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09/10/2024

Operação tapa-buraco - Velho, ranzinza e antissocial

Somewhere in USA 1940s


 

Por problemas técnicos, hoje não teremos a farta distribuição de links para notícias e vídeos bacanas. Choveu minimamente, a internet caiu, o técnico veio, colou com cuspe, virou as costas e foi embora, mal saiu e o cuspe descolou. Então a coleta de informações que a mídia nacional não faz questão de repassar fica para amanhã, por hoje só o lamento lúgubre de um quase idoso aborrecido e cheio de coisas para fazer, mas todas elas dependentes de um ponto minimamente estável e eficiente de internet. E não, estar impossibilitado de fazer meu trabalho não me poupa de aborrecimentos, as pessoas sempre encontram um meio de nos fazer sonhar com uma casa numa montanha em uma ilha particular, só para não ter vizinhos a menos de dez milhas, preferencialmente contando com um sistema de alarme com um raio de, pelo menos, cinco milhas, para eu ser alertado de qualquer aproximação, também poria obstáculos nesse anel de alarme, para obrigar os visitantes a só se aproximassem por onde eu determinasse, de modo que os pudesse vigiar até o fim do percurso, mas sem garantias de poderem atracar, ,mas uma vez atracando sem garantias de poder descer à terra.

 

Nossa! Mas o Nanael tá ficando antissocial! Não pode! Precisa se socializar, sair por aí, beber no bar, caçar briga com os amigos, ouvir música ruim e a repetir no caraoquê, arranjar uma peguetes para a noite, sei lá…

 

Eu já ouvi essa conversa mole, só quem não me conhece para falar uma pataquada  dessas. Se eu quisesse socializar, não teriam a mim faltado oportunidades, mas o Hanz Grotz que há em mim faria o curitibano médio se sentir um beijoqueiro de praça pública. Eu quero distância de aglomerações! Multidões a mim dão gastura, tenho vontade de sair distribuindo socos para abrir caminho na marra e dar o fora logo! Ir a uma pizzaria ou uma feira de antiguidades vá lá, são duas coisas que adoro e eu poderia sair facilmente antes de ter sintomas de asfixia; de uma delas após pagar a conta, é claro. Sim, eu comento muito de festivais de música em Cabo Verde e dos festejos que hoje começam com a Oktoberfest, em Blumenau, mas entre gostar de ver a alegria alheia e gostar de estar na muvuca existe uma distância intergalática! Eu não sou afeito a não conseguir andar sem me esfregar ou trombar nas pessoas, nisso sou meio japonês em minhas manias, gosto de privacidade e de respeito para com meu espaço, qualquer intromissão num raio inferior a um metro me incomoda muito. Em verdade até toques não autorizados podem me irritar, não importa de quem tenham saído.

 

Não quero neste texto de tapa-buracos convencer alguém a preferir um sóbrio e elegante sedã grande, ou uma útil e civilizada perua familiar full size a um trambolho mal desenhado, mais pesado do que o necessário e feito para agradar a quem tem medo de ficar de fora da moda idiota que tomou conta do mundo, só que se não fabricam o que eu gosto eu não compro, eu nem sabia que isto estava se embrenhando por esses caminhos, mas vá lá… onde eu estava mesmo? Eu disse que estou ficando velho! Ah, sim! Eu sei que uma ilha, por pequena e mal localizada que seja, custaria uma fortuna só para comprar, iriam mais dois montantes iguais para deixá-la apta ao usufruto, então eu me contentaria com uma boa choupana solitária em um morro dentro de uma propriedade bem demarcada e bem vigiada, de onde eu poderia antecipar aproximações, ver a paisagem enquanto trabalho e admirar as evoluções do lábaro longe das luzes urbanas, vendo a alvorada mais cedo, o poente mais tarde e as estrelas como aqui eu não consigo ver. Ainda me lembro de como era o céu sem o bombardeio de luzes aspergidas por uma metrópole.

 

Calma lá, eu não moraria no meio do mato bruto, bancando o Tarzan grisalho e desdenhando as tecnologias modernas, muito pelo contrário! Claro que as visitas admitidas se veriam num túnel do tempo, tudo o que não fosse ao menos no estilo do pós-guerra até início dos anos sessenta estaria devidamente guardado, quando fora de uso, mas para por aí. Eu disse que sairia caro e esse é um dos motivos, eu precisaria de um bom gerador de pelo menos 25kWh, possivelmente mais de 30kWh, para suprir a residência e a oficina onde poria meu cabedal para trabalhar. Coisas de todo tipo sairiam de lá, ainda mais sem vizinhos para reclamar do barulho, como móveis que se transformam em outras coisas ou se recolhem quando fora de uso, brinquedos, dioramas, utensílios, até mesmo carros de verdade estariam na lista. Para tanto eu precisaria desse fornecimento confiável de energia; o que a rede pública não oferece. Claro, o sistema de comunicação também dependeria desse gerador. Eu ficaria longe das pessoas, não alienado delas, por mais que relutasse em aceitar visitas. Uma vez aceitando-as, porém, seriam recebidas com toda a cortesia que se pode esperar. Preparar os acepipes seria outro capítulo.

 

Uma vez sozinho, eu teria que munir a despensa de ingredientes que deveria processar lá mesmo, fosse para preparar um molho de tomate ou para fazer uma torta espelhada de frutas vermelhas para os visitantes previamente agendados. Lógico que a torta e talvez biscoitos sozinhos não bastariam. Café, chá e sucos de frutas cariam parte do festim, mas para tanto eu precisaria manter temperatura umidade sob controle, para prolongar a vida útil dos alimentos, ou seja, mais consumo de energia, por pouco que fosse. Não haveria a granja do Seu Hélio logo na esquina para is abastecer para o dia, então eu teria que pôr a mão na massa e ela deveria estar fresca. Sair à cidade quase que só para abastecer a despensa. Claro que provavelmente eu teria alguns carros antigos, e anos noventa não… é… antigo… Então precisaria de minha oficina bem suprida, e isso também seria interessante para as visitas. Peças de tapeçaria e pequenas quantidades de productos químicos para eventuais reparos seriam necessários, ferramentas sozinhas não fazem milagres. Mesmo quase nunca saindo da propriedade, eles rodariam e estariam aptos a pegar a estrada.

 

Também um jardim. Gosto de jardins. De preferência um jardim com pomar, para atrair pássaros e borboletas, além de fornecer mai insumos para a cozinha. Seria uma praça ajardinada ao redor da casa, talvez com coreto, certamente com vários bancos, munido de flores de diferentes espécies para que sempre houvesse ao menos um tipo florindo ao longo do ano, incluindo ipês de todas as cores. Um orquidário seria imperativo, com as plantas penduradinhas nas árvores, fazendo um mosaico maravilhoso para alegrar e elevar meus dias, talvez os últimos. As frutíferas garantiriam a visita e até residência das aves, e elas têm proliferado nos últimos anos. No meio de toda essa fauna e flora haveria canteiros de hortaliças e ervas, destas sairiam a maior parte dos chás que eu tomaria todos os dias, como aliás já faço. Ter o direito adquirido por minha conta de meditar todos os dias em um jardim grande, repleto de boas energias e com a briza acariciando-me a face, está no topo de minhas prioridades, infelizmente é quase impossível ter essa tranqüilidade em uma metrópole. E não, eu não me dou com a falsa prosperidade de condomínios fechados, não gosto de dar satisfações da minha vida a absolutamente ninguém. Bob Esponja, cale essa boca!!!!!

 

Com tamanha liberdade e bons recursos, algo que eu faria seria uma bela decoração sazonal na entrada da propriedade, algo que fizesse as pessoas parem por uns instantes e talvez tirarem photos para suas redes sociais. Em especial o natal, quando eu capricharia no cenário para fornecer alguns minutos ou horas de sonhos, com a iluminação pensada para proporcionar a atmosfera mística que a efeméride demanda, e talvez reacender a brasinha quase apagada daqueles que ainda não tiverem encontrado o caminho para seus sonhos. Com o fornecimento de energia garantido, a boa oficina e uma dose de inspiração, figuras móveis dariam o tom em pé de igualdade com a sinfonia surda das luzes. Talvez, quem sabe, o trenó do Papai Noel surgindo por entre as árvores, descendo, deixando aos espectadores presentes simples que eu mesmo teria feito, então sendo erguido e sumindo de novo por entre as mesmas árvores; não é complicado como parece, tecnicamente só precisa que o básico seja bem-feito. Sim, eu faria questão de um espetáculo para alegrar as pessoas. Não, eu recusaria sumariamente e sem maiores explicações convites para declarações ou entrevistas à imprensa.

 

Muito provavelmente eu viveria sozinho esses últimos anos de vida. Não teria medo, não sou materialista, acredito que ninguém se vai antes da hora, então estaria tranqüilo. Precauções seriam tomadas para alertar um sistema de saúde, decerto que sim, mas nenhum receio quanto ao óbito solitário. Além do mais, que diferença faz a quem morre se há só Deus ou uma multidão ao redor? Isso é apego, eu não tenho mais. Ficaria bem na minha solidão voluntária, como fico sempre que a consigo, com visitas esporádicas e nenhuma porcaria de televisor ligado para me aborrecer. Eu estaria bem.

07/01/2021

A caixa

 


            Abriu com cuidado a caixa e, em princípio, não vê grande coisa. É apenas uma caixa não muito grande embrulhada em papel listrado de dourado e vermelho com os laços dourados pendentes. Levanta-a com cuidado e uma luz começa a surgir, até surgirem algumas formas. Aos poucos a carinha de decepção se acende em um sorriso singelo exibindo a falha do primeiro dente que caiu. As formas tornam-se nítidas em cores vivas, então o sorriso se escancara.

