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09/10/2024

Operação tapa-buraco - Velho, ranzinza e antissocial

Somewhere in USA 1940s


 

Por problemas técnicos, hoje não teremos a farta distribuição de links para notícias e vídeos bacanas. Choveu minimamente, a internet caiu, o técnico veio, colou com cuspe, virou as costas e foi embora, mal saiu e o cuspe descolou. Então a coleta de informações que a mídia nacional não faz questão de repassar fica para amanhã, por hoje só o lamento lúgubre de um quase idoso aborrecido e cheio de coisas para fazer, mas todas elas dependentes de um ponto minimamente estável e eficiente de internet. E não, estar impossibilitado de fazer meu trabalho não me poupa de aborrecimentos, as pessoas sempre encontram um meio de nos fazer sonhar com uma casa numa montanha em uma ilha particular, só para não ter vizinhos a menos de dez milhas, preferencialmente contando com um sistema de alarme com um raio de, pelo menos, cinco milhas, para eu ser alertado de qualquer aproximação, também poria obstáculos nesse anel de alarme, para obrigar os visitantes a só se aproximassem por onde eu determinasse, de modo que os pudesse vigiar até o fim do percurso, mas sem garantias de poderem atracar, ,mas uma vez atracando sem garantias de poder descer à terra.

 

Nossa! Mas o Nanael tá ficando antissocial! Não pode! Precisa se socializar, sair por aí, beber no bar, caçar briga com os amigos, ouvir música ruim e a repetir no caraoquê, arranjar uma peguetes para a noite, sei lá…

 

Eu já ouvi essa conversa mole, só quem não me conhece para falar uma pataquada  dessas. Se eu quisesse socializar, não teriam a mim faltado oportunidades, mas o Hanz Grotz que há em mim faria o curitibano médio se sentir um beijoqueiro de praça pública. Eu quero distância de aglomerações! Multidões a mim dão gastura, tenho vontade de sair distribuindo socos para abrir caminho na marra e dar o fora logo! Ir a uma pizzaria ou uma feira de antiguidades vá lá, são duas coisas que adoro e eu poderia sair facilmente antes de ter sintomas de asfixia; de uma delas após pagar a conta, é claro. Sim, eu comento muito de festivais de música em Cabo Verde e dos festejos que hoje começam com a Oktoberfest, em Blumenau, mas entre gostar de ver a alegria alheia e gostar de estar na muvuca existe uma distância intergalática! Eu não sou afeito a não conseguir andar sem me esfregar ou trombar nas pessoas, nisso sou meio japonês em minhas manias, gosto de privacidade e de respeito para com meu espaço, qualquer intromissão num raio inferior a um metro me incomoda muito. Em verdade até toques não autorizados podem me irritar, não importa de quem tenham saído.

 

Não quero neste texto de tapa-buracos convencer alguém a preferir um sóbrio e elegante sedã grande, ou uma útil e civilizada perua familiar full size a um trambolho mal desenhado, mais pesado do que o necessário e feito para agradar a quem tem medo de ficar de fora da moda idiota que tomou conta do mundo, só que se não fabricam o que eu gosto eu não compro, eu nem sabia que isto estava se embrenhando por esses caminhos, mas vá lá… onde eu estava mesmo? Eu disse que estou ficando velho! Ah, sim! Eu sei que uma ilha, por pequena e mal localizada que seja, custaria uma fortuna só para comprar, iriam mais dois montantes iguais para deixá-la apta ao usufruto, então eu me contentaria com uma boa choupana solitária em um morro dentro de uma propriedade bem demarcada e bem vigiada, de onde eu poderia antecipar aproximações, ver a paisagem enquanto trabalho e admirar as evoluções do lábaro longe das luzes urbanas, vendo a alvorada mais cedo, o poente mais tarde e as estrelas como aqui eu não consigo ver. Ainda me lembro de como era o céu sem o bombardeio de luzes aspergidas por uma metrópole.

 

Calma lá, eu não moraria no meio do mato bruto, bancando o Tarzan grisalho e desdenhando as tecnologias modernas, muito pelo contrário! Claro que as visitas admitidas se veriam num túnel do tempo, tudo o que não fosse ao menos no estilo do pós-guerra até início dos anos sessenta estaria devidamente guardado, quando fora de uso, mas para por aí. Eu disse que sairia caro e esse é um dos motivos, eu precisaria de um bom gerador de pelo menos 25kWh, possivelmente mais de 30kWh, para suprir a residência e a oficina onde poria meu cabedal para trabalhar. Coisas de todo tipo sairiam de lá, ainda mais sem vizinhos para reclamar do barulho, como móveis que se transformam em outras coisas ou se recolhem quando fora de uso, brinquedos, dioramas, utensílios, até mesmo carros de verdade estariam na lista. Para tanto eu precisaria desse fornecimento confiável de energia; o que a rede pública não oferece. Claro, o sistema de comunicação também dependeria desse gerador. Eu ficaria longe das pessoas, não alienado delas, por mais que relutasse em aceitar visitas. Uma vez aceitando-as, porém, seriam recebidas com toda a cortesia que se pode esperar. Preparar os acepipes seria outro capítulo.

 

Uma vez sozinho, eu teria que munir a despensa de ingredientes que deveria processar lá mesmo, fosse para preparar um molho de tomate ou para fazer uma torta espelhada de frutas vermelhas para os visitantes previamente agendados. Lógico que a torta e talvez biscoitos sozinhos não bastariam. Café, chá e sucos de frutas cariam parte do festim, mas para tanto eu precisaria manter temperatura umidade sob controle, para prolongar a vida útil dos alimentos, ou seja, mais consumo de energia, por pouco que fosse. Não haveria a granja do Seu Hélio logo na esquina para is abastecer para o dia, então eu teria que pôr a mão na massa e ela deveria estar fresca. Sair à cidade quase que só para abastecer a despensa. Claro que provavelmente eu teria alguns carros antigos, e anos noventa não… é… antigo… Então precisaria de minha oficina bem suprida, e isso também seria interessante para as visitas. Peças de tapeçaria e pequenas quantidades de productos químicos para eventuais reparos seriam necessários, ferramentas sozinhas não fazem milagres. Mesmo quase nunca saindo da propriedade, eles rodariam e estariam aptos a pegar a estrada.

 

Também um jardim. Gosto de jardins. De preferência um jardim com pomar, para atrair pássaros e borboletas, além de fornecer mai insumos para a cozinha. Seria uma praça ajardinada ao redor da casa, talvez com coreto, certamente com vários bancos, munido de flores de diferentes espécies para que sempre houvesse ao menos um tipo florindo ao longo do ano, incluindo ipês de todas as cores. Um orquidário seria imperativo, com as plantas penduradinhas nas árvores, fazendo um mosaico maravilhoso para alegrar e elevar meus dias, talvez os últimos. As frutíferas garantiriam a visita e até residência das aves, e elas têm proliferado nos últimos anos. No meio de toda essa fauna e flora haveria canteiros de hortaliças e ervas, destas sairiam a maior parte dos chás que eu tomaria todos os dias, como aliás já faço. Ter o direito adquirido por minha conta de meditar todos os dias em um jardim grande, repleto de boas energias e com a briza acariciando-me a face, está no topo de minhas prioridades, infelizmente é quase impossível ter essa tranqüilidade em uma metrópole. E não, eu não me dou com a falsa prosperidade de condomínios fechados, não gosto de dar satisfações da minha vida a absolutamente ninguém. Bob Esponja, cale essa boca!!!!!

 

Com tamanha liberdade e bons recursos, algo que eu faria seria uma bela decoração sazonal na entrada da propriedade, algo que fizesse as pessoas parem por uns instantes e talvez tirarem photos para suas redes sociais. Em especial o natal, quando eu capricharia no cenário para fornecer alguns minutos ou horas de sonhos, com a iluminação pensada para proporcionar a atmosfera mística que a efeméride demanda, e talvez reacender a brasinha quase apagada daqueles que ainda não tiverem encontrado o caminho para seus sonhos. Com o fornecimento de energia garantido, a boa oficina e uma dose de inspiração, figuras móveis dariam o tom em pé de igualdade com a sinfonia surda das luzes. Talvez, quem sabe, o trenó do Papai Noel surgindo por entre as árvores, descendo, deixando aos espectadores presentes simples que eu mesmo teria feito, então sendo erguido e sumindo de novo por entre as mesmas árvores; não é complicado como parece, tecnicamente só precisa que o básico seja bem-feito. Sim, eu faria questão de um espetáculo para alegrar as pessoas. Não, eu recusaria sumariamente e sem maiores explicações convites para declarações ou entrevistas à imprensa.

 

Muito provavelmente eu viveria sozinho esses últimos anos de vida. Não teria medo, não sou materialista, acredito que ninguém se vai antes da hora, então estaria tranqüilo. Precauções seriam tomadas para alertar um sistema de saúde, decerto que sim, mas nenhum receio quanto ao óbito solitário. Além do mais, que diferença faz a quem morre se há só Deus ou uma multidão ao redor? Isso é apego, eu não tenho mais. Ficaria bem na minha solidão voluntária, como fico sempre que a consigo, com visitas esporádicas e nenhuma porcaria de televisor ligado para me aborrecer. Eu estaria bem.

