15/03/2016

A lei que não convém


Eu faço o que eu quiser e não enche o saco!!!
  Utilizo o automóvel como exemplo...

  O sujeito decide simplesmente entrar na contramão com o sinal vermelho, faz uma conversão proibida e ainda sobe na praça para poupar uns poucos segundos, então dispara em alta velocidade sem o menor pudor. "A vida é minha, faço o que eu quiser" é uma das primeiras respostas preventivas a qualquer cara de reprovação. Os riscos de um acidente são facilmente enquadrados no caso e na mesma resposta.

  Sobre os riscos a terceiros, ele argumenta que era de madrugada e não havia trânsito, que andou na contramão ciente de que naquele horário não há quase ninguém nas ruas, e portanto os riscos eram mínimos. E se tiver havido multa, a pontuação seria só dele e ninguém deveria se meter nisso. Certo, dinheiro dele, mas tem mais.

  Se cruzar o sinal fechado já é perigoso, imagine na contramão. O risco de outro veículo com outro idiota vir na mão certa em alta velocidade, é grande. Ele alega que o risco era dele, que todos dentro do carro entraram cientes do modo como ele dirige. Todos assumiram os mesmos riscos, exceto o de multa e pontuação, mas aceita ajuda para pagar. Quanto aos ocupantes do outro hipotético carro, não houve acidente, portanto não houve risco consumado, portanto deve-se calar a boca e não encher o saco.

  A conversão proibida, idem. Alega que conhece a cidade melhor do que qualquer guardinha de trânsito, que sabe até a que horas a coruja de cada rua acorda e vai dormir, e que prova isso na prática. Afirma que não existe nada mais gostoso do que infringir as leis de trânsito e sair ileso, que isso dá uma tranqüilidade enorme e que chega até mais calmo e feliz em casa, depois de uma direção louca. Durante o dia, com a tensão aliviada, dirige de forma impecável e leva todo mundo para todos os lugares sem um risco sequer, até abaixo de quarenta por hora.

  Nem adianta enumerar os riscos e danos ao carro, por subir e transitar em uma praça em alta velocidade. O carro é dele, pode até tacar fogo se quiser. E quem é que fica à noite em uma praça em lugar ermo àquela hora? Ninguém correu risco nenhum, o máximo que teria acontecido acontecido é ter que chamar o guincho, e depois arcado com os prejuízos, que sairiam de seu bolso e ninguém teria nada a ver com isso.

  Uma avenida larga, vazia e com o tempo fresco, ele andaria a menos de duzentos por hora por quê? A vida é dele, é curta demais para seguir regras babacas que não convém, e depois aquilo desopila que é uma beleza, fica uma semana sem se irritar com absolutamente nada. E é esse o jeito de ele pensar e ponto final, não quer saber de papo, a não ser em seu favor, é claro.

  Enumerar as leis infringidas, pode gerar briga. A lei é idiota, a lei é restritiva, a lei se mete na vida particular, a lei não faz sentido então eu vou infringir sempre que houver chance de sair livre. A lei não convém, não ao seu prazer, seu bálsamo, sua droga, então não vai respeitar e pronto, é essa a opinião e não vai mudar de jeito nenhum, afinal gosta de direção perigosa, é o que lhe faz bem e ajuda a desligar do estresse e dos problemas, então sempre que puder vai bancar o personagem de videogame idiota de direção irresponsável.

  Se alguém morrer por causa de sua diversão, fazer o quê? Só que até hoje ninguém se machucou, então cale a boca que é assim que eu penso, senão te dou porrada e nunca mais falo com você.

  É assim com praticamente tudo o que burla uma lei que não convém no momento. Seja trânsito, receptação de furto e roubo, interceptação de sinal de internet e tevê a cabo, uso de drogas ilícitas, uso ilícito de drogas lícitas, comércio sexual clandestino enfim... Ninguém se importa e faz questão de não saber dos lutos causados pela prática e ou consumo de seus prazeres e bálsamos. Existe a lei, mas ela não convém.

  No cotidiano a pessoa se mostra amiga, prestativa, boa profissional, até religiosa, mas seu prazer é mais sagrado do que absolutamente tudo. E não se trata de fazer algo arriscado sob condições controladas e lícitas, porque a boca de fumo, a via pública, o puteiro do doutor deputado, o cabeçote conseguido no desmanche de fundo de quintal, o desvio de conteúdo e energia eléctrica, o que não pode é muito mais emocionante. Dá um alívio muito maior e ajuda a manter a máscara de boa pessoa. Quem morreu, morreu.

  Regras, só a da turma, do clube, da gangue, do que for conveniente. Leis constitucionais só valem até certo ponto, enquanto me forem convenientes ou agradáveis... Ou enquanto evitarem que o BOPE me encha de porrada, caso contrário não quero saber delas e tomo raiva de quem as seguir, quando estiver comigo. Depois pega a Bíblia, a Torat, o Alcorão, o evangélio de Kardec e fala que todo mundo está muito carente de fé, que as pessoas não oram mais a Deus, que hipocrisia é só o que vem do outro. É assim que eu penso, é isso que eu acho, minha opinião cura perna quebrada e pronto.

  Todos querem um mundo melhor e livre de mazelas, exceto daquelas que nos dão prazer.