            As luzes piscando nos enfeites são um deslumbre, como se fossem estrelinhas que vieram visitar as pessoas, para ela realmente são e tem vontade de ir com elas para o céu, brincar na lua e quem sabe rever sua avó, que também virou estrelinha e vive vigiando-a lá do céu, para que não faça danuras demais.

            Vê carrinhos de muitas cores reluzentes, vários modelos e tamanhos, que andam e acendem os faróis. Ri singelamente vendo que todas as portas se abrem e os pneus são de borracha de verdade. Olha tudo ao redor e é incapaz de contar quantos são, mas são todos lindos. Se imagina viajando para longe em cada um deles, como toda criança com um carrinho costuma imaginar, levando a família para a praia, a montanha e até para algum mundo de desenho animado.

            Vê também bonecas aos montes, de inúmeros tipos, com roupinhas que balançam suavemente quando mexem as pernas e braços, cabelos com penteados que não consegue contar quantos estilos são, os longos balançam em ondas a cada movimento da cabeça como se tivessem vida própria. Os sorrisos brilham como nunca viu em nenhuma outra boneca. Se imagina fazendo festas e visitando cada uma delas, conversando enquanto tomam chá e assistem televisão.

            Ainda vê doces, muitos doces. Em cores, formatos e tamanhos tão diversos que parecem mais bichos do fundo do mar, cujos nomes sua pouca idade e falta de familiaridade com o litoral não deixam saber, mas não importa, apenas escancara seu sorriso pueril já se imaginando a degustar tudo aquilo, mesmo que depois vá levar bronca da mãe.

            Ela, aliás, observa seu rebento sem esconder a emoção. Vê a menina olhando para a televisão por aquela caixa sem fundos como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. Não consegue segurar as lágrimas, mas chora em silêncio para não estragar sua efêmera alegria, vendo-a se entreter com a mesma caixa vazia e sem fundo que recolheu do lixo no ano passado, na esperança frustrada de que poderia finalmente colocar lá dentro alguma coisa que pudesse chamar de presente.

03/11/2020

Aqui jaz teu sonho

 

Pity the Sorrows of a Poor Old Man - 1822 - Théodore Gericault - French (MET Museum)

            Aqui jaz o teu sonho não cultivado, legado ao desdém do adulto amargo que se tornaste. O mesmo sonho que em tenra infância ainda se rascunhava em pueris balbucios num mundo que tudo parecia prometer, diante de pessoas que tudo lhe pareciam permitir, ainda que mostrando os limites salutares de tua segurança, enxugando as lágrimas de um pranto repentino por algum susto que só teus olhos e ouvidos sabiam mensurar. Nos mesmos braços que limitavam teu avanço, para não cairdes no fosso profundo, encontravas o bálsamo da segurança oscilante a embalar suavemente teu sono, em cujas brumas os devaneios tomavam formas, cores e toda a miríade de possibilidades com que poderias entreter-se.

            Ainda era cedo, havia tempo de sobra. Era momento para te preparares em aprendizado básico e crescimento sem os perigos ardis que a vida reserva aos que alçam vôo. Ainda havia tempo, os riscos eram ensinados em simulações simples e seguras nas brincadeiras rasas que te ensinariam a enfrentar as adversidades sem temê-las. Quando os temores reais lhes foram apresentados a distâncias e em doses salutares, tão somente para que mesmo em botão, a flor de teus sonhos fosse defendida das pragas e ervas daninhas tão traiçoeiras.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, posto por terra pelas urgências bravateiras. O mesmo sonho que na plena flor da juventude lhe emprestava o perfume balsâmico para curar tuas feridas e ajudar-te a vencer teus medos, quando já sabias que o mundo não tinha obrigação de ser bom, mas que tampouco deveria ser temido como se fosse um mal invencível. Quando as forças lhe pareciam trasbordar e sobrepujar quaisquer decepções pérfidas, dessas que se lhe apresentam com semblantes amigáveis e discursos aduladores em firmes vozes sedosas. Ainda tinhas o amparo de quem pudesse socorrer-te de apuros e, embora certa a reprimenda necessária, encaminhava-te ao curso seguro do caminho reto; que não precisava ser seguido em absoluta retidão, tão somente não se afastar a ponto de perdê-lo de vista já lhe garantiria os louros de teus esforços, pois assim voltarias rapidamente assim que os riscos suplantassem os ganhos... e foram tantas vezes!

            Ainda era cedo, o tempo intercedia em teu favor. Era momento de experimentares os sabores do mundo e decidires que temperos usarias em teu caminho, aqueles que dariam aos teus pares a tua identidade e te tornariam inconfundível, facilitando te reconhecerem e te ampararem na busca de tuas realizações, sob o auxílio prestigioso de mestres e auxiliares, papéis que assumirias vez ou outro, e em definitivo quando os resultados de teus labores deitassem em tuas mãos então experientes.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em preta mortalha coberto pela vida que deixaste de viver, não importam os motivos. O mesmo sonho que na vida adulta lhe serviriam de muleta nas mais duras adversidades, tanto quanto de cetro no regozijo de tuas vitórias cotidianas, resplandecendo a majestade de quem teria ousado na medida e no momento certos, posto que o cabedal e a experiência amealhados te fariam reconhecer de pronto as armadilhas e os inimigos, hábeis em vestir-se de oásis e benfeitores. Quando as forças ainda seriam abundantes e a mente lúcida dos sábios serviria de habitat aos teus pensamentos, guarnecidos de raciocínio e conhecimentos abundantes, o que ainda te permitiriam sonoras gargalhadas a cada vitória; e seriam elas seriadas em tua longa e venturosa jornada.

            Já seria a tua hora, o tempo então generoso lhe mostraria a longa estrada a percorrer com as pernas fortes dos sonhos em plena realização, de uma vida que nunca precisaria ser perfeita, mas tão somente ser a tua vida, a que só a ti serviria e a em que somente tu serviria, construída e ababada sob medida para os teus pesares serem sempre ciscos diante das vigas de tuas realizações, do amparo que agora seria de tua alçada, do aprendizado que agora sairia de tuas palavras e do vasto jardim de sonhos que agora a ti caberia cuidar para a posteridade; assim como teriam feito por ti.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em jazigo de pedras cruas que restaram de tua vida desventurosa. O mesmo sonho que te for cobrado por não viveres a vida que deverias ter construído, mas cujos tijolos desviaram-se em amparo de quem jamais construiu senão os próprios mimos, desdenhando assim que se levantava o doador desafortunado do que agora abandona e deixa desmoronar. Quando as forças decaem sem reposição hábil e tua visão se turva diante do horizonte escuro que se aproxima, forçando-te a vencer o íngreme aclive sob as dores que não lhe foram curadas, pela falta dos recursos que nunca te foram cedidos em troca das chances que a outrem concederam. A vida apertada e cnidária que sobrou não permitia iniciativas senão em caminhos tortos, a horizontes perpendiculares ao que teus brios ainda te impulsionam. Sim, talvez seja tudo o que te resta, e te priva da queda de um desenlace precoce.

            Já passou a tua hora, o tempo já cobra o tributo dos ganhos não conseguidos e a estrada, embora se encurte a cada passo, é cada vez mais íngreme, dilapidando as poucas energias que ainda restam em teu corpo debilitado, que ainda assim precisa vez ou outra amparar os que se corromperam e nem mais mantêm-se de pé sem esporádicos auxílios. Vai, que é tua sina arcar com proventos dos dividendos não ganhos, dos lucros subtraídos, de toda a sua miserável existência em uma vida que simplesmente ainda não te cabe dentro. Se é tua culpa ou não, é tão oneroso quanto irrelevante ater-se a tão dolorosas elucubrações, apenas arque com o que te cabe, pois não cabes em mais nada do que te cerca e ainda tens chão pela frente. Tua pena, lamento, é esperar sob duras labutas pelo óbito, já morto em uma vida que nunca deveria ser tua.

27/07/2020

Se doer, doe-se


        Desde o suicídio do neto de Elvis tenho testemunhado uma avalanche de jovens repentinamente atormentados pelos mesmos pensamentos autodestrutivos. Inclusive, em especial, por lutos recentes e muito caros, principalmente quando os que os cercam não compreendem e tampouco respeitam esses lutos. As pessoas não compreendem que no vale profundo de um luto, a última coisa que uma pessoa precisa é ter sua dor reduzida a um capricho; ainda que seja, é a única coisa que não deve ser feita. O luto de um depressivo, aliás, pode ser a única coisa que o mantém do lado de cá da vida, porque ao lamentar e velar intimamente sua perda, estará se apegando ao fio da lembrança da vida que se foi. Ainda que esteja no passado, aquilo É uma vida e é nisso que o jovem se apoia para manter-se na sua própria. Se não tiver algo de bom ou mesmo um silêncio acolhedor para oferecer, apenas retire-se sem abrir a boca.

        Aos jovens hora em desespero, ávidos por um alívio em seus pesares, ofereço minha experiência e palavras práticas de como lidar com isso. Eu não tenho discursos prolixos e palavras espirituais para este caso, porque sei por experiência que às vezes elas são um tiro pela culatra, e não sou crentelho nem espiritonto para tentar forçar o deprimido a olhar os lírios do campo de Jesus! Aleluia, salve, salve. Me baseio no exemplo prático de Audrey Hepburn e na sabedoria maternal que ela deixou, que no final das contas é um legado maior do que sua gloriosa carreira. Foi no Congo Belga, durante as filmagens de "Nun's Story" que ela vislumbrou seu real papel no mundo, papel que levou até o fim de uma vida que muitos acreditavam que seria mais curta. Não, não farei um texto sobre celebridades, fiquem sossegados.

