15/05/2019

Hanna Barbera para maiores


Mas é claro que eu editei! Isto é um blog de família!

    Não é de hoje que os fãs dos personagens da Hanna Barbera esperam pelo retorno da grife ao mundo da animação e, quiçá, seu glorioso ingresso ao crescente e altamente lucrativo universo das versões live action. Sim, tivemos Scooby-Doo, mas sinceramente não foi o que nós, mais velhos, conhecemos quando o desenho era repetido ad infinitum na televisão.



    Nem vou falar daquele vexame que fizeram com o Manda-Chuva que foi um personagem rico, mas incompreendido pelos americanos na época porque se tratava de um malandro tipicamente brasileiro, o que eles ainda hoje simplesmente não comprendem.



    Que dirá dos Jetsons? Era moderno demais para a época, dizem alguns especialistas, mas eu acredito mesmo é que as pessoas não estavam tão interessadas em ver então uma série futurista baseada no cotidiano de um cidadão comum; ainda mais que os problemas tipicamente mundanos estavam presentes e escrachados no desenho.





    Eu poderia passar anos escrevendo e não abrangeria decentemente todos os personagens HB, seria um livro só para listar os nomes de todos eles.



    Acontece que mesmo com a simplicidade extrema da maioria das animações, a Hanna Barbera conseguia o feito de dar carisma e personalidade a TODAS elas, mesmo quando não pareciam ser mais do que versões diferentes de um mesmo tema; o que geralmente era, mas aí vai o talento de uma equipe que pega um Fusca e transforma em Variant, Brasília, TL, TC, Karmann Ghia, Kombi, Puma, Miura, MP Lafer, bugues infinitos e kits a perder de vista. Todos têm a mesma base e origem, mas cada um tem seu próprio comportamento e prazer de dirigir para tipos diferentes de motorista.



    Era esse o mote da HB. Fazia o pasteurizado ter personalidade, como se uma montadora tivesse divisões ou concessões homologadas para customização para versões de nicho. Alô, General Motors, esse puxão de orelha não é uma indirecta, é para vocês mesmo!




    Voltando ao tópico de entretenimento, é justo essa versatilidade que fazia personagens que eram praticamente copiados e colados terem personalidades próprias, e fazia a legião de fãs angariada relevar uma base secreta do alto de um edifício no centro de uma metrópole de onde saía um jato e NENHUM VIZINHO SEQUER PERCEBIA O ESTRONDO. É um absurdo? Sim, é um tremendo absurdo, mas fazia parte da diversão; era para rir mesmo, quem quisesse chorar assistia ao jornal logo a seguir.



    Ao contrário do que se pensava até os malfadados anos 1990, essa legião de fãs não só não desapareceu como cresceu. Gente que nunca tinha visto as reprises no festival Hanna Barbera, nas tardes ao longo da semana, simplesmente ama a grife. Gente que sequer tinha nascido quando a internet começou a trazer toda essa nação de personagens de volta à tona, constitui uma verdadeira torcida organizada.



    Basta um ilustrador talentoso divulgar um pôster alusivo e a rede se enche de esperançosos pelo não só retorno à programação televisiva, ou por streaming, como por filmes block busters que realmente valham o ingresso e a memória de William e Joseph. Perceberam o que quero dizer? Em uma época em que as franquias de heróis veteranos se expande mais rápido do que o universo, há um público cativo ávido por gastar seu suadi dinheirinho em ingressos e bugigangas com a marca Hanna Barbera. É um pomar de bilhões só esperando pela colheita.



    Ok, já apresentei o paraíso, agora mostrarei o purgatório. Assim como a Marvel com o quarteto fantástico, as melhores intenções para com a HB esbarram em um imbróglio incompreensível de licenças e patentes em que NINGUÉM se senta para discutir a divisão de dividendos, que seriam imensos, decorrentes do sucesso da exploração adequada desses personagens. Fica todo mundo emburrado de cara para a parede e mostrando a língua para quem tenta argumentar. É como se um monte de confeiteiros tivesse cada um, um ingrediente para um bolo viciante, mas nenhum se dispusesse a entregar o seu para fazer esse bolo.



    Só que ao contrário do que acontece com o quarteto, zombado com memes (“As coisas estão estranhas”, “esticaram demais o filme”, “roteiro invisível”, “a franquia se queimou”) os fãs da HB dedicam sua fúria aos executivos engomadinhos que não saem de suas salas climatizadas; síndrome da Chrysler, talvez: excelentes carros e péssimas decisões.





    Enquanto isso, os fãs continuam a se nutrir de versões independentes na internet, onde artistas e roteiristas (que são artistas das letras) esbanjam seus talentos em quadrinhos e pôsteres de fazer inveja a qualquer estúdio gigantesco de Hollywood. Eu me surpreendi há uns dez anos, quando digitei os nomes de alguns personagens e vi uma miríade, do mais tosco ao mais refinado, de desenhos independentes relacionados. Mesmo com a estilização que a maioria impunha, cada personagem era perfeitamente reconhecível, desde as versões mais fofas e inocentes até as mais adultas… e picantes… e indecentes... e outras coisas que nem se o que são… é aqui que a porca torce o rabo, meus amigos.



