22/09/2020

O lado B dos civilizados

 

Tóquio

            A despeito de toda a admiração que se possa, e se deva ter por povos mais civilizados, é pertinente ressaltar que a utopia é um prato que alguém já pagou; nada é grátis. Quando esse alguém cessa a subvenção e por qualquer motivo não se encontra outro à altura, a utopia deixa de ser uma flor aprazível e se revela uma planta carnívora. Vamos deixar claro a diferença entre “mágica” e “ilusionismo”; a mágica faz milagres com o que se tem, potencializando e optimizando de tal forma os recursos, que permite a um pé rapado fazer com suas mãos o que nem todo magnata conseguiria fazer com toda a sua fortuna aplicada; ilusionismo pressupõe pegar o nada, dele fazer o tudo e a este dar duração eterna, transformando uma casquinha de sorvete em cornucópia… pois é a este que os defensores de utopias se apegam, criando um universo paralelo onde até as leis da física mudam, onde até a velocidade da luz é relativa, apenas para dar suporte aos seus anseios. Neste universo paralelo eles são os mestres, mesmo que mal saibam amarrar os próprios cadarços no mundo real, por isso só aceitam conversar sob as leis desse universo.

 

            Uma das regras sacras e mais furadas desses defensores é a de que existe uma sociedade justa com um sistema justo suprindo todas as necessidades do cidadão, claro que problemas existem, nada é perfeito, mas juntos avançaremos mais e mais para um país mais próspero e humano. Usar de bordões empolgantes e inflar o entusiasmo faz parte dessa defesa, por isso os jovens são tão vulneráveis a essas idéias. Se enchendo dessas idéias, se aprofundando nelas e em suas meias-verdades, esses jovens acabam se levando demasiadamente a sério e se considerando um cientista, vendo os outros como ignorantes e esfregando na cara de qualquer discordante o “embasamento” de suas convicções; não basta tê-las, é preciso impô-las. Já falei disso e de tantos outros temas correlatos, mas praticamente nada mudou verdadeiramente de 2006 para cá, e um vídeo triste de 2015 mostrou-me o apocalipse individual que já acontece há muito tempo, mas que essa empolgação pueril pelas civilizações civilizadas prima censurar a qualquer custo. Sistemas e sociedades e sistemas são como máquinas virtuais coletivas, máquinas não tem a menor obrigação de serem boas, têm obrigação de funcionar a contento e, sempre que necessário, a toda velocidade, mesmo que alguém seja atropelado. Ser bom e justo é papel das pessoas, não de entidades burocráticas.

 

            Começo falando de um dos piores equívocos, e que mais frustram emigrantes pelo mundo, o de que em países “civilizados, evoluídos e bem desenvolvidos” a sociedade por si já supre suas necessidades ou, pelo menos te garante o acesso aos meios de supri-las; e aqui se confunde necessidade com aspiração e desejo. Não me refiro a ditaduras, me aterei a países que são satisfatoriamente democráticos. Para se conseguir uma colocação digna, por mais fácil que seja, é preciso sair à rua e ouvir um “não temos vagas” atrás do outro. Pode ser rápido? Sim, pode, até no Brasil sei de casos em que a procura foi mais efêmera do que o seguro-desemprego, mesmo em épocas de recessão, mas são exceções. Ter suas reservas e fazer economia de guerra atenuam os efeitos do desemprego, mas muita gente quer manter um padrão próximo, ou até igual ao de que desfrutava quando estava empregada. Assim não adiantam seguro social e bicos esporádicos, a situação financeira vai se deteriorar mais rápido do que os sortudos conseguem uma recolocação. O pensamento de que se está em um “sistema justo de uma sociedade evoluída” deixa rapidamente de ser um tranqüilizante para se tornar um desespero, não raro acompanhado de revolta pelo sentimento de exclusão. É quando o indivíduo descobre o quanto é caro manter toda aquela infraestrutura.

 

            Para as pessoas ao redor, à amiúde imersas em seus próprios problemas, fica a impressão de que aquele problema é só seu e que tu vais, cedo ou tarde, retomar sua vida normal; boa parte do que chamamos de egoísmo se baseia nisso, na certeza inconsciente de que tudo vai se resolver por si ou que alguma entidade virá em seu socorro. Nesta certeza, em conjunto com narrativas de pessoas rudes com quem tenta ajudar, o cidadão comum prefere não se aproximar e não se inteirar dos seus dramas; aos poucos a indiferença se torna um casulo protetor de que as pessoas não abrem mais mão. Não é só em países violentos como o nosso que existe medo social, ele existe em toda parte e por diversos motivos, este é só um deles. Ainda pesa especialmente entre os jovens, o anseio por liberdade e de cortar os laços familiares, para finalmente sentir-se dono de sua própria vida; uma das mais belas meias-verdades cantadas pelos idealistas. Esse topete atrapalha muito, porque o indivíduo não percebe a mensagem corporal que transmite, isso pode ser uma pá de cal em qualquer entrevista para emprego, pode ser até mesmo para quem decide trabalhar por conta própria. Com esse anseio por liberdade, a necessidade de viver bem pode ficar em segundo plano; assevero que não são incompatíveis, pelo contrário, mas humildade e planejamento são fundamentais na vida adulta, que pode chegar antes da fase adulta. Muita gente, mas muita gente mesmo tapa o sol da necessidade com a peneira dos desejos, não só por prazeres físicos, e vai levando a vida assim até quando der; não é raro dar em suicídio.


            Acreditar piamente que se vive em um país quase perfeito, com problemas pontuais e nos quais ninguém de fora deve se meter, ajuda a pressionar o indivíduo. Qualquer sinal de insatisfação é tratado como ingratidão, pois bilhões de pessoas pelo mundo passam fome e ele tem tudo o que quer. A reprimenda tem sua validade, mas não para todos os casos. Não é só de fome que se chora, não somos cactos, precisamos de mais do que água e nutrientes para viver. Uma das drogas mais utilizadas para atenuar essa deficiência é apontar o dedo para os outros países, que não são tão conscientes e limpos, por isso não estão fazendo sua parte para salvar o mundo, assim a causa da infelicidade não é ter trocado suas necessidades por desejos, é a existência de pessoas que não correspondem ao seu idealismo; vejam, meu país é um paraíso, um exemplo e paradigma para toda a humanidade, por que vocês simplesmente não nos imitam e páram de destruir nossos sonhos? O facto de se ter pós-doutorados não torna ninguém imune a isso, intelectualidade não é vacina contra males da psique.

 

            Aliás, esses países são campeões em auto assassinato. Para quem tem um mínimo de recursos, tudo é muito fácil. Comida é muito fácil, diversão é muito fácil, sexo é muito fácil, droga é muito fácil, pular na frente do trem é muito fácil… A facilidade é uma ajuda valiosa para quem está fragilizado, mas para quem está em boas condições gerais ela é um ópio de ação limitada, aos poucos deixa de fazer efeito e aquele que tiver feito da satisfação de desejos o norte de sua vida, perde facilmente o sentido de viver. Uma estrutura perfeita, com uma civilização perfeita, proporcionando uma vida perfeita em uma ilusão perfeita, cujo desvanecimento mostra o imenso espaço vazio onde deveria haver uma coleção de experiências de vida, que dariam suporte à subsistência e aos planos para anos seguintes. Não é à toa que cidades grandes, com vida noturna mais frenética, concentram o grosso dos casos registrados. Em países nórdicos, e do extremo oriente, isso nem sempre é notícia porque já faz parte da rotina, e porque a indiferença cumpre bem seu papel de casulo protetor. Ah, claro, quando há uma notícia vinda de muito longe, a hipermetropia que esse casulo causa logo eriça pêlos, fazendo parecer que os problemas próximos simplesmente não existem. Isso que tanta gente chama de pieguice, foi o que garantiu a sobrevivência da espécie na pré-história, e teria garantido a de tantas crianças que se mataram por não terem a quem ou não conseguirem chorar e pedir por socorro.

 

            Essa indiferença não está apenas na sociedade externa, a família geralmente não vê a hora de se livrar dos filhos, que não são mais aqueles bebês fofinhos e fedorentos, mas tão aprazíveis que a lei os obrigou a criar até terem idade para se virarem sozinhos, e isso pode ocorrer antes da maioridade. Fazem questão de que o já petiz não se sinta tão à vontade dentro de casa, tratando-o como uma mudinha que será plantada muito longe do viveiro; a cobrança pelo suprimento de suas necessidades básicas pode fazer parte do longo e doloroso ritual de expulsão. Confiantes de que o adolescente vai conseguir se virar, os genitores viram as costas assim que ele põe os pés para fora, e não raro nunca mais querem notícias. Adolescente sozinho é uma mina terrestre. Se cedo morrer, morreu, talvez nem saibam se e quando isso acontecer. Os laços familiares, que em muitos casos poderiam ser a única ligação com a subsistência, são consideravelmente frágeis nesses países. Tão frágeis que deixam de existir na primeira esquina virada. Aos poucos aquela imagem photográfica na estante perde não só a cor, mas também o nome de quem ninguém se lembra mais quem é... ou era. Qualquer ensaio de culpa pelo feito ou sentimento de responsabilidade para com o indivíduo, é prontamente sufocado pela narrativa das oportunidades fartas e do bem estar social garantido. Garantido, meus queridos, só o óbito.


