12/09/2019

O mundo pode ser seu - Diorama

Elgin Park e uma de suas obras.

            É bem difícil encontrar uma pessoa que não se encante com uma bela maquete, uma miniatura bem-feita, ou um diorama com grande riqueza de detalhes. Eu conheço gente assim, por isso posso dizer que é uma minoria indigna de qualquer estatística séria. No máximo traço de gráfico. Principalmente para quem não tem disponibilidade de espaço, seja em casa, seja em um espaço alugado ou cedido, uma coleção de miniaturas de boa qualidade enriquece muito qualquer ambiente, ainda mais quando se trata de um vintagista, que geralmente tem bom gosto acima da média. Há quem compre maquetes de lançamentos imobiliários, quando a obra fica pronta e as unidades já foram vendidas… uma maquete de trinta andares cabe na sala e, ao contrário do edifício, pode ser admirada em todos os ângulos e decorada ao gosto do dono, para efemérides, sem precisar da autorização do condomínio.



            Mesmo aqueles que podem ter os objectos originais, às vezes principalmente essas pessoas, têm um brilho quase pueril nos olhos ante a possibilidade de ter uma versão menor, que possa ser apreciada de modo que as dimensões do original não permitem. No caso de um carro, admirar a parte de baixo sem precisar de um elevador de oficina, e sem o risco de um acidente fatal, é uma terapia para conhecedores. Isso além do facto de que alguns carros são tão raros e disputados, que é mais fácil conseguir as fortunas que eles custam, do que alguém disposto a vender o seu. Já soube de um divórcio, nos anos 1980, por conta de um Duesemberg… a miniatura mais avantajada, cara e ricamente detalhada, não teria causado isso.



            Vamos ao básico. As diferenças fronteiriças entre miniatura, maquete e diorama não são rígidas e digitais, na verdade são muito analógicas e às vezes a linha que os divide é larga e difusa.



            Miniatura é justamente o que o nome diz, uma versão menor do que o objecto representado. É como um genérico de maquete e diorama. Se fosse do mesmo tamanho, seria réplica, que é outra coisa e outro assunto para um texto futuro. A miniatura pode ser um simples brinquedo mais sofisticado, com boa dose de detalhismo, para alegrar uma criança, mas também pode ser uma réplica em escala; um modo chique para denominar versões menores que são tão ricas em detalhes e em que as partes funcionam de modo tão fiel ao original, que uma boa sessão photográphica enganaria até mesmo experts, fazendo-os pensar que se trata de um original.



            Maquete é uma representação em tamanho menor de uma obra de grandes dimensões, mais utilizada na indústria da construção para que os potenciais clientes tenham uma idéia precisa do que pretendem comprar… ok, sabemos que muitas vezes existe uma distância astronômica entre o que é apresentado, e o que é realmente entregue, mas isso é um problema para o Procon, a polícia e o senso de direito e união de consumidores, que o brasileiro não tem. Enfim, a maquete é a miniatura levada ao profissionalismo, mas por isso mesmo se tornando algo mais, pela necessidade de dados e história e/ou prognósticos de que uma mera miniatura prescinde. E um prognóstico nada mais é do que uma especulação, por mais embasamento que tenha, da história futura. E história é justo o que conta uma réplica em escala de um P-47 Thunderbolt, por exemplo.



            Diorama… não, não me refiro a um evento da Dior e nem à pequena cidade do interior de Goiás. Diorama é quando a maquete é contextualizada no espaço-tempo. Por exemplo, uma réplica em escala de uma parede em ruínas com um piso de época e um soldado morto, se tiver bom grau de realismo, é um diorama de guerra, ainda que seja guerra urbana. E é aqui que o diorama se põe no topo da hierarquia dos três, existe a necessidade de realismo, o que quase sempre o torna mais caro e difícil de produzir do que uma simples (?) maquete. Um bom diorama pode levar anos para ficar pronto, mesmo ocupando o espaço de uma pesa pequena.



           A rigor, o primeiro diorama de verdade é o bonsai, ou pelo menos o seu precursor. Surgido na China do século VIII, caiu rapidamente no gosto dos japoneses, com suas sérias restrições de espaço, em especial dos monges, estes então podiam ter uma boa lembrança de um lugar sem precisar se apegar a ele, e sem possuir mais do que é capaz de carregar. Por volta do século XVIII o bonsai atingiu o estado de arte de que desfruta hoje, com técnicas tão refinadas que mesmo as menores versões podem ser capazes de gerar flores e frutos, reagindo às estações do ano como qualquer árvore normal. Isso, em um cenário em escala, é o suprassumo do realismo.



            É aqui que as cosias complicam para as pessoas comuns. Bonsais não são baratos e nem muito simples de se manter. Eles precisam de cuidados a mais do que uma simples planta pequena, o que inclui uma poda periódica das raízes, ou a planta vai crescer mais do que o desejado e, tristeza, deixar de ser um bonsai; o crescimento é irreversível. Assim como há pouca gente fazendo bonsais no Brasil, também há poucas aptas a prestar os devidos cuidados, o que dificulta e encarece sua manutenção.



            É por isso que existem as árvores de cenário, muitas compradas já prontas. Aliás, árvores, figuras humanas e de animais, mobília, veículos, enfim, tudo prontinho para quem se dispuser a pagar o preço… a maioria é importada, especialmente as de maior qualidade. É aqui que entra o talento brasileiro para o improviso…  e não, a casa da Barbie não é um diorama. A própria boneca não é realista o suficiente para isso, o que não significa que seus caros acessórios não permitam fazer um belo cenário de época, podem e os fãs mais bem remunerados montam alguns de rara beleza, mas tudo ainda fica com cara de brinquedo.
Se é para te fazer feliz, e é essa a premissa de ouro do miniaturismo, vale sim.



            O mais simples é fazer um cômodo aberto com duas ou três paredes e os móveis. Um quarto, por exemplo, pode ser feito sobrepondo e colando duas caixas de sapatos, que podem ser decoradas com imagens baixadas da internet, devidamente redimensionadas, incluindo papel de parede e piso. Um pouco de habilidades manuais é necessário, porque será preciso recortar, modela e até pintar, por menores que sejam as intervenções. Palitos de espetinho podem tanto reforçar as paredes, quanto formar a estrutura da mobília, com palitos de dentes formando as partes mais delicadas. Retalhos de tecidos, vendidos por uma ninharia, serviriam para a roupa de cama, tapetes e as cortinas, com arremates feitos com cola. Isto é tão básico quanto genérico, mas quem tiver paciência e perseverança, vai se surpreender com os resultados.



            Na verdade, até as pessoas próximas vão se surpreender com as suas mudanças, ainda que sutis, de comportamento. Toda forma de arte é um canal poderoso para o subconsciente, mas o miniaturismo põe tudo isso em três dimensões sólidas, facilitando muito o autoconhecimento e, se for o caso, o trabalho de um psicoterapeuta. Não só isso, a vida escolar é muito potencializada. Aqueles trabalhos sobre base de isopor que as crianças fazem, podem ser considerados rudimentos de um diorama e, se os adultos soubessem estimular em vez de simplesmente pressionar, o envolvimento de todos os sentidos tornaria o aprendizado não só mais rápido, mas também indelével. Pois é, muitos de vocês são miniaturistas e ainda não se deram conta.



            Como tudo o que fica acima da linha de cintura, a arte da miniaturização é ignorada ou mesmo malvista no Brasil. Lá fora, desculpem o clichê, existem empresas especializadas em suprir o mercado de amantes e profissionais da área, inclusive com a possibilidade de se comprar casas de época, em várias escalas, completas! Com precisão de medidas e riqueza de detalhes de fazer inveja a muitas casas de verdade. Imaginem poder encontrar aqui, casas, carros, trens, trilhos, árvores, animais e figuras de pessoas, tudo pronto para montar sua cidade de época; ou no máximo personalizar peças para que fiquem ao seu gosto. Imaginaram? Vão sonhando, porque pelo menos isso ainda é grátis. Aqui há poucas lojas, em poucas cidades, com comparativamente poucas escolhas a preços relativamente elevados, mesmo para os padrões dos miniaturistas profissionais. Decerto que a nossa baixíssima demanda conspira contra.