    Digite “Captain Caveman” e aparecerão milhares de resultados, alguns impróprios para menores. Acrescente “hot” e, em vez de restringir, os resultados serão maiores e mais diversificados. Coloque “hentai” ou “porn” e vais se surpreender tanto com a quantidade quanto com a ousadia. Isso vale para todos os personagens, aliás, podem até procurar genericamente por “Hanna Barbera” que esses resultados dignos da Sexta Sexy aparecem, ainda mais acrescentando as extensões. Pinterest e Deviant Art estão repletos deles. Nem adianta colocar filtros, porque aparecem assim mesmo e, dou a mão à palmatória, a arte geralmente é invejável. Os produtores dessas versões se esmeram em realçar a beleza facial das garotas como nenhum estúdio oficial foi capaz até hoje. Quem não está procurando por onanismo simplesmente fica hipnotizado pelos rostos que eles pintam.





   Torcendo mais o rabo da porca, conclui o que já suspeitava há tempos, a indústria da pornografia é a que mais preserva e divulga a memória do entretenimento, e também a que mais lucra com isso. Alguns vão dizer que estou de sacanagem, mas asseguro meus amigos, aquilo que os filtros tentam barrar sem sucesso é justo o que me levou a conhecer versões renovadas e não eróticas dos clássicos da Hanna Barbera. Hoje não me rendo mais ao rubor, é digitando “Josie and the Pussycats hentai” que as versões em arte mais finas e bem-acabadas, e apresentáveis à família, são encontradas com mais facilidade e profusão. Eu não estou brincando, precisaria praticamente viver disso para poder vasculhar todas as opções de censura livre! Imaginem as com tabela etária…



    Enquanto os estúdios de quadrinhos e filmes se digladiam, cada um escondendo seu ovo e sua farinha, a enxuta e ágil indústria do erotismo vende pequenos e bem-feitos bolos em larga escala. Os bocós não querem ganhar fortunas de uma só vez com nababescos bolos de noiva? Eles ganham fortunas com pequenos cupcakes de fino acabamento vendidos aos milhares, não se envergonhando em desenhar mulheres com traços graciosos e encantadores. Enquanto muitas vezes os estúdios apelam ao “custo/benefício” e depois se perguntam o que teria dado errado, os independentes ouvem seus seguidores e fazem o melhor que eles querem comprar, e fazem em grandes quantidades; e vendem tudo.






    Eles não perdem tempo com disputas internas e reuniões intermináveis, eles focam nos interesses comuns e depois acertam o resto, o importante é atender à demanda e pagar os custos da produção, os dividendos e a distribuição da renda resultante são meras conseqüências dessa agilidade e racionalidade: o fã quer, o fã tem. Ah, claro! Eles LÊEM os quadrinhos e VÊEM os desenhos clássicos, discutem em iguais condições com os nerds mais avançados, enquanto o executivo engomadinho com NBA em coaching pensa que Ben Grimm é um dos irmãos Grimm!



    Sem trocadilhos infames, os estúdios deveriam voltar às suas origens, reaprender a atender ao público vendo seus rostos e se inserirem até o fundo daquela caverna de criatividade e frescor que há décadas eles não conhecem, mas os artistas independentes, livres leves e soltos exploram com fervor.



    Até lá… Well… Até lá vamos continuar digitando “Penelope Pitstop hot” para suprir superficialmente a demanda que os engravatados não conseguem, inclusive com os crossovers mais bacanas que se possam imaginar… mas o mimimi corporativo proíbe.

11/04/2019

São Valentim atrasado

Feliz dia de São Valentim

Um texto que ficou por anos como rascunho, perdido e esquecido. A data passou, mas a mensagem é válida.



No Brasil não se fala, ninguém sabe que é, não há comércio ofertando, só chocolate e afins. A loucura insana para ter namorado, a quantidade insana de namoros terminados para poupar maiores gastos, procissões de gente pedindo um cobertor de orelha antes da data, nada disso se vê por aqui.



Na Europa os presentes sob larga nevasca não são só para amores. Para o chefe camarada que compreende a mancada postais de uma praia ensolarada, para o chefe ruim uma gravata de corda com um laçarote.



Lembrando dos amigos que nos aturam as mazelas, da moça do bistrô que é uma bela donzela, o irmão mais velho que buscou na delegacia e o mais novo que riu da covardia.



Os pais recebem, que a data é geral, não só as paixões. E sem os pais, quem haveria então para comemorar? Eles também valentinaram na juventude e merecem uma valentinação de gratidão.



Na América do Norte é pouco diferente, mais espalhafatoso e com mídia mais eficiente, mas o espírito da troca de presentes sem muito compromisso também é inerente. Artistas que saíram de filmes sanguinolentos dizem que o amor é lindo, que as flores são belas e se deve dar tudo de si pela próximo.



Cartas bem elaboradas com mensagens comoventes, cartas mal coladas com mensagens borradas, cartas bem lacradas com palavras comprometedoras, talvez indecentes. Também há cartas prontas, com espaços para nomes, como postais para quem tem pouco tempo ou memória de peixinho dourado.