            Quando o subconsciente começa a perguntar o que tu estás fazendo aí, é o sinal amarelo para prestar atenção ao redor e se certificar de que aquele lugar é ou não adequado à tua natureza. Infelizmente ele não consegue falar muito alto, nos primeiros momentos, precisa de prática e observação para conseguir gritar, até lá a propaganda do falso frugal te convence de que 2m² bastam para morar, que a vida deve ser vivida lá fora, e que qualquer coisa além é ostentação ofensiva à sociedade civilizada e inclusiva; não importa a tua real necessidade de espaço, aquilo é obrigatoriamente o bastante e ponto final. O lar é o convívio social civilizado e desenvolvido do sistema justo e solidário, que está se lixando para suas necessidades íntimas, quer é te enfiar facilidades e prazeres, dando conforto moral mesmo que às custas de destruir seu corpo e seu psicológico. Eles acreditam ser livres, precisam acreditar nisso, mesmo vivendo numa gaiola psicológica que os mantém à parte dos próprios sangramentos. Quando a propaganda começa a perder efeito, os gritos do subconsciente ficam cada vez mais altos e não há para onde escapar, ou os ouve ou enlouquece. O abuso crescente de ansiolíticos não deixa dúvidas sobre o que mais acontece.


            Corrobora para esse quadro de declínio humano, o gigantismo de muitas cidades contemporâneas, que é acompanhado pela indiferença não muito menor para com o indivíduo. Para onde quer que se olhe há faces, tão somente faces sem rostos, falas sem vozes, expressões sem sentimentos, agasalhos sem calor. Todos são estranhos, mesmo aqueles que se conhecem há muito tempo. Ninguém quer conviver com o próximo, quer simplesmente usufruir das experiências que o outro puder oferecer, em um vampirismo mútuo e cada vez amis intenso. Tudo o que essas pessoas poderiam oferecer de bom, quando o fazem, é dedicado à privacidade pública das redes sociais, onde escancaram seus pedidos de socorro nos anseios não realizados dos desejos satisfeitos em photos, vídeos, gifs e toda essa parafernália virtual. Daí o sucesso que faz cada plataforma de compartilhamento que parece ser diferente, mais prática e descolada do que as anteriores. Cobram de si mesmos aproveitar o dia em cada segundo das distrações que seu país desenvolvido e civilizado pode oferecer, evitando ao máximo olhar para dentro e ver o que seu próprio cabedal tem a oferecer, porque isso implicaria em encarar também os gritos de dor e socorro abafados com o tempo. Sabem aquela máxima de que o palhaço é um homem triste? Ela é real. Via de regra, ninguém expressa a contento uma necessidade satisfeita, só se consegue expressar o que lhe falta, e tanto melhor quanto mais falta fizer.


            Tal como o bom palhaço, o jovem, solto num mundo cheio de prazeres e nenhuma alegria, perde paulatinamente o interesse pela própria vida. A maioria, com uma coragem de fazer inveja aos melhores combatentes, enfrenta a tendência crescente ao suicídio se segurando só por mais um dia, só por mais esta vez, ainda que recorrendo e ingerindo distrações menos perigosas, álcool e fumo entre elas. Claro que isso tem um preço, transtornos mentais não são exclusivos dos azarados que nascem com eles. E a resistência destes faz seus governos inflarem as estatísticas de bem estar e prosperidade, acompanhando com a retórica confortável de que seu povo é desapegado de bens materiais, quando na verdade está é se lixando para tudo e para todos, inclusive cada um para si mesmo. Mas é uma retórica confortável, faz a vida parecer que tem sentido, então vestem carapuças em que não cabem suas cabeças. Quando a carapuça se rasga, pela insistência em vestir, as expectativas não correspondidas cobram o preço de terem sido chamadas em vão.


            Do lado de cá, um exército de alienados memorizadores de frases alheias repede ad aeternum o que manda a cartilha, muitas vezes atribuindo seus próprios ideais aos povos que julgam ser o apogeu da civilização, mesmo que esses povos rejeitem tais ideais; vocês não vão gostar de ser um norueguês furioso, ao ouvir "fale da experiência socialista no seu país" de um desses memorizadores, é uma das poucas coisas que já soube fazê-los sair do sério. Eles sofrem do mesmo mal que os outros, mas apontando o dedo acusatório para o próprio país  e sonhando com a vida fácil, farta e gratuita de outras paragens. Não por coincidência, a maioria mora em grandes cidades e padece dos mesmos males de quem falei agora, só que em um país muito imperfeito, o que só alimenta tudo isso. Repetem para si mesmos que são livres, bem resolvidos, com senso crítico aguçado, que os outros são a causa de suas frustrações e depressões. E uma vez que a maioria desses países civilizados não admite suas reais mazelas, a narrativa de "eu sou livre", mesmo dentro de uma gaiola bem intencionada, se sustenta.


04/09/2020

A cromagem

 

Cadillac 1959, tem mais cromo na grade do que em um carro moderno inteiro

Um texto curtinho e bem antigo que esqueci em meus arquivos.


Revestir metais para preservá-los da corrosão atmosférica é tão importante, que muitos projectos reservam espaços exclusivos para o assunto.

No caso de peças automotivas há dois processos principais, além da pintura: Galvanostegia, que é o revestimento puramente funcional, como a zincagem, e a galvanoplastia, que envolve critérios estéticos. Em ambas os princípios são os mesmos, mergulha-se a peça já preparada em um tanque com um solvente contendo o material do revestimento, aplica-se uma corrente de baixa voltagem e alta amperagem, e em segundos ela estará revestida. É muito rápido. É um processo inverso ao das baterias, onde o ácido ou base (caso das alcalinas) gera corrosão para produzir energia. Uma eletrólise.

Mas a diferença não é só estética, a galvanoplastia é bem mais cara e, muitas vezes, mais durável.

A cromeação é a galvanoplastia mais utilizada nos automóveis ainda hoje. Além da beleza prateada, é um tratamento durável e resistente, desde que bem feito. O Cromo é um metal extremamente duro e bem resistente, capaz de cortar o vidro.

Como se processa, resumidamente:

 

  • A peça é limpa ou decapada, se já tiver algum revestimento;
  • Lavagem e retirada de todo e qualquer foco de gordura ou qualquer impureza;
  • Cobreação, primeiro com solução alcalina, seguida de lavagem, neutralização da base utilizada e então a cobreação ácida. Neste momento o operador aproveita para corrigir qualquer imperfeição que persista, deixando a peça lisa e uniforme;
  • Niquelagem. O processo é o mesmo da cobreação ácida, e em muitos casos é a última etapa, mas o Níquel tem a desvantagem de ser muito macio e se desgastar com facilidade, em relação ao Cromo, por isto nos automóveis vem a etapa seguinte;
  • Cromeação. Repetindo o processo, o operador tem o cálculo de quanto tempo a peça ficará imersa, sob corrente de alta amperagem, o que definirá quanto cromo será depositado e, assim, a espessura da camada;
  • Nova lavagem, com posterior polimento. Embora pareça o fim, a peça deve ser inspecionada meticulosamente, explicarei o porque...

 

Um calcanhar de Aquiles deste processo é a necessidade de um controle de qualidade muito severo. Enquanto uma camada de tinta adere como cola e quase sempre absorve resquícios de poeira e gordura, a galvanostegia não admite nada. Um dedo distraído pode deixar gordura suficiente para produzir um ponto de fragilidade, que com o tempo vai rachar, descascar e adeus grana aplicada na cromeação. Ainda lembrando a dureza do Cromo, um descascado pode causar ferimentos profundos, já fui vítima de um.

Como escolher a cromeadora?

Da mesma forma como se escolhe a maternidade que fará um parto de risco. Deve-se estar atento aos mínimos detalhes, desde a limpeza do ambiente, aos equipamentos disponíveis até a limpeza dos funcionários.

Seguir a regra de que a empresa terá com a sua encomenda o mesmo tratamento que dá às suas instalações. Há ganchos que mantém a peça suspensa na solução que lhe cederá o revestimento, eles precisam estar limpos para não haver contaminação. Não digo “brilhando”, mas sem crostas e sem borras. Em muitas cromeadoras os próprios tanques de eletrólise passam toda a vida útil sem ver água, pode-se fazer idéia do nível de contaminação das peças que saem de lá.

Funcionários sem E.P.Is (equipamento de proteção individual) mostram duas cousas: os mesmos não dão a mínima para a própria segurança e acham que “macheza” os torna à prova de intoxicação; ou o dono da empresa não dá a mínima para seus funcionários e economizaria até na iluminação, se eles não precisassem ver o que estão fazendo. Em ambos os casos, que costumam andar juntos, a empresa não se importa em fazer um serviço porco e acha que a clientela se cativa só pelo preço. Já pensou ter que refazer todos os cromados de um Cadillac 1959?

A fachada não absolve, mas ajuda na imagem da empresa. Ter gente disponível para atender, com um mínimo de conhecimento no ramo, denota a capacitação do pessoal que faz os revestimentos. Ter álbuns ou folhetos com imagens, de boa qualidade, de serviços já feitos avaliza e dá mostras de profissionalismo. Peça para dar uma olhada no andamento dos serviços, uma empresa séria e competente não negará a visita, lhe dará seu E.P.I e mostrará as instalações. Acreditem, a maioria dos trabalhadores da área não é profissionalizada, é gente que memorizou procedimentos básicos e não consegue sair um milímetro daquilo, se acontecer algum problema ele fica na peça. Por que contractam gente sem formação? Porque é muito mais barata e fácil de substituir.

