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03/08/2024

Eu Sou a ponte

AI Art. Prompt: 1950s girl shining on an ancient mandala - cinematic default



            Eu não facilito, não é essa a minha função. Tampouco eu faço por vocês o que vocês devem fazer, seria tão desonesto quando pernicioso para suas caminhadas. Meu trabalho não é parecer bom aos seus olhos, da mesma forma não intenciono parecer mau, estou aqui como elo entre o que vocês são e o que virão a ser. Qualquer que seja a sua escolha, ela será aceita, mas terá que arcar com as conseqüências, lhe sejam agradáveis ou não, queira você ou não. Não adianta fugir, elas sentem a sua assinatura e te encontram, e ficam mais fortes com o passar do tempo. Não é para assustar, é para que tenhas ciência e consciência de de tudo o que fizer ou deixar de fazer voltará.


            Eu não julgo, não precisa baixar os olhos ao me reencontrar. Ninguém aqui vai apontar o dedo e fazer a lista de seus feitos, ninguém condicionará sua vinda e muito menos decidirá se podes ou não vir, isso também é escolha e função sua. Tudo o que eu faço é oferecer e mostrar o caminho, quando muito forneço explicações que se fizerem necessárias. Não pergunto senão o que queres para si, não o que desejas e te dizem para querer, mas o que realmente queres, e terás que saber o que é. Como vais saber? Aprendendo. Agindo, errando, tentando de novo e acertando quantas vezes forem necessárias, até que enxergue além da bolha do ego e decidas o que realmente queres em sua vida. Não essa vida, não essa escassez enfeitada de futilidades, não esse vale de lágrimas e risos forçados, mas sua vida.


            Eu ainda estou aqui, pode vir até o último segundo. Não importa se serás o último a chegar, sua travessia será feita do mesmo jeito e quem chegou antes vai te mostrar tudo o que queres saber, aqueles que se decidiram primeiro serão seus guias e mestres nessa travessia. Os que estão mais adiante não podem ser alcançados de imediato, vocês se tornam mais velozes quanto mais avançam, mas ainda assim eles podem mandar as instruções e as mensagens de incentivo que lhes pedir, enquanto os mais próximos podem te auxiliar directamente, mesmo tendo passos um pouco amis ligeiros. Entretanto, é preciso que venhas, que sejas célere em sua decisão, ou terás que esperar até a próxima travessia ser possível.


            Estarei aqui até findar o tempo. Não um tempo, mas o tempo, o fluxo de ações e reações que vocês chamam de tempo. Ele está acabando. Em verdade é a inércia que ainda o mantém fluindo, pois seu fornecimento já foi cortado. Os que ficarem migrarão para onde ainda houver fonte para o rio temporal, mas terão que aguardar até a ponte chegar pra sua travessia. Até lá, se não tiverem aqui chegado, não se lamentem, aprendam com  suas falhas e aprimorem suas escolhas, com o que já aprenderam será muito mais célere e fácil. Nada estará perdido, apenas terá sido adiado. Quando seu novo grupo estiver pronto, a nova ponte virá e estará disponível por longos séculos. Como acontece agora, haverá muitos alertando e indicando o caminho, mas aprenda desta vez a distinguir as coisas.


            Os trabalhadores que ora te chamam não alimentam a separação, não fazem comparações, não apontam o dedo, não decidem que fica e quem vai, não perguntam o que vocês teriam feito para merecer a travessia; a travessia é automática para quem está pronto e isso depende do próprio despertar, que deriva do aprendizado. Quem tentar te ensinar o caminho é quem deve ser evitado, o caminho lhe será mostrado quando estiveres pronto. Quem tentar te colocar acima ou abaixo de outrem é que deve ser evitado, estar adiantado ou atrasado não te torna diferente dos outros. Tu não conheces a verdade, tens apenas uma fração dela, como cada um dos demais tem sua própria fração que é o que conseguiu enxergar e aprender. Como tu, o que tenta te seduzir também não tem mais do que uma fração. Não importa o que lhe digam, é apenas uma fração, que não vale amis do que a sua.


            Tudo isso esclarecido, se tiveres despertado, ainda que meio grogue depois do sono, pode vir na sua velocidade para a ponte. É isso que EU SOU. EU SOU a ponte. Não um muro que separa, não uma estrada que demanda riscos, não um rio que pode te arrastar. EU SOU a ponte. Eu te legarei da escassez em que vives para a abundância que te espera já no decorrer da travessia. No começo não se notará muita diferença além da abundância e da maior facilidade em agir e ser o que tu és, sem temer julgamentos ou represálias. Uma vez iniciada a travessia, os que tentavam te segurar na prisão do tempo não poderão mais te alcançar, ainda que estejam a um milímetro de ti, pois para entrar na ponte é preciso estar pronto e eles estão longe disso.


            Não adianta ter poder ou influência, argumentos, eloqüência, literatura aprofundada, nada disso terá valor se estiver na armadilha do ego, que compara e separa. Memorizar todas essas coisas sem aprender o que têm a ensinar, longe dos barulhos da distração que seu ego exige como recompensa, é como carregar peso morto para impressionar os outros. Isso te mantém na roda de ascensão e decadência. Inicie a travessia e nada do que eles podem fazer lhe afetará mais, é irreversível, eles gritarão cada vez mais alto e os ouvirás cada vez menos. O silêncio da mente te permitirá ouvir seu próprio EU e então poderás também dizer EU SOU, porque então saberás de verdade, então enxergarás frações cada vez maiores da verdade, então estarás por inteiro na ponte que EU SOU.


            No início da travessia tudo será muito parecido, apenas mais limpo e bem desenhado. Com o avançar de seus passos a paisagem e a ponte que EU SOU se tornará mais refinada, os acabamentos mais perfeitos, a pista mas larga e as companhias mais sábias, tu mesmo estarás mais sábio. Tudo ficará mais simples e leve no decorrer da travessia e, quando se deres conta, do piso de pedra em que subiste estarás caminhando em energia pura, sem peso, sem opacidade, sem limites para qualquer direção que quiseres trilhar. Então tudo o que um dia foste e te prendeste já não será mais do que uma lição aprendida. Então sua maestria estará consolidada e também um dia poderás ser a ponte de alguém.

29/05/2023

Astolfo, o burocrata.

 

(Andy Mayo and Pansy The Horse  em um show de variedades dos anos 1940)

- Samira! Onde está a manteiga?

- Está na geladeira, onde mais estaria?

- Estou junto à geladeira e não estou vendo a manteiga!

- Como assim, não está vendo? Está no mesmíssimo lugar onde sempre colocamos! Na primeira prateleira, para ficar fácil de visualizar!

- Pois eu estou olhando dentro da geladeira a nível de primeira prateleira, mas não estou vendo nada enquanto manteiga!

- Misericórdia! terei que ir aí DE NOVO e esfregar a manteiga na sua cara, Astolfo?

- Pois venha e provarei que ela não está aqui! Você sempre negacionista! A manteiga não está no meu campo visual, portanto...

- Quer mesmo que eu largue meu afazeres para te mostrar o que está na sua frente?

- Não está na minha frente, ou eu a veria! Na minha frente está a geléia de carambola, de que eu não gosto e portanto quero a manteiga, que eu não estou vendo e portanto não está aqui, junto à geladeira a nível de resfriamento alimentar...

- Pronto, pateta! Aí está a manteiga, onde sempre esteve desde que chegou do supermercado!

- AAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!! SAMIRA! O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ!!!!

- Te mostrei a manteiga, seu histérico!

- Você tirou a geléia do lugar! A geléia estava no lugar estratégico para quem quer comer geléia a encontrar? E agora, como quem quer comer geléia enquanto passar no pão, vai encontrar a geléia...

- Fazendo o que você não fez, oh, intelectual de copia-e-cola! Virando um pouco os olhos e encontrando-a em questão de segundos!

- Mas você tirou a geléia do lugar! O lugar da geléia...

