22/07/2020

Pandenóia

Arte de Banksy, exceto a máscara, Inglaterra


            Eu limpo e esterilizo a sala logo na primeira hora em que chego, e sou sempre o primeiro a chegar. Depois vem alguém e passa álcool novamente, mesmo eu já tendo alertado que o fizera, mas a pessoa retruca “Antes pecar pelo excesso do que pela falta”. Dez minutos depois a mesma criatura refaz o procedimento na mesa inteira, mesmo que não tenha utilizado o aparelho, e assim vai durante todo o expediente. E cada vez que o telephone é utilizado, mais uma camada de álcool é passada, felizmente as janelas daqui são relativamente grandes e estão sempre abertas. Mais do que esse comportamento obsessivo, que já vai às raias da higiopatia, chama a atenção o facto de todos os outros acharei isso normal; ou “novo normal, como reza a nova idiotice do vocábulo midiático repetido à exaustão pelos paranoicos passivos. Há muitos anos que as vendas por internet crescem vertiginosamente, em alguns setores já superaram as lojas físicas correspondentes, em especial no mercado editorial. É incomparavelmente mais barato e o alcance é inimaginavelmente maior, isso já acontecia inclusive nas vendas de automóveis.

            A falta de hábito, ou até desconhecimento de sites especializados em economia e tecnologia corrobora para isso, porque neles os leitores habituais já estavam de sobreaviso para o novo mundo nascente, que agora sai por cesária. Infelizmente os paranoicos não vêem esses canais, na maioria das vezes os rejeitam, porque eles jogam na cara a fragilidade das informações de que se gabam em seus proclames simplistas e decorados por retóricas vultuosas. É na forma que se concentram e com ela que se deslumbram, o conteúdo geralmente lhes é indigesto. Às vezes, tão somente às vezes e não em todos os casos, dizem que não estão a par para terem opiniões, mas opinam subliminarmente assim mesmo, depois voltam a repetir “Currupaco! Pandemia! AAAAAAAAH!!!” para todo mundo ouvir. Acreditar que tudo isso é novidade dá a sensação de que estão na vanguarda e, de alguma forma, no controle de uma situação totalmente descontrolada, que é a própria vida.

            Em primeiro lugar, todas as mudanças econômicos que estão acontecendo JÁ VINHAM ACONTECENDO desde o início do século, algumas desde os anos 1990. O que essa pandemia fez, como toda crise global, foi acelerar tudo e fazer gente tirar projectos que jaziam em suas gavetas.
            Em segundo lugar, micro-organismos não são gatos de senso comum, eles só morrem uma vez, lavar e esterilizar alguma coisa obsessivamente não torna o ambiente mais saudável, pode até mesmo estragar tanto os utensílios quanto a própria pele do indivíduo, pele que é a primeira barreira contra contaminações.
            Em terceiro, mas não menos importante lugar, o foco monopolizado induz à displicência para com as outras actividades, que não por acaso são os fins de um ambiente de trabalho, às vezes até mesmo o doméstico; como deixar computadores freqüentemente ligados e abertos na senha do funcionário, não raro varando a noite assim, à mercê de espertos e de hackers. Vi agora a pouco um caso desses com a cafeteira nova… que passou a noite ligada… agora estão limpando a bagunça. Imaginem isso no trânsito. Imaginaram? Pois já vi também.

            A voracidade com que devoram notícias repetitivas, que falam a mesma coisa com sotaques diferentes sobre a pandemia, sempre noticiadas como se TODOS os locutores tivessem exactamente o mesmo texto em mãos, não se repete na indignação que deveriam ter com as notícias de abusos das castas do judiciário e do legislativo. Tentar mudar de assunto é quase infrutífero, sempre voltam repetindo a ladainha “A pandemia do covid 19 do novo coronavírus” como se tivessem memorizado um script de filme B, não raro perdem as estribeiras ao menor desvio de tópico, te acusando de negar a crise sanitária e de ser uma ameaça epidemiológica para toda a humanidade, acrescentando “você não é epidemiologista” a cada frase dita com rudeza. Após destilarem sua raiva, voltam a conversar como se nada tivessem feito, ou pior, como se estivessem em seu direito régio de fazê-lo, o que é muito comum. Depois de te irritarem, pedem calma… Dão a entender que querem que essa situação dure para sempre.

            O comportamento se assemelha ao que me acostumei a ver em dependentes químicos, mas ao avesso, porque aqui a pessoa se tranca em uma bolha de realidade pior do que a própria realidade, e não tolera receber uma boa notícia a respeito que não venha acompanhada de um alerta de que todos vamos morrer. Eles simplesmente QUEREM ver notícias ruins, contando infecção por infecção, morte por morte, caçando canais e sites que repitam cada má notícia a respeito; paralelamente minimizam qualquer bom progresso. Ainda em comum, eles defendem os fornecedores de suas drogas com unhas de dentes, como se fossem seus únicos elos com a vida. Essa auto-obsessão já seria suficientemente ruim se estivesse limitada ao indivíduo, mas ele insiste que todos devam agir como peru de natal. Manter a calma não é um problema, se você conseguir NÃO aparentar estar mais calmo do que eles, porque isso pode soar-lhes como inapropriado ou até ofensivo para uma época de emergência sanitária. Não obstante, os profetas apocalípticos oportunistas ganharam mais um tijolo para servir de palanque, para alardearem que a humanidade não presta e que o mundo está se livrando de nós, tudo salpicado de discursos antissistema que saíram de moda nos anos 1970; as grandes extinções, que me conste, não afetaram seres humanos.

            Eu não contesto a necessidade de evitar aglomerações, mas não é exactamente isso que eles têm feito, porque mesmo Róbinson Crusoé corre o risco de multa e detenção. Tirar a máscara por uns minutos para comer ou beber, já pode render cliques convenientes para postagens acusatórias, que só mostram aquele momento de rosto nu, como se fosse um atentado ao pudor. Usam flagrantes desrespeito aos decretos para isso, em seus discursos generalizadores, quando se dão o trabalho de se explicar. Muitos desses pandenoicos já se vêem como autoridades, ou mesmo como reserva moral da humanidade, e eu gostaria muito que isso fosse apenas um exagero ilustrativo, como recurso didático, mas não é. Não usar máscara dentro do carro, mesmo apenas com o motorista, já é risco de autuação. Se deixarmos, tomar banho e dormir sem máscara será crime. Não basta ser doente ou dependente, é preciso que todos ao redor o sejam também.

            O caso mais icônico foi um fiscal de Poços de Caldas ter interrompido uma missa que estava sendo transmitida pela internet, com a igreja vazia, com portas fechadas (ver aqui) violando a própria constituição, que para os cleros tornou-se apenas um detalhe a ser ignorado ou levado ao pé da letra, de acordo com a conveniência de múltiplos pesos e medidas... e o papa pandenoiado simplesmente não tomou conhecimento… ou deu de ombros, que é o mais provável. Reações do público? Praticamente nenhuma, além dos católicos mais tradicionais, cuja indignação não constou nos pasquins de pandenóia. Novamente o comportamento típico de viciados, que minimiza ou mesmo justifica prolixamente os abusos feitos em nome de seu vício. O que deveria ser apenas o monitoramento de uma crise sanitária, com as devidas correções onde realmente se fizesse necessário, tem se tornado um punhado de Estados policiais paralelos espalhados pelo país, não raro Estados paralelos dentro do próprio Estado e financiados pelo erário, como o caso de Poços de Caldas.

            Vocês podem imaginar até onde isso vai, não podem? Vocês, meus poucos leitores habituais, sabem o que acontece quando o oprimido se dá conta de que é mais numeroso, mais forte e que neste caso até financia o aparato opressor… cortar o patrocínio seria a primeira coisa a fazer. O bordão “vá estudar história” deveria servir de lição aos próprios pandenoicos… e principalmente aos parasitas oportunistas.