Tente contactar quem já utilizou os serviços da empresa, preferencialmente em automóveis, especialmente antigos, onde a qualidade da cromeação geralmente é melhor. Mas se a empresa for nova, leve uma peça pequena, de pouca responsabilidade, para ver a qualidade, depois use sem dó por alguns meses, ou até aparecer o primeiro defeito, o que vier primeiro.

A capacitação se deve, principalmente, aos cálculos envolvidos, que levam em conta o peso atômico, o número atômico, o equivalente molar, et cetera. Não é para qualquer cabeça, é necessário estar habituado aos cálculos. Um volt a mais é desperdício de energia, porque a voltagem necessária para tirar um átomo de um composto é própria do mesmo, muita tensão só aumenta o risco de curto. Um volt a menos é desperdício de energia, porque ele não sai por menos do que merece, se vai gastar electricidade para não se obter resultado algum. Pode mandar amperagem à vontade, abaixo da voltagem certa, o íon não se torna metal.

Não menos importante: EXIJA O ALVARÁ SANITÁRIO ACTUALIZADO E A AUTORIZAÇÃO DE FUNCIONAMENTO EMITIDA PELA ANVISA. O material utilizado é altamente tóxico e precisa ser neutralizado antes do descarte. Ainda não se criou uma cromeação legítima que dispense totalmente as técnicas antigas. Ainda.

O que pode ser cromado?

Se conduzir electricidade, praticamente tudo. Desde um ilhós de roupa até um monobloco inteiro.

Devo lembrar, porém, que a galvanoplastia é uma técnica relativamente cara, inclusive a cromeação, que usa comodidities muito valorizados no mercado financeiro, como o Cobre, Níquel e o próprio Cromo, estes dois muito empregados em aços inoxidáveis, cuja demanda cresce a cada dia. O que justifica a cromeação é a grande resistência ao tempo e às intempéries, o que se comprova em carros nos quais a pintura já era e os cromados permanecem intactos. A não ser que o teu dinheiro esteja sobrando, é salutar analisar se vale à pena comprar o serviço. Na restauração de carros antigos é batata, vale à pena, pois além da originalidade, os componentes antigos foram dimensionados para a cromeação, não dispõe de tratamento sofisticado contra a corrosão. Aliás, é por isto que as fábricas se dão ao luxo de fazer carros com folhas finas de aço, confiam no processo anti-corrosão pelo qual a carroceria passa durante a fabricação. Se vão resistir aos anos de trabalho árduo é outra história, corrosão eles enfrentam bem, desde que não sofram acidentes feios.

Plásticos também se cromeiam, mais freqüentemente o ABS, por ter boa dureza superficial e estabilidade térmica; os plásticos são notórios por dilatarem e encolherem muito com a variação de temperatura, que o digam donos de Volks com painel imitando jacarandá. O ABS tem boa estabilidade e preço razoável, mas não é muito resistente, eu incluiria o PVC (sim, aquele dos tubos) por também ter boa estabilidade dimensional, e ser muito resistente, permitindo até usos estruturais, além de não ser tão liso quanto o ABS, facilitando a adesão de uma película condutora que permitirá a cromeação. Além do mais, o PVC é 57% feito de cloro da água do mar, é melhor até no contexto ecológico. Cito o exemplo porque a grande maioria afirma que somente o ABS poderia ser cromado com um mínimo de qualidade, mas a prática me mostrou o contrário, basta uma camada de grafite de lápis, daquelas manchas chatas que só saem com água e sabão, para o Cobre aderir e por aí vai.

Cuidados;

Quase todos os cuidados necessários à conservação da pintura do carro devem ser aplicados aos cromados. Não usar esponja de aço, não usar ácidos nem bases que muitos vedem sem registro na ANVISA, não usar qualquer abrasivo. Mas pode ser deixado ao sol e à chuva sem problema, ele é insensível ao tempo. Uma curiosidade, é que o ácido sulfúrico corrói rapidamente um cromado, ao passo que o clorídrico, popular ácido muriático, muito mais reativo, o corrói lentamente. Lave o cromado com água e sabão neutro, usando uma esponja macia. Cromados são electrodeposições de um metal de alta dureza, não pinturas brilhantes, se riscar é muito difícil consertar só a área atingida. Pode-se usar cera automotiva com silicone, cera de carnaúba, mas fique longe de productos que são vendidos por aí sem rótulos claros e bem escritos em português.

O que há de novo?

Existem no mercado algumas tintas que prometem imitar com perfeição o cromo, algumas são mais honestas e prometem a partir de 70% do brilho do cromado. Sabe aqueles brinquedos com aspecto de cromado? Eles usam a tinta mais barata, sem muitos cuidados e, claro, rapidamente perdem o brilho.

As tintas boas são caras, bem menos que a cromeação por Cromo hexavalente (a cromeação clássica), mas ainda assim são caras em relação às tintas metálicas comuns. Têm boa durabilidade, brilho muito próximo ao do Cromo e dispensam a parafernália necessária ao controle de toda a química perigosa de uma cromeação eletrolítica. Prometem uma pintura dura e resistente, de onde imagino que há cromo na composição das melhores. A Bugatti usa uma assim.

Há técnicas de metalização que permitem colorir o revestimento, dando um efeito que as tintas metálicas não conseguem e permitindo uma composição sem par com vernizes metacromáticos (efeito camaleão) e flocados. Mas é conversa para customizadores e afins.

Não seria mais fácil derreter o cromo sobre a peça?

Levando em conta que os melhores aços-carbono se fundem antes de 1400 °C e o Cromo não antes de 1900 °C, não, não seria uma boa idéia. Ainda que se usasse um metal com ponto de fusão mais alto como Molibdênio, Vanádio ou Tungstênio, que são altamente resistentes à corrosão e não precisariam ser cromados, o revestimento ficaria com espessuras bastante desiguais. Dependendo do formato e das dimensões da peça, ficaria uma caca sem tamanho. Revestimento por fusão é muito bom para chocolates, não para metais... Talvez em uma ourivesaria.

27/08/2020

Zezinho e a pandenóia

 

                                                                           Norman Rockwell

       Zezinho se senta à mesa da lanchonete em que é cliente desde, bem, desde que era pequeno, porque criança ele ainda é. Aguarda com a paciência que seus maduros oito anos lhe ensinaram a ter, mas da qual é bom não abusar, até vir o milkshake de chocolate com mel. A garçonete asperge um pouco de álcool no tampo de madeira reaproveitada, ele faz aquela cara de quem quer acender um isqueiro, ela põe a taça na mesa e ele se acalma, então saca o canudo que cedo ou tarde vai virar peça de algum brinquedo que ele mesmo fará, põe uma ponta na bebida e tira com cuidado sua máscara com a frente malvada do Cadillac 59 estampada, suga o primeiro gole e então fica feliz… mas por pouco tempo. Logo ouve o som insistente e irritante daquele esguicho fazendo “fish! fish! fish” logo atrás, se vira e vê um sujeito atarracado insistindo para o garçom borrifar várias vezes cada milímetro da mesa, repetindo “tem certeza de que matou o vírus?” ou “acho que ele pode se esconder numa fresta e pular, olha ali”, continuando com “ALI! O VAPOR DO ÁLCOOL NÃO ENTROU ALI!!!!” até empestear todo o ambiente com vapores etílicos. É um custo acalmá-lo quando alguém abre uma janela para dispersar o cheiro, ele alega que os vírus vão entrar.


        Na mesa ao lado uma adolescente tira e põe a máscara a todo momento, para comer o sanduíche, no final das contas a máscara fica com as bordas cheias de maionese, ketchup, mostarda e sazón, mas não tem problema, ela encharca com álcool e acende o isqueiro, então tira uma nova da bolsa, de dentro de um saquinho esterilizado e faz tudo de novo. Na mesa ao fundo alguém conseguiu uma máscara articulada, que se abre com a boca em um efeito medonho, mas funciona na hora de comer o sorvete, apenas tem o cuidado de ninguém mais perceber, para não ser politicamente incorrecta em tempos de enfrentamento da pandemia causada pela Covid 19 do Novo Coronavírus. Ao balcão um rapaz asperge álcool em cada ingrediente do sanduíche, esperando evaporar e aspergindo de novo, vai que o vírus ressuscita, nunca se sabe; o gosto horrível que fica é um preço módico na luta total contra a pandemia da Covid 19 causada pelo Novo Coronavírus! Diga não à contaminação!


        Uma adolescente com roupas desengrenhadas, também borrifando um álcool de cheiro estranho, com uma máscara com folhas de canabis, chega apontando o dedo para ele, acusando-o de ser o assassino da fauna marinha, por causa do canudo. Ele responde educadamente que reutiliza e recicla, que não se pauta pelo mau comportamento público do brasileiro, mas ela continua com seu discurso exaltado exigindo que ele use um canudo de aço inoxidável, ouvindo “Que consome megawatts de energia para ser produzido e é embalado com plástico suficiente pra produzir uns vinte canudos”. O discurso de abolição dos polímeros dura até ele apontar em suas roupas e na tintura de cabelo a quantidade de plásticos que ela usa. Sem se dar por vencida, alega que quela é a verdade dele contra a verdade dela, no que ouve “Eu não sou Deus, minha opinião não vira Cadillac 59 só porque eu quero, então eu não chamo isso de verdade, o mesmo pra sua”. Ela simplesmente tenta pegar o canudo, ele passa o dedo na língua e passa no ombro dela, que corre desesperada tentando se desinfectar. Zezinho suspira, lamenta, pensa “este lugar já foi melhor freqüentado” e volta ao seu lanche.