No dia de São Valentim não logra o preconceito, mas é hora propícia para acertar os ponteiros. O noivado que se arrasta há tanto tempo pede uma decisão, de preferência já se trazendo bombons e a caixa de alianças na mão. O flerte sem compromisso, mas hoje tão longevo, pede para se descarregar ou desocupar a moita de uma vez.



Aos românticos de plantão, que têm seus alvos em retrato, a época no Brasil é quase esquecida e o presente sai bem mais barato. Para quê esperar dia doze de Junho, data transferida por conveniência comercial? Vá a uma banca de revistas, compre umas bobagens e faça uma linda carta de colagens. Não é difícil, não demora e encanta. Leve um guarda-chuva que o tempo é instável e reze para chover, os dois sob o impermeável, juntinhos, buscando um lugar para se esconder. Não precisa de coragem, basta esperar o momento, ela abre a porta e o galã adentra o apartamento.



Neste ano a lua é nova, as estrelas cintilam com mais vontade no abismo acima. Basta uma mesa com espaguete e almôndegas, um castiçal bem fixado e o MP3 ao lado. Deixem as piadas se soltarem, casos e lembranças virem à tona, pelo acaso se conhece o outro. Não esqueça de lhe dar a bolinha derradeira, seja de boi, frango ou soja, a atitude é certeira.



Já me enjôo com circunflexo de ver imagens de carnaval, piadas de carnaval, flashes de carnaval, ofertas de carnaval (queria saber o que escovas de dente têm a ver com o folguedo) e bacanais de carnaval. Volto minhas atenções para o que não se anuncia, o que exige busca e empenho.



Não exagere para não assustar, pois o brasileiro já perdeu o costume, seja singelo. Um lanche para quem tem plantão, uma visita para o enfermo, faça de coração que São Valentim é assim mesmo. Vale a intenção, mas melhos se houver atitude.



Agora, se a decisão lhe toma e a vontade saltita, não hesite. Aproveite a euforia e refine a indumentária, para mostrar que é sério leve logo as alianças e que lhe valha o santo amigo. Se inspire pelo caminho, passos largos e peito para fora, que um homem decidido impõe mais respeito. Seja cortês, vá directo ao assunto e se declare "Quer se casar comigo?".

24/03/2019

Coisas de que reclamamos

 
Tuppeware 1958
     Mas não deveríamos.

Pagar faturas;

    Se bem me lembro, a máfia ainda não registra em cartório e nem paga impostos sobre seus ilícitos, portanto é razoável eu concluir que de tudo o que vocês pagam, vocês usufruíram de um modo ou de outro, mesmo que só em fins de semana ou feriados.

    Sim, claro, sempre tem aqueles malas sem alça que sugam o nosso trabalho e se sentam na aba do chapéu alheio, mas aí a questão é outra, familiar ou policial. Não dá para comparar isso com o facto de tu teres comprado aquele televisor enorme para ver suas séries em full hight ultra over galactic HD, porque desse trambolho de tela grande tu usufrui sempre que quereres, é para isso que pagas a fatura da tv a cabo e a conta de energia.

    Pare de reclamar do seu usufruto, porque tu não gostarias que teu patrão ignorasse teu trabalho e se recusasse a pagar teu salário. É praticamente a mesma coisa, ele usufrui de tuas horas e paga por elas; se achas que mereces um aumento é outra conversa, é questão de negociar e reivindicar, mas ele tem que pagar pelo teu trabalho, a empresa dele e, quem sabe até os empregos de teus colegas, depende que teu vencimento esteja na conta no dia combinado.

    Da mesma forma as lojas e as prestadoras de serviço esperam que honres os custos pelos benefícios que te entregaram. Se tu não pagas, eles não têm como manter os serviços. Aliás, gente que usufrui e não paga é um dos maiores custos que eles têm, é como se o empregador te pedisse horas extras e não pagasse por elas.

    Resumindo, pagaste porque usufruíste.

Trabalhar;

    Quase uma continuação da anterior. Eu até dou razão quando o trabalho é mal pago e as condições degradantes, mas reclamar pelo simples facto de ter que trabalhar depõe muito contra nossa espécie. A rigor, quem não trabalha está sugando o trabalho de alguém. Não entrarei no momento em méritos de herança, invalidez, cárcere restritivo e outros, são exceções que mereceriam textos à parte.

    Sim, o Brasil não gosta de gente honesta e maltrata muito quem trabalha honestamente. Sim, a cultura nacional foi toda (aqui cabe o termo) construída nas coxas para desvalorizar o trabalho árduo e honesto. Sim, o brasileiro é um perfeito boi de abate, que se comporta cegamente como manada e corre para onde os outros correm, mesmo que seja um despenhadeiro; isso inclui repetir o bordão terceiro-mundista de que o trabalho não compensa.

