07/02/2009

Preço faz parte

Eu entro em uma loja, procurando um liquidificador, já com cor, marca e modelo escolhidos. Saracoteio por mais ou menos meia hora dentro do estabelecimento e ninguém olha para a minha cara. Não sou tão feio assim, não estava mal vestido e cheirava razoavelmente bem. Vou buscar uma vendedora, que faz uma cara de "já faço o favor de te atender". Ela não sabe se no estoque tem um preto, nem sabe se há a marca que fui procurar, mesmo havendo caixas do modelo (só que branco) debaixo do seu narigão.
Noutra loja saracoteio por algum tempo, mas parece que serei atendido. Ledo engano. Sou mais empurrado do que contribuinte em repartição pública cheia de apadrinhados. O que pensar de vendedores de electrodomésticos que nunca ouviram falar da Walita?
A peregrinação dura o dia inteiro, até que entro em uma loja e espero bem pouco. O vendedor conhece a marca, informa que o modelo e a cor estão disponíveis no estoque e diz que o preto é mais caro. Eu conheço produção industrial, sei que a cor preta reduz custos, mas é uma questão de demanda e foi a cor que me pediram, então concordo em levar aquele liquidificador, por um preço 25% maior do que o que aquela rede que diz "Preço é tudo" cobra.
Mais irritante do que vendedor que te olha como se tu fosse de uma casta inferior, é consumidor que se comporta como se fosse de uma casta inferior, mendigando a atenção de bobocas que são simplesmente contractados e jogados no salão de vendas, sem sequer conhecer o que estão vendendo. Não conhecer uma das marcas mais antigas e tradicionais do país é um atestado de incompetência.
Faz algum tempo que parei de comprar as marcas mais populares de bombons, simplesmente porque elas não fazem mais bombons, fazem doces delgadamente cobertos com chocolate, e olhe lá. Tu morde e o cheiro de caramelo aromatizado te enche as narinas, nem sentes o sabor do chocolate que, convenhamos, tem mais amido de milho do que cacau. Nossas marcas de chocolate estão decaindo rapidamente, no afã de oferecer caixas quase de graça estão esquecendo de qual é o ramo em que trabalham. Já há garotinhas vendendo bombons caseiros pelas ruas com muito melhor qualidade, inclusive sanitária. O povo estranha quando eu dou R$ 1,25 por um único bombom de boa qualidade, mas é um acepipe que eu comerei com calma, sentindo de facto o sabor de chocolate com recheio seja lá do que for, e geralmente aquele chocolate de primeira linha é suficiente, não tenho que esgotar uma caixa para me dar por satisfeito. No fim das contas, acabo gastando menos. Para mim já é nítida a diferença entre um chocolate bom e a gordura hidrogenada achocolatada.
Agora imaginem a cena estapafúrdia a seguir: O vendedor manda o carro deitar, o carro deita; manda dar a rodinha, ele dá a rodinha; manda balançar o porta-malas, ele balança; manda fingir de sucateado, ele finge. Cabaré de cego? Não, é uma figuração dos vendedores de carros que acham que o motor bicombustível tem que ser adestrado. Pessoas, o motor é uma máquina, ele não aprende cousa alguma, já sai da fábrica programado para queimar mais de um combustível. O recomendado é colocar um pouco de outro combustível, de vez em quando, para que um limpe as sujeiras do outro, fora isto não existe essa conversa de "adestrar o motor flex". Para economizar estão colocando vendedores tarimbados, mas para vender artigos que não conhecem. Asseguro que raros concessionários sabem que Ford usava, até o advento da Autolatina, na verdade, um motor Renaut envenenado. Para baratear custos, estão negando o treinamento mínimo aos funcionários, como conhecer a história completa e as características básicas da marca. Sabiam que o Daewo Espero usa a mesma mecânica e plataforma do Vectra antigo? Pois é, os vendedores também não.
Em resumo, temos que pagar bem mais caro que quisermos ser atendidos como nossos pais eram. Só entrar em lojas caras, com mercadorias exclusivas e personalizáveis, daquelas que só fazem propaganda dirigida, porque sabem que preço não é tudo. Faz diferença, mas nem sempre faz falta.
Se queremos móveis de madeira, teremos que concordar em pagar R$ 1000,00 por uma cama, só como exemplo. Mas o vendedor saberá dizer de que madeira é feita, como conservá-la, quem pode consertar, como transportar, quanta carga suporta, o conchão mais adequado, enfim, detalhes importantes que os de outrora invariavelmente sabiam. Mas para as quais hoje se precisa pagar bem mais caro. E eu pago.