            Um expoente dos dioramas de época é Elgin Park. Ele costuma fazer ensaios que mesmo os olhos ais bem treinados, têm dificuldades em identificar como cenários em escala. Ele é um homem insuspeito, em seu aspecto até bucólico, mas domina técnicas altamente sofisticadas, unindo seu vasto cabedal a um talento artístico raro. Um pequeno carrinho a controle remoto, com uma câmera no lado do motorista, faria qualquer um se ver entrando em uma rua dos anos 1950, mesmo aplicando o zoom. A questão aqui é que um miniaturista do naipe de Park, sabe adequar a textura do objecto real às dimensões reduzidas do diorama. É esse o segredo e é essa a dificuldade maior, os materiais usados na vida real não terão sua granulação reduzida só por serem cortados em tamanhos menores, ou utilizados em porções menores. A água, por exemplo, tem viscosidade fixa, de acordo com a pressão atmosférica e a temperatura ambiente, assim um curso d’água em escala nunca terá o comportamento de um natural, o mesmo valendo para o vento. Uma miniaturização de alta ou extrema qualidade, não pode simplesmente utilizar a mesma matéria utilizada no tamanho real, não sem adaptações e até manipulação da fórmula. Daí a necessidade de estudar e praticar, como em tudo na vida, para fazer aquele diorama que bem poderia ser cenário de um filme.



            Algo que um miniaturista mais dedicado pode fazer por si mesmo, é estudar o bairro onde seus avós viveram e, quem sabe, conseguir reproduzir a casa de onde seus pais saíram. Advirto que se trata de uma tarefa extenuante, sem prazos plausíveis, e dependendo do caso pode ficar bem caro. Mas a satisfação de uma casa antiga, em que suas lembranças caminhem junto com seus sonhos, com um ou dois bonsais ladeando e um carrinho antigo na garagem, poderá fazer milagres desde o início do planejamento, até o dia em que ficar exposta no local definitivo. Aqui vem o bom senso, uma casa pequena não pode dedicar o espaço de uma mesa de jantar a uma peça de decoração. Ou se altera a escala, adicionando-se mais dificuldades, ou se simplifica o cenário; outro aprendizado para a vida adulta, que é o de fazer escolhas e arcar com elas.

A biblioteca de Bruce Wayne


            A minha intenção aqui não é transformar o Brasil em um polo mundial do miniaturismo, ainda mais o de época, apesar de que eu ficaria muito satisfeito com isso. Meu intento é dar aos leitores uma opção sadia e orientações mínimas para ocuparem seu tempo, e de quebra aumentar seu cabedal cultural, porque muitos dos que começam com quartinhos de caixas de sapatos, simplesmente não param mais de se aperfeiçoar. E com o aperfeiçoamento do hobby, vem também o pessoal.

Sobre a obra de Elgin Park, pela lente de Michael Paul Smith, clicar aqui e aqui.

Sobre Ali Alamedy, outro talento do miniaturismo, clicar aqui.

Sobre o miniaturista George O'Keffe, clicar aqui.

Sobre o brasileiro Leo de castro, clicar aqui.

Outros miniaturistas brasileiros, ainda desbravadores, clicar aqui.

Tutoriais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

09/09/2019

Uma luz no fim do túnel! Será o trem?


    De antemão deixo claro que ainda estou enfrentando problemas de toda sorte, tenho pulicado no Palavra de Nanael a duras custas, então compreendam que minha melhor forma ainda não foi retomada... mas a despeito da franca decadência ainda em curso dos blogs, tenho recebido algumas surpresas interessantes.

    Há algum tempo as estatísticas até então preguiçosas, têm reagido em pequenos picos com uma freqüência em lento crescimento. De início eu via aliviado os picos atingirem de dez a treze pontos, uma ou duas vezes por mês, no restante do período os blogs voltavam a ficar às moscas. Tudo bem, eu não esperava nem metade disso, depois que o Tweeter democratizou a preguiça de escrever e ler.

    Com mais dois ou três meses tive um incremento inesperado de acessos, que já batiam facilmente os trinta pontos, uma ou duas vezes por mês. Vendo as origens, notei que se instalou uma prática de rodízios nacionais. Os Estados Unidos deram o pontapé com picos sazonais de mais de trinta pontos, então o Brasil começou a reagir e emplaca de vinte a trinta pontos, de vez em quando. A Europa começou a tropeçar e cair aqui dentro, especialmente Alemanha e França, dando de quinze a vinte pontos em média, cada um. Ok, isso raspou um pouco do meu desânimo e passei a escrever um pouco mais para essa gente que não comenta. Decerto que poderia ser só um surto por um erro do motor de busca, mas a freqüência tem se tornado muito confiável.

    Há cerca de um mês tive uma grata surpresa da Ucrânia, cujos nativos certamente não entendem patavinas do que eu escrevo, mas há brasileiros por lá e é principalmente a eles que credito os noventa e seis pontos de acesso que recebi. Eu não esperava por isso, então também não esperava que isso se repetisse, mas se repetiu, e desta vez a Rússia quis saber o que eles estava lendo com tanto interesse.

    Sou gato escaldado, então não fiz expectativas, apenas respirei aliviado pelo rio picométrico de esperança que surgiu, e que de tão frágil eu seguro com a mínima firmeza necessária, para que não se rompa. Enfim, apenas aproveito o momento, que pelo menos isso é fruto de meu árduo esforço desde o ano de 2006.

    Hoje, entrando novamente nos bastidores, para espantar as moscas, eis que vejo o cenário que printei e exibo acima do texto. Pico de 116 dos 133 acessos só dos americanos, e crescendo. Nada mau para uma página que estava se cobrindo de limo, por falta de visitas. Decidi ver os acessos em meus outros blogs; À Bateria, Demônios Internos, Talicoisa e Vintage Way of Life. Pois as contagens estão muito semelhantes, sendo que a Vintage Way of Life bateu os 148 acessos hoje. O mais intrigante é que se trata de um dos blogs mais esporádicos.

    O que está acontecendo? Eu não sei... ainda. Só posso afirmar que o formato tradicional dos blogs não está cansado como muita gente pensava. Pode ser que os primeiros realmente tenham tropeçado e caído aqui por acidente, com certeza alguns estranharam o que viram e voltaram depois por pura curiosidade, mas isso está acontecendo em praticamente todos os blogs! Não tenho acesso às estatísticas do Talicoisa porque o Fio me deu o bolo, mas as visualizações dos 281 capítulos do Dead Train aumentaram. Então não é só um surto e não se trata mais apenas de mera curiosidade; não apenas curiosidade.

    Não tenho elementos para acreditar que retomaremos os tempos de glória dos blogs, mas seguramente os blogueiros voltarão a ter o prestígio e a relevância de outrora. Então, meus queridos, tirem seus textos da gaveta vamos blogar!

    E vocês, caros leitores, não tenham cerimônia, podem comentar.

06/09/2019

Como passar vexame na internet

   
Alfred E. Newman from Mad Magazine by Al Feldstein

    Dicas práticas e infalíveis para quem quer se queimar bonitinho, pelo menos uma delas servirá para o seu caso.

    Exista

    Ninguém precisa sequer ter uma conta de e-mail para ter sua figura publicada, compartilhada e achincalhada em rede mundial de computadores e, quem sabe, até mesmo em algum programa mequetrefe de televisão que vive de falar de outros programas de televisão e de vídeos bobos. Claro que há alguns processos aqui, outros acolá, mas o que eles ganham com publicidade supera em muito os valores das indenizações, imagine a quantidade de celebridades de baixa patente que ganhará com a exposição da tua imagem! Então, quando começarem a rir de ti ou te agredir sem motivo aparente, pode desconfiar disso.