    Eu já disse e agora vou desenhar: O trabalho é como um sistema pneumático, o compressor suga o ar ambiente e espreme dentro de uma espécie de tambor que é o reservatório. Com o ar espremido lá dentro, a tendência é suplantar a pressão que o ar normal exerce. Assim que uma válvula for aberta, o ar comprimido se expande e empurra tudo o que estiver pela frente, inclusive braços mecânicos, pistolas de pintura, infla pneus, gira brocas de dentista e uma infinidade de outras coisas.

    Enquanto o ar comprimido estiver sendo utilizado para algo útil, mesmo que seja só encher balões para uma festinha infantil, o trabalho do compressor está gerando frutos. Se alguém abre a válvula só para se divertir ouvindo o ar escapando ou para fazer bagunça no ambiente, está parasitando o trabalho do compressor, e o trabalho de quem paga as faturas de energia e da manutenção do equipamento. É como alguém que não trabalha se servindo de modo torto do trabalho alheio. Mas para que um vagabundo possa sobreviver, muitas pessoas precisam trabalhar.

    Ou seja, até quem não gosta de trabalhar se beneficia do trabalho. Não, ninguém é obrigado a gostar do que incomoda, mas simplesmente se recusar a fazer e ainda assim esperar ter um mínimo padrão de vida e consumo, lamento informar que qualifica a pessoa como potencial indesejável, porque está tirando dos outros o que não fez por merecer.

    Faça qualquer coisa. Qualquer mesmo! Ainda que seja visitar os amigos e escutar suas lamúrias e seus desabafos, isto É trabalho porque te faz servir e traz benefícios a terceiros; já te fez merecer as refeições em casas alheias, que então não são mais grátis, já estão na sua conta.

    Trabalhe e terás como pagar as faturas do que desejas ter.

Estudar;

    Como disse um sábio amigo uma vez "Jovem faz duas coisas na vida; existir e estudar, e odeia metade delas". Eu trabalhei um ano e meio como porteiro de colégio barra pesada a atesto o que ele disse, e os pirralhos ainda se fazem de vítimas quando são repreendidos.

    Eu não falo apenas em freqüentar a escola, isso realmente costuma ser maçante especialmente em comunidades distantes e sem infraestrutura; falo de pegar os livros, ver diferentes pontos de vista, inclusive diferentes dos professores, não se prender a ideologias, sensos comuns e dogmas. Isto é o básico, mas demanda queima de phosphato e glicose. Quase nunca é divertido.

    Mas vocês estão tão acostumados a acreditar que nascem merecendo tudo sem jamais terem feito nada, que se recusam a fazer algo que lhes tire de suas caixinhas, embora exijam que os outros saiam das suas. Preferem ler, ver ou ouvir aquilo que lhes dá conforto ou confirma o que já pensam, rejeitando com rispidez outras obras. Não vou falar daqueles que simplesmente querem ficar de papo pro ar o dia todo, estes são (ou deveriam ser) unanimemente considerados casos graves e carentes de internação psiquiátrica. Querer horas de lazer não é o mesmo que querer viver de lazer.

    Se vocês não sabem por que os orientais de democracias são tão admirados e tomam tantos empregos, basta verem o que vocês se recusam a fazer e imaginar que eles o fazem com extrema (às vezes excessiva) dedicação. Um japonês mediano costuma ter mais consciência do mundo que o cerca do que um ocidental com doutorado; a julgar pelos temas estúpidos que já vi, creio que até uma criança japonesa resolve problemas reais com ais desenvoltura.

    Eles só fazem prova UMA VEZ NA VIDA e costuma ser suficiente. Claro, isso é só um exemplo para esfregar nas caras de vocês que serão todos paus mandados dos outros, terão que se contentar com empregos de baixa qualificação com diplomas que não atestam conhecimento nenhum... isso para quem tem o tal diploma. Para os outros resta a sombria perspectiva de que as máquinas estão ocupando TODOS os trabalhos entediantes ou perigosos.

    Até para ser atendente é preciso ter cabedal, porque vai precisar lidar com pessoas de todo tipo, de todas as culturas e terá que sair de saias justas sem ficar nu na frente do cliente. E olha que, em tese, QUALQUER UM consegue ser atendente. Sabem aqueles empregos de balconista em redes de fast food, que até um completo retardado é capaz de executar a contento? Os aplicativos de celular já estão acabando com eles.

    Se tu não estudar, mesmo que por conta própria, não vais ter emprego para pagar as faturas de cujas cobranças desejas usufruir.

04/03/2019

Evasão blogueira

The Writing Cooperative

    Recentemente um amigo decidiu abandonar tanto seu blog quanto seu canal de vídeos, ele não é o único e sequer o primeiro. Os motivos são muitos, basicamente os mesmos que tornam minhas publicações tão esporádicas, mas acrescentemos aqui o fator frustração. A era de ouro dos blogs passou e durou pouco, deixando a pouquíssimas pessoas um contingente significativo de seguidores.

