13/04/2011

Sendo do contra

Quererr trabalharrr conosco? Ja, mein herr!
O Blog da Mary (aqui), amiga da amiga New (aqui) lembrou da florada das cerejeiras. Isto me fez lembrar de um tema que eu queria abordar. Na época já parecia ser remar contra a maré, hoje é remar contra a corredeira. Para quem estudou um pouquinho só, é fácil saber o motivo, no fim da corredeira há uma queda d'água, tanto mais alta quando mais violenta é a corrente.

Bem, eu vejo com receio essa aproximação com a China. Hoje li um artigo (aqui) que fez lembrar do blog de Fräu Schroeder (aqui) e reavivou minha memória. Fräu é professora de história e conta no História da Ásia e África, com competência e leveza, as raízes da actual e tenebrosa conjuntura política no mundo. Pois sendo leitor regular e tendo muitas outras fontes, contra e pro, vejo como um grande erro essa aproximação, no modo como é feita.

O facto de ser uma ditadura que tem aumentado a repressão e a censura, nos últimos anos, é chover no molhado. Radicais de direita e esquerda não dão a mínima para isso, um só vê a "ameaça comunista, porém lucrativa" e o outro só "o governo popular revolucionário". Os chineses estão ressentidos pelos cento e nove anos de humilhação que sofreram. Isto é real e legítimo, especialmente para quem já foi a nação mais avançada do mundo. O problema é que agora estão revidando, o próprio partido comunista se tornou refém do nacionalismo crescente da população, que está assustando até os setores mentalmente equilibrados das forças armadas. Criaram um monstro que agora vigia seus passos e está pronto para morder a qualquer vacilo.

Os empresários brasileiros, mimados e mal acostumados pela ditadura, lá estão com a presidente Roussef, choramingando pitangas em vez de tentar aprender algo com eles. Tentando (literalmente) vender café e pão-de-queijo pra comprar Ipod, Youpod, Shepod e outras tranqueiras de altíssimo valor agregado. Se eles gostarem do pão-de-queijo, babau, copiam a receita e passam a, no máximo, importar o queijo minas para fazerem eles mesmo, sem dar sequer satisfações. Depois compram fazendas em Minas gerais e desgramou de vez. Estamos tal qual estávamos na República Velha, vendendo insumos baratos e comprando productos acabados. Mas antes tínhamos a desculpa do atraso e da falta de informações.

Existe um pequeno racha no partido comunista deles, mas até que isto se concretize como bipolarização política, é melhor eu continuar trabalhando para a aposentadoria. Antes não sai nada de concreto.

Em vez de ir barganhar migalhas com uma ditadura, deveriam é aprender a trabalhar direito e valorizar as pechinchas que a crise econômica mundial oferece. As marcas americanas ainda são as mais carismáticas e confiáveis no mercado. Alguém sabe de um grupo de brasileiros que comprou um lote gordo de ações preferenciais da Coca-cola? General Motors? General Electric? Caterpillar? Boeing? Não, querem é fabricar tranqueiras com mão-de-obra semi-escrava para vender por aqui, aos mesmos que perderam seus empregos por causa dessa mesquinharia. Os carros chineses, com problemas de acabamento e segurança resolvidos, estão desembarcando com fábrica e tudo, baratinhos, tomando dos idiotas o público que queriam manter cativo. Deram e ainda estão dando poder ao seu próprio algoz.

Eu me aproximaria dos Estados Unidos. Eles ainda mandam, não se iludam, no mundo, mas sofrem uma crise de confiabilidade que nasce dentro de seu próprio território. Estão abertos para bons negócios e recuperar mercados é um argumento que acelera e facilita muito as negociações. Existe sim uma massa crítica pensante por lá, que está ofuscada e sufocada pelo catastrofismo crônico que tomou conta do país. Uma oportunidade que se mostre e eles se prontificam na hora. Alguns já estão imigrando para cá, mas poder trabalhar conosco e permanecer em seu país seria um bônus sedutor. De quebra, teríamos acesso aos melhores, mais velozes e confiáveis carros eléctricos (artigos aqui e aqui) do mundo, máquinas capazes de fazer pequenas e médias viagens sem recarga, ou de fazer qualquer superesportivo comer poeira, com custos irrisórios de manutenção.

Também me aproximaria da Alemanha, que está carregando a União Européia nas costas. É um país que aprendeu com os erros do passado e chega a pecar pelo excesso de zelo. Ela sim, tem a tecnologia mais avançada do mundo, embora os japoneses apliquem mais em seu cotidiano. Mesmo com a crise aguda que eles seguram na marra, a infraestrutura alemã é de humilhar qualquer país do mundo. Um território de bom tamanho coberto por internet realmente rápida, trens de alta velocidade, rede eléctrica super dimensionada, estradas feitas para durar séculos e um povo que ama o trabalho. Talvez este último detalhe assuste nossos "empresários", já que quem ama o trabalho valoriza o próprio e não se mexe por menos do que vale. Os painéis photovoltaicos mais eficientes do mundo são alemães, custariam o triplo do que custa uma hidrelétrica com a mesma potência, mas começam a produzir á medida em que são instalados e dispensam grandes onerações para sua manutenção. Se bem que também reduzem as verbas a serem desviadas. Deve ser isso.