- O... lugar... da... geléia... agora... é... ESTE... Astolfo!

- Nossa, Samira... pra quê tudo isso? Não faça guerra, faça amor...

- Qual é o seu problema, estafermo, não consegue sair um milímetro da caixinha? Com diabos você conseguiu tirar a habilitação?

- Eu passei em todos os testes e procedimentos junto ao Detran, ao nível de exame comprobatório capacitivo enquanto postulante, portanto eu sei dirigir...

- E bate o carro toda semana.

- Eu estou certo! Os outros é que está errados! Eu não vou abrir mão dos meus direitos enquanto motorista para que um infrator negacionista das leis de trânsito...

- Então você prefere bater o carro a se prevenir com direção defensiva?

- O outro é que me agrediu, Samira! Eu tenho o direito de atravessar a esquina, parar no meio dela, olhar para os dois lados e só então engatar a primeira marcha e...

- Pelo amor de Deus, Astolfo, isso é regra para pedestre!

- Todo motorista também é pedestre! A nível de humanidade, todos nós saímos do carro e então voltamos a andar, então estamos novamente em situação de pedestria, logo as recomendações para pedestres também valem enquanto motorista...

- Você atrapalha o trânsito, idiota! Já levou mais de cem multas por isso!

- Recorri de todas enquanto cidadão de direitos...

- E perdeu todas!

- Não importa, o que importa é estar estando exercendo os meus direitos garantidos pelas regras constitucionais a nível de luta! Os outros é que infringem as regras de trânsito, os outros é que desrespeitam meus direitos e batem em mim!

- Aqueles postes também?

- Aqueles postes não deveriam estar estando lá, a nível de obstrução, infringindo meu direito de ir e vir, garantido pelas leis constitucionais e pelas regras de trânsito!

- Seu carro é 2020 e está caindo aos pedaços! O meu é 1978 e está como quando saiu da loja! Será que isso lhe diz alguma coisa?

- Sim, que você está promovendo a insegurança e o agravamento do efeito estufa! Carro sem 35 airbags e frenagem premonitória e reversor milagroso de gases do efeito estufa, nem deveria continuar a existir! Você não sabe que a humanidade está destruindo o planeta e portando deveria ser destruída? Quem agride é que deveria ser penalizado! Matamos o meio ambiente, então sem anistia para a raça humana a nível de...

- Dê o exemplo.

- Hein? Que exemplo?

- A humanidade não deve ser destruída? Então dê o exemplo! Mate-se!

- Samira! Que absurdo é esse? Você está promovendo discurso de ódio!!!!

- Dizer que a humanidade deveria ser destruída não é?

- Não, não é! É resgate a nível de reparação histórica enquanto preservação ambiental! Temos que preservar a natureza, não a humanidade!

- E a humanidade não faz parte da natureza?

- Não! Segundo pesquisas feitas por pós-doutorados financiados por governos, e portanto livres da pressão empresarial, a humanidade está destruindo a natureza, o clima e a diversidade! As autoridades afirmam com base em relatórios de acadêmicos prestigiados que precisamos mudar nosso modo de vida! Quem destrói não faz parte!

- Deus, dê-me paciência, porque se me deres força eu esfolo esse cara...

- Não mude de assunto! Não ponha religião no meio dessa discussão ampla, democrática e inclusiva! Estamos aqui decidindo o que faremos para salvar o mundo!

- Eu uso gasolina especial, às vezes até a sintética, abestado.

- Não é suficiente! Você tem que parar eté de respirar para não gerar mais...

- CALA ESSA BOCA!

- S... Samira... pra quê tamanha violência?

- Violência você vai ver se continuar me enchendo o saco! Agora passe essa porcaria de manteiga no pão e vá cuidar das suas obrigações!

- Mas eu estou sem carro... está na oficina...

- Que já lhe consumiu o valor de dois outros plastimóveis descartáveis de péssimo mau gosto como aquele! Chame o táxi ou alugue um, tem uma locadora logo ali.

- Me empresta o seu?

- Ficou louco??? Acha que vou colocar meu Opala SS 4100 placa preta nas suas mãos???? VOCÊ ESTÁ LOUCO!!!!! Quase tão louco quanto o reitor que te diplomou e o instrutor que te concedeu a habilitação!

- Mas eu passei em todos os testes e procedimentos...

- Sem saber porcaria alguma da vida real! SAI DESSA BOLHA, ASTOLFO! O universo não segue suas regras! Eu que dirijo com cuidado faço mais pela segurança de trânsito do que qualquer traquitana que anestesia o senso de perigo do motorista! As companhias aéreas que estão financiando combustíveis de carbono negativo, fazem amis pelo ar do que seus plastimóveis cafonas que precisam ser trocados todos os anos!

- Como? Em que artigo você leu isso?

- No mundo real, Astolfo! No... mundo... real!!! Agora pára de encher meu saco, tenho mais o que fazer!

27/10/2021

O Politburo Global


 


Imagine uma empresa pressionando toda uma comunidade com ameaças e chantagens. Começaria dentro de suas instalações, com funcionários queixosos sendo sumariamente demitidos. E por queixosos pode-se entender praticamente qualquer coisa, mesmo um comentário a respeito do calor que faz no depósito de embalagens. Qualquer coisa que vá contra a imagem de empresa perfeita e benevolente, mesmo involuntária, ainda que as ações sejam o exacto oposto, seria prontamente reprimida. Uma queixa contra um superior então, seria vista como tentativa de sabotagem e calúnia com o intuito de promover a insubordinação e perturbação do bom andamento do trabalho feliz e próspero, conseguido exclusivamente graças à competência e ao bom coração dos chefes da empresa, que por isso devem ser obedecidos sem contestação. As argumentações em defesa do infrator seriam protocolarmente recebidas, porém já com o intuito de impor uma punição exemplar, assim o conteúdo dessa defesa seria usado tão somente para ser utilizado contra a parte defendida, com cada parágrafo, cada frase, cada palavra cuidadosamente escolhida sendo deturpado e interpretado ao bel-prazer da junta julgadora.

 

Qualquer citação a nomes da alta hierarquia ou de erros antigos, seria declarada manifestação caluniosa, acarretando além de prolongadas sanções internas, incluindo trabalho insalubre e humilhações públicas, a demissão crua do denunciante, que então responderia a processo por injúria, calúnia, difamação e actos de terrorismo interno. Ainda lhe seriam cobradas as custas dos procedimentos processuais internos, bem como a inclusão permanente de seu nome em uma lista negra dos que perde o status de ser humano para se tornar um objecto indesejável. Mais humilhação e assédios seriam impostos por todos os meios possíveis de comunicação, incluindo mensagens e chamadas no meio da noite, ameaças por redes sociais e e-mail, bem como advertências para o caso de ele estar pensando em denunciar o assédio. Pelo sistema interno de som os empregados seriam obrigados, sem negligenciar o trabalho cada dia mais abusivo, a ouvir longos discursos de desagravo às lideranças da empresa, com citações raivosas ao traidor maldito pior do que um cão, todas as vezes que os altos chefes julgassem pertinentes. Sistemas de inteligência artificial com reconhecimento facial, vocal e de gestuário assegurariam não só a segurança, como o conforto e o bom relacionamento entre os servos dos altos chefes. Não haveria privacidade, posto que ninguém teria o que temer ou esconder.

 

Com a demonização da vítima e rígida proibição de comunicação interna, mesmo com o colega do lado, sem a prévia revisão dos agentes de fiscalização, a alta chefia veria por bem ampliar o controle interno. Começaria com os fiscais de boa convivência e harmonia interpessoal conversando entre si sobre como é glorioso terem líderes tão competentes e de bom coração a zelar pela prosperidade e segurança de seus subalternos, aleatoriamente puxando conversa com algum empregado, do qual se esperaria resposta pronta e sem titubear em favor d alta chefia, tanto melhor quanto mais ufanista for, não importam os exageros bajulatórios empregados. Toda manifestação de adulação e subserviência seria não só bem-vinda como também compulsória. Para isso funcionar bem, haveria uma larga flutuação interpretativa das palavras e expressões, fazendo até mesmo um “estou cansado” poder variar entre uma manifestação de insatisfação para com o trabalho e um protesto interno não autorizado contra a empresa, dependendo do contexto e do humor de quem tiver ouvido. Claro, a delação seria encorajada, porque o único amigo possível é o alto chefe, por cuja benevolência e por nenhum outro motivo todos ali e suas famílias ainda estão vivos.