    Em geral as pessoas não gostam de ler. Se um texto tiver mais do que dois ou três parágrafos, as chances de êxito são mínimas. Há os que conseguem se adaptar a isso, simplesmente porque o que têm a dizer pode ser dito com poucas (ou até nenhuma) palavras. De outro extremo há os apaixonados por textos prolixos, retóricos e verborrágicos, do tipo que gasta três capítulos pra dizer as horas. O leitor equilibrado e paciente, que era o público maior da maioria dos blogueiros, não está mais disponível. Não sei se a situação é perene, mas certamente não se reverterá tão cedo.

    Some-se a isso o pacote de expectativas que mesmo os de pensamento mais a longo prazo trazem e protegem. Passar anos sem resultados expressivos, desanima. Um deles reclamou de estar cansado de se esforçar para ter seis ou sete comentários nos textos, e não mais do que uma dúzia de acessos em seus vídeos; cifras que há anos eu não conheço. É como conversar com o espelho. Para algumas pessoas, isso basta, mas não para quem quer passar conteúdo. E meus amigos têm MUITO conteúdo para passar. Eles têm cultura, têm acesso a livros e filmes, conversam rotineiramente com técnicos especializados e, principalmente, eles estudam muito aquilo de que pretendem falar.

    Eu não os culpo. A situação chegou a um ponto em que só quem vive de renda ou do blog, pode se dar o prazer de fazer textos e publicar vídeos todos os dias. O mundo real dos trabalhadores comuns, mesmo os de classe média, não permite isso. Quando se tem família, a coisa complica ainda mais, e geralmente a família é o pior dos públicos; o que menos acessa e o que mais critica. Viver de blog ou canal de vídeos não é para todos, os patrocínios não são infinitos e os contadores de acessos não vão com a cara da maioria de nós. E tem piorado. Recentemente alguns canais de divulgação simplesmente fecharam, o último foi o "Google+", que respondia por metade ou mais dos meus parcos leitores.

    Aliás, um dos meus antigos blogs foi apagado. O Wordpress não aceita mais o meu perfil, não com os baixos acessos que eu tenho. Bem, eles têm custos, têm que pagar os funcionários e impostos; amor ao próximo é uma prática e não um meio de vida.

    Não é tão fácil com parece colocar as idéias com acento no papel, ou no seu monitor. O cérebro não é um computador, é uma coisa MUITO mais complicada e melindrosa, um simples mau humor ou uma irritação no decorrer do texto, pode arruinar a publicação. E não é tampouco só questão de se esperar pelo tempo oportuno, porque somos adultos e as atribulações do cotidiano REAL podem simplesmente desvanecer aquela idéia que não for publicada imediatamente. Enfim, viver de blog ou de vídeos é para quem pode se dedicar totalmente a isso, salvo raras exceções.

    Um dos elementos apontados como vilões é a rede social, que dá seus recados rapidamente com textos curtíssimos e memes, embora lá também haja os que queiram lacrar com textões desnecessariamente gigantescos; estes eu simplesmente lacro com um bloqueio. Ironicamente, essas redes sociais têm sido as grandes divulgadoras do que eu faço, mas talvez só porque minhas chamadas com link não têm mais do que duas linhas. Bem, acessam, se lêem até o final é outra conversa... realmente frustrante.

    Até quando este blog estará no ar, eu não sei. Sei que me manterei nisto até quando me for permitido, não será por minha vontade que esta página de quase treze anos se fechará. As esperanças pueris de viver de canais de internet, porém, jazem. Tampouco me importa mais ver as estatísticas de acessos, são tão pífias que continuar a vê-las só alimentaria minha depressão.

    Eu teria desistido há anos se tivesse ainda a vã esperança de receber um centavo por acesso; daria o quê? Uns quinze reais por mês, quem sabe. Talvez tivesse desistido há anos, se o volume de acessos ainda fosse uma preocupação, porque baixar o nível eu não vou!

    Por que então eu teimo feito um touro indignado? Porque algum dia o que eu publico aqui terá alguma relevância para a arqueologia digital. Não é ficção, já há gente gastando seu tempo com isso, como hobby. E como todo hobby, somando-se as pistas que publicações regulares dão sobre a sociedade de seu tempo, um dia será algo sério e relevante. É para isso que eu teimo. Não pé para mim, nem para o público que já não tenho, é para a posteridade. Penso em no mínimo cinqüenta anos adiante. Provavelmente não estarei mais aqui e, sinceramente, não quero estar.



    Não, meus amigos, isto não é uma despedida. é apenas uma satisfação aos pouquíssimos que restaram. Eu não vou parar enquanto tiver como continuar.

24/01/2019

Precisa complicar tanto?

   
A vida era muito mais simples. 1950s
    Smart tv;

    Conecte o cabo à antena. Ah, não tem antena? Então primeiro contracte um antenista, espere ele ter espaço na agenda e depois a instalação da antena; e é claro, pague por isso.

    Agora sim, conecte o cabo à antena, certificando-se de que está também correctamente contectado à entrada do aparelho. Se for o caso, e quase sempre é, conecte os cabos do receptor de sinais, certificando-se de sob hipótese alguma trocar as cores dos conectores. Se o aparelho estiver sobre seu pé original de fábrica, não é tão complicado, mas se estiver fixado na parede, as dificuldades e as chances de errar crescem muito, porque pode não haver espaço para ver com precisão onde se está enfiando o quê.

