03/09/2009

Estive em São Paulo

Foi o primeiro vôo com circunflexo desta vida. Por conta da conexão em Brasília, na volta, foram três decolagens e aterrissagens. Também foi a primeira vez que esta criatura, até então encarcerada, deixou as fronteiras de Goiás.
De cara digo que São Paulo não me assustou. Primeiro porque os noticiários já o tinham feito, dando a impressão de que eu iria entrar em um mundo de biorrobôs. Segundo porque eu respeitei a cidade, não demonstrei medo e não cheguei me achando o maioral, simplesmente demonstrei respeito. Me dirigi aos cidadãos de modo cortês e recebi cortesias de volta. Foram solícitos em meu amparo, precisos nas instruções e compreensivos com minha crueza.

Trata-se de uma senhora com quase meio milênio de vida, já bem resolvida e ciente de seus direitos e deveres. Ela sabe que o país inteiro paga caro se cometer um erro. Já não se encanta com aventureiros, com cantadas de cinqüenta centavos, promessas já não acendem seus olhos e não se impressiona com demonstrações de qualquer tipo, a não ser as de respeito.

Pagando cinco centavos a mais para rodar distâncias maiores, com pontos de parada mais próximos, em ônibus melhores e sobre um asfalto mais bem conservado, fui ao metrô. Após problemas com a telephonia móvel, uma nativa em sua doçura e meiguice me orientou para novos procedimentos.

Este senhora bela e opulenta me ofereceu a mão carinhosa a guiar meus passos tímidos em caminho seguro. Não tenho o que reclamar dela, nem de seus filhos naturais ou adoptivos. À parte os problemas que a mídia escancara, como se só eles existissem, presenciei cousas que em Goiânia nem penso em ver. Mesmo os locais mais movimentados estavam satisfatoriamente limpos, as filas para o ônibus não eram burladas mesmo com passantes as atravessando de vez em quando, os ônibus ainda têm cobradores para auxiliar os passageiros, como este estreante na paulisséia.

Não me foi possível vê-la em todo o seu esplendor, com todo o encanto de mulher madura e ocupada em manter seus dependentes. Não se enganem, ela é sóbria, discreta e compenetrada. O escândalo que salta aos olhos se deve ao facto de ser extremamente bela e encantadora, qualidades ampliadas por sua estatura muito avantajada. É bem verdade que ela pode ferir, com um movimento súbito, mas para isto serve o respeito que lhe dispensei, mantendo a devida distância até que ela me chamasse para a curta conversa que tivemos.

Que mulher mais fascinante! Difícil compreender as atitudes de filhos ingratos que a maltratam, e de outros que a difamam para o mundo inteiro. Aquele repórter do New York Times, se tivesse ido para São Paulo em vez do Rio de Janeiro, com certeza teria tido uma posição bem mais respeitosa para conosco. Pois apesar de ágil e apressada, é serena e comedida, estuda bem quem se lhe apresenta e sabe impor suas regras.

Um conselho que dou para quem quer conhecer esta dama, é ter amizade com seus filhos. É pelo rebento que se conquista a mãe. Há anos trato alguns deles com o máximo de polidez e amizade que posso dedicar, pois fui recebido por abraços calorosos, inclusive por uma filha que só veio passar uma temporada e voltar para Rochester, Estado de Nova Iorque, mas foi dela que recebi um abraço que estava tão carregado de amor como poucas vezes experimentei, nunca de alguém que ainda não tinha colocado os olhos na minha cara de bolacha. Como a senhora que me aceitou carinhosamente, ela também é mãe e sabe receber. Sabe fazer um caipira tímido e recém-saído de uma vida de ostracismos se sentir vivo sem precisar dizer uma só palavra, como toda Audrey que preze o próprio nome.

Esta visita marcou uma guinada e activou genes que estavam adormecidos, alguns até atrofiados, como o da liberdade. Precisarei de muitos exercícios para que estejam prontos ao exercício pleno de suas funções, mas a dama secular em seu beijo rápido e maternal já fez sua parte.

Quando eu ainda não sei, mas voltarei a visitar a matriarca do país. Já sinto saudades de seus abraços, de sua beleza refinada, de seus filhos e de tudo o que ela oferece a quem se apresenta com intenções honestas. Da próxima vez irei com tempo, com recursos e certamente acompanhado. Não sou egoísta de usufruir sozinho do carinho e dos conselhos de quem me protegeu das sombras que ainda pairam na gigalopole.

Goiânia é uma criança que deveria se espelhar nas virtudes de quem é capaz de sustentar, sozinha, cultura e contracultura próprias. O que a torna uma cidade-estado

Posso dizer com toda a convicção do mundo, que a visita à Senhora São Paulo marcou minha morte, para permitir o meu renascimento. I love you, Sampa.

4 comentários:

Fio disse...

E pode ter certeza, irmãozinho, que vc tb é mais um filho dela, agora.

Abraços ;)

Umbelina disse...

Vejo que surgiu uma linda relação de amor. E o amor é sempre lindo em qualquer circinstância e tempo.
Bom feriado.

Nanael Soubaim disse...

Sohan, vlodai. Aprendi há muito que nem todos que mostram os destes estão sorrindo. O sorriso dela é muito discreto para os desavisados perceberem.

mihuda disse...

Bom saber que se sentiu bem em minha terra. Espero que a experiencia se repita muitas e muitas vezes!
Sua presenca marcou a festa e seus numeros de danca foram sensacao. :)
Muito bom dar rosto e abraco em uma personalidade que ate "ontem" existia no mundo paralelo.