25/04/2015

Tem que existir!

  Estou à procura de um país bonzinho. Uma nação que em toda a sua história, jamais tenha agredido seus vizinhos, jamais tenha explorado seu povo e jamais tenha facilitado a corrupção de sua elite. Um país que historicamente seja limpo, brilhante, puro, virginal, moreno alto, bonito e sensual, talvez seja a solução do seu problema...

  Estou à procura de um povo que historicamente só tenha feito o bem. Um gentílico que mesmo em seu período imperial, se tiver havido, tenha se aproximado com diplomacia de suas colônias e conseguido adesão voluntária de todas, inclusive com negociação amigável de impostos e divisão de poderes, deixando a administração geral a cargo dos nativos, mas com um diplomata servido por um pequeno contingente de sábios e soldados, para resolver problemas em conjunto com os nativos, e reportar imediatamente à metrópole qualquer alteração.

  Estou à procura de um país que jamais tenha declarado guerra a ninguém, que só tenha entrado em alguma como resposta a uma agressão, ou em amparo a uma nação amiga, ainda assim sem exceder um Newton sequer a força necessária. E findado o conflito, ainda tenha oferecido ajuda ao país derrotado, para que se recuperasse dos bombardeios e conseguisse novos e menos indignos líderes.

  Estou à procura de um país que sempre tenha priorizado as pessoas, em vez dos egos. Que tenha espalhado infraestrutura decente por todo o seu território, dado a todos oportunidades para se desenvolverem e se manterem com dignidade, sem precisarem pedir ajuda ao Estado para sobreviverem. Que tenha se pautado pelo uso de um só peso e uma só medida em todas as circunstâncias.

  Estou à procura de um povo pacífico e gentil, que tendo acesso à abundância, não tenha se tornado consumista. Um povo cujos ricos não se separem dos pobres senão por capacidade de consumo, e estes tenham todos eles teto, refeições, serviços básicos e lazer decentes, e seus filhos a perspectiva de que podem ser mais e melhores, se assim quiserem.

  Estou à procura de uma nação cujos universitários não hesitem em investigar sua história, por saberem que só encontrarão actos necessários e pautados pela justiça. E estes não se rendam a radicalismos de ideologia alguma, porque sabem que qualquer radicalismo leva à tirania, e eles teriam aversão a qualquer tirano, ainda que seus discursos soem simpáticos.

  Estou à procura de um país que seja grandioso de dentro para fora, do qual qualquer cidadão se sinta uma autoridade e possa falar pelo seu país, seja às câmeras internacionais, seja em viagens ao exterior, ou mesmo com dignidade régia em redes sociais da internet. Porque desde os seus primórdios, esse país teria ensinado ao seu cidadão que ele é um cidadão e portanto responsável pela imagem de seu povo.

  Estou à procura de um país que tenha se desenvolvido muito, mas com o mínimo possível de impacto ambiental, e que hoje ele seja quase nulo, porque esse país sempre se esforçou em fazer as coisas certas, aprendendo rápido com seus erros e evoluindo a passos largos ao longo de sua história, sendo hoje um exportador de clima equilibrado, água limpa e ar puro.

  Estou à procura de um território que todas as nações, religiões, ideologias e intenção do mundo admirem e respeitem, porque sempre abrigou uma nação de povo moralmente liso e humanamente acolhedor, tendo assim formado um país que jamais teve uma vogal sequer para qualquer outro apontar seu dedo acusador.

  Estou à procura de um país que sempre tenha sido a parte inocente em todos os conflitos, que em todos eles tenha se esforçado em abreviar a contenda e deixar o mínimo possível de vítimas do outro lado, a ponto de hoje todas as nações e seus povos se lembrarem dessa nobre postura com admiração, e alguns até com remorsos, porque ficou provado que é um país bom, mesmo antes de se reconhecer como um país.

  Estou à procura de um país cujas decisões sejam quase sempre, senão sempre, certas. Que tenha uma sociedade que durma de portas e janelas abertas no verão, que não tenha gente ao relento no inverno, que me faça acreditar que todas as mazelas dos séculos XVIII e XIX eram perfeita e facilmente evitáveis, apenas querendo! Que os utopistas tinham alguma razão, que é possível viver com custo zero, que as grandes empresas sempre acertam, que os políticos podem ser bonzinhos, que se nós não tivermos armas ninguém vai nos agredir.

  Estou à procura de um país que jamais tenha conhecido uma onda de emigração,  desde os seus mais rudimentares primórdios até hoje. Mas que registre todos os dias uma legião de interessados em fixar residência. E mesmo com essa forte procura imigratória, seus serviços públicos jamais tenham conhecido uma baixa crítica de padrão, em momento algum, nem mesmo nos sonhos mais alucinados dos críticos.