14/07/2020

A escolha de um transporte


   
Boston, 1920s
         Em primeiro lugar deixo claro que existe um abismo imenso entre os discursos das salinhas fechadas e a realidade, simplesmente porque mesmo o estudo mais bem-intencionado, que a maioria não é, não consegue abranger todas as nuances de um tópico, na verdade a falta de ensaios não permite sequer observar o básico. É, por exemplo, muito simples atravessar o Atlântico em um veleiro altamente equipado, monitorado e cercado de precauções, isso alimenta uma narrativa de ser possível cruzar os mares sem poluição, pois lá estaria a prova cabal de que os aviões e os gigantescos navios cargueiros são dispensáveis. Mas eu digo sempre que ideologia é dogma, e é só nisso que se baseia uma narrativa dessas. Os custos (sim, custos, não existe gratuidade no universo real) seriam astronômicos e as perdas seriam imensas, obrigando a aumentos de produção simplesmente para reposição, fazendo qualquer saco de batatas custar o mesmo que custa um estoque industrial custa hoje. Acreditar nessas conversas é, na melhor das hipóteses, inocência de que pensa ser consciente, mas não passa de gado.

            Comece pensando na tua vida real. Os seus pés são o único meio totalmente natural e ecológico de transporte, todo o resto é conversa para boi dormir. Uma bicicleta demanda extração, processamento a altas temperaturas, manufatura sofisticada e logística muitas vezes complexa para ser entregue ao consumidor. Em muitos casos, mas muitos mesmo, o trajeto e a disponibilidade de tempo, fora as intempéries, podem contraindicar o uso de um veículo aberto, especialmente não motorizado. Então procure ajuda psicológica para qualquer indício de culpa a esse respeito, ela só serve para alimentar o ego de pseudointelectuais que se levam a sério demais. Há cálculos para estimar se determinado meio de transporte é o mais adequado ao seu caso, e capacidade de proteção do veículo é um dos componentes; pedalar de madrugada, sob frio ou chuva, em lugares ermos, por longas distâncias e com hora certa para chegar, não deveria estar em seus planos.

            Outra dificuldade está na falta de infraestrutura do transporte público. Goiânia espera há mais de trinta anos pela linha de metrô pela qual pagou, e a linha de trem, que cortava a cidade de leste a oeste e poderia ajudar a atenuar o problema, não existe há uns quarenta anos. Esse drama seguramente se repete em muitas cidades médias e grandes pelo país, não só em metrópoles. Não adianta protestar contra tudo isso que aí está gritando “Quero melhorias com tudo de graça” porque nem pagando caro o Estado tem feito o que deve, sequer o básico. Lembro ainda que nem todas as cidades subsidiam o transporte público, provavelmente a maioria não o faz. Assim a arrecadação não tem planejamento para esse tipo de gasto e nem terá, porque todo o orçamento já está comprometido mesmo antes de ser votado pelas câmaras de vereadores, estas que consomem em supérfluos boa parte do erário; ou seja, podem esquecer, mesmo que os prefeitos quisessem um auxílio para as tarifas, e não me refiro aos gastos com “gratuidades” não viria tão cedo. Simplesmente se recusar a adaptar-se para “obrigar o estado a fazer sua parte”? Jura?? Teu esqueleto será encontrado por arqueólogos na mesma posição. Então temos um gargalo que reduz as escolhas reais de transporte.

            Some-se a isso o fator capilaridade, que o itinerário rígido das linhas de ônibus precisam ter para contenção de gastos, manutenção da segurança e padronização dos serviços, em trajetos e horários, precisa ter. Isso pode obrigar o usuário a caminhar por alguns quilômetros, ou mesmo pegar várias linhas de ônibus para chegar ao seu destino; é por isso que em algumas cidades o cidadão passa literalmente horas no trajeto, no anda-pára-anda quase sempre repleto de curvas e trechos retrógrados, casa-trabalho e trabalho-casa. O tempo para percorrer de dez a quinze quilômetros pode ser maior do que o necessário para ir de Goiânia a Brasília em velocidade moderada. É essa falta de capilaridade que mais faz o usuário tirar seu veículo da garagem. Às vezes, senão quase sempre, esperar meia hora ou mais pelo próximo ônibus não é uma opção. Às vezes, como em caso de enfermidade, o transporte público pode simplesmente não ser uma opção. Apelos pró climáticos e preservacionistas ficam em segundo plano quando a vida e o bem-estar estão em xeque. Apontar o dedo e tentar incutir culpa, só piora tudo.

            Não que o uso do veículo particular não deva ser, mas utilizar o transporte público demanda um planejamento a que nossa população não está acostumada a fazer, e que as circunstâncias habitualmente sabotam; tal qual é com as finanças domésticas. Apesar de em tese os ônibus e trens, estes onde os há, tenham horários fixos, estão sujeitos a incidentes e acidentes de percurso, eles podem se atrasar significativamente a comprometer seu compromisso. Mesmo que haja um ponto de ônibus ou estação de metrô bem em frente à sua residência, no mesmo lado da rua até, o transporte não estará lá te esperando para quando precisar dele. Mesmo nos países onde esses serviços funcionam bem.

            Por partes:

    O transporte público pode e deve ser utilizado. Na maioria dos casos de uso INDIVIDUAL, ele é suficiente. Onde há metrô e trem urbano existe uma vantagem que seus usuários nem imaginam o quanto faz falta, e os que não têm nem imaginam o quanto ajuda. Apesar das desvantagens de demora e desconforto geral, os ônibus têm mais capilaridade e uma flexibilidade que os trilhos não permitem, o motorista pode simplesmente pegar um desvio se perceber algum problema, ou for informado com a devida antecedência de um congestionamento; ao menos DEVERIA ser informado. Mesmo os alardeados “BRT’s” sofrem com isso porque, apesar do corredor dedicado, cedo ou tarde eles também passarão por um cruzamento, então a vantagem desaparece. Saber que pode ser necessário pegar mais de uma condução é o ônus, o que pode gerar gastos de tempo e dinheiro que podem pesar no fim do mês, fora o problema da violência crônica em que estamos imersos. Então o uso recreativo deve ser muito bem planejado e, claro, não pode ser freqüente.

    A bicicleta é o meio mais vulnerável de transporte que existe. Skate e patins são muito compactos e praticamente não atrapalham, se precisar pular em uma emergência, já a bicicleta te obriga a ficar em uma posição muito passiva em acidentes e assaltos, tentar simplesmente pular dela pode ser um tiro pela culatra, sua perna pode se prender no quadro e o eventual ferimento se agrava. Há ciclovias pelo país, mas as cidades que as têm são exceções, e mesmo as que têm não as têm em quantidade e qualidade suficientes. As pessoas já se esqueceram de que bicicletas um dia foram obrigadas a serem emplacadas, como as motos, mas mesmo hoje são obrigadas a utilizar equipamentos de segurança altamente necessários que quase ninguém tem, e às quais as autoridades municipais fazem vistas grossas; como farol, retrovisores e refletores. Evitar pedalar antes da alvorada e depois do crepúsculo é meia apólice de seguro de vida, o que nem todos podem fazer, daí a necessidade desses acessórios obrigatórios de segurança. “Bicicleta eléctrica” é uma mina de ouro, o povo cobra o preço de uma moto pequena por uma bicicletinha que mal roda 30km a baixa velocidade. É mais negócio comprar uma boa bicicleta simples e pedir a um técnico para colocar uma boa bateria e um bom motor de furadeira, que tem peças de reposição em caso de necessidade.

    A motocicleta ainda é a menina dos olhos dos muquiranas. Um veículo que leva duas pessoas e ainda pode fazer até 70km/l em velocidade de cruzeiro, em uma rodovia, com custos ínfimos de manutenção, é tudo o que Tio Patinhas sonha. Mas, não tanto quando a bicicleta, é um veículo muito vulnerável, e mais do que aquela muito visada por criminosos. A economia generalizada combinada a um desempenho invejável no trânsito pesado sustenta suas vendas. As opções são fartas e a maioria dos mecânicos consegue colocar suas mãos na maioria delas. Para mero transporte, os gericos Honda Pop e seus genéricos bastam. Mas as vantagens delas são também seu calcanhar de aquiles, porque mesmo as maiores, mesmo uma Amazonas ou uma Goldwing não se presta para uso familiar; quem casa quer casa, quem parir quer carro.

