04/09/2020

A cromagem

 

Cadillac 1959, tem mais cromo na grade do que em um carro moderno inteiro

Um texto curtinho e bem antigo que esqueci em meus arquivos.


Revestir metais para preservá-los da corrosão atmosférica é tão importante, que muitos projectos reservam espaços exclusivos para o assunto.

No caso de peças automotivas há dois processos principais, além da pintura: Galvanostegia, que é o revestimento puramente funcional, como a zincagem, e a galvanoplastia, que envolve critérios estéticos. Em ambas os princípios são os mesmos, mergulha-se a peça já preparada em um tanque com um solvente contendo o material do revestimento, aplica-se uma corrente de baixa voltagem e alta amperagem, e em segundos ela estará revestida. É muito rápido. É um processo inverso ao das baterias, onde o ácido ou base (caso das alcalinas) gera corrosão para produzir energia. Uma eletrólise.

Mas a diferença não é só estética, a galvanoplastia é bem mais cara e, muitas vezes, mais durável.

A cromeação é a galvanoplastia mais utilizada nos automóveis ainda hoje. Além da beleza prateada, é um tratamento durável e resistente, desde que bem feito. O Cromo é um metal extremamente duro e bem resistente, capaz de cortar o vidro.

Como se processa, resumidamente:

 

  • A peça é limpa ou decapada, se já tiver algum revestimento;
  • Lavagem e retirada de todo e qualquer foco de gordura ou qualquer impureza;
  • Cobreação, primeiro com solução alcalina, seguida de lavagem, neutralização da base utilizada e então a cobreação ácida. Neste momento o operador aproveita para corrigir qualquer imperfeição que persista, deixando a peça lisa e uniforme;
  • Niquelagem. O processo é o mesmo da cobreação ácida, e em muitos casos é a última etapa, mas o Níquel tem a desvantagem de ser muito macio e se desgastar com facilidade, em relação ao Cromo, por isto nos automóveis vem a etapa seguinte;
  • Cromeação. Repetindo o processo, o operador tem o cálculo de quanto tempo a peça ficará imersa, sob corrente de alta amperagem, o que definirá quanto cromo será depositado e, assim, a espessura da camada;
  • Nova lavagem, com posterior polimento. Embora pareça o fim, a peça deve ser inspecionada meticulosamente, explicarei o porque...

 

Um calcanhar de Aquiles deste processo é a necessidade de um controle de qualidade muito severo. Enquanto uma camada de tinta adere como cola e quase sempre absorve resquícios de poeira e gordura, a galvanostegia não admite nada. Um dedo distraído pode deixar gordura suficiente para produzir um ponto de fragilidade, que com o tempo vai rachar, descascar e adeus grana aplicada na cromeação. Ainda lembrando a dureza do Cromo, um descascado pode causar ferimentos profundos, já fui vítima de um.

Como escolher a cromeadora?

Da mesma forma como se escolhe a maternidade que fará um parto de risco. Deve-se estar atento aos mínimos detalhes, desde a limpeza do ambiente, aos equipamentos disponíveis até a limpeza dos funcionários.

Seguir a regra de que a empresa terá com a sua encomenda o mesmo tratamento que dá às suas instalações. Há ganchos que mantém a peça suspensa na solução que lhe cederá o revestimento, eles precisam estar limpos para não haver contaminação. Não digo “brilhando”, mas sem crostas e sem borras. Em muitas cromeadoras os próprios tanques de eletrólise passam toda a vida útil sem ver água, pode-se fazer idéia do nível de contaminação das peças que saem de lá.

Funcionários sem E.P.Is (equipamento de proteção individual) mostram duas cousas: os mesmos não dão a mínima para a própria segurança e acham que “macheza” os torna à prova de intoxicação; ou o dono da empresa não dá a mínima para seus funcionários e economizaria até na iluminação, se eles não precisassem ver o que estão fazendo. Em ambos os casos, que costumam andar juntos, a empresa não se importa em fazer um serviço porco e acha que a clientela se cativa só pelo preço. Já pensou ter que refazer todos os cromados de um Cadillac 1959?

A fachada não absolve, mas ajuda na imagem da empresa. Ter gente disponível para atender, com um mínimo de conhecimento no ramo, denota a capacitação do pessoal que faz os revestimentos. Ter álbuns ou folhetos com imagens, de boa qualidade, de serviços já feitos avaliza e dá mostras de profissionalismo. Peça para dar uma olhada no andamento dos serviços, uma empresa séria e competente não negará a visita, lhe dará seu E.P.I e mostrará as instalações. Acreditem, a maioria dos trabalhadores da área não é profissionalizada, é gente que memorizou procedimentos básicos e não consegue sair um milímetro daquilo, se acontecer algum problema ele fica na peça. Por que contractam gente sem formação? Porque é muito mais barata e fácil de substituir.

Tente contactar quem já utilizou os serviços da empresa, preferencialmente em automóveis, especialmente antigos, onde a qualidade da cromeação geralmente é melhor. Mas se a empresa for nova, leve uma peça pequena, de pouca responsabilidade, para ver a qualidade, depois use sem dó por alguns meses, ou até aparecer o primeiro defeito, o que vier primeiro.

A capacitação se deve, principalmente, aos cálculos envolvidos, que levam em conta o peso atômico, o número atômico, o equivalente molar, et cetera. Não é para qualquer cabeça, é necessário estar habituado aos cálculos. Um volt a mais é desperdício de energia, porque a voltagem necessária para tirar um átomo de um composto é própria do mesmo, muita tensão só aumenta o risco de curto. Um volt a menos é desperdício de energia, porque ele não sai por menos do que merece, se vai gastar electricidade para não se obter resultado algum. Pode mandar amperagem à vontade, abaixo da voltagem certa, o íon não se torna metal.

Não menos importante: EXIJA O ALVARÁ SANITÁRIO ACTUALIZADO E A AUTORIZAÇÃO DE FUNCIONAMENTO EMITIDA PELA ANVISA. O material utilizado é altamente tóxico e precisa ser neutralizado antes do descarte. Ainda não se criou uma cromeação legítima que dispense totalmente as técnicas antigas. Ainda.

O que pode ser cromado?

Se conduzir electricidade, praticamente tudo. Desde um ilhós de roupa até um monobloco inteiro.

Devo lembrar, porém, que a galvanoplastia é uma técnica relativamente cara, inclusive a cromeação, que usa comodidities muito valorizados no mercado financeiro, como o Cobre, Níquel e o próprio Cromo, estes dois muito empregados em aços inoxidáveis, cuja demanda cresce a cada dia. O que justifica a cromeação é a grande resistência ao tempo e às intempéries, o que se comprova em carros nos quais a pintura já era e os cromados permanecem intactos. A não ser que o teu dinheiro esteja sobrando, é salutar analisar se vale à pena comprar o serviço. Na restauração de carros antigos é batata, vale à pena, pois além da originalidade, os componentes antigos foram dimensionados para a cromeação, não dispõe de tratamento sofisticado contra a corrosão. Aliás, é por isto que as fábricas se dão ao luxo de fazer carros com folhas finas de aço, confiam no processo anti-corrosão pelo qual a carroceria passa durante a fabricação. Se vão resistir aos anos de trabalho árduo é outra história, corrosão eles enfrentam bem, desde que não sofram acidentes feios.

Plásticos também se cromeiam, mais freqüentemente o ABS, por ter boa dureza superficial e estabilidade térmica; os plásticos são notórios por dilatarem e encolherem muito com a variação de temperatura, que o digam donos de Volks com painel imitando jacarandá. O ABS tem boa estabilidade e preço razoável, mas não é muito resistente, eu incluiria o PVC (sim, aquele dos tubos) por também ter boa estabilidade dimensional, e ser muito resistente, permitindo até usos estruturais, além de não ser tão liso quanto o ABS, facilitando a adesão de uma película condutora que permitirá a cromeação. Além do mais, o PVC é 57% feito de cloro da água do mar, é melhor até no contexto ecológico. Cito o exemplo porque a grande maioria afirma que somente o ABS poderia ser cromado com um mínimo de qualidade, mas a prática me mostrou o contrário, basta uma camada de grafite de lápis, daquelas manchas chatas que só saem com água e sabão, para o Cobre aderir e por aí vai.

Cuidados;

Quase todos os cuidados necessários à conservação da pintura do carro devem ser aplicados aos cromados. Não usar esponja de aço, não usar ácidos nem bases que muitos vedem sem registro na ANVISA, não usar qualquer abrasivo. Mas pode ser deixado ao sol e à chuva sem problema, ele é insensível ao tempo. Uma curiosidade, é que o ácido sulfúrico corrói rapidamente um cromado, ao passo que o clorídrico, popular ácido muriático, muito mais reativo, o corrói lentamente. Lave o cromado com água e sabão neutro, usando uma esponja macia. Cromados são electrodeposições de um metal de alta dureza, não pinturas brilhantes, se riscar é muito difícil consertar só a área atingida. Pode-se usar cera automotiva com silicone, cera de carnaúba, mas fique longe de productos que são vendidos por aí sem rótulos claros e bem escritos em português.

O que há de novo?