        Quando alguém se doa a quem REALMENTE precisa, e isso exclui paixões, mesmo que com a imensa dificuldade que eu conheço de ainda estar atado ao luto doloroso, está também tecendo o primeiro fio de salvação que o manterá vivo, simplesmente porque agora há um motivo mais do que razoável para isso. Ainda que repita a si "Eu sei que depois desta ajuda eu não vou resistir em matar", o acto de se doar torna a pessoa mais receptiva a doar-se novamente, e com isso torna também mais apta a enxergar assuntos e pessoas que realmente precisam de sua atenção. É como artes marciais, que torna o corpo e a mente mais aptos e desejosos de ir além, quanto mais se pratica, até o ponto em que todos os movimentos são feitos naturalmente e o aprimoramento se torna cada vez mais rápido e consistente.

        Não é preciso ter recursos financeiros para se doar, na verdade sequer é preciso ter coisas a doar. Na maioria das vezes, tudo de que uma pessoa precisa é sentir que alguém sabe que ela existe, e nem sempre é um pedinte maltrapilho que precisa disso. Às vezes, sob o tailleur bem cortado, sob o penteado bem feito, sobre os sapatos de fino design, está a criatura de espírito mais desgastado e desesperançado do mundo. Sim, os mais pobres precisam de nossa ajuda, e quase sempre na forma de pão; demo-los e saciemo-los. Entretanto, umas moedas dadas com um olhar sereno e bondoso, já que estamos na era dos mascarados compulsórios, dá ao cidadão negligenciado mais fibras para se apegar à vida do que aquela nota de vinte que fora simplesmente jogada a ele; muitas vezes a diferença entre comprar o que comer e gastar tudo numa garrafa de destilado. E dando de bom coração as poucas moedas que pode dar, sentindo-se mais necessário e mais necessidade de fazer mais, mais alguns fios são tecidos no seu apego à vida, não simplesmente à sobrevivência.

        Não estou copiando isso de um livro de auto estorvo, falo de minha experiência e do cabedal recebido de pessoas que me fazem parecer um tolo egoísta. E vejam só, graças a esse hábito de doação eu já excedi a cota de textos que esperava escrever durante o ano todo. Mas vamos voltar à rica dama de espírito mendicante, porque às vezes é para receber atenção que elas despendem grandes vultos em salões de beleza. Não, não é crime e NÃO é errado gastar com estética, o problema vem quando a aparência é um contrapeso ao vácuo interior. Infelizmente as pessoas AINDA acreditam que ter recursos materiais imuniza contra a depressão, mas eles podem ser um tiro pela culatra, bem na testa, directo à pineal. Se aquela dama perceber que pode mudar a vida de outrem, a estética será um adereço e não uma psicotrópico, mas ela não perceberá isso enquanto for elogiada por sua beleza e seus recursos. Quando o elogio for por sua postura e por sua companhia agradável, ainda que esta se dê em princípio por protocolo social, algo começará a mudar, e o autor terá tecido mais uma fibra em seu benefício próprio.

        Compreendam que dar o primeiro passo não é fácil, não é simples e NÃO É INDOLOR! Mas precisa ser dado. A dor vem da condição cristalizada de luto misturado com auto piedade, que cedo ou tarde trava a vontade de viver de modo praticamente irreversível. No começo tudo parecerá ser em vão, suas modestas contribuições parecerão ser inúteis e seus esforços, por mais que tente, infrutíferos. Mas é só impressão. A sua condição de deprimido, e digo isso de dentro de uma condição de depressão extrema praticamente ininterrupta, te deixará imenso em uma ansiedade que fará cada segundo parecer um ano, cada grama parecer uma tonelada e cada indivíduo parecer uma multidão. É como se um liliputiano enfrentasse Godzila, mas é tudo mera impressão, um subterfúgio da depressão para sabotar sua recuperação. Não é inimigo pior, porque não se pode simplesmente afastar-se dela, às vezes nem se pode curar, porque pode ser a depressão justo o que te mantém de pé. Mas em vez de ir para o abismo, a decisão de se doar te leva para o lado oposto, e a depressão torna-se sua aliada. De tristeza crônica, que de vez em quando ainda fará estragos, tornar-se-á um facilitador para introspecção e meditação.

        Eu sei, tudo seria menos penoso se a família NÃO ATRAPALHASSE, mas ela atrapalha e nem sempre há como deixá-la, até porque às vezes é ela quem mais precisa de sua doação, e a covardia não faz parte dos procedimentos de um depressivo reverso. O que aconselho nesse caso é criar seu canto e seu momento de depressão. Exponha sua carranca, mostre seu mau humor, não censure seus resmungos, que embora sejam socialmente desagradáveis até para nós mesmos, são o mal menor com o qual conseguimos lidar melhor. Afinal, precisamos estar fortes e centrados para a missão a que nos propusemos, e nunca se sabe quando alguém precisará de nossa humilde ajuda. Se posso dar um conselho, e já paguei caro por ele, é abster-se de "causas" que apregoam o coletivo e desprezam o indivíduo, porque grupos assim são grandes impulsionadores de suicídios. Fazer a pessoa acreditar que sem "a causa" ela não é nada, cedo ou tarde a fará ver que nada construiu, acreditar que realmente não é nada e que a alternativa ao grupo (político, ideológico ou religioso) é a morte. E novamente, se a família não atrapalhasse tanto a maioria dos casos, ninguém cairia na conversa desses grupos, que virtualmente não existiriam. Grupos que formam coletivos para amparar cada indivíduo, esses sim merecem sua atenção e eventualmente sua adesão.

        Com o tempo, a perseverança e a prática, a dor do luto se transforma em empatia pela dor do outro, que já não é então "o outro", é o seu irmão; mesmo que às vezes se tenha vontade de torcer-lhe o pescoço, é absolutamente natural. A cada eclosão de sua dor virá a lembrança de que outros também penam suas dores, e que um simples emoticon na caixa de mensagens pode ser suficiente para essa dor ser suportada. Não espere por gratidão, espere por correspondência. Se a pessoa for minimamente rude ou arrogante, lamento, mas não estará pronta para ser ajudada. Toda semente que jogar naquele solo, morrerá seca. Concentre-se em quem, se não dá respostas privadas, pelo menos te trata com respeito em conversas públicas. Parece pouco, mas às vezes é tudo o que se faz necessário. Assim, quando maior for a sua dor, maior será o empuxo para doar seu tempo, suas palavras, talvez algum recurso material. Aquela conversa de que "se alguém não começar, nunca será terminado" é a mais pura verdade, um chapéu com poucas moedas chama mais atenção do que um vazio. Assim como uma pessoa que recebeu uma ínfima dose de ânimo, chama mais atenção e está mais pronta a ser auxiliada do que quem já tiver perdido toda a vontade de viver.

        Repito que tudo isso é cabedal próprio, de quase meio século expiando neste mundo rude e cínico. Não sei se há compêndios acadêmicos dedicados a isso, sei que funciona. Funciona a ponto de eu já ter testemunhado um traficante se regenerar. E o que eu sou? Um velho funcionário público ferrado e sem ter onde cair morto... se bem que... depois de morto, que me importa o que vai acontecer com o corpo? Às favas! O facto é que eu era um nada ainda menor do que sou hoje, mesmo assim ajudei uma comunidade a bancar a pedra filosofal. E fiz isso dedicando minutos do meu tempo a uma carinha triste, um suspiro de descrença, um bombom barato dado de surpresa, um aperto de mão em um trabalhador braçal que não teve tempo de voltar pra casa, coisas simples. Com isso se teceu uma teia cujos fios evitaram que aquele indivíduo caísse em definitivo no abismo. Sim, às vezes precisei ser duro, casca-grossa, mas tudo dentro dos limites do necessário, sem exceder um grau sequer.

        Isso se incorporará aos seus gestuários, como se incorporou ao meu. E sempre que vejo uma criança necessitando de ajuda, vem à minha mente "É obrigação do mundo ajudar crianças em dificuldades, todo resto é luxo", frase dita e levada a termo, até o último suspiro de vida, pelo Anjo das Crianças Audrey Hepburn, que se esmerando em curar a dor do próximo, viu suas próprias e profundas feridas se cicatrizarem com o passar dos anos. Eu atesto, porque como vocês eu tenho as minhas, e elas já estariam infeccionadas se eu tivesse escolhido o caminho oposto, de me fechar em meus lutos e igorar os do próximo. Ainda que ciente de que eu sou pequeno, feio e sem perspectivas sólidas, sei que absolutamente nada disso me impede de dar a alguém o bálsamo de que disponho. Não salvarei o mundo, isso é uma ambição louca que somente os aloprados que se levam à sério têm. Eu foco em fazer o que precisa ser feito, no momento em que precisa ser feito, dando meu melhor o tempo todo, até que o que eu puder ter feito, feito estiver.

        Parece árduo? Não é tanto quanto parece, não é um paredão a ser escalado sem cordas e picaretas, é uma escada. Uma escada que aparentemente não tem fim, com sua estrutura varando as nuvens, mas é uma escada, com degraus que podem ser alçados um de cada vez, no seu tempo, no seu ritmo, com as pausas que necessitar para se refazer, mas sempre com a firme decisão de avançar e aliviar a dor do seu irmão. E de dor, amados, eu sei bem que vocês entendem como ninguém. Vocês sabem reconhecer e sabem que, às vezes, apenas dizer "obrigado, bom dia" por ter-se lhe dado passagem, mesmo que não tenha realmente dado passagem, que tenha sido pego de surpresa pela sua necessidade de passar, pode ser o suficiente para que aquela pessoa adie por ais um dia, apenas mais um dia os planos de dar cabo de si, e um dia a mais pode ser o prazo que a providência necessária seja tomada. E um gesto como esse terá sido toda a providência de que vocês necessitam para viver mais um dia e, como Audrey, protelar os maus prognósticos por muitos anos.