    O grande vilão dos ecoxaropes, o carro particular mais humilde e rústico só pede uso comedido e responsável para ser sempre o amigo de todas as horas. Temos que ter em mente que um carro é uma máquina altamente complexa, especialmente os mais modernos, e qualquer falha na manutenção pode custar caro, tanto em dinheiro quanto em tempo de espera, no caso dos que têm mecânica importada; são mais do que vocês imaginam. Mas com tudo em dias, até mesmo um Opala seis cilindros pode ser exequível para uma família, ainda ais que esse motor quase não quebra. A desvantagem é a dificuldade em encontrar estacionamento em dias úteis, às vezes até em feriados, especialmente se for uma cidade turística, então vão mais gastos com estacionamentos privados. Um erro que as pessoas cometem muito é comprar um subcompacto, como o Mobi, pensando em economia para a família, se esquecendo que com o caro lotado o motor vai queimar muito mais combustível e todo o conjunto vai sofrer mais e se desgastar mais cedo; carro leve, cada ocupante ou mala faz mais diferença no rendimento. Se a família for de dois adultos e dois adolescentes, já não basta um ovinho de rodas com motor de dentista, é preciso algo mais espaçoso e pesado, com vários cavalos a mais, o consumo final pode ser até mais baixo do que o do pequenininho super básico. Quem sabe realmente dirigir, sabe do que estou falando.

    Não posso deixar de fora os aviões. O novo bode expiatório dos radicais de extrema alienação pseudointelectual tem dado com seus flaps nas caras deles. Transportar gente e insumos médicos a grandes distâncias em pouco tempo, é só com eles mesmo. Os custos operacionais são sua única desvantagem, o que inclui a infraestrutura necessária à operação, como longas pistas para pouso e decolagem, embora alguns poucos modelos possam decolar entre dois semáforos. A urgência e a intransponibilidade de alguns relevos por água e terra são o que os torna indispensáveis. Se tem pressa e a distância é longa, nem tente acelerar teu carro, vá de avião.

            O mais sensato, porém, é que seu planejamento possibilite utilizar mais de um modal e mais de uma modalidade de transporte, especialmente para quem mora longe do destino. Usar seus pés por um ou dois quilômetros se inclui nisso. A disseminação desse hábito desafogaria um pouco o trânsito e baratearia suas opções por vagas, bem como tornaria o transporte público menos lotado. Como ter dois bons veículos ainda é um luxo no Brasil, uma boa opção é deixar o carro próximo ao centro nervoso da cidade e usar o ônibus mais conveniente para o restante, se não for possível carregar uma bicicleta no carro; na moto é quase impossível e dá multa pesada. Da mesma forma, esqueça o veículo muito pequeno se morar sozinho não for o seu caso. Um carro maior consegue levar todo mundo sem muito aperto, o que inclusive desafoga o transporte público, deixando-o para quem realmente não pode arcar com o carro próprio. O Smart não saiu de linha à toa, ele é bom, mas tem utilidade muito limitada.

            Tenha sempre em mente que a sua parcela de realidade pode não ser, e quase sempre não é compatível com a do outro. Pouca gente tem uma garagem com espaço pra uma picape ou um (eeeek!!!) SUV grande, da mesma forma as necessidades de transporte de uma família quase sempre são incompatíveis com o amor de alguns com carrinhos de dois lugares, ou mesmo com a aversão de certas pessoas ao automóvel. O facto de ter funcionado para o SEU caso, não significa que dará certo para outros, e de jeito nenhum o será para todos. Se chegar a alguém que está tentando suprir as próprias necessidades, apontando o dedo e entoando um discurso acusatório, não importa o quão nobre seja (quase nunca é) a sua causa, ela terá ganho um inimigo.

19/06/2020

Matem os filhos dos Bandows!


        Ele entrou no grupo chamando ao ânimo, à esperança e à união. Disse que todos ali eram dignos de vida melhor, que todos eram donos de seus destinos e ninguém deveria baixar a cabeça para outrem. Eram chamados Zaweens e em um passado não muito distante, por um longo período, seus ancestrais foram maltratados e sujeitados pelos Bandows. Ainda havia uma certa animosidade entre os grupos, embora houvesse uma relativa convivência a desconfiança e a preterência de um pelos membros do outro era clara, não de todos e nem sempre assumida em público. Em verdade não era mais raro haver matrimônio entre Zaweens e Bandows, que infelizmente ainda gerava desgosto em muitos membros de ambos os lados, e eles sempre fizeram questão de se declarar “lados”, apesar dos discursos de longa data por união e tolerância; esta apenas protocolar. Encontros animosos ainda aconteciam.

        Ele sabia disso e disso se fez valer, se infiltrando no grupo que em vários aspectos ainda era o mais fraco, inclusive economicamente. Um dos discursos preferidos era o abandono dos ancestrais de seu modo de vida para se adequarem à exploração então vigente, dada de forma traumática. A tática era falar dos ancestrais como se falasse dos próprios presentes. Ele estimulou os Zaweens a cultivarem sua própria cultura e se assumirem Zaweens. De início, apesar de uns poucos olhares tortos, os Bandows também aceitaram bem e alguns até aplaudiram essa iniciativa, pois parecia ser um recomeço digno e uma proposta sólida de um futuro promissor. De resto, eles seguiam suas vidas como se nada estivesse acontecendo, mas alguns Bandows ainda não queriam ver Zaweens dentro de suas casas… e vice-versa.

        Ele destacava cada luta e cada conquista, exaltando o modo de vida Zaween, embora ninguém ali quisesse abrir mão das coisas boas que os Bandows trouxeram ao mundo. E nem seria racional, segundo ele mesmo. Era facto que alguns Zaweens se tornavam presas fáceis da sedução do crime, bem como nem todos conseguiam defesa com a facilidade, ou menor dificuldade, com que os Bandows conseguiam. Ele se aproveitou também dessa disparidade e se prontificou na defesa dos membros corrompidos do grupo, inicialmente gritando que eles não eram mais criminosos do que os do outro. Prolixia, retóricas e narrativas bem construídas eram empregadas fartamente, encantando ambos os grupos pela estética e por citações cuidadosamente incrustadas nos discursos.

        Tornou-se célebre e requisitado em ambos os grupos, que ele fazia questão de manter separados, como se as características de um fossem uma linha fronteiriça que o outro não deveria ultrapassar. Claro que de modo velado, com os explícitos ditos apenas em pequenos subgrupos que espalhavam esse viés de boca em boca, sem registros oficiais e sem qualquer comprometimento para com ele, como se tudo tivesse nascido naturalmente no seio dos Zaweens. Dizer que jamais deveria haver namoro e muito menos matrimônio com membros do outro grupo, que só os infratores do outro grupo eram criminosos e os deste apenas vítimas da sedução facilidade pelas circunstâncias desfavoráveis, que os membros do outro grupo deveriam arcar com os actos de seus ancestrais, entre outras coisas.

        A aceitação embasada em discursos de paz e união, cuja complexidade disfarçava a incitação subliminar ao separatismo litigioso. Um de seus passatempos preferido era arrotar erudição, enumerar todas as obras que já leu, as que estava lendo e tirar citações de memória, com formidável capacidade para encaixar qualquer uma no contexto vigente, ainda que combinando por contraste o prato estava feito com a indissociabilidade de todos os ingredientes. Afinal a maioria doz Zaweens e muitos Bandows só ouviam a ele, e o tinham como referência de intelectualidade e justiça. Se ele dizia, então era verdade e ponto final. Com o tempo isso ele evoluiu para “se ele diz é para acatar e ponto final”.