    Clique à vontade

    A internet está repleta de janelas dos mais diversos tamanhos e com as mais inimagináveis artimanhas para te convencer a clicar. Afinal, que mal pode acontecer... além de roubarem tuas senhas, invadirem tuas contas, clonarem teus documentos, fazerem compras e empréstimos no tem nome, te colocarem como suspeito de crimes, colocarem a polícia federal à tua porta logo de manhã bem cedo e assediarem com ameaças todos os teus contatos? Bem, o mínimo que pode acontecer é teus dados serem usados para passar aquelas correntes ridículas, espalhar teorias conspiratórias e fake news, passar malas diretas e espalhar vírus para todos a tua lista de relacionamento. Eles vão adorar.

    Compartilhe sem checar

    Desde teorias conspiratórias até as velhas e famigeradas correntes para aquela criança fictícia, compartilhe tudo e mande para o máximo de pessoas que puder. Embase tudo em pesquisas que nunca foram feitas por cientistas que nunca existiram em universidades famosas que nunca foram abertas. Mas compartilhe sem medo de ser feliz, mostrando para todos o quanto o resto do mundo está errado e só o teu grupinho de espertos está certo, negando inclusive as leis da física, as mesmas que fazem o teu computador funcionar. Sua carinha não demorará a estampar memes de todos os estilos e em todos os idiomas inimagináveis.

    Emita uma opinião

    Diz o velho deitado que os mais ferrenhos e activos defensores da liberdade costumam ser justo os piores inimigos da liberdade alheia: "Você é livre para ser e fazer o que eu sou e faço". A internet está cheia deles. As redes sociais então, lá nós tropeçamos neles a cada postagem aberta. Escolha qualquer uma, seja sincero e manda bala. Não dou meia hora para uma legião de inimigos instantâneos aparecerem e te atormentarem de tal modo, tão massivamente, que não terás tempo sequer para contra-argumentar sem que centenas de comentários jocosos e ameaçadores se colocarem entre a tua resposta e o primeiro reclamante, então tudo o que escreveres vai parecer ridículo e sem sentido. Isso não será por acaso, será de propósito, não deixar o outro falar é a tática básica, bem como inventar argumentos em longos textos para te fazer parecer inculto. Tua fala vai correr o mundo.

    Faça textões lacradores

    Nada como um catatau digital, prolixo e repetitivo, para te fazer se sentir o amo e senhor da razão, até porque tem gente que acredita que isso resolve alguma coisa e adora adular lacradores. Capriche na argumentação, faça o maior número possível de citações, force a barra para que tudo se encaixe e não deixe isso por menos de cinqüenta longos parágrafos. Não menos importante, se esmere em desqualificar quem pensar diferente do que tiveres escrito, e peça para compartilharem. Em cinco minutos a tua fama de chato sem conteúdo que se leva à sério estará consolidada. Os teus fãs logo virão em tua defesa, decerto que sim, mas isso será oxigênio para a fogueira cibernética que queimará teu filme. Mas não se intimide, faça mais textões ainda maiores e mais lacradores, alegue perseguição e chore pitangas pelo teclado, diga que estão tentando calar tua voz e que setores da sociedade repressora não querem que o mundo saiba da verdade, então evoque todo o cabedal de citações e referências e pronto, já estarás se levando a sério e ninguém mais no mundo o fará.

    Peça uma opinião

    Isso é o básico de todos os erros. Centenas ou mesmo milhares de opinadores malucos aparecerão na tua linha de tempo, mas não é este o problema, não o maior de muitos, o problema é que todos vão se digladiar para cada um impor seu ponto de vista, opinião, dogma, ideologia, citação e o escambau. Mesmo que duas pessoas escrevam basicamente a mesma coisa, se não o fizerem de forma essencialmente semelhante, vão brigar assim mesmo. Tua linha de tempo se tornará um inferno apocalíptico e teu perfil será sinônimo de chacota, tomado imediatamente como exemplo a ser evitado por quem quer ter um mínimo do instável sossego da rede.

    Emita tua opinião leiga em um tópico técnico

    Algo como "se fosse bom já teriam inventado" ou "as grandes corporações vão matar ele", básicos de quem acredita em teorias conspiratórias, mas jamais se dedica ao estudo de um tema afim, será garantia de milhares de respostas de quem realmente conhece o assunto, desde os simples curiosos até pós-doutores, mastigando conceitos e resultados de estudos que provam que estás sentado bem encima daquilo que negaste, e mesmo tão mastigado não vais entender pois, bem, és um leigo pateta e não tens conhecimento nem para ter dúvidas. Então tens dois caminhos aqui, um é pôr o rabinho entre as pernas, o outro é insistir com argumentações simplistas, que é o que a maioria faz... então sim a tua candidatura ao Ignóbil estará lançada.

    Banque o intelectual incompreendido

    Esta é infalível. Adopte ou mesmo invente neologismos longos e intrincados, tanto melhor quanto mais estúrdios forem, e use-os em profusão, faça discursos acalorados até para responder a um "olá". Sim, cedo ou tarde alguém vai questionar essa prolixia supérflua, mas isso é bom para o vexame, use isso como uma afronta à tua liberdade básica de expressão enquanto livre pensador incompreendido oprimido pelo patriarcado jucaido-cristão ocidental imperialista pós-neoliberal sapiofóbico na figura aleatória e dissipadora de seus agentes inconscientes manipulados pela grande mídia acobertadora de conspirações notórias do grande poder central. Não se esqueça de construir suas falas de modo que só as tuas regras funcionem, ainda que precises revogar todas as leis da termodinâmica. Com o tempo vais se levar tão a sério, e achar tão genial, tão melhor do que este mundo indigno e ignorante, que vais se viciar nisso e tudo isso vai se retroalimentar até te isolar em teu mundo de teorias. Pronto, já és o protótipo e paradigma do internauta pagador de mico. Vais fazer questão de passar vexame, até porque sem isso o teu ego inflado de pseudointelectual não conseguiria se sustentar.

    Por fim, se tens dúvida sobre teres passado algum vexame sem teres percebido, lembre-se de um ditado dos jogos profissionais de carteado: Se você não sabe quem é o trouxa à mesa, então o trouxa é você.

30/08/2019

A lição do peixe-espada

Fairey Swordfish


            A bela matéria de Ernesto Klotzel para a revista Aero Magazine nº 302 tem apenas quatro páginas, três com texto, infelizmente, pois o assunto teria preenchido facilmente mais duas ou três sem perder conteúdo. E é justo a última matéria da edição, cuja leitura poderia ter sido melhor encerrada com algumas páginas a mais, que deu o gancho para um assunto que quero tratar há muito tempo.



            Vamos ao foco. Com a competência de sempre, a publicação contou mais um capítulo da história da aviação, no caso a militar, tratando de um avião que teria tudo para ser um desastre completo em ação, mas foi o pesadelo da então moderníssima frota naval nazifascista. O torpedeiro Fairey Swordfish era obsoleto em 1933, quando o primeiro protótipo ficou pronto. Uma aeronave biplano que levava a tripulação exposta, com baixo desempenho e estrutura coberta por tela em vez de metal era o retrato tridimensional dos anos 1910. Teria sido um sucesso na 1ª guerra, mas o foi na 2ª. Mais ou menos como se o Fusca Itamar fosse lançado hoje para concorrer com o Kwid e roubasse seu público.



            Claro que a Alemanha ria com escárnio de uma aeronave que não excedia 130
"Bismarck". Art by Nick Clarke.
milhas por hora, numa época em que 300 milhas por hora não eram grande coisa na aviação de guerra. O Swordfish era quase como o caranguejo ferradura, um fóssil vivo entre espécies modernas, muito fácil de ser derrubado por qualquer artilharia da época, se fosse atingido. Entretanto, essa obsolescência lhe dava trunfos. A configuração biplano e a baixa velocidade operacional lhe davam uma manobrabilidade extraordinária, tendo havido relatos de caças alemães se chocando contra o mar ou até contra outro caça amigo, no melhor estilo da Esquadrilha Abutre da Hanna Barbera.




