27/08/2019

Neuras fúteis; Privacidade pública


Vamos combinar? Se quer aparecer, assuma o risco.

            Eu lamento informar que a privacidade fora da solidão NÃO EXISTE. Tu não podes, por exemplo, pedir que alguém em ambiente público se afaste muito só para tu poderes falar ao celular; ou digitar, que seja. Assim como não dá para pedir que as pessoas não ouçam o que estiver falando, a não ser que consigas falar em volume tão baixo e ao mesmo tempo de forma tão clara, que a pessoa do outro lado só precise aumentar o volume para te compreender, mas então é a outra pessoa que estará abrindo mão da tal privacidade; a não ser que esteja, como eu disse, na mais sacra e austera solidão.



            É igualmente inútil, tanto quanto desgastante, alimentar neuroses conspiratórias sobre a exposição de suas informações pessoais na mídia. Lamento, mas o que sai de tua mente não está mais sobe o teu controle. Simplesmente não tens como controlar o que outros farão com a photo que foi publicada, o comentário postado ou mesmo a pesquisa respondida. Nunca, em nenhum momento do espaço-tempo foi assim. Se tu disseres que não gostas de jeans surrado e algum empregado da indústria da moda souber, os executivos saberão cedo ou tarde e saberão se aproveitar disso, até pelo bem e sobrevivência das empresas. O mesmo para os governos, que simplesmente PRECISAM saber do que agrada e do que incomoda o cidadão, para poderem saber como agir de então em diante.



            Não é de hoje que mesmo os vizinhos, colegas de escola ou trabalho, gente que se acostumou a te ver no transporte público, funcionários do restaurante habitual ou mesmo usuários de praças públicas são atentos a conjuntos de palavras e entonações que lhes interessam. Podem estar dormindo, mas se ouvirem por exemplo a combinação de “batata + câncer + médico + caro + tom agressivo”, não vão se importar se a conversa foi sobre um lanche com um médico canceriano comento batata em uma lanchonete cara, vão entender o que tiverem predisposição para entender e vão vincular a tua pessoa à informação falsa, que será disseminada. Vais culpar quem?



            O que podes fazer é acionar quem lhe trouxer prejuízos de qualquer natureza, seja para reparação, seja para indenização por uso não autorizado de seus dados e/ou imagem. Qualquer coisa além disso vai dar publicidade grátis para o autor do ilícito, que poderá lucrar assim muito mais do que o pleiteado pela parte lesada. E, por favor, abandone essa idéia estúrdia de “direito de esquecimento”. Isso não existe. Ninguém é realmente esquecido. Se não te encontrarem pelo nome, te encontrarão por contatos, por referências, até mesmo por uma investigação séria de quem estiver de facto interessado em usar teus dados em proveito próprio. Que foi? Vais apontar o dedo para o nariz de um traficante que tiver falsificado documentos usando teu nome? Tens peito para isso? Não, não tens. Fazer isso contra quem sabes que não vai te dar um tiro é muito diferente e MUITO mais cômodo, e atrai mais leitores igualmente neuróticos na internet.



            Mais do que isso, é totalmente contraproducente e até perigoso exigir que empresas e governos não coletem dados. Empresas e governos precisam saber do que precisamos para saberem o que oferecer, agir contra isso é pedir para não ter productos e serviços minimamente bons, ou até o exacto oposto do que deseja. Uma entidade realmente perversa vai dar de ombros para protestos, isso se algum rumor consistente conseguir sair do meio em que as decisões tiverem sido tomadas. Quem realmente quer fazer mal, não vai aparecer como mau diante do público, vai aparecer como poderoso invencível ou simplesmente vai manipular os próprios manifestantes para que ataquem outro alvo. É fácil, basta mandarem um único agente se enturmar, se inteirar da situação e desviar sutilmente as atenções para quem interessa aos mandantes. No caso de entidades, geralmente desviam as atenções para uma corporação famosa, quase sempre já alvo de teorias difamatórias; no caso de países, sempre ditaduras, te usam para acusar democracias de desrespeito às liberdades individuais. Simpatizantes de ditaduras em academias sediadas em democracias, não faltam.



            Da mesma forma os protestos contra a vigilância estatal por câmeras em lugares públicos NÃO EXISTEM onde essa vigilância realmente fere alguma liberdade individual. Vocês estão atormentando dirigentes de democracias e desviando seus focos de problemas reais. Nos países onde vocês podem protestar, é perfeitamente possível responsabilizar qualquer um por mau uso ou publicação indevida de seus dados; naqueles onde vocês sequer podem dizer que se lembram de um massacre de manifestantes que pediam por democracia, qualquer indignação é tão fútil quanto perigoso para sua pessoa. Há formas certas e erradas de lidar com a coleta não autorizada de dados, querer censurar até a memória das pessoas é o modo errado, porque não surte e nunca surtiu o efeito desejado, e ainda alimenta a sanha de simpatizantes de regimes totalitários, e eles vão usar tua indignação para te manipular para atacar democracias e engrossar suas fileiras. Eu já vi e ainda vejo isso acontecer, é tão mais fácil te cooptar quanto maior for tua tendência à prolixia e a acreditar que o Estado deve ser um pai, em vez de um servo.



            Seus dados serão coletados queiras ou não, e às vezes o próprio coletor não tem idéia do que tem no acervo até que coincidam a oportunidade com a consulta aos arquivos e os teus dados couberem no caso. Não adianta espernear e lacrar textão de mil e quinhentas páginas no facebook, isso só te distancia das fontes do problema, que podem estar quase todas dentro do teu subconsciente. Sim, teu problema pode ser totalmente psicológico e não político.



            Sim, há meios de reduzir a um mínimo a tua exposição aos coletores de dados, mas isso significaria viver como nos anos 1930, inclusive no vestuário e nos modos, bem como na quase ausência de tecnologias de comunicação. Eu sei por experiência que quase todos vocês eriçam pelos e têm taquicardias só de pensar nisso. Para quem tem horror a nunca mais abrir um aplicativo, há comportamentos que são paliativos e, dependendo do grau de consciência, até de dão algum controle sobre o que é ou não coletado. Leiam bem, eu escrevi “ALGUM”, não esperem mais do que isso.



            Comece pelo mantra “O que não é publicado não é compartilhado”. O que for realmente íntimo e importante, sequer deve ir para um dispositivo móvel. Imagens e textos em smartphones te colocam na armadilha da facilidade, da qual eu já me cansei de falar neste blog, o que é fácil é também tentador, compartilha-se algo quase inconscientemente, só porque numa olhada rápida pareceu que merecia ser compartilhado. E se saiu do teu dispositivo, meus pêsames, não é mais seu mesmo que seja seu. Evite bancar o moderno e jamais ponha photos íntimas em dispositivos com acesso a redes de comunicação, e por “íntimas” entendam-se inclusive imagens em que o potógrapho foi particularmente feliz e a tua pose tenha sido particularmente atraente; um pouco de edição e imagens e tua carinha fofa estará em sites de prostituição que, por sua própria natureza, são muito difíceis de rastrear. Na dúvida, nem ponha no computador, deixe guardado em dispositivos externos.



