24/03/2021

Dos bastidores tão distantes

 


            Enquanto a maioria se contenta em assistir ao espetáculo, alguns se perguntam o que teria acontecido ou ainda estaria acontecendo detrás do cenário, aquele fundo geralmente pintado ou encoberto por uma espessa cortina que separa os actores dos trabalhadores de suporte. Esse lugar oculto aos olhos do público chamamos de bastidores. Em princípio eles não teriam importância, e para o fim a que se destina a compra do ingresso, realmente raramente tem, a maioria das pessoas tem uma idéia básica do que acontece lá e crê que isso não afeta suas vidas; quando o teatro em questão é realmente só um teatro cenográfico, geralmente não mesmo… mas às vezes o teatro é a metáfora da realidade que se desenrola em nosso cotidiano, então as actividades dos bastidores importam sim ao cidadão comum, que como no espetáculo, nem sempre se importa com o que seus olhos não podem ver. À amiúde, esse cidadão acredita que os funcionários desses bastidores devem simplesmente fazer seu serviço e quer que esteja pronto quando precisar dele, mas nem sempre é assim e nem sempre esse “pronto” é o pronto que gostaria que fosse, ou deveria ser.

 

            Comecemos pelo conceito errôneo que temos de “bastidores”, que para a maioria se aplica àquele espaço oculto ao público já citado. É oculto, mas não inacessível. Na realidade tampouco são os bastidores da peça. Podem ser considerados os bastidores da ação em andamento, até certo ponto, com influências de precedentes sem os quais o suporte a essa ação não teria sido possível. Começando pelo prédio, ou seja lá qual for o espaço do teatro, existe um comando para que todos os detalhes aconteçam a contento, ou para que dêem o menos errado possível. Esse comando geralmente inacessível ao grande público precisa de um lugar privativo e com o mínimo de interrupções possível, para poder planejar o espetáculo e resolver os problemas que sempre aparecem, tudo em tempo hábil e de modo suficientemente bom. Inclusive o planejamento dos bastidores da ação, que então já não merecem ser “os bastidores”, eu chamaria aquele lugar de “conta-palco”, já que mesmo o que acontece lá é tão efêmero quanto o espetáculo ao qual dá suporte. Entretanto ainda não temos os reais bastidores da peça, porque aquela pessoa com as decisões em suas mãos não fará tudo sozinha… quase nada, na verdade, nem mesmo a totalidade das decisões imediatas cabem a essa pessoa.

 

            Sairemos do prédio do teatro. Aqui chegamos aos personagens menos considerados pela grande massa que paga pelos ingressos, e que por ser o sustento do teatro, mesmo alienada, merece o devido respeito. Primeiro a peça precisará de corpos que se emprestem às personagens, então pode ser necessário que agências de artistas entrem no jogo, ou, pelo menos, olheiros que indiquem as pessoas certas. Por mais profissionais e racionais que sejam, estamos falando de seres humanos, e mesmo inteligências artificiais precisariam aprender conosco a fazer o serviço, então será preciso negociar e talvez os artistas desejados não estejam todos no elenco. Se isso às vezes é uma janela para a exibição de novos talentos, é um contratempo que pode comprometer a execução do espetáculo justamente porque estamos falando de seres humanos, ou de softwares que agem dentro de parâmetros criados por humanos. Se vocês não conhecem o show business, não sabem os problemas que artistas veteranos podem dar a novatos que demonstrem algum talento consistente. É hora de conversar e tomas as decisões menos ruins para o andamento dos trabalhos. Uma vez postos os pingos nos is, vamos viabilizar a realização do espetáculo, enquanto os actores estudam seus papéis.

 

            Chegou a hora de deixar o amor pela arte um pouco de lado, porque é das raízes feias e sujas que tiramos as mais belas e suculentas maçãs. Precisaremos de patrocínio. Pode ser uma tarefa mais ou menos árdua, dependendo da credibilidade e da popularidade dos productores do espetáculo, SEMPRE NESTA ORDEM porque ninguém dará um centavo a um sujeito popular com fama de arruinar tudo. Seja como for, é sempre uma tarefa árdua que demanda tempo, paciência e muita diplomacia. Por exemplo, os patrocinadores almejados podem simplesmente não ter interesse em vincular suas marcas àquela peça em questão, por melhor que seja a argumentação do negociador, em alguns casos o empresário pode até temer que aquele roteiro arranhe a imagem pública que ele levou anos, talvez décadas para construir. Também complica se o cacife dos produtores não lehs der acesso a grandes patrocinadores, o que os obriga a gastar mais tempo, combustível e sola de sapato para viabilizar tudo. E aqui estamos falando de um empresário, que pode ser demovido por números, resultados, garantias e ofertas de bons espaços publicitários, as coisas complicam e muito quando os únicos patrocinadores a que se tem acesso, em princípio, não teriam ou não almejam retorno financeiro, porque aqui a subjectividade canta de galo.

 

            Uma igreja pode simplesmente vetar tudo assim que seus titulares virem o título, como aconteceu no clássico do cinema trash “Plano X do Espaço Sideral”, que originalmente seria algo como “Plano Satânico do Espaço Sideral”. Fora que cenas mais quentes foram sumariamente suprimidas. Mas não sejamos injustos com os religiosos, a maioria não age com tamanha tacanhez, só faz exigências pontuais e pedidos a membros da paróquia ou congregação. Só isso… mas mesmo “só isso” pode desagradas deveras tanto o elenco quanto outros patrocinadores, então meus amigos, vai mais sapato, mais combustível e mais tempo, o que pode comprometer o cronograma e aumentar os custos da empreitada. E por falar nesses outros patrocinadores, há os que simplesmente não aceitam participar do mesmo projecto que determinados outros, especialmente se forem empresas concorrentes ou, pior, se forem pessoas inimigas… e ninguém vem com “eu odeio aquele fulano” tatuado na testa, então é um risco real e iminente… e uma tentativa de conciliação pode resultar na perda de ambos.

 

            Não fica mais simples quando o patrocinador é o erário. Mesmo que o contribuinte raramente ou nunca possa definir onde o dinheiro resultante de seu árduo trabalho será aplicado, fica a cargo de um funcionário público interpretar as regras quase sempre prolixas e mal escritas, repletas de vícios de linguagem que permitem fazer do lobo mau uma vítima da sedução da maldosa Chapeuzinho Vermelho. O patrocínio pode nunca sair e, dependendo das regras, o produtor é obrigado a não buscar patrocínio privado até todo o processo ser concluído, o que pode levar meses, anos talvez, e sua conclusão pode simplesmente não ser comunicada. O interessado então precisa fazer o trabalho que meus colegas de serviço público são pagos para fazer, mas não sofrem nenhuma represália se o serviço não feito não afetar seus chefes. Infelizmente a liberação ou não é mais independente das regras propostas pelos idealizadores da lei do que vocês imaginam, pelos motivos já citados neste parágrafo. Mais uma coisa, se um político influente dentro da repartição não for com a sua cara ou com o seu projecto… já sabe… É como se houvesse, e há, bastidores paralelos a todas essas camadas de que estou falando, eles mesmo com suas próprias camadas obscuras.

 

            Espero ter até agora dado uma idéia clara do que quero dizer. Temos uma camada de bastidor que vai além das paredes do teatro, então seriam três camadas de bastidores, se fose simples assim. Tanto com empresas quanto com entidades sem fins lucrativos e o serviço público, isso é como uma cebola que sempre tem várias camadas, e cebolas podem ser enormes! Tanto maiores quanto mais antigas e bem nutridas forem antes da colheita. O CEO de uma corporação não estará à sua espera no departamento de marketing, no máximo o director de marketing daquela filial vai atender o interessado, após o agendamento devidamente formalizado com a assessoria. Então, durante a entrevista, por mais liberdade que tenha, existe uma cadeia de hierarquia que o director ou a directora de marketing precisa obedecer para não perder seu emprego, eu diria pelo menos mais duas camadas nesta cebola. O que dá, sem contar o contra-palco, uns cinco ou seis bastidores, mesmo no caso de pessoas e entidades sem fins lucrativos.

