22/07/2011

O príncipe e o dotô

Riam enquanto podem. A coroa dá muita dor de cabeça.

Não sou monarquista, deixo logo esclarecido, mas também não sou republicano. Sou pró-Brasil, o que for melhor para este continente monoidiomático eu apóio.

Mas com a banalização dos escândalos políticos, e o completo desavergonhamento de partidos que fazem ameaças à presidência, por seus indicados estarem sendo demitidos antes que destruam de vez a máquina pública, não posso me furtar o direito e dever de fazer esta comparação. Nem era o texto que tinha em mente para hoje. Então os meus detratores façam o favor de segurar sua sanha, que não é ataque contra vocês nem contra suas ideologias; aliás, podem ficar com elas para vocês.

William Arthur Philip Louis, ou Guilherme de Gales. Este rapaz veio ao mundo em 1982, isto não prova apenas que estou ficando velho, prova também que ele faz parte da geração que teve tudo e só fez asneiras, que cantou protestos e se rendeu àquilo contra o que protestava, enfim, ele é um garoto que teve tudo para ser pior e se tornou uma boa excessão.

Duque de Cambridge, ele será o rei do Reino Unido. Pela mentalidade reinante neste país aqui, ele tem tudo para se acomodar, ficar de papo para o ar, com a boca aberta, escancarada, esperando a coroa chegar. Ele estudou nos melhores colégios, teve a saúde cuidada com esmero e tudo mais; resumindo, poderia ser mais um playboy boboca desperdiçando seus genes e estragando a vida alheia.

Só que o Duque não é filho de dotô juíz, dotô ministro, dotô ardevogado, nem de socialite falida metida a besta. É filho de Diana Spencer, neto de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II. Embora se estranhassem, ambas concordavam que os garotos precisavam ter uma educação rigorosa, porque naquela época já se viam os estragos decorrentes da permissividade familiar. O garoto não teve sopa.

Desde cedo teve todas as suas necessidades satisfeitas, mas só as necessidades. Ele costumava lavar os carros dos criados quando queria algum dinheiro extra. Mas como?!!!!! Meu fi-lhi-nho nascido em São Paulo, filho de gente de bem, com óptima genética e cheio de amigos influentes, lavar carro?!!! Mas nem os próprios dentes ele escova sem ajuda de empregados!!! É, eu sei, minha senhora, mas o Cadete Gales é um príncipe de verdade, e príncipes de verdade não têm moleza.

É tradição na família real britânica ter um tutor para orientar os pimpolhos reais, até que tenham juízo e maturidade para enfrentarem o mundo sozinhos. Quando já estava um rapazote, o tutor "sugeriu" que arranjasse um emprego, "sorte" compartilhada pelo irmão. Não se tem notícias de eles terem dirigido bêbados, em alta velocidade e matado alguém por isso.

No percurso, ele foi exposto a todos os sortilégios que acometem qualquer plebeu. Aliás, ele foi mais cobrado do que todos os garotos ingleses juntos, porque esses garotos ingleses também cobravam-lhe comportamento condizente com um príncipe. Suas faltas sempre foram mais enfatizadas do que a dos futuros súditos. Todos os países do Reino Unido estavam de olho nele, o pai e a avó não tardavam em saber de seus deslizes, e cobrar-lhe por eles.

Não bastasse ter que ganhar seu próprio sustento e estudar com afinco, o Duque ainda precisava arcar com os compromissos de um membro da família real. Quem é militar sabe do que estou falando, ele é oficial da marinha britânica, com honras e condecorações por bravura.

Mas, heim?! Meu filhão garanhão, deixar as periguetes a ver navios pra receber ordem de milico, como se fosse um qualquer? Nunca! É pra isso que tenho influência em Brasília! Meu filho será deputado e fará carreira na política, multiplicando sua fortuna como fazemos desde o meu bisavô!

Pois o oficial de vôo da força aérea, sub-tenente da marinha, Real Cavaleiro da Companhia mais Nobre da Ordem da Jarreteira, e mais uma pancada de títulos que ele teve que fazer por merecer, é militar de carreira. Dentro do quartel é um oficial como outro qualquer... Durante as instruções, porque é pedir muito que o orgulho britânico não aflore nas horas de lazer.
Aliás, aos dezoito anos ele viajou pelo mundo fazendo trabalho humanitário, colocando a mão na massa, inclusive ajudando a levantar paredes. Isto ele herdou da mãe, que cuidou para que todo o rigor necessário à educação de um rei não o tornasse um homem frio e indiferente. Ser órfão aos quinze anos, idade difícil para qualquer um, o fez sentir a dor da perda que uma grande parcela de nossos "ricos" ignora. O Duque se importa com as pessoas.