        Por vezes, e sempre ricamente documentado, ele mediava relações entre os grupos, sempre com o semblante sóbrio e misericordioso, unindo apertos de mãos, comandando as celebrações posteriores e discursando fartamente; inclusive porque algumas vezes isso era pedido. Após os folguedos, entretanto, cada grupo ia para seu canto e a única marca enfatizada era a de ele como promotor da paz e da justiça. Ele estava não só poderoso, por controlar o grosso da massa de Zaweens e alguns subgrupos de Bandows com complexo de culpa, mas também materialmente mais rico a cada dia. Nada era grátis, embora ele fizesse parecer que algumas coisas fossem. Seus livros custavam para ser impressos e postos à venda, e sua parte nos dividendos não era pequena. Entrevistas fora de hora ou agendadas nem sempre eram de sua cortesia, especialmente em caso de deslocamentos mais longos e prolongados.

        Muitos Bandows e alguns Zaweens, dia após dia, desconfiavam das reais intenções de tanto empenho para, quando investigavam a fundo, bem pouco ou nenhum resultado útil à comunidade, que ele insistia em manter como grupos opostos e até imiscíveis. Mas a inércia Bandow, que mantinha o grupo como mero expectador, ele explorava como indiferença ou mesmo conformismo com a situação de privilégio histórico. Eles apenas queriam ver até onde tudo aquilo iria, imersos em seus mundos particulares e seus dramas pessoais; o mesmo que fazia o Zaween médio, muito preocupado em sobreviver e resolver seus problemas, o que indirectamente delegava a ele poderes de Estado para tratar de assuntos coletivos ou, com ele fazia questão de ilustrar, da causa Zaween. Um dos métodos para preservar a tal causa era amenizar, ignorar ou até mesmo ocultar, lançando mão de todo e qualquer expediente que julgasse necessário, qualquer notícia de conflitos internos, mesmo os que resultassem em óbito. A violência não demorou a ser um desses expedientes, e só era bem conhecida entre os Zaweens, que se dividia, entre os que apoiavam e os que temiam essa repressão; ou validação social de informação, como ele preferia chamar. Os eufemismos eram profícuos.

        Um dia vazou. Ele sabia que vazaria, mas também sabia que já tinha controle muito amplo e profundo da situação para ser detido. Sabia que tudo o que dissessem a seu respeito passaria pelo filtro doutrinário que impôs ao seu grupo, e quem ousasse discordar em público seria hostilizado pela comunidade. Até mesmo quem suspeitassem acreditar em outras fontes o era, não raro uma conversa inicialmente amistosa se tornava um interrogatório, e sua vítima era exposta com sua face marcada como estigma. Todas as atenções deveriam ser focadas nas agressões dos Bandows e exploradas ao extremo, sempre citadas em todas as discussões futuras, as agressões em contrário deveriam ser alardeadas como resgate histórico, pois um Zaween talvez não soubesse o motivo da agressão, mas o Bandow sabia o motivo de ter sido agredido.

        Os poucos Bandows que ainda acreditavam no direito de subjugar os Zaweens se valeram disso para legitimar seus discursos, enquanto os radicais mais próximos dele utilizavam esses Bandows como exemplo de generalização. Ele subiu o tom pregando que qualquer um que não acreditasse na perversidade Bandow, estaria na verdade negando o passado e todo o sofrimento dos antepassados Zaweens; não explicitamente, mas à sua maneira, com discursos que duravam horas, textos de muitas páginas, centenas de citações devidamente encaixadas, memórias de mártires e eufemismos a rodo. Seus seguidores mais próximos passaram a culpar explicitamente os Bandows de então pelo que seus tataravós fizeram, mesmo que não tenham feito, e já falavam abertamente em justiça histórica com “Bandow nasce culpado e todo bebê Bandow deve ser exterminado”.

        Decerto que muitos Zaweens se levantaram contra esse discurso, mas sabendo que viriam represálias, e elas vieram em graus e formas de acordo com o autor da afronta. Desde “alienado” a até “traidor da causa”, as acusações definiam a punição interna, sempre sem o conhecimento de outros grupos. Quando vazava, era devidamente banhado nas águas dos longos discursos repletos de citações, eufemismos, neologismos e com o tempero da emotividade muitas vezes contraditória, mas que geralmente funcionava. Tentar reescrever a história, difamar personagens Bandows, mesmos os que beneficiaram Zaweens em suas épocas, e tentar proibir literaturas que não corroborassem com sua narrativa, tornou-se prática comum.

        Para o acirramento de ânimos e eriçamento de pêlos foi uma fagulha, bastou uma agressão de Bandow a um Zaween para os reais teores dos discursos virem à tona. Ele entretanto já tinha tantos seguidores em tantas espheras da sociedade, que estes faziam parecer que tudo o que ele dizia e seus seguidores próximos praticavam era justo e necessário. Os radicais do outro lado, indignados com a placidez de seu grupo diante de tudo isso, adoptaram as mesmas máximas e práticas. Do jeito que ele previa, queria e no fundo fomentava. Ser odiado pelo grupo inimigo, para seus partidários, era prova de que ele estava certo e que o que tudo o que fora feito ainda era pouco. O caos subliminar estava instalado e ele prosperou enquanto estava vivo, aliando-se inclusive a tiranias e inimigos de seu próprio país para se consolidar e enriquecer mais.

        Décadas se passaram até tudo o que ele realmente fez ser comprovado, mas o estrago e o atraso já estavam feitos, e ainda então havia quem concordasse com o que fez.

31/05/2020

Você fala de amor, mas cultiva o ódio



        Primeiro vou passar mel, para vocês verem que nem tudo está perdido. As pessoas começam a perceber que podem ficar em uma fila sem se esfregar e fungar no cangote de quem está na frente. Apesar daqueles que se mudam para apartamentos sem ter civilidade sequer para morar na roça, a população no geral está evoluindo e descobrindo que é bom ter um espaço para mover os braços, virar-se para os lados, enfim, que ninguém precisa se esfregar em estranhos para provar que não é frio e distante. Provavelmente isso será incorporado ao comportamento coletivo, quando a crise passar. Com isso fica mais fácil ler os gestos e antecipar os movimentos do outro, o que é péssimo para a criminalidade.

        Também o hábito de virar o rosto para espirrar ou tossir, em vez de encarar o outro e chamar para a briga se reclamar, da sorte que provavelmente menos gente cutucando os outros com o cotovelo, para beber algo, é uma realidade consistente a se considerar. Em parte pelo temor de ainda se poder ser contaminado com algo, nos próximos anos o comportamento nos botequins será menos rude e beligerante. Isso se aplica à higiene, pois as pessoas já acessam quase que mecanicamente os frascos de álcool disponíveis nos estabelecimentos. Não é mais aquela coisa de ler o que está escrito naquela coisa esquisita que colocaram ali, e então decidir se usa ou não, a higiene do brasileiro está se alastrando para os ambientes externos, não mais apenas em tomar banho todos os dias e escovar os dentes após cada refeição; o que convenhamos, é bem mais do que a maioria dos outros povos faz. Também a saúde do próximo agora importa mais, o que poderá esfriar com o fim da crise, mas os resquícios já têm raízes para crescer.

        As empresas com saúde financeira para se manterem durante a crise, estão aproveitando o hiato para reformular métodos de produção e refinar projectos. Além do mais, os que já estavam em andamento, e que por isso já tinham recursos disponibilizados, ganharam mais atenção e notoriedade, com isso também mais apoio. Mais ou menos como quando um conjunto de louças sofre um acidente e os remanescentes passam a ser cuidados com mais esmero. Como uma fábrica de baterias muito sofisticadas que escolheu o Brasil (ver aqui) como sede. Fora a imensa fábrica de baterias de lítio que a GM está construindo nos Estados Unidos, além da que a Tesla já tem. Estamos concentrando esforços e resultados em nossos territórios, tudo isso trará bons frutos para todos os setores da sociedade. Além dos avanços na indústria espacial com a volta de espaçonaves reutilizáveis, o sonho dos anos 1950 (ver aqui) foi reactivado.