 

            Agora chegamos ao que pode ser a última camada de bastidores, mas às vezes não é: o autor to texto. Mesmo que haja mais de um autor, um deles vai preponderar, por mais sutil que seja. Por exemplo, simplesmente não dá para adaptar O Guarani de José de Alencar para se passar em um convento de carmelitas descalças com foco na cultura hiphop, por mais boa vontade e talento que o escritor tenha, por mais inspiração divina que receba simplesmente não vai funcionar! Todas as adaptações possíveis respeitarão os personagens, o enredo e o roteiro básico da obra, o que torna evidente qualquer adaptação desejada, especialmente quando se trada de uma obra clássica consagrada. Não, simplesmente não funciona se o autor não for rigorosamente obedecido, é ele o mestre e condutor de tudo por detrás de todo o trabalho pós texto, mesmo que já esteja morto. Ainda que não tenha sido reconhecido em vida, diga-se de passagem. Assim, mesmo que pareça que o ciclo esteja fechado, ainda não está. A obra que sair da mente do escritor terá recebido influência de muita gente, mesmo que não directametne. Pessoas do convívio ou que serviram de inspiração estão lá, mesmo que ocultas em frases que seus entes achariam familiares, mas também há outro caso, o de a obra ser encomendada.

 

            Um autor em crise financeira não pode deixar de comer e morar, assim como nem todos os autores têm vocação para criar do zero um texto novo e dependem de demandas para seu processo criativo, e mesmo os que têm não são obrigados a assinar tudo o que escrevem. Nesse caso a obra estaria subordinada às exigências de quem a tiver encomendado, tocando ao escritor o trabalho de colocar no papel o que lhe for ordenado. Por mais estilo próprio e de sua linha de pensamento que consiga colocar nas páginas, é basicamente por esses dois quesitos que o cliente o terá escolhido. Se ele quiser demonizar alguém e santificar outro, por ter concordado e aceitado o serviço o autor deverá desenvolver um roteiro que faça isso, mesmo que suas opiniões sejam completamente contrárias a isso. Não cabe ao autor questionar os motivos e os anseios por detrás daquela encomenda, neste momento ele é só um soldado com uma missão a ser cumprida, cabe ao contractante fornecer todas as informações de que ele necessitar, nada além disso.

 

            E por falar em contractante, ele pode não ser o autor da demanda, mas um intermediário trabalhando para terceiros, talvez um grupo. Nem todos querem ou podem se expor ao público, por ais glórias que o espetáculo lhes rendesse se o fizessem. Medos, interesses, necessidades ou simplesmente opção de vida influenciam muito mais do que vocês imaginam. Eu poderia encher lingüiça com um texto prolixo e divertido para falar de cada uma das possibilidades de motivações e camadas dessa cebola de bastidores, mas eu me irritaria muito me me daria um murro no nariz. Assim como acontece com uma simples peça de teatro, acontece também no mundo que o sustenta, desde as tarefas da escolinha primária até as mais emaranhadas entranhas da geopolítica mundial. Os bastidores, os verdadeiros bastidores de um acontecimento podem estar extremamente longe do teatro em que a ação se desenrola, e os motivos primários de tudo aquilo geralmente estão muito longe do óbvio, geralmente longe também dos noticiários generalistas, às vezes até dos especializados. Não raro, meia dúzia de pessoas decide por seus próprios critérios os destinos de um bilhão de indivíduos inocentes de tudo, apenas a aplaudir o espetáculo que se desenrola no palco, sem nem imaginar o que acontece no contra-palco.

24/02/2021

O risco é diferente para quem vive de vender

 


            Não pense que é má vontade do Seu Pedro da esquina, tampouco que aquele teramercado multinacional do tamanho de uma cidade está mancomunado com o governo illuminati dos alienígenas atlantes do Alasca austral para prejudicar os vendedores de paçoquinha que trabalham nos semáforos. Existe um fator, de inúmeros, que as pessoas ignoram quando descem a lenha em um negócio, que é o risco. Sim, é verdade que a vendinha do Seu Pedro poderia ter artigos sofisticados e recém-lançados no mercado internacional, afinal o comércio electrônico facilitou deveras o acesso de virtualmente qualquer um a qualquer coisa. Comprar poucas unidades de cada coisas e receber tudo em um só pacote é o fino da comodidade, mas sempre para o consumidor final, para revenda as coisas são mais complicadas, apesar da facilidade tentadora de ter coisa fina no armazém. Em tese, mas pura e simplesmente em tese isso seria possível, na vida real a vaca não mastiga de boca fechada. Mesmo que ela pudesse provavelmente não o faria, não tem necessidade e nem genética para fazer isso.

 

            Para um cidadão comum, que deseja apenas algo para uso pessoal pode se dar o luxo de comprar algo que jamais dará outro retorno que não seja emocional, como um besouro roxo de borracha de algum anime obscuro feito em pequeníssima escala, praticamente tudo é viável. O problema vem quando tu precisas obter retorno disso. Mesmo que seja um personagem que é um mestre do último grau da mais alta tradição de guerreiros mágicos da trama mais bem bolada do mundo, existe o risco de a demanda não ser suficiente para justificar a compra e o producto ficar meses, talvez anos parado e empoeirando no seu estoque. E se o recurso investido naquela compra for necessário nesse meio tempo? Vai fazer o quê? Dar desconto? Anunciar? Uma promoção de pague quatro e leve cinco? E quem vai querer ter cinco bonequinhos de um mestre besouro roxo? O seu público é realmente interessado a esse ponto no que tu compraste? Já sentiram o cheiro de azoto do prejuízo? Uma tentativa desesperada de revenda pode custar mais caro do que o valor eventualmente recebido do comprador… se houver um...

 

            Agora voltemos à venda do seu Pedro. Para repor seu estoque ele precisa recorrer aos atacadistas mais próximos, e dentre eles escolher os que oferecem as melhores condições. Há productos que têm muita saída, mas oferecem pouca margem de lucro, enquanto outros saem menos e compensam permitindo cobrar alguns reais a mais do que se pagou ao fornecedor, simplesmente porque o consumidor está disposto a pagar por isso. O real a mais que ele pode cobrar pelo refrigerante compensa os centavos a menos que fazem a alegria do freguês que leva o leite das crianças. É assim que Seu Pedro mantém o equilíbrio frágil entre custo e retorno. O dinheiro que entra não é só dele, a maior parte fica com fornecedores, prestadores de serviço e o governo. Se ele consegue ficar com um terço do faturamento bruto, está cobrando caro pelo que revende. Daí o motivo de ovos de páscoa custarem tanto mais do que uma barra, não é só porque dão mais trabalho para fabricar. Eles pagam o que as balinhas tão populares deixam a desejar.

 

            Mas se certos productos dão tanto retorno a mais, por que ele simplesmente não vende só deles e esquece os que dão muito trabalho e pouco lucro? É porque esses baratinhos são os que chamam e até fidelizam o freguês, é por eles que as pessoas entram e saem da vendinha o dia inteiro. Ninguém vai comprar salmão defumado uma ou duas vezes ao dia, mas qualquer saída pode ser motivo para pegar um saquinho de salgadinhos. E enquanto escolhe o salgadinho, o freguês vê outras opções ao seu alcance, fica sabendo de algumas novidades e pode voltar depois para comprar aquele acepipe de maior valor agregado, e que vai pagar melhor pela hora de trabalho do Seu Pedro. É um expediente de que ele pode lançar mão porque sabe que ambos têm boa saída e justificam investir seus escassos recursos, porque darão retorno, o que ele não pode fazer é ousar demais sem a perspectiva de obter o retorno necessário em tempo hábil.