29/01/2023

A Maldição do Poeta

Da historinha "Rolo em: Saída Criativa", de propriedade de Mauricio de Sousa

             Em princípio o poeta tem boas intenções, mas sabemos que delas o inferno está cheio. Ele é demasiadamente apaixonado pelo que faz para admitir que possa haver algum mal em seu ofício. Ao contrário daqueles que apenas aprendem a técnica, ele tem uma sensibilidade rara para expor e reconhecer sentimentos, além de um modo só seu de fazê-lo sem com isso se fazer incompreensível, embora às vezes lhe convenha ser. Tudo o que o poeta honesto almeja é viver de suas trovas, encantando as pessoas com sua habilidade de dar encanto às formas rudes do cotidiano, nisso alguns cumprem com extremo êxito a sua missão e deixam de ser pessoas para serem vultos históricos. Antes de tudo, o poeta é um sedutor que acredita em tudo o que diz, e demonstra isso com tamanha sinceridade, que acaba seduzindo seu público.


            Um ponto fraco do poeta é sua recusa em sair de seu mundo, em alguns casos de sua bolha. Ele vende palavras, às vezes nem mesmo se dando o trabalho de escrevê-las, então não tem qualquer intimidade com a produção, ele encontra os productos prontos sempre que se digna a sair ao mundo real para buscar provisões. Está tudo lá, em formas e tamanhos para uso imediato, no máximo ele se informa por alto do modo como tudo aquilo foi feito, geralmente não compreendendo os motivos de se trabalhar tanto, já que árvores frutíferas nascem espontaneamente na floresta. Testemunhos e a palavra de quem trabalha no campo não contam para ele, não há argumentos que o demovam, se não couberem em sua narrativa, quase sempre com ar argumentação de que vultos intelectuais da história endossam sua posição, não até ele se ver com fome e frio, o que os que o cercam raramente permitem que aconteça.


            Por tudo isso tem facilidade em angariar simpatia e reunir grandes públicos em um só lugar, o que é particularmente interessante para comerciantes, que passam a protegê-lo de uma forma ou de outra, então o poeta novamente se convence de que poesia é tudo e que um poeta não precisa das coisas mundanas. Para a soberba lhe subir à cabeça, é um passo, que muitos deles dão. Por ser conveniente aos negócios, comerciantes toleram até certo ponto o que ele apregoa e a sua sensação de independência cresce, pode começar a acreditar que os outros é precisam de seus poemas e por isso o resto do mundo é obrigado a sustentá-lo; não de qualquer jeito, é claro, sempre com muito conforto, abundância e prazeres. Um hábito arraigado é tolerar e minimizar qualquer erro que alguém de sua turma tenha cometido, mas amplificar qualquer mínimo deslize que um desafeto ou discordante cometa nas mesmas circunstâncias, sob as mesmas alegações e com as mesmas conseqüências.


            Por isso, por vezes ele pode ser inconveniente, tentando convencer as pessoas a aderirem ao seu modo de vida, pois se todos vivessem de poesia, todos seriam felizes como ele. Sem preocupações materiais com as coisas que precisam ser pagas para serem obtidas, afinal se a poesia vinha de graça, tudo mais também o deveria. Por isso sua simpatia particular é pelos vultos antissistema, que em sua cabeça lutaram justo para que todos fossem poetas. O conteúdo não lhe é tão importante, porque a forma é com que trabalha. Se a forma não lhe for agradável, ele se vale de sua imensa facilidade para criar textos e discursa longamente com rebuscamentos capazes de seduzir a população, especialmente a outros poetas que engrossam rapidamente seu coro e fazem os divergentes parecerem a parte ruim da discussão. Fazer muito barulho, para o poeta é o mesmo que agir, ele é capaz de repetir "pam-pam pam pam-pam" diante do interlocutor sem se preocupar se está faltando com o respeito, para depois se vangloriar que ganhou a discussão. Ele ama e odeia com a mesma facilidade e intensidade, não há meio-termo.


            Também por isso ele é uma presa fácil de populistas, que têm maestria em falar o que o poeta quer ouvir enquanto dizem o que lhes convém, fazendo ele acreditar que está concordando com uma coisa, sendo que o conteúdo é outra. Isso torna o poeta um disseminador de idéias que ele pensa que conhece e o seduziram pelas formas que camuflaram o conteúdo, divulgando assim algo que ele estudou, mas efetivamente não conhece. Sua habilidade em rebater argumentos é bem explorada pelo populista, que o defende com unhas e dentes e faz tudo para que ele não conheça os meandros das idéias defendidas, ao menos não até que esteja tão envolvido e apaixonado por elas, que atrocidades decorrentes de sua prática não façam mais diferença em seu julgamento. Os seguidores do poeta então também adoptam o que ele propaga e tornam-se, mesmo que indirectamente, executores dos ditames do populista. A propaganda passa a ser a notícia.


            Com a argumentação legítima de que a cultura é essencial, o poeta ataca com fervor quem prefira investir em outros assuntos, especialmente a defesa, ignorando que deixar o outro em paz não é garantia de ser deixado em paz, para ele poesia é vida e defesa é morte, ponto final, absolutamente nada além de estar na mira do fuzil do invasor vai demovê-lo. Até lá, ele vai se negar a reconhecer que possa estar errado, pois isso poderia abrir mão de uma série de crenças sobre as quais ele erigiu seus sonhos mais nobres, seria abrir mão da narrativa que norteia seu horizonte e dá sentido à sua vida; e é claro que ele faz questão de cantar e declamar isso com o máximo possível de emoção, seu público vai sair por aí cantando e declamando a mesma coisa, tomando suas dores e apontando o dedo para os narizes dos desafetos. Não é maldade, não deles, é como se fossem fiéis de uma seita tentando defender sua divindade daqueles que acreditam ser uma ameaça à sua fé. Então o poeta se torna uma mistura de flautista de Hamelin com Don Quixote de La Mancha, cercado de Sancho Panças infantes fascinados por sua loucura. Meias-verdades, para ele, podem ser arredondadas para verdades ou mentiras absolutas, sem remorsos.


            O maior problema é que esses seguidores podem acreditar que precisam se tornar uma milícia, e é muito fácil eles acreditarem nisso. Nada oficial, nada comprometendo o poeta, mas basta ele fazer cara feia para alguém e este se tornar alvo de agressões, mesmo que só em redes sociais. Para todos os efeitos, seria uma defesa, não ataque, e o poeta lisonjeado não vai contrariar seu público, ele achará lindo cada atrocidade cometida em seu favor. Ainda que a ação em si lhe pareça reprovável, ela terá sido cometida em nome daquilo em que ele acredita, dificilmente vai ao menos tentar corrigir os autores, ele depende deles e tudo o que não quer é ver seu público se virando contra si. Aqui temos uma das armadilhas a que está exposto, ele torna-se cativo das próprias palavras, tanto para o público quanto para o narcisista populista. Ele até pode encerrar sua carreira de forma desagradável e por um ponto final, mas sua paixão pelo que faz o impede. Em alguns casos o poeta nem pensa nisso, nem mesmo enxerga contradições, nem dois pesos e duas medidas, não importa o que tenha sido dito ou feito; se partiu de seus asseclas, é justificável, o que tiver saído do outro é condenável não importam as motivações.


            Não é grande a parcela de poetas que se corrompe e cai nessa armadilha, mas os que caem nela se esmeram em obter notoriedade para facilidade a disseminação de suas idéias, ou das que pensam que são suas. Assim como ele é extremamente hábil em manipular palavras, é também facilmente manipulável por qualquer um que demonstre de forma convincente compartilhar delas. Quando se dá conta de estar sendo manipulado, isso quando se dá ou se importa em, já está até o pescoço em tudo o que o manipulador tiver feito ou dito. Ainda que tente suavizar suas palavras de então em diante, já está totalmente comprometido com o que já foi dito. Desaparecer repentinamente pode até ser um alívio para ele, mas não vai frear o que estiver acontecendo, pelo contrário, ele pode ser considerado um mártir da causa a ser exaustivamente explorado pelo manipulador. O poeta que se importa só pode frear isso se rebelando contra os acontecimentos, mas então ele será tratado como traidor e pode não sobreviver a isso.


            A morte até pode ser um alívio, mas o poeta morreria ciente de que seu trabalho será usado para tudo aquilo contra o que ele dizia ser.

24/07/2022

Só pensando com meus botões. Trabalhar no verão e descansar no inverno.

Imagine chegar mais cedo e ser recebido assim.
1950s-60s


             Não existe um tempo realmente certo para se tirar férias ou folgas prolongadas, primeiro porque a civilização geralmente nos provê o necessário para escolhermos quando isso vai acontecer, segundo porque essa mesma civilização precisa de nós tanto quanto nós dela, por isso essa escolha precisa ser bem pensada e feita com alguma antecedência sem garantias de que não haverá prejuízos De qualquer forma, é imoral que nos deixem morrer de fome, então com maior ou menor presteza haverá algum socorro; não espere por isso em comunidades isoladas, elas são tão restritas que quando um membro precisa parar, todos os outros sentem o peso e todos padecem junto em maior ou menor grau. Em uma comunidade isolada, ou mesmo no caso de eremitas, o que dita a época de trabalho e a época de descanso é o clima. Em época de fartura, trabalha-se duro para prover o necessário, reparar eventuais danos inclusive à saúde, reforçar a despensa e planejar a próxima estação restritiva, quando o repouso compulsório para a preservação dos recursos amealhados se dá.