15/04/2020

Não é o chinês, é o partido



        Caríssimos, venho fazer um apelo que pode soar como, mas não é um discurso enfadonho de politicalha correcta. Faz tempo que ouço que o americano é culpado por não saber o que seu governo faz, como se outros governos não fossem iguais ou piores do que o deles, especialmente os autoritários, e é usando os mesmos peso e medida que peço para não discriminarem o cidadão chinês. O chinês comum, salvo raras exceções,  não sabe o que seu governo faz. Aliás, quase todo o 1,5 bilhão de chineses só sabe o que o pouco mais de um milhão de membros do PCC o deixa saber, e os poucos que sabem algo, também sabem que é melhor para suas vidas que esse milhão não saiba que sabem de algo.

        A época do regime militar que tivemos aqui foi nada, se comparada à repressão explícita e à onipresente propaganda estatal para intimidação popular que o governo chinês impõe ao povo. Se de 1964 a 1984 ainda se viam charges satirizando nossos governos, com os artistas vivos ainda hoje, lá isso pode custar o desaparecimento sumário do autor. Os chineses que teriam espalhado o corona vírus, nada mais teriam sido do que laranjas inocentes, gente que o governo escolheu para sacrificar em prol de seu interesse em um risco calculado, que agora eles sabem não ter sido tão bem calculado assim. De resto, os chineses sempre se mostram altamente receptivos a visitantes, chegam mesmo a nos achar lindos... mau gosto não é coisa só de brasileiro, meus amigos.

        Temos no Brasil casos de empresários imigrantes chineses que tratam muito mal os funcionários e tentam de todo jeito burlar nossas leis, que já não são lá essas coisas. Bem, esses são os chineses que a China nos apresentou, não são os chineses que muita gente conhece espontaneamente e com quem não tem problemas. Esqueça a política de Estado quando for conhecer a pessoa, especialmente quando essa pessoa simplesmente não sabe o que está fazendo, embora possa parecer que sim. Embora, como todo oriental de regra, eles preservem suas tradições, os chineses admiram tudo o que há no ocidente, a ponto de eles preservarem nossa cultura melhor do que nós mesmos. Para eles é um espanto o continente americano ter construído tradições tão bem resolvidas com tão pouco tempo de existência formal, bem como a velocidade com que nossos costumes se transformam.

        O isolamento de séculos que os países do extremo oriente se impuseram produziram culturas que são estranhas entre si até para eles, mas vamos ser francos, quem come intestino recheado com a carne do animal estripado não pode falar muita coisa dos hábitos alimentares deles. Há um problema sanitário que não difere muito do que encontramos em feiras dos rincões brasileiros mais afastados. Além do mais eles estão tentando se melhorar, e é no ocidentalismo que nós mesmos negligenciamos que eles se espelham para isso. A autocrítica nacional que temos aqui, e que saiu do controle, é coisa que eles não conheciam, especialmente os chineses. A ladainha de "nós levamos a guerra a outros povos" simplesmente não encontra eco entre eles, é coisa quase que exclusiva nossa, e usada com moderação tem efeitos quase milagrosos em uma cultura milenar.

        O modo e  velocidade com que aquela imensa região progrediu, foi por terem agido de modo ocidental para gerar esse progresso, adaptando à sua cultura o nosso modo de fazer as coisas. Lição que nós mesmos temos esquecido de modo vergonhoso, a parte boa da China se ergueu e evoluiu graças à nossa cultura de trabalho e vida pessoal, os ocidentais deveriam estar orgulhosos e venerar seus ancestrais como os chineses o fazem, mas não, os tratamos como monstros assassinos e agimos com escárnio se alguém tenta nos lembrar disso; especialmente os ditos "intelectuais". Nós deveríamos é trazer essas pessoas mais para perto, mas não muito enquanto durar a emergência pandêmica, e ocidentalizar ainda mais seus pensamentos, para que se dêem conta de que são eles que sustentam o governo e não o contrário, e assim pararem de ver um partido único e compulsório como um "pai severo".

        Aliás, sabiam que eles adoram carros americanos? Segundo eles, simplesmente não quebram, teriam a qualidade dos alemães de luxo sem custarem as fortunas que eles cobram. O mesmo vale para todo o resto, inclusive para o design em todas as áreas, como a moda e até a culinária. Achinezar modelitos ocidentais é uma arte que eles aprenderam bem, e roupas ocidentais são as preferidas para o cotidiano, em todas as faixas etárias de todas as faixas sócio econômicas. Claro, os exageros existem, algumas pessoas se perdem com o aparente poder repentino,  mas isso é outra história e não difere em nada de nós.

        Não foi pelas trapaças do regime que eles se ergueram, a ponto de hoje exportarem trens-bala, o chinês trabalha arduamente e não tem medo de passar por ridículo. Uma crítica a uma empresa, um produto ou serviço, por cruel que seja o crítico, não é levada para o lado pessoal, é usada como lição e parâmetro para correção de falhas. Vai criticar uma empresa brasileira, vai! Uma vez um motorista quase me bateu por eu ter reclamado do ônibus, que era uma porcaria e não andava nada! E eles têm monopólio de suas linhas!

        Toda a leveza e atenção à beleza que perdemos desde os anos 1970, eles não só preservam como cultivam, tudo ornamentado pelas coisas que receberam de nós. Os chineses não têm medo de parecerem piegas, da mesma forma as chinesas não rejeitam a feminilidade, e nem por isso abrem mão de serem independentes como mulheres realmente modernas. Disso vem a criatividade e a capacidade de adaptação que eles têm. Eles ouvem, eles fabricam o que nós queremos sem firulas, sem burocracias desnecessárias, sem hesitação. Funcionou, fabrica; não funcionou, faça outra coisa. É um pragmatismo que já tivemos e perdemos com o tempo, por isso os orientais nos ultrapassaram com tanta facilidade. Recebê-los bem e trazê-los para o nosso lado é o mais sensato a se fazer, é assim e não apontando o dedo que eles podem repensar alguns aspectos de sua cultura.

        Aliás, apontar o dedo e aceitar ser apontado é outra praga que assola o ocidente. Perdemos a capacidade de dialogar, hoje em dia temos monólogos entre várias pessoas, porque ninguém aceita mais conversar com discordantes. Quando um se aproxima, pode dar briga. Os orientais, pelo contrário, observam, fingem interesse, sorriem, dão tchau e puxam a descarga, sem levar para o lado pessoal.

        Alguns dizem que na China se fala livremente de política, mas francamente eu não sei até que ponto dizer "não sei se isso vai funcionar" e "deveríamos ter novos dirigentes" podem ser comparados, porque aqui ambos são tolerados, mas lá pode obrigar a família a pagar pela bala. Eles nunca tiveram democracia, então não sabem lidar com ela; ainda. Nós podemos mudar isso, se deixarmos nossa indignação para quem realmente deve ser alvo dela, e não é o povo. Ter perfis paralelos em redes sociais que lá são proibidas, ajudaria muito, e nossa malandragem ocidental é habituada a isso, mas agira seria por uma boa causa.

        Em troca, receberíamos todas aquelas lições de sabedoria e cabedal cultural que tanto e tão explicitamente admiramos, como a precisão e velocidade com que eles executam qualquer tarefa. Quem sabe se sentindo úteis e responsáveis por nós, e assim vendo mais sentido em suas vidas individuais, os índices de suicídio entre eles caia a patamares não alarmantes. Seria uma simbiose, compreendem? Deixamos a estupidez discriminatória de lado e de quebra minamos o poder do PCC por dentro, como um "câncer bom"; e não adianta eles lerem isso, os chineses estão demasiadamente espalhados e acostumados, é um pulo para eles aprenderem o jeitinho certo e disseminarem por debaixo do pano o que o governo quer longe do território chinês... bem, para quem acompanha as notícias de fontes que eles não compraram, é claro e iminente o declínio do regime. Lá isso não pode sequer ser comentado, mas aqui...

        Agora, por que eu ilustrei o texto com uma seqüência de uma jovem flagrada nas ruas de Pequim? Bem, primeiro porque eles também não têm a nossa neurose de querer ser esquecido para todo o sempre, com medo que uma imagem acidental possa condenar a alma ao inferno, a maioria de nós teme sem saber o quê e rejeita sem saber realmente o porquê. Se alguém lucrar com a imagem dela, ela simplesmente processa e ganha.
        Segundo pelo velho pragmatismo oriental, evocando a característica mamífera de se comover com a beleza, e assim facilitar a simpatia pela mensagem. Simples assim.

12/09/2019

O mundo pode ser seu - Diorama

Elgin Park e uma de suas obras.

            É bem difícil encontrar uma pessoa que não se encante com uma bela maquete, uma miniatura bem-feita, ou um diorama com grande riqueza de detalhes. Eu conheço gente assim, por isso posso dizer que é uma minoria indigna de qualquer estatística séria. No máximo traço de gráfico. Principalmente para quem não tem disponibilidade de espaço, seja em casa, seja em um espaço alugado ou cedido, uma coleção de miniaturas de boa qualidade enriquece muito qualquer ambiente, ainda mais quando se trata de um vintagista, que geralmente tem bom gosto acima da média. Há quem compre maquetes de lançamentos imobiliários, quando a obra fica pronta e as unidades já foram vendidas… uma maquete de trinta andares cabe na sala e, ao contrário do edifício, pode ser admirada em todos os ângulos e decorada ao gosto do dono, para efemérides, sem precisar da autorização do condomínio.