            O maior trunfo do modelo era justo deixar o piloto pilotar, e com isso a Real Força Aérea conseguia tripulações de altíssimo nível, com alguns pilotos extraordinários manobrando aviões capazes de acrobacias impossíveis nos velozes e pesados caças modernos da época. As más-línguas compatriotas diziam que sua artilharia estava um nível acima do arco e flecha, mas foi suficiente. Seus torpedos eram igualmente anacrônicos e limitados, mas eles afundaram quase um milhão de toneladas da frota nazifascista; e olha que os navios da época parecem de brinquedo, se comparados às cidades flutuantes de hoje, ou seja, um pterodátilo mecânico forrou o leito do mar com o moderno aço alemão e italiano.



            A arrogância inglesa não é um mito e eles pagaram caro por isso, tanto que agora pagam caro pelo excesso do oposto, mas a arrogância nazista era não maior que fazia os britânicos parecerem carmelitas descalças, e isso era agravado pelo excesso de confiança em seus equipamentos. Não é difícil imaginar um jovem alemão ou italiano entrando na cabine de seu poderoso e bem munido caça, imaginando que em cinco minutos derrubaria sozinho toda a Royal Air Force e voltaria para continuar a conversa com os amigos. Mas a realidade era outra, os atrevidos que ousaram enfrentar o orgulho da ilha nunca retomaram suas conversas.



            Basicamente, embora um equipamento mais aprimorado faça sim a diferença, os invasores enxergavam apenas alvos a serem abatidos por suas máquinas, enquanto os ingleses enxergavam insolentes pedindo por um murro no nariz; era pessoal. Enquanto alemães e italianos se deixavam levar pela superioridade de seus aviões, os Swordfishes é que eram levados por seus pilotos; o homem fez a diferença. Alemães e italianos se viam
A máquina e seus mestres.
como parte de suas máquinas, os ingleses viam as máquinas como partes de si mesmos; a visão humana fez a diferença. E essa diferença afundou o orgulho nazista junto com o encouraçado Bismarck. Não havia heróis de propaganda do lado inglês, eram todos ingleses lutando na guerra. Eles não choravam pela perda de um salvador, mas pela perda de mais um filho. A diferença era o ser humano, e assim a pequena e isolada Inglaterra deu uma surra nos nazistas.




            Sete décadas foram mais do que suficientes para que essa lição fosse esquecida. O caso mais bizarro é o de donos de Teslas dormindo enquanto os carros viajam sozinhos pelas vastas estradas americanas. Esse excesso de confiança na inteligência artificial da marca já tem resultados amargos, incêndios e óbitos por colisões em alta velocidade já estamparam várias vezes os noticiários. A comodidade chegou a tal nível, que até carros básicos têm mimos atrofiantes. Não digo que não deva haver facilidades, digo que não devemos ser dependentes delas.



            Mas desde antes as pessoas têm se deixado mimar pelas conveniências artificiais, se tornando dependentes de coisas que deveriam apenas facilitar a vida, mas ora funcionando como droga e muleta. O caso chegou ao ponto de muita gente, especialmente mais jovens e ditos “esclarecidos”, ter explícita preferência por ser conduzida a se conduzir; isso infelizmente teve reflexo na política, com essa mesma gente querendo que os governos regulamentem tudo e decidam até procedimentos para duas pessoas se aproximarem, fora dos quais até um olhar poderia ser considerado assédio ou mesmo estupro. Essas pessoas não querem crescer e, pior, não querem que os outros cresçam.



            Há uma diferença entre não resolver a equação de Bhaskara e não ser capaz de fazer contas simples sem ajuda de uma calculadora. E mesmo a calculadora está em vias de extinção, porque tudo pode ser simulado no smartphone. O excesso de confiança nos algoritmos se deve basicamente ao conforto da impressão de que “alguém” está cuidando de sua vida por você e que por isso pode se concentrar só no que dá prazer. O “papai” algoritmo te dá tudo na mão: calculadora, mapa, redes sociais, jornais, entretenimento, serviços de transporte, entrega de comida, tradutor, contador de calorias perdidas, diagnóstico preliminar de saúde, possíveis fontes remotas de renda, namoro virtual, ativismo virtual, vida paralela virtual, felicidade virtual e (pasmem) até uma linha telephônica! UAU! Só não consegue compreender um comendo de voz de quem não tiver sotaque padrão e dicção perfeita… experimente gripar e falar àquela trolha para ver!



            Agora, se o aparelho pifar, tua vida inteira está comprometida. Gente que não aprendeu fazer sozinho o caminho da barra até a gola da camisa, não vai mais conseguir se vestir sem gritar por ajuda; e se viver entre iguais tecnodependentes, ficará pelado. Muitos vão me apontar seus dedos cheios de babas e enumerar as melhorias à vida que tudo isso gerou. Mas por acaso em algum ponto do texto, eu disse que não houve melhorias de vida? Hein? Não, em nenhum ponto até o momento eu disse isso… mas digo agora: NÃO HOUVE MELHORIA DE VIDA PORCARIA NENHUMA!!! Houve incremento para a subsistência, mas não à vida. Esta, em muitos casos, está se tornando insuportável para cada vez mais pessoas, que querem cada vez mais satisfação cada vez mais rápido e cada vez por mais tempo. Se não acontecer AGORA, não querem mais.


Supositório para Hitler
 


            Não por acaso, cresce o desinteresse de pessoas por automóveis e casas amplas. Não é só pela neurose ecochata que tomou o mundo. Ter um carro e uma boa casa, mesmo que esta seja de aluguel, implica em ter compromisso com o que se tem. Compromisso significa arcar também com os ônus, e isso pode ser altamente frustrante! Se nem com outras pessoas eles querem se comprometer, imagine com uma infraestrutura pessoal! Não, melhor encontrar todo mundo já na balada, mandar um motoboy trazer a comida, jogar os descartáveis no lixo, ser levado e trazido no banco do passageiro, enfim, há aplicativos para tudo, até para buscar novos aplicativos… de quebra ainda pode-se culpar o outro por qualquer coisa que dê errado… não se tem compromisso nenhum com ele mesmo…



            Assim como os soldados do Eixo, temos uma geração que menospreza o passado, pensa que sabe mais sobre a vida do que os que sobreviveram às épocas de poucos recursos, se vêem como bons e desprezam quem pensa minimamente diferente, sentem-se infinitamente poderosos sem serem capazes de suportar uma simples frustração, agem como se fossem o centro do mundo e… a lista não tem fim. Pessoas acostumadas a fazer besteiras e pagar para consertá-las, basta ver o sucesso de academias com modas e dietas idiotas, são incapazes de aceitar uma negativa e tomam como inimigo qualquer um que não atenda às suas expectativas. Às vezes esse ódio fácil se vira contra o próprio odiador. Antigamente os ricos mimavam seus filhos e eram criticados por isso, hoje os mais pobres também o fazem e não toleram sequer que alguém faça diferente com seu próprio filho. Sem compromisso com a vida de verdade, que é insuportável para quem vive em uma bolha de mimos e razões, muitas vezes se matam.



            Se aqueles nazifascistas aparecessem HOJE, teriam uma facilidade imensa em conseguir seus intentos em meio a essa geração floco-de-neve. Acontece que eles ESTÃO aqui, com outras roupagens, outros nomes, outras estratégias e a velha determinação em reduzir a humanidade a apenas um tipo de pessoa. Estão sendo tão bem-sucedidos, que o bordão nazista “miscigenação é o fim da raça” já é usado por quem vocês nem imaginam… sim, por negros. Não todos, é claro, a maioria ainda sabe que faz parte da humanidade, só os autodeclarados “intelectuais e defensores de causas”.