Se não puder comprar algo de boa qualidade em uma loja que me receba como cliente, então eu fico sem. Lamento, mas respeito também conta.
Nas propagandas, as lojas ditas populares mandam tanta conversa em tão pouco tempo, e em um tom de voz tão autoritário, que me dá a impressão de que se eu não amanhecer à porta, com um folheto em mãos, vão me pegar de pau na rua.
Claro, não posso me esquecer das livrarias. Há alguns anos procurei "Grace" de Robert Lacey, queriam me empurrar "Grease, nos tempos da brilhantina". O vendedor de livros não conhece livros. Fui a uma livraria cara, a vendedora identificou de pronto a obra, mas estava em falta. Pelo menos fui bem atendido e bem compreendido. As mais caras têm uma grande variedade de títulos, a maioria enche as prateleiras com best selers que logo entupirão os sebos por um real cada. Meus livros fazem parte de um acervo, não os comprei por causa de propagandas.
Ainda lembro que os funcionários de uma rede de lojas hoje decadente, em seu auge nos anos 1980/90, se esforçavam para atender bem, tentavam convencer o freguês a levar o artigo, eram simpáticos, e a loja era barateira. Hoje ganha mais vendendo empréstimos com um atendimento sofrível do que com mercadorias.
Eu sou exigente, muito exigente. Conheço técnicas industriais, também as comerciais, de marketing, sei como um liquidificador é construído, mais ainda como um carro é construído, já trabalhei com a imprensa, et cétera. É isso que me capacita a repetir que preço faz parte, mas nem de longe é tudo. Se o fosse, o Gordini teria tirado o Fusca de linha, aconteceu justamente o oposto. Mas infelizmente o grosso da população não se preocupa em se informar, muitos acham mesmo que pobre não tem direito a ser bem tratado e se submetem. Se endividam comprando um monte de porcarias que se acabarão antes do fim das prestações, ou sairão de moda na metade do prazo e se verão obrigados a se endividar mais.
Hoje não existe desculpa para ser mal informado, entretanto, para ser bem informado é preciso saber filtrar as informações. Assim as pessoas saberiam o que há por detrás daquelas mega liquidações espalhafatosas, do enlouquecimento do gerente que não perde vendas, da peça igualzinha pela metade do preço. Mas dá trabalho se informar, é preciso ir atrás de algo nem sempre prazeroso.
Estão colocando o prazer como meta e não como conseqüência da satisfação pela conquista, acreditar que se está levando vantagem pelo aparentemente barato, é um prazer imediato. Mas também volátil. O prazer de ter uma impressora que escaneia e tembém copia, que custou quase o dobro da mais barata, mas não dá problemas é perene. Pesei isto na hora de comprar meu equipamento de informática. Até o cartucho é mais em conta. Meu programa é original, se der pau eu tenho a quem recorrer sem pagar nada a mais. Meu monitor é de cristal líquido, o preço a mais eu abato com a economia na conta de luz. Isto sim é ter prazer, porque de dor de cabeça o cotidiano já me supre o suficiente.
Se eu não pudesse pagar por esses artigos de boa qualidade, simplesmente não teria comprado, não por orgulho, mas por uma questão de princípios. Faltaria com o respeito para comigo se comprasse algo só porque é mais barato, bem como fomentaria a produção de descartáveis e o desprezo pela presença humana, que retunda no desemprego de vendedores de carne e osso. Não que o que eu paguei vá reverter o drama do desemprego no país, mas consta nas estatísticas e ajuda a engrossar o time dos que não se deixam enganar pelas propagandas mal feitas, com isso os que fazem bem feito e atendem direito vêem que têm para quem vender. Que sua mão de obra tem o que fazer e ainda é necessária. Isto também faz parte.

3 comentários:

Mercedes Cumaru disse...

Desde o começo do seu texto, reconheci muitas cenas que você relatou. Durante a leitura, eu estava juntando as minhas idéias para depois comentar que concordo com muito do que você disse. Depois li "Hoje não existe desculpa para ser mal informado, entretanto, para ser bem informado é preciso saber filtrar as informações", e você resume com absoluta precisão o que a gente vê todo dia por ai. Eu escrevi um artigo comentando o tema do consumo absurdo que praticamos hoje em dia. Se tiver interesse em ler, esse é o link: http://webjornal.wordpress.com/2009/01/20/janeiro_natal/
Abraços

Nanael Soubaim disse...

Mercedes, é uma honra ter o teu comentário por cá. Acredite, se fosse falar tudo, seria uma trilogia.

New disse...

Oiêee!
Pior que isso, só mesmo ter que ficar "paquerando" o graçom sem ser notado... aff!
Beijocas