23/02/2013

Maria Cristina 6

Seu olhar notívago, cansado, vislumbra as brumas que não lhe encobrem mais o futuro, que ora é passado. Seu olhar sereno, hispano, sobrepõe suas notas à voz ainda juvenil que ressona soprano.

Não quer ser celebrada em sua boda, não quer ser perturbada em seu labor, só quer dar conta do trabalho ao qual se entrega toda.

Suas mãos cansadas escrevem, cientes do peso de cada palavra posta em papel, ciente daquilo a que servem. Suas mãos finas ordenam, para não se perder pedaços de vida que de lá lhe acenam.

Não quer ser adulada por seu valor, não quer aturar pessoas mascaradas, só quer dedicar-se ao que faz por puro amor.

Suas palavras duras, inspiradas, dão conta daquilo que o regular não mais consegue, mas sempre puras. Suas palavras preciosas, adocicadas, dão bálsamo às feridas d'almas desesperançadas, lamuriosas.

Não veste a carapuça de santa, se mostra humana até em seus rompantes, só quer voltar à estrada onde sua vida canta.

Seu caminhar pesado, exaurido, refaz os caminhos de sempre, como se pudesse encontrar o ponto desviado. Seu caminhar seguro, consistente, insiste em se esperançar e construir seu futuro.

Seu coração morno, ferido, acolhe cada filho que lhe emprestam por alguns anos, melhorados no retorno. Seu coração espaçoso, confortável, leva gente sem medir pesos, carinhoso.

Não se arrepende do caminho escolhido, prefere a dor da saudade ao remorso de uma omissão, só pede que o Pai devolva seu sonho esquecido.

Seu rosto abatido, saudoso, tantas vezes alvejado pela injúria profana dos pusilânimes, ainda erguido. Seu rosto tão lindo, angélico, por si só abrandando a dor do seu próximo, sorrindo.

Não se compara o vulgo à sua compaixão, tantas vezes enfrentando o poder oficial pelo indefeso, quando quem deveria nem dá satisfação.

Essa pessoa existe, perfeita em todos os seus defeitos, carrega em seus braços quem não mais consegue andar, quando ela mesma precisa repousar.

18/02/2013

Uma bilionária entre nós


Yoani Sánchez, famosa multi bilionária, acaba de desembarcar no Brasil. A magnata, que fez fortuna atacando cruelmente o pobre coitadinho do Pinel Castro, desceu de sua nave espacial particular, precedida de cento e cinqüenta seguranças fortemente armados, que rechaçaram os pedidos de clemência em favor do mártir cubano.

Logo atrás dela, cerca de duzentos servos trazem sua bagagem de mão, seu cãozinho selecionado e modificado geneticamente, e seu casal de aves-dodô. Todos vestidos com fraque e cartola, ou tiara de prata, no caso das servas. Todos descendo e cantando a musiquinha "Lere-lelê lere-lelê lelê...".

Em sua curta estadia, Yoani pretende divulgar seu primeiro o livro em língua portuguesa, o "Eu, traidora e mercenária", onde conta como enriqueceu com dinheiro americano, sendo agente secreta da CIA em Cuba. Logo na apresentação, ela confessa suas torpezas e ataques maldosos contra a verdade sagrada e absoluta do grande líder Pinel Castro.

Durante as palestras que dará, só para quem pagou dois mil dólares adiantados, por cadeira, ela ensinará a se tomar gosto pelas desigualdades sociais, ver com escárnio a manifestação de livre opinião, e a zombar da infância de crianças pobres. Revelará ainda seus planos para destruir o paraíso para mulheres e homossexuais em que a ilha se tornou, sob a batuta bondosa e misericordiosa de Pinel Castro.


Fonte: Blog da Regbit
Enquanto isso os gatos pingados que representam, sozinhos, toda a população nacional, clamam para que ela deixe o Brasil, ou ao menos não faça os enormes estragos sociais junto ao enquanto perante a um nível de, que por sua culpa assolam o paraíso cubano. Afinal, é ela a a única responsável pelo embargo à Cuba, é ela quem seduz jovens inocentes para a ilusão da democracia e liberdade de expressão, é ela quem convence os traidores a humilharem Pinel Castro, mandando dinheiro para um povo que já vive tão bem, mora tão dignamente e tem suas mulheres tão respeitosamente tratada pelos taxistas, sob a rígida vigilância dos fiscais do governo.

Se tivéssemos um governo de esquerda de verdade, o avião teria sido abatido em alto mar, ainda que matasse todos os outros passageiros, tudo em nome dos ideais. Mas não temos! Dilma é uma banana! Nem censura com fuzilamento sumário ela impõe!

Somente um governo vendido ao imperialismo americano, capacho da CIA, um governo de viúvas enrustidas do FHC, é que poderia deixar uma traidora perigosa invadir o território nacional, sem permissão, sem passaporte, sem lenço e sem documento! Eu vou! Por que não? Por que nãããããããoooooo?

Oh, coitadinhos de nós! Quem poderá nos defender? Yo! El Chavolín Aloprado!

Pepitos de my corazón, eu tinha quase jurado a mim mesmo que nunca mais tocaria em assuntos políticos, especialmente quando fosse de política internacional... Mas não dá! Uma pessoa na minha idade, não tem muita tolerância com infantilidades vindas de adultos. Tanto não dá, que teria quebrado a promessa isso há uns meses, se a tivesse feito.