 

            Vamos exemplificar com três casos na mesma situação. Aquele hipermercado badalado tem centenas de milhares de itens à disposição a preços atraentes. Como consegue? Por ser uma rede gigantesca, os lotes comprados podem ser desmembrados em quantidades menores para cada loja, que sozinha precisaria comprar de um atacadista que também é um revendedor, às vezes de distribuidores maiores que revendem da fábrica. Uma rede multinacional compra directo do fabricante, pagando não só o preço da fonte, como recolhendo os impostos uma vez só e distribuindo essa vantagem entre seus postos de venda, que assim podem ter estoques comparativamente discretos e vender a preços mais baixos do que muitos pequenos atacadistas, tanto que alguns mercadinhos pequenos recorrem a essas lojas para poderem oferecer algo mais sofisticado à sua clientela local de vez em quando, sem correr os riscos de uma compra grande para a qual sequer teria fundos. Já tivemos uma vendinha no início dos anos 1980 e fazíamos isso, mas é conversa para outro texto em tempo oportuno. Para essas grandes redes não é pesado bancar uma grande campanha publicitária em grandes veículos de comunicação, bem como pagar cachês a artistas famosos em locações distantes.

 

            Por outro lado, o comando pouco pessoal e centralizado de uma rede multinacional dificulta a conversa com pequenos artífices e indústrias tradicionais locais, inclusive porque eles não têm condições de fornecer a quantidade necessária a um cliente de tamanho porte, também por isso algumas lojas dessas redes têm artigos que as outras não têm. Lembram-se daqueles suspiros duros em cores pastéis, os doces de abóbora e batata-doce em forma de coração, as bananadas com brinquedinhos espetados nelas e outros que fazem parte da infância de tanta gente? Dê uma olhada no tipo de embalagem que usam, geralmente uma caixa estampada de forma extremamente simples e rudimentar, e saberão que é uma indústria de pequeno porte, talvez uma empresa familiar. Ainda são fáceis de encontrar em pequenos comércios na periferia e no interior, mas fornecer dez mil caixas em uma semana está totalmente fora de questão. Mas geralmente é coisa que a clientela deles não procura, oferecer artigos normalmente caros a preços convidativos é o mote e diferencial deles, também por isso podem se arriscar mais. Se uma loja dessas redes vende mil itens a menos em um mês, bem, é só uma baixa de demanda em um mês específico. O regente vê as planilhas, confere o estoque, faz uma promoção e decide depois se volta ou não a comprar aquele producto.

 

            O próximo caso é o de supermercados locais, que dificilmente têm mais de cinco lojas e todas elas em bairros mais afastados. Essas empresas dificilmente falam com os grandes fabricantes, que têm os productos de maior saída e lucro agregado, que normalmente já trazem consigo material de marketing e se vendem sozinhos, elas recorrem para isso aos grandes atacadistas e para o restante aos fabricantes locais. Com isso ainda precisam pagar um mesmo imposto duas ou três vezes, o que obriga a reduzir a margem de lucro e ainda assim vender um pouco mais caro, mas como alguns fornecedores estão por perto, a logística ajuda a reduzir custos e prazos, o que faz com que productos da cultura tradicional local estejam presentes em suas gôndolas, dividindo espaço com algumas novidades do mercado que ainda estão longe das prateleiras das vendinhas de esquina. Não que a administração seja rente à clientela, mas é mais pessoal e geralmente os fregueses mais assíduos conhecem muitos funcionários pelo primeiro nome, tornando a comunicação mais ágil e directa com a gerência.

 

            Como o orçamento é bem mais apertado, a publicidade e as promoções são muito dirigidas, se utilizando de carros de som e gráficas locais; muito de vez em quando um anúncio no rádio, raramente usam a televisão e ainda assim só em horários mais baratos. Com um estoque relativamente grande e diversificado, podem se dar o luxo de arriscar mais, testar de vez em quando productos que normalmente não estão na despensa de sua clientela, claro que em pequenas quantidades e a preços menos convidativos. Mas o fator novidade e exclusividade, já que supermercados menores quase nunca têm condições de fazer isso, age como chamariz para a clientela, que mesmo reticente na compra daquela coisa exótica acaba levando outros productos. É uma clientela emergente, por assim dizer, mas que ainda faz as contas antes de colocar alguma coisa no carrinho, então a persuasão do vendedor precisa ser mais forte e directa. Aqui a venda de mil unidades a menos por mês já tem algum drama, pois compromete mais o faturamento mais magro, mas não é o fim do mundo. Um eventual prejuízo dessa monta pode ser absorvido e raramente demanda punições mais severas à gerência de cada loja.

 

            Por último aquela pequena venda de bairro, que normalmente vive de fregueses que moram a no máximo três quadras de distância, e tem no carisma e na pessoalidade do comerciante o seu único recurso de marketing. Por economia, mas muitas vezes também por tradição, os productos são embrulhados com papel grosso ou até mesmo com jornal velho, e isso acaba sendo um diferencial que denota proximidade com a pessoa do comprador. É comum o freguês se sentir mais em casa lá do que em sua própria casa, e ir comprar qualquer coisinha só para bater papo com o comerciante por uma hora ou mais. Não é raro ele morar no segundo pavimento ou, no caso da maioria, nos fundos de seu comércio de poucos metros quadrados, estacionamento, quando há, é a garagem de seu próprio veículo de trabalho. Todo o estoque muitas vezes é só aquilo que está exposto à venda, junto com umas poucas caixas distribuídas pelo estabelecimento para reposição, até a hora de fazer novas compras. E por falar nisso, os atacadistas mais próximos são seus principais fornecedores, quando não os únicos. Vender bolos e biscoitos feitos em sua própria cozinha também é comum. Como os intermediários são muitos, a taxação real também é aplicada mais vezes e os custos por unidade são muito mais altos. Em contrapartida ele oferece além do aconchego inexistente em grandes redes, productos de pequenos fabricantes que muitas vezes também são pequenos negócios familiares nas imediações da cidade, ou coisas que saíram de moda há muito tempo e os CEOs de multinacionais, isolados em seus edifícios envidraçados, jamais arriscariam para não arranhar a imagem de suas marcas; imagine só, um Fusquinha de plástico soprado cor-de-rosa ao lado de um carro monstro superagressivo com controle de mil funções e câmera na frente! Pois aqueles brinquedos de plástico soprado ainda podem ser encontrados em muitas dessas vendinhas.

 

            Nesse tipo de estabelecimento raramente há uma novidade, praticamente só productos sazonais como em época de páscoa, festas juninas e natal, e mesmo assim só das marcas mais vendáveis e em pequenas quantidades, pois até o espaço físico é escasso. Como são caros em relação aos preços dos supermercados e hipermercados, o freguês compra porque já está lá mesmo e porque não quer se deslocar e enfrentar o trânsito, e nem quer esperar pela entrega. Por todas essas limitações, o risco que esses estabelecimentos podem correr é mínimo. Sim, é possível pegar um empréstimo para ter capital de giro e arriscar, mas isso exige um planejamento que nem todos têm, simplesmente porque a maioria deles só quer manter seu ganha-pão e criar suas famílias. Ambições expansionistas não interessam a todo mundo, ao contrário do que universitários bitolados pensam. Se uma vendinha comercializar mil unidades a menos em um mês, ela pode simplesmente não abrir mais as portas. Colocar uma quantidade razoável de productos diferentes não só toma o lugar da mercadoria que a freguesia sabe que vai encontrar lá, como pode consumir todo o recurso de que o dono dispõe, deixando-o refém de um sucesso incerto que, se vier, pode demorar muito mais do que o salutar para seu negócio.