            Outro mantra é “seja mestre do que calas e escravo do que falas”, ou do que escreves. Falar na internet ou a um pesquisador é mais ou menos como gritar em praça pública, quem estiver por perto vai te escutar, mas não há garantias de que vai te ouvir. Como eu já disse, as pessoas vão compreender o que tiverem capacidade e tendência, não necessariamente o que tiveres dito, e não, nem a mensagem mais clara e didática é óbvia. Pode ser para quem já compreende a tua linha de raciocínio e assim tem capacidade de ligar os pontos mais obscuros de teu pensamento, mas à maioria as tuas intenções são um completo mistério, uma tela em branco pronta para receber as adições e dições mais loucas que a mente humana é capaz de criar; e acreditem, caros leitores, nem a imaginação mais fértil pode competir com a loucura. A ganância é um tipo não assumido de loucura.



            Mais um mantra: “Unidos somos mais fortes”. Não é clichê de filme dos anos 1950, é real. Mantenha sempre contacto com pessoas com interesses afins, quando precisar se precaver ou reclamar. Uma boa entidade dá ouvidos a um indivíduo e uma má entidade não dá importância, ou dá cabo, mas quando a tendência detectada é de um grupo relevante a boa entidade se apressa em servir e a má entidade se recolhe de medo. Aqueles filmes de heroísmo não mentem quando passam essa mensagem, é literal. Ou os protestos em Hong-Kong não seriam reprimidos e os da Praça Tiananmen não teriam produzido carne humana moída por tanques, assim como os protestos por direitos civis nos anos 1960 nos Estados Unidos jamais teriam surtido efeito nenhum. Lembre-se, a união inspira o respeito dos honestos e o medo dos perversos.



            O mantra “Tudo o que disser poderá ser usado contra você” é mais poderoso do que podem imaginar. Escolha o que e a quem dar retorno, por mais banal e curta que seja a mensagem. Eu já recebi retornos desagradáveis e até ameaçadores, na época em que eu era novato na internet (upon once a long time ago) e aprendi depressa essa lição. Só fale a quem te dê um mínimo de segurança de resposta respeitosa e ÚTIL; mensagens padronizadas e genéricas não são úteis, nem robôs idiotas de burrice artificial que não compreendem uma dicção que não seja perfeita e em um sotaque padronizado. Assegure-se de estar conversando com seres humanos. Não espere por isso, mas há históricos de clientes que foram recompensados, porque suas reclamações revelaram problemas que a engenharia não tinha percebido durante o desenvolvimento do producto.



            O mantra “A prática leva à perfeição” deve ser aplicado a tudo o que fizeres, mas principalmente ao que for feito em público, para evitar passar mensagens equivocadas ou mesmo detalhes que de modo algum podem passar a domínio público. Lembrem-se de que o indivíduo pode se esquecer, mas a coletividade JAMAIS SE ESQUECE. Então sejamos o mais claros, discretos e elegantes quanto possível, porque oficialmente não, mas na prática até a comunidade mais porralouca em códigos de postura e vestuário, e quem se portar de forma mais refinada em um grupo de broncos, por mínimos que sejam os gestos ou os detalhes da roupa, vai chamar uma atenção que pode não ser a desejada. Pratique tua escrita, teus modos e tua paciência em ler e reler criticamente antes de decidir responder; e se decidindo a responder, lembre-se de que nem sempre, na verdade quase nunca sabes que tipo de gente está do outro lado. Vais acabar descobrindo que duas ou três páginas dariam o recado que o conteúdo diluído no textão lacrador de mil páginas não conseguiu, ao menos não a quem era dirigido e não da forma desejada.



            O último mantra é “Guardou é seu, mostrou é nosso”, que vale desde que a vida na Terra teve início. É por isso que predadores rechaçam qualquer aproximação estranha quando estão comendo ou cuidando dos filhotes, isso não foi inventado pela humanidade. Guarde os discursos e as narrativas para quem gostar, porque aos que colherem os teus dados, nada disso terá efeito inibitório, na verdade podem até servir de sinalizador de que há mais coisas interessantes de onde saíram as coletadas. Não é no palco de gritos de grupos exaltados que as cosias são decididas e resolvidas, é nos sussurros quase inaudíveis dos bastidores que tudo realmente acontece. Os mesmos bastidores donde devem permanecer TUDO o que tu não queres que seja compartilhado. Faça um teste, digite teu nome entre aspas, como “Nanael Soubaim” no Google e vais se surpreender com a quantidade de dados públicos a teu respeito, e são coisas que simplesmente não tem como ser suprimidas porque o poder público é obrigado por lei a publicar.



            Ainda não conheço uma lei que proíba as pessoas de coletarem dados de terceiros, não especificamente o acto de coletar. E se a pessoa tiver acesso, nada além do próprio senso crítico a impede de fazer a coleta. Seguramente há coisas minhas em poder de quem jamais entrou em contato comigo, mas se eu for perder o sono por isso, antes de algo realmente acontecer, será um suicídio indirecto. Então temos três opções: nos tornarmos pessoas do pré-guerra e irmos morar na zona rural, virarmos gado para não nos destacarmos em absolutamente nada, ou apelar ao bom e velho bom senso para não nos levarmos a sério demais e não ficarmos neuróticos com o que não faz diferença.

23/07/2019

Ah, você acha que lá tem liberdade?



    Um grupo de caminhoneiros se rebela contra o governo e, impunemente, organiza protestos e gigantescas carreatas por todo o país, ameaçando subliminarmente a população com desabastecimento e pondo em xeque a autoridade estatal. A mídia dá cobertura completa e destila sua tradicional peçonha, aproveitando para desenterrar assuntos correlatos e lucrando horrores com toda essa movimentação. Os líderes se tornam celebridades instantâneas, mostrando a todos que nenhum figurão, mesmo do primeiro escalão do governo, é mais protegido pela lei do que um varredor de ruas. Passadas quatro décadas, esses caminhoneiros ainda são lembrados e tomados como exemplo de mobilização para quem conhece a história, esta disponível na íntegra para quem quiser estudar o assunto, a qualquer momento, de qualquer lugar e sem restrições de qualquer tipo.



    Um escândalo político é exposto contra um presidente popular e bem-sucedido na condução de seu país, próspero e poderoso como nunca se viu. A imprensa novamente lucra rios de dinheiro com patrocínios para a cobertura do caso e o mundo inteiro fica sabendo que houve espionagem contra o partido adversário. Manifestações em todo o território nacional acontecem, a maioria pedindo a cabeça do presidente, com a insaciável cobertura dos jornais, revistas e de publicações jocosas de praticamente todos os humoristas daquele país. Para algumas publicações, isso representa o auge de sua popularidade. Mesmo os protestos que tomam países hostis como exemplos a serem seguidos são respeitados, apesar da vontade de alguns, especialmente fugitivos de regimes, de torcerem os pescoços dos manifestantes. A rigor, todos saem ilesos, impunes e retomam suas vidas; exceto claro o presidente renunciante. Há uma miríade de publicações a esse respeito, pró e contra o então presidente, das mais realistas e sólidas às mais absurdas teorias conspiratórias, até mesmo louvores a ditaduras tomando o caso como exemplo, tudo circulando livremente sem qualquer interferência estatal, é só pesquisar qual deseja, encontrar e começar com sua leitura.