            Não somos fungos, condições ambientais de prosperidade e segurança estão longe de serem suficientes para uma pessoa viver. Os carros, como já citado, estão ficando tão “seguros”, que já tem idiota pensando em eliminar o volante, eliminando também a figura do motorista, o que deixaria as pessoas ainda mais indolentes e dependentes da tecnologia. Estamos formando uma geração totalmente dependente da certeza do que vai acontecer daqui a meia hora, e que não sabe o que fazer se essa previsão imediatista não se concretizar. Claro, é um caminho fácil para eliminar as mortes por acidentes… ou seria, se o universo desse a mínima para nossos planos. Acidentes com protótipos de carros realmente autônomos, não são mais novidades. Os carros estão hiperseguros, mas as mortes evitadas no trânsito estão se transferindo para a vida privada… de que adiantou o caminho mais fácil?



            Além do completo despreparo para a vida real, nessa dependência em relação às facilidades cada vez mais baratas e eficientes tem emergido um novo tipo de bullying, o da “felicidade”. Existe uma cobrança perversa que é tanto maior quanto mais acesso à comodidade a pessoas tiver, para que ela seja feliz e se expresse assim publicamente. Tudo até parece cheio de afeto e boas intenções, mas é uma cobrança para ser feliz e próspero o tempo todo e diante de todo mundo, sem direito a introspecção e descanso para as bochechas cansadas pelo sorriso prolongado. O pior é que tudo isso tem ficado muito barato, a ponto de até moradores de rua terem acesso a um pouco dessa droga lícita. Já existe o selfbullying, que faz da pessoa seu próprio algoz, se cobrando ser feliz e bem resolvido a qualquer custo, não raro repelindo quem se aproxima para ajudar.


Esquadrilha Abutre dos estúdios Hanna Barbera


            A vida não é fácil. A vida não é piedosa. A vida não é um aplicativo. A vida não tem obrigação nenhuma com você. Quem não for capaz de conviver com isso e ser (ou saber pedir ajuda para ser) feliz apesar disso, não tem preparo mínimo para sair da casa dos pais; e isso inclui trabalhar pelo próprio salário, não viver de mesada em outro endereço; pelo menos tentar viver realmente por conta própria, já seria um mérito e um aprendizado valioso. Na verdade, não teria preparo nem para sair do útero. Vivemos a era em que as pessoas compram seus próprios feitores e se deixam escravizar felizes por eles, nisso os tiranos de verdade se aproveitam.



            Ao que parece essa perda de referências é tão forte, que nem os descendentes directos daqueles bravos ingleses se lembram mais das lições do Swordfish.

Sobre suicídio em países "felizes", clicar aqui, aqui e aqui.

27/08/2019

Neuras fúteis; Privacidade pública


Vamos combinar? Se quer aparecer, assuma o risco.

            Eu lamento informar que a privacidade fora da solidão NÃO EXISTE. Tu não podes, por exemplo, pedir que alguém em ambiente público se afaste muito só para tu poderes falar ao celular; ou digitar, que seja. Assim como não dá para pedir que as pessoas não ouçam o que estiver falando, a não ser que consigas falar em volume tão baixo e ao mesmo tempo de forma tão clara, que a pessoa do outro lado só precise aumentar o volume para te compreender, mas então é a outra pessoa que estará abrindo mão da tal privacidade; a não ser que esteja, como eu disse, na mais sacra e austera solidão.



            É igualmente inútil, tanto quanto desgastante, alimentar neuroses conspiratórias sobre a exposição de suas informações pessoais na mídia. Lamento, mas o que sai de tua mente não está mais sobe o teu controle. Simplesmente não tens como controlar o que outros farão com a photo que foi publicada, o comentário postado ou mesmo a pesquisa respondida. Nunca, em nenhum momento do espaço-tempo foi assim. Se tu disseres que não gostas de jeans surrado e algum empregado da indústria da moda souber, os executivos saberão cedo ou tarde e saberão se aproveitar disso, até pelo bem e sobrevivência das empresas. O mesmo para os governos, que simplesmente PRECISAM saber do que agrada e do que incomoda o cidadão, para poderem saber como agir de então em diante.



            Não é de hoje que mesmo os vizinhos, colegas de escola ou trabalho, gente que se acostumou a te ver no transporte público, funcionários do restaurante habitual ou mesmo usuários de praças públicas são atentos a conjuntos de palavras e entonações que lhes interessam. Podem estar dormindo, mas se ouvirem por exemplo a combinação de “batata + câncer + médico + caro + tom agressivo”, não vão se importar se a conversa foi sobre um lanche com um médico canceriano comento batata em uma lanchonete cara, vão entender o que tiverem predisposição para entender e vão vincular a tua pessoa à informação falsa, que será disseminada. Vais culpar quem?



            O que podes fazer é acionar quem lhe trouxer prejuízos de qualquer natureza, seja para reparação, seja para indenização por uso não autorizado de seus dados e/ou imagem. Qualquer coisa além disso vai dar publicidade grátis para o autor do ilícito, que poderá lucrar assim muito mais do que o pleiteado pela parte lesada. E, por favor, abandone essa idéia estúrdia de “direito de esquecimento”. Isso não existe. Ninguém é realmente esquecido. Se não te encontrarem pelo nome, te encontrarão por contatos, por referências, até mesmo por uma investigação séria de quem estiver de facto interessado em usar teus dados em proveito próprio. Que foi? Vais apontar o dedo para o nariz de um traficante que tiver falsificado documentos usando teu nome? Tens peito para isso? Não, não tens. Fazer isso contra quem sabes que não vai te dar um tiro é muito diferente e MUITO mais cômodo, e atrai mais leitores igualmente neuróticos na internet.



            Mais do que isso, é totalmente contraproducente e até perigoso exigir que empresas e governos não coletem dados. Empresas e governos precisam saber do que precisamos para saberem o que oferecer, agir contra isso é pedir para não ter productos e serviços minimamente bons, ou até o exacto oposto do que deseja. Uma entidade realmente perversa vai dar de ombros para protestos, isso se algum rumor consistente conseguir sair do meio em que as decisões tiverem sido tomadas. Quem realmente quer fazer mal, não vai aparecer como mau diante do público, vai aparecer como poderoso invencível ou simplesmente vai manipular os próprios manifestantes para que ataquem outro alvo. É fácil, basta mandarem um único agente se enturmar, se inteirar da situação e desviar sutilmente as atenções para quem interessa aos mandantes. No caso de entidades, geralmente desviam as atenções para uma corporação famosa, quase sempre já alvo de teorias difamatórias; no caso de países, sempre ditaduras, te usam para acusar democracias de desrespeito às liberdades individuais. Simpatizantes de ditaduras em academias sediadas em democracias, não faltam.



            Da mesma forma os protestos contra a vigilância estatal por câmeras em lugares públicos NÃO EXISTEM onde essa vigilância realmente fere alguma liberdade individual. Vocês estão atormentando dirigentes de democracias e desviando seus focos de problemas reais. Nos países onde vocês podem protestar, é perfeitamente possível responsabilizar qualquer um por mau uso ou publicação indevida de seus dados; naqueles onde vocês sequer podem dizer que se lembram de um massacre de manifestantes que pediam por democracia, qualquer indignação é tão fútil quanto perigoso para sua pessoa. Há formas certas e erradas de lidar com a coleta não autorizada de dados, querer censurar até a memória das pessoas é o modo errado, porque não surte e nunca surtiu o efeito desejado, e ainda alimenta a sanha de simpatizantes de regimes totalitários, e eles vão usar tua indignação para te manipular para atacar democracias e engrossar suas fileiras. Eu já vi e ainda vejo isso acontecer, é tão mais fácil te cooptar quanto maior for tua tendência à prolixia e a acreditar que o Estado deve ser um pai, em vez de um servo.