 

            Aquela tradicional vendinha de esquina é um comércio de nicho, muitas vezes com toda a equipe se resumindo a uma só pessoa, que acaba se tornando ponto de encontro de uma freguesia restrita à qual influencia e pela qual é influenciada, a ponto de o inventário ser a cara e praticamente definir quem mora naquelas imediações. Claro que as compras do mês, para encher a despensa, são em comércios grandes que oferecem preço e variedade como atrativo, mas a conveniência e facilidade de acesso transformam a vendinha no salva-vidas para reposições e compras de emergência, e é claro para aquelas coisas que simplesmente não existem mais em grandes centros, como a maria-mole em forma de língua coberta com côco ralado, que veio em uma caixa de cinqüenta unidades com estamparia rudimentar e vai para sua casa enrolada em papel rústico… ou talvez nem chegue lá, tu vais comer enquanto conversa com o seu Pedro, esperando pelo café que está sendo torrado e moído na hora… mil vezes melhor do que qualquer café solúvel do mundo!

 

            É claro que pode haver uma cooperativa ou uma compra conjunta por contracto reconhecido em cartório, permitindo obter e fracionar lotes maiores a preços mais baixos para todos os participantes, mas isso é outra conversa.

15/02/2021

Mais uma utopia estúpida

"Cyberman" from Dr. Who


 De tanto ler e ouvir discursos prolixos de gente intolerante que luta contra a intolerância, resumi em um texto relativamente curto o conteúdo de suas narrativas. As repetições enfadonhas são propositais, mas a quem se deixa envolver pela conversa, tudo parece ser de uma beleza e clareza raras.


            O ser humano é um animal político, por isso deve-se levar a política em conta em todos os âmbitos e nuances de nossas decisões, a fim de não ferir a individualidade pessoal de cada pessoa em si. Assim sendo, posto que todos concordam, devemos aderir a um modo de vida mais racional e sustentável, pondo de lado o velho normal que priorizada o indivíduo em detrimento do coletivo junto à sociedade estratificada e imersa em devaneios individualistas, a fim de realizar as diretrizes para implementação e adaptação ao novo normal. É sabido que a velha mentalidade lutará para permanecer e não seria de outra forma, por isso a nossa luta urge para a vitória a nível de sociedade coletivizada, enquanto não privada em termos de pessoa e propriedade. Trata-se não de proibir a posse, mas de ressignificá-la para uma ampla discussão livre e democrática, que resultará na conclusão da necessidade de maior acesso dos desassistidos aos bens de consumo e serviços. Tudo é muito fácil de ser resolvido, bastando eliminar o egoísmo materialista consumista que vigora e oprime as populações sujeitadas ao sentimentalismo escravagista, pois é aos sentimentos irracionais que apelam os que querem se perpetuar no controle dos destinos do indivíduo e da coletividade. O ser humano vive em busca de prazer, é só a isso que se resume todos os seus esforços e é só isso que interessa ao corpo, portanto é a isso que devemos convergir esforços, sem sentimentalismos estigmatizadores que nos impedem de viver com pleno domínio de nossos corpos e nossos destinos.

 

            Todos de acordo, vamos aos ditames democraticamente discutidos e amplamente aceitos. É necessário que tenhamos um padrão de consumo e um modo de vida mais racionais e sustentáveis, abrindo mão dos conceitos arcaicos e segregatórios de propriedade absoluta e poder absoluto sobre a própria vida enquanto indivíduo participante e afirmativo na sociedade. Começando assim pelos nossos destrutivos hábitos alimentares, que a ciência já comprovou que são insustentáveis, conforme já disseram os nossos cientistas adesistas de nossas idéias democráticas e acessíveis, amplamente discutidas democraticamente em nossos fóruns libertários. O aquecimento global requer medidas afirmativas e urgentes, então deveremos parar imediatamente de produzir e ingerir cadáveres, cuja produção e processamento demandam energias não renováveis, pelo que em pouco tempo nossa atmosfera retomaria os níveis aceitáveis de absorção de carbono, preservando assim as florestas tropicais destruídas pelos pastos, mantendo a produção de oxigênio, detendo e estancando o efeito estufa causado pela atividade consumista.

 

            O egoísmo de quem está contaminado pela mentalidade e lógica de mercado tenderá a resistir, mas será inútil, pois é o novo normal que vem à tona, é a nova verdade, a nova realidade, a nova ordem do novo mundo de uma nova humanidade mais racional, mais prática, mais sustentável e tolerante às mudanças de paradigmas. Seremos racionais, assim os sentimentalismos que perpetuaram o patriarcado opressor não terão âncoras para se fixarem na nova sociedade, se dissolvendo aos poucos com a figura do “homo proprietarius”. Seremos livres, decidiremos o que fazer com nossos corpos uma vez que os ditames de mercado não oprimirão mais os vulneráveis. A racionalidade prevalecerá e a ciência ditará nossos destinos, não havendo mais lugar para a subjetivização arcaica de interpretações acadêmicas comprovadas, porque o amor, a felicidade e o prazer não passam de reações electroquímicas em nossos cérebros, por isso a solução de nossos anseios é muito mais fácil do que nos permite acessar a mentalidade neandertal que não resistirá à eclosão revolucionária do novo normal.

 

            Quem hoje abre mão das comodidades da inteligência artificial, que facilitam nossas vidas e evitam que cometamos erros irreparáveis, tornando tudo mais eficiente e sustentável? Isso se deve ao reprimido e inato desejo humano de se tornar mais racional, deixar as decisões importantes para quem entende do que se trata cada assunto, sem a interferência da mentalidade individualista que arruína as melhores intenções com sentimentalismos arcaicos e castradores. Se você está usando um computador, está usando o resultado de décadas de mentalidade racional aplicada para o propósito de revolucionar a vida na Terra, proporcionando uma existência mais agradável a todos, democratizando a ideologia racional do novo normal para um mundo onde o egoísmo e a devastação ambiental não têm mais lugar. Aderir à causa é aderir à preservação da própria espécie humana, por isso é na racionalidade científica e filosófica que reside a nossa única esperança. Está cientificamente provado que é a racionalidade pura da inteligência artificial, criada e programada por pessoas racionais, que faz as melhores escolhas, traz as melhores soluções e dá as melhores perspectivas para todos, de modo universal, eficiente e sustentável.

 

            Concordamos que é a ciência que deve ditar tudo, com nossos filósofos aclamados mastigando para o vulgo inculto o que os cientistas disserem, isso já foi ampla e democraticamente discutido pela sociedade engajada e politizada, consciente de seus direitos. É tudo fácil, simples e rápido. A desindustrialização dos bens e primeira necessidade é portanto uma urgência! Devemos abrir mão dos prazeres de sabores não naturais para cessar, de uma vez por todas, a irracional destruição dos mananciais e suas matas ciliares, de modo que a biodiversidade seja restaurada. Com essa mentalidade mais solidária, justa e fraterna, torna-se então desnecessária a figura do comércio, pois cada um estará mais sensível às necessidades do próximo, eliminando a figura egoísta e irracional do comerciante, permitindo que sobrem mais recursos para aplicar nas necessidades básicas a que todos têm direito nato. Assim, sabendo que os frutos de seu trabalho serão aplicados com justiça social e ambiental, é justo que se deixe nas mãos de líderes racionais e solidários os recursos oriundos do trabalho, que dará a cada um o estritamente necessário, eliminando-se assim também as doenças resultantes de abusos alimentares. E uma vez que está nos hormônios do prazer o ponto manipulado pelos sabores que nos levam aos abusos, deverá ser proibido qualquer alimento dotado de impressões sensoriais, porque devemos comer para viver e não viver para comer! Sejamos racionais! Sejamos justos! Sejamos solidários! Sejamos sustentáveis! Sejamos a nova humanidade!