Existem no mercado algumas tintas que prometem imitar com perfeição o cromo, algumas são mais honestas e prometem a partir de 70% do brilho do cromado. Sabe aqueles brinquedos com aspecto de cromado? Eles usam a tinta mais barata, sem muitos cuidados e, claro, rapidamente perdem o brilho.

As tintas boas são caras, bem menos que a cromeação por Cromo hexavalente (a cromeação clássica), mas ainda assim são caras em relação às tintas metálicas comuns. Têm boa durabilidade, brilho muito próximo ao do Cromo e dispensam a parafernália necessária ao controle de toda a química perigosa de uma cromeação eletrolítica. Prometem uma pintura dura e resistente, de onde imagino que há cromo na composição das melhores. A Bugatti usa uma assim.

Há técnicas de metalização que permitem colorir o revestimento, dando um efeito que as tintas metálicas não conseguem e permitindo uma composição sem par com vernizes metacromáticos (efeito camaleão) e flocados. Mas é conversa para customizadores e afins.

Não seria mais fácil derreter o cromo sobre a peça?

Levando em conta que os melhores aços-carbono se fundem antes de 1400 °C e o Cromo não antes de 1900 °C, não, não seria uma boa idéia. Ainda que se usasse um metal com ponto de fusão mais alto como Molibdênio, Vanádio ou Tungstênio, que são altamente resistentes à corrosão e não precisariam ser cromados, o revestimento ficaria com espessuras bastante desiguais. Dependendo do formato e das dimensões da peça, ficaria uma caca sem tamanho. Revestimento por fusão é muito bom para chocolates, não para metais... Talvez em uma ourivesaria.

27/08/2020

Zezinho e a pandenóia

 

                                                                           Norman Rockwell

       Zezinho se senta à mesa da lanchonete em que é cliente desde, bem, desde que era pequeno, porque criança ele ainda é. Aguarda com a paciência que seus maduros oito anos lhe ensinaram a ter, mas da qual é bom não abusar, até vir o milkshake de chocolate com mel. A garçonete asperge um pouco de álcool no tampo de madeira reaproveitada, ele faz aquela cara de quem quer acender um isqueiro, ela põe a taça na mesa e ele se acalma, então saca o canudo que cedo ou tarde vai virar peça de algum brinquedo que ele mesmo fará, põe uma ponta na bebida e tira com cuidado sua máscara com a frente malvada do Cadillac 59 estampada, suga o primeiro gole e então fica feliz… mas por pouco tempo. Logo ouve o som insistente e irritante daquele esguicho fazendo “fish! fish! fish” logo atrás, se vira e vê um sujeito atarracado insistindo para o garçom borrifar várias vezes cada milímetro da mesa, repetindo “tem certeza de que matou o vírus?” ou “acho que ele pode se esconder numa fresta e pular, olha ali”, continuando com “ALI! O VAPOR DO ÁLCOOL NÃO ENTROU ALI!!!!” até empestear todo o ambiente com vapores etílicos. É um custo acalmá-lo quando alguém abre uma janela para dispersar o cheiro, ele alega que os vírus vão entrar.


        Na mesa ao lado uma adolescente tira e põe a máscara a todo momento, para comer o sanduíche, no final das contas a máscara fica com as bordas cheias de maionese, ketchup, mostarda e sazón, mas não tem problema, ela encharca com álcool e acende o isqueiro, então tira uma nova da bolsa, de dentro de um saquinho esterilizado e faz tudo de novo. Na mesa ao fundo alguém conseguiu uma máscara articulada, que se abre com a boca em um efeito medonho, mas funciona na hora de comer o sorvete, apenas tem o cuidado de ninguém mais perceber, para não ser politicamente incorrecta em tempos de enfrentamento da pandemia causada pela Covid 19 do Novo Coronavírus. Ao balcão um rapaz asperge álcool em cada ingrediente do sanduíche, esperando evaporar e aspergindo de novo, vai que o vírus ressuscita, nunca se sabe; o gosto horrível que fica é um preço módico na luta total contra a pandemia da Covid 19 causada pelo Novo Coronavírus! Diga não à contaminação!


        Uma adolescente com roupas desengrenhadas, também borrifando um álcool de cheiro estranho, com uma máscara com folhas de canabis, chega apontando o dedo para ele, acusando-o de ser o assassino da fauna marinha, por causa do canudo. Ele responde educadamente que reutiliza e recicla, que não se pauta pelo mau comportamento público do brasileiro, mas ela continua com seu discurso exaltado exigindo que ele use um canudo de aço inoxidável, ouvindo “Que consome megawatts de energia para ser produzido e é embalado com plástico suficiente pra produzir uns vinte canudos”. O discurso de abolição dos polímeros dura até ele apontar em suas roupas e na tintura de cabelo a quantidade de plásticos que ela usa. Sem se dar por vencida, alega que quela é a verdade dele contra a verdade dela, no que ouve “Eu não sou Deus, minha opinião não vira Cadillac 59 só porque eu quero, então eu não chamo isso de verdade, o mesmo pra sua”. Ela simplesmente tenta pegar o canudo, ele passa o dedo na língua e passa no ombro dela, que corre desesperada tentando se desinfectar. Zezinho suspira, lamenta, pensa “este lugar já foi melhor freqüentado” e volta ao seu lanche.


        Entra um sujeito franzino de óculos, portando uma cara de pesca bem longa. Ele evita tocar e ser tocado, parece que flutuaria para não tocar o chão, se pudesse. De máscara, protetor de rosto, boné, mangas longas, bota de cano alto sobre as calças e luvas, ele chega ao balcão pedindo o que tinha encomendado, com o dinheiro no anzol com uma caixinha estranha logo acima. O balconista pega o dinheiro, confere e pendura a marmita, caixinha libera álcool aspergido e o cidadão vai embora como se fosse derreter ao menor contacto. Deixa cair uma nota de cem, mas prefere sair sem tocá-la, já está contaminada com vírus, bactérias, bacilos, retrovírus, adenovírus, amebas, parasitas, fungos tóxicos, síndromes e atestados de óbito prévios. A faxineira varre a nota para dentro da área de funcionários e some, abandonado não é roubado.


        Suspira fundo e tenta se concentrar em seu acepipe preferido. Volta à sua solidão voluntária para saborear lentamente o milkshake, uma sugada de cada vez, ouvindo baixo o tema principal do Super Homem. Eis que aquele homem atarracado decide ir ao banheiro e borrifa tudo por onde passa, inclusive Zezinho, que se indigna e tem “Cala boca que cê tá errado, a pandemia existe e o corona mata sim! E põe essa máscara senão te denuncio”. Zezinho pensa “Dou um boi pra não entrar numa briga” e aguarda. Quando o sujeito volta, finge que espirra e o deixa desesperado, se borrifando até tomar um banho de álcool, reclamando de tudo e borrifando mais a mesa que usa. Olha para Zezinho e borrifa no milkshake dele também, no que o garoto pensa “mas nem uma boiada me tira dela”. Chama a garçonete, pisca e diz “Vocês limparam a parte de baixo das mesas?” e o desaforado fica de butuca. Ele olha por debaixo do tampo e vê tudo seco, então começa a borrifar e Zezinho continua “Sabia que algumas bactérias estão ficando resistentes ao álcool?” e ele começa a jogar goles de álcool sob a mesa, vê suas mãos empoeiradas e as encharca também, borrifa nos braços e vai subindo até chegar à camisa, logo tem mais álcool nele do que no tanque do Opala do pai de Zezinho, que pede outro milkshake a assiste a tudo com olhar de triunfo.


        Chega o milkshake novo e o desaforado já foi embora, com medo de contrair câncer de escamas. Agora ele põe Silêncio de Beethoven em baixo volume e saboreia seu lanche. Olha com carinho para a bebida, quando vê um ponto vermelho sobre a mesa se movendo rapidamente na sua direção, olha para frente e vê uma mulher com um termômetro infravermelho. Ela testa sua temperatura e depois sai pela lanchonete testando todo mundo, testa até a dos banquinhos, para se certificar de que foram higienizados, pela temperatura mais baixa. Senta-se de termômetro empunhado, como se fosse uma arma, encarando todo mundo. Ele pensa “Não, isso não está acontecendo”, funga um pouco e volta a sugar, então vê aquele ponto de laser de novo sobre sua mesa e diz “Moça, estou tomando um milkshake, posso? É bebida gelada, claro que a mesa e eu estamos mais frios”. Ela faz seu pedido, mas ainda o encarando, como se o que ele disse fosse uma confissão de ilícito, Zezinho suspira e completa “Moça, essa coisa aí mede a temperatura, mas não informa a causa! Se eu estivesse contaminado, isso não daria um teste diagnóstico, e também não mede a temperatura de vírus e bactérias! Tô falando aqui e um monte de micro-organismos (prestou atenção às aulas de ciências) tá saindo pela minha boca de caçapa, do mesmo jeito que saem do seu nariz de tartaruga ninja quando espira! E eles estão vivos”. Ela pára, pensa, olha o salão e começa a ver germes gigantes se avolumando nas mesas e no balcão, se desespera e sai correndo. Zezinho vê a banana split que ela nem tocou, olha para o balconista, pensa na própria mesada e assume a conta, pede que a traga. Pensa também em seu trato digestivo ao ter que ingerir tudo aquilo.