        Entra um sujeito franzino de óculos, portando uma cara de pesca bem longa. Ele evita tocar e ser tocado, parece que flutuaria para não tocar o chão, se pudesse. De máscara, protetor de rosto, boné, mangas longas, bota de cano alto sobre as calças e luvas, ele chega ao balcão pedindo o que tinha encomendado, com o dinheiro no anzol com uma caixinha estranha logo acima. O balconista pega o dinheiro, confere e pendura a marmita, caixinha libera álcool aspergido e o cidadão vai embora como se fosse derreter ao menor contacto. Deixa cair uma nota de cem, mas prefere sair sem tocá-la, já está contaminada com vírus, bactérias, bacilos, retrovírus, adenovírus, amebas, parasitas, fungos tóxicos, síndromes e atestados de óbito prévios. A faxineira varre a nota para dentro da área de funcionários e some, abandonado não é roubado.


        Suspira fundo e tenta se concentrar em seu acepipe preferido. Volta à sua solidão voluntária para saborear lentamente o milkshake, uma sugada de cada vez, ouvindo baixo o tema principal do Super Homem. Eis que aquele homem atarracado decide ir ao banheiro e borrifa tudo por onde passa, inclusive Zezinho, que se indigna e tem “Cala boca que cê tá errado, a pandemia existe e o corona mata sim! E põe essa máscara senão te denuncio”. Zezinho pensa “Dou um boi pra não entrar numa briga” e aguarda. Quando o sujeito volta, finge que espirra e o deixa desesperado, se borrifando até tomar um banho de álcool, reclamando de tudo e borrifando mais a mesa que usa. Olha para Zezinho e borrifa no milkshake dele também, no que o garoto pensa “mas nem uma boiada me tira dela”. Chama a garçonete, pisca e diz “Vocês limparam a parte de baixo das mesas?” e o desaforado fica de butuca. Ele olha por debaixo do tampo e vê tudo seco, então começa a borrifar e Zezinho continua “Sabia que algumas bactérias estão ficando resistentes ao álcool?” e ele começa a jogar goles de álcool sob a mesa, vê suas mãos empoeiradas e as encharca também, borrifa nos braços e vai subindo até chegar à camisa, logo tem mais álcool nele do que no tanque do Opala do pai de Zezinho, que pede outro milkshake a assiste a tudo com olhar de triunfo.


        Chega o milkshake novo e o desaforado já foi embora, com medo de contrair câncer de escamas. Agora ele põe Silêncio de Beethoven em baixo volume e saboreia seu lanche. Olha com carinho para a bebida, quando vê um ponto vermelho sobre a mesa se movendo rapidamente na sua direção, olha para frente e vê uma mulher com um termômetro infravermelho. Ela testa sua temperatura e depois sai pela lanchonete testando todo mundo, testa até a dos banquinhos, para se certificar de que foram higienizados, pela temperatura mais baixa. Senta-se de termômetro empunhado, como se fosse uma arma, encarando todo mundo. Ele pensa “Não, isso não está acontecendo”, funga um pouco e volta a sugar, então vê aquele ponto de laser de novo sobre sua mesa e diz “Moça, estou tomando um milkshake, posso? É bebida gelada, claro que a mesa e eu estamos mais frios”. Ela faz seu pedido, mas ainda o encarando, como se o que ele disse fosse uma confissão de ilícito, Zezinho suspira e completa “Moça, essa coisa aí mede a temperatura, mas não informa a causa! Se eu estivesse contaminado, isso não daria um teste diagnóstico, e também não mede a temperatura de vírus e bactérias! Tô falando aqui e um monte de micro-organismos (prestou atenção às aulas de ciências) tá saindo pela minha boca de caçapa, do mesmo jeito que saem do seu nariz de tartaruga ninja quando espira! E eles estão vivos”. Ela pára, pensa, olha o salão e começa a ver germes gigantes se avolumando nas mesas e no balcão, se desespera e sai correndo. Zezinho vê a banana split que ela nem tocou, olha para o balconista, pensa na própria mesada e assume a conta, pede que a traga. Pensa também em seu trato digestivo ao ter que ingerir tudo aquilo.


        Entra no recinto uma figura alva e esguia com seus curtos cabelinhos louros estilo Joãozinho, com seus olhos verdes serelepes vasculhando o ambiente. A máscara com logos da Varig não esconde a identidade da menina de óculos finos, que já está mais alta do que ele; é Mariazinha, por cuja simpatia recebeu muitos ataques e acusações de racismo. Ele se levanta bruscamente, chamando sua atenção e ataca “Mademoiselle, sua banana split já está paga” fazendo-a corar e rir daquele jeito que só ela sabe fazer. É a criatura por debaixo daquela adorável aparência que faz seu jovem coração reger rapsódias. Ela aceita o convite e ele, que esperava desfrutar de momentos de solidão, aceita de bom grado uma invasãozinha tão adorável. Falam com brevidade dos dissabores de hoje, que no caso dela vêm se arrastando pela semana. Suas jovens vidas têm recebido apresentações rudes e precoces do mundo adulto.


        Enquanto consomem seus acepipes e se acalmam no decorrer da conversa, aquele sujeito atarracado chega com um policial. Ele aponta para Zezinho e dispara “Ele não acredita que estejamos diante do enfrentamento da pandemia mundial da Covid 19 causada pelo Novo Coronavírus e que o distanciamento social seja uma prática avalizada pela Organização Mundial da Saúde para conter a onda de contaminações diante do novo normal”. O policial faz cara de “hein”, Mariazinha faz cara de “ã” e Zezinho faz cara de “PQP, QUE P@##@ É ESSA”. O acusador arreganha um sorriso de triunfo debaixo da máscara cheia de cerquilhas e palavras de ordem, certo de que haverá punição exemplar e será aclamado como herói da saúde pública, enquanto borrifa tudo ao redor, mas o policial retruca “mesmo que seja verdade, o que não me parece, o Brasil ainda não tem crime de opinião previsto em lei”. Ele fica indignado, a pressão sobe e o tom também, o que lhe rende uma prisão por ameaça e desacato, então Zezinho, com o canudo na boca para poder exibir o sorriso de quem riu por último, dá tchauzinho e volta à sua afável companhia.


        Eles trocam olhares e, de repente, uma bolha mágica os isola do resto do mundo e os dois aproveitam a solidão compartilhada em paz.

12/08/2020

Formiguinhas gringas pelo Brasil

 

Clara Nunes

            Dizia-se nos anos 1980 que o estrangeiro gostava mais do brasileiro do que o próprio brasileiro. Elke Maravilha ia além ao afirmar que, segundo seu pai, brasileiros não gostam uns dos outros. Tudo isso é verdade, seguramente não toda ela, mas é. Antes de culpar os outros países por isso, devemos lembrar qual é a educação que o brasileiro recebe desde a mais tenra idade, que inclui philosophias torpes bem exploradas por Machado de Assis. Uma delas é o tal “jeitinho”, que implica basicamente em burlar as regras de modo simpático, para que não pareça ser algo ruim, mas é. Outra é a máxima do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, na verdade isso se aplica mesmo quando sobra farinha, então muda-se para “a farinha é minha e ninguém tasca”, depois faz-se caridade dando migalhas aos outros, posando de bom samaritano. Tudo isso se reflete na política e na mídia, que não têm como agir sem o aval de seu público, mesmo que implícito ou involuntário, mas involuntário não significa fora de sintonia; colocar as lentes da religião, da ideologia, das convicções ou mesmo de meras opiniões com rótulo de “verdade” ajuda a aceitar aquela imagem horrorosa que está bem à frente, mas que as distorções ajudam a tornar no mínimo aceitável; às vezes fazendo a Sofia do Nazareno ter ares de Ava Gardner. O brasileiro tem orgulho de coisas absolutamente supérfluas, como futebol, ou mesmo erradas, mas não dá a mínima para o que seus compatriotas fazem de útil, como tecnologias altamente versáteis que saem de nossos laboratórios públicos e privados. Mas mesmo essa distorção de caráter pode ser desviada para algo bom, como a empatia.

 

            O mesmo vale para os orgulhos nacionais, para os quais o brasileiro de chinelo, regata made by slave e calção “abajur de quenga” bate no peito e exibe a banguela em um sorriso largo. Um deles, em uma relação de amor e ódio epático, é o SUS. Eu lamento informar, mas ele NUNCA foi pensado para atender a toda a população, ou não seria tão perverso na hora de conceder aposentadorias. Foi pensado para a propaganda estatal do governo fascista de Vargas, e acabou dando mais certo do que o esperado, ainda assim MUITO aquém do que seria necessário a uma rede de saúde totalmente financiada pelo erário, com alguns pontos de referência e excelência, utilizados para alimentar nossa fantasia de saúde pública. Sim, a idéia é boa, mas o conceito está longe de ser realmente bom, porque foi pensado para ser centralizado, sob as rédeas do ministro, com uma burocracia gigantesca que consome grande parte dos recursos. Entretanto, estando a população de acordo com o financiamento dessa saúde subsidiada, e foi aqui que Obama pecou crassamente com sua proposta em seu país, uma estritura descentralizada, enxuta e bem gerida de saúde pública é algo próximo do paraíso. Feitas consultas públicas para alterações importantes, mesmo que informais, algo expressamente proibido pelos idealizadores do serviço, bem como o estudo de boa vontade das queixas e sugestões populares, o SUS, ex INPS (para quê mudar nomes, senão para propaganda própria?) beneficiaria até quem não se utiliza dele.