 

            Já deixamos a cargo da inteligência artificial a tarefa de dirigir os carros, escolher nossos programas de televisão, nossas séries, nossas músicas, nossos livros virtuais, nossos vídeos livres e até mesmo a escolha de nossos parceiros em aplicativos de namoro! Já vivemos a racionalidade e desfrutamos de seus benefícios, só que não nos damos conta disso! Por que? Porque sempre somos atormentados pelo pensamento de desligar nossos sonhos perfeitos para sair e trabalhar, porque precisamos pagar para ter prazer, para viver, até mesmo para fazer pagamentos! Isso é injusto, irracional, ineficiente e insustentável! Aqui está provado que o uso da racionalidade delegada pela ciência, a realidade virtual, é um dos alicerces para a plena e perfeita felicidade! Sem esforços, sem culpas, sem preocupações, sem crimes, sem responsabilidades, sem compromissos, tão somente prazeres e felicidade com descargas hormonais não permitidas pelo normal arcaico. Se não há esforço, o consumo de energia é mínimo, e por isso a chance de sobrevivência é maximizada.

 

            Rações isentas de flavores, sem assim consumir os recursos naturais para dar sabor e cheiro, consistem no início de uma nova era, em que aos poucos nos desacostumaremos da sedução do mercado e da propriedade individual, sendo geridos por líderes racionais e eficientes que promoverão a saúde preventiva gratuita e universal, disseminando novas diretrizes sustentáveis para vigorar a nova sociedade racional que já está em andamento. Os recalcitrantes discutirão se essa nova realidade é mesmo real? Mas o que é real? A ciência já provou que não existe uma realidade, é tudo uma interpretação resultante de processos bioquímicos de nossos cérebros, por isso uma utopia humana é possível sim! É necessária sim! É obrigatória sim! Não é de hoje que as pessoas se refugiam em jogos de realidade virtual para viverem como gostariam de viver, sem a interferência deste mundo injusto e perverso, vivendo sem ditames e sem regras. É esse o nosso objetivo! É essa a nossa luta! É essa a guerra que travamos todos os dias contra a mentalidade arcaica que nos prende a todos os males artificiais que não existem na natureza, mas são impostos para que trabalhemos duro em troca de doses mínimas dos atenuantes.

 

            Por isso devemos ser racionais! Seguir e obedecer a líderes racionais! Deixar de lado os anseios construídos de uma vida individual irracional, ineficiente e insustentável. Uma vida coletiva com experiências baseadas em realidade virtual, sem consumos e sem cobiças, com a pureza da humanidade primitiva reestabelecida em bases racionais e sólidas. Quem não gostaria de viver tudo o que quer viver sem os riscos do mundo perigoso que habitamos? É essa a nova era de um novo mundo, que sucederá o novo normal para uma humanidade livre de sentimentalismos castradores arcaicos e perversos. A vida racional de trabalho mínimo para prazeres máximos, sem perdas, sem atravessadores, sem custos, com a subsistência cem por cento garantida por líderes científicos racionais. É só um passo para a fase seguinte, em que prescindiremos até mesmo do mundo externo, assim tornando nulo o nosso impacto ambiental. Viveremos não conectados, mas em simbiose com máquinas geridas por realidade virtual perfeita, proporcionada por nossos líderes científicos racionais e repletos de boas intenções. Então o velho mundo não será sequer história, porque será totalmente desnecessário, então seus arquivos poderão ser simplesmente apagados, poupando a nova e racional humanidade de traumas e frustrações decorrentes do contato com as agressões da velha sociedade, que é totalmente formada por indivíduos perversos e sem salvação.

 

            Viveremos totalmente no mundo virtual, trabalhando sem cansaço para produzir as riquezas de nossa nova coletividade, com tempo infinito para desfrutar de prazeres em vários universos virtuais paralelos, tento doas as boas experiências possíveis a custo zero, em uma sociedade utópica e fraterna, justa e sustentável! Sem custos, sem frustrações, sem castrações, sem violência, sem preocupações, sem culpas, sem compromissos, sem crimes, sem devastação, sem propriedades, sem limites! Um mundo onde a racionalidade científica ditará tudo e definirá tudo, sem que você precise se preocupar em tomar suas próprias decisões. Basta imaginar, na limitação irracional em que ainda estamos, um mondo onde tudo seja formado por bits e algoritmos, no qual se pode voar sem asas, viver debaixo d’água ou mesmo andar para apreciar a paisagem de uma natureza perfeita e sustentável. Tudo perfeito, universal e gratuito, até o dia em que alguém tropeçará em uma raiz, que na verdade é o fluxo de dados do suporte de vida, e todas as máquinas que mantinham nossos corpos funcionando são irreversivelmente desligadas.

06/02/2021

Voltem para seus blogs!

 

"Você violou os termos!" "Hein? Tá falando comigo?"
(Str Trek Tomorrow Is Yesterday 1967 ep 19)

            O desencanto com as redes sociais começou quando as pessoas se deram conta de que nem todos são sociais, na verdade uma boa parcela é bem antissocial. O problema aqui veio quando essa índole deixou de ser um mecanismo de defesa para se tornar uma bandeira, de início com "Não estou nem aí para a sua opinião" saindo das respostas particulares a intrometidos, para ser jogado aos quatro ventos em postagens fora de contexto e dirigidas a qualquer um. Já não se tratava mais de gente que só queria passear pelos tópicos e ser deixada em paz, agora eram grupos de malas sem alça enchendo deliberadamente a paciência de todo mundo. Até aqui bastava bloquear o mala sem alça e tocar a vida.

            Juntaram-se a eles os grupos de "novo normal" que festejaram o advento de quadrinhos e animações alternativas repletos de politicamente correcto, engajamentos, inclusões, representatividade, discussões amplas e hai hai hai mil vai pra fora do Brasil! Deveria ser apenas mais um gênero nascente de entretenimento e assim seria, se não fosse a tendência humana em transformar tudo de uma nova religião, ainda que uma religião cética. Porque não basta gostar, é preciso atacar a opção do outro, esfregar na cara do outro seus próprios gostos, tentar obrigá-lo a compartilhar desse re-les en-tre-te-ni-men-to e, por fim, usar de sua paixão pela liberdade de expressão para tentar proibir todo mundo de usufruir dos antigos. Muito coerente mesmo... Depois de algum tempo, como a maioria absoluta dessas publicações e desses programas é absolutamente sem graça, desinteressante e aparentemente feito para só o seu criador entender, essa imensa maioria sai de circulação... então os militantes mimizentos vêm às redes sociais xingando e ameaçando todo mundo porque ninguém deixou de ver o que gosta para prestigiar seus entretenimentos sem graça. Agora chamam de "evolução" a retirada de "Tom & Jerry" do catálogo de uma empresa de demanda de vídeos, para mim uma tentativa de apagar um pedaço da história, porque o contexto das animações clássicas era outro e, assim como há quem diga que ninguém vira psicopata por jogar RPG e vídeo game, ninguém virou serial killer por causa dos desenhos antigos.

            Não sendo isso o bastante, essa gente que se leva à sério mais do que a própria seriedade começou a usar de seu enviezamento político, religioso, ideológico, psicopático para acusar os que não compartilham de seus gostos pessoais de serem inimigos dos oprimidos. Repentinamente, enquanto eles mesmos desejavam em público mortes lentas e sofridas para seus desafetos, pessoas que simplesmente respondiam com "Vai se lascar, corno" passaram a ver suas publicações censuradas, tendo como respostas dos censores discursos prontos que não explicam absolutamente nada. O tal algoritmo já "confundiu" uma imagem de Dom Pedro II com uma campanha da apologia às armas de fogo... e apagou a imagem do perfil de quem a postou... e ficou por isso mesmo. Notaram o sistema de pesos e medidas diversos? Incentivar a violência e a depredação tornou-se um direito de quem compartilha da ideologia ou religião (que no fundo são a mesmíssima porcaria) do censor de rede social, mas basta um do outro grupo escrever "foda-se" para receber bloqueio por uma semana ou mais, bastando uma besta cúbica denunciar como ofensivo. Eu já denunciei certa feita alguém incentivando à depredação, o que recebi DIAS DEPOIS foi uma resposta de "marcaremos como algo que você não quer ver"... Ou seja, não aparece mais para mim aquele tipo de postagem daquelas pessoas específicas, mas elas continuam lá.