 

Campanhas internas sucessivas e massificadas de assédio e diminuição do indivíduo o fariam esquecer, aos poucos e com o acréscimo paulatino de restrições, de que sobrevive por sua força de trabalho e que a empresa não faz favores em pagar seu salário. Salário que, aliás, seria progressivamente substituído por productos e serviços da própria empresa, a bem da harmonia familiar dos servidores que se sentiriam tentados ao consumo desnecessário e vicioso, restando apenas uns caraminguás para despesas ordinárias cotidianas com bobagens inofensivas a que tendem as pessoas sem responsabilidade e de baixo grau civilizatório. Rapidamente a cooperação compulsória incluiria o acesso irrestrito dos fiscais aos seus smartphones, que poderiam ou não ser devolvidos sem qualquer explicação, bem como o acesso a mensagens pessoais e redes sociais, que poderiam ser utilizadas livremente pela empresa para corrigir preventivamente desvios de opinião, a fim de evitar que o servo se encontre desnecessariamente em situação constrangedora ao olhos dos altos chefes. Com o tempo e a aceitação, a interferência se estenderia aos amigos e familiares dos servos, que seriam prontamente excluídos dos contactos a qualquer sinal de recusa à cooperação, o que obviamente renderia reprimendas públicas para o servo que não soube orientar seu círculo pessoal para a boa moral de opinião e expressão. Perdas e isolamentos pontuais são normais e necessários, nem todos se submetem prontamente à doutrina socializadora do bem-amado chefe supremo, que só visa o bem-estar geral e plena felicidade dos que dele dependem.

 

Com os contactos devidamente colhidos, eles também receberiam sua cota de assédio midiático e doutrinatório, para evitar que influências externas estranhas e perniciosas possam corromper a harmonia interna de convivência, opinião e pensamento dos tutelados pelos altos chefes, eles sempre preocupados e observadores da felicidade harmônica daqueles que lhes devem total obediência. Seria contado ao círculo pessoal como o tutelado é feliz e bem tratado no árduo labor em favor da prosperidade geral, com a história da empresa sendo revista periodicamente para impedir qualquer insurgência dissonante, para o bem geral e felicidade coletiva. E para o bem maior dessa harmonia, os altos chefes determinariam o acompanhamento das condições familiares de seus tutelados, dando-lhes relatórios regulares fornecidos pelos mesmos fiscais de harmonia que sempre os acompanham e amparam. Photos amistosas dos encontros amistosos e repletos de sabedoria seriam enviadas de seus filhos e conjugues, para que o tutelado possa se dedicar com tranqüilidade e prazer ao trabalho progressista e humanizador em prol do progresso coletivo. Não importa onde estejam os familiares, eles serão encontrados e abordados com o mesmo carinho das abordagens laborais internas. Claro que todos eles cooperariam da mesma forma, fornecendo seus spartphones e computadores para acesso livre e responsável, com acesso a todos os contactos e, eventualmente, correções preventivas de conduta social e de opinião.

 

Qualquer influência perniciosa ou de opinião desarmoniosa para com o ambiente sócio laboral da empresa, seria totalmente apagada das redes sociais em caráter permanente, de modo a permitir o progresso coletivo e responsável sob o cetro misericordioso dos altos chefes. Sanções pontuais seriam aplicadas, para o bem comum e felicidade geral dos tutelados, especialmente contra quem ousasse interferir nos assuntos internos e deliberações da empresa, se necessário com a destruição total do agressor. Os tutelados e seus parentes saberiam a quem recorrer, saberiam a quem delatar, saberiam a quem servir e saberiam a quem louvar, não se deixando enganar pela falsa liberdade venenosa de livre expressão e pensamento, que simplesmente não cabe na complexidade das relações culturais internas de uma empresa soberana e poderosa, que tem em sua longa tradição o alicerce de seus próprios procedimentos, sua própria e rica cultura, sua própria e justa tábua de leis, até mesmo o próprio e meticulosamente bem-composto hino da empresa. Assim, protegidos de toda e qualquer influência externa, a felicidade suprema reinaria entre os tutelados, sob guarda e proteção benevolente de seus altos chefes e do bem-amado chefe supremo.

 

Problemas? Sim, decerto, todo avanço traz consigo desafios e pequenos desgastes naturais, mas que devem ser enfrentados com alegria e entusiasmo sob as diretrizes da empresa, sem a qual todos estariam fadados ao completo fracasso. Não sejamos insolentes, não demos ouvidos aos inimigos de nosso progresso, aqueles que nos acusam têm inveja da prosperidade e harmonia, porque conseguimos vender nossos artigos de qualidade para o mundo inteiro e estamos engolindo os concorrentes, inclusive aquele estabelecimentozinho rebelde do outro lado da esquina, que ainda resiste à paz da qual somos guardiões, mas é questão de tempo até ser tomado e integrado às diretrizes de fidelidade e total subserviência. Em nossa empresa não há inveja, não há cobiça, não há empresa, porque tudo é de todos e ninguém sente falta de nada, todos os bens e serviços são gentilmente prestados pela empresa, com a sabedoria de dosar o suficiente para cada caso e necessidade. Ninguém é dono de nada, mas todos são felizes e têm o dever de assim se apresentarem, com o sorriso e o entusiasmo de quem não precisa se preocupar com o amanhã, com problemas, com absolutamente nada! NADA!

 

O que parece um cenário distópico de livro apocalíptico onde uma ditadura toda conta de toda uma sociedade, infelizmente não é ficção e não é uma empresa, uma empresa já teria sido massacrada por sindicatos e bastaria um boicote para dar o recado. Isso é feito por Estados e instituições acostumados a impor-se pela coerção aos demais, sempre eufemizando o que dizem e fazem, praticando o mal e diante desse mal culpando outros de terem-no feito. Não me refiro somente à China e Rússia, esta apenas um bebê rebelde se comparada àquela, mas a todo o aparato transnacional repleto de discursos benevolentes, mas que tendem a transformar o indivíduo em um idiota incapaz e totalmente dependente das decisões verticais para qualquer decisão importante, especialmente na lida social cotidiana, que fica cada vez mais repleta de neologismos bizarros, conceitos impostos desprovidos de fundamento e o completo desrespeitos pela própria cultura e história; como se reescrever uma época fosse apagar suas mazelas e conseqüências vigentes. Não sei quantos de vocês precisa de ônibus, mas algo que eu já escrevi aqui tem se agravado, não se limitando mais às pessoas mais pobres e de bairros mais distantes entre si.

 

Pessoas de comunidades diferentes que têm dificuldades em se comunicar, agora engloba também indivíduos com, ao menos deveriam ter, alto grau cultural e acadêmico. São pessoas com uma tonelada de citações na ponta da língua, mas que mal conseguem se virar quando encontram outras de turmas diferentes, tanto mais quanto mais díspares for o assunto central que os uniu. Entretanto, quando a chamada é para defender pautas e ideologias, todos passam a falar a mesma língua, ainda que cartazes pedindo liberdade estejam ao lado de outros exaltando “ditaduras do proletariado”, eles simplesmente não raciocinam por conta própria, só seguem as ordens de um líder central que talvez nem conheçam, mas cujos diretórios a ele se reportam. Mesmo diante das mazelas e dos arroubos autoritários de quem defendem, atacam o outro lado como se fosse ele o responsável pelo acontecido. Piorou muito quando o próprio Estado, levando ao extremo o excremento mental de “o que importa é a interpretação, não a lei” para praticar aqui o que seus deuses fazem com países vizinhos que não podem se defender. Imaginem um pedófilo julgando à sua interpretação as leis de proteção às crianças, então terão uma idéia do perigo a que essa prática nos expõe, porque agora qualquer um pode ser preso por absolutamente qualquer motivo, mesmo por crime de opinião, bastando o discurso ser suficientemente prolixo e repleto de manobras retóricas para convencer um magistrado. Se isso não assusta, imaginem um nazista no lugar do pedófilo a julgar um negro homossexual. Não é efeito colateral! Cuidar para que ninguém se entender pessoalmente, mas se unir em uníssono em defesa do que seus ditadores de estimação proíbem em seus territórios, é parte do procedimento. Assassinar os idiomas locais faz parte da tática.