    Pronto, primeira parte do trabalho concluída. Agora a segunda.

    Ligue o aparelho com o controle dele, e o receptor com seu respectivo controle; não misture os dois! Com o televisor ligado, inicie os protocolos. Espero que tenha lido o manual do proprietário, porque vais precisar. Informe a localização precisa de seu televisor; ei, não adianta reclamar e se recusar, sem isso a fortuna que gastaste será jogada fora, porque ele NÃO VAI FUNCIONAR se não deres satisfações de tua vida ao fabricante.

    Vamos lá, informe a localização, a área, a cidade, o CEP e o que mais o software exigir. Por que ele não pede, ou se informa tudo direitinho ou ele não libera o uso de tua propriedade. Feito isso está tudo pronto, certo? ERRADO! Agora é hora de "configurar" seu aparelho. Sim, configurar! Con-fi-gu-rar. O computador interno poderia ser programado para receber o sinal do satélite e fazer isso sozinho, mas não o foi. Vamos lá, comece a apertar esses botões, e tome cuidado para não apertar o que não deve.

    Há a opção de buscar manualmente os canais, mas é dor de cabeça, melhor deixar esse trabalho para o aparelho; pode demorar bastante. Não, ele não vai buscar os canais à medida em que apertares os botões para trocar de emissora, tudo tem que ser feito AGORA! Depois tu mudas de canais manualmente.

    Tudo pronto? Se tudo deu certo, talvez possas começar a assistir a algo, mas pode ser que o televisor não tenha reconhecido de imediato o receptor de tevê por assinatura. Então vamos lá, ao controle remoto do televisor. Em algum lugar nesse pandemônio de botões, há um com algo que lembre uma entrada ou indique a ponta do cabo com que os dois aparelhos deveriam estar se comunicando; aperte-o. Use o cursor vertical para selecionar os cabos do receptor e aguarde.

    Enquanto isso, vá lá fora ver o mundo, ver pessoas, lamentar as modas novas, ver os carros novos e chorar de saudades dos antigos, enfim, deixe a tranqueira cibernética trabalhar.

    Ok, serviço terminado, agora é hora de... configurar a internet. Que foi? Pensaste que seria assim fácil, como um computador? A tevê inteligente é burra! Ela tem tudo programado em sua placa mãe, mas precisa ser ensinada assim mesmo, e o risco de esquecer tudo depois é grande! É a modernidade, cara-pálida, eu lamento. Essa coisa é sua só no discurso do fabricante.

    Vamos lá, deixe de preguiça e exercite esses dedos! Tente descobrir que jargões o fabricante colocou naqueles comandos, porque cada um tem o seu próprio. Tente identificar a rua rede de wifi, espere que o aparelho a identifique e forneça a senha ao mesmo sistema que está transmitindo tudo para sabe-se lá onde aos cuidados de sabe-se lá quem para sabe-se lá o quê. Feito isso, se não tiveres cometido NENHUM ERRO, mas nenhum mesmo, então é hora de aprender a usar aquele controle estúrdio como usaria o mouse ou a tela de toque de um computador; só que infinitamente mais complicado e propenso a fazer besteiras.

    Aprendido a contento, treine um pouco para fazer o mínimo possível de besteiras, porque esse aparelho burro não vai perdoar nenhuma. Haverá casos em que tu não terás feito absolutamente nada de errado, nada mesmo! Ainda assim a tranqueira vai se esquecer de tudo o que foi configurado e terás que refazer ABSOLUTAMENTE TUDO DE NOVO. Pode ser uma queda prolongada de energia, uma pane na emissora ou no provedor de canais, enfim, vais ter que trabalhar para o fabricante, porque nenhum dos gênios que chama essa burrice de televisor esperto levou em consideração que um leigo que só quer ver televisão, teria que lidar com aquela burocracia estúpida.

    Só mais um detalhe, tome muito cuidado para não violar os termos de garantia e a propriedade intelectual do fabricante, algo que tu podes fazer sem ter a mínima idéia de que o está fazendo. Porque se isso acontecer, não só perdes a garantia como o fabricante te processa.

    Televisor das antigas;

    Instale a antena, ligue o televisor na tomada, aperte o botão de ligar, escolha seu canal e se divirta. Se for o caso, dá para adaptar um conversor digital, qualquer bom técnico pode fazer isso. A televisão é sua.

01/12/2018

Dead Train, o meu livro



   Caríssimos, não é segredo para vós que tenho uma veia literária minimamente apreciável. Sabem também que no tempo em que os blogs eram mais importantes do que as redes sociais, mesmo sento este um de pequena visibilidade, amealhei desafetos simplesmente por me opor aos dogmas que eles chamam de "intelectualidade"; tanto os de direita quanto os de esquerda e os que se dizem centro, mas nada têm de centrados.