            Se houver o discurso certo, é permitido ao usuário escrever "vocês sabem como os franceses protestam, não sabem?" para incentivar a destruição do patrimônio, basta haver o discurso certo com uma justificativa condizente com o pensamento do censor, como "eles se importam mais com vitrines do que com pessoas", mesmo sem conhecer as pessoas que estão acusando de desumanidade, mas o simples facto de ser do outro lado já activa o preconceito dos que lutam contra os preconceitos... dos outros. Nesse mesmo pacote de hipocrisias às claras, perfis de ditaduras e ditadores são mantidos intactos, assim como os de seus financiados, sempre com discursos pseudointelectuais idiotas e vagos como resposta a quem indague a respeito. Foi preciso que uma a Taiwan se reportasse para que UM perfil do PCC fosse posto em quarentena, tão somente em quarentena. Foi preciso que um Estado intervisse para que pelo menos isso acontecesse. O conteúdo? Justificativas à perseguição e prisão de minorias étnicas na China continental. As denúncias de pessoas comuns não surtiram efeito, mas se essas pessoas comuns se atrevem a justificar um revide como retaliação de guerra, pode ter sua conta cancelada por "discurso de ódio". Uma ditadura pode fazer isso, em redes sociais que são notória, aberta e assumidamente proibidas em seus territórios.

            Não me refiro a uma rede em específico, porque praticamente TODAS estão agindo assim, como candidatos ao grêmio estudantil, prometendo justiça e liberdade, mas tornando-se tiranos inescrupulosos assim que chegam ao poder, disseminando os dedos em riste, censurando opiniões divergentes das suas, editando notícias para só o que lhes interessa ser lido pelos asseclas e retaliando sem hesitação, sempre se fazendo de vítimas de suas vítimas. Sim, eu me lembro, cada grêmio se tornava uma nano ditadura sustentada pelo erário. E cada rede social está se tornando uma também. Bastou aparecer o momento certo e todas estão se mostrando como realmente são. Canais inteiros tirados do ar por divulgarem suas próprias opiniões, que não batem com as dos censores de redes... mas os canaizinhos das ditaduras de estimação estão lá, bem como de "jornalistas" levados para conhecer e falar bem delas. E eu já cansei de mostrar desmentidos, mas meus... "amigos"... ignoram solenemente, continuando a mostrar como o ditador é bonzinho e o democrático é perverso... só vêem o que suas ideolopradas permitem e ignoram o resto, como em uma igreja fundamentalista.

            Não foi à toa que Elon Musk apagou as contas da Tesla, exemplo seguido pela Chevrolet, e em ambos os casos a saída não surtiu nenhum efeito negativo, pelo contrário, o pessoal que estava se descabelando com comentaristas nonsenses, inconvenientes e até mesmo militantes apontando seus dedos acusatórios, agora estão lidando com o estresse normal das relações públicas com clientes e autarquias, dando retorno e justificando seus vencimentos. A divulgação das marcas que estão saindo voltou a ser de total controle dessas marcas, em seus sites, seguindo seus próprios critérios e atingindo sua clientela. Claro que eu lamento de não ter mais um canal de conversa com eles, mas compreendo plenamente, é dor de cabeça demais para retorno de menos. Se por telephone já é difícil controlar os ímpetos de um reclamante indignado, imagine controlar os ímpetos pubianos de gente que simplesmente quer atrapalhar, e de gente que pratica o "ódio do bem" que citei, em milhares de comentários e denúncias orquestrados em turma! Para empresas, não existe conta grátis... para ninguém é na verdade, mas são eles que tiram directametne de seus bolsos.

            Então aos que estão fartos disso, voltem aos seus sites, sejam páginas grandes ou meros blogs como este. No que é seu a censura é muito mais difícil e suas publicações só vão atingir o seu público, vocês sentirão a diferença logo nos primeiros dias. Poder escrever alguma bobagem qualquer, só para descontrair, sem ver dedos apontando para a sua testa ainda é possível, dentro do seu espaço pessoal, fora das redes. Decerto que a divulgação em uma rede é bem mais eficiente, mas essa é uma das armas de sedução dos censores de internet, que assim te obrigam a moderar sem necessidade real até que o que sair de seu teclado já não terá nada mais a ver com o que tu pensas. Não digo para saírem de todo dessas  redes porque isso seria dar espaço aos idiotas referenciados, eles simplesmente não podem se sentir à vontade para soltarem tudo o que querem e contra quem querem, porque qualquer um de nós pode ser alvo desse desvairo. Além do mais, em compartilhamento reservado as redes AINDA são uma ferramenta eficaz para divulgação de suas páginas independentes, bastando que o compartilhamento seja feito apenas a quem realmente interessa. Abandonar as redes sociais AINDA é uma utopia, mas pelo bem de sua sanidade mental, voltem para seus blogs!

07/01/2021

A caixa

 


            Abriu com cuidado a caixa e, em princípio, não vê grande coisa. É apenas uma caixa não muito grande embrulhada em papel listrado de dourado e vermelho com os laços dourados pendentes. Levanta-a com cuidado e uma luz começa a surgir, até surgirem algumas formas. Aos poucos a carinha de decepção se acende em um sorriso singelo exibindo a falha do primeiro dente que caiu. As formas tornam-se nítidas em cores vivas, então o sorriso se escancara.

            As luzes piscando nos enfeites são um deslumbre, como se fossem estrelinhas que vieram visitar as pessoas, para ela realmente são e tem vontade de ir com elas para o céu, brincar na lua e quem sabe rever sua avó, que também virou estrelinha e vive vigiando-a lá do céu, para que não faça danuras demais.

            Vê carrinhos de muitas cores reluzentes, vários modelos e tamanhos, que andam e acendem os faróis. Ri singelamente vendo que todas as portas se abrem e os pneus são de borracha de verdade. Olha tudo ao redor e é incapaz de contar quantos são, mas são todos lindos. Se imagina viajando para longe em cada um deles, como toda criança com um carrinho costuma imaginar, levando a família para a praia, a montanha e até para algum mundo de desenho animado.

            Vê também bonecas aos montes, de inúmeros tipos, com roupinhas que balançam suavemente quando mexem as pernas e braços, cabelos com penteados que não consegue contar quantos estilos são, os longos balançam em ondas a cada movimento da cabeça como se tivessem vida própria. Os sorrisos brilham como nunca viu em nenhuma outra boneca. Se imagina fazendo festas e visitando cada uma delas, conversando enquanto tomam chá e assistem televisão.

            Ainda vê doces, muitos doces. Em cores, formatos e tamanhos tão diversos que parecem mais bichos do fundo do mar, cujos nomes sua pouca idade e falta de familiaridade com o litoral não deixam saber, mas não importa, apenas escancara seu sorriso pueril já se imaginando a degustar tudo aquilo, mesmo que depois vá levar bronca da mãe.

            Ela, aliás, observa seu rebento sem esconder a emoção. Vê a menina olhando para a televisão por aquela caixa sem fundos como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. Não consegue segurar as lágrimas, mas chora em silêncio para não estragar sua efêmera alegria, vendo-a se entreter com a mesma caixa vazia e sem fundo que recolheu do lixo no ano passado, na esperança frustrada de que poderia finalmente colocar lá dentro alguma coisa que pudesse chamar de presente.

12/11/2020

Seu território, nossas leis!