02/03/2016

Um dia... Um dia... Um dia não existe

EMILIO FIASCHI (1858-1941) - VEILED FEMALE NUDE

  No começo era só um incômodo, mas incômodos são comuns e generalizados, então lhe deixaram por sua conta, deveria ser capaz de lidar com ele. E era, até certo ponto. Com o tempo adaptou-se a esse incômodo, na esperança de obter a ajuda prometida. Andava quase normalmente, só com um pouco menos de agilidade e um pouco mais de cadência, para suportar melhor.

  Vieram ver e viram que estava agüentando com trema, porque não tinha escolha mesmo. Com tantas urgências e vendo que se virava bem, novamente lhe deixavam por sua conta, pedindo que suportasse dignamente o mal, que crescia com o tempo, a falta de socorro e a necessidade de arcar com os compromissos da vida; mesmo um animal em seu habitat tem os seus, precisa comer e se proteger, no mínimo.

  O incômodo aumentava e impunha mais limitações, já andava devagar e mal subia as escadas. Sem entender sua situação, lhe era cobrado que esticasse um sorriso, que dançasse, que fizesse piadas, que não deixasse transparecer tamanha ingratidão para com a vida. Mas o mal estar era grande. Quando voltaram viram o agravamento do quadro, mas havia uma emergência grave, bem mais grave para tratar, deram alguns conselhos, uma frase de motivação e se foram. Um dia poderiam ajudar, não agora.

  Agora havia dor. Mal conseguia se mexer. tratava com dificuldades dos assuntos de seu escopo, às vezes até de outros sem notar que o fazia. Lhe era agora cobrado que relaxasse e aproveitasse a vida, que agradecesse por não estar pior, que se enturmasse e tirasse selfies entusiasmados para o mundo ver o quanto era feliz. Feliz? A dor latejava e ia fundo, com o tempo dificultava até a respiração. Viver já era doloroso.

  Quando voltaram, impressionados com sua resistência, insistiam para que suportasse só mais um pouco, que um dia as coisas melhorariam, que a dor passaria, que a vida é bela e a vaca e amarela. Havia mais um caso grave, este não poderia esperar de jeito nenhum! Se foram e novamente estava por sua conta, tendo agora que escolher bem o modo como andava, se deitava e até como respirava, um reflexo de subsistência mal calculado e a dor voltaria mais forte.

  A primeira lágrima escorreu e só faltou apanhar, porque sua vida era bela, tinha admiradores, era inteligente, todo mundo queria estar em seu lugar, não estava agradecendo o suficiente pelo que tinha... Mas a dor agora, muitas vezes, era paralisante. Se encolhia em seu canto, longe dos olhos alheios, para a solidão acalmar sua mente e ajudar a suportar o sofrimento. Doía muito, e não era mais em pontos específicos, doía-lhe o corpo inteiro. Disseram que um dia a ajuda chegaria e não teria mais dor, mas o dia não chegava.

  Voltaram e viram sua situação, a insensibilidade que lhe cercava e, de longe, aquelas lágrimas escorrendo. Palavras de consolo, conversas motivacionais, elogios pela postura, mas havia outra emergência para atender, seu caso, pela força demonstrada, poderia esperar. Um dia voltariam, não teriam mais emergências graves como as de agora e curariam de sua dor. Um dia.

  Curou-se por si. A dor ainda estava lá, o incômodo ainda estava lá, sua pessoa ainda estava lá, mas não era a mesma pessoa. Um dia não veio, um dia não aconteceu, um dia não existiu. Um dia voltaram e viram uma criatura esguia, elegante, altiva, mas completamente insensível ao que se passava ao seu redor. Saudaram, não tiveram resposta. Chamaram-lhe pelo nome, mas parecia que não estavam lá. aproximaram-se e tocaram-lhe o ombro, mas tampouco isso denunciou sua presença.

  Agora tinham uma emergência de verdade! Pegaram seu material, os instrumentos, os emplastros, os analgésicos, os chás e as preces que sempre traziam. Nada fez efeito. Nada sequer atravessava sua pele pálida e fria. As massagens naquele corpo rijo e uniforme, que vivia parecendo ter morrido, pois movia-se, eram como acariciar o mármore. Começou a caminhar indiferente às suas presenças, tinha afazeres e já estava na hora de arcar com eles. Andar elegante, linear, quase como em passos lentos de balé clássico. A dor era muito intensa, mas já a suportava. Respirar sem verter prantos foi um aprendizado longo, logrou êxito, mas houve um preço.

  Queixavam-se agora de sua indiferença, sua distância, sua arrogância, sua ingratidão para com os que sempre estavam próximos, mas já não ouvia suas lamurias. Tinha urgências para tratar e só a elas dava ouvidos. Urgência não poderiam esperar, a dor que esperasse, se quisesse.

  Um dia não reclamava mais de dores, nem de incômodos, nem do frio, nem de nada. Um dia viram sua figura sumir no horizonte, lânguida e fantasmagoricamente, sem se deter. Queriam agora, muito, que voltasse a chorar e pedir ajuda, algum dia.

01/02/2016

Dois mil e desastrez


Arte do genial Benett
  Tem gente chamando o ano que passou de "dois mil e crise". Não censuro, uma rápida olhada nas retrospectivas confirmaria tudo. Pois este ano eu chamei de "dois mil e desastrez".