            Era mais ou menos assim a até não muito tempo, na verdade até a revolução industrial muita gente nem sabia o que era um relógio, então não estranhava dormir mais no inverno do que no verão; provavelmente a maioria nem percebia esse fenômeno, simplesmente tratava de dançar de acordo com a música circadiana e ponto final. As coisas começaram a mudar quando deslocar-se deixou de ser algo de estrita necessidade à sobrevivência, e ser analphabeto não era mais uma "obrigação". As pessoas passaram a ler e escrever à luz de velas, sair para visitar alguém na primeira folga, coisas que incentivavam varar algumas horas além do ocaso. Com isso o hábito de dormir em dois turnos durante a noite, regra quase absoluta até a idade média, começou a dar lugar às horas corridas de sono. Foi um efeito colateral especialmente para a caótica era de reurbanização ocidental, quando sair para visitar alguém no fiofó da madrugada deixou de ser socialmente aceitável; isso é hábito medieval do sono de dois turnos. Para quem ainda não soube, na idade média as pessoas iam dormir com o sol, então sobravam horas de vida noturna que não cabiam no sono, então eles simplesmente tocavam a vida como se fosse dia, incluindo ir visitar pessoas no meio da madrugada, então voltavam para mais uma soneca. Imagine isso no inverno, com suas noites tão longas!


            Com o avanço dos meios de produção, que tornaram até um tecido caro como o algodão acessível aos mais pobres, as pessoas passavam a prestar mais atenção aos detalhes e não só ao conjunto, posto que sua sobrevivência agora dependia também disso, inclusive pelas novas regras sociais, por outro lado essas mesmas regras novas e sua fome por novidades deixaram as pessoas do povão cada vez menos parecidas, dando ao trabalhador braçal noções mínimas de individualidade. Embora as novidades tecnológicas da bélle époque ainda fossem inacessíveis, posto que eram tecnologias muito novas e com produção ainda consideravelmente rudimentar para se manter a qualidade em larga escala, antigos luxos como livros e relógios já não eram mais surpresas em casas pobres. As pessoas estavam mais cientes de si mesmas e de seu tempo disponível, então todas essas celebrações pessoais que temos hoje se alastraram. Já não se era mais um reles passageiro do tempo, já se era membro da tripulação, já se poderia fazer um mínimo para organizar a vida com relativa eficiência. Quando do advento das férias, com elas o hábito de viajar, que era reservado aos muito ricos e à extrema necessidade, a preferência especialmente setentrional pelo verão tornou-se mais cultural.


            Ficou quase que padronizado, o verão seria a época de se descansar e divertir, o inverno a de maior recolhimento mesmo com as actividades laborais ainda vigentes, primavera e outono seriam épocas festivas com ecos das tradições pagãs e tudo mais. O interessante disso é que justo nas épocas de maior fartura, as pessoas estão mais propensas a descansar. O irônico nisso é que do meio da primavera até o auge do outono temos a melhor época para acumular recursos e enfrentar os rigores invernais. Então seria o verão, com os bons efeitos da primavera ainda vigentes e as colheitas do outono se anunciando, a melhor época para fazer horas extras e não precisar trabalhar quando for mais necessário poupar energia. Aqueles memes que tratam o frio como tendo mais vida, deixam de lado por sua natureza satírica o facto de que o corpo trabalha mais para manter-se funcionando, com isso reclamando ingestão de mais calorias, que dão a sensação de saciedade que um quilo de brócolis não conseguem; dá um trabalho enorme digerir brócolis e, vai muita energia embora nisso. Assim consumimos os recursos que as fábricas fornecem, pois já há tecnologia mais do que suficiente para isso acontecer sem perda de qualidade, garantindo a quem precisa andar de ônibus uma subsistência mais confortável do que os ricos da baixa idade média tinham, até em casas de nobres a garantia de sobreviver ao frio era questionável. Um pobre de hoje pode ser mais rico do que os ricos de então, não romantizem tanto a idade média, na verdade ela era bem abaixo da nossa média.


            Ficou muito fácil produzir calorias de modo que não apodreçam em uma semana. Sim, a qualidade nutricional de um alimento industrializado é geralmente questionável, na maioria dos casos eles são alimentos recreativos, mas adivinha o que acontece se modificarem o sabor de uma barra doce para ser mais funcional do que saborosa. Ainda vai tempo até tudo ser saudável e saboroso sem custar os olhos da cada, até lá não subestime o poder de um refrigerante e suas altas doses de açúcar para quem está sofrendo de hipotermia e não tem outro recurso à mão. O facto é que essas calorias abundantes e baratas, com extensa validade, simplesmente não podem faltar em uma despensa de emergência, e um inverno rigoroso é uma emergência prolongada. Só temos algo parecido no Brasil na região Sul e olhe lá, não dura muito, mas enquanto dura ela castiga quem vive lá; admirar-se pela televisão com o espetáculo da neve caindo é coisa de gente tropical. Bem, se é fácil e barato produzir alimentos em plena era glacial provisória, imagine fazendo isso quando o clima é propício! Não que se deva parar no inverno, imprevistos ocorrem e precisam ser supridos, mas o ritmo biológico é naturalmente mais lento quando há menos luz, e em certas partes do mundo há mais de três meses de breu. Seria então mais econômico e até mais producente trabalhar mais nos meses mais quentes e confortáveis, para trabalhar uma ou duas horas diárias a menos no inverno, aproveitando mais a família e os amigos, bem como dedicando mais tempo à própria pessoa.


            Há de se pensar que o ocidental já é um trabalhador compulsivo, que passa horas no trânsito todos os dias, mas isso pode ser resolvido com planejamento, as empresas combinando de os operários da indústria de base entrar e sair uma hora mais cedo, por exemplo, mantendo esse escalonamento para as etapas econômicas consecutivas, bem como incentivar o quanto se puder o trabalho remoto. Nem tudo pode ser feito remotamente, não se desamassa um capô com planilhas e e-mails, mas boa parte da actividade intelectual pode, pelo menos uma parte da semana. Nisso se aproveitaria não só o clima favorável como também o dia mais longo para desestressar o trânsito em horários de pico. Com tudo propício para se produzir mais com menos dispêndio de recursos, com o calor e a luz solares incrementando o crescimento vegetal, animais engordando com mais rapidez, lâmpadas acesas por menos tempo, aquecimentos obrigatórios demandando menos energia e tudo mais, os custos de produção dos recursos necessários à época de escassez diminuiriam consideravelmente, pelo muito maior aproveitamento dessa janela energética. Nos meses consecutivos os preparos para o inverno incluiriam a redução gradual da jornada de trabalho, para facilitar a adaptação de nossos corpos que ainda são os mesmos da pré-história. A produção apenas para reposição e manutenção demandaria horas a menos de trabalho diário, dando às pessoas a serenidade que a estação demanda.


            Sim, é claro que é lícito entreter-se e esbaldar-se com a fartura veraneia, para isso se tem o excedente de produção, em nenhum momento eu disse o contrário. O que eu disse é que as estações mais claras e quentes são as melhores para se trabalhar mais e acumular recursos. E é este o ponto, porque as pessoas à amiúde querem aproveitar o dia mais longo para justamente aproveitar o dia, como se uma ou duas horas extras coletivas bem planejadas não o permitissem. Muito ajuda a manter essa mentalidade o cinema, que louva o verão como a estação do usufruto, como se pessoas não precisassem trabalhar duro para que alguns usufruam. Assim como a passagem da mentalidade laboral medieval para a moderna/contemporânea, não seria algo abrupto e impositivo, isso simplesmente não funciona. teria que ser incentivada a adesão voluntária ao modelo de cargas horárias cíclicas, em que se trabalha um pouco mais todos os dias nos meses quentes e o contrário nos mais frios, do modo mais gradual possível. Claro que o mesmo cinema que atrapalha aqui, ajudaria a incentivar essa adesão, da mesma forma como mostra o não trabalho como objectivo de vida.


            Decerto que nos países tropicais essa mudança seria bem menor e traria menos benefícios, fazer o quê? A economia gerada pelo resto do mundo, entretanto, seria benéfica para nós, que não precisando trabalhar menos nos poucos momentos de frio real que temos, venderíamos para eles o de que necessitam e, afinal, há artigos que simplesmente não são cultiváveis em zonas temperadas, não sem um custo abusivamente alto. Além do quê, não é para cá que eles viajam quando o inverno aperta lá? E esse mesmo inverno, com seu convite à introspecção e à meditação, tem tudo para se tornar uma época extremamente aprazível e romântica. Não, não estou apresentando uma agenda para impor e tampouco ordenando ao cancelamento de quem não aderir, meu grau de idiotice ainda é bastante baixo. Como diz o título, isto é apenas uma coisa que me veio à mente e que daria algo decente para publicar, mas também algo em que eu acredito, ou não teria me dado o trabalho de um dia inteiro dedicado a este labor. Desse modo nós deixaríamos de lutar contra o relógio, ele seria nosso aliado.

06/12/2021

O maldito opressor do bairro

  

Via Área de Mulher


           Pedro Exelissómenos era um homem comum de um bairro pobre comum, com uma vizinhança pobre comum, que preferia pagar cem por cento de juros em prestações a perder de vista em uma televisão maior do que a parede, a ter uma de tamanho médio e investir os recursos restantes no bem-estar da família. Pedro, porém, não se sentia confortável nessa situação, estava mais se espremendo para se adequar do que propriamente usufruindo da vida que levava. Certa feita, na volta para casa, o ônibus com suspensão e chassi de caminhão precisou fazer um desvio, passando por um dos poucos bairros nobres restantes, posto que a maioria se mudara para cidades privadas que chamam de "condomínio fechado", como se este já não existisse aqui dentro. Enquanto os outros se admiravam com a riqueza e alguns cuspiam nos carros estacionados, inclusive em um raro Mercedes-Benz SL500 com a capota baixa, Pedro observava o que até então lhe passava desapercebido. Não era só pela coleta mais freqüente que aquelas ruas eram limpas, todo o lixo era depositado em local adequado e bem organizado, mesmo as coisas que os ricos não queriam mais eram postas de modo a não atrapalhar o caminho dos vizinhos. A grama também era interessante por estar bem cuidada e bem aparada, enquanto sua rua era um matagal só. Bem, aquilo ele poderia fazer, não precisava ser rico para ser limpo e civilizado. De repente reconsiderou a compra daquele celular caro e badalado. Estava mesmo na hora de comprar um novo, mas optou por um modesto que, surpresa, atendeu com sobra a todas as suas necessidades. Como custou menos do que um carro usado, pôde parcelar em menos vezes e pela primeira vez sem juros.