E por que retomei o tema? Primeiro porque o blog é meu, o editor dele sou eu e eu escrevo o que eu quiser, já que sustento uma democracia para isso mesmo... Muito mequetrefe, mas ainda é uma democracia, né, Yoani!

Segundo em respeito aos meus leitores, que quase sempre acabam se tornando meus amigos. Mesmo muitos amigos de tendência à esquerda, enfiam suas cabeças no buraco mais próximo quando ouvem alguém usar os termos "justiça social", "liberdade de expressão" e "democracia para descrever o que há em Cuba e na Mocréia da Morte. Especialmente a sensata amiga Anita, que é estourada, mas sempre estoura em prol do bom senso e da maturidade psicológica.

Terceiro e último porque não me deixariam comentar nas páginas dos jornais. Sempre juntam turmas imensas, ou um número imenso de fakes, para gritar em maiúsculas as palavras de ordem e os discursos a que se resumem seus argumentos. Só ouvem e lêem o que sai da imprensa oficial. Querem ser ouvidos, mas não toleram ouvir.

Não, eu não sou contra haver uma imprensa oficial, sou contra ela ser a única imprensa legalizada em um país.
Não, eu não sou contra o Estado fomentar pesquisas de toda sorte, sou contra ser o único financiador legal em um país.
Não, eu não sou contra haver empresas estatais no mercado, sou contra serem as únicas autorizadas a funcionar em um país.
Não, eu não estou ganhando um centavo sequer para escrever isto. Estou ferrado e meu computador vive dando pau.

Sejamos francos, se ela recebesse um décimo do que a acusam, ela não teria mofado por anos em filas para receber passaporte, que sempre fora negado SEM EXPLICAÇÕES à cidadã; ela estaria vivendo em uma bela casa de praia na Costa Oeste americana, mandando milhares de dólares por mês para sua família. Esta, aliás, é uma das principais fontes de renda de muitos, mas muitos cubanos.

Yoani teria cidadania americana quando quisesse, ainda mais com a rede de amizades intelectuais que tem pelo mundo, especialmente no Brasil. Mas preferiu permanecer em território cubano, onde foi presa várias vezes, sem acusação formal; algo que a nossa juventude imatura e mimada  parece ter esquecido o que é. Não, não quero que saibam na pele, nem de longe quero que sintam o que até uma criança de colo sentiu, ao ser presa com a mãe. Só gostaria que parassem de ler, ver e ouvir informações de uma só fonte.

Uma fonte única, ainda que seja de boa fé, e isso nenhuma ditadura tem, acaba cometendo erros. Eu leio fontes de direita, de centro, de esquerda, de anarquistas, de alienados, enfim, eu não excluo uma fonte só porque me parece antipática. Nenhuma mesmo. Ter fonte única e considerá-la totalmente confiável, não conseguir dar bom-dia sem apelar para discursos e palavras de ordem, é dogmatização, lavagem cerebral pura, torpe e simples.

Eu já li os textos dela. Ela sempre deixa claro que conhece, e lamenta pelas injustiças sociais no Brasil. Nunca escondeu isso. Também deixa clara sua personalidade irritadiça, quando tentam usar sua vida pessoal como desqualificador. Ela é brava, inquieta, pavio curto e tudo mais. Mas dizer que ela traiu seu país, é como acusar o Fiqueiredo de leso-pátria, por ter colocado Maluf em seu devido lugar, ao dizer que prenderia e arrebentaria quem se opusesse à transição democrática.

Ela não quer que Cuba se torne um paraíso especulativo, quer simplesmente que se torne uma democracia, onde o povo possa escolher quem vai representá-lo e, assim, ter chances de conseguir uma vida digna. Não sei se vocês leram as primeiras reportagens sobre Cuba, mas mesmo as mais elogiosas afirmavam que lá se vive muito mal, tanto que usaram o facto de Yoani ter comprado banana e tomado cerveja com os amigos, para dizer que estava enriquecendo com o suborno da CIA.

Meu Deus!!! Eles têm uma base em território cubano, uma base enorme. Se qualquer presidente americano dissesse "Tomem o poder", mesmo que houvesse potência militar que fizesse frente, e não há, não haveria tempo para reação. Cuba está aos pandarecos, só os hotéis para turistas desfrutam de infra estrutura mínima. Seria fácil, o povo já está acostumado a prisões arbitrárias, e como os espiões do regime andam à paisana, poderiam prender qualquer um que se opusesse. Qualquer um mesmo.

Voltando ao caso específico... Os fulanos nem conhecem a cobra-criada, mas boa gente, e já enchem a internet de protestos contra sua presença no Brasil, como se isso fosse nos fazer algum mal. Nem entrarei em detalhes sobre as vistas-grossas para com as denúncias que eles se recusam a averiguar, já que só lêem o que a imprensa oficial manda, como os fiéis de certas igrejas caça-níqueis... Tenho muitas amigas cobras-criadas, não é necessáriamente prejorativo, sei do que estou falando.