  Aos leitores que ainda restam, talvez tenham percebido que Janeiro não teve textos. Bem, o computador pifou de vez. Fiquei quase um mês sem ter a quem recorrer, não há amigos por perto e Goiânia já não tem um transporte público adequado ao uso humano, mas cobra com se fosse de primeira classe. Precisei esperar até poder comprar este laptop em longas e salgadas prestações.

  Não é essa dívida logo no começo do ano o motivo do apelido. Voltei de férias e descobri que quem me substituiu teria feito melhor se não tivesse feito nada. Não vou desmerecer os esforços de alguém que teve pouco mais de uma semana para aprender um serviço que demanda, no mínimo, seis meses de treinamento para ser executado a contento, mas percebi que passarei o resto do ano corrigindo erros e cadastrando peças que o foram mal feito, ou simplesmente a pessoa pesou que cadastrou, mas deu F2 e voltou a tela, em vez de confirmar  gravação do serviço.

  Nem vou falar das tragédias que só fizeram aumentar, neste mês que findou. Desde a crise de refugiados, que eu já tinha dito que daria titica, e o fechamento das fronteiras justo pelos países nórdicos está corroendo até as bases da União Europeia, até a intensificação das hostilidades entre petebas e tucanebas; há quem diga que seja falta de sexo, particularmente acredito que seja falta de uma boa e afiada vara de marmeleiro no lombo.

  Não preciso discorrer sobre tudo, uma rápida lida nas manchetes já diz tudo o que se precisa, se for ler tudo o que se puder a respeito se sai desinformado e esquizofrênico da leitura. Se insistirmos em ler as caixas de comentários, sairemos em uma camisa de força.

  Inflação, recessão e desemprego? Já vi isso várias vezes em vários governos, sei que pode piorar muito! Mas  que realmente agrava é que agora temos uma população muito mais atida ao baixo ventre e muito mais dividida, a ponto de a emigração ter voltado a ser atraente e, desta vez, até incentivada por técnicos e analistas financeiros. É como se dissessem subliminarmente "Quer ajudar  Brasil? Vá embora e ajude de longe". Aos nacionalistas pode soar um absurdo, mas faz sentido, este país nunca esteve tão longe de ser uma nação.

  Aumentos e criação de taxas, tarifas e impostos, apesar de nos ter pego de calças curtas, não eram de todo imprevisíveis. Todas as porqueiras das espheras do Estado nacional pedalaram demais, se lambuzaram tanto na farra com o erário, que não perceberam em tempo o esgotamento dos recursos. O que fizeram? Cortaram cargos? Sim, claro, alguns cargos de comissionados descartáveis foram cortados, mas os apadrinhados foram apenas remanejados, autarquias inúteis foram apenas absorvidas por debaixo do pano por outras, enfim, daí a facada fiscal. e claro que os aliados de cada lado fazem estardalhaço e pedem beatificação em vida dos sacripantas. Acharam que não poderia piorar? Piorou.

  Não pensem que o período sem computador me deu o bálsamo da ignorância, pelo contrário, me deixou no meio do tiroteio de mídias que eu não pude investigar, pela falta deste canal de pesquisas. Agora, pelo menos, eu sei de onde vêm os tiros... O que não significa que posso escapar deles. O pior é que o único jeito de sair dessa, é morrendo.

  Todos os blogs estão muito atrasados e não só eles, tudo o que eu fazia pela internet está passado, em alguns casos já podre. Há cousas que não vou mais poder recuperar, ficarei no prejuízo pelo lapso que nem pude usar para descansar do mundo digital. Tentarei (a)normalizar as postagens, até porque neste fatídico e trágico ano, este blog fará dez anos.

04/12/2015

Testemunhas de Papai Noel

  A campainha toca. O rapaz tenta imaginar quem seria capaz de incomodar um pobre trabalhador em seu dia de folga, tão cedo, ao meio dia da manhã. Imagina que sejam aquelas testemunhas de Jeová novamente, devem querer desforra por ter comparado a bíblia aos contos dos irmãos Grim, já que "desculpe, sou ateu" não os convenceu a procurar outra vítima.

  Olha pelo monitor, olha para o chão, para o monitor novamente, esfrega os olhos, bate na cabeça para ver se o cérebro pega no tranco, mas parece que aquela cena bizarra é real. Uma rena de nariz vermelho está tocando a campainha, aguardando pacientemente ser atendida...

  - Porra... Que merda enfiaram na minha tequila, mano?

  Vai ao interphone, e a rena fala. Não, não é truque, ele vê a sincronia entre a imagem de alta resolução e o som que ouve...

  - Bom dia, Ricardo! Você teria um minuto para ouvir a palavra de Papai Noel?

  Agora a coisa ficou brava! O que quer que tenham colocado na tequila, tornou a alucinação permanente e estendida a todos os outros sentidos. Pede que espere um pouco, tira a cara de monstro do pântano e vai lá fora. Quem sabe com o ar fresco as idéias se organizam e o efeito da droga passa. Vai mastigando uma bala de menta da mais cara, para que o bafo de múmia não torne a conversa mais desagradável do que o necessário. Só vai dizer "Sou ateu, me desculpe, não falo de religião" e dispensar o rapaz de camisa de mangas longas e gravata.

  Abre o portão e lá está... A rena de nariz vermelho. Ele gostaria de rezar agora, mas é ateu há tanto tempo e se esforçou tanto, que não se lembra nem mais de uma Ave Maria. Tenta embarcar na alucinação, para ver se ela se desvanece sozinha...