            Pedro chegou em casa e viu aquela baderna em frente à sua porta. Na falta de um tesourão, pegou um facão e deixou aquele mato com cara de grama, voltou para dentro a tempo de pegar o lixo e o colocou em uma caixa à porta, então foi tomar seu banho. Para quem passava em frente, a diferença era gritante, a casa de Pedro estava cercada me mato que os vizinhos esperavam que a prefeitura roçasse. Com o lixo bem acondicionado, os coletores levaram rapidamente sem deixar cair nada pelo caminho, com isso sua frente também estava bem mais limpa do que as dos vizinhos. Até aqui tudo bem, era só uma casinha mais limpa do que as outras, situação que pensavam que não fosse durar muito tempo. Mas durou. Com aquela imagem de civilidade pulsando em sua mente, Pedro começou a prestar mais atenção à sua casa e à sua família, mudando suas prioridades e realocando seus parcos recursos para seu lar. Em vez de comparar aquele televisor O-led de cem polegadas com imagem tridimensional e sistema de som tetradimensional, manteve o seu de quarenta que já tomava boa parte da parede. O dinheiro não gasto foi investido na família. Pôde pagar um tratamento dentário em uma clínica melhor e não deixou de prestar atenção à decoração que, olhando de perto, poderia fazer similar em sua casa com madeiramento que vê jogado fora no bairro. Não foi difícil encontrar a matéria-prima de precisava. Tratamento com óleo queimado, cortes bem feitos em uma marcenaria e pronto. Toras mais brutas se tornaram um caminho do portão à porta de casa, que por dentro recebeu painéis de madeira em todos os ambientes, que inclusive permitiam pendurar prateleiras e elementos de decoração.


            Para os que passavam a trabalho pelo bairro, era como ver uma casinha de classe média em um espaço limpo no meio do lixão. O carteiro já não confundia mais os endereços, inclusive porque o da casa estava bem nítido e ladeado por pastilhas de cerâmica azul, enquanto na vizinhança o melhor que havia era algo pintado à mão em pedaços de lata que a ferrugem já carcomia, muitas vezes ilegível. Por dentro as mudanças eram comentadas pelas visitas, porque eles estavam comendo melhor, não necessariamente gastando mais, mas os hábitos da casa estavam se refinando quase que inconscientemente. Nem tudo vinha mais do supermercado do bairro, que já não supria mais as necessidades da família, muita coisa era trazida de lojas mais centrais, o que também não deixou de ser notado pelos vizinhos, que não viam mais Pedro torrando seu dinheiro nos botequins próximos. Alguns amigos se afastaram e gente nova tomou seu espaço, acentuando mais as mudanças, que não demoraram a se refletir na indumentária, eles não aceitavam mais pagar caro para parecerem mendigos e fazerem propaganda grátis para marcas da moda. Um discreto e eficiente Prisma branco não demorou muito mais a encontrar vaga na garagem daquela casinha, do lado oposto ao do alpendre com seus bancos rústicos de madeira de toras descartadas em podas m al feitas pela prefeitura. Estavam tão imersos nessa nova vida, que só os comentários dos parentes os fez se darem conta do que estavam fazendo. A bem da verdade, só trabalharam com o que já tinham, em cima daquela mesma casa que passaram a cuidar melhor, e isso por si já tinha feito uma gigantesca diferença, o facto de estar limpa e com a pintura em dia a destacava das demais.


            Pedro e sua família começaram a pegar gosto naquilo em que estavam vivendo, em poucos meses sua humilde casinha já não tinha mais "suja" e "sufocante" como adjetivos. Só com material descartado, e algumas velhas revistas de decoração, conseguiram transformar sua casinha humilde em uma humilde ilha de beleza e bom gosto naquela vizinhança. Sua parte da calçada estava limpa e com a grama aparada, o lote contando com jardins verticais e lugares para se sentar e descansar. Claro que nem tudo fugia à regra, eles tinham suas contas em redes sociais, então publicavam normalmente imagens e vídeos curtos, cuja diferença paulatina foi notada e comentada pelos contactos, até chegar ao ponto em que pareciam ser uma família de classe média não deslumbrada. Agora não só comentavam como compartilhavam as postagem aos milhares, fazendo o mundo ver gente pobre sem pobreza mental, arrancando elogios de várias partes do mundo, com o bom gosto e a originalidade arrebanhando fãs pelos quatro cantos do mundo. Ah, isso foi demais! Quem eles pensam que são para querer parecer mais do que seus vizinhos? Não demorou para um ou outro jogar seu lixo na frente daquela casa, e as queixas não demoraram a serem respondidas com violência, então parecia que o bairro todo jogava seu lixo na calçada bem cuidada deles. Facilitou a vida da coleta, mas os coletores não gostavam do que estavam vendo, aquilo de jeito nenhum era lixo de uma casa só.


            Pedro conseguiu em uma demolição uma grande estrutura de condomínio para o lixo, acreditando que isso resolveria o problema, mas não. Ignorando a providência, continuaram jogando lixo em sua calçada, e eles tiveram que trabalhar mais para manter sua frente limpa. A ousadia, nutrida pela impunidade, posto que o poder público deu de ombros para as denúncias, fez os autores publicarem em vídeo o que faziam, e nesta era em que o podre tem mais apoio do que a sanidade, os vândalos conseguiram fãs. Não demorou a aparecerem fezes bem na saída da casa, e o lixo ser jogado para dentro do lote. Com tristeza a família Exelissómenos decidiu se mudar, mas em silêncio, sem nem mesmo contar aos parentes. Em um dia de jogo de futebol, com todos amontoados e berrando em poucos lugares, conseguiram ir embora levando o que conseguiram de toda aquela decoração já feita, mas muita coisa simplesmente não podia ser transportada. Findado o jogo, com a derrota amargando e sendo nutrida pelo álcool, alguém aventou que Pedro seria torcedor do time vencedor, então graças a Deus que saíram cedo e sem alarde, porque o que eles puderam destruir, foi destruído. Só não tiveram o linchamento que pretendiam porque a esta altura Pedro estava ajudando a organizar sua nova casinha, ajeitando como podia os elementos de decoração que tanta ira atraiu daquela vizinhança. Aos filhos autorizou continuarem a postar imagens e vídeos, desde que não revelassem seu endereço.


            Mas para a felicidade deles, estavam mais próximos daqueles internautas que tanto elogiaram suas postagens, e reconheceram de cara o estilo enquanto passavam por aquela nova rua. Ao baterem à porta para pedirem indicação, encontraram o próprio artista, cujas feições e olhar não escondiam suas origens humildes e sofridas, mas já não era aquele olhar de derrota e rancor de outrora. A tristeza então era pelas circunstâncias que obrigaram sua família a sair à francesa daquela casinha, que virou ponto de tráfico e aterroriza a antiga vizinhança. Ele começou orientando os novos vizinhos sobre o que poderiam fazer com o pouco que tinham, no caso dos passantes mais abonados como não parecerem cafonas deslumbrados. Como gosta de crianças, fez coisas com compartimentos secretos, surpresas, elementos que mudam de forma e se transformam em outra coisa, com isso encantando até os adultos. Foi no primeiro Dezembro na casa nova, com a decoração deslumbrando e virando notícia, que Pedro precisou deixar seu emprego, porque as insistentes encomendas de lojas e residências tomaram todo o seu tempo, precisou abrir um CNPJ e colocar a família para trabalhar. Decorações de natal com compartimentos secretos, surpresas, alta interatividade e alto grau de personalização deram início à vida para a qual então já estavam realmente prontos e familiarizados. Comprar celular caro? Televisor gigantesco? roupa brega e cara com jeito de mendicância fazendo propaganda para a grife? Atormentar a vizinhança com som no último volume e obrigar todo mundo a ouvir o que eles querem? De jeito nenhum! Até porque o que eles gostam de ouvir hoje, simplesmente não combina com exibicionismo, não combina com pobreza mental.

27/11/2021

Comentários que ninguém me pediu, mas fiz assim mesmo

Clara Nunes



Ao contrário de vias externas, que fazem os sistemas mais avançados confundirem uma lua cheia com sinal fechado e forçam uma frenagem de emergência por causa de um trem que está correndo no subsolo, o ambiente funcional é perfeito para veículos autônomos, tão perfeito que pode até dispensar assistência externa de antenas transmissoras e satélites. Aliás, não existe autonomia real se há dependência de meios externos para qualquer coisinha que se faça. O ambiente controlado de uma empresa, ou mesmo de treinamento das forças armadas, é o melhor possível para não só utilizar, como também aprimorar carros autônomos, de modo que venham a ser realmente autônomos, sem precisar usar crianças estabanadas a correr inadvertidamente para a rua como cobaias. Da mesma forma, embora com restrições, corredores fechados de uso exclusivo do transporte público são excelentes para isso, não só pelo uso (teoricamente) restrito da via, mas também pelo milionário preço de um bom ônibus articulado ou biarticulado, que diluiria muito bem os custos de um sistema de controle de automação veicular, embora aqui o monitoramento humano ainda seja imprescindível.