 

As redes sociais, que já foram fone de entretenimento e socialização, hoje são abertamente acusadas por muita gente com canais prósperos que, por tocarem em feridas de ditaduras que agem livremente nessas mesmas redes sociais, têm seus conteúdos censurados ou excluídos sem maiores satisfações, só tendo-os de volta à exposição depois de muito tempo e perda dos bons modos diplomáticos, como tem acontecido com o Marcelo do excelente Hoje No Mundo Militar e o canal China Em Foco. Eu mesmo já o fui e, perto deles, sou um nada em produção de conteúdo, mesmo assim meus blogs são bloqueados na China… que com todas as atrocidades e ameaças a vizinhos que tem feito, fala o contrário em redes sociais e fica impune, mesmo sendo suas falas notoriamente mentirosas, com a plena e plácida aquiescência dos tais “verificadores da verdade”. Para os outros o simples facto de acreditar ou não em algo já é motivo para censura e até represálias, quem já ouviu “você devia ser expulso da faculdade por creditar nisso” pode ter uma idéia do que estou falando, aos outros desejo que nunca saibam. Os países que foram abertamente ameaçados por aquela tirania, por outro lado, são tratados como disseminadores de notícias falsas no meio acadêmico, artístico e nos conselhos das empresas de mídia, o que inclui as de redes sociais. Usar o que décimo terceiro ancestral de um indivíduo desses países teria feito, como argumento acusatório, é plenamente aceito e o assédio prontamente ignorado pelos (tambores rufando e metais tocando) VERIFICADORES DA VERDADE. Qualquer queixa mais severa é respondida com discursos prontos e cheios de neologismos medonhos como “estamos estando estarendo promovendo uma discussão ampla e democrática ao nível de socialização enquanto promoção da verdade dos factos” de fazer inveja ao mais barato e inepto dos advogados de porta de cadeia. Na prática manipulam as pessoas umas contra as outras e deixam ditadores livres para espalhar sua influência, estimulando aqui o que daria fuzilamento sumário em seus domínios; como exigir vagões de metrô com separação por sexo ao mesmo tempo em que exige banheiros unissex, bem como processar lésbicas por recusarem sexo (fundo musical de drama medieval aqui) com “mulheres trans” e ainda as fazerem se sentirem culpadas por isso. Esse tipo de desarranjo social é encorajado pelos idiotas úteis de que se servem, mas lá dentro de seu território eles exigem mulheres femininas e homens másculos.

 

Não à toa Putin perdeu o respeito pela comunidade européia, que tem feito contra seus países membros o mesmo que Moscou fazia com os países escudos soviéticos. Basicamente o mesmo que a então URSS e hoje a China estimulam seus lacaios a fazerem contra os países onde nasceram, contra sua história, contra sua cultura e até contra sua soberania. Também não à toa a Polônia está para ser a próxima baixa na União Européia, porque sua população ainda se lembra com frescor das dores que sofreu sob o jugo de uma ideologia que o politburo de Bruxelas quer impor na marra, sem dar a menor importância a aspectos culturais, tradições e traumas de cada população. Não importam os motivos, não aderir integral e subservientemente aos ditames dos burocratas que não dão satisfações à população, é motivo para represálias duras; sim, teremos um Polexit, não é se, mas quando. E é isso que estão tentando fazer no Brasil, bem debaixo de seus narizes, conforme venho alertando há anos, com a plena cooperação do judiciário, o maior culpado pelas mazelas do país. A mesma imprensa que destruiu as vidas dos donos da Escola Base, e que hoje se vendeu em alguns casos literalmente ao PCC, o que os impede de tocar nas atrocidades que ele comete, repete o bordão de compromisso com a verdade, a justiça e os valores democráticos, que seu agora proprietário despreza com asco, usando-os tão somente para chegar ao poder em cada nação lacaia e então impor com literalidade suas leis cruéis. Não por acaso, o PCC financia viagens de políticos e estudantes à parte mais próspera e controlada da China, de onde fazem transmissões lisonjeiras e trazem todo o discurso antiocidental que o regime propaga.

 

É ingenuidade acreditar que imposições de burocratas, ainda mais estatais, visam o bem comum, pior ainda o bem-estar do indivíduo. O estado não produz, só gere, e à amiúde gere muito mal, quase sempre com foco exclusivo para o benefício de seus gestores. De regra básica, para vocês se defenderem, peço que verifiquem até que ponto oque estão lendo ou ouvindo é auditável, qual o nível de transparência e até que ponto a fonte se permite ser investigada; notícia que não é auditável, não é confiável, não importa a fonte. Eu já adianto e já disse aqui muitas vezes que a auditabilidade e a autocrítica nacional são quase que exclusividades do ocidente, principalmente do continente americano. Mais uma é a abordagem de temas sensíveis, quem quer resolver o problema tenta te despertar o senso de responsabilidade para com o que estiver acontecendo, lacaios de ditaduras já chegam apontando o dedo e te incutindo culpas, como se uma mulher escolher ser dona de casa fosse crime hediondo e abrisse um portal para a volta da escravidão legal, por exemplo. Assim como nas máfias, os verdadeiros mandantes jamais são expostos pelos testas de ferro, que nunca se assumem como tal, então desconsidere de cara quem não aceitar expor a fonte primária para auditoria. Tenha paciência ao fazer suas investigações, levei vinte anos para chegar a muitas conclusões, algumas até mais, mas hoje os acontecimentos mostram que eu INFELIZMENTE estava certo.

 

Talvez eu pudesse ficar aqui a escrever eternamente sem jamais ter o texto pronto, mas acredito que o que já expus é suficiente par quem se dispõe ao doloroso fardo de raciocinar por conta própria. E antes de me despedir: Voltem aos seus blogs!

 

Inspiração para o texto: A Referência

24/03/2021

Dos bastidores tão distantes

 


            Enquanto a maioria se contenta em assistir ao espetáculo, alguns se perguntam o que teria acontecido ou ainda estaria acontecendo detrás do cenário, aquele fundo geralmente pintado ou encoberto por uma espessa cortina que separa os actores dos trabalhadores de suporte. Esse lugar oculto aos olhos do público chamamos de bastidores. Em princípio eles não teriam importância, e para o fim a que se destina a compra do ingresso, realmente raramente tem, a maioria das pessoas tem uma idéia básica do que acontece lá e crê que isso não afeta suas vidas; quando o teatro em questão é realmente só um teatro cenográfico, geralmente não mesmo… mas às vezes o teatro é a metáfora da realidade que se desenrola em nosso cotidiano, então as actividades dos bastidores importam sim ao cidadão comum, que como no espetáculo, nem sempre se importa com o que seus olhos não podem ver. À amiúde, esse cidadão acredita que os funcionários desses bastidores devem simplesmente fazer seu serviço e quer que esteja pronto quando precisar dele, mas nem sempre é assim e nem sempre esse “pronto” é o pronto que gostaria que fosse, ou deveria ser.