    Para eles eu represento uma ameaça que o ocaso da era dos blogs parece-lhes ter calado em definitivo. Tolinhos! Desde 2006 eu nutro a intenção de colocar em páginas de papel aquilo que eu acredito, não da forma enfadonha e arrogante com que fazem os que se consideram a salvação incompreendida da humanidade, ele todos eles odeiam. Pretendo fazê-lo de forma lúdica e aprazível, sem mais terrores do que os necessários, deixando claro que o ocidente é sim um bom lugar para se viver e, vou além, é habitado por pessoas boas que demonstram em alienação e rudeza o medo que têm de errar; autocrítica que praticamente não existe do outro lado do mundo, e em nenhum lugar com tamanha monta quanto há no nosso continente.

    Bem, a trama terminada em 2017 gira em torno de seis amigos, uma delas brasileira, que despertam na fictícia e moribunda cidade de Sunshadow, Michigan, seus talentos musicais e a decisão de ganhar a vida cantando. Patrícia, Enzo, Ronald, Rebeca, Robert e Renata se conhecem nos anos 1940 e 1950, iniciando na década seguinte o que será a maior e mais importante banda da história.

    Incidentes graves, atentados contra suas vidas, assédio da imprensa e arremedos, teorias conspiratórias, lendas urbanas, viradas de mesa e o imenso peso que repousa e cresce gradativamente sobre os ombros do sol de todos eles: Patrícia. Dona de uma beleza rara e intensa,  uma capacidade de liderança ainda mais rara e inata, e uma personalidade tão complexa quanto (às vezes) difícil de lidar, ela herda de sua saudosa avó a devoção e o respeito dos sunshadowers, seus concidadãos.

    Sua imensa beleza lhe traz alguns dissabores que a acompanham pelo resto de sua vida, esta dedicada a proteger seus entes e amigos. Seu imenso amor pelas crianças por vezes torna seu coração duro e frio como granito, ao se deparar com pedófilos e infanticidas. Seu envolvimento com o mundo das conspirações internacionais a torna admirada e odiada por pessoas que sabem que não podem simplesmente tocar nela, sem caírem fulminadas. Como os muitos clichês que uso com parcimônia, tal qual um receituário de manipulação medicinal, me valho da beleza escancaradamente ocidental e a mente afiada de nossa protagonista para dar ao leitor uma idéia com acento do que realmente é o mundo em que vive.

    Não poupo os Estados Unidos da América, assim como não pouco a República Federativa do Brasil, eu não poupo ninguém, nem a mim mesmo; tampouco chamo de republifederenses os que chamam os americanos de estadunidenses. Entretanto, não me fixo nos podres de países que não fizeram a desgraça da humanidade sozinhos. Ninguém que tenha tido a oportunidade deixou de fazer mal a outros povos, e muitos ainda o fazem igual ou pior do que a civilização euroamericana, à qual todos os dedos acusatórios apontam.

    Paralelamente, mostro os perigos ao mundo que a conveniência e o apego ao conforto, mesmo o conforto intelectual, têm nutrido nas últimas décadas. meus queridos, não é porque os antepassados de uma sociedade tenham sido perversos, que os descendentes também o sejam, e um passado de sujeição à opressão não torna uma sociedade boazinha. O oriente não é e nunca foi o paraíso, assim como o ocidente não receberia tantos imigrantes se fosse o portal de satanás que muita gente alardeia ser. Mostro no livro que nós, ocidentais, somos apenas humanos como são os orientais, que superestimam por sabotagem interna consciente ou não o poder alheio, por propaganda vinda de lugares onde a autocrítica e a emissão de uma opinião podem dar pena capital.

    Há choro, há luto, há risos e celebrações, há culturas que precisei criar do zero para ser o mais didático possível. Tudo isso em um universo entrelaçado com cuidado à história do mundo real, a ponto de os poucos betas que me deram retorno terem perguntado onde fica Sunshadow; fica no meu coração.

    Para facilitar a digestão da história, me permiti o uso de um pouco de literatura fantástica, para ilustrar em parábolas e mensagens subliminares o que tenho a dizer. Não houve abuso, me policiei muito para isso, mas expus tudo de forma mais clara do que a verdade nua e simples conseguiria.

    Utilizo o blog Talicoisa, que estava praticamente esquecido pelos meus antigos colaboradores, e desde de que comecei essa encrenca voltou a ter alguns acessos, mas acredito que possa ter mais. Acredito que este método de divulgação pode tornar menos difícil a concretização, em celulose, do primeiro passo dos meus planos gerais de dominação mundial. Se começarem a desconfiar de coisas demais, não se preocupem, apenas guardem segredo... para o bem de vocês.

    Sem mais, espero que gostem das mais de 900 páginas que publico aos poucos e com cortes, para preservar as surpresas, facilitar a leitura on line e preservar meus mais de dois anos de trabalho exaustivo. Peço paciência, só agora tive o lampejo de mostrar aqui o que já tem 106 capítulos publicados.

    Cliquem no link, leiam, comentem, opinem e dêem retorno com circunflexo. A viagem começa aqui.

17/11/2018

O motorista a 80

Experição ZE Rádio Cultura

    Nesta semana um colega veio me dizer, após uma conversa banal, que só Deus agrada todo mundo, no que soltei "menos os ateus". Eu esperava que tudo terminasse por aqui, mas ele ficou realmente transtornado. Disse mais de uma vez (bem mais, diga-se de passagem) que deve ser muito triste a vida e quem não acredita em nada, que seria uma vida vazia e sem sentido; como se o índice de suicídios entre os teístas fosse zero.