            Seus dados serão coletados queiras ou não, e às vezes o próprio coletor não tem idéia do que tem no acervo até que coincidam a oportunidade com a consulta aos arquivos e os teus dados couberem no caso. Não adianta espernear e lacrar textão de mil e quinhentas páginas no facebook, isso só te distancia das fontes do problema, que podem estar quase todas dentro do teu subconsciente. Sim, teu problema pode ser totalmente psicológico e não político.



            Sim, há meios de reduzir a um mínimo a tua exposição aos coletores de dados, mas isso significaria viver como nos anos 1930, inclusive no vestuário e nos modos, bem como na quase ausência de tecnologias de comunicação. Eu sei por experiência que quase todos vocês eriçam pelos e têm taquicardias só de pensar nisso. Para quem tem horror a nunca mais abrir um aplicativo, há comportamentos que são paliativos e, dependendo do grau de consciência, até de dão algum controle sobre o que é ou não coletado. Leiam bem, eu escrevi “ALGUM”, não esperem mais do que isso.



            Comece pelo mantra “O que não é publicado não é compartilhado”. O que for realmente íntimo e importante, sequer deve ir para um dispositivo móvel. Imagens e textos em smartphones te colocam na armadilha da facilidade, da qual eu já me cansei de falar neste blog, o que é fácil é também tentador, compartilha-se algo quase inconscientemente, só porque numa olhada rápida pareceu que merecia ser compartilhado. E se saiu do teu dispositivo, meus pêsames, não é mais seu mesmo que seja seu. Evite bancar o moderno e jamais ponha photos íntimas em dispositivos com acesso a redes de comunicação, e por “íntimas” entendam-se inclusive imagens em que o potógrapho foi particularmente feliz e a tua pose tenha sido particularmente atraente; um pouco de edição e imagens e tua carinha fofa estará em sites de prostituição que, por sua própria natureza, são muito difíceis de rastrear. Na dúvida, nem ponha no computador, deixe guardado em dispositivos externos.



            Outro mantra é “seja mestre do que calas e escravo do que falas”, ou do que escreves. Falar na internet ou a um pesquisador é mais ou menos como gritar em praça pública, quem estiver por perto vai te escutar, mas não há garantias de que vai te ouvir. Como eu já disse, as pessoas vão compreender o que tiverem capacidade e tendência, não necessariamente o que tiveres dito, e não, nem a mensagem mais clara e didática é óbvia. Pode ser para quem já compreende a tua linha de raciocínio e assim tem capacidade de ligar os pontos mais obscuros de teu pensamento, mas à maioria as tuas intenções são um completo mistério, uma tela em branco pronta para receber as adições e dições mais loucas que a mente humana é capaz de criar; e acreditem, caros leitores, nem a imaginação mais fértil pode competir com a loucura. A ganância é um tipo não assumido de loucura.



            Mais um mantra: “Unidos somos mais fortes”. Não é clichê de filme dos anos 1950, é real. Mantenha sempre contacto com pessoas com interesses afins, quando precisar se precaver ou reclamar. Uma boa entidade dá ouvidos a um indivíduo e uma má entidade não dá importância, ou dá cabo, mas quando a tendência detectada é de um grupo relevante a boa entidade se apressa em servir e a má entidade se recolhe de medo. Aqueles filmes de heroísmo não mentem quando passam essa mensagem, é literal. Ou os protestos em Hong-Kong não seriam reprimidos e os da Praça Tiananmen não teriam produzido carne humana moída por tanques, assim como os protestos por direitos civis nos anos 1960 nos Estados Unidos jamais teriam surtido efeito nenhum. Lembre-se, a união inspira o respeito dos honestos e o medo dos perversos.



            O mantra “Tudo o que disser poderá ser usado contra você” é mais poderoso do que podem imaginar. Escolha o que e a quem dar retorno, por mais banal e curta que seja a mensagem. Eu já recebi retornos desagradáveis e até ameaçadores, na época em que eu era novato na internet (upon once a long time ago) e aprendi depressa essa lição. Só fale a quem te dê um mínimo de segurança de resposta respeitosa e ÚTIL; mensagens padronizadas e genéricas não são úteis, nem robôs idiotas de burrice artificial que não compreendem uma dicção que não seja perfeita e em um sotaque padronizado. Assegure-se de estar conversando com seres humanos. Não espere por isso, mas há históricos de clientes que foram recompensados, porque suas reclamações revelaram problemas que a engenharia não tinha percebido durante o desenvolvimento do producto.



            O mantra “A prática leva à perfeição” deve ser aplicado a tudo o que fizeres, mas principalmente ao que for feito em público, para evitar passar mensagens equivocadas ou mesmo detalhes que de modo algum podem passar a domínio público. Lembrem-se de que o indivíduo pode se esquecer, mas a coletividade JAMAIS SE ESQUECE. Então sejamos o mais claros, discretos e elegantes quanto possível, porque oficialmente não, mas na prática até a comunidade mais porralouca em códigos de postura e vestuário, e quem se portar de forma mais refinada em um grupo de broncos, por mínimos que sejam os gestos ou os detalhes da roupa, vai chamar uma atenção que pode não ser a desejada. Pratique tua escrita, teus modos e tua paciência em ler e reler criticamente antes de decidir responder; e se decidindo a responder, lembre-se de que nem sempre, na verdade quase nunca sabes que tipo de gente está do outro lado. Vais acabar descobrindo que duas ou três páginas dariam o recado que o conteúdo diluído no textão lacrador de mil páginas não conseguiu, ao menos não a quem era dirigido e não da forma desejada.



            O último mantra é “Guardou é seu, mostrou é nosso”, que vale desde que a vida na Terra teve início. É por isso que predadores rechaçam qualquer aproximação estranha quando estão comendo ou cuidando dos filhotes, isso não foi inventado pela humanidade. Guarde os discursos e as narrativas para quem gostar, porque aos que colherem os teus dados, nada disso terá efeito inibitório, na verdade podem até servir de sinalizador de que há mais coisas interessantes de onde saíram as coletadas. Não é no palco de gritos de grupos exaltados que as cosias são decididas e resolvidas, é nos sussurros quase inaudíveis dos bastidores que tudo realmente acontece. Os mesmos bastidores donde devem permanecer TUDO o que tu não queres que seja compartilhado. Faça um teste, digite teu nome entre aspas, como “Nanael Soubaim” no Google e vais se surpreender com a quantidade de dados públicos a teu respeito, e são coisas que simplesmente não tem como ser suprimidas porque o poder público é obrigado por lei a publicar.



            Ainda não conheço uma lei que proíba as pessoas de coletarem dados de terceiros, não especificamente o acto de coletar. E se a pessoa tiver acesso, nada além do próprio senso crítico a impede de fazer a coleta. Seguramente há coisas minhas em poder de quem jamais entrou em contato comigo, mas se eu for perder o sono por isso, antes de algo realmente acontecer, será um suicídio indirecto. Então temos três opções: nos tornarmos pessoas do pré-guerra e irmos morar na zona rural, virarmos gado para não nos destacarmos em absolutamente nada, ou apelar ao bom e velho bom senso para não nos levarmos a sério demais e não ficarmos neuróticos com o que não faz diferença.

23/07/2019

Ah, você acha que lá tem liberdade?



    Um grupo de caminhoneiros se rebela contra o governo e, impunemente, organiza protestos e gigantescas carreatas por todo o país, ameaçando subliminarmente a população com desabastecimento e pondo em xeque a autoridade estatal. A mídia dá cobertura completa e destila sua tradicional peçonha, aproveitando para desenterrar assuntos correlatos e lucrando horrores com toda essa movimentação. Os líderes se tornam celebridades instantâneas, mostrando a todos que nenhum figurão, mesmo do primeiro escalão do governo, é mais protegido pela lei do que um varredor de ruas. Passadas quatro décadas, esses caminhoneiros ainda são lembrados e tomados como exemplo de mobilização para quem conhece a história, esta disponível na íntegra para quem quiser estudar o assunto, a qualquer momento, de qualquer lugar e sem restrições de qualquer tipo.