Agora vem o mais recente distanciador. Antes de viajar em lua-de-mel com a Duquesa, ele participou de um resgate aéreo em uma montanha. Muita gente não faz idéia do quanto isto é arriscado para a equipe de resgate, mas ele faz e foi ajudar.

O que quero com isso? Anexar o Brasil ao Reino Unido? Restaurar a monarquia? Não. Só quero mostrar o disparate que é a educação que nós damos aos nossos filhos, especialmente se comparada à educação recebida por alguém que tem futuro (e uma espada sobre a cabeça) garantido como Rei da Inglaterra.

O sujeito compra uma Hilux e já se acha melhor do que todo mundo, no direito de furar sinal, parar em cima da calçada e bloquear garagem alheia. Cultivamos uma mentalidade que transforma gente de talento em profissionais arrogantes e insensíveis para com a dor alheia. Os trastes que elegemos não poderiam ser muito diferentes, pois são praticamente um reflexo daquilo em que acreditamos. O brasileiro em geral acredita que se é em benefício próprio a corrupção se justifica, seus eleitos também.

E nossa (cof! cof!) elite? Arcaica e anacrônica como só no Brasil para conseguir subsistir. Não quer se misturar a gente comum, acha que é boa demais para pagar impostos e que um salário mínimo bruto é dinheiro demais para uma empregada. Mas seus filhos? Ah, seus filhos! Orgulho da sociedade local! Perpetuadores das tradições familiares da gente de bem! Todos eles acima do bem e do mal. Serão amos e senhores da ralé assim que aprenderem a falar.
Deixar uma lua-de-mel para ajudar alguém em dificuldades? Que morra! Ter tudo na mão, quando, como e o quanto quis, tornou esses "herdeiros" altamente indiferentes às aflições alheias. Só lhes interessam seus próprios umbigos e ai de quem não gostar. O futuro está garantido e eles não moverão um dedo sequer para merecer o que querem, tomarão à força se for necessário.

Dar satisfações aos jornais? E eu pago colunas sociais pra quê? É para me fazer parecer uma rainha, me colocar acima da gentalha, e para mandar demitir qualquer um que me contrarie, seja em uma nota de rodapé. Jornal serve para manter nossa fina flor da sociedade no comando deste país.

Vamos sem francos, nossa "elite" é água em pó. É cara, fútil e não justifica o nome. Não justifica nem estar onde está. Elite, lá fora, arregaça as mangas para negociar e arranjar recursos, aqui simplesmente aproveita-se uma amizade para obter empréstimos sem a menor intenção de pagá-los, enquanto outro mais forte não reclamar e exigir providências. Nenhuma mãe em sã consciência usa um filhinho de papai como modelo para educar seus rebentos.

Quando voltar da lua de mel, o casal William e Kate voltará à rotina, cuidará do próprio sustento e arcará paralelamente com as obrigações da família real, além de ter toda a Europa no seu encalço, cobrando-lhe a postura que deve ter. E olha que eles serão os soberanos de quatro nações e ainda monarcas do Canadá. Toda a população desses países os reconhecerá como Suas Majestades o Rei e a Rainha, mesmo hoje, se eles disserem "prendam aquele homem", ninguém perguntará os motivos antes de o infeliz estar devidamente dominado. Eles têm consciência do poder que já detêm e do que deterão, porque é quase certo que Charles abdique em favor do primogênito. Eles têm poder de verdade, prestígio de verdade, apoio popular de verdade. Mesmo assim se esmeram em dar o bom exemplo? Não. Exactamente por isso se esmeram em dar o bom exemplo. As mães inglesas não têm nenhum receio em ver neles a educação de seus filhos.

Já a nossa (cof! cof!) elite...

3 comentários:

Lilly Rose disse...

Boa noite amigo querido,
Dissestes tudo !! E com conhecimento, como sempre !

Nossa elite, é uma "tropa" (ou outro verbete menos aprazível...) de "elite", em busca de benficios próprios.
Mas a esperança é a última que morre...

Abençoado FDS p/ ti amigo querido !!

Aromas de Rosas...

Lilly Rose

Nikollas disse...

Ri muito, para nao chorar.
Excelente artigo.

Nanael Soubaim disse...

Eu queria era falar de impressoras 3D!