    Protestos de “paz e amor” pipocam pelo país a exigir que as tropas se retirem das zonas de conflito em que estão. Como a mídia do outro lado não passa de um informativo dos regimes, a mídia local faz parecer que seu próprio país é o malvadão da história sem se questionar como tudo teria realmente começado, até porque jamais teria permissão do outro lado para fazer uma cobertura semelhante, como ainda hoje não teria. O resultado é a saída de uma situação que estava trocando de lado e pendendo para uma vitória, mas foi abortada pela pressão popular, cuja manifestação ocorreu livre e ainda hoje é lembrada pelos que lá estiveram. Claro que a mídia novamente encheu as burras com patrocínios em sua cobertura unilateral alucinada, enquanto do lado autodeclarado vencedor nada saía sem a permissão do governo, que ninguém explicava como conseguiu recursos para a empreitada. Ainda hoje surgem publicações com “descobertas bombásticas” sobre o acontecido, aos milhares, que são avidamente devoradas por teoristas da conspiração, impunemente, sem que seu governo sequer esboce intenção de editar uma linha que seja. Esses mesmos manifestantes, anos depois, são os turistas que visitam impunemente os países com que estavam em guerra… e voltam sem serem presos ou interrogados.



    Um dito “ativista” assassina declaradamente policiais, espalha doenças venéreas no meio artístico, faz discursos acalorados pedindo a destruição de seu próprio país, faz apologia às drogas e às ditaduras ideológicas, amaldiçoa os mesmos brancos com quem transou promiscuamente, viaja regularmente para o país que foi pivô de uma crise que quase eclodiu uma guerra nuclear e volta impunemente para o país que amaldiçoa, espalhando as mensagens ideológicas de um lugar onde a imprensa é só um informativo do regime. A imprensa livre o idolatra e lucra fábulas com patrocínios, cobrindo sua breve vida de agente patogênico, impunemente, sem que o governo possa restringir senão por faixa etária as transmissões e publicações. Durante essa breve vida, ele aguarda em liberdade plena o decorrer dos processos aos quais responde, indo e vindo como jamais seria possível nos lugares que idolatra e apregoa como paraísos reprimidos. A história nunca foi editada, então é fácil a quem o quiser conseguir informações, das mais precisas às mais fantasiosas, com níveis variáveis ou mesmo nulos de lastro documental, sem o risco de os federais baterem á sua porta por isso.



    Um promissor funcionário “revoltado e bem-intencionado” das forças armadas simplesmente trai seu país, entregando informações sigilosas para um estranho simpatizante de regimes fechados, que escancara o que chama de “hipocrisia” daquele país, sem jamais mencionar as atrocidades de seus regimes de estimação. O escândalo é basicamente sobre perda de privacidade, não há relatos nem mesmo vagos de prisão arbitrária e tortura seguida de execução, como é comum em regimes bonzinhos. Em princípio esse funcionário é preso, mas assim que se vê em liberdade simplesmente foge do país que traiu e se refugia em outro hostil com controle de mídia interna. A mídia do país traído segue os passos do jovem e o transforma em uma celebridade antissistema, lucrando horrores com a exposição dos podres de seu próprio país e fazendo os pivôs parecerem heróis. Pelo menos os líderes de regimes fechados acham que são, pois usaram seu material em proveito próprio. Não fossem outras acusações, um dos pivôs estaria livre leve e solto, gozando da liberdade que de que seu informante usufrui se fazendo de vítima diante das câmeras. Os jornalistas que cobriram e ainda cobrem o assunto estão todos vivos, livres e trabalhando. Ainda fornecem material praticamente contínuo para quem quiser estudar o assunto, por mais que isso desagrade ao seu governo.



    Ex agentes secretos aparecem repentinamente aos montes, dando entrevistas livremente, inundando a televisão e as publicações com uma revelação aterrorizante: Os líderes do serviço secreto são humanos! Pior: eles são passíveis de falhas! Com essas escabrosidades imperdoáveis, o serviço secreto é bombardeado com críticas ferozes de inimigos do sistema, adoradores de regimes que editam até a memória do cidadão e artistas que se acham intelectuais. Alguns métodos da agência são postos à público de forma clara e didática, inclusive os de recrutamento e fases iniciais de treinamento. Horror! Qualquer cidadão pode pleitear ser agente secreto, mesmo que não goste do governo! Que espécie de país dá ao cidadão comum um poder tão grande, e ainda permite que saia do serviço para a vida civil, impunemente e ainda escancare os vícios de sua agência? Estão todos vivos, livres e trabalhando, ao contrário dos que deram suas vidas para proteger seu país e até países vizinhos, esses a imprensa ignora solenemente porque não dão linhas à narrativa e nem patrocínio farto em programas antissistema… e poderiam afastar a audiência que os artistas antissistema ainda conseguem alavancar.



    Um fanfarrão é eleito presidente, a despeito de todas as previsões e toda a pressão midiática. Há manifestações violentas pelo país, com depredações e ataques físicos que formam pequenas praças de guerra. Facções declaradamente antidemocracia atacam aos berros os cidadãos e queimam propriedades de gente humilde, às vezes destruindo as ferramentas de trabalho dos que em discurso dizem defender. Próximo ao local da festa de posse, uma cantora antissistema faz um discurso inflamado dizendo que explodiria a sede do governo com o novo presidente dentro, se pudesse, aplaudida pelo seu público e dividindo palco com inimigos declarados de seu país, inclusive defensores da sharia. Novamente a imprensa lucra fábulas com patrocínios, cobrindo a bagunça e veladamente desejando o fracasso do presidente eleito, fazendo prognósticos dignos de esquizofrênicos com abstinência de controlados. O caso é recente, é então até mais fácil conseguir informações a respeito, inclusive saber que só os responsáveis por ataques violentos e perturbação da paz pública foram punidos, todos os outros estão vivos e em liberdade, inclusive a cantora e outros “artistas” adoradores de regimes que punem com execução sumária quem fizer o que eles fizeram. Esses mesmos “artistas”, que não toleram opiniões contrárias, adoram dar palpites na política interna de outras democracias, o que fazem sem medo de punição… pelo menos não no país que odeiam declaradamente.



    Uma mídia declaradamente inimiga desse país e defensora de outro hostil, onde a mídia é controlada com mãos de ferro, inicia a transmissão atacando livremente o país que a acolheu, suas instituições e seus valores mais caros de livre pensamento, eufemicamente chamando de “ponto de vista não ocidental dos factos” o que expõe. Com material proveniente exclusivamente da censura de seu regime, obriga seus funcionários nativos a falarem mal de seu próprio país e permanece no ar, mesmo após âncoras terem se demitido ao vivo e em rede nacional, expondo as mentiras que eram obrigados a falar. Nenhum artista se levantou contra essa mídia mesmo depois disso, e a mídia local lucra até com isso. É tudo garantido legalmente pela liberdade de pensamento e opinião, que não existem no país de origem dessa mídia, pelo que o governo local nada pode fazer a não ser que a segurança nacional esteja realmente posta em risco.



    Com tudo isso, facilmente verificável, vocês vêm tentar me convencer que naquele país não há liberdade, que é tudo invenção da mídia? A mesma mídia que ataca com fervor o seu próprio país? País para onde os “artistas intelectuais” adoram ir, em vez dos que eles apregoam como exemplos e paradigmas?



    Qualquer um afronta uma autoridade, qualquer um faz discurso em público contra as instituições, qualquer um contesta publicamente as leis, qualquer um processa o governo, qualquer um pode se candidatar ao que quiser e vocês querem me convencer que lá não há liberdade? Vão mandar ler o quê? Os manuais daquelas ditaduras?



    Façam a si e ao mundo um favor, voltem aos ventres e recomecem do zero.

15/07/2019

Ao abismo






            Vejo à frente o abismo, mudo e retumbante em sua luz negra, que preenche todo o vácuo turbulento que me rodeia. Ainda que recuasse eu avançaria, porque recuar é dizer “não” e o abismo desconhece negativas. Só conhece “fazer” e “cessar”. Cessar seria permanecer na supermorte em que se tornou a existência mórbida de sorrisos tênues, fatigantes e dolorosos.