  - Bom dia. Olha, vai me desculpar, mas eu sou ateu, evito ao máximo falar de religião.
  - Não vim falar de religião, Ricardo. Meu nome é Rudolph, vim trazer as palavras de amparo que Papai Noel mandou para você.

  Ele raciocina um pouco, pelo menos tenta. Olha para os lados, aproveita que ninguém está olhando e pede que a rena entre, esperando que o IBAMA não tome conhecimento deste episódio. Como acordou muito tarde, ainda não teve tempo para bagunçar a casa. Menos um vexame. Para acompanhar a visita, se senta com ela no carpete...

  - Já faz muito tempo que você não comemora o natal. Papai Noel compreende seus motivos. Inclusive por religiosos hipócritas, que vêm lhe oferecer uma salvação em troca do seu livre arbítrio. Você endureceu tentando preservar seus valores.
  - Mais ou menos... Natal é cartão de crédito! Quem tem saldo, tem noite feliz, noite de paz... Quem não tem fica lambendo propaganda pela televisão.
  - Sim! Isto é conseqüência do comportamento egoísta de quem reza para o altar, mas não para o coração. Se a felicidade depende de trocar sua vida por uma promessa, então a vida não tem realmente valor, nem mesmo a de uma criança que vê anúncios de chocotones, mal tendo pão comum para comer.
  - É isso que me revolta nessa papagaiada de "feliz natal". O cacete! Efeméride só vai até onde sua conta bancária alcança!
  - É aqui que a conversa realmente começa. Ricardo. Você está sendo duro demais consigo mesmo, está desmerecendo o seu próprio trabalho, ao afirmar que ninguém faz natal de verdade.
  - Como assim? Fiz algo que de eu não tenha conhecimento?
  - Você tem conhecimento de todas, só não se deu o valor. Você ganhou uma baita cesta de natal da empresa, mas a deu para o primeiro catador de papel que encontrou.
  - Eu não precisava dela, ele tem crianças pequenas, ele precisa.
  - Esse homem iria pedir dinheiro a um agiota, naquele dia, para comprar uma ceia magra de natal. No mesmo dia você comprou todas as flores de uma vendedora e pediu que ela as distribuísse pelo metrô.
  - Tô sozinho, ia dar flores pra quem?
  - Ontem você deixou cair, deliberadamente, duas notas de cem reais na bolsa de uma senhora que estava na fila do caixa, quando viu que ela não encontrava dinheiro na carteira.
  - E eu ia deixar a dona passar vexame por causa de um vagabundo que deve ter furtado a grana dela? Eu sei o que é passar fome!
  -  Você não se identificou, não pediu aplausos, não esperou por gratidão, você se fez Papai Noel para essas pessoas, e são só os três últimos casos. Você não precisa tentar resolver os problemas do mundo, sua função é resolver os seus, se puder os que estiverem ao seu alcance. Mas você tenta assim mesmo.
  - Tem que ser filho da puta pra ver gente por baixo, poder e não fazer nada.
  - E se tiver chance de fazer de novo, você faz.
  - Mas é claro!

  A esta altura ele não se questiona mais sobre como uma rena falante de nariz vermelho pode saber tanto a ser respeito, se nunca fez questão de contar. A rena continua...

  - Quando Papai Noel começou a distribuir brinquedos, não era para mimar e estragar as crianças, como se faz hoje. Ele frisava que só as crianças boas ganhariam presentes, mas isso com o tempo se tornou argumento para barganha e chantagem. Nunca houve uma geração tão mimada, materialista e chantagista como esta. E em "materialista" eu incluo aquelas que vão às igrejas, cantam, gritam e choram só para receber um pedaço de céu. Não é por amor que fazem isso, é barganha.
  - Tu entende do assunto, Rudolph! Tu entende muito!
  - Então você concorda que gestos simples e desinteressados fariam um natal de verdade.
  - Totalmente! O que você tem em mente?
  - junte uns amigos, ponha uma fantasia no Borges e resto você sabe o que fazer.

Ele pensa por um minuto, se vira para a rena, mas ela já não está lá. Liga, passa e-mail, WhatsApp, mensagens em redes sociais, convoca todos os que pode para  uma balada. Arranja uma roupa vermelha de algodão, para o amigo não morrer desidratado, recolhe o dinheiro da vaquinha e providencia tudo. Na madrugada do dia 24 para 25, lá estão todos aqueles malucos vestidos de Papai Noel, Mamãe Noel e gnomos ajudantes, com um caminhão rodando creches, asilos, hospitais públicos e plantonistas de várias profissões. No final das contas, com o dia raiando, viram que o dinheiro deu para mais do que pensavam e a noite foi longa o suficiente. Agora vão eles comemorar o natal que ajudaram a construir.

16/11/2015

Filho é atraso, né... Não é? Hein?

Tudo bem se vocês não querem isto, mas teu desafeto quer!
  Não, eu não estou insensível às tragédias dos últimos dias, todas elas anunciadas. Não entrarei em méritos específicos, nem direi que foi bem feito, não sou tão mau assim! O que quero tratar agora é do efeito causa e conseqüência.