            Mesmo aqueles que podem ter os objectos originais, às vezes principalmente essas pessoas, têm um brilho quase pueril nos olhos ante a possibilidade de ter uma versão menor, que possa ser apreciada de modo que as dimensões do original não permitem. No caso de um carro, admirar a parte de baixo sem precisar de um elevador de oficina, e sem o risco de um acidente fatal, é uma terapia para conhecedores. Isso além do facto de que alguns carros são tão raros e disputados, que é mais fácil conseguir as fortunas que eles custam, do que alguém disposto a vender o seu. Já soube de um divórcio, nos anos 1980, por conta de um Duesemberg… a miniatura mais avantajada, cara e ricamente detalhada, não teria causado isso.



            Vamos ao básico. As diferenças fronteiriças entre miniatura, maquete e diorama não são rígidas e digitais, na verdade são muito analógicas e às vezes a linha que os divide é larga e difusa.



            Miniatura é justamente o que o nome diz, uma versão menor do que o objecto representado. É como um genérico de maquete e diorama. Se fosse do mesmo tamanho, seria réplica, que é outra coisa e outro assunto para um texto futuro. A miniatura pode ser um simples brinquedo mais sofisticado, com boa dose de detalhismo, para alegrar uma criança, mas também pode ser uma réplica em escala; um modo chique para denominar versões menores que são tão ricas em detalhes e em que as partes funcionam de modo tão fiel ao original, que uma boa sessão photográphica enganaria até mesmo experts, fazendo-os pensar que se trata de um original.



            Maquete é uma representação em tamanho menor de uma obra de grandes dimensões, mais utilizada na indústria da construção para que os potenciais clientes tenham uma idéia precisa do que pretendem comprar… ok, sabemos que muitas vezes existe uma distância astronômica entre o que é apresentado, e o que é realmente entregue, mas isso é um problema para o Procon, a polícia e o senso de direito e união de consumidores, que o brasileiro não tem. Enfim, a maquete é a miniatura levada ao profissionalismo, mas por isso mesmo se tornando algo mais, pela necessidade de dados e história e/ou prognósticos de que uma mera miniatura prescinde. E um prognóstico nada mais é do que uma especulação, por mais embasamento que tenha, da história futura. E história é justo o que conta uma réplica em escala de um P-47 Thunderbolt, por exemplo.



            Diorama… não, não me refiro a um evento da Dior e nem à pequena cidade do interior de Goiás. Diorama é quando a maquete é contextualizada no espaço-tempo. Por exemplo, uma réplica em escala de uma parede em ruínas com um piso de época e um soldado morto, se tiver bom grau de realismo, é um diorama de guerra, ainda que seja guerra urbana. E é aqui que o diorama se põe no topo da hierarquia dos três, existe a necessidade de realismo, o que quase sempre o torna mais caro e difícil de produzir do que uma simples (?) maquete. Um bom diorama pode levar anos para ficar pronto, mesmo ocupando o espaço de uma pesa pequena.



           A rigor, o primeiro diorama de verdade é o bonsai, ou pelo menos o seu precursor. Surgido na China do século VIII, caiu rapidamente no gosto dos japoneses, com suas sérias restrições de espaço, em especial dos monges, estes então podiam ter uma boa lembrança de um lugar sem precisar se apegar a ele, e sem possuir mais do que é capaz de carregar. Por volta do século XVIII o bonsai atingiu o estado de arte de que desfruta hoje, com técnicas tão refinadas que mesmo as menores versões podem ser capazes de gerar flores e frutos, reagindo às estações do ano como qualquer árvore normal. Isso, em um cenário em escala, é o suprassumo do realismo.



            É aqui que as cosias complicam para as pessoas comuns. Bonsais não são baratos e nem muito simples de se manter. Eles precisam de cuidados a mais do que uma simples planta pequena, o que inclui uma poda periódica das raízes, ou a planta vai crescer mais do que o desejado e, tristeza, deixar de ser um bonsai; o crescimento é irreversível. Assim como há pouca gente fazendo bonsais no Brasil, também há poucas aptas a prestar os devidos cuidados, o que dificulta e encarece sua manutenção.



            É por isso que existem as árvores de cenário, muitas compradas já prontas. Aliás, árvores, figuras humanas e de animais, mobília, veículos, enfim, tudo prontinho para quem se dispuser a pagar o preço… a maioria é importada, especialmente as de maior qualidade. É aqui que entra o talento brasileiro para o improviso…  e não, a casa da Barbie não é um diorama. A própria boneca não é realista o suficiente para isso, o que não significa que seus caros acessórios não permitam fazer um belo cenário de época, podem e os fãs mais bem remunerados montam alguns de rara beleza, mas tudo ainda fica com cara de brinquedo.
Se é para te fazer feliz, e é essa a premissa de ouro do miniaturismo, vale sim.



            O mais simples é fazer um cômodo aberto com duas ou três paredes e os móveis. Um quarto, por exemplo, pode ser feito sobrepondo e colando duas caixas de sapatos, que podem ser decoradas com imagens baixadas da internet, devidamente redimensionadas, incluindo papel de parede e piso. Um pouco de habilidades manuais é necessário, porque será preciso recortar, modela e até pintar, por menores que sejam as intervenções. Palitos de espetinho podem tanto reforçar as paredes, quanto formar a estrutura da mobília, com palitos de dentes formando as partes mais delicadas. Retalhos de tecidos, vendidos por uma ninharia, serviriam para a roupa de cama, tapetes e as cortinas, com arremates feitos com cola. Isto é tão básico quanto genérico, mas quem tiver paciência e perseverança, vai se surpreender com os resultados.



            Na verdade, até as pessoas próximas vão se surpreender com as suas mudanças, ainda que sutis, de comportamento. Toda forma de arte é um canal poderoso para o subconsciente, mas o miniaturismo põe tudo isso em três dimensões sólidas, facilitando muito o autoconhecimento e, se for o caso, o trabalho de um psicoterapeuta. Não só isso, a vida escolar é muito potencializada. Aqueles trabalhos sobre base de isopor que as crianças fazem, podem ser considerados rudimentos de um diorama e, se os adultos soubessem estimular em vez de simplesmente pressionar, o envolvimento de todos os sentidos tornaria o aprendizado não só mais rápido, mas também indelével. Pois é, muitos de vocês são miniaturistas e ainda não se deram conta.



            Como tudo o que fica acima da linha de cintura, a arte da miniaturização é ignorada ou mesmo malvista no Brasil. Lá fora, desculpem o clichê, existem empresas especializadas em suprir o mercado de amantes e profissionais da área, inclusive com a possibilidade de se comprar casas de época, em várias escalas, completas! Com precisão de medidas e riqueza de detalhes de fazer inveja a muitas casas de verdade. Imaginem poder encontrar aqui, casas, carros, trens, trilhos, árvores, animais e figuras de pessoas, tudo pronto para montar sua cidade de época; ou no máximo personalizar peças para que fiquem ao seu gosto. Imaginaram? Vão sonhando, porque pelo menos isso ainda é grátis. Aqui há poucas lojas, em poucas cidades, com comparativamente poucas escolhas a preços relativamente elevados, mesmo para os padrões dos miniaturistas profissionais. Decerto que a nossa baixíssima demanda conspira contra.



            Um expoente dos dioramas de época é Elgin Park. Ele costuma fazer ensaios que mesmo os olhos ais bem treinados, têm dificuldades em identificar como cenários em escala. Ele é um homem insuspeito, em seu aspecto até bucólico, mas domina técnicas altamente sofisticadas, unindo seu vasto cabedal a um talento artístico raro. Um pequeno carrinho a controle remoto, com uma câmera no lado do motorista, faria qualquer um se ver entrando em uma rua dos anos 1950, mesmo aplicando o zoom. A questão aqui é que um miniaturista do naipe de Park, sabe adequar a textura do objecto real às dimensões reduzidas do diorama. É esse o segredo e é essa a dificuldade maior, os materiais usados na vida real não terão sua granulação reduzida só por serem cortados em tamanhos menores, ou utilizados em porções menores. A água, por exemplo, tem viscosidade fixa, de acordo com a pressão atmosférica e a temperatura ambiente, assim um curso d’água em escala nunca terá o comportamento de um natural, o mesmo valendo para o vento. Uma miniaturização de alta ou extrema qualidade, não pode simplesmente utilizar a mesma matéria utilizada no tamanho real, não sem adaptações e até manipulação da fórmula. Daí a necessidade de estudar e praticar, como em tudo na vida, para fazer aquele diorama que bem poderia ser cenário de um filme.



            Algo que um miniaturista mais dedicado pode fazer por si mesmo, é estudar o bairro onde seus avós viveram e, quem sabe, conseguir reproduzir a casa de onde seus pais saíram. Advirto que se trata de uma tarefa extenuante, sem prazos plausíveis, e dependendo do caso pode ficar bem caro. Mas a satisfação de uma casa antiga, em que suas lembranças caminhem junto com seus sonhos, com um ou dois bonsais ladeando e um carrinho antigo na garagem, poderá fazer milagres desde o início do planejamento, até o dia em que ficar exposta no local definitivo. Aqui vem o bom senso, uma casa pequena não pode dedicar o espaço de uma mesa de jantar a uma peça de decoração. Ou se altera a escala, adicionando-se mais dificuldades, ou se simplifica o cenário; outro aprendizado para a vida adulta, que é o de fazer escolhas e arcar com elas.