O que mais desabona nossa democracia, já tão combalida, é fazerem acusações sem apresentar absolutamente nenhuma prova. Se houvesse uma só prova real, ela jamais teria saído da última detenção. Acontece que ela é muito popular, muito bem-quista na ilha. Como sei? Lição básica de política: Não se molesta um herói nacional, sob hipótese alguma, ao menos não de modo que pareça perseguição oficial. Longe de ser uma heroína, suas seguidas solturas mostram que a população ficaria extremamente aborrecida, se algo lhe acontecesse, porque não foi uma nem duas, são de perder a conta a quantidade de pessoas que somem nos porões da ditadura.

O azar dos Castro, foi ela ter conseguido se comunicar rapidamente. Claro que neste ponto, houve ajuda dos Estados Unidos, mas não do governo. A ajuda, pela disseminação rápida e eficaz do blog, se deveu aos fugitivos do regime, que gostem os ditadores cubanos ou não, são quem garante um mínimo de dignidade aos parentes que ficaram em território cubano, e garantem uma parcela considerável do PIB. Não fosse verdade, essas remessas seriam ilegais. Afinal, só a Mocréia da Morte ainda tem mesada e, diga-se de passagem, a China já pensa seriamente em cortá-la.

Finalizando, nas minhas atribuições constitucionais de livre expressão: BEM-VINDA, YOANI. FIQUE À VONTADE, QUE A CASA É NOSSA. DIGA O QUE QUISERES, AQUI TU PODES.

14/02/2013

Isso mesmo, tira de linha!


Correctíssima a decisão da Volks! Corretíssima a decisão do Contran. A Kombi tem que sair de linha mesmo! Carro antiquado, inseguro, desconfortável, feio, cheive, paia, radauêi-tererê! Nem faz cara de fisiculturista com diarréia, p'ra impressionar as turmas!

Além do mais, os frotistas não ficarão órfãos por muito tempo, será importada uma van de tração dianteira, que nem pensem em colocar nos atoleiros pelos quais a Komboza passa tranqüila, que custará apenas o triplo do preço. Vejam só, é uma van moderna, segura, confortável, repleta de confortos e dá status. Kombi não dá status, nem seus fãs, que querem um veículo racional e confiável para o trabalho duro.

Qualquer veículo que não proteja integralmente o seu condutor, em uma colisão, tem que ser tirado de linha mesmo! Não só isso! Tem que recolher todos os exemplares e demolir! Em troca, para os ex-donos, poderiam dar um descontinho de 0,5% na compra de uma motocicleta genérica de uma montadora chinesa.

Kombi é um horror! Só quem nunca andou numa p'ra achar que estou exagerando! O nível de ruído é muito alto! Por isso prefiro motocicleta, que é silenciosa, segura, ágil no trânsito, permite andar na calçada lotada de gente, andar entre os carros e quebrar os retrovisores, é fácil de roubar e de adulterar.

Chuva? Ah, chuva não existe, é crendice, superstição. O mundo é um lugar de tempo eternamente ameno e agradável, com ventos suaves e umidade na medida certa.

E o desempenho? O máximo que ela dá, com o último motor AP, é 140 por hora! Como é que alguém vende um carro que não chega nem a 180km/h? É um atraso enorme! Não dá nem para disputar racha com um Camaro!

O que acontece se um carro bater na frente da Kombi? Encolhe toda! Olha o perigo, bem pertinho dos pés do motorista! E se ele machuca, quem vai pagar os dias parados? Por isso que tem que sair de linha mesmo! Que vá andar de ônibus público, que é um exemplo de conforto e segurança para seus ocupantes.

De moto não, ela te torna invulnerável a todos os dissabores do trânsito. Já ouviram falar de alguém que tenha ficado preso nas ferragens de uma motocicleta? Então! É muito mais segura do que uma Kombi! Por isso a Kombi sai de linha e as motos continuam!

E esses mini bugues, que andam sem permissão? Se um carro bate, os ocupantes podem ficar machucados. A moto, por outro lado, fica magicamente parada, de pé, mesmo que um Fenemê a abalroe. Muito sábia, a proteção do Contran para esses veículos salvadores de vidas! Deve ser uma entidade formada só por sábios com pós-doutorado em engenharia automobilística.

Vamos ser francos e racionais; Veículo limpo, seguro e silencioso tem que ser subsidiado, o resto que saia de linha e seja removido das ruas, para não agravar acidentes! Por isso a Kombi sai e as motos continuam!

Quem é que consegue pegar mina numa Kombi? Só se for ambulância!

01/02/2013

Notibruique?


Recordo muito bem, foi um artigo de lascar, a Assembléia Legislativa comprou lap-tops para seus membros, mas muitos deles não sabiam usar. Foi gasto muito dinheiro, para ineptos totais, onerando o erário com mais gastos banais.

Noutra ocasião, um deles disse, sem corar, que do povo não lhes importa a opinião.

Relativamente recente foi o caso do Murirama, parque defasado desta cidade muquirana. Compraram uma montanha russa usada, trinta anos e pelo uso saturada de fadigas disfarçadas com demãos de tinta bem aplicadas. Não obstante o risco ao usuário, mais superfaturamento, comprada pelo quíntuplo de uma nova, tudo às custas do nosso erário.