  Há muito tempo as pessoas têm comentado, voltando do exterior, o quanto o índice de orientais tem crescido no ocidente. Ninguém se deu o trabalho de estudar as ramificações e o horizonte que esse fenômeno nos apresentava, mas ele estava ali, bem nas nossas frontes o tempo todo, dizendo e firmando fé de sua aproximação. O aumento de famílias de origem oriental estava acompanhado rente do encolhimento e envelhecimento da população nativa européia.

  Não quero condenar o desejo de jovens casais adiarem e reduzirem ao mínimo a cria, as últimas seis gerações foram educadas a pensar primeiro em si, nos seus sonhos e, como virou moda, nos seus direitos, para depois ver o que faz por outro que nem nasceu ainda, e talvez nem nasça. O problema, no caso, é que com isso a população demora mais a se renovar e se renova menos. A questão não é só demográfica, é também econômica.

  A maioria absoluta das pessoas, tão logo planeja a vida profissional, pensa em trabalhar até certo ponto e parar, viver da renda a que tem direito e ter vida mansa na velhice. Sabemos que isso quase nunca acontece, mas é a meta de quase todo mundo: Até aqui eu contribuo e ajudo a sustentar os aposentados, depois é a vez de eu ser sustentado. Até meados dos anos oitenta isso funcionava muito bem, o mundo nem se preocupava com o envelhecimento da população porque a previdência (social e  privada) estava recebendo mais do que pagava. Só que isso mudou.

  A partir dos anos noventa a balança seguiu uma senóide descendente, a massa de trabalhadores estava ficando muito, mas muito próxima à de aposentados. De então até o momento as previdências têm apresentado déficits praticamente no mundo inteiro, há lugares onde os aposentados já superaram o número de trabalhadores na activa. O que isso significa? Quem leu os editoriais de economia nos últimos vinte anos sabe muito bem, está cada vez mais difícil tapar o rombo, o dinheiro que entra nem sempre cobre o que sai.

  Os sindicatos encresparam todas as vezes que uma equipe econômica acena para a necessidade de se aumentar o tempo de serviço, para compensar em parte o envelhecimento e encolhimento da população. Bem, não vou dizer o que penso desses sindicatos, só digo que a ação deles teve uma conseqüência, o encolhimento da base de pagadores das previdências. Certo, foi a escolha deles, essa escolha moveu uma máquina que só agora está mostrando para que lado anda.

  Existe uma verdade que é muito mal interpretada e, muitas vezes, deliberadamente distorcida para interesses de grupos, que agora e a mim não interessa especular da nobreza ou não de suas intenções. O mundo tem cerca de sete e meio bilhões de habitantes, a maioria deles vive no vasto oriente, do próximo ao extremo. Criou-se a histeria de que haveria muito mais gente no mundo do que seríamos capazes de alimentar e medicar, qualquer multidão localizada é utilizada para validar o mito. Na verdade toda a população mundial viveria bem no sudeste brasileiro, ninguém precisaria dormir em pé e a simples existência de mercado tão concentrado facilitaria muito a logística, facilitando assim, também, a geração de empregos para todo mundo.

  Não vou falar das mazelas políticas, ideológicas, econômicas, dogmáticas et cétera. Não viveria tempo suficiente para discorrer sobre todas as ramificações do caso, então me aterei ao que o título sugere.

  Bem, a natureza odeia o vazio. O espaço cedido por um corpo é rapidamente tomado por outro. Não há bondade e tampouco maldade nisso, é simplesmente uma das leis mais elementais do universo. A população só está crescendo muito no oriente, que é tradicionalmente tido como mais conservador. No ocidente, são justamente os que se assumem conservadores que têm mais filhos, os que se dizem progressistas não raro detestam crianças, as consideram incômodos e entraves no gozo da vida plena de uma pessoa. Não é implicância, pode perguntar a quem trata de saúde mental e verá o que digo.

  No Japão já estão chamando descendentes de emigrantes, antes desprezados, para repovoar o país, oferecendo vantagens que os nativos não têm. A população, ciente da gravidade presente, não reclama muito. Não faz muito tempo alguns países europeus começaram a conceder cidadania a descendentes de nativos, para também tentar reverter a situação. O temor deles, especialmente dos mais chegados ao nacionalismo, é que os imigrantes da África e Ásia vão pagar suas aposentadorias. Chineses, muçulmanos de várias origens e etnias, pessoas que são normalmente mais conservadoras com relação às ditas conquistas modernas.

  Bem, se para você um filho antes dos trinta anos é um estorvo, acredite, para uma argelina típica é uma bênção. Ao contrário do ocidente, que tenta poupar as crianças de tudo e trancá-las em uma redoma de cristal, os orientais não vêem problemas em seus rebentos ajudarem nas tarefas de casa, lavarem o banheiro da escola onde estudam, levarem reprimendas severas em público... Tudo o que a sociedade do "viver por prazer" tolhe de seus descendentes.

  São sociedades repressoras, que geram traumas e tolhem a individualidade? Sim, até certo ponto sim. Nossa sociedade é demasiadamente permissiva e frouxa na formação moral do cidadão? Sim, até certo ponto sim. O problema é que esses pontos se cruzam e dão espaço suficiente para que um lado ocupe os espaços deixados pelo outro. Não é porque uma atitude ou palavra saiu de seus desafetos, que tu deves desconsiderá-la, os inimigos que elegeste também podem estar certos e o que eles dizem também pode ser benéfico para ti e tua sociedade.