        Entra no recinto uma figura alva e esguia com seus curtos cabelinhos louros estilo Joãozinho, com seus olhos verdes serelepes vasculhando o ambiente. A máscara com logos da Varig não esconde a identidade da menina de óculos finos, que já está mais alta do que ele; é Mariazinha, por cuja simpatia recebeu muitos ataques e acusações de racismo. Ele se levanta bruscamente, chamando sua atenção e ataca “Mademoiselle, sua banana split já está paga” fazendo-a corar e rir daquele jeito que só ela sabe fazer. É a criatura por debaixo daquela adorável aparência que faz seu jovem coração reger rapsódias. Ela aceita o convite e ele, que esperava desfrutar de momentos de solidão, aceita de bom grado uma invasãozinha tão adorável. Falam com brevidade dos dissabores de hoje, que no caso dela vêm se arrastando pela semana. Suas jovens vidas têm recebido apresentações rudes e precoces do mundo adulto.


        Enquanto consomem seus acepipes e se acalmam no decorrer da conversa, aquele sujeito atarracado chega com um policial. Ele aponta para Zezinho e dispara “Ele não acredita que estejamos diante do enfrentamento da pandemia mundial da Covid 19 causada pelo Novo Coronavírus e que o distanciamento social seja uma prática avalizada pela Organização Mundial da Saúde para conter a onda de contaminações diante do novo normal”. O policial faz cara de “hein”, Mariazinha faz cara de “ã” e Zezinho faz cara de “PQP, QUE P@##@ É ESSA”. O acusador arreganha um sorriso de triunfo debaixo da máscara cheia de cerquilhas e palavras de ordem, certo de que haverá punição exemplar e será aclamado como herói da saúde pública, enquanto borrifa tudo ao redor, mas o policial retruca “mesmo que seja verdade, o que não me parece, o Brasil ainda não tem crime de opinião previsto em lei”. Ele fica indignado, a pressão sobe e o tom também, o que lhe rende uma prisão por ameaça e desacato, então Zezinho, com o canudo na boca para poder exibir o sorriso de quem riu por último, dá tchauzinho e volta à sua afável companhia.


        Eles trocam olhares e, de repente, uma bolha mágica os isola do resto do mundo e os dois aproveitam a solidão compartilhada em paz.

12/08/2020

Formiguinhas gringas pelo Brasil

 

Clara Nunes

            Dizia-se nos anos 1980 que o estrangeiro gostava mais do brasileiro do que o próprio brasileiro. Elke Maravilha ia além ao afirmar que, segundo seu pai, brasileiros não gostam uns dos outros. Tudo isso é verdade, seguramente não toda ela, mas é. Antes de culpar os outros países por isso, devemos lembrar qual é a educação que o brasileiro recebe desde a mais tenra idade, que inclui philosophias torpes bem exploradas por Machado de Assis. Uma delas é o tal “jeitinho”, que implica basicamente em burlar as regras de modo simpático, para que não pareça ser algo ruim, mas é. Outra é a máxima do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, na verdade isso se aplica mesmo quando sobra farinha, então muda-se para “a farinha é minha e ninguém tasca”, depois faz-se caridade dando migalhas aos outros, posando de bom samaritano. Tudo isso se reflete na política e na mídia, que não têm como agir sem o aval de seu público, mesmo que implícito ou involuntário, mas involuntário não significa fora de sintonia; colocar as lentes da religião, da ideologia, das convicções ou mesmo de meras opiniões com rótulo de “verdade” ajuda a aceitar aquela imagem horrorosa que está bem à frente, mas que as distorções ajudam a tornar no mínimo aceitável; às vezes fazendo a Sofia do Nazareno ter ares de Ava Gardner. O brasileiro tem orgulho de coisas absolutamente supérfluas, como futebol, ou mesmo erradas, mas não dá a mínima para o que seus compatriotas fazem de útil, como tecnologias altamente versáteis que saem de nossos laboratórios públicos e privados. Mas mesmo essa distorção de caráter pode ser desviada para algo bom, como a empatia.

 

            O mesmo vale para os orgulhos nacionais, para os quais o brasileiro de chinelo, regata made by slave e calção “abajur de quenga” bate no peito e exibe a banguela em um sorriso largo. Um deles, em uma relação de amor e ódio epático, é o SUS. Eu lamento informar, mas ele NUNCA foi pensado para atender a toda a população, ou não seria tão perverso na hora de conceder aposentadorias. Foi pensado para a propaganda estatal do governo fascista de Vargas, e acabou dando mais certo do que o esperado, ainda assim MUITO aquém do que seria necessário a uma rede de saúde totalmente financiada pelo erário, com alguns pontos de referência e excelência, utilizados para alimentar nossa fantasia de saúde pública. Sim, a idéia é boa, mas o conceito está longe de ser realmente bom, porque foi pensado para ser centralizado, sob as rédeas do ministro, com uma burocracia gigantesca que consome grande parte dos recursos. Entretanto, estando a população de acordo com o financiamento dessa saúde subsidiada, e foi aqui que Obama pecou crassamente com sua proposta em seu país, uma estritura descentralizada, enxuta e bem gerida de saúde pública é algo próximo do paraíso. Feitas consultas públicas para alterações importantes, mesmo que informais, algo expressamente proibido pelos idealizadores do serviço, bem como o estudo de boa vontade das queixas e sugestões populares, o SUS, ex INPS (para quê mudar nomes, senão para propaganda própria?) beneficiaria até quem não se utiliza dele.

 

            Ainda nos anos 1970, dizia-se que as porcarias enlatadas do estrangeiro sufocavam a música nacional, o que era mentira, pois na época os músicos eram quase deuses para seu público, eram explorados sim por outros brasileiros, que os amarravam em contractos sinistros que, em caso de saída do selo, praticamente impediam o artista de trabalhar. Daí nasceu o ECADE, que só serve para arrecadar e amarrar tanto a produção quanto a execução e a reprodução musical. Bem, hoje sabemos que podemos fazer lixos que fazem o lixo deles parecer música erudita, e se tornou mais um “orgulho nacional”, de gente que bate no peito para exaltar sua miséria generalizada, não importa quanto dinheiro tenha. Ah, claro, morar em áreas de risco, dominadas por facções criminosas, se submetendo a ser fantoche midiático desses grupos, também virou motivo para… orgulho… com quilômetros de discursos prolixos e cheios de referências para exaltar e eufemizar tudo isso… estão chamando gato selvagem de bichado geneticamente alternativo, como se isso tornasse seguro sua posse doméstica. Sejamos honestos de verdade, morros íngremes e desprovidos de infraestrutura não são lugares para pessoas viverem, e ninguém está (cof, cof) lutando para tirar aquelas pessoas de lá e realocá-las em lugares dignos, quem sabe até imóveis públicos não utilizados, simplesmente porque Elke estava certa, eles não se importam com essas pessoas, não dão a mínima para elas, estão se lixando até que uma tragédia aconteça e possam fazer palanque de seus caixões. O que isso tem a ver com a música ruim? Dê uma olhada nas letras de apologia ao baixo-ventre e à violência contra a polícia, que o filho de um amigo policial adorava há até não muito tempo… Mas ninguém chama o Batman, quando precisa de ajuda.

 

            Com tudo isso, apesar de tudo isso, a despeito de todas as conseqüências com trema que é o jeito certo de escrever, o país tem virtudes sim. Sabiam que a Vale está testando a primeira locomotivatotalmente eléctrica, sem fio, alimentada apenas por pesadas baterias, fabricada aqui mesmo com tecnologia nacional? Pois sim, é um veículo de manobra, não para longas viagens, mas ainda assim seus 4400cv dão-lhe um poder de tração invejável, força bruta absurdamente grande, muito além do mais poderoso trator de esteiras do mercado. A configuração é prefeita para economizar com infraestrutura de longas, caras e dispendiosas torres de alimentação, além de ser imune a eventuais cortes de fornecimento. Ainda cito o bruto e quase indestrutível Agrale Marruá, nascido da finada Engesa, pensado para a vida militar, que faz o legendário Land Rover Defender parecer um frágil SUV de boutique, tamanha confiabilidade e aptidão para o fora-de-estrada. Temos tecnologia de ponta no Brasil, sufocada por tudo o que escrevi nos primeiros parágrafos, que poderia nos tirar fácil e rapidamente do buraco financeiro em que estamos desde o fim do império. O que resta então ao pesquisador, ao empreendedor e ao artista sério, é buscar ajuda e oportunidades lá fora; inclusive em lugares que a intelectuália retorista abomina. Nem vou me aprofundar no uso de biocombustíveis e nos motores multicombustíveis, área em que somos o ÚNICO país que leva a termo E tem sucesso na aplicação da tecnologia, isso já inclui a aviação experimental. Neste caso, são os outros países que estão fazendo corpo mole. Preciso falar da Embraer? Não, não preciso. As dificuldades pelas quais passa, passarão, ela passarinho a jacto.