    Um escândalo político é exposto contra um presidente popular e bem-sucedido na condução de seu país, próspero e poderoso como nunca se viu. A imprensa novamente lucra rios de dinheiro com patrocínios para a cobertura do caso e o mundo inteiro fica sabendo que houve espionagem contra o partido adversário. Manifestações em todo o território nacional acontecem, a maioria pedindo a cabeça do presidente, com a insaciável cobertura dos jornais, revistas e de publicações jocosas de praticamente todos os humoristas daquele país. Para algumas publicações, isso representa o auge de sua popularidade. Mesmo os protestos que tomam países hostis como exemplos a serem seguidos são respeitados, apesar da vontade de alguns, especialmente fugitivos de regimes, de torcerem os pescoços dos manifestantes. A rigor, todos saem ilesos, impunes e retomam suas vidas; exceto claro o presidente renunciante. Há uma miríade de publicações a esse respeito, pró e contra o então presidente, das mais realistas e sólidas às mais absurdas teorias conspiratórias, até mesmo louvores a ditaduras tomando o caso como exemplo, tudo circulando livremente sem qualquer interferência estatal, é só pesquisar qual deseja, encontrar e começar com sua leitura.



    Protestos de “paz e amor” pipocam pelo país a exigir que as tropas se retirem das zonas de conflito em que estão. Como a mídia do outro lado não passa de um informativo dos regimes, a mídia local faz parecer que seu próprio país é o malvadão da história sem se questionar como tudo teria realmente começado, até porque jamais teria permissão do outro lado para fazer uma cobertura semelhante, como ainda hoje não teria. O resultado é a saída de uma situação que estava trocando de lado e pendendo para uma vitória, mas foi abortada pela pressão popular, cuja manifestação ocorreu livre e ainda hoje é lembrada pelos que lá estiveram. Claro que a mídia novamente encheu as burras com patrocínios em sua cobertura unilateral alucinada, enquanto do lado autodeclarado vencedor nada saía sem a permissão do governo, que ninguém explicava como conseguiu recursos para a empreitada. Ainda hoje surgem publicações com “descobertas bombásticas” sobre o acontecido, aos milhares, que são avidamente devoradas por teoristas da conspiração, impunemente, sem que seu governo sequer esboce intenção de editar uma linha que seja. Esses mesmos manifestantes, anos depois, são os turistas que visitam impunemente os países com que estavam em guerra… e voltam sem serem presos ou interrogados.



    Um dito “ativista” assassina declaradamente policiais, espalha doenças venéreas no meio artístico, faz discursos acalorados pedindo a destruição de seu próprio país, faz apologia às drogas e às ditaduras ideológicas, amaldiçoa os mesmos brancos com quem transou promiscuamente, viaja regularmente para o país que foi pivô de uma crise que quase eclodiu uma guerra nuclear e volta impunemente para o país que amaldiçoa, espalhando as mensagens ideológicas de um lugar onde a imprensa é só um informativo do regime. A imprensa livre o idolatra e lucra fábulas com patrocínios, cobrindo sua breve vida de agente patogênico, impunemente, sem que o governo possa restringir senão por faixa etária as transmissões e publicações. Durante essa breve vida, ele aguarda em liberdade plena o decorrer dos processos aos quais responde, indo e vindo como jamais seria possível nos lugares que idolatra e apregoa como paraísos reprimidos. A história nunca foi editada, então é fácil a quem o quiser conseguir informações, das mais precisas às mais fantasiosas, com níveis variáveis ou mesmo nulos de lastro documental, sem o risco de os federais baterem á sua porta por isso.



    Um promissor funcionário “revoltado e bem-intencionado” das forças armadas simplesmente trai seu país, entregando informações sigilosas para um estranho simpatizante de regimes fechados, que escancara o que chama de “hipocrisia” daquele país, sem jamais mencionar as atrocidades de seus regimes de estimação. O escândalo é basicamente sobre perda de privacidade, não há relatos nem mesmo vagos de prisão arbitrária e tortura seguida de execução, como é comum em regimes bonzinhos. Em princípio esse funcionário é preso, mas assim que se vê em liberdade simplesmente foge do país que traiu e se refugia em outro hostil com controle de mídia interna. A mídia do país traído segue os passos do jovem e o transforma em uma celebridade antissistema, lucrando horrores com a exposição dos podres de seu próprio país e fazendo os pivôs parecerem heróis. Pelo menos os líderes de regimes fechados acham que são, pois usaram seu material em proveito próprio. Não fossem outras acusações, um dos pivôs estaria livre leve e solto, gozando da liberdade que de que seu informante usufrui se fazendo de vítima diante das câmeras. Os jornalistas que cobriram e ainda cobrem o assunto estão todos vivos, livres e trabalhando. Ainda fornecem material praticamente contínuo para quem quiser estudar o assunto, por mais que isso desagrade ao seu governo.



    Ex agentes secretos aparecem repentinamente aos montes, dando entrevistas livremente, inundando a televisão e as publicações com uma revelação aterrorizante: Os líderes do serviço secreto são humanos! Pior: eles são passíveis de falhas! Com essas escabrosidades imperdoáveis, o serviço secreto é bombardeado com críticas ferozes de inimigos do sistema, adoradores de regimes que editam até a memória do cidadão e artistas que se acham intelectuais. Alguns métodos da agência são postos à público de forma clara e didática, inclusive os de recrutamento e fases iniciais de treinamento. Horror! Qualquer cidadão pode pleitear ser agente secreto, mesmo que não goste do governo! Que espécie de país dá ao cidadão comum um poder tão grande, e ainda permite que saia do serviço para a vida civil, impunemente e ainda escancare os vícios de sua agência? Estão todos vivos, livres e trabalhando, ao contrário dos que deram suas vidas para proteger seu país e até países vizinhos, esses a imprensa ignora solenemente porque não dão linhas à narrativa e nem patrocínio farto em programas antissistema… e poderiam afastar a audiência que os artistas antissistema ainda conseguem alavancar.



    Um fanfarrão é eleito presidente, a despeito de todas as previsões e toda a pressão midiática. Há manifestações violentas pelo país, com depredações e ataques físicos que formam pequenas praças de guerra. Facções declaradamente antidemocracia atacam aos berros os cidadãos e queimam propriedades de gente humilde, às vezes destruindo as ferramentas de trabalho dos que em discurso dizem defender. Próximo ao local da festa de posse, uma cantora antissistema faz um discurso inflamado dizendo que explodiria a sede do governo com o novo presidente dentro, se pudesse, aplaudida pelo seu público e dividindo palco com inimigos declarados de seu país, inclusive defensores da sharia. Novamente a imprensa lucra fábulas com patrocínios, cobrindo a bagunça e veladamente desejando o fracasso do presidente eleito, fazendo prognósticos dignos de esquizofrênicos com abstinência de controlados. O caso é recente, é então até mais fácil conseguir informações a respeito, inclusive saber que só os responsáveis por ataques violentos e perturbação da paz pública foram punidos, todos os outros estão vivos e em liberdade, inclusive a cantora e outros “artistas” adoradores de regimes que punem com execução sumária quem fizer o que eles fizeram. Esses mesmos “artistas”, que não toleram opiniões contrárias, adoram dar palpites na política interna de outras democracias, o que fazem sem medo de punição… pelo menos não no país que odeiam declaradamente.