Me aproximaria ainda do Japão. Os japoneses transformaram um monte de remendos retorcidos de asfalto em uma estrada nova, em apenas seis dias! Imaginem uma empreiteira japonesa restaurando nossa malha viária. Imaginem uma constructora japonesa no programa de casas populares do governo. Imaginem o Japão se responsabilizando integralmente pelo nosso trem-bala; porque ele vai sair queiramos ou não, é melhor que seja por quem sabe o que faz e não cobra mais do que vale. A facilidade com que eles, que também aprenderam com as lições do passado, conciliam modernidade com tradição, seria a salvação para nosso capenga acervo cultural e histórico, nosso povo aprenderia com relativa rapidez a dar valor, o que certamente assustaria quem faz as licitações e isto explica a novela do trem-bala. Povo culto não interessa a este governo, como nunca interessou a nenhum dos que tivemos.

Me aproximaria com igual boa vontade de Mônaco. O que tem um país do tamanho de um bairro a oferecer? O que acham que tem a oferecer um país do tamanho de um bairro, que abriga sedes de indústrias e tem um dos padrões de vida mais altos do mundo? Eles sabem negociar, nossos empresários precisam aprender a negociar em vez de chorar para mamar, então seria uma parceria muitíssimo proveitosa.

Ah, claro, me aproximaria também da Índia. Um país que em poucos anos superou o nosso em desenvolvimento e já exporta tecnologia. À margem as questões sociais, muito mais complexas e delicadas do que as nossas, eles conseguem bons preços com boa qualidade usando mão-de-obra paga. Apesar de os abutres da imprensa terem urubuzado a Tata, quando incêndios suspeitos acometeram alguns Nanos, os problemas pertinentes foram resolvidos. Eu compraria um Nano, empenho meus quase trinta anos de praia no mundo dos automóveis nesta afirmação. A mente do indiano é muito aguda e inquieta, apesar da aparente passividade, o contacto humano seria ainda mais lucrativo do que a parceria comercial perene e séria.

Me aproximaria de Argentina, Paraguai e Uruguai, porque gostem ou não nós formamos um bloco e mesmo no peito e na raça temos que viabilizá-lo. A culpa de o Mercosul ser um fiasco não é só deles. Nossos dirigentes e sua fome por polêmicas inúteis, visando somente cargos eletivos e o Brasil que se dane.

Por fim, mas não menos importante, me aproximaria do Brasil. É um país que tem tudo por ser feito e seu povo está ansioso por aprender a ser do primeiro mundo. Quem investir sério neste país, quem quiser trabalhar com o brasileiro, em vez de carregar o que puder e sair correndo feito ladrão barato, terá uma poupança de longo prazo que se converterá em um seguro contra novas crises. Nativos de gênio, oprimidos por políticos tão burros quanto espertos, esperam por uma oportunidade de mostrar o que sabem fazer. Será preciso construir uma infraestrutura, já que não há nenhuma, mas isto também é uma oportunidade. Tendo alemães, americanos, indianos, japoneses e monegascos como aliados, não há como sair errado. Um povo, que hoje mal sabe falar correctamente o próprio idioma, em contacto activo e positivo com esses parceiros, logo seria naturalmente poliglota, se refinaria e aprenderia a apreciar o desabrochar das flores, como sakuras.

4 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Concordo com todas as suas palavras...estamos nos ligando a um país que nos vê como "africanos", querem fazer de nós o que portugueses e espanhóis fizeram com as Américas, retirarão todas as riquezas e depois irão embora....EU CONTROLARIA O VOLUME DE EXPORTAÇÕES DE PRODUTOS PRIMÁRIOS PARA OS CHINESES..e controlaria tb as importações a preços subsidiados de produtos chineses....estão acabando com nossas pequenas e só os nossos governantes não enxergam...anestesiados que estão com o dinheiro que arrecadam com estes negócios da CHINA.

Abs

Nanael Soubaim disse...

O pior é ninguém ver nada de mais e se conformar, em troca de bugigangas ue piscam e apitam, acreditando que é assim mesmo e nunca vai mudar.

H.F.S.S. disse...

É impressionante, a indústria local não consegue competir com a chinesa...
o que custa criar 1ªs e 2ªs linhas de prdutos? os de 1ª linha pra quem zela por qualidade, os de 2ª (mais baratos) para quem zela por preço.
Há basileiros vencendo no comércio internacional? sim. O Brasil tá ganhando com isso? Bem pouco.
Teos de nos modernizar, não só trazendos apetrechos tecnológicos, mas modenizar nossas cabeças... como foi bem dito no texto, empresários mal acostumados com a época de ditadura.
Parabéns pelo txto

H.F.S.S.
http://soteorias.blogspot.com/

New disse...

Amigo querido. Obrigada pela citação ao meu blog.
O texto como sempre, impecável.
E as coisas só poderiam mudar aqui se CLT mudasse também. CLT da época de Getúlio, totalmente desatualizada e paternalista. Vê-se que até a Justiça do Trabalho é só do trabalhador... um mercado de peixe, sem tirar nem por.

Beijos doces e parabéns (como sempre)