        A maior demanda fez até o presidente ver que a infraestrutura de telecomunicações no Brasil, inclusive a internet, é pífia; como todas as outras, aliás. Eles estão tentando ganhar tempo com gravações medonhas, afirmando que seu efetivo está todo em casa, mas isso não sobreviverá à crise. Se até a Globo corre o risco de perder a concessão, imaginem eles. Terão que se virar para prestarem integralmente os serviços que vendem, porque a vinda de empresas sérias do ramo será inevitável. E a menor emissão de poluentes tem feito as pessoas apreciarem seriamente o ambiente limpo (ver aqui e aqui), não falo de narrativas discursivas antissistema, as pessoas começaram realmente a se importar com água limpa, ar limpo, chão limpo e, em alguns casos, até consciência limpa. Paralelo a isso, as pesquisas das viações aéreas para combustíveis limpos estão avançando rápido, notadamente nos de origem vegetal; ou seja, carbono negativo, já que nem toda a planta é aproveitada na reação, parte então volta ao solo como fertilizante.

        Um efeito colateral das pesquisas para uma vacina eficaz, é que outras doenças acabarão recebendo tratamento também, cedo ou tarde as substâncias descartadas para uso no covid 19 se revelarão eficazes para outros casos, talvez até como terapia complementar à pesquisa original. Também estão acordando para a necessidade de manter leitos hospitalares sempre prontos, com isso a produção de equipamentos e insumos médicos cresceu, o que acaba reduzindo o custo unitário de cada um, reduzindo os investimentos para construção de clínicas e hospitais. A disseminação forçada das técnicas de produção, bem como os aprimoramentos resultantes,  farão a alegria dos acadêmicos de medicina e odontologia, quando se formarem.

        Quando essa crise passar, as pessoas vão voltar às compras e às viagens com uma sede jamais vista, não haverá aviões, hotéis, empresas e prestadores de serviços suficientes. As empresas que voltaram a fabricar em seus países de origem terão muito, mas muito trabalho!

    Agora vamos à bronca, mas se quiserem aproveitar um pouco mais e ler a segunda parte mais tarde, fiquem à vontade.

        Tu, que chamas os outros de gado, que pensa ser a parte boazinha da história e que faz vistas grossas às atrocidades de seus ídolos! Vive dizendo "só queremos amor", enchendo as redes sociais com mensagens elevadas e de amor ao próximo, compartilha qualquer coisa que trate contra o que o outro fez ou teria feito, faz ou aceita interpretações forçadas bastando ser contra seu desafeto, usa bordões criados na guerra fria para desqualificar democracias, tu estás longe de saber amar.

        Poucas vezes eu vi tanta gente destilando sua raiva e suas frustrações sobre os outros, seja presencial ou em redes sociais. A intolerância a conclusões diferentes de um mesmo estudo, quando o há, chegou a níveis dogmáticos, como se novas guerras santas eclodissem e cada um repetisse que deus é seu e ninguém tasca! Gente que se dizia boa e pacífica está praticamente evocando heróis ideológicos, alguns deles infanticidas, para assassinar o presidente e quem mais concordar com ele, seja em que grau for. E vice-versa. A mídia, depois de perder o auxílio-vistas-grossas, aproveita para se vingar e lucrar o quanto puder. A regra é simplesmente repetir à exaustão o que querem que vocês, patetas que pensam ser intelectuais, querem ouvir, mas do modo como eles querem que vocês ouçam.

        Não é de hoje que a imprensa faz as coisas parecerem piores do que são, e até pintam de cenas de terror em situações que foram resolvidas sem maiores dramas, como aqui. Nas últimas crises o noticiário foi de apocalipse, digno dos canais de teorias conspiratórias mais mequetrefes, mas ornando com gráficos, estatísticas e efeitos de computador, para dar credibilidade. Findada a crise, eis que os países descritos como extintos estão sãos e prósperos novamente, como se toda aquela infraestrutura tivesse brotado de um colisor de hádrons.

        Depois do que fizeram à Polônia, editando a imagem de um desfile e depois se fazendo de vítima de perseguição pela "extrema-direita", agora estão acusando os ucranianos de fazer apologia ao nazismo, por causa da bandeira rubro-negra em uma passeata pró governo, que é uma instituição ucraniana! E vocês, em vez de se certificarem da veracidade dessa bobagem, como exigem que os outros façam apontando seus dedos a eles, simplesmente acreditam e compartilham porque alimenta suas crenças e suas birras. Só lêem e compartilham o que terceiros, mesmo subliminarmente mandam, e ainda chamam os outros de gado!

        A velha máxima de eliminar quem não tiver as mesmas crenças, tão combatida como artifício cristão medieval de dominação, ganhou sua versão digital. E indo além, ainda passam a falar mal do "ex-amigo". Não obstante o cenário de inimizades que só interessa aos verdadeiros algozes, vejo acontecer o mesmo em ambientes de trabalho e famílias, pelos menos motivos, com as mesmas reações e agravado pelos laços pessoais. Só que aqui não é tão fácil bloquear e fazer textão lacrador, porque as pessoas são de verdade, as situações são de verdade, e as punições que vierem também serão de verdade. Ou seja, não satisfeitos em dividir a população, agora dividem famílias também. Ajudar? Não, nem pensar! Vocês alimentam isso, dizem que é inviável porque o outro é uma ameaça, que ele se finge de amigo e quer matar todo mundo! Alguns vêem cenas de décadas longínquas e não contextualizam, simplesmente apontam seus dedos rancorosos e caçam briga com quem simplesmente achar aquilo bonito.

        Toda aquela conversa de dialogar e não julgar foi segregada para o âmbito das conveniências, como não ver o que não quiser ver e não deixar ninguém mais ver, dane-se quem estiver no mesmo sofá e quiser tirar suas próprias conclusões, é terminantemente proibido! Diálogo, paz e perdão são reservados exclusivamente aos que cabem no discurso e a ninguém mais. Acusar os outros de nazifascistas, inclusive INVENTANDO critérios que caibam na narrativa, chegam a atingir até quem foi vítima do regime. O que ninguém quer é ouvir quem realmente sabe o que foi aquilo, a estes é reservada a difamação pela imprensa, que conta com o pronto e irrestrito crédito de vocês.

        Vocês acusam, mas fazem precisamente o mesmo de que acusam os outros. A preocupação com as pessoas em dificuldades deixa de ser o objecto para ser um mero pretexto para a disseminação desse ódio. Não demora a aparecerem listas de pessoas que devem ser evitadas e, não muito depois, a serem hostilizadas, seja em rede, seja ao vivo. Daí para agressões físicas, é um passo que muitos de vocês estão dispostos a dar... aliás, já acontece. Pessoas já são terminantemente proibidas de emitir opiniões em suas próprias casas... inclusive eu. Eu já peguei nojo de discursos e discursadores. Vocês pensam que são esclarecidos, pensam que são cristão, pensam que são os bons história, mas não são. Vocês não sabem amar, não sabem compreender, não sabem perdoar, não sabem acolher, não sabem porcaria nenhuma! Não com quem não lhes convém. Repetem com pouquíssimas variações o que lhes for subliminarmente ordenado e arrotam virtudes que não têm, inclusive a da liberdade.

        Às vezes me pergunto onde teria parado aquela produtividade te textos que tive outrora, quase sempre a resposta é que eu me cansei. Insisto de teimoso, mas aquela profusão de vários textos por mês em vários blogs especializados, além deste, já não tenho mais ânimo e nem paciência... nem quem merece esse trabalho todo. É também por isso que estou me afastando paulatinamente das pessoas. Se as já distantes sentem minha falta o não, não vem ao caso. Não é mais minha responsabilidade.

06/05/2020

Celebrituber

Obra de Leo Burnett Taylor


Celebrituber 1

        Gente, eu estou muito preocupado com toda essa questão do corona vírus! Ouvi falar que os macacos da Amazônia decidiram se vingar dos caçadores, mas como pra eles gente é tudo igual, decidiram contaminar todo mundo! E isso é culpa nossa, tá! Por causa da nossa destruição da natureza, tá! É a natureza querendo se vingar de nós, porque invadimos e destruímos o meio ambiente dela, tá! Vamos ser mais conscientes, gente! Parem de comprar productos industrializados, porque a indústria destrói a natureza, e a natureza destruída vai se vingar mandando mais vírus e mais poluição pra cima da gente! Eu estou aqui, em um acto de bondade, do meu laptop de última geração repleto de metais pesados e que eu troco de seis em seis meses, para vocês botarem a mão na consciência e pra parar de destruir o meio ambiente! Mas é pra parar tudo agora! Assim que eu publicar esse vídeo eu quero ver o mundo transformado em uma utopia natureba, com leões e tigres se alimentando de brócolis! Os mesmos leões e tigres que estão ameaçados de extinção na Amazônia, por causa da ganância do ser humano! Eu odeio ser humano! O ser humano é a causa de tudo de ruim! Tudo! O dia em que o ser humano sumir, seremos todos felizes e viveremos em harmonia com a natureza.