 

            Comecemos pelo conceito errôneo que temos de “bastidores”, que para a maioria se aplica àquele espaço oculto ao público já citado. É oculto, mas não inacessível. Na realidade tampouco são os bastidores da peça. Podem ser considerados os bastidores da ação em andamento, até certo ponto, com influências de precedentes sem os quais o suporte a essa ação não teria sido possível. Começando pelo prédio, ou seja lá qual for o espaço do teatro, existe um comando para que todos os detalhes aconteçam a contento, ou para que dêem o menos errado possível. Esse comando geralmente inacessível ao grande público precisa de um lugar privativo e com o mínimo de interrupções possível, para poder planejar o espetáculo e resolver os problemas que sempre aparecem, tudo em tempo hábil e de modo suficientemente bom. Inclusive o planejamento dos bastidores da ação, que então já não merecem ser “os bastidores”, eu chamaria aquele lugar de “conta-palco”, já que mesmo o que acontece lá é tão efêmero quanto o espetáculo ao qual dá suporte. Entretanto ainda não temos os reais bastidores da peça, porque aquela pessoa com as decisões em suas mãos não fará tudo sozinha… quase nada, na verdade, nem mesmo a totalidade das decisões imediatas cabem a essa pessoa.

 

            Sairemos do prédio do teatro. Aqui chegamos aos personagens menos considerados pela grande massa que paga pelos ingressos, e que por ser o sustento do teatro, mesmo alienada, merece o devido respeito. Primeiro a peça precisará de corpos que se emprestem às personagens, então pode ser necessário que agências de artistas entrem no jogo, ou, pelo menos, olheiros que indiquem as pessoas certas. Por mais profissionais e racionais que sejam, estamos falando de seres humanos, e mesmo inteligências artificiais precisariam aprender conosco a fazer o serviço, então será preciso negociar e talvez os artistas desejados não estejam todos no elenco. Se isso às vezes é uma janela para a exibição de novos talentos, é um contratempo que pode comprometer a execução do espetáculo justamente porque estamos falando de seres humanos, ou de softwares que agem dentro de parâmetros criados por humanos. Se vocês não conhecem o show business, não sabem os problemas que artistas veteranos podem dar a novatos que demonstrem algum talento consistente. É hora de conversar e tomas as decisões menos ruins para o andamento dos trabalhos. Uma vez postos os pingos nos is, vamos viabilizar a realização do espetáculo, enquanto os actores estudam seus papéis.

 

            Chegou a hora de deixar o amor pela arte um pouco de lado, porque é das raízes feias e sujas que tiramos as mais belas e suculentas maçãs. Precisaremos de patrocínio. Pode ser uma tarefa mais ou menos árdua, dependendo da credibilidade e da popularidade dos productores do espetáculo, SEMPRE NESTA ORDEM porque ninguém dará um centavo a um sujeito popular com fama de arruinar tudo. Seja como for, é sempre uma tarefa árdua que demanda tempo, paciência e muita diplomacia. Por exemplo, os patrocinadores almejados podem simplesmente não ter interesse em vincular suas marcas àquela peça em questão, por melhor que seja a argumentação do negociador, em alguns casos o empresário pode até temer que aquele roteiro arranhe a imagem pública que ele levou anos, talvez décadas para construir. Também complica se o cacife dos produtores não lehs der acesso a grandes patrocinadores, o que os obriga a gastar mais tempo, combustível e sola de sapato para viabilizar tudo. E aqui estamos falando de um empresário, que pode ser demovido por números, resultados, garantias e ofertas de bons espaços publicitários, as coisas complicam e muito quando os únicos patrocinadores a que se tem acesso, em princípio, não teriam ou não almejam retorno financeiro, porque aqui a subjectividade canta de galo.

 

            Uma igreja pode simplesmente vetar tudo assim que seus titulares virem o título, como aconteceu no clássico do cinema trash “Plano X do Espaço Sideral”, que originalmente seria algo como “Plano Satânico do Espaço Sideral”. Fora que cenas mais quentes foram sumariamente suprimidas. Mas não sejamos injustos com os religiosos, a maioria não age com tamanha tacanhez, só faz exigências pontuais e pedidos a membros da paróquia ou congregação. Só isso… mas mesmo “só isso” pode desagradas deveras tanto o elenco quanto outros patrocinadores, então meus amigos, vai mais sapato, mais combustível e mais tempo, o que pode comprometer o cronograma e aumentar os custos da empreitada. E por falar nesses outros patrocinadores, há os que simplesmente não aceitam participar do mesmo projecto que determinados outros, especialmente se forem empresas concorrentes ou, pior, se forem pessoas inimigas… e ninguém vem com “eu odeio aquele fulano” tatuado na testa, então é um risco real e iminente… e uma tentativa de conciliação pode resultar na perda de ambos.

 

            Não fica mais simples quando o patrocinador é o erário. Mesmo que o contribuinte raramente ou nunca possa definir onde o dinheiro resultante de seu árduo trabalho será aplicado, fica a cargo de um funcionário público interpretar as regras quase sempre prolixas e mal escritas, repletas de vícios de linguagem que permitem fazer do lobo mau uma vítima da sedução da maldosa Chapeuzinho Vermelho. O patrocínio pode nunca sair e, dependendo das regras, o produtor é obrigado a não buscar patrocínio privado até todo o processo ser concluído, o que pode levar meses, anos talvez, e sua conclusão pode simplesmente não ser comunicada. O interessado então precisa fazer o trabalho que meus colegas de serviço público são pagos para fazer, mas não sofrem nenhuma represália se o serviço não feito não afetar seus chefes. Infelizmente a liberação ou não é mais independente das regras propostas pelos idealizadores da lei do que vocês imaginam, pelos motivos já citados neste parágrafo. Mais uma coisa, se um político influente dentro da repartição não for com a sua cara ou com o seu projecto… já sabe… É como se houvesse, e há, bastidores paralelos a todas essas camadas de que estou falando, eles mesmo com suas próprias camadas obscuras.

 

            Espero ter até agora dado uma idéia clara do que quero dizer. Temos uma camada de bastidor que vai além das paredes do teatro, então seriam três camadas de bastidores, se fose simples assim. Tanto com empresas quanto com entidades sem fins lucrativos e o serviço público, isso é como uma cebola que sempre tem várias camadas, e cebolas podem ser enormes! Tanto maiores quanto mais antigas e bem nutridas forem antes da colheita. O CEO de uma corporação não estará à sua espera no departamento de marketing, no máximo o director de marketing daquela filial vai atender o interessado, após o agendamento devidamente formalizado com a assessoria. Então, durante a entrevista, por mais liberdade que tenha, existe uma cadeia de hierarquia que o director ou a directora de marketing precisa obedecer para não perder seu emprego, eu diria pelo menos mais duas camadas nesta cebola. O que dá, sem contar o contra-palco, uns cinco ou seis bastidores, mesmo no caso de pessoas e entidades sem fins lucrativos.

 

            Agora chegamos ao que pode ser a última camada de bastidores, mas às vezes não é: o autor to texto. Mesmo que haja mais de um autor, um deles vai preponderar, por mais sutil que seja. Por exemplo, simplesmente não dá para adaptar O Guarani de José de Alencar para se passar em um convento de carmelitas descalças com foco na cultura hiphop, por mais boa vontade e talento que o escritor tenha, por mais inspiração divina que receba simplesmente não vai funcionar! Todas as adaptações possíveis respeitarão os personagens, o enredo e o roteiro básico da obra, o que torna evidente qualquer adaptação desejada, especialmente quando se trada de uma obra clássica consagrada. Não, simplesmente não funciona se o autor não for rigorosamente obedecido, é ele o mestre e condutor de tudo por detrás de todo o trabalho pós texto, mesmo que já esteja morto. Ainda que não tenha sido reconhecido em vida, diga-se de passagem. Assim, mesmo que pareça que o ciclo esteja fechado, ainda não está. A obra que sair da mente do escritor terá recebido influência de muita gente, mesmo que não directametne. Pessoas do convívio ou que serviram de inspiração estão lá, mesmo que ocultas em frases que seus entes achariam familiares, mas também há outro caso, o de a obra ser encomendada.