  Com tanto intelectual repleto de diplomas, títulos e bajuladores nas academias, xingando certos países não importa o que eles façam ou deixem de fazer, é porque esse país existe! Tem que existir! Afinal, "intelectual" sempre tem razão, suas teorias sempre abrangem, prevêem e previnem tudo!

  Tem que existir!

02/04/2015

Para não ter preguiça de ler



Só a manchete:

            Patrão irritado atropela e mata funcionário dentro da empresa. O empresário deixou o corpo no local e foi jantar em casa. O caso está sendo investigado pelo 171DP. Ele tinha três filhos e a esposa espera pelo quarto.

Só a nota de um jornal popular:

Patrão irritado atropela e mata funcionário que se colocou no caminho de seu suv de luxo. O homem foi socorrido no local, mas não resistiu e morreu antes de a ambulância chegar. A polícia militar esteve no local e encaminhou o caso para o 171DP, que atende a região. O empresário foi interrogado no local, com outros funcionários, e se comprometeu a prestar esclarecimentos, depois foi para casa descansar.

A vítima tinha três filhos e a esposa, desesperada, aguarda pelo quarto.

Notícia em um jornal grande:

            No fim da tarde de ontem, Honório Notório atropelou e matou o mecânico Manoel Beleléu, no estacionamento interno de sua empresa. O empresário alegou que o funcionário estava em um ponto cego e não pôde evitar o atropelamento, mas que parou sua Grand Cherokee assim que sentiu o baque. Funcionários disseram à polícia militar, que o colega gritou, mas o patrão só parou quando o atingiu.

            Após esclarecimentos à equipe de socorro e aos técnicos do 171DP, que atende a região, o empresário visivelmente irritado foi liberado, com o compromisso de comparecer à delegacia, para prestar maiores esclarecimentos. O advogado do empresário disse que não dará declarações até estar ciente do acontecimento.

            Uma funcionária afirmou que os dois discutiam há muito tempo, sobre o modo como os serviços eram feitos, e que se desentenderam mais de uma vez. Às vezes os dois saíam para lados opostos e ficavam dias sem se falar.

            Manoel Beleléu era pai de três meninas, sua esposa Maria Fofucha Beleléu está no sétimo mês de gestação da quarta. A viúva não quis dar declarações, estava visivelmente incapacitada de falar a respeito, motivo pelo que a psicóloga da Polícia Civil Irene La Cerda Dura a dispensou e pediu à reportagem que não fosse incomodada.

Notícia completa:

            O Sargento Garcia González e o Cabo Sancho Pança, da Polícia Militar, atenderam a um chamado e rumaram para a loja de carros da Praça da Carroça. No local, encontraram o empresário Honório Notório acolhido pelos funcionários, em prantos, enquanto o chefe de mecânica Manoel Beleléu agonizava, enquanto esperavam pela chegada da ambulância, que estava presa no trânsito. A polícia civil chegou pouco depois da viatura militar e já começou a fazer o trabalho de perícia, para determinar os acontecimentos antes de a imprensa começar a especular e distorcer os factos.

            A ambulância precisou de uma hora para se desvencilhar do trânsito e chegou ao local com a vítima dando seus últimos suspiros. Apesar de todos os esforços dos paramédicos, Manoel não resistiu e faleceu antes de ser embarcado para o pronto-socorro.

            Segundo relatos e apuração da polícia, o empresário estava furioso com fornecedores e tinha se decidido a contractar empresas estrangeiras, mas recebeu um telephonema, entrou apressado em seu carro e o funcionário teria ido logo atrás, gritando por ele, mas o nível de ruído da oficina impediu que fosse ouvido. Honório engatou a ré e lançou Manoel contra uma coluna de concreto, causando o traumatismo craniano que o matou. O motorista desceu para ver o que acontecera e se desesperou ao ver o homem ensangüentado no chão.

            Manoel e Honório eram amigos de infância, nasceram e foram criados no mesmo condomínio, mas Honório conseguiu progredir mais na vida e acabou se tornando patrão do amigo de infância. Os dois discutiam há muito tempo um modo de diferenciar a empresa dos concorrentes, e o nível de ruído era um dos pontos principais, mas o nível da prestação de serviços que encontraram no Brasil os deixava mais desapontados e irritados a cada reunião. Chegavam a ficar dias sem se falar, para não tocarem no assunto e voltarem ao projecto com a cabeça fria.