        Outro dia eu ouvi falar no jornal... Ou foi na internet? Não importa! Importa é que eu vi que já tem mais de sete bilhões de pessoas na Terra! Gente! Como é que pode isso?? Pára tudo que eu quero descer!!!! Tem que acabar com isso! Tem que parar de nascer tanta gente todo ano, senão a natureza não aguenta! Aí ninguém tem espaço pra nada, todo mundo fica relando, esquece de usar camisinha e PÁ! Pega corona vírus! E eu, que não tenho nada com isso, é que sofro quarentada no meu apartamento, sem poder sair nem pra praça, pedindo delivery pra tudo! Hoje mesmo já pedi treze! Inclusive os fast food com três embalagens cada um e um monte de talheres de plástico, mas isso eu jogo fora porque... Gente, sério! Acham mesmo que eu vou comer com garfinho de plástico? Plástico é veneno pra natureza! Eu não compro plástico! Tudo meu é cem por cento natural com grife! Jogo tudo no lixo pro caminhão levar mesmo, porque senão vai poluir a natureza!

        Eu, se eu pudesse eu vivia dentro da natureza, cercada de mata, de bichos, de flores e só ia tomar banho de cachoeira! Porque se é da natureza, gente, só faz bem, né! Até picada de cascavel da natureza faz bem, né! Mas eu não posso, ainda, porque sei que meus seguidores vão curtir, comentar, mandar todo mundo se inscrever e compartilhar esse vídeo, que é pra monetizar e me ajudar a realizar meu sonho de viver no meio da natureza, sem nunca mais precisar de dinheiro e nem de trabalhar! E pra isso tem promoção! Se em meia hora eu conseguir um milhão de inscritos, vou postar um vídeo meu comendo um super combo refeição máster com todos os bonequinhos do final delirium, e tudo ao vivo, na frente de vocês! Então vai lá, aperta o botão que já vou chamar o delivery! Porque se eu sair, vou queimar combustíveis fósseis que destroem a camada de aquecimento do ozônio, é melhor chamar que a comida vem rapisinho, sem nenhuma poluição!

Celebrituber 2

        Galera, aí! Vou fazer um rolê de vovorolla todo fuçado, aí! Vou arrepiar, saca só! Roda aro 25 com pneu perfil 0,5! Sinissssssstro!!!!! Vamo nessa? Demorou, aí! Vamos começar por onde? Ah, pela contramão, claro! Ao vivo! Curte a live e chama a galera pra curtir comigo! Mim deixa ver... ninguém olhando, então não vai ter multa... ENTÃO VAI DE NITRO NA CONTRAMÃO!!!!! UUUUUUUUUUUUUUUHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!!!!! VAI BUZINAR NA CASA DO CARVALHO, BABACA! AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!! Otário... Sente só o turbo, galera!!!! Olha só o assovio! Uuuuhuuuuuuuuuu! As placa tá tudo virara pro outro lado, então eu nem sei o que tá escrito, então não tô fazendo nada errado... Mentira, tô sim!!!! Aha, aha, aha, aha!!!!!! Ah, prohas, já tem trânsito pra atrapalhar meu rolê??? Mais não vai mesmo!!!! Vô cortar todo mundo!!!!! Ahahahahahahahahahahahahah!!!!!! Nem sei quê que eles tão gritando, deve tar xingando até a minha bisavó! Aha, aha, aha, aha! Quem para no sinal vermelho é cool de frango, eu sou é fodão!

        Galera, aí! Tô a mais de duzentos numa rua de quarenta por hora! Tô arrepiando! Vô colocar um filtro no celular, quê que cês acha? Vai esse? Não? Esse? Ah, esse aqui sim, realça a minha virilidade! Olha sói, galera, tá tudo ficando pra trás, parecendo um risco! PASSEI UMA CORVETTE!!!!!!! Tô parecendo o Vin Otto do Velozes e Fedegosos! É ou não é? Olha lá a velhinha, ela quer atravessar a rua! Mas eu vô atravessar primeiro! VAI NITROOOOOOO!!!!!!! AHA! AHA! AHA! AHA! Quase atropelei a véia! Deve ter enfardado de susto! Lugar de pedestre é na calçada, vagabundo! Rua é pra gente correr! Que prohas de ambulância o quê, quem vai passar primeiro é eu! Não vai ser um minuto que vai matar quem tá lá dentro! Ah, vai se fudê, fi de quenga!!!! Passei messssmo!!!!!!

        Hein???? Proibido converter à direita? Ué, não sou pastor pra converter ninguém! Vou pra direita! Aha, aha, aha, aha! Tá todo mundo na contramão, só eu que tô certo!!! Aí, galega, arrepiando na live!!!!!! Uuuuuuhuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!! Acho que vô fazer um drifit naquele queijinho lá, quê que cês acham? Ah, masss vô mesmo!!!!! VAI NITRO!!!!!!!!!!! UUUUUUUUUUUHHHHUUUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!! Mais uma volta!!!!! VAI TER QUE MIM ESPERAR TERMINAR, BABACA, DEPOIS CÊS PASSA!!!!! Aha, aha, aha, aha! Olha só! Tem hospital na área! Vô dar um rolê antes de voltar e cumprimentar os parças de lá! Não conheço ninguém mais vô estrear a buzina náutica que instalei! Aha, aha, aha, aha! FUUUUUUUOOOOOOOOOO-HOOOOOOOOOOOOOOOOOOONNNNNNMMMMMMMM!!!!!!!!!! AHA, AHA, AHA, AHA!!!!! Se tinha alguém na cirurgia, morreu!!!!

        Cheguei na minha rua, e na contramão.... Curtiram aí? Vai ter mais! Curte, comenta, se inscreve e compartilha com todo mundo, que eu faço outra live mais sinistra ainda, do que... Que prohas é aquela lá? Polícia no meu prédio??? Nó, essa live tá rendendo!!! Quê que foi... Ei! Me larga! Eu não fiz nada!!!! Me solta! EU SOU CELEBRIDADE!!!!! JÁ FIZ NOVELA.... AI! AIAIAIAIAIAIAIAI!!!!!!! DIREITOS HUMANOS! A DITADURA VOLTOU!!!!!!! MANHÊEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!

Celebrituber 3
        
        Gente, eu estou muito, mas muito preocupada com coisas que estão acontecendo. Por que isso? O que vocês têm na cabeça de dar atenção para pessoas assim??? Estou aqui, na minha banheira de marfim cheia de champanhe em minha cobertura com heliporto, mas eu sei o que está acontecendo aí fora! Eu vejo pessoas saindo à rua!!!!! Ninguém precisa sair pra nada, hoje em dia eles entregam tudo! Que absurdo é esse, nesta época, com essas ameaças???? Eu já postei aqui um zilhão de dicas pra ficar em casa sem entediar! Fiz uma live na minha academia, ver no link acima, pra mostrar que ninguém precisa sair de casa pra ficar sarado! Se não tem todos os aparelhos, não tem problema, só os básicos já bastam!!!!! Meu arquiteto fez pra mim algumas plantas e tutoriais que vou disponibilizar pra vocês de GRAÇA! Assim qualquer um pode chegar ao fim da quarentena em forma, 20m², gente, é muito pouco espaço e você fica em forma!