    Vamos a alguns factos. Algumas das melhores pessoas que conheço são ateias ou agnósticas, o que para muita gente é a mesma coisa, mas não é. Essas pessoas lêem muito, pesquisam muito, esmiúçam todas as vertentes possíveis do que estão investigando, conhecem as principais religiões melhor do que muitos de seus sacerdotes. Não que sejam imunes a algum dia abraçarem alguma fé, assim como é bem comum fieis antigos deixarem de ver sentido no que fazem e não passarem a enxergar nada mais do que palavras escritas por homens, onde antes viam a palavra divina.

    Não confundir ateus e agnósticos com aquela turminha de que já falei: os chateus, teofóbicos e misoteístas, estes merecem um pé nos fundilhos e um bloqueio em qualquer rede social e antissocial.

    Voltando aos que valem à pena, os ateus e agnósticos não acreditam simplesmente porque não foram convencidos. Ninguém acredita no que não convence! Acreditar porque "assim está escrito" é fanatismo, é dogma. Ateus são cientistas inatos e habilidosos, não se dão o direito de portar uma verdade absoluta. Ainda que uma ideia não possa ser comprovada de imediato ou a curto prazo, eles ainda aceitam uma explicação convincente e minimamente respeitosa com a lógica. Não a TUA lógica pessoal e doutrinada, mas A LÓGICA, aquilo que quase sempre pode ser expresso em equações e não faz troça com as leis da física.

    Posto que a ideia de uma divindade não os convence, portanto não tem sua adesão, para eles simplesmente não existe. Simples assim.

    Não existe, então não faz falta. Não faz falta, então a ausência não implica em tristeza. Eles não são tristes por não acreditarem no que vocês acreditam, ou por acreditar no que vocês não acreditam. e quando acreditam, não é por fé, é por comprovação ou, no mínimo, por coerência com o mundo real.

    Imagine que um motorista viaje a 80km/h em uma boa estrada. Não há sinalização, não há guardas de trânsito informando, não há nem mesmo indicação no mapa. Ele para em um posto e aproveita para comer. No restaurante, enquanto come, ouve gente falando com espanto de um carro cuja descrição corresponde ao seu. Todos criticam, mas cada um por seus próprios motivos. Alguns dizem que ele estava rápido demais, que nem dava para ver a placa e que causaria um acidente. Outros diziam que ele estava atrapalhando o trânsito por andar devagar, que causaria um acidente e morreria de velho antes de chegar ao seu destino.

    Curioso e atento, como todo motorista que se preze, ele prestou atenção ao que estavam falando. Os que criticavam sua rapidez estavam parados ou de bicicleta. Ele passou por alguns pedestres e ciclistas, mas estava longe deles, às vezes as bicicletas estavam na pista secundária ao lado da estrada, livres de qualquer risco. Concluiu então que as queixas destes não faziam sentido, não para aquela situação.

    Os que criticavam sua lentidão eram os que passaram zunindo por ele. Motorista habilidoso e consciente que é, sempre se mantém à direita até ser necessário ultrapassar. E o movimento da estrada era pequeno, houve poucas ultrapassagens ao seu carro, destas, nenhuma se deu com mudança de faixa, ou seja, os apressados estavam sempre na pista da esquerda. Não precisou sequer tencionar o braço esquerdo para dar passagem. Concluiu então que essas queixas, para aquela situação, também não faziam sentido.

    Ele não tinha pressa, a estrada não estava ruim, seu carro estava em óptimas condições e ele simplesmente não põe álcool na boca quando dirige. Viu o relógio, ainda tinha tempo de sobra, chegaria antes do pôr do sol. Continuou a comer, depois pagou a conta e foi embora. Nenhum dos queixosos disse algo que invalidasse sua decisão e seu modo de dirigir.

    Chegar antes não lhe daria ganho e se atrasar seria perder o pôr do sol que queria registrar, durante sua estadia.

    Haveria um modo de dirigir? Provavelmente sim, com toda certeza ele poderia conseguir algo melhor, mas o método e os motivos para tanto não lhe foram apresentados. Simplesmente bradavam "O meu modo é que é o certo" e "motorista de verdade dirige como eu".

    Assim funciona, a grosso modo, a mente de um ateu, ou um agnóstico. Dizer que ele é triste por não ter um deus é como dizer que uma andorinha sente falta de um sofá. As pernas da andorinha não foram feitas para ela se sentar e seu traseiro não foi feito para suportar seu peso, uma superfície acolchoada não lhe faz a menor diferença. Seus ovos precisam de algo que absorva o impacto, mas é só. Elas não ficam tristes por repousarem em um galho rígido, aquilo supre suas necessidades de descanso e talvez até de pernoite.

    Meus caros, não é o ateu que fica triste por não ter fé, a vossa fé fraca é que necessita da adesão alheia. Não confundam as coisas.