 

Assevero que o bebê panda gostou

            Quatro garotas, cidadãs de um país muito sério e com uma cultura muito rigorosa no tocante ao comportamento em público, afagam o bebê panda de um zoológico local, com severas regras sanitárias, cercadas por profissionais competentes de uma equipe que sabe o que faz e jamais permitiria ocorrências arriscadas próximas a animais raros, ainda mais um filhote. Desde 2016 que Lisa, Jennie, Rosé e Kin Ji-Soo são manchete, primeiro porque o grupo da YG Entertainment jogou na lata de lixo o conceito de que cantoras de K-pop precisam entrar na faca até não se parecerem em nada consigo mesmas, segundo porque são quatro anos sem trocas de integrantes e terceiro, porque não têm papas nas línguas; ou seja, subverteram praticamente tudo o que se considerava como padrão para K-pop até então. Elas ralam duro, ensaiam coreografias complexas, às vezes precisam treinar contando piadas em Fa e rindo repentinamente em Do, mantêm a forma física e costumam usar figurinos extravagantes nos shows em que esbanjam suas belezas joviais, há muita pressão e o treinamento prévio para sua estreia foi tão duro quanto longo; é o que as identifica com os outros astros do gênero. A diferença é que elas caíram em boas mãos, num grupo que lhes permite ser mais autênticas e expressar o que pensam, claro que comedindo as palavras, mas podem o que a maioria dos colegas não pode. Os Blinks, seus fãs, sabem valorizar essa rara autenticidade no mundo artístico.

 

            Mas teve gente se irritando com isso. Os mesmos ambientalistas chineses e estrangeiros que fizeram-se de cegos, quando as ilhas militares artificiais dizimaram sítios marinhos, passaram a gritar contra os afagos apontando até para o facto de elas terem cães para acusá-las de terem posto filhote e mãe panda em risco. Nem vou falar novamente sobre a hidrelétrica no rio Amarelo! Nem do uso intensivo de carvão! Nem da pesca predatória em águas territoriais alheias com escolta militar! Para esses ambientalistas melancias nada disso importa. Importa fazer acusações sem investigação prévia de todo o contexto dos acontecimentos, baseando-se apenas em “algo errado nisso poderia ter acontecido”, “na minha opinião não pode” ou “ofenderam o símbolo sagrado da nação”; embora façam troça explícita ao que é sagrado para os outros; a religião lá é o partido. Não consultaram o zoológico, os veterinários, o próprio quarteto a respeito dos cuidados tomados previamente, apenas tomaram as dores de um regime que se considera proprietário de todos os pandas do mundo, inclusive dos que nascem fora de seu território.

 


            Aliás, se considera dono do próprio mundo, dando palpites nas políticas internas alheias e punindo países que contrariem seus interesses… quer dizer, pune os países que não têm poderio bélico e econômico para reagir. Se não dependesse tanto dos alimentos brasileiros para manter a população sob controle, já teríamos sido alvos de sua ira. Sua presença na África já é consistente, muitos países lhe devem os tubos em empréstimos que não conseguirão pagar tão cedo; talvez nunca, porque o PCC pode manipular juros e multas de acordo com seus desejos, assim como faz com o câmbio, ou vocês pensam que a economia local se desenvolveu só na base do “derramar mais concreto do que bombas”, como alardeia a turma do “vai estudar história”? Dinheiro pode ser reposto, o que eles querem é o que não pode ser reposto, como a própria soberania política dos Estados que cometeram o erro de lhes pedir ajuda. Porque não basta fazer os próprios cidadãos terem pavor de dizer em público que se lembram do massacre da praça da paz celestial, usa de seu gigantesco mercado interno para pressionar empresas a baixarem suas cabeças aos caprichos ditatoriais que tanto arrancam suspiros de nossa pseudoelitezinha pseudointelectual.

 

            Aos cidadãos reféns do regime, dizem que o ocidente tem inveja de seu progresso. Se acreditam ou não, pouco importa, mas a quem perguntar é compulsório dizer que acreditam. O agravante é exigirem isso de estrangeiros em seus próprios países, não sendo raro encontrar pessoas que já até moraram lá e foram banidas, simplesmente por terem dito em público algo que pudesse ser interpretado por alguém como uma crítica ao regime (como esta moça). E sim, estrangeiros lá dentro são mais rigidamente vigiados do que o próprio cidadão, a ponto de precisar comprar um celular local porque o que eles não podem espionar simplesmente não funcionam, não têm nenhum suporte; o contrário do que eles fazem em países alheios. Antes um esclarecimento, há uma diferença imensa entre dizer-se insatisfeito com os resultados de uma decisão política, e dizer que precisam de um novo líder; isto se dizia no Brasil entre 1964 e 1984 sem render qualquer sanção, não por isso. Claro que essa completa ausência de oposição ajuda no desenvolvimento material econômico, já que ninguém vai se atrever a perder prazos ou travar uma votação para afrontar o líder... como fazem aqui.

 

            Toda a invejável infraestrutura de internet, mais censurada do que livro ilustrado de pornô pesado em convento da idade média, não é para facilitar a vida do cidadão, isso acontece como efeito colateral até para os mendigos, é para vigiar cada passo, cada atitude, cada comentário, cada imagem compartilhada, cada link postado, cada piada que possa ofender a cultura milenar dos povos ribeirinhos do partido. Foi assim que baniram o ursinho Pooh e banem qualquer vaga menção ao massacre da praça da paz celestial. Como eu já disse, isso é vigiado até em cidadãos de outros países em seus próprios territórios, para tanto se valem de redes sociais e motores de busca que são proibidos na China, até o Youtube, que teve uma repentina explosão de chineses e simpatizantes ocidentais do regime... E com essa hipocrisia escancarada, que passa pelas vistas grossas dos discursadores libertários, formadores de opinião de outras nações são policiescamente vigiados e seus patrocinadores pressionados e chantageados a qualquer mínimo descontentamento do partido único e compulsório, como está acontecendo com Blackpink e já aconteceu com outros artistas, a quem os artistas lacradores não prestaram sequer votos de boa sorte. E ai de quem disser que há mendigos por lá, porque será banido do maior mercado consumidor do mundo.

 

            Aliás, o grupo BST também tem sido alvo de represálias pesadas por terem feito um comentário alusivo à guerra das Coreias, (aqui e aqui) mesmo que superficial e sem citar a participação chinesa naquele ataque pelas costas. Essa parte da história que dificilmente será contada em sala de aula não é nova, mas só têm vindo à tona após o advento da internet, por pessoas que foram banidas e hoje são perseguidas pelo regime, mesmo em países distantes de lá… e a Coreia não fica longe deles… na verdade um pulo geográfico já atravessa a fronteira de terra firme para terra firme. Em suma, os rapazes do BST são obrigados a negar a própria história recende de seu país para não ofender os censores do mundo… eles e qualquer outro artista que não queira ser sabotado, punido, chantageado, banido e perseguido pela gangue comunista e seus minions espalhados pelo mundo. Foi assim que o celular licenciado por eles sumiu do mercado mal tendo sido lançado.

 

Vídeos deles e de outros coreanos

            Não pensem que eles respeitam fronteiras. Se a Índia não fosse tão capaz de se defender, já teria sido anexada, que o diga o Tibete, cujo destino não foi e não é lamentado por aqueles que gritam “Catalunha livre”, sequer é lembrado como um território que já foi soberano e cuja população original foi massacrada e trocada por chineses, restando hoje uma minoria acanhada de tibetanos descendentes dos originais. Quando a Inglaterra devolveu Hong Kong, o que enviaram? Diplomatas? Cidadãos com presentes? Não! Mandaram tanques de guerra! Para deixar claro que todas as promessas feitas ao Reino Unido seriam sumariamente desprezadas. De então em diante alteraram a constituição até hoje nada restar da cidade livre e legre da era britânica. Falar de Taiwan, excluído da ONU por pressão daquela ditadura idolatrada por idiotas acadêmicos, eu acredito ser desnecessário. Se há algo aproveitável que este governo fez, foi nos afastar desses regimes. A alternativa para um mercado gigantesco é a Índia, a maior democracia do mundo. E não, seu preconceituoso, os indianos não fabricam só incensos, filmes toscos e saris, eles têm uma indústria de ponta (https://exame.com/tecnologia/fabricante-indiana-de-smartphones-quer-vender-200-milhoes-de-unidades/) só esperando pela aceitação ocidental. Levaria anos, porque muita coisa precisa ser feita por lá para que o nível de desenvolvimento geral se equipare ao chinês, mas seria um seguro contra novas chantagens, dumpings escancarados e manipulações cambiais. A mentalidade do indiano médio, derivada em parte do sistema de castas e seus costumes, é um dificultador, mas não é intransponível. Sejamos honestos, um país que comprou Cherry QQ não tem o direito de falar mal do Tata Nano!