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Ainda sobre esse excesso de confiança na tecnologia, que querem nos enfiar goela abaixo, a dependência de fornecimento externo de instruções e permissões já começou a causar mais dores de cabeça do que os entusiastas conseguem esconder. Ficar trancado do lado de fora do carro por não haver meio físico para o próprio dono entrar, ou dentro por não poder sair, pode acarretar riscos à integridade física. Não me refiro apenas à chateação de perder o controle de sua propriedade e ficar debaixo de chuva, e um Tesla não é barato nem nos Estados Unidos, mas também aos casos de emergência em que a celeridade das providências podem ser a diferença ente a vida e a morte, como um médico precisar sair no fiofó da madrugada para atender um paciente na mesa de cirurgia, situação que está longe de ser rara. Imagine isso acontecendo com uma ambulância, com uma viatura policial ou do corpo de bombeiros. Ter que quebrar os vidros do carro para resgatar seu filho, por exemplo, e descobrir que o caro mandou um alerta de tentativa de roubo para a polícia, seria uma experiência horrível. Não menos pior, imaginem a sua casa “smarthome” barrando a sua entrada por falha no servidor do fabricante, ou porque um hacker decidiu usar isso como meio de chantagem; pior, um hacker pedófilo decidiu usar isso para gravar seus filhos pelas câmeras da própria casa…

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Agora, por que há tanto incentivo para que tenhamos essa confiança cega na tecnologia? Suspeito que um dos motivos é o adestramento para que tenhamos paulatinamente confiança cega nas instituições, nas ONGs, nas empresas, enfim, o que facilitaria nos convencer a ter confiança cega no Estado; leia-se, políticos. Notaram que os amantes da Tesla, por exemplo, agem tal qual uma torcida organizada, às vezes como uma máfia? Foi só a Ford lançar aquele (AAAAAAAARG!!!) suv eléctrico do Mustang e a imprensa especializada morrer de amores por ele, que seus proprietários passaram a ser ameaçados pelos teslanóicos. Gente assim é facilmente mobilizada para agredir e até matar opositores de figurões, que ficariam limpos na imprensa por não terem precisado mandar ninguém fazer nada. Aliás, se eu fosse um repórter automotivo e começasse a ver no Celestiq qualidades que não tivesse visto no Model S, eu providenciaria segurança privada. Com esse tipo de gente submissa e raivosa à disposição, é extremamente fácil conseguir censurar a mídia, seja por coerção, por destruição dos meios de publicação ou por puro extermínio; coisa que certos países já fazem, cujos regimes são cegamente acatados por gente da própria mídia e por formadores de opinião na internet.

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Uma forma velada de censura, por exemplo, é dar amplo espaço a gente que é totalmente contra ou totalmente a favor de algo, mas dar pouco ou nenhum espaço para o outro lado, no caso de uma mídia informativa como a dos jornais. Ironicamente, só que não, são justamente aqueles que reclamam de censura externa os que mais a impõe em suas instalações, muitas vezes até pela linguagem corriqueira não ser a padronizada pelo editor. Muito pelo medo de turmas barulhentas, mas muito menos numerosas do que fazem parecer, afugentarem os patrocinadores e atraírem as atenções de políticos mais oportunistas, a editoração enviesada adora lançar bombas contra quem o senso comum rotula como mau, ainda que sobre esse alvo se erija justo o sustentáculo de tudo o que mantém esses mesmos jornais de pé. Se há uma coisa que esses gritadores odeiam em seus domínios, e o golpe de 1889 o fez na prática, é a plena liberdade de pensamento e expressão.

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Escrever textos enormes, prolixos e repletos de referências, para só nas últimas linhas do último parágrafo contar o outro lado da história, e ainda usando uma linguagem sem graça, faz parte da tática, confiando que o grosso dos leitores só lê as partes de destaque. Adoram lembrar da nefasta era da escravidão africana, mas hoje dão de ombros para as aflições que dilaceram o coração dos países africanos. Assim como a memória de uma professora que morreu defendendo seus alunos não vale absolutamente nada para eles, as vidas de professores e estudantes mortos por rebeldes também não. E por falar nisso, a imagem que eles vendem da África é basicamente aquela caricatura que predominava no cinema até meados dos anos 1970, como se não houvesse metrópoles e indústrias naqueles países. Mesmo os europeus, que moram ao lado, têm uma visão mais deturpada do que seus avós tinham dos africanos, não devendo em nada ao americano mais alheio ao mundo.

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Aliás, o próprio continente americano, que um dia eles empinavam seus narizes para chamar de “colônia”, é um grande desconhecido deles, que se contentam em ruminar noticiários que confirmem suas visões e narrativas de estimação. Arrotam a defesa de liberdades, mas quem mais faz isso ainda tem e não abre mão de suas colônias, inclusive uma delas é nossa vizinha de extremo norte. Hoje não passam de um monte de países que se amontoam na marra, se tolerando na marra e fazendo poses na marra para passar a imagem de continente civilizado que já não são, e nunca foram tanto quanto apregoam. No tocante ao poderio bélico, mais ladram do que mordem, já que sem o apoio americano que desprezam, provavelmente teriam sido engolidos pelos soviéticos. Diga-se de passagem, foi a interferência de “ONGs” européias a gota d’água para Putin decidir invadir e anexar a Criméia de forma humilhante. Toda aquela conversa de paz, amor e união, de “estar estando promovendo o entendimento intercultural” só mascarava a velha arrogância de mandar soluções que o dono da casa não pediu, e enfiar goela alheia abaixo suas paranóias. Reunir Rússia e Ucrânia em um lugar neutro para aparar as arestas? Não, vamos primeiro fazer um serviço de inteligência o mais amadorista e caricata possível, porque nossas boas intenções nos livrarão de toda e qualquer conseqüência de nossos actos. O Kremlin está obrando e se locomovendo para eles, já viu que são tão bonzinhos quanto o próprio governo russo.

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Os americanos também não estão tão bem das pernas, afinal neste início esquizofrênico de século ninguém está, mas pelo menos andam por conta própria, apesar de gente que quer proibir inovações apenas porque não pode controlá-las. Não é de hoje que o pavor pelo poder fora das próprias mãos atrapalha um país, com os Estados Unidos não seria diferente. Gente que prefere cultivar a culpa e apontar o dedo, em vez de investigar se, e como o mal causado pode ser reparado, nunca é realmente afeita à liberdade individual, porque teme doentiamente que uma pessoa livre se torne uma ameaça às suas crenças e narrativas, então vende a ilusão de que a diluição do indivíduo em uma coletividade rotulada seria a salvação da humanidade. Falando sério, se tu não se aventura ao controle ou, pelo menos, ao domínio de uma novidade, seus inimigos o farão livremente, e é o que está acontecendo agora. O caso do bitcoin, lamento informar, a adesão dentro do próprio território americano já é grande e muita gente já o utiliza como moeda corrente. Se preocupar se isso vai afetar o Dólar em vez de adequar a moeda à nova realidade, isso sim causaria uma tragédia irreparável à população; e como diz a primeira emenda, o povo é o país. Não um partido, não uma legenda, não um grupo, mas o povo.

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O Japão, por exemplo, que é conhecido pelo conservadorismo com que trata sua própria economia, a ponto de os japoneses preferirem utilizar notas e moedas no cotidiano, mesmo que a escancarada intimidade com a tecnologia moderna, já está planejando utilizar oficialmente o bitcoin como forma corrente de pagamento, mesmo conhecendo a resistência financeira de seu povo. Provavelmente porque as empresas envolvidas já aprenderam, mesmo que tardiamente, as lições amargas da excessiva intervenção estatal na economia, que tem levado a recessões repetidas, só não agravados com inflações galopantes graças justamente à disciplina fiscal do próprio cidadão comum, que economiza ou gasta de acordo com seus próprios critérios. À parte as críticas à cultura japonesa, claro que em sua parte rígida, que tem por si causado os problemas de natalidade e suicídio, ela é responsável pela rápida e espontânea adesão do japonês comum a qualquer medida que visem o bem comum, mesmo que o governo peça o contrário, tanto que não estão aderindo à eletrificação dos carros como os cordeirinhos cheios de culpa estão fazendo na Europa; isto em particular um aprendizado amargo da segunda guerra. Dela também veio a pior aplicação da tecnologia que eles fomentam, mas do outro lado do mar, ou seja, o mesmo lado que alardeava que eles o fariam.

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Claro que os ladradores do fim do mundo nunca vão reconhecer que o país ao qual seus rabos estão presos, seja por financiamento, permissão mercadológica ou por dependência acadêmica, é justo o Estado policial que eles diziam combater, mas cujas botas hoje lambem e cujas atrocidades hoje fingem que são apenas parte da cultura local, não devendo haver interferência externa. Apontam seus dedos sujos para o Brasil, principalmente em prol das girafas da Amazônia, repetem discursos de ódio do bem alheio, reproduzem opiniões em queixumes catastrofistas como se fossem relatos de factos consumados, mas fingem que sua ditadura de estimação não faz nada de errado. País que é tão avesso à liberdade, que já começou a trocar até os jornalistas por versões cibernéticas virtuais, com a ajuda da tecnologia deep fake, que faria até mesmo os smurfs parecerem reais e plausíveis em um telejornal. Se os humanos já não contestavam as instruções do partido único e compulsório, mesmo tendo que dizer agora o oposto agora do que disse antes, sem nem corar, imaginem um robô virtual! E ao contrário do que aconteceria se fosse no ocidente, ninguém disse nada, nem um piu a respeito de desempregar jornalistas e calar a imprensa. Aliás, eles já aumentaram a queima de carvão para gerar energia! Ambientalistas?