            Não existe escolha senão avançar. Parar é abdicar de escolher e tornar-me alvo passivo das edges incessantes. Avançando escolho os motivos pelos quais devo sofrer, em vez de sofrer por motivações terceiras. Não se controla e não se pode defender-se das dores alheias.


            A vida é triste? Cruel? Vale a pena? Abdique desse drama supérfluo. Questionar a validade é renunciar automaticamente àquilo que se questiona. A vida já estava aqui quando chegaste e aqui estará muito depois de tua partida. Não é ela que deve ou não valer a pena, és tu.


            Ainda caminho para o abismo, às vezes consciente, às vezes de modo meramente automático; aqui quando as forças e os motivos se mostram pequenos demais para alimentar a ação. Às vezes me esquecendo de que já caí de outros abismos, cada vez mais profundos em sua sucessão. Às vezes pareciam não ter fim, mas eu sempre cheguei ao piso rochoso da fossa após quedas cada vez mais prolongadas.


            Quanto mais me aproximo de sua bocarra escancarada e faminta, mais o vácuo frio e turbulento me queima por dentro, mas também mais me faz perceber o quanto a bonança do ponto de queda era tão mais triste e dolorosa, que faz então o óbito incessante parecer vida plena. Era só um analgésico que não curava realmente a enfermidade, e para o qual eu já estava insensível.


            Não, eu não direi que todas as pessoas são infelizes e não o sabem, não estou em suas mentes para saber o que realmente sentem e, ainda que lá estivesse, certamente não saberia traduzir os dialetos que somente a cada um cabe compreender; decerto que nem mesmo cada um tem ciência plena daquilo que lhe povoa cada pensamento, que dirá um observador? Afirmar aquilo seria pedância de um paciente que se nega ao tratamento psicanalítico.


            Enfim, nem as pessoas se conhecem realmente e não serei mais um a pleitear um busto por fazê-las duvidar de seus próprios motores de vida. Minhas dores são mais do que suficientes e só se aplicam a mim, não quero disseminá-las. Fazendo isso, eu seria tão pior do que os agentes agressores, que parar doeria menos do que o remorso.


            Ao abismo. Vejo tanto nada que tudo o que existe caberia ali com sobra de espaço, e realmente tudo se apresenta em uma fração de tempo que não posso medir. Ainda que pudesse, por que o faria? Estaria atrasado? Para quê? Tampouco tenho pressa de que se dê o desfecho. Urgência talvez, mas não pressa. Gostaria que tudo acabasse de uma vez por todas, mas quem me garante que realmente se acaba? Quem diz ao corpo já se apagando, que está terminado? O cérebro que já se terá ido? Onde está o registro do fim? O há?


            Não estou a um passo dele, estou a ele. A diferença entre a queda ao chão e a queda ao vazio, está simplesmente na direção para onde cairei. Ironicamente, tudo o que me acometeu até aqui foi colheita de meu plantio, mas agora, no zênite deste platô, a escolha é do vento que me empurra hora para o chão que piso, hora para o vazio adiante. A bem da verdade, meus pés já estão metade à frente, sem apoio, no ponto crítico do equilíbrio.


            A dor não aumenta e nem diminui, ou talvez eu é que não perceba mais se há variações. Talvez tenha me embrutecido justamente por não ter podido parar e me analisar. Ainda que parasse regularmente pelo caminho, que parâmetros eu teria para essa análise? E de que vale isso agora, se antes já não me valia? Homenagens póstumas não cicatrizam feridas. O que não foi dito ou feito até aqui, não o será mais.


            Pendendo para o abismo, puramente por força das conseqüências já plantadas, olho para ele e não, ele não olha para mim. Ele está pouco se importando comigo. Ele fará, ou não, diferença para mim, para si eu não significo mais do que mais um; não serei o derradeiro cadente em seu vão. Aliás, a escuridão infindável é clara e nítida, até mais do que a que já me contém. Em um tempo que não meço já não me contém mais.


            A ausência de pressão sob meus pés e pernas informa que a queda começou. Não é assustador como a tantos pode parecer, em verdade vos afirmo que a espera me tolhia mais a respiração. Não me atemoriza a iminência do impacto, isso é quase certo e não me desgasto mais com aquilo que não me cabe, mas se desgasta o animal que me veste e quer sobreviver a qualquer custo, bradando um grito que não ouve na vã tentativa de obter um eco que não vem. E não virá.


            Ainda que sinta o atrito cada vez mais intenso com o ar e a aceleração que me faria por para fora tudo o que tivesse em meu estômago, não há nada ao redor que possa me fazer mal. Tudo o que poderia me atormentar e ferir está dentro, não fora. E nesta solidão que já havia quando cercado por multidões, nem haveria agente externo a quem imputar qualquer culpabilidade. Ainda que pudesse fazê-lo, a culpa é apenas um expediente cruel de uma vingança eufemizada, somente o reconhecimento da responsabilidade, que poucos se dignam a assumir e levar a termo, teria os resultados que valeriam meus esforços.


            Ainda que o silêncio congelante me queime da pele até os ossos, não esboço mais qualquer reação no decorrer da queda. Chorar e sorrir se mostraram, no final das contas, a mesmíssima cousa, ambas me causam dor e cansaço que não me convém mais sentir sem a mais absoluta necessidade; até que essa queda se finde, não existe absolutamente necessidade alguma. Tudo que não seja a própria existência está indefinidamente suspenso.


            Vejo ao longe as trevas engolindo o horizonte que nem sei se existe. Talvez essas trevas se devam à cegueira e não ao ambiente, mas ainda que não seja tudo tão realmente escuro, a luz é tão tênue que não faz diferença, sequer eleva um grau em minha temperatura também cadente. Mas o que eu veria, se enxergasse, senão uma parede rochosa subindo cada vez mais rápido?


            Ainda estou caindo. Até quando eu não sei. Sinceramente, não me vale fazer cálculos sem parâmetros, se só existe agora a queda. Calcular agora não mudará o desfecho, o qual desconheço e ainda que conhecesse, não poderia evitar. É uma queda livre. Na verdade a única cota de liberdade que me foi permitido até hoje. Caio no meu tempo, do meu jeito, se vivo ou morto não importa mais. Apenas caio até o fim… se houver fim.


            A única coisa que me dói é a única certeza que tenho, e não é uma afirmativa: Quem se importa?

28/06/2019

Cem mil

O blog-mãe

    Hoje o Palavra de Nanael recebeu sua centésima milésima visita. Reconheço que é um número pequeno mesmo para esta era de decadência dos blogs, era em que as redes sociais acostumaram as pessoas a mensagens curtas, sem muito esmero linguístico e sem dar chances de verificar em tempo hábil a procedência do que se tiver lido.

    Em Agosto de 2006, a idéia com acento deste blog nasceu da conversa de conforistas do saudoso Garotas Que Dizem Ni, capitaneado por Flávia Pegorin, Clarissa Passos e Viviane Agostinho. Era o auge do formado e muita gente conseguiu até mesmo ganhar algum dinheiro apenas actualizando regularmente seus blogs, hoje poucas pessoas têm mais retorno do que investimento com isso; sou eu quem paga a internet aqui, não vem de graça! E menos gente ainda consegue viver de blog hoje, mas mesmo essa gente bem aventurada precisou reformular sua linguagem.