 

            São coisas que a mídia faz de conta que não existem, e quando mostra é de forma tão superficial quanto tendenciosa, se preocupando mais em tornar os responsáveis celebridades, do que informar e incentivar a população à ciência e ao desenvolvimento tecnológico. Vamos deixar claro que, apesar de o povo idolatrar celebridades, não dá a menor bola quando elas falam sério, só querem delas ouvir bobagens sem sentido para mero entretenimento. Entenderam agora a fuga de cérebros? Tudo isso alimenta estereótipos, como os de que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro e que ele fica dentro da floresta amazônica. Felizmente alguns estrangeiros se decidiram a conferir até que ponto isso é verdade, e estão fazendo questão de mostrar ao mundo que é tudo falso, inclusive os estereótipos sobre a pessoa do brasileiro, desfazendo as generalizações perversas que denigrem, mas são fáceis de vender. São, embora haja até russos saracoteando por aqui, especialmente americanos e coreanos, que muitas vezes até fixam residência, não raro em definitivo. Alguém há de perguntar qual a novidade, posto que temos imensas colônias estrangeiras, no Brasil, inclusive a maior colônia japonesa do mundo em São Paulo. A diferença está nos seguintes pontos, um minutinho que já explico!

 

            Primeiro que quase todos os imigrantes dessas colônias já jazem. Vieram em outras e remotas épocas, noutros contextos e por outros motivos, estavam demasiadamente preocupados em sobreviver para se aprofundarem na cultura de cada Estado em que se fixaram. Também sofreram o trauma das condições de trabalho precárias em um país que se acostumou a fazer as coisas nas coxas, literalmente, o que é inaceitável para povos de países onde o trabalho é não só levado a sério, mas uma honra para quem o abraça. Apesar de falarem das belezas e potencialidades em correspondências, que podiam levar meses para chegar aos destinos, se debulhavam em saudades da terra natal, muitas vezes explicitando o desejo de retornar em definitivo; a maioria não o conseguiu. Mais ou menos como degredados romantizando um paraíso perdido, que no fundo sabiam que não era, mas a visão romântica agia como um bálsamo e nutria as esperanças, encorajando ao trabalho árduo para permitir o retorno em condições melhores do que as da partida.

 

            Segundo que o turismo internacional recreativo só se tornou acessível depois dos anos 1950, e mesmo assim aos poucos, e é esse tipo de viagem que dá início ao aprofundamento de interesses em indivíduos por países estrangeiros. Gente disposta a sair do roteiro de Hollywood só começou a proliferar recentemente, ainda ais com espírito desarmado e disposição a se misturar aos nativos. Mesmo assim, como a maioria de vocês já se deu conta, leva anos para surtir efeitos consistentes e duradouros. Alie-se a isso o advento muito recente da internet, e ainda mais recente a proliferação de canais pessoais com alcance relevante. Foi só de então em diante que esses estrangeiros começaram a falar com propriedade daquilo que viram e viveram. A maioria absoluta, embora não feche os olhos para as mazelas, é muito elogiosa, especialmente no tocante ao tratamento humano que nossos compatriotas lhes dispensaram, e falo especialmente dos americanos, segundo alguns dos quais o Brasil simplesmente os fez mudar para melhor, como pessoas. E não se limitam a rasgar seda, eles divulgam em seus países nossas culturas, nossas peculiaridades e especialmente nossa culinária. Um deles chegou a servir coxinhas em Manhattan, com explicações devidas e saneando os mitos que seus pares tinham a nosso respeito. Mesmo no estigmatizado continente africano estamos arregimentando simpatizantes, gente que vê vídeos sérios sobre o Brasil e fica de queixo caído, pois pelos noticiários se davam conta de que seríamos uma ilha tropical devastada, mas vêem nosso poderio econômico (apesar de tudo) e militar, a imensa diversidade de climas, culturas e paisagens, e passam a ter pena de quem apenas tentar se meter a besta conosco. Ainda entre eles, são muito elogiosos quanto à maneira com que foram tratados, em detrimento de ditaduras em que infelizmente precisam, de vez em quando, fazer escala nas viagens de retorno. Mesmo os portugueses fazem caras de perplexidade e assombro, quando descobrem o que perderam quando deixamos de ser sua colônia.

 

            Mesmo sem virem, eles estudam com afinco e ficam perdidos em meio à grandiosidade do que encontram, especialmente nossos hinos, e alguns estranham termos mais de um, arrancam suspiros pela competente composição. Isso se soma à estupefação quando descobrem que samba é apenas um dos ritmos que temos, e que há mais de um tipo de samba, portanto também mais de um tipo de carnaval, portanto mais manifestações culturais públicas do que suas emissoras seriam capazes de mostrar em um ano inteiro. Quando podem vir, descobrem que uma vida humana inteira não bastaria para conhecerem tudo, ao contrário do que acontece na maioria dos países, minúsculos se comparados ao nosso território. Alguns minúsculos mesmo para os padrões europeus; ou seja, para qualquer país é uma péssima idéia tentar invadir o Brasil.

 

            Na realidade se deu uma explosão de brasilismo que está se alastrando rápido, praticamente todos os gentílicos que o podem, estão exportando uma imagem positiva aos seus países, até mesmo chineses. A quantidade de estrangeiros que fazem boa propaganda do Brasil lá fora, consertando o serviço porco da Embratur, que só mostrava bunda e caricaturas baianas de Carmen Miranda, cresce mais rápido do que eu consigo acompanhar. Eles falam bem, alguns chegam a ser generosos com nossos patrícios, ajudando como podem e divulgando seus pequenos negócios para potenciais clientes conterrâneos que vierem depois, o que é particularmente valioso nesta época de crise profunda. Notei particularidades de alguns gentílicos que falam muito de seus países;

 

            Os moçambicanos em especial são extremamente curiosos e entusiasmados, como o Aurélio. Eles agem como crianças, no bom sentido, esmiuçando tudo o que podem e aceitando com humildade, nossas correções e sugestões. A simpatia e a simplicidade de linguagem, e a mania de falar “mano” como interjeição para tudo, já arrebanhou fãs e até amigos entre os seguidores brasileiros… uhm… será que Moçambique é um pedaço perdido de São Paulo? Alguns deles ficam pasmos quando descobrem que há negros no Brasil. Basicamente, há pessoas por lá que pensam que só existem negros na África… pois é. Eles querem aprender tudo o que puderem, são divulgadores perfeitos e engajados das coisas do Brasil, então peço que sejam solícitos, eles saberão agradecer revertendo a péssima impressão que as instituições carimbaram em nossas testas.

 

            Os americanos querem se enturmar, fazer parte da nossa bagunça e se sentirem brasileiros, por mais espantoso que isso possa parecer; isso é um poderoso antídoto contra os estereótipos que a mídia dissemina. Eles gostam de usufruir de nossa hospitalidade, que para eles é coisa de outro mundo, com elogios rasgados para os mineiros, e fazem questão de alardear para o mundo inteiro que somos o melhor tipo de pessoa do mundo… não, não é piada. Eles vêm e fazem questão de retribuir aos brasileiros que vão para lá. Eles tentam nos fazer ver o lado mais sombrio dos Estados Unidos logo de cara, mas com isso só conseguem fazer os nossos ficarem tão encantados quando eles ficaram aqui, pois logo em seguida nos apresentam aos melhores lugares para brasileiros, inclusive redutos brazucas no quintal do Tio San; eles são mais piegas do que admitem, e nós conseguimos extrair isso comendo pelas beiradas. Nosso idioma é uma armadilha para eles, especialmente por causa dos verbos. Por exemplo, eles têm “you”, para esta palavra temos tu, te, ti, você, vocês, vós, lhe e lhes, piorando a confusão quando descobrem que o nosso português não é parecido com o de Portugal, como o cinema lhes dizia ser. São de longe os mais numerosos obreiros desta senda. Vale à pena conhecer o canal do Tim, o mais brasileiro dos americanos.

 

            Os coreanos quebram o estereótipo de frieza e distância social que atribuímos aos ocidentais, fazem questão de proximidade e de experimentar nossa culinária. Às vezes chega a ser hilário, mas na maioria delas eles surpreendem. É sério, eu vi coreanas fininhas comendo feito um pedreiro que fez hora extra, sem almoço, e a barriga continuava chapada! Garçons olhavam incrédulos sem saber aonde tinha ido tanta comida, e estou falando de coisas como feijoada, farofa, dobradinha, churrasco raiz, entre outras tonelagens estomacais. Como é de regra, eles acham o nosso café forte demais. A eles chama atenção em especial o baixo número de fumantes, que nós achamos alto, isso já rendeu um vídeo inteiro da Coreaníssima. Ela, aliás, é precursora de uma série de coreanos que se dedicam a conhecer e falar do Brasil, eles já se deram conta de que juntando todos os compatriotas, ainda não conseguirão conhecer tudo, viajar mais de 1000 km dentro de um único país é estranho para eles, mesmo acostumados com o gigante chinês bem ao lado, mas a imagem que tinham daqui era de uma ilha tropical,,. Pois é., dona Embratur...