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Enfim, são tantos assuntos acumulados e foi tão pouca condição para escrever, que uns vinte textos ainda não seriam o bastante para eu encerrar o ano com dignidade. Mas gostaria de comentar sobre algo que o brasileiro começou a rascunhar, ainda engatinhando e sujando fraldas, que é garantir por si mesmo a própria aposentadoria, porque já vimos que o Estado sozinho não dá conta. O nosso modelo de previdência só funcionaria se todo mundo pagasse, mas bem poucos, de preferência só os bem pobres usufruíssem. Imagine, por exemplo, se todos os brasileiros decidirem ao mesmo tempo, usar a rede pública de saúde! Já precisei tirar do meu bolso para suprir necessidades de emergência. Da mesma forma já tenho uma magra e humilde previdência privada para evitar que os desmandos estatais me joguem na necessidade de precisar do assistencialismo estatal. Mais do que sobrevivência, é também questão de dignidade humana.

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06/10/2021

Seu concorrente é seu melhor amigo

 

1955 Packard

É consenso no mundo militar que o seu inimigo mais poderoso pode vir a ser, e sem grandes surpresas muitas vezes torna-se, seu maior aliado. Foi por isso que os americanos, mesmo com o risco confirmado, armaram e deram suporte ao exército soviético durante a segunda guerra mundial. Com os soviéticos indignados e furiosos, espumando de raiva, esfregando as caras dos nazistas no asfalto quente, eles puderam se dedicar mais a tirar satisfações de quem os atacou pelas costas. E o Japão derrotado, mas não rendido, tornou-se décadas depois o maior aliado contra a nova ameaça, que francamente não tinha feito nenhuma questão de esconder suas ambições e seus métodos; as gerações seguintes novamente não aprenderam nada com seus ancestrais. É assim em todas as áreas da vida, em todos os ambientes, provavelmente em todos os supostos planetas habitados e civilizados do universo; até mesmo um parasita pode se converter em aliado, como acabou acontecendo com as mitocôndrias, que de meros coletores de material se tornaram parte indissociável das células modernas.

Assim como a economia, a gravidade e a termodinâmica, não é uma lei inventada por uma pessoa, é uma regra inerente à própria existência. Um oponente honesto, que prime por jogar limpo, é o melhor parceiro que uma pessoa ou uma empresa pode ter, mesmo tendo às vezes ganas de torcer seu pescoço. A pessoa porque um, por assim dizer, inimigo franco deixa todas as suas falhas à mostra, sem disfarces, mas sem cair na armadilha de exceder a dose necessária. Ele não te romantiza, te enxerga com uma crueza que nenhum psicoterapeuta é capaz porque depende disso para te sobrepujar. Assim, com essa franqueza ferina, a proximidade desse inimigo te deixa a estrada limpa e sinalizada para o teu crescimento, com todos os alertas contra as armadilhas que o teu ego espalhou pelo caminho; é ele, o ego, o único e potencial inimigo que alguém realmente pode ter. Para não dar a esse “inimigo” o espaço que ele almeja, tua atenção à virtude e aos riscos te farão exemplo até para ele, que em último caso será o único a levar uma flor ao teu túmulo, ainda que para ter a satisfação de ter sobrevivido ao adversário, mesmo que caia fulminado antes de sair do cemitério.

Por causa de um oponente de valor, uma pessoa se esforça sempre e dá sempre o seu melhor, sabendo que o menor deslize dará preciosos milímetros de faixa para ele ultrapassar e ganhar preferência. Com o tempo, e fazendo as contas que esse adversário atento nos obriga a fazer sempre, vem a sabedoria de não precisar temer e tampouco perder tempo remoendo pequenas falhas e atrasos, porque a disputa é, ainda que palmo a palmo, de longo prazo. Aflições desnecessárias e ansiedades nutridas por eventos adversos é que te deixarão real e nitidamente para trás. Pode até haver o caso de esse inimigo te ajudar em segredo, é claro que ele JAMAIS vai admitir tê-lo feito, ou de forma dissimulada, porque ele também terá percebido que o teu progresso é que o faz perceber suas falhas antes que elas se tornem casos perdidos. Os erros que um rival vê o outro cometer com sua família, e ele prestará toda a atenção do mundo a eles, se esforçará para não repetir na sua, e o sucesso do rival logo chamará a atenção do outro para suas falhas. Assim um se torna para o outro um compêndio dos erros que não deve cometer, ou pelo menos deve-se abster-se ao máximo e corrigir com a maior presteza possível.

Não vamos nos iludir que inimigos sempre farão tudo diferente, é conversa mole. Eles fazem rigorosamente as mesmas coisas de formas diferentes, mudando estilos e adereços, nada mais do que isso. O seu inimigo em uma guerra vai guerrear, em uma corrida vai correr, em um teatro vai encenar, em um palco vai cantar e assim por diante. Se fizerem realmente coisas diferentes, um não incomodará o outro e não haverá motivos para contendas, assim não haverá rivalidades. O seu inimigo é você mesmo jogando no outro time. Ele te conhece tão bem que poderia ler sua mente apenas olhando nos seus olhos, e seguramente se aproveitaria dessa baixa de guarda para tirar vantagem. O facto de ser um “inimigo” leal, não significa que ele não entrará no seu território sempre que puder, por exemplo, para conquistar sua família falando bem de você e demonstrando qualidades que só ele notou até hoje, assim te deixando de mãos atadas para falar mal dele em público.

Ele não vai tirar proveito de sua família, muito pelo contrário, vai defendê-la como se fosse dele. Contraditório? Não! Humilhante! Ele fará de tudo para você perceber que ele é que está certo, e sua família acreditar que a sua implicância não tem nenhum fundamento. As flores que você deixou de dar à esposa, os agraços de boas-vindas que nunca mais deu ao marido, as conversas francas de que uma criança necessita e seus filhos já nem lembram como são, as datas de aniversário que a correria fez mofar na agenda, os detalhes na indumentária que o tédio da rotina jogaram ao esquecimento, as promessas que a falta de uma pressão moderadora te fizeram quebrar e muito mais, tudo isso está nos planos do rival. Se tiver um mínimo de juízo, ainda que como instinto de sobrevivência, o troco há de ser dado na mesma moeda, mas de forma personalizada. É uma aliança compulsória, bipolar e a certa altura será indispensável.

Da mesma forma um concorrente honesto será capaz de reconhecer o valor da tua empresa, mas se valerá justamente disso pra exaltar a dele e convencer a tua clientela a experimentar o que ele oferece. Ele vai agregar valores e diferenciais que remeterão imediatamente àquilo que você oferece, mas sem os problemas crônicos que você negligenciava por custos, por tradição, teimosia ou o que quer que seja, seu concorrente terá se debruçado sobre o problema até encontrar uma solução razoável e economicamente viável. Quem se lembra da Kia Besta, sabe dos benefícios que trouxe à Kombi. Por décadas sem concorrência, permaneceu praticamente sem qualquer aprimoramento, limitando-se a atender minimamente a legislação ano a ano, só evoluindo de facto quando a coreana chegou e chamou para si as atenções do público que simplesmente não tinha escolha. Quando a Besta saiu de linha, a Kombi novamente parou no tempo e, sem concorrentes, a VW não exitou em descartá-la sem deixar descendência assim que não era mais rentável…  e perdeu a liderança que nunca mais vai conquistar de volta.

Assim como a Cadillac é a única coisa que impede a Ford de cometer mais uma asneira e enterrar a Lincoln, a concorrência com a Besta e em menor escala com a Towner era o que motivava as atenções que a Kombi recebia da marca. A bem da verdade, a falta de concorrência real e leal tem corroído nossa indústria há tempos, em todo o ocidente. E é o pior tipo de corrosão, pela falta de uso. Foi de tal forma que quando as importações foram abertas, muito de nossa indústria se reduziu a pó, principalmente as fábricas de brinquedos e de tecidos. A falta de concorrência ostensiva nos deixou particularmente de tal forma despreparados, que quando ela veio quase decretou a extinção de nosso parque industrial. A própria indústria automotiva nacional, que cometeu o pecado de simplesmente eliminar marcas adquiridas, em especial a VW que mentiu descaradamente que manteria Chrysler e DKW, nosso portfólio era tão pobre a acanhado que mesmo as marcas de luxo fizeram a festa. Nós tínhamos os fora de série, claro, alguns deles muito sofisticados, mas eram incapazes de suprir uma demanda séria, demoravam muito para ser entregues e custavam o mesmo que esportivos puro-sangue e sedãs de alto luxo consagrados que povoavam o imaginário do brasileiro, eles a pronta entrega. Tivessem dado o devido apoio aos fora-de-série, que aliás eram clientes das grandes montadoras, teriam enfrentado melhor os importados, diluído os custos na maior escala de produção de componentes vitais e hoje teriam um portfólio digno de exportação… Não nos esqueçamos da Troller.

Para quem não sabe, e infelizmente o brasileiro tem memória de areia, a própria predadora VW já precisou recorrer à concorrência no Brasil. Claro que Scania e Toyota, à época, não eram concorrentes directas, embora a Bandeirante disputasse com a Kombi a preferência nos lugares onde não havia estradas. O problema foi na seção de pintura, que nos anos 1970 simplesmente pegou fogo, obrigando os executivos a fazerem negociações emergenciais rapidamente em uma época em que o Fusca vendia mil carros por dia no Brasil, na época metade da nossa frota motorizada era só Fusca. Isso não só resolveu o problema como salvou a Toyota do Brasil, cujo aluguel da ociosa seção de pintura deu fôlego financeiro em uma época de vacas anoréxicas. Isso além te ter enriquecido um pouco nossas ruas, com Fuscas usando as paletas da Scania e da Toyota se diferenciando dos outros. Mas passou a crise e os benefícios da cooperação com os rivais foi esquecida. Os primeiros caminhões VW, para constar, nada mais eram do que Caminhões Dodge com cabines VW… e as propagandas da ápoca, como aconteceu com a DKW, diziam que os clientes Chrysler então poderiam contar com a rede VW.