 

            Ainda nos anos 1970, dizia-se que as porcarias enlatadas do estrangeiro sufocavam a música nacional, o que era mentira, pois na época os músicos eram quase deuses para seu público, eram explorados sim por outros brasileiros, que os amarravam em contractos sinistros que, em caso de saída do selo, praticamente impediam o artista de trabalhar. Daí nasceu o ECADE, que só serve para arrecadar e amarrar tanto a produção quanto a execução e a reprodução musical. Bem, hoje sabemos que podemos fazer lixos que fazem o lixo deles parecer música erudita, e se tornou mais um “orgulho nacional”, de gente que bate no peito para exaltar sua miséria generalizada, não importa quanto dinheiro tenha. Ah, claro, morar em áreas de risco, dominadas por facções criminosas, se submetendo a ser fantoche midiático desses grupos, também virou motivo para… orgulho… com quilômetros de discursos prolixos e cheios de referências para exaltar e eufemizar tudo isso… estão chamando gato selvagem de bichado geneticamente alternativo, como se isso tornasse seguro sua posse doméstica. Sejamos honestos de verdade, morros íngremes e desprovidos de infraestrutura não são lugares para pessoas viverem, e ninguém está (cof, cof) lutando para tirar aquelas pessoas de lá e realocá-las em lugares dignos, quem sabe até imóveis públicos não utilizados, simplesmente porque Elke estava certa, eles não se importam com essas pessoas, não dão a mínima para elas, estão se lixando até que uma tragédia aconteça e possam fazer palanque de seus caixões. O que isso tem a ver com a música ruim? Dê uma olhada nas letras de apologia ao baixo-ventre e à violência contra a polícia, que o filho de um amigo policial adorava há até não muito tempo… Mas ninguém chama o Batman, quando precisa de ajuda.

 

            Com tudo isso, apesar de tudo isso, a despeito de todas as conseqüências com trema que é o jeito certo de escrever, o país tem virtudes sim. Sabiam que a Vale está testando a primeira locomotivatotalmente eléctrica, sem fio, alimentada apenas por pesadas baterias, fabricada aqui mesmo com tecnologia nacional? Pois sim, é um veículo de manobra, não para longas viagens, mas ainda assim seus 4400cv dão-lhe um poder de tração invejável, força bruta absurdamente grande, muito além do mais poderoso trator de esteiras do mercado. A configuração é prefeita para economizar com infraestrutura de longas, caras e dispendiosas torres de alimentação, além de ser imune a eventuais cortes de fornecimento. Ainda cito o bruto e quase indestrutível Agrale Marruá, nascido da finada Engesa, pensado para a vida militar, que faz o legendário Land Rover Defender parecer um frágil SUV de boutique, tamanha confiabilidade e aptidão para o fora-de-estrada. Temos tecnologia de ponta no Brasil, sufocada por tudo o que escrevi nos primeiros parágrafos, que poderia nos tirar fácil e rapidamente do buraco financeiro em que estamos desde o fim do império. O que resta então ao pesquisador, ao empreendedor e ao artista sério, é buscar ajuda e oportunidades lá fora; inclusive em lugares que a intelectuália retorista abomina. Nem vou me aprofundar no uso de biocombustíveis e nos motores multicombustíveis, área em que somos o ÚNICO país que leva a termo E tem sucesso na aplicação da tecnologia, isso já inclui a aviação experimental. Neste caso, são os outros países que estão fazendo corpo mole. Preciso falar da Embraer? Não, não preciso. As dificuldades pelas quais passa, passarão, ela passarinho a jacto.

 

            São coisas que a mídia faz de conta que não existem, e quando mostra é de forma tão superficial quanto tendenciosa, se preocupando mais em tornar os responsáveis celebridades, do que informar e incentivar a população à ciência e ao desenvolvimento tecnológico. Vamos deixar claro que, apesar de o povo idolatrar celebridades, não dá a menor bola quando elas falam sério, só querem delas ouvir bobagens sem sentido para mero entretenimento. Entenderam agora a fuga de cérebros? Tudo isso alimenta estereótipos, como os de que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro e que ele fica dentro da floresta amazônica. Felizmente alguns estrangeiros se decidiram a conferir até que ponto isso é verdade, e estão fazendo questão de mostrar ao mundo que é tudo falso, inclusive os estereótipos sobre a pessoa do brasileiro, desfazendo as generalizações perversas que denigrem, mas são fáceis de vender. São, embora haja até russos saracoteando por aqui, especialmente americanos e coreanos, que muitas vezes até fixam residência, não raro em definitivo. Alguém há de perguntar qual a novidade, posto que temos imensas colônias estrangeiras, no Brasil, inclusive a maior colônia japonesa do mundo em São Paulo. A diferença está nos seguintes pontos, um minutinho que já explico!

 

            Primeiro que quase todos os imigrantes dessas colônias já jazem. Vieram em outras e remotas épocas, noutros contextos e por outros motivos, estavam demasiadamente preocupados em sobreviver para se aprofundarem na cultura de cada Estado em que se fixaram. Também sofreram o trauma das condições de trabalho precárias em um país que se acostumou a fazer as coisas nas coxas, literalmente, o que é inaceitável para povos de países onde o trabalho é não só levado a sério, mas uma honra para quem o abraça. Apesar de falarem das belezas e potencialidades em correspondências, que podiam levar meses para chegar aos destinos, se debulhavam em saudades da terra natal, muitas vezes explicitando o desejo de retornar em definitivo; a maioria não o conseguiu. Mais ou menos como degredados romantizando um paraíso perdido, que no fundo sabiam que não era, mas a visão romântica agia como um bálsamo e nutria as esperanças, encorajando ao trabalho árduo para permitir o retorno em condições melhores do que as da partida.

 

            Segundo que o turismo internacional recreativo só se tornou acessível depois dos anos 1950, e mesmo assim aos poucos, e é esse tipo de viagem que dá início ao aprofundamento de interesses em indivíduos por países estrangeiros. Gente disposta a sair do roteiro de Hollywood só começou a proliferar recentemente, ainda ais com espírito desarmado e disposição a se misturar aos nativos. Mesmo assim, como a maioria de vocês já se deu conta, leva anos para surtir efeitos consistentes e duradouros. Alie-se a isso o advento muito recente da internet, e ainda mais recente a proliferação de canais pessoais com alcance relevante. Foi só de então em diante que esses estrangeiros começaram a falar com propriedade daquilo que viram e viveram. A maioria absoluta, embora não feche os olhos para as mazelas, é muito elogiosa, especialmente no tocante ao tratamento humano que nossos compatriotas lhes dispensaram, e falo especialmente dos americanos, segundo alguns dos quais o Brasil simplesmente os fez mudar para melhor, como pessoas. E não se limitam a rasgar seda, eles divulgam em seus países nossas culturas, nossas peculiaridades e especialmente nossa culinária. Um deles chegou a servir coxinhas em Manhattan, com explicações devidas e saneando os mitos que seus pares tinham a nosso respeito. Mesmo no estigmatizado continente africano estamos arregimentando simpatizantes, gente que vê vídeos sérios sobre o Brasil e fica de queixo caído, pois pelos noticiários se davam conta de que seríamos uma ilha tropical devastada, mas vêem nosso poderio econômico (apesar de tudo) e militar, a imensa diversidade de climas, culturas e paisagens, e passam a ter pena de quem apenas tentar se meter a besta conosco. Ainda entre eles, são muito elogiosos quanto à maneira com que foram tratados, em detrimento de ditaduras em que infelizmente precisam, de vez em quando, fazer escala nas viagens de retorno. Mesmo os portugueses fazem caras de perplexidade e assombro, quando descobrem o que perderam quando deixamos de ser sua colônia.

 

            Mesmo sem virem, eles estudam com afinco e ficam perdidos em meio à grandiosidade do que encontram, especialmente nossos hinos, e alguns estranham termos mais de um, arrancam suspiros pela competente composição. Isso se soma à estupefação quando descobrem que samba é apenas um dos ritmos que temos, e que há mais de um tipo de samba, portanto também mais de um tipo de carnaval, portanto mais manifestações culturais públicas do que suas emissoras seriam capazes de mostrar em um ano inteiro. Quando podem vir, descobrem que uma vida humana inteira não bastaria para conhecerem tudo, ao contrário do que acontece na maioria dos países, minúsculos se comparados ao nosso território. Alguns minúsculos mesmo para os padrões europeus; ou seja, para qualquer país é uma péssima idéia tentar invadir o Brasil.