 

            Os russos são figuras! Estranham tudo a ponto de parecer que desceram em outro planeta, mais ou menos como “Moscou! Encontramos vida alienígena, não temos certeza de que seja inteligente, mas é divertida”. Como os demais, o nosso idioma intrincado os confunde muito, mas nossos hábitos chegam a ser bizarros, alguns chegam a perguntar se temos problemas bucais crônicos, pela freqüência tremada com que escovamos os dentes. Eles, reis da excentricidade, nos acham malucos! Oh, honra suprema, tidos como esquisitos pelos mestres da arte! A dramaticidade com que falam pode assustar os desavisados, mas só terão sido gentis; eles são dramáticos em tudo. Um mito que ainda têm na Rússia é que somos uma ilha tropical na América Central, choca quando chegam, descobrir que mal cabemos na do Sul… e que temos colônias russas no Brasil! E que sabemos localizar a Rússia no mapa! Então eles tocam de roda feito crianças descobrindo a casa nova, querem conhecer a tudo e a todos, demonstrando uma incrível capacidade de entrosamento. É bom lembrar que o idioma pode gerar constrangimentos; por exemplo, “olá” soma como Ola, diminutivo de Olga, e Rui soa como “ruy” que significa literalmente “pênis” … Tomando cuidado com perguntas delicadas, mas sem hesitar em fazê-las, a convivência é até festiva.

 

            Estes foram apenas os principais e mais freqüentes exemplos, e impressões que me deixaram, não haveria páginas suficientes. Eles deixam claro que o Brasil não é para amadores, não é para covardes e, principalmente, não é para invasores. O certo é que são pessoas comuns, não ONGs ou autarquias que agem sob ordens de sabe-se lá quem com sabe-se lá que propósitos, que vão nos ajudar a sair do buraco, e essas pessoas já assumiram a seara em um trabalho de formiguinhas pelo mundo inteiro… que tal as formigas daqui cooperarem?

27/07/2020

Se doer, doe-se


        Desde o suicídio do neto de Elvis tenho testemunhado uma avalanche de jovens repentinamente atormentados pelos mesmos pensamentos autodestrutivos. Inclusive, em especial, por lutos recentes e muito caros, principalmente quando os que os cercam não compreendem e tampouco respeitam esses lutos. As pessoas não compreendem que no vale profundo de um luto, a última coisa que uma pessoa precisa é ter sua dor reduzida a um capricho; ainda que seja, é a única coisa que não deve ser feita. O luto de um depressivo, aliás, pode ser a única coisa que o mantém do lado de cá da vida, porque ao lamentar e velar intimamente sua perda, estará se apegando ao fio da lembrança da vida que se foi. Ainda que esteja no passado, aquilo É uma vida e é nisso que o jovem se apoia para manter-se na sua própria. Se não tiver algo de bom ou mesmo um silêncio acolhedor para oferecer, apenas retire-se sem abrir a boca.

        Aos jovens hora em desespero, ávidos por um alívio em seus pesares, ofereço minha experiência e palavras práticas de como lidar com isso. Eu não tenho discursos prolixos e palavras espirituais para este caso, porque sei por experiência que às vezes elas são um tiro pela culatra, e não sou crentelho nem espiritonto para tentar forçar o deprimido a olhar os lírios do campo de Jesus! Aleluia, salve, salve. Me baseio no exemplo prático de Audrey Hepburn e na sabedoria maternal que ela deixou, que no final das contas é um legado maior do que sua gloriosa carreira. Foi no Congo Belga, durante as filmagens de "Nun's Story" que ela vislumbrou seu real papel no mundo, papel que levou até o fim de uma vida que muitos acreditavam que seria mais curta. Não, não farei um texto sobre celebridades, fiquem sossegados.

        Quando alguém se doa a quem REALMENTE precisa, e isso exclui paixões, mesmo que com a imensa dificuldade que eu conheço de ainda estar atado ao luto doloroso, está também tecendo o primeiro fio de salvação que o manterá vivo, simplesmente porque agora há um motivo mais do que razoável para isso. Ainda que repita a si "Eu sei que depois desta ajuda eu não vou resistir em matar", o acto de se doar torna a pessoa mais receptiva a doar-se novamente, e com isso torna também mais apta a enxergar assuntos e pessoas que realmente precisam de sua atenção. É como artes marciais, que torna o corpo e a mente mais aptos e desejosos de ir além, quanto mais se pratica, até o ponto em que todos os movimentos são feitos naturalmente e o aprimoramento se torna cada vez mais rápido e consistente.

        Não é preciso ter recursos financeiros para se doar, na verdade sequer é preciso ter coisas a doar. Na maioria das vezes, tudo de que uma pessoa precisa é sentir que alguém sabe que ela existe, e nem sempre é um pedinte maltrapilho que precisa disso. Às vezes, sob o tailleur bem cortado, sob o penteado bem feito, sobre os sapatos de fino design, está a criatura de espírito mais desgastado e desesperançado do mundo. Sim, os mais pobres precisam de nossa ajuda, e quase sempre na forma de pão; demo-los e saciemo-los. Entretanto, umas moedas dadas com um olhar sereno e bondoso, já que estamos na era dos mascarados compulsórios, dá ao cidadão negligenciado mais fibras para se apegar à vida do que aquela nota de vinte que fora simplesmente jogada a ele; muitas vezes a diferença entre comprar o que comer e gastar tudo numa garrafa de destilado. E dando de bom coração as poucas moedas que pode dar, sentindo-se mais necessário e mais necessidade de fazer mais, mais alguns fios são tecidos no seu apego à vida, não simplesmente à sobrevivência.

        Não estou copiando isso de um livro de auto estorvo, falo de minha experiência e do cabedal recebido de pessoas que me fazem parecer um tolo egoísta. E vejam só, graças a esse hábito de doação eu já excedi a cota de textos que esperava escrever durante o ano todo. Mas vamos voltar à rica dama de espírito mendicante, porque às vezes é para receber atenção que elas despendem grandes vultos em salões de beleza. Não, não é crime e NÃO é errado gastar com estética, o problema vem quando a aparência é um contrapeso ao vácuo interior. Infelizmente as pessoas AINDA acreditam que ter recursos materiais imuniza contra a depressão, mas eles podem ser um tiro pela culatra, bem na testa, directo à pineal. Se aquela dama perceber que pode mudar a vida de outrem, a estética será um adereço e não uma psicotrópico, mas ela não perceberá isso enquanto for elogiada por sua beleza e seus recursos. Quando o elogio for por sua postura e por sua companhia agradável, ainda que esta se dê em princípio por protocolo social, algo começará a mudar, e o autor terá tecido mais uma fibra em seu benefício próprio.

        Compreendam que dar o primeiro passo não é fácil, não é simples e NÃO É INDOLOR! Mas precisa ser dado. A dor vem da condição cristalizada de luto misturado com auto piedade, que cedo ou tarde trava a vontade de viver de modo praticamente irreversível. No começo tudo parecerá ser em vão, suas modestas contribuições parecerão ser inúteis e seus esforços, por mais que tente, infrutíferos. Mas é só impressão. A sua condição de deprimido, e digo isso de dentro de uma condição de depressão extrema praticamente ininterrupta, te deixará imenso em uma ansiedade que fará cada segundo parecer um ano, cada grama parecer uma tonelada e cada indivíduo parecer uma multidão. É como se um liliputiano enfrentasse Godzila, mas é tudo mera impressão, um subterfúgio da depressão para sabotar sua recuperação. Não é inimigo pior, porque não se pode simplesmente afastar-se dela, às vezes nem se pode curar, porque pode ser a depressão justo o que te mantém de pé. Mas em vez de ir para o abismo, a decisão de se doar te leva para o lado oposto, e a depressão torna-se sua aliada. De tristeza crônica, que de vez em quando ainda fará estragos, tornar-se-á um facilitador para introspecção e meditação.

        Eu sei, tudo seria menos penoso se a família NÃO ATRAPALHASSE, mas ela atrapalha e nem sempre há como deixá-la, até porque às vezes é ela quem mais precisa de sua doação, e a covardia não faz parte dos procedimentos de um depressivo reverso. O que aconselho nesse caso é criar seu canto e seu momento de depressão. Exponha sua carranca, mostre seu mau humor, não censure seus resmungos, que embora sejam socialmente desagradáveis até para nós mesmos, são o mal menor com o qual conseguimos lidar melhor. Afinal, precisamos estar fortes e centrados para a missão a que nos propusemos, e nunca se sabe quando alguém precisará de nossa humilde ajuda. Se posso dar um conselho, e já paguei caro por ele, é abster-se de "causas" que apregoam o coletivo e desprezam o indivíduo, porque grupos assim são grandes impulsionadores de suicídios. Fazer a pessoa acreditar que sem "a causa" ela não é nada, cedo ou tarde a fará ver que nada construiu, acreditar que realmente não é nada e que a alternativa ao grupo (político, ideológico ou religioso) é a morte. E novamente, se a família não atrapalhasse tanto a maioria dos casos, ninguém cairia na conversa desses grupos, que virtualmente não existiriam. Grupos que formam coletivos para amparar cada indivíduo, esses sim merecem sua atenção e eventualmente sua adesão.