  Enquanto o estereótipo da mulher ocidental vê um filho como incômodo e, isso já acontece, pode até abortar até o limite da lei só para ter um filho mais próximo do que deseja ter, uma africana ou asiática em seu estereótipo releva facilmente o sofrimento do parto e aceita o que vier. Vejam bem, eu disse que são estereótipos, mas assim como os mitos, os estereótipos têm raízes fortes nas sociedades que os criaram. Uma mulher religiosa e conservadora não vê problemas em ter seis filhos, ainda mais se puderem planejar bem. Será uma mulher infeliz, hipócrita que viverá uma alegria falsa para dar satisfações à sociedade e à família? Errado! Muitas mulheres que não são tidas como conservadoras, lamentam não poderem ter tido vários filhos. O facto de alguém não sair todas as noites, não transar sem compromissos, não ser adepto de entretenimentos radicais, não ser simpático ao modismo de viver de photossintese para não magoar as plantas, não significa que seja conservador. Hitler era vegetariano.

  Perceberam como mesmo aqueles que se dizem ativistas que lutam contra os preconceitos, podem ser os maiores propagadores de um ou mais, só mudando o rótulo?

  Pois bem, enquanto o mundo ocidental se digladiava nessa ladainha estéril, os pragmáticos orientais simplesmente chegaram e tomaram os espaços ociosos, o que inclui empregos, escolas, casas, bairros inteiros, enfim. Eles estão por toda parte, tomaram conta de uma fatia considerável da sociedade ocidental, sem precisar protestar contra tudo isso que aí está, sem depredar, sem pichar fachadas, apenas se aproveitaram de uma sociedade que se julga moderna, se julga tolerante, se julga avançada, se julga poderosa e perdeu décadas debatendo bobagens, não raro coisas que deveriam ficar entre o psiquiatra e seu paciente, a ponto de cogitar que o Estado faça leis para absolutamente todas os aspectos da vida humana, para evitar que alguém espirre em um ângulo inadequado e ofenda os valores e as conquistas de outro cidadão.

  Nota: Vocês estão fazendo o que todos os ditadores da história tentaram. meus parabéns, imbecís.

  Certo, ninguém é obrigado a ter três filhos, a se casar, a dedicar vinte ou trinta anos da vida que poderia ser preenchida só com prazeres, para colocar um pedaço petulante de gente no caminho do crescimento. Mas os orientais e os ocidentais conservadores não vêem nenhum problema nisso, pelo contrário. O mito da matriarca italiana poderosa e dominadora, que bate no rosto e corrige o filho mesmo que ele já tenha netos, não é mito. Ela existe e é mais numerosa do que vocês imaginam. Só não mora mais em uma casa de pedras nos rincões da Itália, não a maioria delas, é claro, mas é facilmente reconhecida por quem se dispuser a vê-la.

  Se vocês acham que um filho é um obstáculo, não tenham filhos, mas saibam que para muita gente, e quase sempre gente que não gosta do tipo de vida que vocês levam, ter vários filhos é um sonho, não necessariamente uma imposição. Esses numerosos filhos vão ocupar o espaço dos que vocês não quiseram ter, e sendo numerosos, terão mais peso político. eles vão pagar suas aposentadorias, sim, mas só até quando quiserem. Afinal, se eles acharem que seu estilo de vida contribuiu para a decadência do mundo, podem forçar leis para que vocês, mesmo velhos e quase sem forças, sejam obrigados a procurar novamente trabalho ou, Deus os livre, pedir esmolas.

  A escolha é de vocês, é seu livre arbítrio, mas as conseqüências também são.

09/11/2015

A segunda-feira mais sexta-feira de todos os tempos!


  Cheguei ao trabalho como todos os dias, ou como deveria ser em todos os dias, se a porcaria do transporte público de Goiânia não tivesse decaído de "exemplo" para "lição amarga". De madrugada, neste famigerado horário de verão, que por si já atrapalha bastante. Estou acostumado a me levantar às 04h45 ou antes, às vezes antes mesmo de o despertador tocar, depende do meu nível de esgotamento; e hoje estava esgotado como se tivesse trabalhado sete dias seguidos.

  Tão logo terminei os preparativos, me deparei com a típica cena de sexta-feira, as peças fiscais que normalmente só aparecem no fim de semana estavam lá, com a prolixia, a retótica, o abiso de vícios de linguagem e os garranchos hieroglíficos típicos de sexta-feira. O clima estava formado. eu via "09 de Novembro" no calendário que eu pendurei na sala, no começo do ano, mas tudo tinha cara de dia 12!

  Os olhos já cansados, estavam com a fadiga típica de fim de semana, como se tivessem sido forçados por uma semana inteira seguida, para descobrir que raios queriam dizer aqueles três rabiscos completamente diferentes entre si, para depois eu descobrir que era "555"... Depois de muita investigação, com o sistema TODO EM DOS travando o tempo todo.

  Cometi os erros típicos de uma dura e pesada sexta-feira, como confundir as duas Lucienes e perguntar a uma pelos erros da outra. Claro que ela curtiu com a minha cara, com a elegância característica, é claro, mas também com todo o direito que tinha... E com testemunha.