    Bem, eu não parei no tempo, precisei fazer alguns ajustes e estes me obrigaram a mudar algumas vezes a arquitetura capa, para adequar o formato do texto aos recursos audiovisuais e de hipertexto que precisei utilizar em grande escala desde então. Para que é uma vaca que digita, até que não fiz um trabalho ruim, mas gostaria de ter feito mais. Mais e melhor.

    Infelizmente a vida teve outros planos e já não é raro eu ficar um mês sem publicar nada. Não tenho me dedicado o quanto eu gostaria e os textos não satisfazem meu controle de qualidade como noutrora. Talvez seja excesso de autocrítica, mas eu simplesmente não gosto mais tanto do que leio, quando clico em "publicar". Corrigir até ficar bom é tolice, eu nunca pararia de corrigir. Ainda tem o problema de instabilidade, que eu não conhecia há até pouco tempo. Publicar várias imagens em maio ao texto pode arruinar totalmente a formatação, entre outras aberrações.

    Com isso, meu público empacou em sessenta inscritos, nem sei se um só deles ainda lê isto aqui. Sei que hoje à tarde abri o blog e vi mais um, finalmente mais um inscrito, o amigo Kamikaze. E isso veio junto com a contagem de 100.003 acessos. Ficou por anos empacado na casa dos 90.000.

    Ironicamente, as mesmas redes sociais que definharam os blogs são as maiores fontes de acessos deste, hoje em dia. E é de onde vêm as respostas mais rápidas. Vocês não imaginam o quanto a resposta do leitor é importante, ainda mais se for feita na caixa de comentários do próprio texto! Mas eu tenho que me contentar com os comentários nos links compartilhados, já a gradeço por isso.

    Mas reconheço que fui responsável por grande parte da debandada de leitores, quando eles perceberam que eu uso um peso e uma medida para tudo. Enquanto eu batia em quem eles não gostam, minha audiência era expressiva, quando bati também em quem eles adoram, fiquei por anos às moscas... Eu simplesmente não posso ser desonesto com o público e muito menos comigo mesmo.

    Eu não sei por quanto tempo ainda poderei manter os blogs, sei que não vou me render a apelos e ditames da moda, porque afinal, certamente foi isso que me diferenciou dos que jazem e mantém a visitação mínima que ainda tenho... enfim, era tudo o que eu tinha a dizer a respeito.

   Muito obrigado pela perseverança, e até o próximo texto.

19/06/2019

O destino dos SUVs


O que vai ser? Pick-up, furgão ou o "carrão" da família?

    Imagine um Range Rover Evoque, o que lhe vem à mente? Um shopping? Boate? Um passeio em um condomínio fechado de alto padrão? Um jogador se exibindo com uma modelo que sequer conhece direito? Sim, talvez, hoje é mais ou menos isso que acontece mesmo. Mas imagine esse modelo com o interior depenado, do motorista para trás, pintura descascando, plásticos quebrados, usando motor e pneus de D20, carregando equipamento de construção civil e um servente suarento de carona; quiçá até mesmo uns sacos de cimento e alguns tijolos. Oh, já estou vendo pêlos eriçarem e olhos esbugalhando! Não me batam ainda.



    Por ter revolucionado, até certo ponto, o design automotivo, ele é o queridinho dos “suveiros”, mas por isso mesmo tem o ônus de envelhecer rápido. E o que envelhece rápido, cai em desgraça no conceito do mesmo público que o ascendeu. Fora que, reclamação recorrente, a manutenção de um Land Rover moderno paga fácil a compra de outro carro, e por isso é fácil uma seguradora dar perda total por qualquer dano mais sério. Às vezes basta a colisão ser forte o bastante para acionar o airbag, o que não é difícil.



    Mas vamos para um patamar mais mundano e classimediano. Imagine o antigo Tucson simplesmente cortado para servir de pick-up, com pneus de S10 e um Perkins no lugar do motor original. Imagine-o executando trabalhos pesados para os quais simplesmente não foi dimensionado (ou seja, para o qual não tem estrutura física) e com sensores apitando a toda hora pela falta de resposta dos equipamentos que foram retirados na transformação. Herdaria assim a sina que hoje castiga e sucateia Belinas e Caravans. Para elas ainda existe farta oferta de peças e boa mão de obra, já esses hatches abrutalhados de suspensão elevada e preços desproporcionais, costumam ser hóspedes prolongados em oficinas. Adivinha o que acontece quando envelhecem?



    O caso do Tucson é mais tênue, porque ele foi pensado como “SUV para as massas”, por isso sofre menos com desvalorização e não leva a pecha de resto de rico, ou de penso-que-sou-rico. Ninguém, ou quase ninguém, vai se sentir mal em sair da garagem e ver outro Tucson modelo antigo carregando sucata com a tampa traseira aberta, ou mesmo rodando sem ela. Ao menos não por enquanto e não com o modelo antigo. Por menos de trinta mil se compra um com dez anos de uso em boas condições, esse dificilmente viraria burro de carga, mas basta encontrar um dos mais antigos e em situação mais precária para enxergar um carro de frete. Enquanto funcionarem, os equipamentos serão usados, mas será pifar e a troca por outros genéricos vir, ou mesmo abrir-se mão deles. Então um carro que veio recheado de fábrica, torna-se um pé de boi com contagem repressiva para o ferro-velho.



    Feirante, serralheiro e pedreiro, no Brasil, não se importam com seus carros. Quase todos eles. Simplesmente usam até fundir e abandonam sem olhar para trás. Há exceções, claro, mas não pesam na estatística. Para aparecer um SUV com para-choques improvisados, sem praticamente nenhum plástico externo, com todos os componentes à mostra, rodando clandestinamente repleto de caixas, barracas, ferragens e afins, não vai muito mais tempo. Carro batido nunca foi bonito, mas carro moderno batido é horrível! E olha que me referi ao “Fusca” dos SUVs! Imagine um Mojave nessas condições! Maior e mais robusto, viraria carregador de tralhas sem cerimônia! Bateu forte atrás? Vira pick-up sem choro e nem vela! E assim rodaria até pifar de vez e virar carga de alto-forno.



    Agora a coisa preocupou um pouco mais, não só aos amantes de carros; aliás, esses não são afeitos à onda de SUVs, preferem as tradicionais e recatadas peruas. Mojave está pelo menos dois degraus sociais acima do velho Tucson, já incomoda quem compra esse tipo de carro pelo status ou para seguir a moda. Daí já é possível imaginar uma Freemont na mesma situação, de onde se pode imaginar um Compass (infinitamente mais competente) puxando um enorme reboque para a feira, e já estamos batendo às portas da classe média alta se pensarmos que faltaria pouco para imaginar um Audi série Q na mesma situação. Eu posso imaginar. E imagino com gosto.



    Não é só pela minha antipatia a essa “categoria” de veículos que escrevo este texto, nem só pela arrogância asquerosa com que pseudointelectuais da imprensa automotiva apontam o dedo pra o meu nariz dizendo “Você ainda vai ter um, queira ou não”. É pela observação de fatores que a empolgação cega deixa passar. O mercado está saturado de modelos e versões, de tal modo, que falar “SUV” não significa mais nada, qualquer veículo de dois volumes (compartimento do motor e carroceria bem distindos) com suspensão elevada e plásticos idiotas espalhados, é considerado um SUV; exceto os “cross” da vida, esses nem para isso servem. Uma olhada numa tabela de modelos e versões e vocês verão o quão rapidamente estamos saturando o mercado com SUV.