Não muito diferente da indústria americana, que com a perda gradativa das pequenas e criativas marcas, foi perdendo também o incentivo doméstico e os toques de criatividade de que as três grandes tanto sentem falta hoje. Essas pequenas tiravam leite de pedra, faziam modelos obsoletos continuarem bons por muito tempo, até terem condições de apresentar uma geração realmente nova, com isso ainda se davam o luxo de zombar da mesmice de General Motors, Chrysler e Ford; e mesmo essa “mesmice” deixava a indústria brasileira no chinelo. Com o ocaso das marcas pequenas, as japonesas tomaram conta. Um problema disso é que ao menos na época, elas não primavam pela lealdade na concorrência, o Iene era, ainda mais do que hoje, mantido baixo pelo governo japonês justamente para forçar uma competitividade maior, o resto vocês já sabem. Mais tarde veio a China que fez essa tática parecer brincadeira, fazendo dumping descarado e descaradamente desmentido diante dos números expostos, o resto vocês já sofrem. Às vezes, mesmo em se tratando de um rival, é preciso ajudar a resolver seus problemas para que eles não cresçam demais, saiam da casa dele e entrem na sua. Uma parceria com a AMC para produzir compactos, para os quais a GM não tinha cabedal nenhum, teria freado os orientais e feito bem a ambas; foi justo para os orientais que a clientela das extintas pequenas migrou, e todos perderam. Dar o devido valor e esporádico amparo ao concorrente doméstico, talvez tivesse minimizado a crise de 2008 a ponto de não haver riscos de insolvência. Hoje eles têm centenas de pequenos fabricantes, mas são como os nossos saudosos fora-de-série, e a maioria só produz kits para montar ou modificar carros já existentes.

E no dia 5 deste mês tivemos mais um exemplo de como a falta de concorrência é danosa, com a queda do grupo que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp. A burrice de colocar todos em um só lugar ajudou a agravar o problema, porque a queda de um se estendeu quase que imediatamente aos outros. Para quem pensa que foram apenas seis horas sem redes antissociais, muita gente tem nessas plataformas, na verdade essa plataforma única de três faces em que os três serviços se aglutinaram, o seu meio de vida. Soube de microempresários que tiveram trinta mil ou mais reais de prejuízo, e isso para quem só tem uma porta ou um pequeno estoque em casa, é muito dinheiro! Para quem vive de circular rapidamente bens e serviços, seis horas em horário comercial são uma eternidade. O hábito de se tratar o website como uma loja física piorou o quadro, porque uma loja física não pode ser simplesmente derrubada por um problema tecnológico, enquanto uma virtual só precisa de uma oscilação de energia para travar uma venda; ou pior, para travar o cartão do cliente no site, aí a coisa fica realmente feia! Houvesse cooperação com outras plataformas, inclusive as que foram engolidas, transtornos e prejuízos teriam sido mitigados.

Por último, mas não menos importante, vejamos o exemplo dos Estados Unidos, que perdeu um oponente poderoso, que o impelia a ser sempre melhor, mas cujo vácuo foi ocupado por um parasita que mente diante da verdade exposta e dá de ombros para os métodos, inclusive contra seu próprio povo. Aquela rivalidade elegante e inspiradora, ainda que perigosa, mantinha as atenções e os esforços no seu progresso, sempre migrando o mais rapidamente possível os avanços da área militar e espacial para o cotidiano do cidadão, que na época ainda conseguia se maravilhar e usufruir o máximo dessas conquistas. Hoje o que temos é uma parcela perigosamente grande da população americana simplesmente acomodada em confortos, simplesmente se deitando na almofada sem mais se encantar com o facto de tê-la e poder usufruir dela, consumindo entretenimentos que fazem os mais bestas dos shows dos anos 1970 parecerem altamente intelectualizados, somando-se a isso intelectuais moradores de bolhas que querem decidir até o que as pessoas devem pensar. Na falta de um rival real, aceitaram os inimigos imaginários que picaretas impuseram. Não deveriam ter deixado a Rússia à própria sorte, esta que sempre foi madrasta para os russos. Hoje são eles que precisam ocupar parte do vácuo deixado, a custos altos, porque o império parasita já quer forçar vácuos para ocupar, agindo como uma figueira estéril, que estrangula e vampiriza seu hospedeiro, gerando frutos ruins de aparência aceitável, só produzindo de verdade para si mesma. A esse parasita não interessam alianças, só subserviência.

Agora, empresário, olhe bem ao seu redor. Veja tudo o que seu esforço e suas estratégias conseguiram amealhar. Faça um breve histórico das últimas crises severas, desde 1998, dê especial atenção às vezes em que seu empreendimento correu o risco de fechar as portas, faça uma análise crítica honesta de tudo o que precisou enfrentar e das decisões amargas que precisou tomar até agora. Antes de bater no peito se achando o máximo, acenda uma vela para o seu concorrente, com toda certeza ele é um dos grandes responsáveis pelo seu sucesso.

13/11/2019

A fatura do Papai Noel


   Caro Gustavo, agora que é adulto, você saberá por que tão poucos ganham presentes depois que crescem. Criança não paga, mas adultos sim, e o pagamento é o cumprimento das resoluções de ano novo. Infelizmente, como a maioria, você não honrou com sua palavra... de novo! Eu sei, as coisas não saíram como você planejou, mas regras são regras! Para não ser injusto, pormenorizarei suas principais faltas, assim você fica ciente de seus erros e (oh, ilusão) tenta não reincidir.

  • Perder oito quilos até o próximo natal: Desses oito, ainda fatam trinta quilos para perder... Você realmente acha que, faltando um mês para o natal, vai conseguir perder isso, Gustavo? Jura? Quando vai ao restaurante self-service, você estaciona nas bandejas de massas e ai de quem mais quisesse um macarrão! E olha que eu tentei te ajudar! Mandei dicas, indirectas, até fiz as figuras de porcos e elefantes aparecerem todos os dias na sua frente, e foi por isso que aquele outdoor de anúncio de circo caiu na sua cabeça! Mas nem assim você se tocou, Gustavo!
  • Aprender um novo idioma: Olha, eu até admito que você aprendeu palavras novas... eu nunca tinha ouvido aquele estilo de xingar a mãe alheia, foi novidade para mim... em compensação, até hoje você pensa que "hello" se escreve com "R"! E o seu "portunhol" é uma vergonha! Você escreveu no facebook "sorviete de moriango"!!!!! QUE P#@!!!%&**** É ESSA, GUSTAVO???? TODA A COMUNIDADE LATINA DO MUNDO COROU DE VERGONHA!!!!! Sorvete de morango em espanhol é "gelado de fresa"! Sua anta!!! Por pouco a Espanha não declarou guerra ao Brasil por sua causa!!!!!
  •  Aprender a cozinhar: Gustavo, toma vergonha! Toma vergonha nessa cara barbuda! Esquentar miojo NÃO É SABER COZINHAR!!! Você posta photos daquela meleca branca com um monte de legumes crus e mal picados, como se fosse um "cordon bleu"!!! Isso seria óptimo para você emagrecer, diga-se de passagem, além de economizar e se tornar mais independente, mas você até hoje não sabe cozinhar um ovo!!! Você tem uma enciclopédia culinária que sua avó te deu, mas você NUNCA sequer abriu um só dos doze volumes! O que me faz lembrar da próxima mancada...
  • Ler um livro por mês: Gustavo, revistinha de autoajuda NÃO É LIVRO!!! E nem assim você leu duas inteiras ao logo do ano!!! Revista hentai também não conta, malandro, porque isso você "leu" uma por semana, várias vezes cada uma!! Não baste seu português estar se deteriorando, você se rendeu ao pseudointelectualismo indolente do "junto ao enquanto perante ao nível de", para parecer o profissional competente que você não é; seria, se lesse o que deve!!!! Você quase me matou de vergonha quando li "Fiz ao pagamento ao nível de Anvisa" em TODAS as suas redes sociais!!!!!!!
  •  Assumir a Renata: Lamento informar, senhor glúteos flácidos, mas ela se cansou de esperar, ainda mais que você está há quase um mês sem ligar! Ela aceitou se casar com o Tenente Montanha, aquele mesmo que quase te deixou invertebrado no colegial, por você ter xingado a mãe dele. Você não fazia o número 2 e nem desocupava a moita, Gustavo!!! O que você pensa? Que uma mulher vai ficar te esperando feito uma donzela da idade média em seu castelo encantado, até que o cavaleiro de armadura prateada volte para desposá-la? Isso nunca aconteceu de verdade naquela época, que dirá hoje!!! Toma vergonha, que esposa não é mãe, namorada menos ainda!!!
  •  Andar de bicicleta: Todo ano você compra uma, dá umas voltas nos primeiros dias e deixa empoeirar na garagem. Você já tem seis, tomadas por teias de aranha, em nenhuma os pelinhos dos pneus se desgastaram ainda. Você teria perdido facilmente os oito quilos do ano, em um mês ou menos, se não usasse o Uber para ir comprar pão na esquina. O trânsito nos horários em que você vai e volta do trabalho é ameno, o dia está claro e o calor não começou ou já passou. Você não tem desculpas para não pedalar, você tem é muita preguiça e uma tremenda falta de vergonha, Gustavo!
  •  Escrever para a sua mãe: Não precisaria nem mandar mensagem de texto, se você atendesse as ligações dela, filho de chocadeira! Essa, Gustavo, foi a pior e mais cruel de suas quebras de promessa! Ela sabe que você não consegue mais empunhar uma caneta, então que dissesse um "oi" por dia pelo WatsApp, que fosse, ela já ficaria feliz e despreocupada.. Aliás, qual foi a última vez que você passou o natal com ela? Não lembra? Pois ela se lembra, ainda tem a photo e, na época, você ainda era magro e tinha muito cabelo na cabeça.

