontos chega a ser perene. Carros com o som no último volume fazendo alarmes dispararem, cheios de machos prontos para arrumar encrenca. Um serviço público cada dia mais burocratizado e desaparelhado, que só serve para dar status se "Doutor Secretário" para alguém. Quem trabalha dirteito não é visto, pois não tem tempo para adular partidários da situação, nem dos sindicatos que muito discursam e só defendem interesses, jamais a necessidade do serviço público, exactamente como todos os outros.
O asfalto ondulado e cheio de remendos, a iluminação porca e os bandidos de tocaia são armadilhas prontas, fazendo o goianiense honesto preferir arcar com um dano na suspensão a arriscar uma morte com requintes de crueldade.
Os edifícios tão altos, que geram propagandas caríssimas, bloqueiam a circulação e emporcalham o horizonte antes livre da cidade, além de produzir congestionamentos que antes só conheciamos por reportagens de São Paulo.

Goiânia era esperança. Era como uma menina linda e promissora, que caiu em desgraça no flerte com canalhas e vícios.

6 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

As grandes cidades crescem desordenadamente na mesma medida que a má educação da população, aqui na Grande São Paulo não tem mais jeito !

Flávio Costa disse...

Nanael, acho que todas as cidades que crescem sofrem do mesmo mal. Infelizmente. E o que mais incomoda é a visível falta de compromisso com as raízes. O tempo, ajudado pelo dito progresso, apagam impiedosamente a memória.

Nanael Soubaim disse...

No caso de Goiânia, a degradação é muito recente e muito intensa, com agravamento após o Paulo Garcia (PT) ter assumido a prefeitura. Muita gente acreditou que ele iria dar um chega-pra-lá (pelo menos) nas empresas de ônibus, mas está deixando TUDO correr solto.

Lilly Rose disse...

Bom dia Querido Amigo Nanael !!

Cidades grandes são cheias de mazelas isso é facto.

Mas não imaginava o caos que está a desenrolar-se em Goiânia.

Pois tu mostras a velocidade com que este descaso à população tornou-se vergonha e perigo para os habitantes.
Desejo sinceramente, que o Prefeito de tua Cidade veja tudo com os olhos de um cidadão comum, (que todos somos), e como tal una o poder que lhe foi atribuído para reverter este quadro deplorável.

E que Goiânia volte a ser exemplo para o País, de segurança e qualidade de vida.

Abençoado FDS !! Um grande Abraço p/ ti Amigo Nanael !!

C/ Carinho e Aromas de Rosas...

Lilly Rose

Nanael Soubaim disse...

Goiânia só volta a ser exemplo quando a população for renovada, a actual não está nem aí até que lhe doa, mas assim que para de doer, esquece.

Feliz domingo.

New disse...

Como lhe disse e vc reafirma acima, só o povo pode mudar, principalmente se souber votar.
Beijos doces.