17/02/2012

Soube de uns despreparados...



Texto baseado em factos reais, ocorridos nesta semana. Por mais absurda que seja a situação, era aconteceu de verdade, embora meu mau humor crônico tenha preferido trocar as falas mais infantilescas por sons de animais mais evoluídos. Nomes foram trocados e/ou omitidos não para proteger as cavalgaduras, mas para não contrariar o IBAMA e o amigo Ricardo Baitelo, que é do Green Peace e protege todos os animais, mesmo aqueles fadados à extinção por inviabilidade pura, como os do episódio. Vamos ao caso...

Rosana vai pelo corredor à aula de português, cujo professor tem a autoridade de quem viu o idioma nascer. No meio do caminho não havia uma pedra, havia um zoológico.  A moça é interceptada por desocupados que, no ensino médio, com a pedabobagia empurroterápica pseudoinclusora já em vigor, se habituaram a trocar professores que teimavam em ser professores, apenas reclamando à secretaria...

- Ocê vai ver a aula dele??
- Uai, vô! Por que?
- Porque nóis tá boicotando!
- Esse professor é muito chato, nadaver!
- Fica cobrando coisa demais. Os outro não é assim, não enche o saco da gente!
- A gente vai trocar ele por um professor jovem, que não embaça pro nosso lado por causa de celular e conversa na hora da prova.
- Ou uma gostosinha pra gente pegar...
- Vocês não querem estudar, não?
- Pra quê? Nóis passa do mermo jeito!
- Passa no quê, anta? Na prova da OAB é que não é.
- Ôtra cansera eu tem que acabá...

Forma-se um fórum de debates que mais parece briga de jardim de infância, onde só quem realmente se debate é a gramática, agonizando a cada asneira neológica proferida. A justificativa apara o motim não excede a esphera dos caprichos, que inclui querer acordar tarde todos os dias, ir para botequins em vez da faculdade, emendar o fim de semana já na segunda-feira, et cetera. A idade mental média os torna aptos a concorrer às vagas de uma creche-berçário, não a um cargo jurídico. Já Rosana, acha que pagar a mensalidade que paga, lhe dá direito e dever de ver até as aulas de história em quadrinhos, que porventura forem oferecidas...

- Pois é, foi justamente por causa do último professor de português que vocês conseguiram demitir, no médio, que agora estão pagando mais de mil reais de mensalidade. Não têm competência pra passar numa federal!
- Ah, professô cansera tem que desinfetar mesmo!
- Inziji decorá coisa nadavê, que nóis nunca viu.
- E ainda humilha nóis, mostrando pra todo mundo que errou na prova.
- Ah, tá. Estão assim porque ele pegou uma prova e disse que “pronome não é antônimo de contranome”. E ele nem disse quem foi a anta que escreveu aqueles garranchos!
- Ah, fui eu, uai! Quo-quóóóóó... Num tenho que sabê de coisa que não uso... Já tenho nome!
- Issaí... Riinnch-ooon! Esse véio ta muito folgado ca gente! Eu sô fi de doto deputado e não tenho que obedecê ninguém nunca na vida e vô sê jovem pra sempre nunca vô tê que trabaiá Rinch-on!
- Alf! Nóis ta aqui pra curti, nóis num teim que sabê disso! Trabaiá é pra otário! Au-au grrrrrrr...
- Pra isso que serve ser assessor de deputado, uai! Au! Au!
- Quer dizer que eu vou ser a única da turma a conseguir a carteirinha da OAB? Bom, menos fila na hora dos trâmites.

A argumentação rasa, digna de bebês que ainda não aprenderam a falar, irrita a moça e a faz dar as costas, desencadeando uma manifestação de indignação por vontades não satisfeitas. Estão acostumados a sempre darem um jeito, empurrar com a barriga, recorrer ao cartão de crédito como complemento de renda, enfim, atolados até o pescoço no jeitinho em sua pior forma...

- Vai, traíra au! Au! Au! Auf! Grrrrrr!
- Nóis não vai convida ocê pra nossas balada! Quo-co-co quo-cóóóóóóóó!
- É aluno como você que desarticula nossas reivindicações! Muuuuuuuuuu!
- Nóis vai falá mau docê n'orkut riinch-óóóón!
- Quo-co-co-co quo-co-cóóóóóóó!
- Au! Au! Au! Au! Au! Au!
- Qüe qüéééé!
- Quo-coróóóóóóóóóóóóó!!!

Eles cansam de fazer barulho e vão para o pátio, ouvir canções de apologia ao crime e ao baixo ventre, exibir as chaves da caminhonete dada de presente, sem merecer, pelo “pa-pááááiiii” e planejar a próxima balada. Saem logo em seguida, quebrando todas as leis de trânsito que conseguem, embora não conheçam nenhuma.

Enquanto isso, em sala de aula, a única aluna se senta e o professor chega, mas aliviado do que triste com a sala vazia. Mas não alimenta esperanças sem um bom lastro e pergunta...

- Só você?
- É, só eu. Fazer o quê?
- Perfeito! A parcela da turma que vale à pena está toda em sala, poderei ministrar com tranqüilidade e, quem sabe, até abordar conteúdos mais avançados. Posso apresentar-lhe minha amiga Prosopopéia?

Ela consente, fica encantada com a fina dama da construção cultural e lingüística.

2 comentários:

Carlão Sam disse...

Caro amigo... tive o prazer de descobrir seu blog hoje e vi renascer a minha expectativa de encontrar ainda em meio a tanta porcaria,um pouco de senso crítico,ironia e inteligencia.
Parabéns pela qualidade de suas postagens.Estarei visitando-o e quando possível reproduzindo algumas de suas suas postagens em meu blog, carlossam.blogspot.com, e com muito prazer referindo-me ao seu link.Muito sucesso ...

Nanael Soubaim disse...

Agradeço, seja bem-vindo.