Itapetininga, outra cidade sofrida, com politipatas sem coração a ferir-lhe a face dolorida. Compraram notebooks modernos, aos legisladores perdidos em seus ternos, sem garantir se todos sabem operar e farão bom uso, os que sabem, das máquinas que vão ganhar. Sim, porque embora saia do teu bolso, Itapetininga, eles tomam posse sem dó e te deixam à mingua.

Os computadores em questão, saiba o cidadão, têm suspeitas fortes de superfaturamento. Sem clareza, sem respeito à boa redação, foi tudo escrito para confundir mesmo, para facilitar a dupla interpretação e permitir que metessem a mão.

Os aparelhos seriam de imensa utilidade para professores, desde os do pré até da universidade. Eles cuidariam, até enfeitariam e protegeriam o instrumento que imprimiria ao seu sacro labor, muito mais qualidade.

E médicos de plantão? Ah, com internet à disposição, pediriam e prestariam opiniões, ajuda, socorro e até diversão, atenuando a longa e ingrata espera da população. Ao atender uma idosa em emergência, o otorrino consultaria o colega geriatra para dar sucesso à ocorrência.

Os policiais! Meu D'us, os policiais! Quantos já não perderam suas vidas por não conseguirem pedir ajuda em tempo? Quantos já não perderam uma ocorrência, por não terem como registrar um flagrante? Esses computadores seriam muito mais valiosos em suas mãos, do que nas de um politipata pedante.

Vão alegar que agilizarão seus serviços com os aparelhos comprados. QUE SERVIÇOS, CARAMBA??? Intimidar fiscais da vigilância em tempo real? Prometer lotes para igrejas picaretas, em troca de apoio eleitoral? Pressionar o prefeito, para sancionar ou vetar o artigo que lhes inibe a tendência para o mal?

Em verdade vou lhes dizer, por experiência neste sertão do planalto central, cousa boa não lhes apetece e foge ao seu cabedal, mas lesar o cidadão em proveito próprio é o que hão de fazer.

Decerto que um ou outro, em momentos de inspiração divina, farão o que presta e atenuarão sua sina. A regra, infelizmente, é de fazerem uso egoísta e desdenhador do sofrimento do trabalhador. Não fosse apenas isso, que não é pequenez, há o preço abusivo pela opacidade licitatória, por verborragia supérfula que da clareza tomou a vez.

Deixo a Itapetininga um aviso claro, a maracutaia que houve no Mutirama, e ora rende calhamaços em investigação, deixou Goiânia quase sem fundos. O prefeito, que era vice e foi para titular eleito, choramingou até consguir ajuda, sem voltar na decisão de devolver o ferro-velho superfaturado, em sua perversidade aguda.

Para quem não sabe das implicações metalográphicas, este metalúrgico vai esclarecer. Uma estrutura velha e muito surrada, dá ao usuário o risco de ser empalado vivo, no primeiro baque de um pico de temporada.

Um notebook não é tão arriscado à vida ou integridade, mas facilita a um larápio fazer negociata dentro do gabinete, em segredo, ainda que pareça estar trabalhando às vistas da sociedade. Que tipo de negociata seria? Comprar, por exemplo, brinquedo velho para um parque, por várias vezes o preço do novo, sem se importar com quem nele morreria.

23/01/2013

O profissional


Uma amiga disse certa feita, e resumiu tudo, que a hotelaria brasileira não explora o turismo, explora o turista. Quem conhece nossa medonha realidade hoteleira, sabe bem do que ela falou. De um segmento que se rebela contra o órgão federal, só para não ter que se adequar ao número de estrelas que diz ter, não se pode esperar melhor do que isso.

Aliás, a lista de horrores permeia toda a actividade econômica do país, engloba praticamente todas as áreas. O Brasil sofre de uma carência aguda e crônica de profissionalismo. Não, eu não me refiro à nossa estúpida capacidade de burocratizar tudo, tornando lento e dispendioso, um processo que poderia ser rápido e barato. Tampouco me refiro à mocoronga mania de darmos pronomes de tratamento indevidos, a qualquer panaca que consiga o cargo de segundo sub assistente adjunto de auxiliar de suplente.

Se alguém aí acredita que prolixia, formalismos supérfulos e burocracia desnecessária são o que te torna um profissional, lamento informar, mas é tudo o que tu não és. Andar de crachá e gravata italiana, não torna ninguém um profissional. O boneco Ken usa terno e gravata.

Temos o mau exemplo vindo de cima, sem pudores, aceito plácida e pateticamente cá em baixo, pela maioria. Foi ensinado ao brasileiro, que mais ou menos está bom. Chega a ser heresia falar em padrão de qualidade, se faz um serviço meia-boca com um verniz bonito, uma campanha publicitária para enganar quem não conhece os serviços de outros países, e empurra-se tudo com a barriga até que algo obrigue a empresa a investir. A ordem é correr atrás do prejuízo, jamais se prevenir dele, sempre repassando os custos aos preços.

A mentalidade vigente, ainda manda tratar o cliente como se fosse subalterno. Se ele reclamar de um ônibus, após a viagem, por exemplo, o motorista toma isso como ofensa pessoal e pode até partir para cima dele; isso quase aconteceu comigo, há uns vinte anos, mas não pensem que a mentalidade mudou, não por dentro, só a propaganda mesmo. O empresariado brasileiro é quase uma ficção, foram décadas se acostumando a mamar no erário, às custas de comprar gente influente, e hoje mama nas licitações, oferecendo os productos e serviços mais porcos possíveis, para economizar meio centavo que seja, mas sempre exigindo artigos de primeiro mundo para si mesmo.