         É, malandro, o negócio está pesado pro seu lado, sua batata já assou há eras e hoje é só carvão! Se eu fosse cobrar como se deve, você é que me daria presentes, mas de você eu dispenso até "bom dia". Agora, se me dá licença, vou te deixar com suas lágrimas de crocodilo, ainda há muita gente mesquinha para eu fazer chorar até a véspera de natal.

15/05/2019

Hanna Barbera para maiores


Mas é claro que eu editei! Isto é um blog de família!

    Não é de hoje que os fãs dos personagens da Hanna Barbera esperam pelo retorno da grife ao mundo da animação e, quiçá, seu glorioso ingresso ao crescente e altamente lucrativo universo das versões live action. Sim, tivemos Scooby-Doo, mas sinceramente não foi o que nós, mais velhos, conhecemos quando o desenho era repetido ad infinitum na televisão.



    Nem vou falar daquele vexame que fizeram com o Manda-Chuva que foi um personagem rico, mas incompreendido pelos americanos na época porque se tratava de um malandro tipicamente brasileiro, o que eles ainda hoje simplesmente não comprendem.



    Que dirá dos Jetsons? Era moderno demais para a época, dizem alguns especialistas, mas eu acredito mesmo é que as pessoas não estavam tão interessadas em ver então uma série futurista baseada no cotidiano de um cidadão comum; ainda mais que os problemas tipicamente mundanos estavam presentes e escrachados no desenho.





    Eu poderia passar anos escrevendo e não abrangeria decentemente todos os personagens HB, seria um livro só para listar os nomes de todos eles.



    Acontece que mesmo com a simplicidade extrema da maioria das animações, a Hanna Barbera conseguia o feito de dar carisma e personalidade a TODAS elas, mesmo quando não pareciam ser mais do que versões diferentes de um mesmo tema; o que geralmente era, mas aí vai o talento de uma equipe que pega um Fusca e transforma em Variant, Brasília, TL, TC, Karmann Ghia, Kombi, Puma, Miura, MP Lafer, bugues infinitos e kits a perder de vista. Todos têm a mesma base e origem, mas cada um tem seu próprio comportamento e prazer de dirigir para tipos diferentes de motorista.



    Era esse o mote da HB. Fazia o pasteurizado ter personalidade, como se uma montadora tivesse divisões ou concessões homologadas para customização para versões de nicho. Alô, General Motors, esse puxão de orelha não é uma indirecta, é para vocês mesmo!




    Voltando ao tópico de entretenimento, é justo essa versatilidade que fazia personagens que eram praticamente copiados e colados terem personalidades próprias, e fazia a legião de fãs angariada relevar uma base secreta do alto de um edifício no centro de uma metrópole de onde saía um jato e NENHUM VIZINHO SEQUER PERCEBIA O ESTRONDO. É um absurdo? Sim, é um tremendo absurdo, mas fazia parte da diversão; era para rir mesmo, quem quisesse chorar assistia ao jornal logo a seguir.



    Ao contrário do que se pensava até os malfadados anos 1990, essa legião de fãs não só não desapareceu como cresceu. Gente que nunca tinha visto as reprises no festival Hanna Barbera, nas tardes ao longo da semana, simplesmente ama a grife. Gente que sequer tinha nascido quando a internet começou a trazer toda essa nação de personagens de volta à tona, constitui uma verdadeira torcida organizada.



    Basta um ilustrador talentoso divulgar um pôster alusivo e a rede se enche de esperançosos pelo não só retorno à programação televisiva, ou por streaming, como por filmes block busters que realmente valham o ingresso e a memória de William e Joseph. Perceberam o que quero dizer? Em uma época em que as franquias de heróis veteranos se expande mais rápido do que o universo, há um público cativo ávido por gastar seu suadi dinheirinho em ingressos e bugigangas com a marca Hanna Barbera. É um pomar de bilhões só esperando pela colheita.



    Ok, já apresentei o paraíso, agora mostrarei o purgatório. Assim como a Marvel com o quarteto fantástico, as melhores intenções para com a HB esbarram em um imbróglio incompreensível de licenças e patentes em que NINGUÉM se senta para discutir a divisão de dividendos, que seriam imensos, decorrentes do sucesso da exploração adequada desses personagens. Fica todo mundo emburrado de cara para a parede e mostrando a língua para quem tenta argumentar. É como se um monte de confeiteiros tivesse cada um, um ingrediente para um bolo viciante, mas nenhum se dispusesse a entregar o seu para fazer esse bolo.



    Só que ao contrário do que acontece com o quarteto, zombado com memes (“As coisas estão estranhas”, “esticaram demais o filme”, “roteiro invisível”, “a franquia se queimou”) os fãs da HB dedicam sua fúria aos executivos engomadinhos que não saem de suas salas climatizadas; síndrome da Chrysler, talvez: excelentes carros e péssimas decisões.





    Enquanto isso, os fãs continuam a se nutrir de versões independentes na internet, onde artistas e roteiristas (que são artistas das letras) esbanjam seus talentos em quadrinhos e pôsteres de fazer inveja a qualquer estúdio gigantesco de Hollywood. Eu me surpreendi há uns dez anos, quando digitei os nomes de alguns personagens e vi uma miríade, do mais tosco ao mais refinado, de desenhos independentes relacionados. Mesmo com a estilização que a maioria impunha, cada personagem era perfeitamente reconhecível, desde as versões mais fofas e inocentes até as mais adultas… e picantes… e indecentes... e outras coisas que nem se o que são… é aqui que a porca torce o rabo, meus amigos.



    Digite “Captain Caveman” e aparecerão milhares de resultados, alguns impróprios para menores. Acrescente “hot” e, em vez de restringir, os resultados serão maiores e mais diversificados. Coloque “hentai” ou “porn” e vais se surpreender tanto com a quantidade quanto com a ousadia. Isso vale para todos os personagens, aliás, podem até procurar genericamente por “Hanna Barbera” que esses resultados dignos da Sexta Sexy aparecem, ainda mais acrescentando as extensões. Pinterest e Deviant Art estão repletos deles. Nem adianta colocar filtros, porque aparecem assim mesmo e, dou a mão à palmatória, a arte geralmente é invejável. Os produtores dessas versões se esmeram em realçar a beleza facial das garotas como nenhum estúdio oficial foi capaz até hoje. Quem não está procurando por onanismo simplesmente fica hipnotizado pelos rostos que eles pintam.





   Torcendo mais o rabo da porca, conclui o que já suspeitava há tempos, a indústria da pornografia é a que mais preserva e divulga a memória do entretenimento, e também a que mais lucra com isso. Alguns vão dizer que estou de sacanagem, mas asseguro meus amigos, aquilo que os filtros tentam barrar sem sucesso é justo o que me levou a conhecer versões renovadas e não eróticas dos clássicos da Hanna Barbera. Hoje não me rendo mais ao rubor, é digitando “Josie and the Pussycats hentai” que as versões em arte mais finas e bem-acabadas, e apresentáveis à família, são encontradas com mais facilidade e profusão. Eu não estou brincando, precisaria praticamente viver disso para poder vasculhar todas as opções de censura livre! Imaginem as com tabela etária…



    Enquanto os estúdios de quadrinhos e filmes se digladiam, cada um escondendo seu ovo e sua farinha, a enxuta e ágil indústria do erotismo vende pequenos e bem-feitos bolos em larga escala. Os bocós não querem ganhar fortunas de uma só vez com nababescos bolos de noiva? Eles ganham fortunas com pequenos cupcakes de fino acabamento vendidos aos milhares, não se envergonhando em desenhar mulheres com traços graciosos e encantadores. Enquanto muitas vezes os estúdios apelam ao “custo/benefício” e depois se perguntam o que teria dado errado, os independentes ouvem seus seguidores e fazem o melhor que eles querem comprar, e fazem em grandes quantidades; e vendem tudo.






    Eles não perdem tempo com disputas internas e reuniões intermináveis, eles focam nos interesses comuns e depois acertam o resto, o importante é atender à demanda e pagar os custos da produção, os dividendos e a distribuição da renda resultante são meras conseqüências dessa agilidade e racionalidade: o fã quer, o fã tem. Ah, claro! Eles LÊEM os quadrinhos e VÊEM os desenhos clássicos, discutem em iguais condições com os nerds mais avançados, enquanto o executivo engomadinho com NBA em coaching pensa que Ben Grimm é um dos irmãos Grimm!



    Sem trocadilhos infames, os estúdios deveriam voltar às suas origens, reaprender a atender ao público vendo seus rostos e se inserirem até o fundo daquela caverna de criatividade e frescor que há décadas eles não conhecem, mas os artistas independentes, livres leves e soltos exploram com fervor.



    Até lá… Well… Até lá vamos continuar digitando “Penelope Pitstop hot” para suprir superficialmente a demanda que os engravatados não conseguem, inclusive com os crossovers mais bacanas que se possam imaginar… mas o mimimi corporativo proíbe.