            Na manhã em questão, Honório tinha recebido uma notícia grave da família e Manoel, sem saber, tinha encontrado uma solução e foi contar ao amigo, ficando em área proibida para pedestres sem perceber, quando aconteceu a tragédia. A psicóloga da polícia civil conseguiu acalmar o empresário e aconselhou-o a contar ele mesmo a notícia para a esposa, também amiga de infância do falecido, e para a comadre Maria Fofucha Beleléu. As três filhas do casal, uma de sete, uma de nove e uma de doze anos, tiveram a alegria pela gestação avançada da mãe interrompida pela notícia trágica.

            A companhia de seguros e os advogados da empresa e da viúva, asseguraram que as providências para socorro à família estão em andamento, e que o salário de Manoel será depositado integralmente na conta conjunta. A casa onde Manoel morava, construída pelo casal, estava repleta de amigos e familiares e eles pediram que a imprensa respeitasse a dor da família. O advogado do empresário está em Buenos Aires e se recusou a se pronunciar, até ter ciência de todo o acontecimento, só afirmou que estava saindo de um funeral para outro.

            Os mecânicos da oficina da loja, em particular, disseram que os carros de hoje têm muitos pontos cegos, alguns capazes de ocultar um caminhão. Isso teoricamente os tornaria mais seguros em caso de capotamento, mas impede a visão eficiente do motorista e, às vezes, nem mesmo câmeras de ré conseguem compensar o bloqueio de visão, além de que o motorista nem sempre consegue monitorar três retrovisores e mais monitores de vídeo ao mesmo tempo, especialmente com o veículo em marcha.

            O fabricante do veículo afirmou que apenas segue as legislações de segurança dos Estados Unidos, onde a Grand Cherokee foi fabricada, mas que está com pesquisas em marcha para utilização de novos materiais que permitirão colunas mais finas, e sistemas electrônicos de segurança para evitar mais acidentes como este. Afirmou ainda que entrará em contacto com a polícia brasileira para obter detalhes do caso, para orientar seus engenheiros.

Comentários da matéria:
            O grupo jornalístico pede desculpas aos leitores, mas o teor de agressividade, baixo calão e de ameaças à integridade e à vida, nos obrigou a deletar os mais de cem mil comentários já feitos, e bloquear a opção nesta matéria.

21/03/2015

Herrar é um mano da Cohab

Cohab José Bonifácio, em Itaquera, ano 2003

  Herrar é um mano da Cohab. A vida de Herrar nunca foi fácil, se fosse difícil, estaria bom, mas varia do terrível para o desespero, mesmo assim ele resiste como um guerreiro. Não que não queira parar, mas não tem escolha, só lhe resta enfrentar a vida tirana, Herrar.

  Nasceu de mãe solteira, tinha apenas quinze anos quando o trouxe à luz, no meio de um apagão, bem debaixo da cruz da Santa Casa, bem ao lado de um velho que acabava de morrer. Não que Herrar quisesse nascer, mas para ele querer precisaria crescer e aprender, saber até onde iria sua liberdade, sua obrigação e a boçalidade de um país que sempre diz não, a quem quer viver honestamente e com dignidade.

  Herrar era seu nome desde que o avô, no cartório a lamentar dizia "Eu sempre tentei ensinar Ladisleyde a ser gente, mas em vez de aprender ela só fez errar! Erra! Errar! Errar!". O tabelião mamado, que voltava da farra sem nem ter passado em casa, só perguntou o sobrenome e assim ficou: Herrar da Silva Caio Rolando da Rocha.

  E Herrar rolou, logo ainda bebê, num alagamento em Higienópolis, Ladisleyde nadou desesperada atrás do rebento. O pequeno sacana foi encontrado rindo da desgraça, dentro de uma Kombi 73 abandonada, que depois da perda do barraco, tornou-se o lar de Ladisleyde e Herrar.

  Herrar cresceu sem nenhum conforto, com poucos amigos e uma cicatriz no rosto. Apanhou de bandido, apanhou de polícia, foi salvo pela polícia, e por isso de novo apanhou de bandido. Até que um dia conseguiu, um motor de roda gigante e algumas baterias. Então Ladisleyde e Herrar se mudaram para outro lugar, para perto da Cohab até acabar a carga e a Kombi parar.

  Lalisleyde conseguiu subemprego, agora era diarista, conseguiu mandar Herrar para a escola, nunca mais precisaria pedir esmola. Foi um tempo difícil, de muito trabalho e muita correria, mas muito melhor do que ser desabrigado e pensar, se durante o sono uma bala perdida os mataria.