O brasileiro vive no dilema de querer seu salário no fim do mês, de qualquer jeito, mas sempre desejando que o patrão morra, que a empresa quebre e que a secretária que nunca lhe deu bola, pegue uma doença venérea fatal. Não precisa pensar muito, para perceber que vestir a camisa da firma, ainda hoje não passa pela cabeça da maioria esmagadora. O cidadão entra já de olho no primeiro real a mais de salário que outro emprego oferecer, sem se preocupar em formar vínculos, compromisso, absolutamente nada. Usa a empresa e os colegas sem escrúpulos, para depois reclamar que foi usado.

Lembram da última crise, não lembram? Claro, ainda estamos atravessando a maledita! Coca-Cola, General Motors, Boeing, Motorola, Micosoft, e mais um monte de empresas sólidas, tradicionais, que são quase parte de nossa genética, com ações sendo dadas quase de graça, por algum tempo. Hoje suas ações voltaram a custar as fábulas que valem. Não me lembro de um só grupo de brasileiros ter comprado lotes gordos, quando estavam baratas. E olha que elas continuaram baratas por algum tempo, depois de a Casa Branca ter anunciado o socorro financeiro. Nem empresários, nem fundos de aposentadoria.

Nossas empresas ainda oscilam entre os extremos do turrão que acha que do jeito que faz está perfeito, e rechaça com aspereza qualquer tentativa de mudança, e o aventureiro irresponsável, que raramente sai do cassino pérfido da especulação financeira. Em ambos os casos, o consumidor é só um detalhe, nem sempre desejável. Típico de uma sociedade anacrônica, que almeja o primeiro mundo sem jamais tirar o pé do terceiro.

Não é de admirar que, em vez de estimular o cidadão a usar seus serviços, simplesmente aumentam os preços, pela falta de demanda. E se ela subir, o preço não desce. Alguém aí usa transporte público? Pois é, entenderam o que eu disse. As turmas que se fingem de empresas de transporte público, se encostam nas prefeituras e acomodam, exigindo direitos de serviço essencial, mas também a liberdade de empresa privada. O usuário, que não é tão diferente deles quanto acredita, reclama e paga do mesmo jeito. O próprio brasileiro comum, não tem idéia do que seja profissionalismo, então não o exige... nem se preocupa em descobrir o que seja.

Essa deficiência de profissionalismo, que é basicamente o comprometimento funcional, pode ser facilmente visto nas salas de aula. O aluno deveria estar lá para aprender, mas só pensa em passar no vestibular, quando muito, para depois disputar uma vaga no serviço público e lá se acomodar. Na melhor das hipóteses, que já é muito ruim, a massa almeja ser pulga de reuniões em uma grande corporação, onde nada fará e por isso não cometerá erros, algo que poderá usar para pedir promoções que não merece, até a empresa descobrir que ele não faz falta.

Para começar, um profissional tem compromisso com suas funções. Enquanto trabalha, ele até pode e deve se divertir, mas sob hipótese alguma deve negligenciar aquilo para que foi designado, e aceitou fazer. Isso inclui o aprimoramento voluntário e constante. Não necessariamente ter uma coleção de diplomas e certificados de presença em palestras caríssimas; sabemos que a maioria delas é só engodo. Prestar atenção à sua volta, ver o que funciona ou não a contento, no seu posto de serviço, corrigir por conta própria as falhas que forem de sua competência, encontrar meios melhores de fazer o serviço, são atitudes que te dão maior domínio de suas funções, te tornando mais necessário ao empregador.

Um profissional tem ética. Ele segue uma série de regras de conduta, que lhe garantem não ultrapassar seus limites e direitos. Por mais intimidade que tenha com os outros, reconhece princípios básicos de hierarquia e prioridade. Não se trata de ser adulador ou submisso, mas simplesmente de reconhecer que as atribuições do outro, subjugam as suas. Simples assim. Também, porém, que a escravidão foi abolida, e seus subalternos não são sacos de pancada. O paspalho que acredita que não dá para ser amigo de seus chefes e subalternos, este está longe de ser um bom profissional, e naufragará bonitinho na primeira crise aguda que vir. Aliás, estamos atravessando o miolo de uma das mais graves da história, vocês podem ver facilmente as cabeças que rolaram, apenas procurando na internet.

Um profissional, dentro da ética, procura resultados. Ele não dá desculpas. Se não conseguiu o que almejava, tem uma série de motivos devidamente investigados, apontando onde falhou e onde o suporte falhou consigo. Não se trata de escrever um discurso retórico e prolixo, com exibição gratuita de conteúdo gramatical, até porque um bom profissional sabe muito bem o motivo pelo qual se deve ser simples e directo, em textos oficiais, é para sobrar mais tempo para a vida pessoal, mesmo dentro da empresa. Não basta ser eficiente, precisa ser eficaz.