        Com o tempo, a perseverança e a prática, a dor do luto se transforma em empatia pela dor do outro, que já não é então "o outro", é o seu irmão; mesmo que às vezes se tenha vontade de torcer-lhe o pescoço, é absolutamente natural. A cada eclosão de sua dor virá a lembrança de que outros também penam suas dores, e que um simples emoticon na caixa de mensagens pode ser suficiente para essa dor ser suportada. Não espere por gratidão, espere por correspondência. Se a pessoa for minimamente rude ou arrogante, lamento, mas não estará pronta para ser ajudada. Toda semente que jogar naquele solo, morrerá seca. Concentre-se em quem, se não dá respostas privadas, pelo menos te trata com respeito em conversas públicas. Parece pouco, mas às vezes é tudo o que se faz necessário. Assim, quando maior for a sua dor, maior será o empuxo para doar seu tempo, suas palavras, talvez algum recurso material. Aquela conversa de que "se alguém não começar, nunca será terminado" é a mais pura verdade, um chapéu com poucas moedas chama mais atenção do que um vazio. Assim como uma pessoa que recebeu uma ínfima dose de ânimo, chama mais atenção e está mais pronta a ser auxiliada do que quem já tiver perdido toda a vontade de viver.

        Repito que tudo isso é cabedal próprio, de quase meio século expiando neste mundo rude e cínico. Não sei se há compêndios acadêmicos dedicados a isso, sei que funciona. Funciona a ponto de eu já ter testemunhado um traficante se regenerar. E o que eu sou? Um velho funcionário público ferrado e sem ter onde cair morto... se bem que... depois de morto, que me importa o que vai acontecer com o corpo? Às favas! O facto é que eu era um nada ainda menor do que sou hoje, mesmo assim ajudei uma comunidade a bancar a pedra filosofal. E fiz isso dedicando minutos do meu tempo a uma carinha triste, um suspiro de descrença, um bombom barato dado de surpresa, um aperto de mão em um trabalhador braçal que não teve tempo de voltar pra casa, coisas simples. Com isso se teceu uma teia cujos fios evitaram que aquele indivíduo caísse em definitivo no abismo. Sim, às vezes precisei ser duro, casca-grossa, mas tudo dentro dos limites do necessário, sem exceder um grau sequer.

        Isso se incorporará aos seus gestuários, como se incorporou ao meu. E sempre que vejo uma criança necessitando de ajuda, vem à minha mente "É obrigação do mundo ajudar crianças em dificuldades, todo resto é luxo", frase dita e levada a termo, até o último suspiro de vida, pelo Anjo das Crianças Audrey Hepburn, que se esmerando em curar a dor do próximo, viu suas próprias e profundas feridas se cicatrizarem com o passar dos anos. Eu atesto, porque como vocês eu tenho as minhas, e elas já estariam infeccionadas se eu tivesse escolhido o caminho oposto, de me fechar em meus lutos e igorar os do próximo. Ainda que ciente de que eu sou pequeno, feio e sem perspectivas sólidas, sei que absolutamente nada disso me impede de dar a alguém o bálsamo de que disponho. Não salvarei o mundo, isso é uma ambição louca que somente os aloprados que se levam à sério têm. Eu foco em fazer o que precisa ser feito, no momento em que precisa ser feito, dando meu melhor o tempo todo, até que o que eu puder ter feito, feito estiver.

        Parece árduo? Não é tanto quanto parece, não é um paredão a ser escalado sem cordas e picaretas, é uma escada. Uma escada que aparentemente não tem fim, com sua estrutura varando as nuvens, mas é uma escada, com degraus que podem ser alçados um de cada vez, no seu tempo, no seu ritmo, com as pausas que necessitar para se refazer, mas sempre com a firme decisão de avançar e aliviar a dor do seu irmão. E de dor, amados, eu sei bem que vocês entendem como ninguém. Vocês sabem reconhecer e sabem que, às vezes, apenas dizer "obrigado, bom dia" por ter-se lhe dado passagem, mesmo que não tenha realmente dado passagem, que tenha sido pego de surpresa pela sua necessidade de passar, pode ser o suficiente para que aquela pessoa adie por ais um dia, apenas mais um dia os planos de dar cabo de si, e um dia a mais pode ser o prazo que a providência necessária seja tomada. E um gesto como esse terá sido toda a providência de que vocês necessitam para viver mais um dia e, como Audrey, protelar os maus prognósticos por muitos anos.

23/07/2020

Uma Tóquio charmosa

Cena tirada do vídeo no fim do texto.

        Eu raramente vejo um vídeo com mais de dez minutos, se não for dos meus canais já assinados, e mesmo neles eu hesito de vez em quando. Não se trata de preguiça, embora às vezes eu mesmo me pergunte se não é, mas de cansaço. Não apenas físico, que consome a glicose que deveria ser todinha do meu cérebro lesado, mas também mental, porque o dia actualmente parece ter menos de dez horas, e eu precisaria ao menos de dezoito horas de sono por noite para me refazer.

        Não bastasse isso, a ladainha incessante da imprensa me faz querer enfiar a cabeça no liquidificador... enfim, estou um caco. Na maioria das vezes eu procuro coisas bonitas para ver, mas aliar beleza com bom gosto tem sido uma tarefa ingrata. Costumo ver a descontração do canal Dancing Bacons, de um casal japonês muito fofo que viaja pelo oriente para comer... é, para comer. Experimentar comidas prontas, semi-prontas, feitas na hora, de rua, de restaurantes, de máquinas automáticas de venda... É comida? Estão dentro... e passam para dentro. Deste canal eu acabei descobrindo mais gente que usa o Youtube mostrar ao mundo um mundo que vale à pena ver. Os vídeos não são muito longos, mas um ou outro passa de meia hora, o que é raro.

        Eis que hoje, em um momento de esgotamento e desinteresse pré-depressivo, vejo na lista um vídeo com mais de UMA HORA de duração. olhei para aquilo, pensei "No!!!!!", respirei fundo, olhei de novo, pensei "Jura que querem que eu veja isso?", dei uma olhada no título despretensioso, pensei cá com meus botões (eu uso camisa de abotoar) que nada tinha conseguido prender mina atenção, e que minha capacidade cognitiva já estava um pouco comprometida, então não adiantaria eu procurar vídeos com temas profundos, densos e enigmáticos. Cliquei para ver até onde eu agüentaria e me surpreendi com um vídeo SEM EDIÇÕES, que me fez descansar o espírito, entre uma emergência e outra, por mais de uma hora.

        Não é nada mais do que um cidadão japonês andando por todo esse tempo por ruas de uma Tóquio que pouca gente conhece. O passeio une o moderno ao tradicional, o que quase todo mundo já sabe da capital japonesa, mas ele entra por vielas e becos estreitos que as câmeras internacionais simplesmente não mostram. Ele revela uma cidade charmosa e encantadora, surpreendendo ao permitir que ouçamos risos espontâneos dos concidadãos, inclusive mostrando acidentalmente duas moças rindo soltamente diante de uma lanchonete com uma máquina de venda automática na porta.

        O passeio vai do início de fim de tarde até o anoitecer, permitindo ao espectador paciente conhecer uma cidade arborizada e repleta de lugares que fazem qualquer um ter motivos para, algum dia, visitar e conhecer não só o lugar, mas também os actores daqueles cenários que às vezes chegam a ser bucólicos. Acredito que mesmo os leitores habituais de mangás vão se surpreender e se encantar com este vídeo do canal Rambalac. Sem mais delongas ou spoilers, vamos ao vídeo. Quem tiver banda larga e estável suficiente, vá ao link e escolha um formato mais pesado e refinado, ao demais podem ver o que eu compartilhei aqui. Bom passeio.


22/07/2020

Pandenóia

Arte de Banksy, exceto a máscara, Inglaterra


            Eu limpo e esterilizo a sala logo na primeira hora em que chego, e sou sempre o primeiro a chegar. Depois vem alguém e passa álcool novamente, mesmo eu já tendo alertado que o fizera, mas a pessoa retruca “Antes pecar pelo excesso do que pela falta”. Dez minutos depois a mesma criatura refaz o procedimento na mesa inteira, mesmo que não tenha utilizado o aparelho, e assim vai durante todo o expediente. E cada vez que o telephone é utilizado, mais uma camada de álcool é passada, felizmente as janelas daqui são relativamente grandes e estão sempre abertas. Mais do que esse comportamento obsessivo, que já vai às raias da higiopatia, chama a atenção o facto de todos os outros acharei isso normal; ou “novo normal, como reza a nova idiotice do vocábulo midiático repetido à exaustão pelos paranoicos passivos. Há muitos anos que as vendas por internet crescem vertiginosamente, em alguns setores já superaram as lojas físicas correspondentes, em especial no mercado editorial. É incomparavelmente mais barato e o alcance é inimaginavelmente maior, isso já acontecia inclusive nas vendas de automóveis.