  Herrar, que sempre sorriu, um dia chorou sangue, viu sua mãe vertendo sangue pela barriga, uma faca na mão do namorado ciumento que pensou que fosse lésbica, e o traía com a amiga. Uma semana agonizando e Ladisleyde morreu, sem um parente para velar, para consolar seu precioso Herrar.

  Pobre Herrar, pobre guerreiro, sempre foi filho e companheiro, agora estava só, na sua kombi. Parou de estudar, antes de terminar o segundo grau, não tinha cabeça para pensar, quanto mais memorizar lições tão abstratas, que não aplicava em sua vida, que de difícil se tornou o próprio umbral.

  Stallone disse uma vez, que ninguém bate mais forte do que a vida, Herrar estava cheio de hematomas, fraturas e no coração uma enorme ferida. passou mais de um ano se achando um vira-lata, comendo pão amanhecido com ovo, quase sem gastar o que ganhava, sem vontade de viver, nem a morte conseguiu querer.

  A vida não precisava ser moleza, facilidade era coisa que Herrar não conhecia, não precisava dela e às vezes nem queria, mas se considerou desrespeitado e traído. Não tinha que ser fácil, mas tampouco perversa. Herrar afundava a cada dia em sua amargura e solidão, mesmo à beira da festa.

  A vida, como que um mea-culpa, fez a Kombi de Herrar parar em uma blitz. Era toda irregular e foi recolhida para o pátio da prefeitura, onde tecnocratas a deixarão apodrecer, sem se importar se alguém vai ficar sem ganha-pão, ou mesmo ao relento abanando mão.

  Um policial encaminhou Herrar a um albergue, onde poderia pensar na vida, no que fazer doravante. Uma voluntária o reconheceu pela cicatriz, sem saber que por dentro ela ainda sangrava. Herrar, desnorteado começou a contar e ela se apresentou "Sou a Verinha, filha do Hiroshi do pastel, da feira" e ele se lembrou.

  Felicidade! Herrar voltava a sorrir! Voltou à Cohab e deu entrada em um apartamento, onde um ano depois foi morar com Verinha, casados de papel passado para o orgulho de Seu Hiroshi. A vida continuava difícil, mas Herrar agora estava feliz, voltou a estudar, arrematou sua Kombi de volta, montou em cima de um chassi e ela voltou a rodar com a gambiarra de motor e baterias.

  Ontem Herrar voltou das férias em Santos, só alegria, muita farofa, chorinho e selfie na praia. Verinha esperou ele se acalmar da empolgação e avisou, dentro de oito meses vai ter gente nova no apê, o primeiro bacuri está chegando. Herrar ficou feliz, não pôde se agüentar, correu sete milhas, pegou trem para voltar. A vida era dura como sempre foi, mas agora podia zombar dela.

15/03/2015

Um punk domou o sistema



  Era um garoto revoltado como outro qualquer. Queria o fim dos governos, o fim das empresas, o fim das instituições e em alguns casos o fim d humanidade. Acreditava que absolutamente nada tinha jeito, que tudo estava perdido; ninguém presta, ninguém vale nada, todo homem é gay, toda mulher é safada. Assim ele e seus amigos vararam praticamente uma década, se recusando a mudar o que queriam que fosse mudado, porque acreditavam que não haveria mudanças e, mesmo que houvesse, rapidamente o mundo voltaria a se corromper.

  Mas quanto mais se estica o elástico, mais rápido a pedra é atirada. Muitos dos que protestavam contra "tudo isso que aí está", são hoje os que mais querem que assim permaneça. Alguns nem tanto, aliviam a tensão quando percebem que as coisas não são exactamente como acreditavam, por vezes nem de longe se parecem. Aos poucos as turmas foram se desfazendo, embora contactos e alguns teimosos persistissem na senda de vagar em busca do apocalipse perdido.

  Um em especial mudou, mas não como pensavam seus próximos. Estudou, arranjou emprego, até constituiu família, parecia ter se rendido ao sistema. Só parecia. Por dentro ele continuava a querer colocar os sacanas de quatro e fazer com eles, o que faziam com gente inocente que não pode se defender. Mesmo de terno e gravata, o punk vivia e respirava com a facilidade de sempre. Só esperava pela oportunidade para dar o bote, e oportunidade era a especialidade do homem de negócios que então o vestia.

  Claro, os antigos amigos começaram a se afastar, alguns o consideraram um traidor, até ameaças de morte ele recebeu dos mais radicais, aqueles que esticaram tanto o elástico, que ele se soltou e deu-lhes na têmpora. Mas ele acreditava que quando os resultados aparecessem, quando vissem que tudo era só uma estratégia friamente maquinada pelo punk, todos entenderiam e talvez até seguissem seus exemplos. Punk esperançoso é como mulher apaixonada, que não enxerga o canalha com quem dorme.