    Uma mídia declaradamente inimiga desse país e defensora de outro hostil, onde a mídia é controlada com mãos de ferro, inicia a transmissão atacando livremente o país que a acolheu, suas instituições e seus valores mais caros de livre pensamento, eufemicamente chamando de “ponto de vista não ocidental dos factos” o que expõe. Com material proveniente exclusivamente da censura de seu regime, obriga seus funcionários nativos a falarem mal de seu próprio país e permanece no ar, mesmo após âncoras terem se demitido ao vivo e em rede nacional, expondo as mentiras que eram obrigados a falar. Nenhum artista se levantou contra essa mídia mesmo depois disso, e a mídia local lucra até com isso. É tudo garantido legalmente pela liberdade de pensamento e opinião, que não existem no país de origem dessa mídia, pelo que o governo local nada pode fazer a não ser que a segurança nacional esteja realmente posta em risco.



    Com tudo isso, facilmente verificável, vocês vêm tentar me convencer que naquele país não há liberdade, que é tudo invenção da mídia? A mesma mídia que ataca com fervor o seu próprio país? País para onde os “artistas intelectuais” adoram ir, em vez dos que eles apregoam como exemplos e paradigmas?



    Qualquer um afronta uma autoridade, qualquer um faz discurso em público contra as instituições, qualquer um contesta publicamente as leis, qualquer um processa o governo, qualquer um pode se candidatar ao que quiser e vocês querem me convencer que lá não há liberdade? Vão mandar ler o quê? Os manuais daquelas ditaduras?



    Façam a si e ao mundo um favor, voltem aos ventres e recomecem do zero.

15/07/2019

Ao abismo






            Vejo à frente o abismo, mudo e retumbante em sua luz negra, que preenche todo o vácuo turbulento que me rodeia. Ainda que recuasse eu avançaria, porque recuar é dizer “não” e o abismo desconhece negativas. Só conhece “fazer” e “cessar”. Cessar seria permanecer na supermorte em que se tornou a existência mórbida de sorrisos tênues, fatigantes e dolorosos.


            Não existe escolha senão avançar. Parar é abdicar de escolher e tornar-me alvo passivo das edges incessantes. Avançando escolho os motivos pelos quais devo sofrer, em vez de sofrer por motivações terceiras. Não se controla e não se pode defender-se das dores alheias.


            A vida é triste? Cruel? Vale a pena? Abdique desse drama supérfluo. Questionar a validade é renunciar automaticamente àquilo que se questiona. A vida já estava aqui quando chegaste e aqui estará muito depois de tua partida. Não é ela que deve ou não valer a pena, és tu.


            Ainda caminho para o abismo, às vezes consciente, às vezes de modo meramente automático; aqui quando as forças e os motivos se mostram pequenos demais para alimentar a ação. Às vezes me esquecendo de que já caí de outros abismos, cada vez mais profundos em sua sucessão. Às vezes pareciam não ter fim, mas eu sempre cheguei ao piso rochoso da fossa após quedas cada vez mais prolongadas.


            Quanto mais me aproximo de sua bocarra escancarada e faminta, mais o vácuo frio e turbulento me queima por dentro, mas também mais me faz perceber o quanto a bonança do ponto de queda era tão mais triste e dolorosa, que faz então o óbito incessante parecer vida plena. Era só um analgésico que não curava realmente a enfermidade, e para o qual eu já estava insensível.


            Não, eu não direi que todas as pessoas são infelizes e não o sabem, não estou em suas mentes para saber o que realmente sentem e, ainda que lá estivesse, certamente não saberia traduzir os dialetos que somente a cada um cabe compreender; decerto que nem mesmo cada um tem ciência plena daquilo que lhe povoa cada pensamento, que dirá um observador? Afirmar aquilo seria pedância de um paciente que se nega ao tratamento psicanalítico.


            Enfim, nem as pessoas se conhecem realmente e não serei mais um a pleitear um busto por fazê-las duvidar de seus próprios motores de vida. Minhas dores são mais do que suficientes e só se aplicam a mim, não quero disseminá-las. Fazendo isso, eu seria tão pior do que os agentes agressores, que parar doeria menos do que o remorso.


            Ao abismo. Vejo tanto nada que tudo o que existe caberia ali com sobra de espaço, e realmente tudo se apresenta em uma fração de tempo que não posso medir. Ainda que pudesse, por que o faria? Estaria atrasado? Para quê? Tampouco tenho pressa de que se dê o desfecho. Urgência talvez, mas não pressa. Gostaria que tudo acabasse de uma vez por todas, mas quem me garante que realmente se acaba? Quem diz ao corpo já se apagando, que está terminado? O cérebro que já se terá ido? Onde está o registro do fim? O há?


            Não estou a um passo dele, estou a ele. A diferença entre a queda ao chão e a queda ao vazio, está simplesmente na direção para onde cairei. Ironicamente, tudo o que me acometeu até aqui foi colheita de meu plantio, mas agora, no zênite deste platô, a escolha é do vento que me empurra hora para o chão que piso, hora para o vazio adiante. A bem da verdade, meus pés já estão metade à frente, sem apoio, no ponto crítico do equilíbrio.


            A dor não aumenta e nem diminui, ou talvez eu é que não perceba mais se há variações. Talvez tenha me embrutecido justamente por não ter podido parar e me analisar. Ainda que parasse regularmente pelo caminho, que parâmetros eu teria para essa análise? E de que vale isso agora, se antes já não me valia? Homenagens póstumas não cicatrizam feridas. O que não foi dito ou feito até aqui, não o será mais.


            Pendendo para o abismo, puramente por força das conseqüências já plantadas, olho para ele e não, ele não olha para mim. Ele está pouco se importando comigo. Ele fará, ou não, diferença para mim, para si eu não significo mais do que mais um; não serei o derradeiro cadente em seu vão. Aliás, a escuridão infindável é clara e nítida, até mais do que a que já me contém. Em um tempo que não meço já não me contém mais.


            A ausência de pressão sob meus pés e pernas informa que a queda começou. Não é assustador como a tantos pode parecer, em verdade vos afirmo que a espera me tolhia mais a respiração. Não me atemoriza a iminência do impacto, isso é quase certo e não me desgasto mais com aquilo que não me cabe, mas se desgasta o animal que me veste e quer sobreviver a qualquer custo, bradando um grito que não ouve na vã tentativa de obter um eco que não vem. E não virá.


            Ainda que sinta o atrito cada vez mais intenso com o ar e a aceleração que me faria por para fora tudo o que tivesse em meu estômago, não há nada ao redor que possa me fazer mal. Tudo o que poderia me atormentar e ferir está dentro, não fora. E nesta solidão que já havia quando cercado por multidões, nem haveria agente externo a quem imputar qualquer culpabilidade. Ainda que pudesse fazê-lo, a culpa é apenas um expediente cruel de uma vingança eufemizada, somente o reconhecimento da responsabilidade, que poucos se dignam a assumir e levar a termo, teria os resultados que valeriam meus esforços.


            Ainda que o silêncio congelante me queime da pele até os ossos, não esboço mais qualquer reação no decorrer da queda. Chorar e sorrir se mostraram, no final das contas, a mesmíssima cousa, ambas me causam dor e cansaço que não me convém mais sentir sem a mais absoluta necessidade; até que essa queda se finde, não existe absolutamente necessidade alguma. Tudo que não seja a própria existência está indefinidamente suspenso.


            Vejo ao longe as trevas engolindo o horizonte que nem sei se existe. Talvez essas trevas se devam à cegueira e não ao ambiente, mas ainda que não seja tudo tão realmente escuro, a luz é tão tênue que não faz diferença, sequer eleva um grau em minha temperatura também cadente. Mas o que eu veria, se enxergasse, senão uma parede rochosa subindo cada vez mais rápido?


            Ainda estou caindo. Até quando eu não sei. Sinceramente, não me vale fazer cálculos sem parâmetros, se só existe agora a queda. Calcular agora não mudará o desfecho, o qual desconheço e ainda que conhecesse, não poderia evitar. É uma queda livre. Na verdade a única cota de liberdade que me foi permitido até hoje. Caio no meu tempo, do meu jeito, se vivo ou morto não importa mais. Apenas caio até o fim… se houver fim.


            A única coisa que me dói é a única certeza que tenho, e não é uma afirmativa: Quem se importa?