16/05/2008

Cousas do Brasil: Pumpkin City


Este meme não é irmão da Mymi, mas também vale à pena. Falarei de minha cidade natal, onde (de uma colônia espiritual muito confortável) me jogaram sem dó nem piedade: Rio Verde. A convite da amiga Andréa Motta.

Logo nas proximidades da cidade, a região já mostra sua veia cômica. A uns oitenta quilômetros da entrada, fica a cidade de Santo Antônio da Barra, mais conhecida como Pito Aceso (!), nome pelo qual todos os moradores da região a chamam. Alguns quilômetros à frente temos o povoado de Santa Cruz das Lajes, mais conhecido pelo nome popular: Levanta Saia (!). Por que? Dizem que ele surgiu ao redor de uma casa de tolerância... E o Pito Acesinho logo atrás.

Passei alguns anos sem visitar Rio Verde e, quando fui, vi uma extensão muito grande avançando para o norte. Minha Pumpkin City tinha crescido. E continua crescendo. No fim da década de 1980 os sulistas começaram a invadir a cidade. Ficou esquisito para os meus conterrâneos verem aqueles gaúchos quilométricos andando pelas ruas, abaixando as cabeças para não se enroscarem nos fios da rede eléctrica. Mas cordial (no melhor sentido) como é, o rioverdense não deixou de acolher bem aquela gente, que precedeu a onda de paulistas, cariocassssh, catarinenses e outros bichos esquisitos.

Uma advertência para quem, ao final deste texto, quiser visitar a cidade: Se não sabes brincar, não vá. Rioverdense é gozador por natureza. Se não apelar, o apelido pega; se apelar, vira nome. Adão Pinguinha, Paulo Doido, Paulo Funfun, Torradeira e Beiçuda são os mais carinhosos. Avisados? Então continuemos.

O cognome Pumpkin City, versão modernosa para Riverde das Abobra, foi dado na época em que o município era grande productor de abóboras das mais diversas espécies. Hoje só não planta pequi, porque só agora as mudas comercialmente viáveis para a agricultura estão sendo finalizadas nos laboratórios da Embrapa, mas é questão de tempo. Gado então, ainda mais com a gauchada instalada e bem à vontade, é o que não falta. A cidade está mais cheia de chifrudos do que na minha época de menino... Ehê! Não vá pensar besteira, sô! Estou falando dos bovinos da pecuária, os domésticos são outra história, não me meto em cornos alheios.

Após o choque de um desenvolvimento subito e acentuado, acompanhado da completa reformulação do perfil do cidadão local, o povo está se acostumando com a nova cidade, pois há bem pouco tempo Rio Verde ainda era provinciana, calçamento era para poucas ruas e os atoleiros proliferavam a cada chuvisco. Além do crescimento demográphico e da modernização meio forçada, os abobrenses ganharam uma cidade com um charme meio europeu. Casas dos anos 1920 até 1980 dividem espaço com edifícios arrojados. As áreas verdes dão, de uma vista aérea, a impressão de que o asfalto ainda não chegou. Jardins em frente às casas são quase uma instituição que delicia os olhos, o rioverdense colabora preferindo a grade ao muro. E mesmo com tanta árvore e tanto asfalto a poeira corre solta. É poeira vermelha, daquela que tinge a roupa e fica, se não houver uma lavagem rápida e bem feita. Trabalhar com roupa branca é uma missão ingrata, estará rubra antes do fim do dia, pois a cidade cresceu ao redor de fazendas, e o clima propício permite que se trabalhe o ano todo. Colheu cana, planta abóbora, depois milho, descansa (exceto a poeira), vai um feijãozinho básico, um pouco de soja, girassol e a prole do quimbim. Fora isso, é divertido. A humidade relativa do ar é boa e bem regular, os muitos aclives e declives proporcionam um bom condicionamento físico, mesmo andando pouco. O Calçadão da Nascimento é cheio de lojinhas charmosas e foi feito privilegiando o pedestre, deixando uma só pista para os carros. Sempre há uma festa agendada, sempre há um Fusquinha envenenado e customizado para ser sorteado em algum mês do ano, sempre há um rioverdense por nascer nove meses após cada festinha dessas. Fazer o quê? O povo não previne.

Minha família era conhecida como Queixada. Era gente brava, temida, até perigosa. Conta a minha avó que, certa feita, uma sirigaita começou a dar em cima dos homens da família. As mulheres se reuniram e deram um ultimato à dita cuja, que fez troça da ameaça. Quem tiver, ponha a trilha de "O Poderoso Chefão" que a cousa ficou feita. Despiram-na, seguraram-na e encheram-lhe a pequiquita de pimenta até o fundo. A infeliz correu desesperada e pelada pela cidade, aos gritos, desaparecendo depois de ter que retirar tudo em uma cirurgia, do útero até o clítoris. Já os Queixadas de pitos acesos, eu estranhava, quando criança, ver homens não tão velhos com tantos dentes faltando. Depois que meu avô também levou um pontapé e caiu na cidade, a história começou a mudar. Homem sábio, embora meio irresponsável, calmo e cheio de autoridade, conseguiu domar a índole genocida da família. Daquela época só ficou a fama de gozação, que deu origem a Cabeção, Farofa, Jacaré e outros apelidozinhos tão fofinhos. Mas é bom não folgar.