  Um dia ele chegou lá. Tinha a confiança dos acionistas, era amigo e camarada dos colegas, sua capacidade técnica era indubitável, então foi só questão de persistência, coisa que os punks têm de sobra. Seriam excelentes feiticeiros. Ele percebeu no decorrer da jornada, que o capitalismo é um jogo de regras claras, mas um jogo, por isso mesmo atraía tantos trapaceiros e canalhas, mas por ser um jogo poderia ter a mesa virada.

  Quando o poder estava em suas mãos, em vez de se corromper como muitos outros, chutou o pau da barraca do modo mais capitalista possível. Passou a selecionar os fornecedores e prestadores de serviços não só pela relação custo/benefício, mas também pela humanidade com que trabalhavam, e usou isso nas campanhas da empresa, arregimentando a simpatia do consumidor, que no final das contas é o idiota que decide tudo sem perceber coisa nenhuma.

  Lá dentro passou a valorizar as pessoas, pagar melhor, eliminar as distorções de gênero e biotipo, manter na empresa o profissional que ela tinha formado, combateu a alta rotatividade que os panacas corporativos acham tão normal, mas alimenta muito a concorrência desleal e escravocrata dos chineses. Nenhum punk que se preze tolera escravocratas. Um dos resultados foi que a empresa passou com poucos danos pelas últimas crises.

  Estava tudo bem, mas tudo estava mal. Pela primeira vez o punk chorou, e o executivo precisou consolá-lo. Os antigos amigos não queriam saber de domar o sistema, de humanizar o capital, de expurgar os parasitas que deixavam a sociedade tão perversa. Eles queriam é destruir tudo, exterminar a civilização, não aceitavam a hipótese de ela ter conserto, mesmo vendo a prova bem diante de seus olhos.

  Até pensou em desistir de tudo, mas já estava comprometido demais com o sonho do punk, que estava materializado e precisava se alastrar pelo mundo. O punk viu exemplos de gente que antes rejeitava, se aproximar de seus ideais de igualdade e justiça. Viu o arreganha bilionário Bill Gates fazer pela saúde mundial o que a fraude da ONU jamais fez em toda a sua história; hoje ainda menos, influenciada por ditaduras. Um pouco de leitura e soube de gente que quase nunca é lembrada pela sua doação à humanidade; Audrey Hepburn, Grace de Mônaco, Hedy Lamarr e Paul Newman.

  Mais recentemente viu o esquisito Elon Musk abrir as patentes de seu maior sucesso comercial para qualquer um se valer delas. Não que ele não quisesse ser rico, como todos os outros, mas o que fizeram lhe deu a certeza de que não estava sozinho, tinha exemplos de sobra para se inspirar e seguir, mais um monte de patentes excelentes para beneficiar sua empresa e construir o sonho do punk. Na parte que lhe cabia, ele já tinha domado o sistema, e com tanta gente forte fazendo o mesmo, o jogo do capital estaria mesmo com os dias contados. Não para dar lugar a um sistema artificial que só gerou ditaduras sangrentas, o próximo sistema estava em gestação e só seria conhecido quando eclodisse. Nome é o que menos importa, importa que o punk está feliz, e agora ninguém mais o segura.

  Quanto aos ex-amigos... Paciência! Nem todos crescem. Hoje o punk pode cantar e gravar só o que quer, do jeito que quer e onde quer. Ele está pagando!

24/02/2015

Minha vida muito tosca


  Uma das coisas que aprendi em mais de doze anos de Vigilância Sanitária, é que não importa o quanto você saiba pouco, ou mesmo nada de legislação sanitária, o contabilista provavelmente sabe menos. Hoje mesmo foi um a quem precisamos ensinar a diferença entre fiscal de saúde e fiscal ambiental, porque na cabeça dele seriam a mesma coisa. Não que as regras sejam claras e concisas, mas o cidadão leigo costuma compreender melhor e mais rápido que Anvisa e Vigilância Sanitária são intimamente interligadas, mas são órgãos distintos. Mais ou menos como cérebro e intestino, mas os profissionais que deveriam orientar os clientes, confundem... Sim, vocês estão imaginando certo, temos que corrigir muita caca.