        Vem comigo! Olha esse jardim suspenso! É coisa simplésima! Qualquer um pode tirar 50m² do quintal e fazer algo assim! Não precisa ser cheio de orquídeas negras, até porque são caras, precisam de climatização externa e sei que nem todo mundo pode ter isso, mas um jardim simples te deixa ocupada o dia inteiro, sem precisar pegar o elevador, sair pela portaria e se arriscar a uma contaminação indo até o jardim do bosque mais próximo! Eu fico aqui de boa, o dia todo, gravando lives e vídeos pra editar, sem precisar colocar meus pés pra fora da cobertura! Olha só que cantinho gostoso, essa espreguiçadeira com guarda-sol e mesinha ao lado de meu laguinho com clores de lótus púrpuras, gente! Tudo tão clean! Tão simples! Isso tira a vontade de sair, fala a verdade! Quando quero algo eu encomendo, pago pela internet mesmo e a portaria do condomínio já descontamina pra mim, quando chega. Ah, vai, qualquer um tem pagamento pela internet hoje! Hello! Século XXI! Todo mundo hoje em dia paga pelo débito, até mendigo recebe por débito! Aliás, eles também deveriam fazer homeworking e pedir esmolas pela internet, se arriscariam menos e arriscariam menos aos outros. Fica a dica.

        Ou se preferir, vai pelo básico mesmo! Todo mundo hoje tem serviço de streaming com tudo o que é entretenimento! Olha só que facilidade! Posso escolher qualquer vídeo, qualquer episódio de qualquer série de qualquer época, qualquer filme já disponível, qualquer programa de televisão e até pegadinhas! E os shows? Ah, nem precisa ser um home theater de 480 canais como o meu, um básico já transforma a sua sala em um cinema! Ou até em uma plateia de show! Tá todo mundo fazendo lives, já tem até patrocínio! Inclusive eu! E então, gente, vocês não precisam sair de casa por um ano inteiro, se precisar! A população inteira pode ficar de quarentena da dura, a gente tem tudo pronto pra consumir, é muito mais prático e seguro pra todo mundo!

        Eu sei que alguns de vocês são mais de uma vibe alternativa, então vem cá! Separei apenas 10m² do meu escritório e fiz um conceito aberto de um atelier de artesanato! Vem comigo! Ali vocês já conhecem o meu home office, todo mundo deveria fazer um desse em casa. Ali, olha que charme mais largadão e desapegado! Ali é o meu atelier, que deveria ser improvisado, mas gostei tanto que agora vai ficar aqui pra sempre! Olha que charme rústico, gente, é coisa super comum, super barata, super simples, que qualquer um pode fazer pra curtir a quarentena! Ó! Já tem coisas prontas aqui. é ou não é bárbaro, gente? Estou preparando vídeos tutoriais pra você fazer mil coisinhas pra se divertir e até quem sabe ganhar algum!

        Então, viram só? A gente tem espaço em casa, tem alternativas isolacionistas de entretenimento, é só querer e meter a cara! Ah, estão me avisando que o meu jantar já foi entregue e já vai subir! Viram? As ruas podem ficar completamente vazias, basta encomendar e mandar entregar, que ninguém mais fica doente! Olha lá, hein, estou confiando em vocês! Não vão me decepcionar!

        Como? Crianças? Que crianças? Ninguém mais tem criança em casa! Que mau gosto!

15/04/2020

Não é o chinês, é o partido



        Caríssimos, venho fazer um apelo que pode soar como, mas não é um discurso enfadonho de politicalha correcta. Faz tempo que ouço que o americano é culpado por não saber o que seu governo faz, como se outros governos não fossem iguais ou piores do que o deles, especialmente os autoritários, e é usando os mesmos peso e medida que peço para não discriminarem o cidadão chinês. O chinês comum, salvo raras exceções,  não sabe o que seu governo faz. Aliás, quase todo o 1,5 bilhão de chineses só sabe o que o pouco mais de um milhão de membros do PCC o deixa saber, e os poucos que sabem algo, também sabem que é melhor para suas vidas que esse milhão não saiba que sabem de algo.

        A época do regime militar que tivemos aqui foi nada, se comparada à repressão explícita e à onipresente propaganda estatal para intimidação popular que o governo chinês impõe ao povo. Se de 1964 a 1984 ainda se viam charges satirizando nossos governos, com os artistas vivos ainda hoje, lá isso pode custar o desaparecimento sumário do autor. Os chineses que teriam espalhado o corona vírus, nada mais teriam sido do que laranjas inocentes, gente que o governo escolheu para sacrificar em prol de seu interesse em um risco calculado, que agora eles sabem não ter sido tão bem calculado assim. De resto, os chineses sempre se mostram altamente receptivos a visitantes, chegam mesmo a nos achar lindos... mau gosto não é coisa só de brasileiro, meus amigos.

        Temos no Brasil casos de empresários imigrantes chineses que tratam muito mal os funcionários e tentam de todo jeito burlar nossas leis, que já não são lá essas coisas. Bem, esses são os chineses que a China nos apresentou, não são os chineses que muita gente conhece espontaneamente e com quem não tem problemas. Esqueça a política de Estado quando for conhecer a pessoa, especialmente quando essa pessoa simplesmente não sabe o que está fazendo, embora possa parecer que sim. Embora, como todo oriental de regra, eles preservem suas tradições, os chineses admiram tudo o que há no ocidente, a ponto de eles preservarem nossa cultura melhor do que nós mesmos. Para eles é um espanto o continente americano ter construído tradições tão bem resolvidas com tão pouco tempo de existência formal, bem como a velocidade com que nossos costumes se transformam.

        O isolamento de séculos que os países do extremo oriente se impuseram produziram culturas que são estranhas entre si até para eles, mas vamos ser francos, quem come intestino recheado com a carne do animal estripado não pode falar muita coisa dos hábitos alimentares deles. Há um problema sanitário que não difere muito do que encontramos em feiras dos rincões brasileiros mais afastados. Além do mais eles estão tentando se melhorar, e é no ocidentalismo que nós mesmos negligenciamos que eles se espelham para isso. A autocrítica nacional que temos aqui, e que saiu do controle, é coisa que eles não conheciam, especialmente os chineses. A ladainha de "nós levamos a guerra a outros povos" simplesmente não encontra eco entre eles, é coisa quase que exclusiva nossa, e usada com moderação tem efeitos quase milagrosos em uma cultura milenar.

        O modo e  velocidade com que aquela imensa região progrediu, foi por terem agido de modo ocidental para gerar esse progresso, adaptando à sua cultura o nosso modo de fazer as coisas. Lição que nós mesmos temos esquecido de modo vergonhoso, a parte boa da China se ergueu e evoluiu graças à nossa cultura de trabalho e vida pessoal, os ocidentais deveriam estar orgulhosos e venerar seus ancestrais como os chineses o fazem, mas não, os tratamos como monstros assassinos e agimos com escárnio se alguém tenta nos lembrar disso; especialmente os ditos "intelectuais". Nós deveríamos é trazer essas pessoas mais para perto, mas não muito enquanto durar a emergência pandêmica, e ocidentalizar ainda mais seus pensamentos, para que se dêem conta de que são eles que sustentam o governo e não o contrário, e assim pararem de ver um partido único e compulsório como um "pai severo".

        Aliás, sabiam que eles adoram carros americanos? Segundo eles, simplesmente não quebram, teriam a qualidade dos alemães de luxo sem custarem as fortunas que eles cobram. O mesmo vale para todo o resto, inclusive para o design em todas as áreas, como a moda e até a culinária. Achinezar modelitos ocidentais é uma arte que eles aprenderam bem, e roupas ocidentais são as preferidas para o cotidiano, em todas as faixas etárias de todas as faixas sócio econômicas. Claro, os exageros existem, algumas pessoas se perdem com o aparente poder repentino,  mas isso é outra história e não difere em nada de nós.

        Não foi pelas trapaças do regime que eles se ergueram, a ponto de hoje exportarem trens-bala, o chinês trabalha arduamente e não tem medo de passar por ridículo. Uma crítica a uma empresa, um produto ou serviço, por cruel que seja o crítico, não é levada para o lado pessoal, é usada como lição e parâmetro para correção de falhas. Vai criticar uma empresa brasileira, vai! Uma vez um motorista quase me bateu por eu ter reclamado do ônibus, que era uma porcaria e não andava nada! E eles têm monopólio de suas linhas!