  Hora mais tarde, minha, hoje única colega de recepção chegou com os queixumes de sempre, que não seriam novidade se já fosse sexta-feira. Mas o calendário não me deixava enganar, ainda era e é segunda-feira. Até os malas, os casos difíceis, os tropeços e os capilés que costumam aparecer na sexta, apareceram hoje! Eu tinha a falsa sensação de que voltaria pra casa, desarmaria tudo e no dia seguinte dormiria até tarde, por volta das 08h; mas é claro que eu não vou dormir até tarde, amanhã é terça-feira!

  As faxineiras terceirizadas atrapalharam o atendimento como se fosse sexta-feira, como se a sala tivesse acumulado quatro longos dias de sujeira e suor. Fui contrariado para fora, como se fosse sexta-feira, porque a qualquer momento poderia aparecer um documento pra encaminhar e, dependendo do nível de complexidade e garrancho, seria de meia a uma hora só nele!

  Ah, sim, o chá também acabou mais cedo, como se fosse sexta-feira...

  Na saída, apesar de tudo, fui para o ponto de ônibus a pouco mais de um quilômetro dali com o falso alívio de que descansaria no dia seguinte. Até peguei um caminho ligeiramente diferente, como se fosse sexta-feira! O palco da ilusão estava formado! Eu sabia que ainda era começo, mas tudo tinha cara de fim de semana, até a bateria da câmera, com apenas um pique, rendeu dezenas de photographias!

  Em casa almocei com gosto de sexta-feira. Não, não é um sabor agradável como pode parecer, até a língua fica cansada demais para registrar todas as nuances do sabor, o frango acabou com gosto de chuchu assado levemente flavorizado. A sesta que tiro de vez em quando, apesar do calor, acentuou o clima de sexta-feira. Acreditem, eu realmente preciso desse intervalo, ou surto!

  Comer um donut assado, sem aquele peso de óleo e aquela lambreca de açúcar, que comprei de uma menina com sotaque portenho, deu pane de vez em meus sentidos. Conscientemente eu sei que é segunda-feira, mas o corpo está no clima de sexta-feira, nem quero sofrer por antecipação em imaginar a reação dele em se recusar a sair da cama, quando o despertador tocar!

  Completando a confusão, hoje, no fim da tarde do horário real, uma intensa luz amarelo intenso entrou pela porta da copa, dando aquela sensação de alívio que só uma verdadeira sexta-feira dá, com a perspectiva de não enfrentar o ônibus no dia seguinte. Nada mais falso! Nada mais cruelmente falso! Eu, que normalmente gosto da segunda-feira, por este caráter enganador, estou detestando esta!

  Pérfida!

04/11/2015

Talvez o burro seja eu!

  Estou mantendo distância de velhos amigos, com quem já confabulei e dividi momentos dos mais diversos, in loco ou via internet. Mantenho justo para não macular a amizade, para não ter que escolher entre ser um burro ou um canalha.

  Sim, cari leitori, chegamos ao ponto em que a dissolução desnecessária de um laço só pode ser evitada com a esporadicidade de contactos. Não só isso, mas também a escolha meticulosa das circunstâncias e dos tópicos a serem tratados, visto que qualquer vírgula mais para um lado do que para o outro pode redundar em uma discussão ideológica tão fútil quanto abrasiva.

  O motivo é o velho discurso de superioridade acadêmica e ideológica, que finge parafraseados de piedade em dados momentos, para passar mel no que foi dito e tentar se resguardar dos frutos amargos do que se dirá em seguida. Quem não compartilha desse ponto extremamente polarizado de vista seria burro ou canalha; a burrice poderia ser revertida com estudos, segundo os MUITOS adeptos desses discursos, quase sempre populistas de direita E de esquerda.

  Francamente, estou me lixando para os conceitos e rótulos que cada um se atribui. Mando os mais exaltados fazerem exame de fezes e degustarem o resultado. Eu já evito ler mais do que o enunciado, pois sem ele infelizmente não há como saber do conteúdo, quando o assunto são as paixões ufanistas dos ideólogos, principalmente os que se declaram intelectuais. E não precisa se dizer intelectual, a arrogância e o modo como se pronuncia, tanto pior quanto mais prolixia e retórica, são quase como cartaz e cola a exibir em letras berrantes "EU SOU INTELECTUAL, NÃO SE ATREVA A CONTRARIAR O QUE EU DELIBERAR, ENQUANTO PENSADOR, QUE É O CERTO, SEU IGNORANTE OU MAU CARÁTER".

  Feito que meu perfil está muito longe de ser o de um canalha, e essas pessoas confiam cegamente em seus julgamentos, todas elas, incluindo amigos, devem me considerar um completo ignorante. Eu falo mal do governo, não só os pontos discursivos ideologizados em que muitos exprimem o desejo de radicalização, mas os rompantes de autoritarismo e corrupção que muitos negam que existam. Eu uso um peso e uma medida para tudo, se o que os anteriores fizeram era condenável, o mesmo feito pelo actual também é.