  Outra caca que eles costumam fazer, é mandar o coitado do estagiário arrumar algo, mas ensinando TUDO ERRADO! A vítima de hoje foi um jovem senhor de barba cerrada, que chegou à nossa sala com cara de quem não sabia o que estava fazendo lá, ele apresentou um papel e disse que queria "tirar a Anvisa". Ok, vamos por partes. Anvisa não é uma coisa que se tira de um lugar e se coloca em outro; também não é um documento, ninguém anda com uma Anvisa no bolso, nem a pendura na parede com uma moldura cafona; finalmente, também não é leite para o sujeito entrar no prédio de uma vigilância sanitária e pedir que tiremos para ele. Isso lhes parece compreensível? Não para o contador. O rapaz saiu de lá sabendo provavelmente, mais do que todo o restante do escritório.

  Ainda assim não é raro um contador indignado ir tirar satisfações, como se nós tivéssemos ensinado errado, então temos que esfregar toda a legislação na cara de pau dele. Isso quando não faz ameaças veladas, dizendo que joga futebol com os vereadores...

  A não mais do que meia hora para meu turno findar, liga uma cidadã. Eu logo identifico a autarquia, e mesmo assim ela pergunta se é da Vigilância Sanitária. Depois começa com "Deixa eu perguntar" e cinta toda a história da humanidade, para só então dizer que pagou uma guia COM ATRASO no Bradesco ainda no ano passado, e o pagamento ainda não caiu no sistema... Queria saber o que poderia ser feito... Pedi que fosse falar com o banco mesmo, estava fora na nossa alçada. Provavelmente terá que fazer um boletim de ocorrência...

  Minutos antes de eu ir embora, uma chuvinha fina reveza com o sol inclemente, até acertarem que o céu ficaria nublado e nada mais. Saí, já que não recebo hora extra. Fui serelepe e tranqüilo ladeira acima, até estar longe demais para voltar, mas ainda longe demais do ponto de ônibus, quando pingos grossos começam a cair. abro o guarda-chuva, e o toró cai de uma vez. Sem ter para onde correr, e ciente de que o ônibus não me esperaria se eu demorasse, segui, ensopado do joelho para baixo, atravessando enxurradas e tentando não ser ensopado do joelho para cima, pelos carros.

  A cada esquina o aguaceiro aumentava, com o vento ajudando a melhorar o quadro. A poucos metros do abrigo, um rapaz em um Porsche Boxter preto de capota vermelha (claro que estava fechada, Pedro Bó!) olhou para mim com alguma piedade, então o trânsito começou a fluir e ele foi junto, com civilidade suficiente para não dar banho de lama nos passantes, com o V8 ronronando logo atrás de si.

  E por falar em lama, ela formou praticamente um lago, por causa da obra faraônica e desnecessária na Praça Cívica, de onde escorria fartamente a correnteza suja, que logo adiante sobrepujava o passeio central, onde fica o abrigo do ponto de ônibus. Mesmo já sob o abrigo, mantive o guarda-chuva aberto por dois motivos; primeiro porque os ônibus e os outros carros não tinham a mesma civilidade daquele rapaz no Porsche e jogavam água com vontade no público, não preciso dizer que havia gente atrás de mim; segundo porque Paralda, sacana, alimentava o vento com uma paixão avassaladora. Fiquei naquela cena ridícula de mover o guarda-chuva toda hora, dependendo de quem molhava menos, a chuva ou os carros. Àquela altura do campeonato, eu já desistira de ficar seco, estava tentando manter a água do lado de fora do corpo.

  Demorou para o Caio Apache Vip, que virou padrão dos paus-de-arara do transporte público goianiense, vir me tomar R$3,30. Pois foram de quinze a vinte segundos dentro do ônibus para a chuva parar... Lá fora a cena esperada e fatídica, grandes galhos caídos em profusão por praticamente todo o caminho, alguns carros apagados, alguns acidentes, incluindo uma Palio Weekend que encolheu a frente após afundar a traseira de um Logus. Me lembrei de pronto dos Fiat 147 e sua lendária vulnerabilidade a alagamentos. Andando eles até conseguiam atravessar algumas enxurradas, mas se parassem, as ondas cessariam e a água que elas afastam entraria rapidamente na distribuição do motor. E aquele anda-e-para deve ter feio várias vítimas pela cidade. Fora o folgado de um Versailles vermelho, que estacionou na diagonal , quase no meio da avenida, para desembarcar algo ou alguém. Estavam lá, os sacripantas, saracoteando com as portas abertas.

  Quase chegando ao ponto, a chuva recomeçou. Como sei a não elogiar algo que parece ir bem, e a não subestimar a lei de Murphy, o motorista fez o favor de parar no meio da rua, e eu novamente encharquei os pés... E ainda atravessei mais duas até chegar ao portão e entrar. Para quem acha pouco, acrescento o episódio que aconteceu às duas horas da manhã, quando o alarme disparou, demoramos a conseguir desligar o porqueira, e não consegui mais dormir. Descansar agora? Eu? Quem me dera!