        Toda a leveza e atenção à beleza que perdemos desde os anos 1970, eles não só preservam como cultivam, tudo ornamentado pelas coisas que receberam de nós. Os chineses não têm medo de parecerem piegas, da mesma forma as chinesas não rejeitam a feminilidade, e nem por isso abrem mão de serem independentes como mulheres realmente modernas. Disso vem a criatividade e a capacidade de adaptação que eles têm. Eles ouvem, eles fabricam o que nós queremos sem firulas, sem burocracias desnecessárias, sem hesitação. Funcionou, fabrica; não funcionou, faça outra coisa. É um pragmatismo que já tivemos e perdemos com o tempo, por isso os orientais nos ultrapassaram com tanta facilidade. Recebê-los bem e trazê-los para o nosso lado é o mais sensato a se fazer, é assim e não apontando o dedo que eles podem repensar alguns aspectos de sua cultura.

        Aliás, apontar o dedo e aceitar ser apontado é outra praga que assola o ocidente. Perdemos a capacidade de dialogar, hoje em dia temos monólogos entre várias pessoas, porque ninguém aceita mais conversar com discordantes. Quando um se aproxima, pode dar briga. Os orientais, pelo contrário, observam, fingem interesse, sorriem, dão tchau e puxam a descarga, sem levar para o lado pessoal.

        Alguns dizem que na China se fala livremente de política, mas francamente eu não sei até que ponto dizer "não sei se isso vai funcionar" e "deveríamos ter novos dirigentes" podem ser comparados, porque aqui ambos são tolerados, mas lá pode obrigar a família a pagar pela bala. Eles nunca tiveram democracia, então não sabem lidar com ela; ainda. Nós podemos mudar isso, se deixarmos nossa indignação para quem realmente deve ser alvo dela, e não é o povo. Ter perfis paralelos em redes sociais que lá são proibidas, ajudaria muito, e nossa malandragem ocidental é habituada a isso, mas agira seria por uma boa causa.

        Em troca, receberíamos todas aquelas lições de sabedoria e cabedal cultural que tanto e tão explicitamente admiramos, como a precisão e velocidade com que eles executam qualquer tarefa. Quem sabe se sentindo úteis e responsáveis por nós, e assim vendo mais sentido em suas vidas individuais, os índices de suicídio entre eles caia a patamares não alarmantes. Seria uma simbiose, compreendem? Deixamos a estupidez discriminatória de lado e de quebra minamos o poder do PCC por dentro, como um "câncer bom"; e não adianta eles lerem isso, os chineses estão demasiadamente espalhados e acostumados, é um pulo para eles aprenderem o jeitinho certo e disseminarem por debaixo do pano o que o governo quer longe do território chinês... bem, para quem acompanha as notícias de fontes que eles não compraram, é claro e iminente o declínio do regime. Lá isso não pode sequer ser comentado, mas aqui...

        Agora, por que eu ilustrei o texto com uma seqüência de uma jovem flagrada nas ruas de Pequim? Bem, primeiro porque eles também não têm a nossa neurose de querer ser esquecido para todo o sempre, com medo que uma imagem acidental possa condenar a alma ao inferno, a maioria de nós teme sem saber o quê e rejeita sem saber realmente o porquê. Se alguém lucrar com a imagem dela, ela simplesmente processa e ganha.
        Segundo pelo velho pragmatismo oriental, evocando a característica mamífera de se comover com a beleza, e assim facilitar a simpatia pela mensagem. Simples assim.

29/03/2020

TV Chin


   Em minutos tudo é assinado...

    - Sejam bem-vindos à nossa família.

    - Somos gratos pela recepção, estamos certos de que nossa parceria será profícua e longeva, pelo bem de nossos povos e pela glória de nosso bem amado regime!

    - Estamos certos de que será proveitosa e longeva! Faremos nosso intercâmbio e teremos acesso a uma cultura incrível!

    - Sim! Nossa cultura é incrível, milenar, popular e salvaguardada pelo nosso governo, ao contrário do seu! Não admitimos interferências externas em nossos assuntos, mas estamos prontos para ajudar vocês a se aprimorarem.

    - O material que vocês nos enviaram logo de início é maravilhoso!

    - Decerto que é, e deve ser exibido imediatamente, pelo bem de nossas relações bilaterais! Não se preocupem, mandaremos sempre mais e mais, e vocês exibirão no decorrer da grade, para afixar nas mentes dos brasileiros o quão glorioso é o nosso regime e todos os progressos que conseguimos graças à sua condução. Vamos, não percamos tempo, exibam isso já!

    - Claro! Claro! GILMAR!!!! Ponha isso agora para rodar, não discuta, eu sei que está no meio do show, apenas obedeça!

    - Muito bem, é este mesmo o tom: APENAS OBEDEÇA!

    - E quanto ao material que enviamos? Estamos ansiosos para saber da repercussão.

    - Não tenha pressa, o que é importante já foi conseguido! Seus vídeos serão analisados com justiça e clemência pelo nosso comitê de preservação da nossa cultura milenas inocente e bem intencionada! Faremos as edições e dublagens pertinentes de sua cultura exótica, então será liberado para nosso povo, devidamente salvaguardado de ideiais não condizentes com o nosso regime.

    - Certo... E quanto à nossa jornalista de honra, ela terá toda liberdade dentro de nossa bem conceituada emissora.

    - É bom que tenha mesmo, ela precisa enviar reletórios relugares para nosso comitê de imprensa! Aliás, ela deve ter total liberdade para discutir pautas e alteraçõea de grade, assim estaremos em maior sintonia.

    - É uma boa idéia, teremos um ponto de vista diferente para nossas discussões.

    - Expor idéias é bom, mas discutir muito só traz atrasos indesejáveis. Procurem ser pragmáticos e sensíveis às nossas sugestões, a tolerância e prestatividade para com nossas demandas será boa para todos nós. Oh, que glorioso futuro antevejo oara esta parceria!

    - Ah, já estão exibindo o material que vocês trouxeram... mas isso parece propaganda, política, me perdoe se estiver errado...

    - E ESTÁ! Não seja insolente! Não permita que sua ignorância para com as escolhas de outros povos turve sua visão e tendencie seu julgamento! Nosso povo escolheu por meio de nosso bem amado comitê os caminhos que hoje trilha, e obteve êxito! Ao contrário da armadilha de escolhas directas em que vocês caíram!

    - Me desculpe, não tive a intenção...

    - Não se preocupe, serei cemente e relevarei DESTA VEZ.  Veja! O material já foi exibido e sua programação voltou ao normal! Mas lembre-se, consulte-nos para quando houver notícias polêmicas! Somos seus amigos e sabemos que não querem nos ofender, por isso nossa representante terá toda alegria em ajudar vocês a ajustarem suaa pautas, e dará acesso amplo aos nossos noticiários, para que possam ter noções de gloriosa verdade!

    - Então vocês pretendem orientar nossa grade, é isso?

    - Não, não pretendemos! Já o estamos fazendo! Vamos salvar vocês da falência, das tendências perniciosas da alardeada liberdade de imprensa, da ilusão da democracia ocidental, da visão míope de suas opiniões próprias e da insolência em que as províncias rebeldes mergulharam!

  - Fala de Taywan e Hong Kong...

    - Não, ocidental estúpido! Falo de Coréia e Japão, que se aliaram aos inimigos de nossa ideologia e mantém suas armadas em territórios que são nossos por direito!

    - Malditos ianques! Sempre se metendo em assuntos alheios!

    - Sim, espalhando o veneno subversivo da livre expressão de pensamentos! Por isso são decadentes! Por isso serão subjugados! Não se preocupe, agora vocês estão sob nossa proteção. Vamos mudar o logotipo e o nome da emissora, assim ficará inequívoco que aqui as boas mudanças estão consolidadas!

    - Tudo por uma boa causa!

    - Sim, nossa causa é a boa causa, e agora é a sua causa também. Estude com afinco as regras e consulte sempre nossa representante, para que sua interpretação SEMPRE coincida com a nossa. Lembre-se, se algo errado acontecer, sua família pagará pela bala!