A biblioteca de Bruce Wayne


            A minha intenção aqui não é transformar o Brasil em um polo mundial do miniaturismo, ainda mais o de época, apesar de que eu ficaria muito satisfeito com isso. Meu intento é dar aos leitores uma opção sadia e orientações mínimas para ocuparem seu tempo, e de quebra aumentar seu cabedal cultural, porque muitos dos que começam com quartinhos de caixas de sapatos, simplesmente não param mais de se aperfeiçoar. E com o aperfeiçoamento do hobby, vem também o pessoal.

Sobre a obra de Elgin Park, pela lente de Michael Paul Smith, clicar aqui e aqui.

Sobre Ali Alamedy, outro talento do miniaturismo, clicar aqui.

Sobre o miniaturista George O'Keffe, clicar aqui.

Sobre o brasileiro Leo de castro, clicar aqui.

Outros miniaturistas brasileiros, ainda desbravadores, clicar aqui.

Tutoriais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

15/07/2019

Ao abismo






            Vejo à frente o abismo, mudo e retumbante em sua luz negra, que preenche todo o vácuo turbulento que me rodeia. Ainda que recuasse eu avançaria, porque recuar é dizer “não” e o abismo desconhece negativas. Só conhece “fazer” e “cessar”. Cessar seria permanecer na supermorte em que se tornou a existência mórbida de sorrisos tênues, fatigantes e dolorosos.


            Não existe escolha senão avançar. Parar é abdicar de escolher e tornar-me alvo passivo das edges incessantes. Avançando escolho os motivos pelos quais devo sofrer, em vez de sofrer por motivações terceiras. Não se controla e não se pode defender-se das dores alheias.


            A vida é triste? Cruel? Vale a pena? Abdique desse drama supérfluo. Questionar a validade é renunciar automaticamente àquilo que se questiona. A vida já estava aqui quando chegaste e aqui estará muito depois de tua partida. Não é ela que deve ou não valer a pena, és tu.


            Ainda caminho para o abismo, às vezes consciente, às vezes de modo meramente automático; aqui quando as forças e os motivos se mostram pequenos demais para alimentar a ação. Às vezes me esquecendo de que já caí de outros abismos, cada vez mais profundos em sua sucessão. Às vezes pareciam não ter fim, mas eu sempre cheguei ao piso rochoso da fossa após quedas cada vez mais prolongadas.


            Quanto mais me aproximo de sua bocarra escancarada e faminta, mais o vácuo frio e turbulento me queima por dentro, mas também mais me faz perceber o quanto a bonança do ponto de queda era tão mais triste e dolorosa, que faz então o óbito incessante parecer vida plena. Era só um analgésico que não curava realmente a enfermidade, e para o qual eu já estava insensível.


            Não, eu não direi que todas as pessoas são infelizes e não o sabem, não estou em suas mentes para saber o que realmente sentem e, ainda que lá estivesse, certamente não saberia traduzir os dialetos que somente a cada um cabe compreender; decerto que nem mesmo cada um tem ciência plena daquilo que lhe povoa cada pensamento, que dirá um observador? Afirmar aquilo seria pedância de um paciente que se nega ao tratamento psicanalítico.


            Enfim, nem as pessoas se conhecem realmente e não serei mais um a pleitear um busto por fazê-las duvidar de seus próprios motores de vida. Minhas dores são mais do que suficientes e só se aplicam a mim, não quero disseminá-las. Fazendo isso, eu seria tão pior do que os agentes agressores, que parar doeria menos do que o remorso.


            Ao abismo. Vejo tanto nada que tudo o que existe caberia ali com sobra de espaço, e realmente tudo se apresenta em uma fração de tempo que não posso medir. Ainda que pudesse, por que o faria? Estaria atrasado? Para quê? Tampouco tenho pressa de que se dê o desfecho. Urgência talvez, mas não pressa. Gostaria que tudo acabasse de uma vez por todas, mas quem me garante que realmente se acaba? Quem diz ao corpo já se apagando, que está terminado? O cérebro que já se terá ido? Onde está o registro do fim? O há?


            Não estou a um passo dele, estou a ele. A diferença entre a queda ao chão e a queda ao vazio, está simplesmente na direção para onde cairei. Ironicamente, tudo o que me acometeu até aqui foi colheita de meu plantio, mas agora, no zênite deste platô, a escolha é do vento que me empurra hora para o chão que piso, hora para o vazio adiante. A bem da verdade, meus pés já estão metade à frente, sem apoio, no ponto crítico do equilíbrio.


            A dor não aumenta e nem diminui, ou talvez eu é que não perceba mais se há variações. Talvez tenha me embrutecido justamente por não ter podido parar e me analisar. Ainda que parasse regularmente pelo caminho, que parâmetros eu teria para essa análise? E de que vale isso agora, se antes já não me valia? Homenagens póstumas não cicatrizam feridas. O que não foi dito ou feito até aqui, não o será mais.


            Pendendo para o abismo, puramente por força das conseqüências já plantadas, olho para ele e não, ele não olha para mim. Ele está pouco se importando comigo. Ele fará, ou não, diferença para mim, para si eu não significo mais do que mais um; não serei o derradeiro cadente em seu vão. Aliás, a escuridão infindável é clara e nítida, até mais do que a que já me contém. Em um tempo que não meço já não me contém mais.


            A ausência de pressão sob meus pés e pernas informa que a queda começou. Não é assustador como a tantos pode parecer, em verdade vos afirmo que a espera me tolhia mais a respiração. Não me atemoriza a iminência do impacto, isso é quase certo e não me desgasto mais com aquilo que não me cabe, mas se desgasta o animal que me veste e quer sobreviver a qualquer custo, bradando um grito que não ouve na vã tentativa de obter um eco que não vem. E não virá.


            Ainda que sinta o atrito cada vez mais intenso com o ar e a aceleração que me faria por para fora tudo o que tivesse em meu estômago, não há nada ao redor que possa me fazer mal. Tudo o que poderia me atormentar e ferir está dentro, não fora. E nesta solidão que já havia quando cercado por multidões, nem haveria agente externo a quem imputar qualquer culpabilidade. Ainda que pudesse fazê-lo, a culpa é apenas um expediente cruel de uma vingança eufemizada, somente o reconhecimento da responsabilidade, que poucos se dignam a assumir e levar a termo, teria os resultados que valeriam meus esforços.


            Ainda que o silêncio congelante me queime da pele até os ossos, não esboço mais qualquer reação no decorrer da queda. Chorar e sorrir se mostraram, no final das contas, a mesmíssima cousa, ambas me causam dor e cansaço que não me convém mais sentir sem a mais absoluta necessidade; até que essa queda se finde, não existe absolutamente necessidade alguma. Tudo que não seja a própria existência está indefinidamente suspenso.


            Vejo ao longe as trevas engolindo o horizonte que nem sei se existe. Talvez essas trevas se devam à cegueira e não ao ambiente, mas ainda que não seja tudo tão realmente escuro, a luz é tão tênue que não faz diferença, sequer eleva um grau em minha temperatura também cadente. Mas o que eu veria, se enxergasse, senão uma parede rochosa subindo cada vez mais rápido?


            Ainda estou caindo. Até quando eu não sei. Sinceramente, não me vale fazer cálculos sem parâmetros, se só existe agora a queda. Calcular agora não mudará o desfecho, o qual desconheço e ainda que conhecesse, não poderia evitar. É uma queda livre. Na verdade a única cota de liberdade que me foi permitido até hoje. Caio no meu tempo, do meu jeito, se vivo ou morto não importa mais. Apenas caio até o fim… se houver fim.


            A única coisa que me dói é a única certeza que tenho, e não é uma afirmativa: Quem se importa?

31/10/2018

Epitáfio de um vivo



  Não lamento as perdas ditadas pelo ciclo do inevitável, cuja vacância resultante abre a porta para o novo; sem a respiração deste ciclo a vida estagna e apodrece.
    Não lamento as perdas mais caras que cumpriram com seu dever, cuja dor resultante empunha a forja do caráter; sem os golpes deste ciclo o espírito enfraquece e sucumbe.

    Lamento somente a porta trancada que não permitiu a entrada do novo, deixando a perda crua e seu ônus descoberto sem a bonificação.
    Lamento silente a perda que em vão deixou sua vaga vazia e ressonante nas quatro paredes duras do vazio que se estabeleceu perene.

    De tudo o que perdi, vi cego em flashes fugazes a fuga do que fazia a diferença, levando consigo seu valor. Ainda que tudo perdesse havia então a esperança de tudo recobrar, ainda tinha eu a vontade pujante de viver.

    De tempos em tempos mais um pedaço que tinha morrido deixava o vazio maior, evaporando no nada em que as lembranças de apoiavam; Era duro sustentar tanto peso no vazio.
    De tempos perdidos eu já tinha um cervo que adoçava com a calda da esperança, evaporando as lágrimas vertidas das dores lavadas; Era duro perceber que ainda assim a dor aumentava.

    Cantei silente a melodia que aos poucos se desvanecia da memória sobrecarregada, deixando em brumas tudo o que tinha nitidez.
    Cantei inocente a esperança de que toda perda eu recobraria no fim da estrada, mas a força pujante sem reposição um dia se esgota.

    De tudo o que perdi, vi já não tão cego, mas ainda nebuloso a fuga da esperança remanescente, levando consigo seu calor. Ainda que tudo perdesse havia então a decisão de tudo recobrar, ainda tinha, petulante, a firme decisão de viver.

    Já havia mais passado do que porvir, o prazo escasseando indiferente ao que eu sonhava ou deixava de sonhar, e o sonho perdeu as cores como uma photographia exposta à chuva e ao sol; É duro perceber que só lembro o que sei, que o sentimento desapareceu com os rostos.
    Já havia mais pesares do que sorrir, os olhos secando pela lágrima faltante hoje dificultam dormir, e dormindo não há mais sonhos que refaçam a lucidez perdida, somente monstros das lembranças distorcidas; É duro enxergar mais do que pelo espelho se vê.