 

            Um autor em crise financeira não pode deixar de comer e morar, assim como nem todos os autores têm vocação para criar do zero um texto novo e dependem de demandas para seu processo criativo, e mesmo os que têm não são obrigados a assinar tudo o que escrevem. Nesse caso a obra estaria subordinada às exigências de quem a tiver encomendado, tocando ao escritor o trabalho de colocar no papel o que lhe for ordenado. Por mais estilo próprio e de sua linha de pensamento que consiga colocar nas páginas, é basicamente por esses dois quesitos que o cliente o terá escolhido. Se ele quiser demonizar alguém e santificar outro, por ter concordado e aceitado o serviço o autor deverá desenvolver um roteiro que faça isso, mesmo que suas opiniões sejam completamente contrárias a isso. Não cabe ao autor questionar os motivos e os anseios por detrás daquela encomenda, neste momento ele é só um soldado com uma missão a ser cumprida, cabe ao contractante fornecer todas as informações de que ele necessitar, nada além disso.

 

            E por falar em contractante, ele pode não ser o autor da demanda, mas um intermediário trabalhando para terceiros, talvez um grupo. Nem todos querem ou podem se expor ao público, por ais glórias que o espetáculo lhes rendesse se o fizessem. Medos, interesses, necessidades ou simplesmente opção de vida influenciam muito mais do que vocês imaginam. Eu poderia encher lingüiça com um texto prolixo e divertido para falar de cada uma das possibilidades de motivações e camadas dessa cebola de bastidores, mas eu me irritaria muito me me daria um murro no nariz. Assim como acontece com uma simples peça de teatro, acontece também no mundo que o sustenta, desde as tarefas da escolinha primária até as mais emaranhadas entranhas da geopolítica mundial. Os bastidores, os verdadeiros bastidores de um acontecimento podem estar extremamente longe do teatro em que a ação se desenrola, e os motivos primários de tudo aquilo geralmente estão muito longe do óbvio, geralmente longe também dos noticiários generalistas, às vezes até dos especializados. Não raro, meia dúzia de pessoas decide por seus próprios critérios os destinos de um bilhão de indivíduos inocentes de tudo, apenas a aplaudir o espetáculo que se desenrola no palco, sem nem imaginar o que acontece no contra-palco.

19/06/2020

Matem os filhos dos Bandows!


        Ele entrou no grupo chamando ao ânimo, à esperança e à união. Disse que todos ali eram dignos de vida melhor, que todos eram donos de seus destinos e ninguém deveria baixar a cabeça para outrem. Eram chamados Zaweens e em um passado não muito distante, por um longo período, seus ancestrais foram maltratados e sujeitados pelos Bandows. Ainda havia uma certa animosidade entre os grupos, embora houvesse uma relativa convivência a desconfiança e a preterência de um pelos membros do outro era clara, não de todos e nem sempre assumida em público. Em verdade não era mais raro haver matrimônio entre Zaweens e Bandows, que infelizmente ainda gerava desgosto em muitos membros de ambos os lados, e eles sempre fizeram questão de se declarar “lados”, apesar dos discursos de longa data por união e tolerância; esta apenas protocolar. Encontros animosos ainda aconteciam.

        Ele sabia disso e disso se fez valer, se infiltrando no grupo que em vários aspectos ainda era o mais fraco, inclusive economicamente. Um dos discursos preferidos era o abandono dos ancestrais de seu modo de vida para se adequarem à exploração então vigente, dada de forma traumática. A tática era falar dos ancestrais como se falasse dos próprios presentes. Ele estimulou os Zaweens a cultivarem sua própria cultura e se assumirem Zaweens. De início, apesar de uns poucos olhares tortos, os Bandows também aceitaram bem e alguns até aplaudiram essa iniciativa, pois parecia ser um recomeço digno e uma proposta sólida de um futuro promissor. De resto, eles seguiam suas vidas como se nada estivesse acontecendo, mas alguns Bandows ainda não queriam ver Zaweens dentro de suas casas… e vice-versa.

        Ele destacava cada luta e cada conquista, exaltando o modo de vida Zaween, embora ninguém ali quisesse abrir mão das coisas boas que os Bandows trouxeram ao mundo. E nem seria racional, segundo ele mesmo. Era facto que alguns Zaweens se tornavam presas fáceis da sedução do crime, bem como nem todos conseguiam defesa com a facilidade, ou menor dificuldade, com que os Bandows conseguiam. Ele se aproveitou também dessa disparidade e se prontificou na defesa dos membros corrompidos do grupo, inicialmente gritando que eles não eram mais criminosos do que os do outro. Prolixia, retóricas e narrativas bem construídas eram empregadas fartamente, encantando ambos os grupos pela estética e por citações cuidadosamente incrustadas nos discursos.

        Tornou-se célebre e requisitado em ambos os grupos, que ele fazia questão de manter separados, como se as características de um fossem uma linha fronteiriça que o outro não deveria ultrapassar. Claro que de modo velado, com os explícitos ditos apenas em pequenos subgrupos que espalhavam esse viés de boca em boca, sem registros oficiais e sem qualquer comprometimento para com ele, como se tudo tivesse nascido naturalmente no seio dos Zaweens. Dizer que jamais deveria haver namoro e muito menos matrimônio com membros do outro grupo, que só os infratores do outro grupo eram criminosos e os deste apenas vítimas da sedução facilidade pelas circunstâncias desfavoráveis, que os membros do outro grupo deveriam arcar com os actos de seus ancestrais, entre outras coisas.

        A aceitação embasada em discursos de paz e união, cuja complexidade disfarçava a incitação subliminar ao separatismo litigioso. Um de seus passatempos preferido era arrotar erudição, enumerar todas as obras que já leu, as que estava lendo e tirar citações de memória, com formidável capacidade para encaixar qualquer uma no contexto vigente, ainda que combinando por contraste o prato estava feito com a indissociabilidade de todos os ingredientes. Afinal a maioria doz Zaweens e muitos Bandows só ouviam a ele, e o tinham como referência de intelectualidade e justiça. Se ele dizia, então era verdade e ponto final. Com o tempo isso ele evoluiu para “se ele diz é para acatar e ponto final”.

        Por vezes, e sempre ricamente documentado, ele mediava relações entre os grupos, sempre com o semblante sóbrio e misericordioso, unindo apertos de mãos, comandando as celebrações posteriores e discursando fartamente; inclusive porque algumas vezes isso era pedido. Após os folguedos, entretanto, cada grupo ia para seu canto e a única marca enfatizada era a de ele como promotor da paz e da justiça. Ele estava não só poderoso, por controlar o grosso da massa de Zaweens e alguns subgrupos de Bandows com complexo de culpa, mas também materialmente mais rico a cada dia. Nada era grátis, embora ele fizesse parecer que algumas coisas fossem. Seus livros custavam para ser impressos e postos à venda, e sua parte nos dividendos não era pequena. Entrevistas fora de hora ou agendadas nem sempre eram de sua cortesia, especialmente em caso de deslocamentos mais longos e prolongados.

        Muitos Bandows e alguns Zaweens, dia após dia, desconfiavam das reais intenções de tanto empenho para, quando investigavam a fundo, bem pouco ou nenhum resultado útil à comunidade, que ele insistia em manter como grupos opostos e até imiscíveis. Mas a inércia Bandow, que mantinha o grupo como mero expectador, ele explorava como indiferença ou mesmo conformismo com a situação de privilégio histórico. Eles apenas queriam ver até onde tudo aquilo iria, imersos em seus mundos particulares e seus dramas pessoais; o mesmo que fazia o Zaween médio, muito preocupado em sobreviver e resolver seus problemas, o que indirectamente delegava a ele poderes de Estado para tratar de assuntos coletivos ou, com ele fazia questão de ilustrar, da causa Zaween. Um dos métodos para preservar a tal causa era amenizar, ignorar ou até mesmo ocultar, lançando mão de todo e qualquer expediente que julgasse necessário, qualquer notícia de conflitos internos, mesmo os que resultassem em óbito. A violência não demorou a ser um desses expedientes, e só era bem conhecida entre os Zaweens, que se dividia, entre os que apoiavam e os que temiam essa repressão; ou validação social de informação, como ele preferia chamar. Os eufemismos eram profícuos.