Ainda dentro da ética, e haja texto para todas as suas facetas, um profissional não compete dentro da firma. Pode parecer estranho aos mais jovens, que já nasceram em uma época em que saber perder, tornou-se motivo para ser preterido. Mas vejam o exemplo da General Motors, que estimulava a competição até para ver quem batia o ponto mais rápido. Não que tenha mudado radicalmente, mas as medidas patológicas ficaram na quase falência. Então alguém pergunta, como a competição interna pode arruinar uma empresa, e eu explico: O concorrente, neste contexto, deixa de ser a outra empresa, e passa a ser cada um dos colegas, até a Dona Joana do cafezinho. Fica-se tão empenhado em garantir o próprio emprego, que esquece-se que não vai conseguir tocar toda a companhia sozinho, nem que terceirize tudo. É mais ou menos como um sujeito que se expõe deliberadamente a agentes cancerígenos.

Um profissional dá sempre o melhor de si, sempre. Não precisa escancarar seus truques para qualquer um ver e te passar a perna, não se esqueçam de que vivemos em um mundo expiatório, onde a malandragem ainda reina. Digo apenas para que não façam menos do que gostariam que fosse feito por vocês, que não desistam de uma tarefa até terem tentado todos os meios disponíveis, e que jamais, nem que o Hélio de La Peña seja eleito miss bumbum, para de se aperfeiçoar. Se o teu colega não faz a parte dele, reclame com o chefe, mas não deixe de fazer a tua. Não é demais lembrar, que estamos importando profissionais. Não se espante se aquele inglês acanhado, em alguns anos, passar a lhes dar ordens. Ele conhece productos e serviços bem feitos, ele sabe a diferença e provavelmente sabe fazer. Vendo um bando de reclamões acomodados, verá também um caminho livre para sua ascensão, principalmente quando tiverem que tratar com negociantes estrangeiros.

Um profissional é organizado. Não apenas no visual, que disso cuida-se com dicas de qualquer site de moda. É organizado no ambiente de trabalho, à sua mesa ou máquina, na administração do tempo, no seqüenciamento  eficiente dos serviços e, quando é o caso, tem até um procedimento operacional padrão para se consultar, a qualquer imprevisto. Essa organização acaba se refletindo na vida pessoal e escolar. O raciocínio também se beneficia, que ganha começo, meio e fim, facilitando planejar e ligar causas a consequências. A lida com a clientela tem os resultados dessa disciplina.

Lembrem-se, um profissional está onde está, para fazer as cousas andarem e funcionarem a contento, no mínimo a contento. Mas quando eu falo “a contento”, não é fazer andar do jeito que der. Andar a contento, para quem quer sobreviver no mercado, é ter níveis mínimos e constantes de melhoria interna. Disso dependem a saúde financeira e a confiabilidade pública de uma empresa, mesmo pública. Aliás, caríssimos, quem disse que autarquia pública não pode fechar o ano no azul, com uns trocados sobrando no caixa para poder investir? Quem? Eu digo quem, aqueles safados que nós elegemos. De profissionais, eles não têm absolutamente nada, não passam de malandros que só estão onde estão, porque trapaceiam, nos enganam e nos fazem crer que tudo sempre será assim e todo esforço é inútil.

A China já está pagando caro por isso, algumas cidades estão se esvaziando, porque a população apática, quando envelhece ou adoece, ou ambos, está sempre a esperar que o governo adopte uma política que lhes seja favorável. Lá, a sociedade não pode se organizar, é crime. Qualquer semelhança com um povo que reclama de lotes baldios, mas não pensa duas vezes antes de usá-lo como lixão, é mera realidade.

Só uma dica para vocês, caríssimi leitori, profissionalismo se aprende em casa, e eu já disse inúmeras vezes neste blog, como fazê-lo. Ensinem seus filhos a gostarem do trabalho, acharem normal arcarem com suas responsabilidades e conseqüências, tratarem os diferentes como gostariam de ser tratados e, não menos importante, aprenderem a perder, sempre vendo os pais dando o bom exemplo. Só isso? Sim, só isso. Estão vendo como só somos terceiro-mundistas porque queremos!

25/12/2012

Descanse em paz, Nicolau


Era um homem de idade avançada, faria setenta e oito em Maio. Mesmo assim, ainda era forte, tinha vontade de viver e trabalhar.

Foi tudo muito rápido. Um meliante reconheceu uma gestante e gritou "É dos ômi!", para alertar aos outros assaltantes de que se tratava de uma policial. A gravidez avançada não comoveu o coração de quem nunca aprendeu a se colocar na dor do outro. Pior, de quem foi incentivado a desdenhar a dor alheia.

Nicolau, que mudança, de um velho rabugento e antissocial, tornou-se um escudo humano. Recusou-se a sair da frente dela, no que outros aproveitaram para se esconder atrás dele também.

Há até cinco anos, era semi analphabeto, grosso e desejoso de morrer só. Fora tratado a patadas desde a infância, a ter seus préstimos subjugados e suas faltas super avaliadas. Afinal, era prestativo, todos tinham certeza de que estaria à disposição, logo em seguida.

Mas um dia, farto e já capaz de se manter sobre suas pernas, saiu sem avisar, sem deixar recado e sem olhar para trás. Continuou a ser mal tratado, mas agora com o bônus de poder ir embora sem ar satisfações. Com o tempo, sequer queria mais fazer vínculos.