 

            Na realidade se deu uma explosão de brasilismo que está se alastrando rápido, praticamente todos os gentílicos que o podem, estão exportando uma imagem positiva aos seus países, até mesmo chineses. A quantidade de estrangeiros que fazem boa propaganda do Brasil lá fora, consertando o serviço porco da Embratur, que só mostrava bunda e caricaturas baianas de Carmen Miranda, cresce mais rápido do que eu consigo acompanhar. Eles falam bem, alguns chegam a ser generosos com nossos patrícios, ajudando como podem e divulgando seus pequenos negócios para potenciais clientes conterrâneos que vierem depois, o que é particularmente valioso nesta época de crise profunda. Notei particularidades de alguns gentílicos que falam muito de seus países;

 

            Os moçambicanos em especial são extremamente curiosos e entusiasmados, como o Aurélio. Eles agem como crianças, no bom sentido, esmiuçando tudo o que podem e aceitando com humildade, nossas correções e sugestões. A simpatia e a simplicidade de linguagem, e a mania de falar “mano” como interjeição para tudo, já arrebanhou fãs e até amigos entre os seguidores brasileiros… uhm… será que Moçambique é um pedaço perdido de São Paulo? Alguns deles ficam pasmos quando descobrem que há negros no Brasil. Basicamente, há pessoas por lá que pensam que só existem negros na África… pois é. Eles querem aprender tudo o que puderem, são divulgadores perfeitos e engajados das coisas do Brasil, então peço que sejam solícitos, eles saberão agradecer revertendo a péssima impressão que as instituições carimbaram em nossas testas.

 

            Os americanos querem se enturmar, fazer parte da nossa bagunça e se sentirem brasileiros, por mais espantoso que isso possa parecer; isso é um poderoso antídoto contra os estereótipos que a mídia dissemina. Eles gostam de usufruir de nossa hospitalidade, que para eles é coisa de outro mundo, com elogios rasgados para os mineiros, e fazem questão de alardear para o mundo inteiro que somos o melhor tipo de pessoa do mundo… não, não é piada. Eles vêm e fazem questão de retribuir aos brasileiros que vão para lá. Eles tentam nos fazer ver o lado mais sombrio dos Estados Unidos logo de cara, mas com isso só conseguem fazer os nossos ficarem tão encantados quando eles ficaram aqui, pois logo em seguida nos apresentam aos melhores lugares para brasileiros, inclusive redutos brazucas no quintal do Tio San; eles são mais piegas do que admitem, e nós conseguimos extrair isso comendo pelas beiradas. Nosso idioma é uma armadilha para eles, especialmente por causa dos verbos. Por exemplo, eles têm “you”, para esta palavra temos tu, te, ti, você, vocês, vós, lhe e lhes, piorando a confusão quando descobrem que o nosso português não é parecido com o de Portugal, como o cinema lhes dizia ser. São de longe os mais numerosos obreiros desta senda. Vale à pena conhecer o canal do Tim, o mais brasileiro dos americanos.

 

            Os coreanos quebram o estereótipo de frieza e distância social que atribuímos aos ocidentais, fazem questão de proximidade e de experimentar nossa culinária. Às vezes chega a ser hilário, mas na maioria delas eles surpreendem. É sério, eu vi coreanas fininhas comendo feito um pedreiro que fez hora extra, sem almoço, e a barriga continuava chapada! Garçons olhavam incrédulos sem saber aonde tinha ido tanta comida, e estou falando de coisas como feijoada, farofa, dobradinha, churrasco raiz, entre outras tonelagens estomacais. Como é de regra, eles acham o nosso café forte demais. A eles chama atenção em especial o baixo número de fumantes, que nós achamos alto, isso já rendeu um vídeo inteiro da Coreaníssima. Ela, aliás, é precursora de uma série de coreanos que se dedicam a conhecer e falar do Brasil, eles já se deram conta de que juntando todos os compatriotas, ainda não conseguirão conhecer tudo, viajar mais de 1000 km dentro de um único país é estranho para eles, mesmo acostumados com o gigante chinês bem ao lado, mas a imagem que tinham daqui era de uma ilha tropical,,. Pois é., dona Embratur...

 

            Os russos são figuras! Estranham tudo a ponto de parecer que desceram em outro planeta, mais ou menos como “Moscou! Encontramos vida alienígena, não temos certeza de que seja inteligente, mas é divertida”. Como os demais, o nosso idioma intrincado os confunde muito, mas nossos hábitos chegam a ser bizarros, alguns chegam a perguntar se temos problemas bucais crônicos, pela freqüência tremada com que escovamos os dentes. Eles, reis da excentricidade, nos acham malucos! Oh, honra suprema, tidos como esquisitos pelos mestres da arte! A dramaticidade com que falam pode assustar os desavisados, mas só terão sido gentis; eles são dramáticos em tudo. Um mito que ainda têm na Rússia é que somos uma ilha tropical na América Central, choca quando chegam, descobrir que mal cabemos na do Sul… e que temos colônias russas no Brasil! E que sabemos localizar a Rússia no mapa! Então eles tocam de roda feito crianças descobrindo a casa nova, querem conhecer a tudo e a todos, demonstrando uma incrível capacidade de entrosamento. É bom lembrar que o idioma pode gerar constrangimentos; por exemplo, “olá” soma como Ola, diminutivo de Olga, e Rui soa como “ruy” que significa literalmente “pênis” … Tomando cuidado com perguntas delicadas, mas sem hesitar em fazê-las, a convivência é até festiva.

 

            Estes foram apenas os principais e mais freqüentes exemplos, e impressões que me deixaram, não haveria páginas suficientes. Eles deixam claro que o Brasil não é para amadores, não é para covardes e, principalmente, não é para invasores. O certo é que são pessoas comuns, não ONGs ou autarquias que agem sob ordens de sabe-se lá quem com sabe-se lá que propósitos, que vão nos ajudar a sair do buraco, e essas pessoas já assumiram a seara em um trabalho de formiguinhas pelo mundo inteiro… que tal as formigas daqui cooperarem?

27/07/2020

Se doer, doe-se


        Desde o suicídio do neto de Elvis tenho testemunhado uma avalanche de jovens repentinamente atormentados pelos mesmos pensamentos autodestrutivos. Inclusive, em especial, por lutos recentes e muito caros, principalmente quando os que os cercam não compreendem e tampouco respeitam esses lutos. As pessoas não compreendem que no vale profundo de um luto, a última coisa que uma pessoa precisa é ter sua dor reduzida a um capricho; ainda que seja, é a única coisa que não deve ser feita. O luto de um depressivo, aliás, pode ser a única coisa que o mantém do lado de cá da vida, porque ao lamentar e velar intimamente sua perda, estará se apegando ao fio da lembrança da vida que se foi. Ainda que esteja no passado, aquilo É uma vida e é nisso que o jovem se apoia para manter-se na sua própria. Se não tiver algo de bom ou mesmo um silêncio acolhedor para oferecer, apenas retire-se sem abrir a boca.

        Aos jovens hora em desespero, ávidos por um alívio em seus pesares, ofereço minha experiência e palavras práticas de como lidar com isso. Eu não tenho discursos prolixos e palavras espirituais para este caso, porque sei por experiência que às vezes elas são um tiro pela culatra, e não sou crentelho nem espiritonto para tentar forçar o deprimido a olhar os lírios do campo de Jesus! Aleluia, salve, salve. Me baseio no exemplo prático de Audrey Hepburn e na sabedoria maternal que ela deixou, que no final das contas é um legado maior do que sua gloriosa carreira. Foi no Congo Belga, durante as filmagens de "Nun's Story" que ela vislumbrou seu real papel no mundo, papel que levou até o fim de uma vida que muitos acreditavam que seria mais curta. Não, não farei um texto sobre celebridades, fiquem sossegados.

        Quando alguém se doa a quem REALMENTE precisa, e isso exclui paixões, mesmo que com a imensa dificuldade que eu conheço de ainda estar atado ao luto doloroso, está também tecendo o primeiro fio de salvação que o manterá vivo, simplesmente porque agora há um motivo mais do que razoável para isso. Ainda que repita a si "Eu sei que depois desta ajuda eu não vou resistir em matar", o acto de se doar torna a pessoa mais receptiva a doar-se novamente, e com isso torna também mais apta a enxergar assuntos e pessoas que realmente precisam de sua atenção. É como artes marciais, que torna o corpo e a mente mais aptos e desejosos de ir além, quanto mais se pratica, até o ponto em que todos os movimentos são feitos naturalmente e o aprimoramento se torna cada vez mais rápido e consistente.

        Não é preciso ter recursos financeiros para se doar, na verdade sequer é preciso ter coisas a doar. Na maioria das vezes, tudo de que uma pessoa precisa é sentir que alguém sabe que ela existe, e nem sempre é um pedinte maltrapilho que precisa disso. Às vezes, sob o tailleur bem cortado, sob o penteado bem feito, sobre os sapatos de fino design, está a criatura de espírito mais desgastado e desesperançado do mundo. Sim, os mais pobres precisam de nossa ajuda, e quase sempre na forma de pão; demo-los e saciemo-los. Entretanto, umas moedas dadas com um olhar sereno e bondoso, já que estamos na era dos mascarados compulsórios, dá ao cidadão negligenciado mais fibras para se apegar à vida do que aquela nota de vinte que fora simplesmente jogada a ele; muitas vezes a diferença entre comprar o que comer e gastar tudo numa garrafa de destilado. E dando de bom coração as poucas moedas que pode dar, sentindo-se mais necessário e mais necessidade de fazer mais, mais alguns fios são tecidos no seu apego à vida, não simplesmente à sobrevivência.