    Simplesmente estão banalizando e, para compensar, apelando para estratégias marketing mais agressivas e apelativas, tanto que às vezes descambam para a infantilidade. TODOS são intitulados “O SUV dos SUVs”. Todos são superiores aos outros. Todos sofrem pela absoluta carência de argumento de venda. Todos são mais caros, mais pesados, mais desajeitados e menos espaçosos do que seus equivalentes em carrocerias hatch e perua. Não são como Veraneio e Rural, que saem da estrada sem medo de perder plásticos pelo caminho e não são condenadas à sucata por uma colisão grave. SUV só serve para desfilar em lugares caros e atrapalhar a visibilidade dos pedestres.



    Quando a Audi cometeu a estupidez de lançar “SUV coupé”, eu achei ridículo. Piorou quando foi um sucesso de vendas, se agravando quando as outras marcas começaram a copiar o (falta de) conceito e também obtiveram êxito de vendas. Falar de coupé quatro portas já me faz perder a fé na humanidade, colocar pneus aro 20” e suspensão alta, com penduricalhos de plástico em baixo inutilizando essa altura livre, me faz ligar para a central de atendimento do apocalipse e perguntar onde está o maldito meteoro.



    Por que? Porque isso demonstra que as pessoas não querem SUV porcaria nenhuma! Estão simplesmente agindo como gado! O formato tradicional que caracterizaria um utilitário esportivo não é mais levado em conta, é como decair o teto de um furgão até a altura das lanternas e ainda assim o venderem como furgão! A Maybach apresentou recentemente um “conceito” de “SUV sedã”, que nada mais é do que um carro comum compacto ampliado em cerca de 50% em todas as suas medidas, resultando em um desenho tosco, sem proporções e indigno da marca. O Gordini foi mais bem desenhado, e era mais honesto.



    As pessoas querem carros espaçosos e imponentes, mas mal conseguem o primeiro e nem de longe o segundo. Conseguem aparente imponência com a suspensão elevada, mas mesmo assim os adereços desenhados para atenuar a péssima aerodinâmica fazem a frente raspar em qualquer guia de calçada. Uma Fiat Weekend NORMAL é muito mais baixa e sofre bem menos com isso, tem muito mais espaço do que um SUV com o mesmo comprimento e, enfim, seria um texto só para enumerar as vantagens das boas e velhas peruas. Nem vou falar da saudosa Caprice Wagon com sua capacidade de levar até nove pessoas e ainda ter espaço para malas.



    O que o comportamento tem me revelado é que as pessoas querem carrões. Carrocerias vastas com espaço interno de sobra e capacidade para passar por irregularidades do asfalto sem transformar o carro em um liquidificador. Acontece que ficou socialmente menos aceitável ter um carro assim, pois consome mais combustível e ocupa vagas maiores no estacionamento, mentalidade que deu aos picaretas imobiliários licença informal para construir aquelas vagas IMPRATICÁVEIS em edifícios residenciais. Mas essa restrição social não se aplica a veículos de trabalho, mesmo que tenham conforto para passageiros. Um sedã ocupar dez metros quadrados é um escândalo, mas um utilitário ocupar o mesmo espaço e ainda obstruir a visão de uma criança que esteja para atravessar a rua, é perfeitamente aceitável. Se for um “utilitário esportivo”, então até parar em local proibido é perdoável.



    As pessoas não estão mais agindo pela emoção, como quando se escolhia um caro de desenho rebuscado, estão agindo simplesmente pelo efeito manada, e dentro desse efeito escolhem o que a manada permite escolher. Só que uma manada muda de direção ao menor sinal de perigo ou escassez, e o risco de perder status é neste caso ambos. Nem todos os SUVs vão directo do leilão da seguradora para a sucata, já tem gente querendo o gosto de dirigir um desses mesmo que por pouco tempo, daí para pipocarem os utilitários de rico em casa de pobre, então as pessoas verão a quantidade de Cherokee mal conservadas que rodam por aí, ainda invisíveis pelo deslumbramento coletivo; quando isso acontecer, a queda será cara e dolorosa, porque a indústria automobilística está quase totalmente comprometida com a fabricação de SUVs.



    Claro que muita gente vai comprar carros relativamente bons a preços baixos, mas quase ninguém vai querer restos de ricos. A classe média, que poderia absorver esses restos, é ávida demais por status para se permitir ser apontada nas ruas, então há dois caminhos plausíveis: sucata e casa de pobre na periferia, para virar pau pra toda obra em estradas ruins e enfrentando escassez de manutenção. Enquanto houver sucata suficiente e a preços acessíveis, eles rodam como carro da família, ou do mano. Quando as peças de sucata escassearem, vai tudo virar mula de carga.



    Decerto que os colecionadores terão farta oferta de um registro triste da história de nossa indústria e da decadência de nossa cultura, mas fora eles, quase ninguém vai querer esses carros, assim como ninguém queria os Dodge V8, Maverick e Landau nos anos 1980; com o agravante de que SUVs não têm carisma e nem estilo que sobram naqueles carrões. Também não têm memória afetiva como eles. SUV é, na maioria absoluta dos casos, carro para exibicionismo puro e simples. Um sedã full size, por outro lado, traz toda a tradição e memória de épocas em que a vida era muito mais simples, em que havia optimismo, que as moças podiam manobrar sem precisar de auxílio hidráulico, ao redor do qual a família se reunia para lavar e depois ir passear, com um porta-malas cavernoso à disposição… se fosse um conversível familiar então… enfim… Não é algo que se conversa no programa de televisão e some da memória quando se muda de canal, é uma experiência de vida que se guarda no subconsciente e é fácil de ser compartilhada e, assim, vivida virtualmente por quem ouve a história. Já as “aventuras” vazias da balada…



    Um executivo da Ford perguntou a um jornalista especializado, quando foi a última vez em que ele suspirou por um sedã da marca, então me veio a pergunta “Qual foi a última vez em que desenharam carros para gente comum com a mesma paixão de outrora e mesmo empenho com que desenham um SUV”? Já viram a dificuldade para se entrar e sair pelas portas traseiras desses sedãs modernos, por causa do desenho do teto e da soleira alta? Os japoneses se cansaram de dar sinais, cada vez mais escancarados, de que estavam fazendo corpo mole e perdendo a mão. Ouviram? Não, não ouviram. A culpa de tudo isso é deles mesmos. E a fatura do fim da famigerada era dos SUVs também será. E veremos Evoque baratinho no Mercado Livre, esperando meses para trocar de mãos, para então ser transformado em caminhoneta de serralheiro.

03/06/2019

A lição chinesa.



    À parte ser uma ditadura sangrenta, em que até a memória do cidadão é censurada, vide o massacre da Praça da Paz(?) Celestial, a China nos dá lições que a cabeça dura e a relativamente recente covardia ocidental nos privam de usufruir. A sabedoria milenar oriental, deturpada e indevidamente apropriada pelo partido comunista, tem tudo a ver com isso.



    Antes de continuar, temos um adendo. A postura ocidental não é “errada”, classifico “certo e errado” o que está ou não de acordo com o objectivo. A solidez e sentimentalidade ocidentais asseguraram um século de desenvolvimento tecnológico e corporativo que demos DE GRAÇA para que ainda hoje dá de ombros para propriedade intelectual ocidental. O “errado” na postura ocidental é que essa solidez toda acaba se transformando em rigidez, o que durante tempestades intensas e prolongadas produz perdas severas. Sobrevive-se, sim, mas essa sobrevivência se dá a duras penas e graças às raízes profundas que gerações de antes da covardia crônica cultivaram.