17/02/2015

Seus medos?

  Quais são? Seja sincero consigo. Tens certeza? Há uma diferença sensível, mas muito efetiva entre o que acreditamos ter, e o que realmente temos. Com o medo não é diferente, ele recebe muitos eufemismos e muitas justificativas, tanto mais quando menos se quer assumir.

  É mais ou menos como ter em casa um velho caminhão Fargo 1948 e achar que ele vale, mesmo caindo aos pedaços, mais do que um Cargo 2429 zero quilômetro. Ou o contrário, pensar que por causa do estado de conservação, ele não vale nem seu peso como sucata, a distorção de avaliação é a mesma.

  Neste ponto todas pessoas quase sempre falham, não se considere um idiota por isso. Elas não avaliam direito os seus medos e por isso também não sabem avaliar as reais dimensões da ameaça, isso quando realmente há uma ameaça. Não que ameaças não existam realmente, existem e são muitas, mas pelo efeito manada, a reverberação do medo alheio funciona como um amplificador, fazendo um um passo no cascalho parecer uma avalanche; também o contrário, é claro.

  Nos últimos anos as pessoas têm ficado mais neuróticas do que na época da guerra fria, que aquele psicopata do Putin tenta ressuscitar a todo custo. A neurose é alimentada pela mídia, que não faz isso só porque é lucrativo, mas também porque jornalistas geralmente são neuróticos, faz parte da profissão. O problema vem quando a neurose toma conta da vida do cidadão e ele passa a ter medo de tudo, dando a reles marginaizinhos um poder que eles não têm. Eu os enfrentei, sei do que estou falando, não passam de moleques mal acostumados. Mas as pessoas pensam que qualquer um usando apenas calção abajur de quenga e óculos ridículos, é um mensageiro do inferno.

  Há casos de pessoas que têm tanto medo de serem demitidas, que se esse medo não se concretizar depois de anos, elas mesmas se demitem e depois lamentam pelo desemprego. Não necessariamente pedindo demissão, mas se comportando como se a demissão fosse inevitável e comprometendo suas funções, então a chefia não tem escolha. Ou até tem, mas o surgimento de uma vítima mais cômoda pode tê-lo tirado de um dilema.

  Sabem aquelas comédias de paspalhos que terminam o namoro com medo de serem traídos? Eu até riria delas, se fossem só comédias. Algumas pessoas, e num universo de mais de sete bilhões esse "algumas" pode render muitas dezenas de milhões, têm tanto medo reprimido ou camuflado de serem felizes, que cedo ou tarde fazem de tudo para sabotar um relacionamento sadio que está dando certo. São pessoas que só se sentem à vontade em relações doentias, repletas de ciúmes e desconfianças, que desgastam e causam danos perenes. Elas têm medo da felicidade, simplesmente porque têm medo de se acostumarem às nuvens e caírem delas de repente.

  Quem já não desejou passar por cima daquele bocó de mula, que trava o trânsito porque só tem coragem de atravessar quando não houver nenhum carro no horizonte? Não importa que aquela Mobilete com um condutor de duzentos quilos atravesse antes de o carro da transversal alcançar metade do caminho, mesmo que o cidadão em questão esteja em um Maverick 302, ele vai ficar travado ao menor reflexo de um para-brisas a um quilômetro de distância. O medo de arriscar e falhar pode ser maior do que o instinto de sobrevivência. As causas são inúmeras, duas pessoas com o mesmo sintoma podem ter condicionamentos ou traumas completamente diferentes.

  Para justificar seus medos, porque muita gente tem pavor de não sentir medo e ser pega desprevenida, um contingente cada vez maior se apega e dissemina teorias conspiratórias das mais diversas, tão sortidas quanto absurdas. Muitas têm até muito de verdade, mas é uma verdade tão fragmentada e dispersa pela explanação, que mesmo que fosse tudo verdade, uma pessoa culta e com o medo na medida saudável não levaria à sério. Infelizmente o medo de ficar de fora de um grupo tem ceifado bastante do afã literário, as pessoas temem ser esclarecidas porque isso as tornaria diferentes e ser diferente, neste mundo onde é obrigatório aderir a um rótulo idiota, vai contra a sociedade defensora da diversidade... Hello, meu nome é Ironia, a fina.