            A falta de hábito, ou até desconhecimento de sites especializados em economia e tecnologia corrobora para isso, porque neles os leitores habituais já estavam de sobreaviso para o novo mundo nascente, que agora sai por cesária. Infelizmente os paranoicos não vêem esses canais, na maioria das vezes os rejeitam, porque eles jogam na cara a fragilidade das informações de que se gabam em seus proclames simplistas e decorados por retóricas vultuosas. É na forma que se concentram e com ela que se deslumbram, o conteúdo geralmente lhes é indigesto. Às vezes, tão somente às vezes e não em todos os casos, dizem que não estão a par para terem opiniões, mas opinam subliminarmente assim mesmo, depois voltam a repetir “Currupaco! Pandemia! AAAAAAAAH!!!” para todo mundo ouvir. Acreditar que tudo isso é novidade dá a sensação de que estão na vanguarda e, de alguma forma, no controle de uma situação totalmente descontrolada, que é a própria vida.

            Em primeiro lugar, todas as mudanças econômicos que estão acontecendo JÁ VINHAM ACONTECENDO desde o início do século, algumas desde os anos 1990. O que essa pandemia fez, como toda crise global, foi acelerar tudo e fazer gente tirar projectos que jaziam em suas gavetas.
            Em segundo lugar, micro-organismos não são gatos de senso comum, eles só morrem uma vez, lavar e esterilizar alguma coisa obsessivamente não torna o ambiente mais saudável, pode até mesmo estragar tanto os utensílios quanto a própria pele do indivíduo, pele que é a primeira barreira contra contaminações.
            Em terceiro, mas não menos importante lugar, o foco monopolizado induz à displicência para com as outras actividades, que não por acaso são os fins de um ambiente de trabalho, às vezes até mesmo o doméstico; como deixar computadores freqüentemente ligados e abertos na senha do funcionário, não raro varando a noite assim, à mercê de espertos e de hackers. Vi agora a pouco um caso desses com a cafeteira nova… que passou a noite ligada… agora estão limpando a bagunça. Imaginem isso no trânsito. Imaginaram? Pois já vi também.

            A voracidade com que devoram notícias repetitivas, que falam a mesma coisa com sotaques diferentes sobre a pandemia, sempre noticiadas como se TODOS os locutores tivessem exactamente o mesmo texto em mãos, não se repete na indignação que deveriam ter com as notícias de abusos das castas do judiciário e do legislativo. Tentar mudar de assunto é quase infrutífero, sempre voltam repetindo a ladainha “A pandemia do covid 19 do novo coronavírus” como se tivessem memorizado um script de filme B, não raro perdem as estribeiras ao menor desvio de tópico, te acusando de negar a crise sanitária e de ser uma ameaça epidemiológica para toda a humanidade, acrescentando “você não é epidemiologista” a cada frase dita com rudeza. Após destilarem sua raiva, voltam a conversar como se nada tivessem feito, ou pior, como se estivessem em seu direito régio de fazê-lo, o que é muito comum. Depois de te irritarem, pedem calma… Dão a entender que querem que essa situação dure para sempre.

            O comportamento se assemelha ao que me acostumei a ver em dependentes químicos, mas ao avesso, porque aqui a pessoa se tranca em uma bolha de realidade pior do que a própria realidade, e não tolera receber uma boa notícia a respeito que não venha acompanhada de um alerta de que todos vamos morrer. Eles simplesmente QUEREM ver notícias ruins, contando infecção por infecção, morte por morte, caçando canais e sites que repitam cada má notícia a respeito; paralelamente minimizam qualquer bom progresso. Ainda em comum, eles defendem os fornecedores de suas drogas com unhas de dentes, como se fossem seus únicos elos com a vida. Essa auto-obsessão já seria suficientemente ruim se estivesse limitada ao indivíduo, mas ele insiste que todos devam agir como peru de natal. Manter a calma não é um problema, se você conseguir NÃO aparentar estar mais calmo do que eles, porque isso pode soar-lhes como inapropriado ou até ofensivo para uma época de emergência sanitária. Não obstante, os profetas apocalípticos oportunistas ganharam mais um tijolo para servir de palanque, para alardearem que a humanidade não presta e que o mundo está se livrando de nós, tudo salpicado de discursos antissistema que saíram de moda nos anos 1970; as grandes extinções, que me conste, não afetaram seres humanos.

            Eu não contesto a necessidade de evitar aglomerações, mas não é exactamente isso que eles têm feito, porque mesmo Róbinson Crusoé corre o risco de multa e detenção. Tirar a máscara por uns minutos para comer ou beber, já pode render cliques convenientes para postagens acusatórias, que só mostram aquele momento de rosto nu, como se fosse um atentado ao pudor. Usam flagrantes desrespeito aos decretos para isso, em seus discursos generalizadores, quando se dão o trabalho de se explicar. Muitos desses pandenoicos já se vêem como autoridades, ou mesmo como reserva moral da humanidade, e eu gostaria muito que isso fosse apenas um exagero ilustrativo, como recurso didático, mas não é. Não usar máscara dentro do carro, mesmo apenas com o motorista, já é risco de autuação. Se deixarmos, tomar banho e dormir sem máscara será crime. Não basta ser doente ou dependente, é preciso que todos ao redor o sejam também.

            O caso mais icônico foi um fiscal de Poços de Caldas ter interrompido uma missa que estava sendo transmitida pela internet, com a igreja vazia, com portas fechadas (ver aqui) violando a própria constituição, que para os cleros tornou-se apenas um detalhe a ser ignorado ou levado ao pé da letra, de acordo com a conveniência de múltiplos pesos e medidas... e o papa pandenoiado simplesmente não tomou conhecimento… ou deu de ombros, que é o mais provável. Reações do público? Praticamente nenhuma, além dos católicos mais tradicionais, cuja indignação não constou nos pasquins de pandenóia. Novamente o comportamento típico de viciados, que minimiza ou mesmo justifica prolixamente os abusos feitos em nome de seu vício. O que deveria ser apenas o monitoramento de uma crise sanitária, com as devidas correções onde realmente se fizesse necessário, tem se tornado um punhado de Estados policiais paralelos espalhados pelo país, não raro Estados paralelos dentro do próprio Estado e financiados pelo erário, como o caso de Poços de Caldas.

            Vocês podem imaginar até onde isso vai, não podem? Vocês, meus poucos leitores habituais, sabem o que acontece quando o oprimido se dá conta de que é mais numeroso, mais forte e que neste caso até financia o aparato opressor… cortar o patrocínio seria a primeira coisa a fazer. O bordão “vá estudar história” deveria servir de lição aos próprios pandenoicos… e principalmente aos parasitas oportunistas.

14/07/2020

A escolha de um transporte


   
Boston, 1920s
         Em primeiro lugar deixo claro que existe um abismo imenso entre os discursos das salinhas fechadas e a realidade, simplesmente porque mesmo o estudo mais bem-intencionado, que a maioria não é, não consegue abranger todas as nuances de um tópico, na verdade a falta de ensaios não permite sequer observar o básico. É, por exemplo, muito simples atravessar o Atlântico em um veleiro altamente equipado, monitorado e cercado de precauções, isso alimenta uma narrativa de ser possível cruzar os mares sem poluição, pois lá estaria a prova cabal de que os aviões e os gigantescos navios cargueiros são dispensáveis. Mas eu digo sempre que ideologia é dogma, e é só nisso que se baseia uma narrativa dessas. Os custos (sim, custos, não existe gratuidade no universo real) seriam astronômicos e as perdas seriam imensas, obrigando a aumentos de produção simplesmente para reposição, fazendo qualquer saco de batatas custar o mesmo que custa um estoque industrial custa hoje. Acreditar nessas conversas é, na melhor das hipóteses, inocência de que pensa ser consciente, mas não passa de gado.

            Comece pensando na tua vida real. Os seus pés são o único meio totalmente natural e ecológico de transporte, todo o resto é conversa para boi dormir. Uma bicicleta demanda extração, processamento a altas temperaturas, manufatura sofisticada e logística muitas vezes complexa para ser entregue ao consumidor. Em muitos casos, mas muitos mesmo, o trajeto e a disponibilidade de tempo, fora as intempéries, podem contraindicar o uso de um veículo aberto, especialmente não motorizado. Então procure ajuda psicológica para qualquer indício de culpa a esse respeito, ela só serve para alimentar o ego de pseudointelectuais que se levam a sério demais. Há cálculos para estimar se determinado meio de transporte é o mais adequado ao seu caso, e capacidade de proteção do veículo é um dos componentes; pedalar de madrugada, sob frio ou chuva, em lugares ermos, por longas distâncias e com hora certa para chegar, não deveria estar em seus planos.

            Outra dificuldade está na falta de infraestrutura do transporte público. Goiânia espera há mais de trinta anos pela linha de metrô pela qual pagou, e a linha de trem, que cortava a cidade de leste a oeste e poderia ajudar a atenuar o problema, não existe há uns quarenta anos. Esse drama seguramente se repete em muitas cidades médias e grandes pelo país, não só em metrópoles. Não adianta protestar contra tudo isso que aí está gritando “Quero melhorias com tudo de graça” porque nem pagando caro o Estado tem feito o que deve, sequer o básico. Lembro ainda que nem todas as cidades subsidiam o transporte público, provavelmente a maioria não o faz. Assim a arrecadação não tem planejamento para esse tipo de gasto e nem terá, porque todo o orçamento já está comprometido mesmo antes de ser votado pelas câmaras de vereadores, estas que consomem em supérfluos boa parte do erário; ou seja, podem esquecer, mesmo que os prefeitos quisessem um auxílio para as tarifas, e não me refiro aos gastos com “gratuidades” não viria tão cedo. Simplesmente se recusar a adaptar-se para “obrigar o estado a fazer sua parte”? Jura?? Teu esqueleto será encontrado por arqueólogos na mesma posição. Então temos um gargalo que reduz as escolhas reais de transporte.