    Houvesse a capacidade de flexibilizar, mesmo que apenas em resposta à crise, essa solidez toda proporcionaria perdas mínimas e rapidamente repostas; mas não a temos. E não a temos porque não queremos, não há absolutamente nenhuma diferença de genótipo que torne os chineses mais capazes disso do que nós, tampouco há segredos ocultos para isso. O que eles têm é praticamente o que todo o extremo oriente tem, só que alguns em absurdo excesso. Enumero alguns:








        Eles têm um profundo respeito para com seu país e um desejo quase selvagem de vê-lo em destaque no cenário mundial em todas as áreas. Aqui vem o excesso, eles não dão a mínima para os outros países e não se importam com os danos que lhes causarem, e não hesitariam em tomar posse dos vizinhos, como fizeram com o Tibete, se não houvesse uma oposição poderosa o suficiente para isso; leia-se USA, gostem ou não.


        Eles não cultivam a culpa. Fazem o que for necessário para atingir seus objectivos e não se importam com a opinião internacional, ao contrário do medo de ofender os costumes dos povos ribeirinhos do deserto do Sifuquistão Centro-Ocidental do Norte. Aqui novamente o excesso de uma ditadura que não estaria lá, se a cultura local não permitisse; em vez de simplesmente não se importar, o partido ataca com tudo o que pode quem diz “Ei, pisou no meu pé” e ainda incentiva fora de seus domínios, comportamentos que proíbe e pune severamente dentro.



        Eles não tem medo do ridículo. Não se importam em errar até acertar, ainda que para isso sejam vítimas de bullying no exterior. Eles simplesmente aceitam as críticas constructivas e as aplicam sem perda de tempo, as chacotas eles simplesmente guardam na gaveta da vingança e esperam esfriar para se servirem, como têm feito. E como eles sabem se vingar!


        
        Eles começam como podem, não esperam as condições de mercado serem favoráveis e a comunidade apóia quem tem essa iniciativa. Quando digo “comunidade” me refiro ao país inteiro. A China toda se debruça para apoiar e incentivar quem quer abrir seu próprio negócio. Praticamente não há empecilhos para quem precisa de um financiamento condizente com o que pretende, a contrapartida é o modo PCC do governo em cobrar resultados, quando o modo bancário ocidental de cobrança tem se mostrado suficiente para isso. A profusão de veículos eléctricos, dos mais absurdamente espartanos aos mais sofisticados, é resultado disso.





        Eles praticamente não vêem diferença ente seu sucesso e o sucesso do país, por isso deixam de lado o bordão “Nada pessoal, só negócios”, porque ao menos dentro do território chinês é pessoal, eles não desistem até que absolutamente todas as possibilidades estejam esgotadas; mais ou menos como negociar com uma máfia, faltar com o negócio é ofender a família. Excesso que o governo sabe aproveitar, mas em moderação serviria bem de exemplo a ser seguido por patrões e empregados ocidentais. Ah, claro: marca desactivada é marca disponível, então se alguém decidir abrir uma nova Pontiac ou Oldsmobile, a GMC terá problemas.

        Eles são flexíveis e, dentro dessa flexibilidade, são humildes. E suas plantas são aptas a modificações relativamente rápidas e a custos exequíveis. À parte a frouxidão de caso com que o país trata o ser humano e o meio ambiente, o empreendedor não encontra problemas em mudar o foco ou ampliar a gama de produção; que é parte do sucesso da Xiaomi, por exemplo. Não que a Ford deva fabricar panela de pressão na linha de montagem do Mustang, mas licenciar à moda das franquias a sua marca, para ganhar dinheiro com tudo o que tem a ver com seus productos e sua história; já fabricou de rádios a aeronaves.

        Eles têm essa mesma flexibilidade com a legislação. Basicamente, o fabricante é responsável pelos danos que seus productos (e se for o caso até serviços) causarem, não há firulas, somente penas duras e garantia de que a família terá que pagar pela bala do fuzilamento, se algo grave acontecer; se o caso for de corrupção, lembre-se, o PCC é uma máfia e seus métodos são implacáveis. Tudo certo? Está pronto para assumir as conseqüências e usufruir das benesses? Então siga as regras e seja feliz.

        Eles têm consciência de que uma bolha de fibra de vidro com três ou quatro rodas não é mais insegura do que uma motocicleta, por isso carros de baixo desemprenho e uso exclusivo urbano são comuns por lá, e são baratíssimos; mesmo as versões eléctricas. Ao menos nisso a legislação deles é muito melhor do que a nossa, não há esse tipo específico de hipocrisia, então pequenos fabricantes proliferam e suprem a demanda, sem vergonha de compartilhar componentes entre si e até com motocicletas, às vezes incluindo os pneus. Por US$ 1000,00 ou menos o cidadão livra a si e mais dois da dependência de ônibus. Não importa se a tecnologia usada é cambriana, eles querem que funcione pelo preço que o producto vale, sem que a imprensa especializada tente comparar um Chevrolet Onix a um Cadillac CT6; propostas TOTALMENTE diferentes.

        Eles não têm discussões prolixas sobre o temor do que já está acontecendo e nada há para se fazer se alguém se tornar poderoso demais. É uma discussão INÚTIL que tem minado recursos e até amizades no ocidente. Se houver o que fazer a respeito, eles fazem; se não houver, eles se adaptam aos novos tempos. Simples assim. Problematizar um assunto é garantia de afastar as pessoas e, em último caso, sofrer sanções legais, porque a pessoa vai atrapalhar o progresso coletivo e eles não admitem isso. Sem esses excessos, seria muito bom nós isolarmos essa turma por aqui. Os divulgadores das coisas chinesas, pelo contrário, recebem todo o incentivo possível e destes algumas críticas constructivas são aceitas; algo que os problematizadores não toleram receber.



   Em resumo, porque quanto mais escrevia, mais desmembramentos eu enxergava, a China está longe de ser exemplo para qualquer regime do mundo, até a Rússia é preferível, mas ela dá lições que deveríamos aprender imediatamente, e colocar em prática o quanto antes, para o nosso próprio bem.

23/05/2019

Marchetaria, Hakone e Nerikomi


Imagem de Lurury Wood Flooring

    Antes de responder gritando “É A MÃE”, adianto que não são xingamentos. Marchetaria, hakone e nerikomi são artes ancestrais da madeira e da cerâmica, sendo as últimas tipicamente japonesas. E quando digo “ancestrais”, me refiro a tradições milenares, que a maioria das pessoas sequer imagina que existam.



    Mas como toda tradição de artes manuais, que pareciam em processo de extinção no último terço do século XX, essas três foram retomadas com paixão e vigor desde a virada do século. Assim como já há gente vivendo da forja tradicional, máquinas a vapor, aparelhos valvulados, carpintaria e marcenaria artísticas, alfaiataria e estilo de vida do meio de século passado, podemos dizer que voltou a crescer o contingente de mestres no tema deste texto. Explicarei, dois pontos…

 
Art déco





    A marchetaria é, simplificadamente, a arte de juntar madeiras diferentes para formar padrões e efeitos visuais. Pega-se, por exemplo, um pedaço de ipê-branco, trabalha-se sua madeira, corta-se em tamanhos e formatos desejados, então junta-se com um pau-brasil que tenha passado pelo mesmo processo. Os pedaços recebem um adesivo apropriado (nem tente usar cola escolar para isso) são unidos de acordo com o que o marcheteiro planejou e então submetidos a grandes pressões por períodos prolongados. O método tradicional é simplesmente amarrar o mais apertado possível, enrolando a corda por toda a extensão do material; se for o caso de peças longas e finas, pô-las entre tábuas robustas serviria para evitar empenamento.