Conta também que, na época da Segunda Grande Guerra, houve uma epidemia de uma doença que matou quase todos os habitantes. Dos que não foram embora, só restou o meu avô Joaquim, o sêo Quimbinha, que enterrou o último. O moço ficou sozinho na cidade até o perigo passar e os outros voltarem. Pois esse mesmo moço, décadas mais tarde, aprontou uma com a família. Me pegou (pouco mais que um pacotinho ambulante) e me levou para passear, no decorrer dos doces, picolés e pipocas, ele percebeu que ficara meio tarde e, na volta, viu o desespero instalado. É, fiotes, o celular é uma praga, mas tem sua utilidade.

A rua onde minha avó ainda mora (Rua Goiânia, n° 171) já foi passagem de boiada. Hoje o desfile é de Caminhões modernos, carros Mercedes-Benz, BMW, Fusion, Ômega, picapes do tamanho de um trem; que convivem com Fuscas, Corcéis, Brasílias, Rurais, Jeeps e outros do gênero. Não há discriminação, até porque as estradinhas secundárias ainda têm muitos trechos precários e dá dó colocar um Vectra novinho para arrebentar a suspensão, melhor usar um que agüenta o tranco. Aliás, há um Corcel amarelo (1975, creio) que há até pouco tempo ainda era usado como táxi, agora é carro de passeio, o folgado.
Fora aquele "Cristo Redentor" meio cafona (não sou afeito a modismos e imitações descriteriosas) posto em frente à rodoviária, toda a cidade ficou mais bela. Supermercados modernos, mas não muito grandes, garantem uma diversidade de confeitos difícil de encontrar em Goiânia, pois o paladar do rioverdense ficou mais refinado que o do goianiense. A maior proximidade com São Paulo também ajuda, claro, são duzentos e quarenta quilômetros a menos de buracos e assaltantes para fazer o transporte. O melhor foi o nativo ter aceito bem e aderido, o que mostra que a mentalidade também evoluiu, pelo menos um pouco. Um porém, é que ele continua dirigindo como se estivesse no carro de boi. Imagine isso em uma carroça, forte, mas muito lenta; agora imagine isso em um carro que passa dos cento e vinte por hora sem que o motorista perceba. Atravessar ruas em Rio Verde pode ser uma aventura. Mas compensa, asseguro que compensa. Dá para encher vários cartões de photographia e não esgotar os motivos, especialmente o pôr do sol que, com toda aquela poeira e poucos edifícios no horizonte, é um espetáculo. E olha que nem falei do destemor das moças pelo frio, é preciso o termômetro maltrar muito para a minissaia voltar ao armário... e pouco para um pai bravo correr atrás do abusado. Apenas contemplem, por obséquio. Quem sabe uma gentileza e consigamos a amizade da família, que nos apresenta a mais beldades, quem sabe evolui, quem sabe em um ano ou dois os filhos nascem e o vovô coruja agradece pelos netinhos. Vamos com jeito, que melhor cousa do Brasil é o povo, mas também pode ser a pior para quem não souber se portar.
Pumpkin City recebe bem, mas vá de estômago vazio, na primeira amizade vão te enfiar comida até pelos ouvidos.

8 comentários:

Luma disse...

Quando comecei a ler pensei que estava a falar de Rio Verde em Goiás, até me situar e cair no sul, tché!
As mulheres de sua família continuam bravas? Como fazem em tempos de tantas megasgaiatas? Haja pimenta! (rs*).
Seu texto refletiu o humor característico da cidade, ou esse humor é seu?
Boa blogagem!

Nanael Soubaim disse...

Pois é Rio Verde em Goiás, amiguinha. O humor é típico do rioverdense, só sou um pouco mais sutil e tenho a boca menos suja. O mulherio já está mais calmo, mas é bom não folgar. Bem-vinda.

Andréa Motta disse...

Adorei o post! Obrigada por participar!

Adriane disse...

Lindo, Nanael!
Como sempre, querido.
:-)

Ronald disse...

Nada como conhecer coisas novas e rindo pra caramba. Está de parabéns Nanael

Bom final de semana

Nanael Soubaim disse...

Grato, amiguinhos. Algo que não postei: Rio Verde tem tantas ladeiras, que se os prefeitos tivessem atentado a isso, replicariam San Francisco sem dificuldades.

New disse...

Lindo texto. Que bom que aproveitou a blogagem coletiva prá postar novamente. Conheço sua cidade e gostei muito quando lá estive. Tenho parentes em Itumbiara e por isso tive a oportunidade de conhecer um pouco mais do Estado de Goiás.
Beijos.

Crítica e denúncia disse...

Que alegria, depois de percorrer já vários sites dese blogaço coletivo, enfim, cheguei no meu Goiás. Ai, isto é bom demais da conta ! Vcoê vai rir mas ainda não tivo p razer de conhecer Rio Verde, a cidaded progresista. Minha família, meus filhos , vivem em Goiânia e eu sou mundana. Assim que voltar ao Brasil juro que visitarei Rio Verde.
Deixo aqui um beijo com gosto de Pequi.
Grande abraço.
Alda Inacio