10/12/2010

Ovo quebrado no chão

Ponto de vista é o seguinte:
Reco-reco, Bolão e Azeitona foram ao parque. Ouviu-se um grito feminino e todos olharam para a mesma direção. Os três viram o desenrolar da trama. Um senhor nos seus sessenta e cinco anos levava tapinhas carinhosos de uma moça que ajeitava a saia, antes levantada.
Reco-reco viu o homem se abaixar, sorridente, e levantar a saia da moça com o cabo do guarda-chuva, ela deu um grito de indignação de início e logo em seguida se acalmou.
Bolão estava do outro lado do banco e viu a saia ser realmente levantada bem alto, de modo que quem estivesse por trás, visse a roupa de baixo da moça. Viu o sorriso do homem, que logo se transformou em um ligeiro constrangimento.
Azeitona, no meio, viu o homem se abaixar, sorridente, mas também o viu neneando a cabeça, pegando o guarda-chuva no chão e o levantando rapidamente, a ponto de causar o susto na moça, que se indignou no começo e depois perdoou o senhor.
Opinião é o seguinte:
Reco-reco viu várias maneiras de o guarda-chuva ser levantado sem ter que levantar a saia da moça, não que não tenha gostado da visão. Também não imagina o motivo plausível de o objecto ter caído justo em uma posição tão conveniente, do que deduz que ele estava próximo demais à moça.
Bolão viu a moça perceber a presença do homem sem se incomodar, por um período razoável para decidir se queria ou não sua proximidade, ela o viu se abaixar sem demonstrar estranheza, para depois soltar o grito. Não vê motivos para que ela não se afastasse quando o viu se abaixando e muito menos para perdoá-lo pelo constrangimento.
Azeitona viu o homem procurar rapidamente seu guarda-chuva e o localizar, sem manter uma distância civilizada da moça. O viu se abaixar rapidamente, neneando a cabeça, e se levantando rapidamente, levando junto a barra da saia. Só que ele também viu o homem olhando para a mesma direção que a moça olhava, não para debaixo da saia, bem como seu constrangimento pelo ocorrido. Não imagina os motivos de ambos não terem se prevenido e mantido uma distância civilizada.
Palpite é o seguinte:
Reco-reco acredita, inicialmente, que o homem está acostumado a fazer dessas artes, pois foi ágil e bastante preciso no que fez, e que a moça deve conhecê-lo com alguma intimidade, pois relevou e ainda lhe deu o carinho após o ocorrido.
Bolão acredita, inicialmente, que a moça está acostumada a ser exposta, embora tenha claramente sido pêga de surpresa. O que não justifica assanhamentos alheios, ainda mais em público, com o parque lotado. Acredita que os dois sejam muito íntimos para ela ter relevado e que ele é acostumado a constranger moças em público.
Azeitona acredita, inicialmente, que o homem o fez sem querer, pois o viu com feição de constrangimento não menos do que o da moça. Não vê, porém, motivos para ele não ter se prevenido e mantido distância, enxergou vários modos de ele pegar o guarda-chuva sem constranger a moça. Estranha que ela o tenha perdoado, em todo caso ambos demonstraram intimidade.
Despachados, desde o tempo em que tinham estorinhas em quadrinhos, os garotos vão ao par, perguntar se precisa de ajuda. A conversa civilizada esclarece tudo. Apesar de fisicamente diferentes, são pai e filha. o homem passou a juventude toda na lida rude da roça e depois da construção civil, mas sempre com os pais lhe cobrando comportamento decente e respeito às mulheres. Ele tem, em decorrência da exposição ao pó do cimento, alguma deficiência visual, facilmente corrigida pelos óculos que esqueceu em casa.
Tudo explicado. O homem tentou localizar o guara-chuva, o encontrou e precisou focalizar para vê-lo direito, o que certamente o privou de enxergar a filha ao lado. Como a única mazela que leva é um pequeno problema de visão, já devidamente estabilizado, e teve uma vida rude no tocante ao sustento da família, não teve a menor dificuldade em se abaixar e se levantar, com uma desenvoltura de fazer inveja a muitos jovens. Pela criação que teve, se sentiu culpado pelo constrangimento que causou, facto notado por ainda estar rubro e meio cabisbaixo. Ainda ficam sabendo que, mesmo a vida rude e o não ter um diploma, não privaram o homem de absorver uma boa dose de cultura e conhecimento de várias causas, o que explica o andar elegante com um guarda-chuva, mesmo com o sol brilhando. A face externa é refletiva, então o usa também para se abrigar e à filha do sol.
Os garotos levam mais esta lição, a única verdade que existe, acessível ao homem, é o ovo quebrado no chão. O ovo pode ter caído ou subido, depende do ponto de vista brasileiro ou japonês, isto não muda o que aconteceu. Só o que podem afirmar é que o ovo viajou em direção ao centro da Terra e foi detido pelo piso, não resistindo ao impacto e tendo sua casca rompida. Sem a devida investigação, todo o resto é palpite, especulação que nada acrescenta senão aos doentes por retóricas vazias.
Reco-reco, Bolão e Azeitona conseguem novos amigos e ganham o lanche da tarde, por terem sido solícitos, em vez de prejulgadores.

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