03/10/2009

Proibido fazer xixi no poste

Não sei como é nas cidades de vocês, mas em Goiânia bastam algumas gotas para que o sistema público de energia tenha um revertério. Nem precisa haver trovoada, não precisa cair granizo, nem uma tempestade diluviana, basta a água da chuva encontrar um transformador de mau humor e pronto, todo mundo no escuro.
Sim, chuvas causam queda de energia no mundo todo, não é novidade. Mas aqui o caso é grave. Na onda das privatizações, durante os orgasmos neoliberais do Privatizando Henrique Guloso, nosso governador à época quis imitar. Privatizou a melhor parte da Celg, que já não era um primor em seus serviços e pimba! A baixa qualidade dos serviços despencou vertiginosamente.

O maior problema é que o consumo de energia em Goiás cresceu muito, ao que se comparados, os investimentos em infra-estrutura energética mais parecem saques do que depósitos. Já temos indústrias automobilísticas, uma delas de primeira grandeza. Fabricar carros demanda uma rede de outras empresas tal qual o cérebro precisa de um corpo saudável. E os investimentos não acompanharam cousíssima nenhuma.

Nossa rede é arcaica, subdimensionada e não conta com proteção eficiente contra descargas eléctricas. Pagar prejuízos já faz parte da folha de despesas permanentes da Celg. Aliás, quase tivemos um de monta além do material. Medicamentos termolábeis, que precisam ficar em uma faixa muito estreita de temperatura, guardados do frigobar. Caríssimos e, ainda que pudéssemos pagar por eles, o laboratório só vende para pessoas jurídicas. E este medicamento mentém uma pessoa viva. Vocês não imaginam a burocracia que é para se ter uma distribuidora de medicamentos, além de ser extremamente caro de se manter.

Certa feita, quando no curso de mecânica, um professor disse que se todos os tornos do laboratório tivessem uma repenteina reversão ao mesmo tempo, a cidade ficaria às escuras. Bem, não é só por causa da potência dos motores, nem só porque a força contra electro motriz consome o quintuplo da energia da força electro motriz; nossa rede foi pensada para a Goiânia que Pedro Ludovico Teixeira fundou e que hoje não teria mais que sessenta mil habitantes. Somos um milhão e duzentos mil.

Tudo o que se investiu desde então, foi pífio. Tão pífio, que a venda de geradores a combustão teve um crescimento expressivo. Há um ano, no supermercado que freqüento com trema, vi um ou dois geradores estacionários pequenos e caros, suficientes apenas para uma chuveirada ou para a iluminação de uma casa. Hoje, por aquele preço, ele oferece (de uma gama já vasta) um baita gerador que nem nos faria sentir a queda de energia. Ou seja, o negócio prosperou, há muitas lojas que passaram a vender geradores. As que já vendiam estão expandindo.

Do jeito que vão as cousas, em breve a população vai dar um pé nos fundilhos da distribuidora de energia eléctrica e gerar sua própria energia, a um custo ambiental bastante alto. Os geradores quase sempre são equipados com motores antigos, de baixa eficiência e que não estão sujeitos às normas de emissões, que no Brasil já estão jurássicas. Claro, um bom preparador pode resolver o problema, mas a população não sabe disso do mesmo modo que não sabe que se pode construir até três carros por ano, sem precisar de pessoa jurídica. A poluição vai crescer assim como o preço da gasolina, por conta da demanda.

A manutenção da rede, hoje terceirizada, é de assustar. A maioria deles se parece com Homer Simpsom, tanto na aparência quanto na sutileza dos métodos. Vocês podem imaginar o que é isto em sistemas eléctricos? Todo e qualquer conserto dura pouco, pois é feito com o melhor que se pode comprar com o pior que a empresa paga. Mas verba pra publicidade eles têm. E que publicidades optimistas!

Mas o correcto seria mesmo cada casa gerar sua própria energia, mas isto infelizmente ainda é muito caro, se não quisermos queimar combustível. painéis photovoltaicos são caríssimos, praticamente dobrariam os custos de uma construção residencial. Na Europa existe uma política de incentivos, existem fábricas para a demanda, mão de obra para instalação e manutenção. Por aqui eu não penso em ver isto pelos próximos vinte anos, não tenho vocação pra Polyanna.

Outro risco é o contingente de péssimos-motoristas-que-se-acham-azes-do-volante que temos. Postes não são de aço, são de concreto do mais vagabundo, diga-se de passagem. A armação de vergalhões ajuda a atenuar as conseqüências dos acidentes, mas qualquer Fiat Uno vira um Panzer, a mais de cem por hora. E a fiação é toda aérea, tão aérea quanto a cabeça do eleitor. Não se aproveita para implementação de trólebus, prefeitura e empresas de ônibus estão se lixando, é só por ser mais barata de fazer mesmo.

Já soube de um urubu que causou uma queda de energia, por ter fechado o circuito em um poste. Virou um torrão de carvão, mas sozinho fez um estrago enorme.

O grande problema de Goiânia, no entanto, não é só o fornecimento de energia eléctrica. Ela foi toda pensada para um vigésimo da população de hoje. Tudo o que há na cidade tem um ar de precariedade e de improviso que entristece, pois o que foi feito na época de sua fundação é tão bem feito, que dura até hoje. O que foi feito até os anos 1950/60, e a especulação imobiliária (que é a menina dos olhos da prefeitura) não derrubou, atende perfeitamente às necessidades de quem precisa. Mas é só.

Eu gostaria muito de ver o Eixo Anhangüera servido por trólebus articulados. A pista é exclusiva para ônibus e os postes que a ladeiam suportam perfeitamente a fiação necessária. Mas se nem a demanda actual é atendida, imaginem centenas de motores eléctricos com cem ou mais quilowatts de potência funcionando ao mesmo tempo. Teríamos que escolher entre os trólebus andarem, ou a cidade funcionar. Como está, infelizmente não se pode fazer.

Um dia eu falo a respeito de geradores em um texto dedicado, mas é facto que Goiânia está para se tornar o maior mercado proporcional do país.

Enquanto a população ri banguelamente com o asfalto novo (só asfalto, sem alicerce, sem meio-fio, nada) a situação se torna mais precária, pois o Estado já deixou claro que não tem como fazer os investimentos maciços de que o setor necessita, e a iniciativa privada ainda hoje não mostrou a que veio.. Aliás, mostrou, veio chupar o bagaço até secar, porque a cobrança das tarifas tem rapidez de primeiro mundo. Claro que não é culpa só delas, nem só do governo, nem só da alta potência dos trólebus. Boa barte da culpa é do eleitor. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. É nossa.

2 comentários:

New disse...

Esse problema é quase regra geral. Aqui em Ribeirão não é muito diferente. Não lhe consolorá, eu sei...mas...
Beijos

Nanael Soubaim disse...

É, eu sei. O problema é justamente isto não ser localizado.