Painel do Rolls Royce Phantom. A Rolls Royce oferece marchetaria como opcional


Marchetaria decorativa
    Ainda que se utilizem métodos modernos, para acelerar a produção sem prejuízo à qualidade, as partes essenciais do processo de marchetaria ainda dependem do trabalho directo de artesãos qualificados. Por isso, mesmo que peças enormes sejam feitas em larga escala para baratear o producto final, a necessidade do trabalho manual meticuloso e tranqüilo mantém os custos relativamente altos.



    É muito diferente de apenas pegar cacos de madeira, cortar e colar em cima de uma superfície. Embora folhas tiradas de peças marchetadas possam ser, e são, coladas sobre outras superfícies, os elementos e figuras dessas folhas fazem parte do conjunto como se tivessem nascido assim, dentro da árvore que cedeu sua madeira. Pedaços colados podem se soltar uns dos outros com o uso, uma peça de marchetaria não. A coesão é tão forte, que peças marchetadas podem ser usinadas e trabalhadas para fazer utensílios e peças de arte, como uma tora de madeira comum.



    A técnica é tão eficaz, que pode ser aplicada até mesmo a outros materiais, como pedras e marfim. O suporte porém continua a ser a madeira. Há uma irmã, a Intársia, que se presta a trabalhos muito mais elaborados e com proposital ilusão óptica de profundidade.

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Parece papel, mas é madeira; Hakone



    O hakone é, simplificadamente, a laminação da marchetaria. Como nesta, peças de madeira, muitas vezes restos para reciclagem, são selecionadas e trabalhadas para formar padrões e figuras geométricas, acrescentando-se aqui a obsessão dos japoneses pela precisão de medidas. Quase sempre as peças têm superfícies bem pequenas e são feitas em grande número, com cada peça colada e prensada individualmente em seus elementos. Quando prontas, as peças são coladas entre si e o processo de pressão e espera se repete, até que se obtenha o painel nas dimensões e proporções desejadas.

 
Da madeira se tira a fina folha


    Até aqui é como a marchetaria ocidental, inclusive na possibilidade de tirar folhas da peça pronta. Em ambos os casos o folheamento confere uma beleza estonteante à peça coberta e uma grande agregação de valor.



    A diferença é que a folha é o objectivo do hakone. A espessura de 0,2mm torna essas folhas tão translúcidas quanto as de papel, a ponto de muitas vezes serem usadas em luminárias. Pegue uma régua de boa qualidade, não aquelas de plástico genérico vagabundo vendidas am pacotes de centenas por um real, e veja os dez traços que subdividem a escala de centímetros; o espaço ente cada um desses traços poderia empilhar cinco, talvez até seis, folhas de hakone. Os padrões intrincados e harmoniosos, derivados da facilidade de quem cresce acostumado à matemática, algarítmica ou não, dão a beleza característica dessa arte. A impressão é que quanto mais nos aproximamos, mais detalhes aparecem.



    Por serem folhas muito finas, em espessuras próximas ao limite de resistência do material, são muito fáceis de serem trabalhadas e moldadas a superfícies com curvaturas em direções diferentes, como peças de cantos abaulados. É quase como trabalhar com papel. Em mãos hábeis de um bom artesão, não precisa ser extraordinário, peças vulgares podem ganhar um refinamento digno de obras de arte. E por serem como papel, como tal, costumam-se colar várias folhas, lado a lado, como se fossem papéis de presente, só que sem a fragilidade climática do papel.

 
1 iene, hoje, vale 0,037 real. Não há centavos no iene, por isso parece pouco.



    As peças decoradas, e mesmo folhas avulsas, não são baratas, mas estão longe de serem caras. As técnicas de laminação do hakone permitem produzir em escala muito maior do que na marchetaria ocidental, por isso os preços caem bastante, a ponto de serem acessíveis ao bolso do cidadão comum. Em geral, por cem reais um turista traz uma linda peça decorada do Japão. E é uma peça única, apesar de a “estampa” poder ser encontrada em outras. E as peças podem ser as mais inimagináveis, fugindo do óbvio da decoração de interiores, incluindo katanas e varas de pescar.. ou até o painel do teu carro, se o artesão se dispuser a isso.


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    A técnica nerikomi é como suas irmãs, só que aplicada à cerâmica... NÃO! Não é catar caquinhos de cerâmica e juntar com cola! Olha o respeito!



    O processo inicial é parecido com a fabricação artesanal de massas comestíveis. Porções de argila de várias cores são trabalhadas, amassadas e esticadas, então o perfil é moldado até que se obtenha a forma desejada para a “estampa”. Isso é feito e repetido em várias unidades do “macarrão” até que todas possam ser juntadas e então formarem o padrão desejado, para quem olha pelas extremidades. Aqui terminam as semelhanças com o trabalho em madeira.




    Após unir todas as peças de argila, o conjunto é literalmente batido. Pancadas controladas em todas as faces da massa, para não danificar os padrões formados, ajudam a compactar e dar coesão à peça. Quase sempre as faces superior e inferior são descartadas, porque receberam directamente as pancadas e nem sempre mantém a contento os desenhos feitos pelo ceramista. Pode variar desde um padrão simples no centro de um prato até uma jarra com padrões complexos e ricamente estudados. Claro que os preços acompanham a complexidade.



    Aqui há dois caminhos básicos para a massa: moldagem e laminação, mas ambas podem ser extraídas da peça, depende do talento e da experiência do artesão. Em peças de grandes áreas, a laminação é a mais aplicada. Com um fio fino e resistente tira-se a folha de argila e molda-se-a ao formato desejado. Bandejas, canecas, copos, grandes jarros, abajures, quadros, enfim, uma infinidade de peças para uma infinidade de usos. Em geral são as peças mais baratas feitas com a técnica nerikomi.




    Um trabalho misto costuma ter resultados muito bonitos, apesar de relativamente simples. De tarugos com não mais do que a largura de um punho fechado, tiram-se pedaços em espessuras uniformes e estes são dispostos em uma mesa. Geralmente os padrões são espirais ou em forma de alvo, os mais fáceis e rápidos de se conseguir, ficam parecendo biscoitos de frutas, então manter longe das crianças pequenas. Esses biscoitos de argila são postos juntos ou com espaços preenchidos por outra argila, então o processo de amassar, umedecer e alisar recomeça, com mais delicadeza. O resultado pode ser facilmente transformado em copos, pratos e bandejas. Como sempre, o talento e a experiência do ceramista faz sapo virar príncipe.



    Moldar uma argila nerikomi é bem complicado, o ceramista precisa antever a deformação que seus padrões sofrerão durante o trabalho. O simples facto de necessitar espessuras maiores já implica em deformação. Entretanto, os resultados podem ser de uma beleza ímpar de uma personalidade única. E como toda boa cerâmica, ainda pode receber apliques de laminados finos, seja para reforçar, seja para realçar ou mesmo ambos.


Parece pintura, mas o padrão está dentro da cerâmica. Ar by Eiko Maeda.



    Acabamento e queima são os padrões, mas as peças não. Existem argilas prontas no mercado, mas os mestres ceramistas têm suas próprias fórmulas e geralmente vivem próximos às fontes.

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    Além das similaridades, essas três técnicas têm em comum o prazer de quem assiste aos vídeos, são fáceis de encontrar em qualquer bom canal de vídeos.

Bônus, a cidade de Hakone, no Japão, clicar aqui.