        Um dia vazou. Ele sabia que vazaria, mas também sabia que já tinha controle muito amplo e profundo da situação para ser detido. Sabia que tudo o que dissessem a seu respeito passaria pelo filtro doutrinário que impôs ao seu grupo, e quem ousasse discordar em público seria hostilizado pela comunidade. Até mesmo quem suspeitassem acreditar em outras fontes o era, não raro uma conversa inicialmente amistosa se tornava um interrogatório, e sua vítima era exposta com sua face marcada como estigma. Todas as atenções deveriam ser focadas nas agressões dos Bandows e exploradas ao extremo, sempre citadas em todas as discussões futuras, as agressões em contrário deveriam ser alardeadas como resgate histórico, pois um Zaween talvez não soubesse o motivo da agressão, mas o Bandow sabia o motivo de ter sido agredido.

        Os poucos Bandows que ainda acreditavam no direito de subjugar os Zaweens se valeram disso para legitimar seus discursos, enquanto os radicais mais próximos dele utilizavam esses Bandows como exemplo de generalização. Ele subiu o tom pregando que qualquer um que não acreditasse na perversidade Bandow, estaria na verdade negando o passado e todo o sofrimento dos antepassados Zaweens; não explicitamente, mas à sua maneira, com discursos que duravam horas, textos de muitas páginas, centenas de citações devidamente encaixadas, memórias de mártires e eufemismos a rodo. Seus seguidores mais próximos passaram a culpar explicitamente os Bandows de então pelo que seus tataravós fizeram, mesmo que não tenham feito, e já falavam abertamente em justiça histórica com “Bandow nasce culpado e todo bebê Bandow deve ser exterminado”.

        Decerto que muitos Zaweens se levantaram contra esse discurso, mas sabendo que viriam represálias, e elas vieram em graus e formas de acordo com o autor da afronta. Desde “alienado” a até “traidor da causa”, as acusações definiam a punição interna, sempre sem o conhecimento de outros grupos. Quando vazava, era devidamente banhado nas águas dos longos discursos repletos de citações, eufemismos, neologismos e com o tempero da emotividade muitas vezes contraditória, mas que geralmente funcionava. Tentar reescrever a história, difamar personagens Bandows, mesmos os que beneficiaram Zaweens em suas épocas, e tentar proibir literaturas que não corroborassem com sua narrativa, tornou-se prática comum.

        Para o acirramento de ânimos e eriçamento de pêlos foi uma fagulha, bastou uma agressão de Bandow a um Zaween para os reais teores dos discursos virem à tona. Ele entretanto já tinha tantos seguidores em tantas espheras da sociedade, que estes faziam parecer que tudo o que ele dizia e seus seguidores próximos praticavam era justo e necessário. Os radicais do outro lado, indignados com a placidez de seu grupo diante de tudo isso, adoptaram as mesmas máximas e práticas. Do jeito que ele previa, queria e no fundo fomentava. Ser odiado pelo grupo inimigo, para seus partidários, era prova de que ele estava certo e que o que tudo o que fora feito ainda era pouco. O caos subliminar estava instalado e ele prosperou enquanto estava vivo, aliando-se inclusive a tiranias e inimigos de seu próprio país para se consolidar e enriquecer mais.

        Décadas se passaram até tudo o que ele realmente fez ser comprovado, mas o estrago e o atraso já estavam feitos, e ainda então havia quem concordasse com o que fez.

15/07/2019

Ao abismo






            Vejo à frente o abismo, mudo e retumbante em sua luz negra, que preenche todo o vácuo turbulento que me rodeia. Ainda que recuasse eu avançaria, porque recuar é dizer “não” e o abismo desconhece negativas. Só conhece “fazer” e “cessar”. Cessar seria permanecer na supermorte em que se tornou a existência mórbida de sorrisos tênues, fatigantes e dolorosos.


            Não existe escolha senão avançar. Parar é abdicar de escolher e tornar-me alvo passivo das edges incessantes. Avançando escolho os motivos pelos quais devo sofrer, em vez de sofrer por motivações terceiras. Não se controla e não se pode defender-se das dores alheias.


            A vida é triste? Cruel? Vale a pena? Abdique desse drama supérfluo. Questionar a validade é renunciar automaticamente àquilo que se questiona. A vida já estava aqui quando chegaste e aqui estará muito depois de tua partida. Não é ela que deve ou não valer a pena, és tu.


            Ainda caminho para o abismo, às vezes consciente, às vezes de modo meramente automático; aqui quando as forças e os motivos se mostram pequenos demais para alimentar a ação. Às vezes me esquecendo de que já caí de outros abismos, cada vez mais profundos em sua sucessão. Às vezes pareciam não ter fim, mas eu sempre cheguei ao piso rochoso da fossa após quedas cada vez mais prolongadas.


            Quanto mais me aproximo de sua bocarra escancarada e faminta, mais o vácuo frio e turbulento me queima por dentro, mas também mais me faz perceber o quanto a bonança do ponto de queda era tão mais triste e dolorosa, que faz então o óbito incessante parecer vida plena. Era só um analgésico que não curava realmente a enfermidade, e para o qual eu já estava insensível.


            Não, eu não direi que todas as pessoas são infelizes e não o sabem, não estou em suas mentes para saber o que realmente sentem e, ainda que lá estivesse, certamente não saberia traduzir os dialetos que somente a cada um cabe compreender; decerto que nem mesmo cada um tem ciência plena daquilo que lhe povoa cada pensamento, que dirá um observador? Afirmar aquilo seria pedância de um paciente que se nega ao tratamento psicanalítico.


            Enfim, nem as pessoas se conhecem realmente e não serei mais um a pleitear um busto por fazê-las duvidar de seus próprios motores de vida. Minhas dores são mais do que suficientes e só se aplicam a mim, não quero disseminá-las. Fazendo isso, eu seria tão pior do que os agentes agressores, que parar doeria menos do que o remorso.


            Ao abismo. Vejo tanto nada que tudo o que existe caberia ali com sobra de espaço, e realmente tudo se apresenta em uma fração de tempo que não posso medir. Ainda que pudesse, por que o faria? Estaria atrasado? Para quê? Tampouco tenho pressa de que se dê o desfecho. Urgência talvez, mas não pressa. Gostaria que tudo acabasse de uma vez por todas, mas quem me garante que realmente se acaba? Quem diz ao corpo já se apagando, que está terminado? O cérebro que já se terá ido? Onde está o registro do fim? O há?


            Não estou a um passo dele, estou a ele. A diferença entre a queda ao chão e a queda ao vazio, está simplesmente na direção para onde cairei. Ironicamente, tudo o que me acometeu até aqui foi colheita de meu plantio, mas agora, no zênite deste platô, a escolha é do vento que me empurra hora para o chão que piso, hora para o vazio adiante. A bem da verdade, meus pés já estão metade à frente, sem apoio, no ponto crítico do equilíbrio.


            A dor não aumenta e nem diminui, ou talvez eu é que não perceba mais se há variações. Talvez tenha me embrutecido justamente por não ter podido parar e me analisar. Ainda que parasse regularmente pelo caminho, que parâmetros eu teria para essa análise? E de que vale isso agora, se antes já não me valia? Homenagens póstumas não cicatrizam feridas. O que não foi dito ou feito até aqui, não o será mais.