        Não estou copiando isso de um livro de auto estorvo, falo de minha experiência e do cabedal recebido de pessoas que me fazem parecer um tolo egoísta. E vejam só, graças a esse hábito de doação eu já excedi a cota de textos que esperava escrever durante o ano todo. Mas vamos voltar à rica dama de espírito mendicante, porque às vezes é para receber atenção que elas despendem grandes vultos em salões de beleza. Não, não é crime e NÃO é errado gastar com estética, o problema vem quando a aparência é um contrapeso ao vácuo interior. Infelizmente as pessoas AINDA acreditam que ter recursos materiais imuniza contra a depressão, mas eles podem ser um tiro pela culatra, bem na testa, directo à pineal. Se aquela dama perceber que pode mudar a vida de outrem, a estética será um adereço e não uma psicotrópico, mas ela não perceberá isso enquanto for elogiada por sua beleza e seus recursos. Quando o elogio for por sua postura e por sua companhia agradável, ainda que esta se dê em princípio por protocolo social, algo começará a mudar, e o autor terá tecido mais uma fibra em seu benefício próprio.

        Compreendam que dar o primeiro passo não é fácil, não é simples e NÃO É INDOLOR! Mas precisa ser dado. A dor vem da condição cristalizada de luto misturado com auto piedade, que cedo ou tarde trava a vontade de viver de modo praticamente irreversível. No começo tudo parecerá ser em vão, suas modestas contribuições parecerão ser inúteis e seus esforços, por mais que tente, infrutíferos. Mas é só impressão. A sua condição de deprimido, e digo isso de dentro de uma condição de depressão extrema praticamente ininterrupta, te deixará imenso em uma ansiedade que fará cada segundo parecer um ano, cada grama parecer uma tonelada e cada indivíduo parecer uma multidão. É como se um liliputiano enfrentasse Godzila, mas é tudo mera impressão, um subterfúgio da depressão para sabotar sua recuperação. Não é inimigo pior, porque não se pode simplesmente afastar-se dela, às vezes nem se pode curar, porque pode ser a depressão justo o que te mantém de pé. Mas em vez de ir para o abismo, a decisão de se doar te leva para o lado oposto, e a depressão torna-se sua aliada. De tristeza crônica, que de vez em quando ainda fará estragos, tornar-se-á um facilitador para introspecção e meditação.

        Eu sei, tudo seria menos penoso se a família NÃO ATRAPALHASSE, mas ela atrapalha e nem sempre há como deixá-la, até porque às vezes é ela quem mais precisa de sua doação, e a covardia não faz parte dos procedimentos de um depressivo reverso. O que aconselho nesse caso é criar seu canto e seu momento de depressão. Exponha sua carranca, mostre seu mau humor, não censure seus resmungos, que embora sejam socialmente desagradáveis até para nós mesmos, são o mal menor com o qual conseguimos lidar melhor. Afinal, precisamos estar fortes e centrados para a missão a que nos propusemos, e nunca se sabe quando alguém precisará de nossa humilde ajuda. Se posso dar um conselho, e já paguei caro por ele, é abster-se de "causas" que apregoam o coletivo e desprezam o indivíduo, porque grupos assim são grandes impulsionadores de suicídios. Fazer a pessoa acreditar que sem "a causa" ela não é nada, cedo ou tarde a fará ver que nada construiu, acreditar que realmente não é nada e que a alternativa ao grupo (político, ideológico ou religioso) é a morte. E novamente, se a família não atrapalhasse tanto a maioria dos casos, ninguém cairia na conversa desses grupos, que virtualmente não existiriam. Grupos que formam coletivos para amparar cada indivíduo, esses sim merecem sua atenção e eventualmente sua adesão.

        Com o tempo, a perseverança e a prática, a dor do luto se transforma em empatia pela dor do outro, que já não é então "o outro", é o seu irmão; mesmo que às vezes se tenha vontade de torcer-lhe o pescoço, é absolutamente natural. A cada eclosão de sua dor virá a lembrança de que outros também penam suas dores, e que um simples emoticon na caixa de mensagens pode ser suficiente para essa dor ser suportada. Não espere por gratidão, espere por correspondência. Se a pessoa for minimamente rude ou arrogante, lamento, mas não estará pronta para ser ajudada. Toda semente que jogar naquele solo, morrerá seca. Concentre-se em quem, se não dá respostas privadas, pelo menos te trata com respeito em conversas públicas. Parece pouco, mas às vezes é tudo o que se faz necessário. Assim, quando maior for a sua dor, maior será o empuxo para doar seu tempo, suas palavras, talvez algum recurso material. Aquela conversa de que "se alguém não começar, nunca será terminado" é a mais pura verdade, um chapéu com poucas moedas chama mais atenção do que um vazio. Assim como uma pessoa que recebeu uma ínfima dose de ânimo, chama mais atenção e está mais pronta a ser auxiliada do que quem já tiver perdido toda a vontade de viver.

        Repito que tudo isso é cabedal próprio, de quase meio século expiando neste mundo rude e cínico. Não sei se há compêndios acadêmicos dedicados a isso, sei que funciona. Funciona a ponto de eu já ter testemunhado um traficante se regenerar. E o que eu sou? Um velho funcionário público ferrado e sem ter onde cair morto... se bem que... depois de morto, que me importa o que vai acontecer com o corpo? Às favas! O facto é que eu era um nada ainda menor do que sou hoje, mesmo assim ajudei uma comunidade a bancar a pedra filosofal. E fiz isso dedicando minutos do meu tempo a uma carinha triste, um suspiro de descrença, um bombom barato dado de surpresa, um aperto de mão em um trabalhador braçal que não teve tempo de voltar pra casa, coisas simples. Com isso se teceu uma teia cujos fios evitaram que aquele indivíduo caísse em definitivo no abismo. Sim, às vezes precisei ser duro, casca-grossa, mas tudo dentro dos limites do necessário, sem exceder um grau sequer.

        Isso se incorporará aos seus gestuários, como se incorporou ao meu. E sempre que vejo uma criança necessitando de ajuda, vem à minha mente "É obrigação do mundo ajudar crianças em dificuldades, todo resto é luxo", frase dita e levada a termo, até o último suspiro de vida, pelo Anjo das Crianças Audrey Hepburn, que se esmerando em curar a dor do próximo, viu suas próprias e profundas feridas se cicatrizarem com o passar dos anos. Eu atesto, porque como vocês eu tenho as minhas, e elas já estariam infeccionadas se eu tivesse escolhido o caminho oposto, de me fechar em meus lutos e igorar os do próximo. Ainda que ciente de que eu sou pequeno, feio e sem perspectivas sólidas, sei que absolutamente nada disso me impede de dar a alguém o bálsamo de que disponho. Não salvarei o mundo, isso é uma ambição louca que somente os aloprados que se levam à sério têm. Eu foco em fazer o que precisa ser feito, no momento em que precisa ser feito, dando meu melhor o tempo todo, até que o que eu puder ter feito, feito estiver.

        Parece árduo? Não é tanto quanto parece, não é um paredão a ser escalado sem cordas e picaretas, é uma escada. Uma escada que aparentemente não tem fim, com sua estrutura varando as nuvens, mas é uma escada, com degraus que podem ser alçados um de cada vez, no seu tempo, no seu ritmo, com as pausas que necessitar para se refazer, mas sempre com a firme decisão de avançar e aliviar a dor do seu irmão. E de dor, amados, eu sei bem que vocês entendem como ninguém. Vocês sabem reconhecer e sabem que, às vezes, apenas dizer "obrigado, bom dia" por ter-se lhe dado passagem, mesmo que não tenha realmente dado passagem, que tenha sido pego de surpresa pela sua necessidade de passar, pode ser o suficiente para que aquela pessoa adie por ais um dia, apenas mais um dia os planos de dar cabo de si, e um dia a mais pode ser o prazo que a providência necessária seja tomada. E um gesto como esse terá sido toda a providência de que vocês necessitam para viver mais um dia e, como Audrey, protelar os maus prognósticos por muitos anos.

23/07/2020

Uma Tóquio charmosa

Cena tirada do vídeo no fim do texto.

        Eu raramente vejo um vídeo com mais de dez minutos, se não for dos meus canais já assinados, e mesmo neles eu hesito de vez em quando. Não se trata de preguiça, embora às vezes eu mesmo me pergunte se não é, mas de cansaço. Não apenas físico, que consome a glicose que deveria ser todinha do meu cérebro lesado, mas também mental, porque o dia actualmente parece ter menos de dez horas, e eu precisaria ao menos de dezoito horas de sono por noite para me refazer.

        Não bastasse isso, a ladainha incessante da imprensa me faz querer enfiar a cabeça no liquidificador... enfim, estou um caco. Na maioria das vezes eu procuro coisas bonitas para ver, mas aliar beleza com bom gosto tem sido uma tarefa ingrata. Costumo ver a descontração do canal Dancing Bacons, de um casal japonês muito fofo que viaja pelo oriente para comer... é, para comer. Experimentar comidas prontas, semi-prontas, feitas na hora, de rua, de restaurantes, de máquinas automáticas de venda... É comida? Estão dentro... e passam para dentro. Deste canal eu acabei descobrindo mais gente que usa o Youtube mostrar ao mundo um mundo que vale à pena ver. Os vídeos não são muito longos, mas um ou outro passa de meia hora, o que é raro.

        Eis que hoje, em um momento de esgotamento e desinteresse pré-depressivo, vejo na lista um vídeo com mais de UMA HORA de duração. olhei para aquilo, pensei "No!!!!!", respirei fundo, olhei de novo, pensei "Jura que querem que eu veja isso?", dei uma olhada no título despretensioso, pensei cá com meus botões (eu uso camisa de abotoar) que nada tinha conseguido prender mina atenção, e que minha capacidade cognitiva já estava um pouco comprometida, então não adiantaria eu procurar vídeos com temas profundos, densos e enigmáticos. Cliquei para ver até onde eu agüentaria e me surpreendi com um vídeo SEM EDIÇÕES, que me fez descansar o espírito, entre uma emergência e outra, por mais de uma hora.