            Some-se a isso o fator capilaridade, que o itinerário rígido das linhas de ônibus precisam ter para contenção de gastos, manutenção da segurança e padronização dos serviços, em trajetos e horários, precisa ter. Isso pode obrigar o usuário a caminhar por alguns quilômetros, ou mesmo pegar várias linhas de ônibus para chegar ao seu destino; é por isso que em algumas cidades o cidadão passa literalmente horas no trajeto, no anda-pára-anda quase sempre repleto de curvas e trechos retrógrados, casa-trabalho e trabalho-casa. O tempo para percorrer de dez a quinze quilômetros pode ser maior do que o necessário para ir de Goiânia a Brasília em velocidade moderada. É essa falta de capilaridade que mais faz o usuário tirar seu veículo da garagem. Às vezes, senão quase sempre, esperar meia hora ou mais pelo próximo ônibus não é uma opção. Às vezes, como em caso de enfermidade, o transporte público pode simplesmente não ser uma opção. Apelos pró climáticos e preservacionistas ficam em segundo plano quando a vida e o bem-estar estão em xeque. Apontar o dedo e tentar incutir culpa, só piora tudo.

            Não que o uso do veículo particular não deva ser, mas utilizar o transporte público demanda um planejamento a que nossa população não está acostumada a fazer, e que as circunstâncias habitualmente sabotam; tal qual é com as finanças domésticas. Apesar de em tese os ônibus e trens, estes onde os há, tenham horários fixos, estão sujeitos a incidentes e acidentes de percurso, eles podem se atrasar significativamente a comprometer seu compromisso. Mesmo que haja um ponto de ônibus ou estação de metrô bem em frente à sua residência, no mesmo lado da rua até, o transporte não estará lá te esperando para quando precisar dele. Mesmo nos países onde esses serviços funcionam bem.

            Por partes:

    O transporte público pode e deve ser utilizado. Na maioria dos casos de uso INDIVIDUAL, ele é suficiente. Onde há metrô e trem urbano existe uma vantagem que seus usuários nem imaginam o quanto faz falta, e os que não têm nem imaginam o quanto ajuda. Apesar das desvantagens de demora e desconforto geral, os ônibus têm mais capilaridade e uma flexibilidade que os trilhos não permitem, o motorista pode simplesmente pegar um desvio se perceber algum problema, ou for informado com a devida antecedência de um congestionamento; ao menos DEVERIA ser informado. Mesmo os alardeados “BRT’s” sofrem com isso porque, apesar do corredor dedicado, cedo ou tarde eles também passarão por um cruzamento, então a vantagem desaparece. Saber que pode ser necessário pegar mais de uma condução é o ônus, o que pode gerar gastos de tempo e dinheiro que podem pesar no fim do mês, fora o problema da violência crônica em que estamos imersos. Então o uso recreativo deve ser muito bem planejado e, claro, não pode ser freqüente.

    A bicicleta é o meio mais vulnerável de transporte que existe. Skate e patins são muito compactos e praticamente não atrapalham, se precisar pular em uma emergência, já a bicicleta te obriga a ficar em uma posição muito passiva em acidentes e assaltos, tentar simplesmente pular dela pode ser um tiro pela culatra, sua perna pode se prender no quadro e o eventual ferimento se agrava. Há ciclovias pelo país, mas as cidades que as têm são exceções, e mesmo as que têm não as têm em quantidade e qualidade suficientes. As pessoas já se esqueceram de que bicicletas um dia foram obrigadas a serem emplacadas, como as motos, mas mesmo hoje são obrigadas a utilizar equipamentos de segurança altamente necessários que quase ninguém tem, e às quais as autoridades municipais fazem vistas grossas; como farol, retrovisores e refletores. Evitar pedalar antes da alvorada e depois do crepúsculo é meia apólice de seguro de vida, o que nem todos podem fazer, daí a necessidade desses acessórios obrigatórios de segurança. “Bicicleta eléctrica” é uma mina de ouro, o povo cobra o preço de uma moto pequena por uma bicicletinha que mal roda 30km a baixa velocidade. É mais negócio comprar uma boa bicicleta simples e pedir a um técnico para colocar uma boa bateria e um bom motor de furadeira, que tem peças de reposição em caso de necessidade.

    A motocicleta ainda é a menina dos olhos dos muquiranas. Um veículo que leva duas pessoas e ainda pode fazer até 70km/l em velocidade de cruzeiro, em uma rodovia, com custos ínfimos de manutenção, é tudo o que Tio Patinhas sonha. Mas, não tanto quando a bicicleta, é um veículo muito vulnerável, e mais do que aquela muito visada por criminosos. A economia generalizada combinada a um desempenho invejável no trânsito pesado sustenta suas vendas. As opções são fartas e a maioria dos mecânicos consegue colocar suas mãos na maioria delas. Para mero transporte, os gericos Honda Pop e seus genéricos bastam. Mas as vantagens delas são também seu calcanhar de aquiles, porque mesmo as maiores, mesmo uma Amazonas ou uma Goldwing não se presta para uso familiar; quem casa quer casa, quem parir quer carro.

    O grande vilão dos ecoxaropes, o carro particular mais humilde e rústico só pede uso comedido e responsável para ser sempre o amigo de todas as horas. Temos que ter em mente que um carro é uma máquina altamente complexa, especialmente os mais modernos, e qualquer falha na manutenção pode custar caro, tanto em dinheiro quanto em tempo de espera, no caso dos que têm mecânica importada; são mais do que vocês imaginam. Mas com tudo em dias, até mesmo um Opala seis cilindros pode ser exequível para uma família, ainda ais que esse motor quase não quebra. A desvantagem é a dificuldade em encontrar estacionamento em dias úteis, às vezes até em feriados, especialmente se for uma cidade turística, então vão mais gastos com estacionamentos privados. Um erro que as pessoas cometem muito é comprar um subcompacto, como o Mobi, pensando em economia para a família, se esquecendo que com o caro lotado o motor vai queimar muito mais combustível e todo o conjunto vai sofrer mais e se desgastar mais cedo; carro leve, cada ocupante ou mala faz mais diferença no rendimento. Se a família for de dois adultos e dois adolescentes, já não basta um ovinho de rodas com motor de dentista, é preciso algo mais espaçoso e pesado, com vários cavalos a mais, o consumo final pode ser até mais baixo do que o do pequenininho super básico. Quem sabe realmente dirigir, sabe do que estou falando.

    Não posso deixar de fora os aviões. O novo bode expiatório dos radicais de extrema alienação pseudointelectual tem dado com seus flaps nas caras deles. Transportar gente e insumos médicos a grandes distâncias em pouco tempo, é só com eles mesmo. Os custos operacionais são sua única desvantagem, o que inclui a infraestrutura necessária à operação, como longas pistas para pouso e decolagem, embora alguns poucos modelos possam decolar entre dois semáforos. A urgência e a intransponibilidade de alguns relevos por água e terra são o que os torna indispensáveis. Se tem pressa e a distância é longa, nem tente acelerar teu carro, vá de avião.

            O mais sensato, porém, é que seu planejamento possibilite utilizar mais de um modal e mais de uma modalidade de transporte, especialmente para quem mora longe do destino. Usar seus pés por um ou dois quilômetros se inclui nisso. A disseminação desse hábito desafogaria um pouco o trânsito e baratearia suas opções por vagas, bem como tornaria o transporte público menos lotado. Como ter dois bons veículos ainda é um luxo no Brasil, uma boa opção é deixar o carro próximo ao centro nervoso da cidade e usar o ônibus mais conveniente para o restante, se não for possível carregar uma bicicleta no carro; na moto é quase impossível e dá multa pesada. Da mesma forma, esqueça o veículo muito pequeno se morar sozinho não for o seu caso. Um carro maior consegue levar todo mundo sem muito aperto, o que inclusive desafoga o transporte público, deixando-o para quem realmente não pode arcar com o carro próprio. O Smart não saiu de linha à toa, ele é bom, mas tem utilidade muito limitada.

            Tenha sempre em mente que a sua parcela de realidade pode não ser, e quase sempre não é compatível com a do outro. Pouca gente tem uma garagem com espaço pra uma picape ou um (eeeek!!!) SUV grande, da mesma forma as necessidades de transporte de uma família quase sempre são incompatíveis com o amor de alguns com carrinhos de dois lugares, ou mesmo com a aversão de certas pessoas ao automóvel. O facto de ter funcionado para o SEU caso, não significa que dará certo para outros, e de jeito nenhum o será para todos. Se chegar a alguém que está tentando suprir as próprias necessidades, apontando o dedo e entoando um discurso acusatório, não importa o quão nobre seja (quase nunca é) a sua causa, ela terá ganho um inimigo.