            Pendendo para o abismo, puramente por força das conseqüências já plantadas, olho para ele e não, ele não olha para mim. Ele está pouco se importando comigo. Ele fará, ou não, diferença para mim, para si eu não significo mais do que mais um; não serei o derradeiro cadente em seu vão. Aliás, a escuridão infindável é clara e nítida, até mais do que a que já me contém. Em um tempo que não meço já não me contém mais.


            A ausência de pressão sob meus pés e pernas informa que a queda começou. Não é assustador como a tantos pode parecer, em verdade vos afirmo que a espera me tolhia mais a respiração. Não me atemoriza a iminência do impacto, isso é quase certo e não me desgasto mais com aquilo que não me cabe, mas se desgasta o animal que me veste e quer sobreviver a qualquer custo, bradando um grito que não ouve na vã tentativa de obter um eco que não vem. E não virá.


            Ainda que sinta o atrito cada vez mais intenso com o ar e a aceleração que me faria por para fora tudo o que tivesse em meu estômago, não há nada ao redor que possa me fazer mal. Tudo o que poderia me atormentar e ferir está dentro, não fora. E nesta solidão que já havia quando cercado por multidões, nem haveria agente externo a quem imputar qualquer culpabilidade. Ainda que pudesse fazê-lo, a culpa é apenas um expediente cruel de uma vingança eufemizada, somente o reconhecimento da responsabilidade, que poucos se dignam a assumir e levar a termo, teria os resultados que valeriam meus esforços.


            Ainda que o silêncio congelante me queime da pele até os ossos, não esboço mais qualquer reação no decorrer da queda. Chorar e sorrir se mostraram, no final das contas, a mesmíssima cousa, ambas me causam dor e cansaço que não me convém mais sentir sem a mais absoluta necessidade; até que essa queda se finde, não existe absolutamente necessidade alguma. Tudo que não seja a própria existência está indefinidamente suspenso.


            Vejo ao longe as trevas engolindo o horizonte que nem sei se existe. Talvez essas trevas se devam à cegueira e não ao ambiente, mas ainda que não seja tudo tão realmente escuro, a luz é tão tênue que não faz diferença, sequer eleva um grau em minha temperatura também cadente. Mas o que eu veria, se enxergasse, senão uma parede rochosa subindo cada vez mais rápido?


            Ainda estou caindo. Até quando eu não sei. Sinceramente, não me vale fazer cálculos sem parâmetros, se só existe agora a queda. Calcular agora não mudará o desfecho, o qual desconheço e ainda que conhecesse, não poderia evitar. É uma queda livre. Na verdade a única cota de liberdade que me foi permitido até hoje. Caio no meu tempo, do meu jeito, se vivo ou morto não importa mais. Apenas caio até o fim… se houver fim.


            A única coisa que me dói é a única certeza que tenho, e não é uma afirmativa: Quem se importa?

17/11/2018

O motorista a 80

Experição ZE Rádio Cultura

    Nesta semana um colega veio me dizer, após uma conversa banal, que só Deus agrada todo mundo, no que soltei "menos os ateus". Eu esperava que tudo terminasse por aqui, mas ele ficou realmente transtornado. Disse mais de uma vez (bem mais, diga-se de passagem) que deve ser muito triste a vida e quem não acredita em nada, que seria uma vida vazia e sem sentido; como se o índice de suicídios entre os teístas fosse zero.

    Vamos a alguns factos. Algumas das melhores pessoas que conheço são ateias ou agnósticas, o que para muita gente é a mesma coisa, mas não é. Essas pessoas lêem muito, pesquisam muito, esmiúçam todas as vertentes possíveis do que estão investigando, conhecem as principais religiões melhor do que muitos de seus sacerdotes. Não que sejam imunes a algum dia abraçarem alguma fé, assim como é bem comum fieis antigos deixarem de ver sentido no que fazem e não passarem a enxergar nada mais do que palavras escritas por homens, onde antes viam a palavra divina.

    Não confundir ateus e agnósticos com aquela turminha de que já falei: os chateus, teofóbicos e misoteístas, estes merecem um pé nos fundilhos e um bloqueio em qualquer rede social e antissocial.

    Voltando aos que valem à pena, os ateus e agnósticos não acreditam simplesmente porque não foram convencidos. Ninguém acredita no que não convence! Acreditar porque "assim está escrito" é fanatismo, é dogma. Ateus são cientistas inatos e habilidosos, não se dão o direito de portar uma verdade absoluta. Ainda que uma ideia não possa ser comprovada de imediato ou a curto prazo, eles ainda aceitam uma explicação convincente e minimamente respeitosa com a lógica. Não a TUA lógica pessoal e doutrinada, mas A LÓGICA, aquilo que quase sempre pode ser expresso em equações e não faz troça com as leis da física.

    Posto que a ideia de uma divindade não os convence, portanto não tem sua adesão, para eles simplesmente não existe. Simples assim.

    Não existe, então não faz falta. Não faz falta, então a ausência não implica em tristeza. Eles não são tristes por não acreditarem no que vocês acreditam, ou por acreditar no que vocês não acreditam. e quando acreditam, não é por fé, é por comprovação ou, no mínimo, por coerência com o mundo real.

    Imagine que um motorista viaje a 80km/h em uma boa estrada. Não há sinalização, não há guardas de trânsito informando, não há nem mesmo indicação no mapa. Ele para em um posto e aproveita para comer. No restaurante, enquanto come, ouve gente falando com espanto de um carro cuja descrição corresponde ao seu. Todos criticam, mas cada um por seus próprios motivos. Alguns dizem que ele estava rápido demais, que nem dava para ver a placa e que causaria um acidente. Outros diziam que ele estava atrapalhando o trânsito por andar devagar, que causaria um acidente e morreria de velho antes de chegar ao seu destino.

    Curioso e atento, como todo motorista que se preze, ele prestou atenção ao que estavam falando. Os que criticavam sua rapidez estavam parados ou de bicicleta. Ele passou por alguns pedestres e ciclistas, mas estava longe deles, às vezes as bicicletas estavam na pista secundária ao lado da estrada, livres de qualquer risco. Concluiu então que as queixas destes não faziam sentido, não para aquela situação.

    Os que criticavam sua lentidão eram os que passaram zunindo por ele. Motorista habilidoso e consciente que é, sempre se mantém à direita até ser necessário ultrapassar. E o movimento da estrada era pequeno, houve poucas ultrapassagens ao seu carro, destas, nenhuma se deu com mudança de faixa, ou seja, os apressados estavam sempre na pista da esquerda. Não precisou sequer tencionar o braço esquerdo para dar passagem. Concluiu então que essas queixas, para aquela situação, também não faziam sentido.

    Ele não tinha pressa, a estrada não estava ruim, seu carro estava em óptimas condições e ele simplesmente não põe álcool na boca quando dirige. Viu o relógio, ainda tinha tempo de sobra, chegaria antes do pôr do sol. Continuou a comer, depois pagou a conta e foi embora. Nenhum dos queixosos disse algo que invalidasse sua decisão e seu modo de dirigir.

    Chegar antes não lhe daria ganho e se atrasar seria perder o pôr do sol que queria registrar, durante sua estadia.

    Haveria um modo de dirigir? Provavelmente sim, com toda certeza ele poderia conseguir algo melhor, mas o método e os motivos para tanto não lhe foram apresentados. Simplesmente bradavam "O meu modo é que é o certo" e "motorista de verdade dirige como eu".

    Assim funciona, a grosso modo, a mente de um ateu, ou um agnóstico. Dizer que ele é triste por não ter um deus é como dizer que uma andorinha sente falta de um sofá. As pernas da andorinha não foram feitas para ela se sentar e seu traseiro não foi feito para suportar seu peso, uma superfície acolchoada não lhe faz a menor diferença. Seus ovos precisam de algo que absorva o impacto, mas é só. Elas não ficam tristes por repousarem em um galho rígido, aquilo supre suas necessidades de descanso e talvez até de pernoite.

    Meus caros, não é o ateu que fica triste por não ter fé, a vossa fé fraca é que necessita da adesão alheia. Não confundam as coisas.