        Não é nada mais do que um cidadão japonês andando por todo esse tempo por ruas de uma Tóquio que pouca gente conhece. O passeio une o moderno ao tradicional, o que quase todo mundo já sabe da capital japonesa, mas ele entra por vielas e becos estreitos que as câmeras internacionais simplesmente não mostram. Ele revela uma cidade charmosa e encantadora, surpreendendo ao permitir que ouçamos risos espontâneos dos concidadãos, inclusive mostrando acidentalmente duas moças rindo soltamente diante de uma lanchonete com uma máquina de venda automática na porta.

        O passeio vai do início de fim de tarde até o anoitecer, permitindo ao espectador paciente conhecer uma cidade arborizada e repleta de lugares que fazem qualquer um ter motivos para, algum dia, visitar e conhecer não só o lugar, mas também os actores daqueles cenários que às vezes chegam a ser bucólicos. Acredito que mesmo os leitores habituais de mangás vão se surpreender e se encantar com este vídeo do canal Rambalac. Sem mais delongas ou spoilers, vamos ao vídeo. Quem tiver banda larga e estável suficiente, vá ao link e escolha um formato mais pesado e refinado, ao demais podem ver o que eu compartilhei aqui. Bom passeio.


22/07/2020

Pandenóia

Arte de Banksy, exceto a máscara, Inglaterra


            Eu limpo e esterilizo a sala logo na primeira hora em que chego, e sou sempre o primeiro a chegar. Depois vem alguém e passa álcool novamente, mesmo eu já tendo alertado que o fizera, mas a pessoa retruca “Antes pecar pelo excesso do que pela falta”. Dez minutos depois a mesma criatura refaz o procedimento na mesa inteira, mesmo que não tenha utilizado o aparelho, e assim vai durante todo o expediente. E cada vez que o telephone é utilizado, mais uma camada de álcool é passada, felizmente as janelas daqui são relativamente grandes e estão sempre abertas. Mais do que esse comportamento obsessivo, que já vai às raias da higiopatia, chama a atenção o facto de todos os outros acharei isso normal; ou “novo normal, como reza a nova idiotice do vocábulo midiático repetido à exaustão pelos paranoicos passivos. Há muitos anos que as vendas por internet crescem vertiginosamente, em alguns setores já superaram as lojas físicas correspondentes, em especial no mercado editorial. É incomparavelmente mais barato e o alcance é inimaginavelmente maior, isso já acontecia inclusive nas vendas de automóveis.

            A falta de hábito, ou até desconhecimento de sites especializados em economia e tecnologia corrobora para isso, porque neles os leitores habituais já estavam de sobreaviso para o novo mundo nascente, que agora sai por cesária. Infelizmente os paranoicos não vêem esses canais, na maioria das vezes os rejeitam, porque eles jogam na cara a fragilidade das informações de que se gabam em seus proclames simplistas e decorados por retóricas vultuosas. É na forma que se concentram e com ela que se deslumbram, o conteúdo geralmente lhes é indigesto. Às vezes, tão somente às vezes e não em todos os casos, dizem que não estão a par para terem opiniões, mas opinam subliminarmente assim mesmo, depois voltam a repetir “Currupaco! Pandemia! AAAAAAAAH!!!” para todo mundo ouvir. Acreditar que tudo isso é novidade dá a sensação de que estão na vanguarda e, de alguma forma, no controle de uma situação totalmente descontrolada, que é a própria vida.

            Em primeiro lugar, todas as mudanças econômicos que estão acontecendo JÁ VINHAM ACONTECENDO desde o início do século, algumas desde os anos 1990. O que essa pandemia fez, como toda crise global, foi acelerar tudo e fazer gente tirar projectos que jaziam em suas gavetas.
            Em segundo lugar, micro-organismos não são gatos de senso comum, eles só morrem uma vez, lavar e esterilizar alguma coisa obsessivamente não torna o ambiente mais saudável, pode até mesmo estragar tanto os utensílios quanto a própria pele do indivíduo, pele que é a primeira barreira contra contaminações.
            Em terceiro, mas não menos importante lugar, o foco monopolizado induz à displicência para com as outras actividades, que não por acaso são os fins de um ambiente de trabalho, às vezes até mesmo o doméstico; como deixar computadores freqüentemente ligados e abertos na senha do funcionário, não raro varando a noite assim, à mercê de espertos e de hackers. Vi agora a pouco um caso desses com a cafeteira nova… que passou a noite ligada… agora estão limpando a bagunça. Imaginem isso no trânsito. Imaginaram? Pois já vi também.

            A voracidade com que devoram notícias repetitivas, que falam a mesma coisa com sotaques diferentes sobre a pandemia, sempre noticiadas como se TODOS os locutores tivessem exactamente o mesmo texto em mãos, não se repete na indignação que deveriam ter com as notícias de abusos das castas do judiciário e do legislativo. Tentar mudar de assunto é quase infrutífero, sempre voltam repetindo a ladainha “A pandemia do covid 19 do novo coronavírus” como se tivessem memorizado um script de filme B, não raro perdem as estribeiras ao menor desvio de tópico, te acusando de negar a crise sanitária e de ser uma ameaça epidemiológica para toda a humanidade, acrescentando “você não é epidemiologista” a cada frase dita com rudeza. Após destilarem sua raiva, voltam a conversar como se nada tivessem feito, ou pior, como se estivessem em seu direito régio de fazê-lo, o que é muito comum. Depois de te irritarem, pedem calma… Dão a entender que querem que essa situação dure para sempre.

            O comportamento se assemelha ao que me acostumei a ver em dependentes químicos, mas ao avesso, porque aqui a pessoa se tranca em uma bolha de realidade pior do que a própria realidade, e não tolera receber uma boa notícia a respeito que não venha acompanhada de um alerta de que todos vamos morrer. Eles simplesmente QUEREM ver notícias ruins, contando infecção por infecção, morte por morte, caçando canais e sites que repitam cada má notícia a respeito; paralelamente minimizam qualquer bom progresso. Ainda em comum, eles defendem os fornecedores de suas drogas com unhas de dentes, como se fossem seus únicos elos com a vida. Essa auto-obsessão já seria suficientemente ruim se estivesse limitada ao indivíduo, mas ele insiste que todos devam agir como peru de natal. Manter a calma não é um problema, se você conseguir NÃO aparentar estar mais calmo do que eles, porque isso pode soar-lhes como inapropriado ou até ofensivo para uma época de emergência sanitária. Não obstante, os profetas apocalípticos oportunistas ganharam mais um tijolo para servir de palanque, para alardearem que a humanidade não presta e que o mundo está se livrando de nós, tudo salpicado de discursos antissistema que saíram de moda nos anos 1970; as grandes extinções, que me conste, não afetaram seres humanos.

            Eu não contesto a necessidade de evitar aglomerações, mas não é exactamente isso que eles têm feito, porque mesmo Róbinson Crusoé corre o risco de multa e detenção. Tirar a máscara por uns minutos para comer ou beber, já pode render cliques convenientes para postagens acusatórias, que só mostram aquele momento de rosto nu, como se fosse um atentado ao pudor. Usam flagrantes desrespeito aos decretos para isso, em seus discursos generalizadores, quando se dão o trabalho de se explicar. Muitos desses pandenoicos já se vêem como autoridades, ou mesmo como reserva moral da humanidade, e eu gostaria muito que isso fosse apenas um exagero ilustrativo, como recurso didático, mas não é. Não usar máscara dentro do carro, mesmo apenas com o motorista, já é risco de autuação. Se deixarmos, tomar banho e dormir sem máscara será crime. Não basta ser doente ou dependente, é preciso que todos ao redor o sejam também.

            O caso mais icônico foi um fiscal de Poços de Caldas ter interrompido uma missa que estava sendo transmitida pela internet, com a igreja vazia, com portas fechadas (ver aqui) violando a própria constituição, que para os cleros tornou-se apenas um detalhe a ser ignorado ou levado ao pé da letra, de acordo com a conveniência de múltiplos pesos e medidas... e o papa pandenoiado simplesmente não tomou conhecimento… ou deu de ombros, que é o mais provável. Reações do público? Praticamente nenhuma, além dos católicos mais tradicionais, cuja indignação não constou nos pasquins de pandenóia. Novamente o comportamento típico de viciados, que minimiza ou mesmo justifica prolixamente os abusos feitos em nome de seu vício. O que deveria ser apenas o monitoramento de uma crise sanitária, com as devidas correções onde realmente se fizesse necessário, tem se tornado um punhado de Estados policiais paralelos espalhados pelo país, não raro Estados paralelos dentro do próprio Estado e financiados pelo erário, como o caso de Poços de Caldas.

            Vocês podem imaginar até onde isso vai, não podem? Vocês, meus poucos leitores habituais, sabem o que acontece quando o oprimido se dá conta de que é mais numeroso, mais forte e que neste caso até financia o aparato opressor… cortar o patrocínio seria a primeira coisa a fazer. O bordão “vá estudar história” deveria servir de lição aos próprios pandenoicos… e principalmente aos parasitas oportunistas.