  Não, a Dilma não inventou a corrupção, o Lula não inventou a corrupção, o FHC não inventou a corrupção, o Collor não inventou a corrupção, o Geisel não inventou a corrupção, o Vargas não inventou a corrupção, Deodoro da Fonseca não inventou a corrupção, Dom João VI não inventou a corrupção, ninguém inventou a corrupção! Se isso fosse motivo para me calar e me posicionar pró alguém, o faria por todos eles. Não lamento dizer que não é. Muito do que a imprensa diz contra o governo, eu vejo acontecer do meu posto de trabalho, inclusive as últimas que o ministério da saúde tenta desmentir,

  Já disse aqui que ideologia e todas as "boas intenções" correlatas tornaram-se dogmas, à imagem dos dogmas religiosos mais fundamentalistas. Quem se apega a um dogma acredita ter a verdade em suas mãos. Alguns dizem ser apenas a "sua verdade", mas ela é tão glorificada que para o infectado torna-se A VERDADE. Bem, carissimi, quem tem A VERDADE tem medo da verdade. Mas o que é a verdade? Dê um tiro de fuzil na própria cabeça e descubra. Tente achar que nada de relevante aconteceu e saberá do que estou falando. Radical? Não, isso é apenas para mostrar de modo inequívoco que "a verdade pessoal" de cada um não significa absolutamente nada para mim, inclusive a minha, que nunca promovi a mais além da patente de opinião predominante.

  Já me senti burro muitas, mas muitas vezes, inclusive depois de velho. Mas não tenho medo da verdade, ainda que ela me obrigue a mudar completamente os rumos de minhas conclusões. Foi assim que virei ateu, foi assim que deixei de ser ateu, et cetera. O que eu defendo, e isso é cada vez menos público, é o que eu vi funcionando de forma autônoma, estável e perene NA PRÁTICA. Na teoria um Fusca precisaria de 85CV para manter 140km/h, na prática ele consegue um pouco mais do que isso com 59CV. Foi a engenharia que precisou desenvolver outro padrão de cálculo para explicar isso. Na prática.

  O problema dessas pessoas é que suas "verdades" têm rostos, nomes, histórias e muita, mas muita "estória". São vistas como grandes heróis intelectuais paradigmas infalíveis suprarracionais da humanidade. Se são atacados, é porque têm razão, certo? Errado. Se eu estiver comendo e alguém puser a mão no meu prato sem minha permissão, a coisa vai ficar feia para o lado do invasor. Ele estará cem por cento errado da silva sauro em pegar sem pedir e será atacado. Às vezes as pessoas são atacadas não por serem portadoras da voz de grupos bla-bla-bla, muitas vezes é porque fizeram maldade e não a repararam. Muitas vezes essa maldade é feita com justificativas que fazem o revide parecer perseguição. De todos os lados, não há só dois.

  Eu tenho um componente que agrava muito tudo isso, eu descobri que aparento acreditar sacramente em tudo o que digo. Mais, eu aparento querer converter todo mundo ao meu "ponto de vista", entre aspas mesmo, para enfatizar a falta de valor dessas paixões acadêmicas. E é tudo tão intenso, as pessoas recebem isso com tamanho impacto, que aparentemente me vêem como um alto sacerdote a condená-las por seguirem suas próprias linhas de pensamento. Ok, eu até acredito no que digo, ou não diria, mas eu simplesmente não me levo a sério! Eu me acho um porre, entendem?

  Infelizmente as pessoas me levam muito, mas muito a sério. Mais a sério do que seria higio. Felizmente eu tendo a levar esses ataques quase tão a sério quanto a mim mesmo. Eu sei que não são dirigidos a mim, me atingem, mas são metralhadoras giratórias, é como se fossem pombos que cheiraram creolina, eles voam sem saber para onde e acabam atingindo os outros pombos ao redor. como sei? É uma historinha que um dia conto a vocês, posso adiantar que vi a cena acontecer bem na minha frente.

  Por essas e outras que recebo também o rótulo de alienado. Rótulo que não gruda na minha testa oleosa. Isso porque parei de publicar postagens politizadas, antenadas, engajadas, activisdas, assadas, grelhadas caramelizadas e cobertas com o delicioso chocolate nestllé. Meu perfil no facebook tem hoje quase nada que possa ser vinculado ao que intelectuais gostam de ver e ouvir, esses mesmos que desdém Adele, por ela não ser um estereótipo da intelectualidade.

  Crianças, o meu trabalho e a minha vida já são muito estressantes por suas próprias naturezas. Eu não vou me desgastar pelo que não vale à pena. E dane-se quem me achar alienado, política NÃO VALE À PENA. Até porque no Brasil não se faz política, é um jogo dos tronos em que patetas seguem seus reis para a morte certa. Eu não tenho heróis, eu não tenho paradigmas, eu não tenho casa própria! Não me levem a mal, e mesmo que levem, dane-se, eu não vou gastar recursos com o que faz muito barulho e dá zero resultado confiável.

  Talvez eu seja um burro, ausente do orbe em uma vida etérea sem ancoragem no mundo palpável. Talvez eu seja um canalha que se finge de burro para distrair suas atenções, afim de fazer tudo por debaixo do pano e derrubar seus heróis ideológicos, religiosos, artísticos, celebráticos, históricos, histéricos e donos da verdade única e absoluta. Talvez esses heróis sejam os canalhas da história, então os burros seriam vocês. Já pensaram nisso?

  Prestem atenção na imagem de texto que utilizei. Vejam, visualizem, mentalizem e meditem. Não é difícil compreender que eu quero e necessito de um mínimo de sossego na vida social, é? Eu não gosto realmente de uma vida social, nos parâmetros usuais, mas tenho que me conformar com esta. Então, se querem continuar a me ver, me ler e me compreender de facto, peço um pouco de respeito, pois se ele falta, tudo mais falta.