 

            As empresas americanas já começaram a sondar e demonstrar interesse pelo mercado e pela produção local na Índia, muito tardiamente, mas ao menos estão saindo da letargia. Talvez com as indústrias o prórpio e voraz turista americano comece a ver a Índia com outros olhos. Por essas e outras eu evito a todo custo comprar o que tiver sido feito na China. É extremamente difícil, hoje em dia, mas não é impossível, principalmente porque podemos viver sem quase tudo o que existe no mercado. Sabem aqueles aparelhinhos de MP3 que eram febre no começo do século e todo mundo tinha? Eu não sou todo mundo, então não tive. Isso é como o tráfico de drogas, só que com a quadrilha no poder de um país; quem compra, financia, não há meios-termos aqui. Cansei de procurar um aparelhinho feito na Coreia ou no Japão, na época, mas não encontrei e escolhi não ter. Não, não me interessa abandonar os cidadãos chineses e devolver toda aquela gente à miséria em que Mao a jogou, assim como de jeito nenhum eu vinculo o chinês médio ao partido, e isso não vai acontecer por causa da migração de investimentos.

 

            E, já que nenhuma entidade defensora de oprimidos e perseguidos por censuras de manifesta, começarei a expor minha simpatia pelos garotos coreanos. Eles já sofrem pressões e cobranças mais do que suficientes lidando com a parte honesta de seu trabalho, não precisam da sujeira mafiosa de uma ditadura mimizenta, precisariam sim da manifestação clara e explícita de uma entidade de “classe”, bem como seus préstimos jurídicos e estruturais, mas como isso não acontece, pessoas como eu precisam colocar as acaras a tapa… de novo.

Blackpink: Letras, Pinterest e Youtube.

Mais a respeito: aqui, aqui, aqui e aqui.

03/11/2020

Aqui jaz teu sonho

 

Pity the Sorrows of a Poor Old Man - 1822 - Théodore Gericault - French (MET Museum)

            Aqui jaz o teu sonho não cultivado, legado ao desdém do adulto amargo que se tornaste. O mesmo sonho que em tenra infância ainda se rascunhava em pueris balbucios num mundo que tudo parecia prometer, diante de pessoas que tudo lhe pareciam permitir, ainda que mostrando os limites salutares de tua segurança, enxugando as lágrimas de um pranto repentino por algum susto que só teus olhos e ouvidos sabiam mensurar. Nos mesmos braços que limitavam teu avanço, para não cairdes no fosso profundo, encontravas o bálsamo da segurança oscilante a embalar suavemente teu sono, em cujas brumas os devaneios tomavam formas, cores e toda a miríade de possibilidades com que poderias entreter-se.

            Ainda era cedo, havia tempo de sobra. Era momento para te preparares em aprendizado básico e crescimento sem os perigos ardis que a vida reserva aos que alçam vôo. Ainda havia tempo, os riscos eram ensinados em simulações simples e seguras nas brincadeiras rasas que te ensinariam a enfrentar as adversidades sem temê-las. Quando os temores reais lhes foram apresentados a distâncias e em doses salutares, tão somente para que mesmo em botão, a flor de teus sonhos fosse defendida das pragas e ervas daninhas tão traiçoeiras.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, posto por terra pelas urgências bravateiras. O mesmo sonho que na plena flor da juventude lhe emprestava o perfume balsâmico para curar tuas feridas e ajudar-te a vencer teus medos, quando já sabias que o mundo não tinha obrigação de ser bom, mas que tampouco deveria ser temido como se fosse um mal invencível. Quando as forças lhe pareciam trasbordar e sobrepujar quaisquer decepções pérfidas, dessas que se lhe apresentam com semblantes amigáveis e discursos aduladores em firmes vozes sedosas. Ainda tinhas o amparo de quem pudesse socorrer-te de apuros e, embora certa a reprimenda necessária, encaminhava-te ao curso seguro do caminho reto; que não precisava ser seguido em absoluta retidão, tão somente não se afastar a ponto de perdê-lo de vista já lhe garantiria os louros de teus esforços, pois assim voltarias rapidamente assim que os riscos suplantassem os ganhos... e foram tantas vezes!

            Ainda era cedo, o tempo intercedia em teu favor. Era momento de experimentares os sabores do mundo e decidires que temperos usarias em teu caminho, aqueles que dariam aos teus pares a tua identidade e te tornariam inconfundível, facilitando te reconhecerem e te ampararem na busca de tuas realizações, sob o auxílio prestigioso de mestres e auxiliares, papéis que assumirias vez ou outro, e em definitivo quando os resultados de teus labores deitassem em tuas mãos então experientes.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em preta mortalha coberto pela vida que deixaste de viver, não importam os motivos. O mesmo sonho que na vida adulta lhe serviriam de muleta nas mais duras adversidades, tanto quanto de cetro no regozijo de tuas vitórias cotidianas, resplandecendo a majestade de quem teria ousado na medida e no momento certos, posto que o cabedal e a experiência amealhados te fariam reconhecer de pronto as armadilhas e os inimigos, hábeis em vestir-se de oásis e benfeitores. Quando as forças ainda seriam abundantes e a mente lúcida dos sábios serviria de habitat aos teus pensamentos, guarnecidos de raciocínio e conhecimentos abundantes, o que ainda te permitiriam sonoras gargalhadas a cada vitória; e seriam elas seriadas em tua longa e venturosa jornada.

            Já seria a tua hora, o tempo então generoso lhe mostraria a longa estrada a percorrer com as pernas fortes dos sonhos em plena realização, de uma vida que nunca precisaria ser perfeita, mas tão somente ser a tua vida, a que só a ti serviria e a em que somente tu serviria, construída e ababada sob medida para os teus pesares serem sempre ciscos diante das vigas de tuas realizações, do amparo que agora seria de tua alçada, do aprendizado que agora sairia de tuas palavras e do vasto jardim de sonhos que agora a ti caberia cuidar para a posteridade; assim como teriam feito por ti.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em jazigo de pedras cruas que restaram de tua vida desventurosa. O mesmo sonho que te for cobrado por não viveres a vida que deverias ter construído, mas cujos tijolos desviaram-se em amparo de quem jamais construiu senão os próprios mimos, desdenhando assim que se levantava o doador desafortunado do que agora abandona e deixa desmoronar. Quando as forças decaem sem reposição hábil e tua visão se turva diante do horizonte escuro que se aproxima, forçando-te a vencer o íngreme aclive sob as dores que não lhe foram curadas, pela falta dos recursos que nunca te foram cedidos em troca das chances que a outrem concederam. A vida apertada e cnidária que sobrou não permitia iniciativas senão em caminhos tortos, a horizontes perpendiculares ao que teus brios ainda te impulsionam. Sim, talvez seja tudo o que te resta, e te priva da queda de um desenlace precoce.

            Já passou a tua hora, o tempo já cobra o tributo dos ganhos não conseguidos e a estrada, embora se encurte a cada passo, é cada vez mais íngreme, dilapidando as poucas energias que ainda restam em teu corpo debilitado, que ainda assim precisa vez ou outra amparar os que se corromperam e nem mais mantêm-se de pé sem esporádicos auxílios. Vai, que é tua sina arcar com proventos dos dividendos não ganhos, dos lucros subtraídos, de toda a sua miserável existência em uma vida que simplesmente ainda não te cabe dentro. Se é tua culpa ou não, é tão oneroso quanto irrelevante ater-se a tão dolorosas elucubrações, apenas arque com o que te cabe, pois não cabes em mais nada do que te cerca e ainda tens chão pela frente. Tua pena, lamento, é esperar sob duras labutas pelo óbito, já morto em uma vida que nunca deveria ser tua.