Estudou o básico do básico, lhe bastava. Passou a ignorar datas festivas, seus apelos e suas decorações, principalmente o natal. Este, aliás, lhe causava repulsa. Aprendera com a vida que tudo aquilo era mentira, absolutamente mentira.

A compleição física de Nicolau fomentava esse comportamento, pois se acostumara a trabalhar mesmo doente. Era forte, grande, sua figura intimidava os possíveis agressores. A muito custo, foi convencido a ver o médico, de vez em quando. Isso só fomentou seu comportamento, sentia-se mais seguro com a saúde monitorada.

A aposentadoria foi tardia. Só depois de sessenta e cinco anos de trabalho. Ainda assim, não quis ficar parado, atitude aplaudida pelo médico, que se encarregou de arranjar-lhe bicos para ele se manter ocupado. Resultado, manteve-se forte e lúcido até o fim.

Pouco afeito à vaidade, deixou a barba crescer de modo permanente. Como também não passava fins de semana em clubes, tinha pouca pigmentação. O médico passou dois anos a tentar convencê-lo a experimentar um serviço sazonal. O facto de demandar sociabilidade, pesou contra, mas um dia ele aceitou. Estava farto de ser vigia e receber a culpa de tudo o que dava errado na expedição.

Foi treinado à exaustão. Desde meados do ano, freqüentava o curso de formação. Foi devidamente alphabetizado, o que lhe abriu um pouco a cabeça. Mas a transformação veio com os testes práticos, com crianças. Elas se encantavam só de vê-lo no uniforme. Aquilo era fascinação sincera, sorrisos sinceros, abraços sinceros. Seu coração embrutecido pelo mundo, começou a amolecer.

Ainda era um homem rude, mas não mais grosso. Muito resistente, trabalhou o mês inteiro, dia e noite, inclusive ajudando a carregar os presentes, no shopping center. O desconforto daquela roupa estilizada não era maior do que o ao qual se acostumara.

Dia após dia, até altas horas da noite, sem reclamar, com uma paciência que jamais pensou que tivesse. Era a primeira vez em que Nicolau podia dizer que estava feliz. Sem exageros, foram milhares de photographias tiradas com o Papai Noel mais verossímil que já tinham conhecido. Claro, alto, forte, longa e volumosa barba branca, olhar vívido e corpo ágil.

Passou a amar as crianças e, por tabela, as gestantes. Mais de uma vez foi visto carregando uma nos braços, até o carro, por um mal estar súbito. A gerência do Shopping agradecia, era uma propaganda preciosa.

Naquela manhã, Nicolau tinha saído do último turno como Papai Noel. Só fora ver o pagamento devidamente depositado em sua conta, quando ouviu o anúncio de assalto. Protegeu a gestante e, na recusa de dar passagem ao "alvo", precisou distribuir sopapos. Desnecessário dizer da chuva de chumbo e do desespero dos clientes.

Conseguiu concentrar as atenções a ponto de a segurança do banco conseguir se reorganizar, e render os assaltantes. Todos eles desmascarados pelos guardas, na frente das câmeras de segurança.

Morreu antes de o socorro chegar. Não antes, porém, de ver seu último presente, a policial deu à luz lá mesmo, a um menino grande e forte, que chamou de Nicolau.

16/12/2012

País sem nação

Ok, o Corinthinans venceu, é campeão do mundo, e nhe-nhe-nhe. Tenho uma dúzia de amigos corinthianos que, espero, resistiram a várias taquicardias seguidas. Eu, pessoalmente, não dei a importância atribuída, mas o evento suscitou uma pequena linha de pensamento, me fazendo lembrar de factos reincidentes.

Ouço dentro de casa, que aqui se torce para qualquer time que for jogar lá fora, mas se for o Goiás, eles torcem até para a Argentina. Similar ouvi de torcedores de outros times, que entrevistados, torceram para o Chelsea, por causa da rivalidade interna. O facto de ser um time brasileiro trazendo a premiação para o Brasil, não lhes pesou na decisão.

Há algo que muita gente, na verdade creio que a quase totalidade, não sabe sobre o oriente médio e a Escócia, mas que cabe muito bem aqui. A Escócia, antes de ser anexada ao Reino Unido, era formada por clãs. Cada clã utilizava pigmentos específicos para fazer as estampas-padrão da região, foi assim que surgiram as diferentes padronagens de xadrez dos kilts escoceses.

A necessidade de padronizar os kilts, e até as saias femininas, quando fosse o caso, era por esses clãs viverem em pé de guerra, literalmente. Era como no oriente médio até hoje, com aldeias que se estranham tanto, que até o idioma sofre pressões de dialelos locais. Em ambos os casos, eles esqueciam suas rivalidades quando um inimigo comum os ameaçava, no caso da Escócia, os ingleses. Era isso que tornava e ainda torna a Escócia, uma nação, mesmo como país subordinado a Londres.

Em ambos os casos, quando o inimigo comum era repelido, voltavam a se digladiar e perpetuar as juras de vingança pela morte, causada pela vingança jurada pela morte causada por uma vingança, que foi causada por outra morte motivada por vingança, que serviu para responder à morte de outro que fora executado por vingança, et cétera, et cétera, et cétera.