    Chorei mudo o choro seco que a meus olhos irritava, vindo então como única certeza o campo estéril que meu trabalho não foi capaz de fertilizar.
    Chorei alheio ao mundo em meu mundo fechado para não ser incomodado, vendo minha distopia desmoronar e revelar a areia suja do tempo de quem sofre só.

    A inércia mantém o movimento, Deus sabe até quando. A estrada não parece ter fim, o aclive mais íngreme a cada passo, mas parar não me pouparia do cansaço, só aumentaria a dor da fadiga. Não viria o desenlace para tudo terminar, só aumentaria o sofrimento da dor crescente. Músculo quente dói menos, músculo só se aquece em movimento.

    De tudo o que perdi, vi então ante minha cegueira moribunda, nada mais fazia diferença, nada mais tinha sabor. Ainda que tudo recobrasse nada mais serviria em meu favor. Já tinha eu, sem perceber, perdido a mim mesmo.

06/07/2018

A madrugada, um homem e dez cães

   
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    No ponto de ônibus, esperando pela condução para o trabalho e me perguntando como reporia o sono depois; era essa a minha situação na manhã de hoje. Por volta de 05h20. Não costuma acontecer muita coisa nesse horário, além de meliantes com o producto do furto nas mãos, viciados procurando algo para queimar o a erva, enfim... O trivial de uma metrópole que JÁ FOI um bom lugar para s e viver.

    Fora, talvez, uma cena no verão do ano passado, quando uma loura estava visível do tórax para cima, pelo teto solar de um Civic, provavelmente voltando da balada; a carinha e a dança mostravam que tinha acontecido algo mais.

    Mas hoje uma cena pitoresca me chamou a atenção. Um velho senhor barbudo, aparentando ser um desabrigado, com suas vestes maltratadas, um saco nas costas e um cano plástico de enrolar fazenda de tecido lhe servindo de cajado. Ele se aproximou de mim, passando mais rente do que seria prudente em uma cidade violenta como Goiânia se tornou, mas ele parecia mais preocupado em suas meditações do que em desviar de desconhecidos potencialmente perigosos, aos quais talvez esteja acostumado.

    Enquanto ele se aproximava, uns seis cães, mais diversificados do que pacote de biscoitos sortidos Fortaleza, atravessavam a 24 de Outubro, indo para a esquina da Caixa Econômica Federal. Lá costuma funcionar uma barraquinha de churrasquinho e "jantinha", eles devem ter sentido o cheiro. Não me chamaram a atenção, de início, mas enquanto aquele senhor se afastava, ressonando o ruído do tubo plástico na calçada, os cães começavam a correr para perto dele. Em tempo, essas "barraquinhas" cresceram muito nos últimos anos e quase sempre atrapalham muito, porque tomam as calçadas e vagas de estacionamento como se fossem áreas particulares. Falta regulamentação e fiscalização não é de hoje, nem só neste caso.

    Contei um... dois... três e me perguntei onde estariam os outros. Logo veio o quarto. O quinto e o sexto se demoraram mais, devem ter encontrado espetos ou guardanapos que ainda valiam umas lambidas. Me tocou o modo como eles seguiam aquele senhor, imagino que ele deva trata-los com muito respeito; não necessariamente com suavidade, pois a vida tem o mau hábito de embrutecer até  quem tem um teto estável, imagine a quem vive pelas ruas, esperando restos alheios!

    Mas os cães o seguiam, sem se esfregarem nele, mas sempre por perto. Me surpreendi quando um sétimo cão foi rapidamente sucedido pelo oitavo, ambos com problemas nas patas traseiras esquerdas, mesmo assim andando com desenvoltura em sua dança canina pela avenida ainda fria. Nenhum deles era muito magro, nenhum estava gordinho, mas todos estavam fortes e serelepes, então todos eles e o senhor provavelmente tinham o necessário em intervalos salutares para subsistir.

    Antes que o senhor chegasse à outra esquina, com o cano a ressonar na manhã escura e fresca deste inverno esquizofrênico, mais dois cães se apressaram em virar a esquina oeste e alcança-lo. Então eram dez cães, dos quais um homem muito pobre e velho cuidava a contento, mesmo com todas as dificuldades e não só a parte alimentar, porque os dez estavam muito mansos, sem nem se importar com os poucos carros e os ônibus que circulavam àquela hora.

    Eu não posso fixar atenção em um só ponto, pois a região naquele horário é erma e quanto mais atento estiver, menos riscos eu corro, mas observei aquele senhor e os dez cães em uma convivência clara e totalmente espontânea, se afastarem até sumirem no único horário em que não seriam tratados como agentes patogênicos. Talvez por isso ele não tenha tentado se afastar mais de mim, nem me olhado, nem me cumprimentado, talvez ser invisível tenha sido a regra de ouro para evitar mais dissabores do que a vida ingrata já lhe trazia.

    Tão repentinamente quanto surgiu, o som do tubo na calçada sumiu. Com ele o senhor e seus dez cães. Talvez para ele não faça a mínima diferença e, não fossem dez cães dependendo de si, talvez para ele fosse até um alívio desaparecer pura e simplesmente.

    Estamos no segundo semestre, as propagandas de natal não tardam muito a aparecer, então me veio à mente os antigos filmes sobre Papai Noel, em que o bom velhinho podia se disfarçar em alguma forma desafortunada para testar a reação das pessoas. Bem, eu não fui gentil com ele, não do modo como me acostumei, também tenho meus traumas e aprendizados e não incomodar um estranho em situação que me desfavorecem se tornou um hábito quase automático. Ficarei sem presente neste natal, ao que me parece.

24/05/2018

Esteja presente

   
A falta de recursos não é pior do que o Estado ausente, do que pais ausentes, do que parceiros ausentes, do que você ausente de si mesmo. Recursos se arranjam, com maior ou menor dificuldade, se improvisam, mas a ausência é, neste contexto, o vazio de um recipiente que deveria estar pleno, talvez até transbordando. Há de se lamentar a ausência de outrem, tanto mais quanto maior o compromisso feito, mas não se pode justificar a auto ausência naquilo que se dispuser a fazer.

    A maior carência de quem busca por momentos de prazer, nem sempre é o prazer. A pessoa vai ao lugar fazer algo, arca com os custos e riscos, então sai de lá (se vivo) sentindo-se mais vivo. Isso inclui a moda de esportes radicais, onde o risco de morte é o que atrai muita gente. A descarga de adrenalina, uma vez cessada, dá lugar à serotonina e a diferença de potencial resultante pode dar ao corpo a sensação de estar flutuando, a ponto de pequenos ferimentos nem serem considerados.

    É como estar em um campo de batalhas e sair vivo. Ninguém sobrevive se corpo e mente não estiverem lá, unidos, focados em fazer bem feito o que deve ser feito. Não se pensa na namorada, no desafeto, no programa de televisão, enfim, em nada que não seja concluir a contento aquilo que se foi fazer. O mesmo vale para cirurgiões, que precisam controlar até a respiração, esquecer-se da própria fadiga após oito horas contínuas com o paciente aberto. Em ambos os casos, a pessoa precisa estar presente no que faz para não causar uma tragédia.

    Não é raro uma notícia ou vídeo de motoristas que destruíram famílias inteiras, por se ausentarem momentaneamente da direção para mexer em alguma bobagem cibernética, mesmo que só para alterar o toque do smartphone. Parece ser algo banal, rápido, mas lembremos que qualquer veículo em baixa velocidade percorre uma quadra antes que a mudança de toque seja feita; uma quadra que o motorista não viu passar. Imagine um caminhão em uma rodovia, percorrendo mais de vinte metros a cada segundo! Qualquer distração pode significar de cinqüenta a cem metros de ausência das funções em andamento, se o indivíduo for rápido.

    Sejam quais forem a atividade e seus objectivos, o que quase todos querem na realidade é se sentirem mais vivos no final, fazendo todo o restante da semana valer à pena. Para se sentir mais vivo, o indivíduo precisa estar todo focado no momento que vive, relevando todo o restante; ele precisa estar presente consigo. Isso vale para tudo, inclusive para religiões.

    O que separa, basicamente, uma religião de uma mera superstição, é a presença do fiel durante os procedimentos, especialmente as preces. Memorizar e recitar uma oração complexa tem pouco valor, se a cabeça estiver em outras paragens, ou na malha colada da moça no banco da frente. Ok, o ambiente precisa de mais sobriedade, mas fixar-se e manter olhares no alvo é tua escolha. Não se trata de uma praia, não se está lá para apreciar a paisagem. Se tu não prestas atenção ao que está fazendo, então não acredita realmente no que está fazendo. Rezar pensando exclusivamente na prosperidade que espera conseguir com aquilo, também é ausência.

    A cultura de se ter tudo aqui e agora na potência máxima, é uma das grandes inimigas do compromisso para consigo. Entre os servos dessa inimiga, estão os "antenados" que querem que todos estejam plenamente cientes daquilo que consideram mais importante do que tudo, o que no Brasil tem se traduzido na figura do militante político/ideológico; infelizmente ele superou de longe o fanático religioso, que não tem a chancela da aparência de intelectualidade. O problema é que esses dois costumam ser carismáticos e demonstram sincera decepção para com os que não se alinham, alimentando a culpa e tirando a pessoa de si mesma para a carapuça apertada que querem que vista.

    Nem vou falar dos maníacos que tentam saber de tudo ao mesmo tempo e têm dezenas de abas abertas ao mesmo tempo no computador, e se consideram o suprassumo da inteligência. Bem, já falei, então serei breve, para não me perder de mim aqui. Há uma diferença sutil entre estar ciente de tudo o que nos cerca, e ter pleno conhecimento de tudo o que nos cerca; o primeiro é o salutar e necessário, o segundo é uma utopia insalubre que muita gente persegue. Perseguir uma utopia é correr de si mesmo a toda velocidade e depois se queixar da perda, culpando outros pela própria escolha.

    Aceitar se perder de si, muitas vezes significa abrir mão da própria personalidade, tornando-se mais um número a se parecer paulatinamente com todos os outros auto ausentes. Nem sempre parece, porque é gradual e nem todos escalam as graduações, mas os que o fazem tornam-se modelos para os outros e são tidos como corajosos, quando na verdade estão fugindo de si mesmos para não enfrentarem a própria ira, por terem traído o que mais acalentavam. E acabam destruindo aquilo que pretendiam, em princípio, proteger. Infelizmente esta é uma regra sem exceções, o radicalismo te toma de si mesmo e destrói as tuas bases mais caras, sem o quê a doutrinação e a lavagem cerebral não seriam possíveis; esta última a ausência total de si mesmo. É como usar palavras como drogas, o efeito é bem similar.

    E como fazer para não se ausentar de si mesmo?

    Prática. Prática contínua e persistente. Tentar ao máximo focar no que se estiver fazendo, deixar para depois o que pode ser deixado para depois, não olhar o gatinho que passa ali perto, não dar conversa para fofocas, não parar um minuto para ver o casamento do não sei quem com a nunca ouvi falar, não olhar as horas a cada cinco minutos; enfim, treinar estar presente naquilo que se estiver fazendo. Se algo realmente grave não acontecer, tente não se desviar. Não é fácil, ninguém diz que é, mas é necessário.

    Com o tempo, o teu compromisso para consigo mesmo aumenta, e passas a ter prazer e sentir-se vivo com as coisas mais banais e cotidianas, mesmo que só aconteçam uma ou duas por dia. Com o tempo não vais mais procurar prazeres todas as noites, porque já os tens ao teu alcance. Com o tempo, a culpa deixa de ter lugar na tua vida e ela cede lugar à responsabilidade, que é até parecida, mas não é histérica e violenta.

    Com o tempo e a prática, o resto do mundo pouco vai importar, porque não terá mais peso em tuas decisões e tuas opiniões, estas que não terás mais necessidade de mostrar todas a todo mundo. Vais descobrir eu uma hora sentado, tomando chá e meditando, muitas vezes é todo o prazer de que precisa na tua vida.

06/11/2017

Uma coisa sobre o amor

1940s

    Vamos deixar logo de cara a verdade, tu não levas absolutamente nada de quem amas. Mas nada mesmo! Essa coisa aí, entre as suas pernas, meus amigos, não é amor, na melhor das hipóteses é expectativa. Não, eu não quero saber de definições dadas por intelectuais, philosophos famosos e artistas cultuados; a maioria deles também não sabe o que é o amor. Não sabem e, em não sabendo, sofreram e os vivos ainda sofrem pelo que pensam que sentem.

    Digo sem medo de ferir, porque melhor para a alma é um ferimento pontual do que uma chaga cultivada em campos florais: amor é aquilo que tu dá pelo outro, não necessariamente ao outro. Explico, dois pontos:

    Essa coisa egoísta e possessiva que faz o corpo tremer, tender a correr e agarrar, agredir quem se puser no caminho e tudo mais, é conseqüência de reações hormonais que trazemos desde a origem de nossa espécie, e serve tão somente para garantir a perpetuação de sua linhagem genética. Os cuidados que a maioria e nós sente que tem obrigação de dispensar aos rebentos, é subseqüência disso. Na natureza, assim que o filhote consegue caçar sozinho, o risco de ele se tornar persona non grata no bando é muito grande, até porque ele provavelmente não vai mais enxergar seus genitores como "pai e mãe", um será o potencial parceiro de cópula e o outro o concorrente; ou talvez ambos sejam concorrentes, acontece.

    É assim, onde o impulso hormonal impera. Os adultos não se importam com o que vai acontecer ao descendente, assim que ele tomar seu rumo, e é bom para ele que nunca mais se cruzem, alimento na natureza é escasso. Fora do universo dos mamíferos, quase todas as espécies são assim, inclusive as plantas.

    O comportamento altruísta para com a prole, às vezes até com conhecidos não consangüíneos, pode ser aprendido, para que a pessoa tenha aceitação social e aumente suas chances de sobreviver até a morte natural. Neste caso, é uma construção social. Mas no caso das pessoas que realmente se importam com os outros, mais numerosas do que a imprensa faz parecer, às vezes se contraria a posição da família ou do grupo, para ajudar a outra pessoa. Claro, também há os que fazem questão de contrariar e provar que não cederam à "construção social", mas esse é outro caso para outro texto, caso de bobos que foram placidamente montados por quem berra a todo pulmão que a sociedade é uma montagem. Vamos ao que interessa aqui...

    O que basicamente diferencia a atitude de amar do mero impulso passional, é querer o bem do outro, ou do grupo, mesmo que lhe doa muito; e às vezes mesmo que doa ao outro. Pelo bem do outro, infelizmente muito mais freqüente do que gostaríamos, é necessário deixar que ele padeça até certo ponto, para ele compreender o erro que cometeu.

    O que faz o apaixonado? Tenta encher o outro de prazeres e facilidades a qualquer custo, mas qualquer custo mesmo! Se faz de servo, mas exige magistralmente reciprocidade dessa paixão, muitas vezes de forma asfixiante, mesmo que o pagamento seja noutra moeda; como um masoquista que se apaixona por um sádico, por exemplo... caso de muitos, mas muitos casais, quase todos inconscientemente. A paixão te cega para absolutamente tudo o que o outro fizer de errado, desde que não frustre as tuas expectativas, porque se o fizer, meus amigos, a paixão se volta contra o objecto de desejo e se torna o ódio mais estúpido. É assim que acontecem os "crimes passionais", que absolutamente nada têm de amor, mas tão somente desejo e sentimento de posse.

    Caso não consiga destruir o antigo "amor", aquele que por contracto hormonal deveria satisfazer a todas as suas expectativas, uma rixa que pode durar décadas, até séculos, pode colocar duas famílias em pé de guerra, como foi o caso até recente das famílias Alencar e Saraiva. E AI de quem estiver no meio do fogo, a paixão é cega e insaciável, para o mal e para o pior! Porque a simples recusa de um caso rápido, pode desencadear um ódio tão intenso, que matar se torna a única razão de viver do que foi frustrado.

    Isso não é amor! É preciso muita maturidade e, quase sempre, muita serenidade para deixar o amor crescer. Às vezes é preciso até mesmo se ferir, porque assim a ira hormonal se volta contra o ferimento e deixa o outro se revelar como é, para o indivíduo discernir se existem afinidades suficientes e sincronia para que esse amor tenha uma potencial relação a dois para cultivar. Isso vale tanto para uma pessoa, quanto para um grupo ou mesmo uma causa; só muda o foco, é amor do mesmo jeito. Bonito? Talvez não, quem ama o feio sabe que é feio, não o ofende e não romanceia a aparência, mas trata com amor do mesmo jeito.

    Acontece, meus amigos, que uma relação precisa ser renovada de tempos em tempos, algumas até continuamente. Não, nada a ver com aquelas demências televisivas de "loucuras por amor"! Eu já disse, o amor demanda muita serenidade e muita maturidade, características que não dão espaços parra arroubos exibicionistas. Eu tenho experiência no caso, mais do que quase todos os que me cercam imaginam, bem como base científica de décadas de convívio com psicoloucos, digo, psicólogos.

    Infelizmente, nem todas as relações são renováveis. Infelizmente em termos, porque nem todas foram feitas para a eternidade, a maioria se presta para nos dar lições, e é aqui que o amor se diferencia realmente da paixão. O sofrimento dos que amam não tem com o que se retroalimentar, dura enquanto a dor da separação durar e depois passa, sem com isso privar a pessoa de tocar sua vida. Talvez, se a separação for uma perda traumática, dure muito tempo, mas a pessoa não alimenta a dor, ela tenta atenuar até eliminá-la, para continuar vivendo e, principalmente, não tenta fazer os outros ao seu redor sofrerem também.

     Às vezes, bons amigos, a única coisa que se pode fazer por quem se ama, seja uma pessoa ou um grupo, é ir ou deixar ir embora. A tristeza se origina mais naquilo que ainda queríamos fazer pelo foco do amor do que pela separação em si, sejamos francos; todos fazem expectativas, por mínimas que sejam, inclusive eu. Esperar poder participar de algo com alguém, por banal que pareça, é uma expectativa. O que diferencia o apaixonado do que ama, é que este se recusa a vampirizar a vida do outro e o deixa partir. Às vezes o outro nem sabe, às vezes só desconfia, mas para o que ama a chance de esse outro (ou esse grupo) estar bem a longo prazo, é suficiente. Molham-se alguns lenços, talvez até um início de depressão, todos somos humanos, então se retoma a vida, ainda que aos poucos.

    Aqui, meus queridos, vem a diferença estrutural mais gritante: O amor liberta! tanto quem deixou ir quanto quem foi. E num dia qualquer, em um reencontro, ainda que um rubor denuncie, haverá sorrisos. Dependendo do que aconteceu, ou o que ficou por ser conversado, haverá risos. Porque sem os grilhões da obsessão, a tolherem seu desenvolvimento, ambos terão crescido. Apenas tente não fazer expectativas, não caia nessa armadilha, mas esse hipotético reencontro pode ter sucedido o hiato de que uma renovação perene necessitava para acontecer.

Só o amor vale à pena