Claro que não quero isto para o Brasil. O banho de sangue pela guerra entre as famílias Alencar e Saraiva, à qual o governo da época concedeu uma vergonhosa conivência, por conveniência política, me dá uma lição local suficiente.

Há ainda a lição dos judeus. Desde que eram cativos o Egito, vamos aqui desconsiderar questões e registros meramente religiosos, eles tinham várias características em comum, além do monoteísmo. Preservaram seu idioma, sua cultura, até mesmo os traços físicos que tantas caricaturas têm rendido, e suas famosas habilidades financeiras. Eles sabiam quem eram desde então.

Mesmo dispersos por incontáveis episódios, em tantas circunstâncias que a história talvez desconheça todas, continuavam a ser hebreus, logo em seguida, judeus. Se um deles viajasse para outro país e lá houvesse judeus, haveria reconhecimento mútuo. Ele seria acolhido pelos seus, como pessoas de outras etnias jamais conseguiriam em terras estrangeiras... Talvez nem nas próprias.

Quando eu falo "estrangeiras", considero que qualquer viagem de duzentos quilômetros, até o século XVIII, era uma grande aventura. A maioria das pessoas morria sem jamais ter saído dos arredores de onde nasceu. Os Estados nacionais são relativamente recentes, assim, mesmo uma região mais distante dentro do mesmo país, para muitos era considerada como terra estrangeira.

Continuando, de modo muito mais acentuado do que os escoceses, os judeus formaram uma nação tão coesa e homogênea, que a ausência de um território não a desfez, pelo contrário. Assim como nos plásticos feitos de polímeros aromáticos, a distância física fortaleceu os laços. Assim, quando o Estado de Israel foi fundado, recebeu um povo disposto a defendê-lo a qualquer custo. Ainda que as diferenças internas sejam famosas... Desculpem, a perfeição não habita este orbe.

Voltemos ao caso do futebol, que causa tantas mazelas quanto os chateus radicais acusam a religião de fazer. Aqui temos um agravante, porque as rivalidades internas não são esquecidas em prol da sobrevivência coletiva. O néscio prefere ver recursos valiosos irem para outros países, a ver o time/gangue/partido/raio-que-o-parta alheio recebê-lo. Eles estão se lixando para o Brasil, querem ver seus adversários de joelhos, pelo prazer fútil de assistir à sua derrota.

Vamos ser francos, se algum país decidir ser realmente um inimigo, e quiser nos invadir, com esta mentalidade tacanha vigente, nós estamos lascados. E temos vários vizinhos com governantes ego-megalomaníacos, que adoptam a máxima de "l'etat c'est moi". A Argentina é um deles.

Me vem a sólida impressão, de que se alguém prometer eliminar o time rival, muita gente facilitaria uma invasão. Não estou exagerando, basta estudar as quadrilhas que se denominam "torcidas organizada", não que todas o sejam, para perceber isso.

Agora pensem bem se, neste contexto mórbido, este país tem como sair do atoleiro terceiromundista. O brasileiro sequer se reconhece como brasileiro! Ele é primeiro flamenguista, depois carioca, depois (do Estado) fluminense, e só por último é brasileiro. Isso se não houver uma facção dentro da torcida, porque então a importância do gentílico cai mais um pouco. O sujeito se endivida, sai do emprego, deixa família e o escambau, para ir ver dois jogos do outro lado do mundo, sem nem saber rir no idioma local. Mas vai chamá-lo para uma campanha de conscientização em benefício coletivo! Ele preferirá ver o próprio filho morto, após atravessar o pára-brisas, do que beneficiar o torcedor do "time rival".

Era para ser uma diversão, não era? Mas só se tornou o exemplo de como o brasileiro pode ser anti-brasileiro, além de ter se revelado um poço de corrupção e desdém para com os serviços públicos. Mas, e daí? O meu grupo está bem, está alegrinho, festejando mesmo na miséria, tripudiando sobre seus inimigos de outros times, enfim.

Se houvesse uma ong com um pingo de vergonha na cara, que realmente quisesse fazer algum bem aos compatriotas, se encarregaria de viabilizar intercâmbios culturais dentro do país, entre regiões, ideologias, etnias, classes sociais, entre imigrantes e nativos, enfim, trataria de fazer o brasileiro se reconhecer como brasileiro, tratando de transformar suas diferenças em base de apoio, não em pólos repelentes.

Claro que há os chacais que se aproveitam, que ganham muito com essa mentalidade inconseqüente. São aqueles caras que "roubam, mas fazem", que já têm 13° e 14° salários aprovados de próprio punho, na surdina, e acabarão tendo salários semanais se continuar assim, livres de impostos. Aqueles que impedem construções de aquedutos para beneficiar a máfia dos caminhões-pipa, que dão costas-quentes à exploração sexual infantil nos rincões da região norte, que loteiam as cidades em prol de especuladores imobiliários que lhes financiaram as campanhas, pondo à venda até quartéis, como o Batalhão Anhangüera, em Goiânia.

Mas, tudo bem, o meu time é campeão, o torcedor do outro está chorando e o filho dele foi morto na última briga de torcidas.

P.S: Os leitores mais assíduos devem estar se perguntando sobre os textos de natal. Me desculpem, o espírito natalino, que costumava me tomar logo em meados de Novembro, desta vez me boicotou.