  Essas teorias conspiratórias modernas, que deixam muito a desejar às clássicas, tratam pessoas ou entidades como deuses. Alertam que o mundo está em perigo, que eles são terríveis, invencíveis, que nada pode detê-los, que sabem de tudo sobre todos e vão colocar suas conversas no whats upp no programa da Ophay. Ai, meu Deus, eles são onipotentes, ninguém é capaz de falar deles, muito menos de denunciá-los, por isso devemos nos unir para dar um basta, mas eles vão destruir o mundo e ninguém pode impedir, por isso temos agir e detê-los... Notaram a contradição? Os disseminadores desse medo mostram entidades humanas como supra divinas, cujo poder é irresistível, e mesmo assim se empenham em denunciar o que eles mesmos afirmam que é inútil denunciar, mas todo mundo tem que saber, nem que seja para borrar as calças a qualquer sombra que aparecer, mesmo a própria.

  Infelizmente pessoas mal intencionadas são hábeis em perceber o pânico potencial, e se aproveitam dele. Fazem as pessoas esquecerem quem sustenta a quem, aproveitam para disseminar factoides entre seus contactos na imprensa, apelando sempre para os temores mais básicos da população, esses factoides ganham força e passam a sobreviver sozinhos, puxando eles mesmos audiência e patrocínio, em um círculo vicioso.

  Sim, é verdade que disseminar versões escrachadas de informações sigilosas, é um bom meio de desacreditar uma denúncia, da mesma forma repetir com cara séria uma mentira é uma boa forma de essa mentira ganhar credibilidade. Principalmente se essa mentira tiver algum fundo de verdade, mais ainda se acompanhar teorias conspiratórias antigas sobre o mesmo tema. Sim, é verdade que a CIA avisou ao anencefálico do Bush sobre as conspirações da Al Qaeda, tão verdade quanto isso foi divulgado e ninguém impediu a divulgação.

  É o mesmo princípio usado no Brasil, onde direita e esquerda acusam a imprensa de ser servil ao outro lado, ambos negando e dizendo que não existe sua ideologia de verdade no país. Fica como uma lenda urbana, que ninguém prova que existe, mas ninguém prova que não existe, assim a dúvida acaba tendo o mesmo efeito do medo nas pessoas, que não sabem a quem se reportar e a quem encher de tapas. Aliás, é alimentando o medo coletivo que eles se mantém no poder, porque o cidadão comum se preocupa demais em se manter vivo, não tem disponibilidade para cortar a verba e começar a dar ordens.

  Os efeitos colaterais desse medo são conhecidos, mas é difícil relacioná-los, porque parecem nada terem a ver um com o outro. As pessoas ficam susceptíveis a vícios, qualquer coisa que propicie um escape da realidade, que não é essa realidade toda que a mídia divulga. O escape pode ser por drogas químicas, drogas televisivas, drogas musicais, pode ser a inversão de papéis, quando o indivíduo passa a flertar com comportamentos agressivos e perigosos, tornando-se então ele um gerador de medo.

  Certo, como resolver esse problema? Com conhecimento. Não simplesmente devorando uma enciclopédia e sair arrotando conteúdo. O maior problema é saber processar esse conteúdo, saber onde, quando, como e até que ponto aplicá-lo. Precisa-se desenvolver o raciocínio crítico, de preferência livrar-se de ideologias. Sei que este ponto pode colocar muita gente de cabelo em pé, mas quem abraça uma ideologia não percebe que está agindo como quem abraça um dogma, tende a vetar tudo o que vem do outro lado e exaltar tudo o que está do seu, sempre criando argumentação para sustentar o que diz.

  Ao analisar uma notícia, esqueça sua opinião e adopte parâmetros. Pergunte-se sempre os porquês de sua conclusão, lembrando-se de que confirmar um temor pode ser um modo de manter-se na zona de conforto; masoquista, mas um conforto. Pergunte-se, por exemplo, como aquela notícia foi veiculada se alegam que o denunciado é tão poderoso, ele teria sido capaz de abafar tudo em tempo, provavelmente o editor não teria permitido a veiculação, porque ele pode fazer isso e faz muito, para garantir patrocínio. Muitas vezes a nossa própria preguiça de ler, e nosso medo de nos decepcionarmos com nossos heróis, nos pregam essa peça.

  O mesmo vale para obras de cunho científico, tudo deve passar pelo crivo do senso crítico, que sem parâmetros não tem onde se apegar para crescer. Como um bougainville, que precisa de um suporte para exibir todo o seu potencial ornamental. Procure saber de onde nasceu aquela idéia, que suporte ela tem, como o autor chegou a ela, o que fez com que chegasse àquele resultado, uma seqüência de "por quê" capaz de fazer muitos intelectuais arraigados se decepcionarem com suas próprias idéias, como aconteceu comigo há cerca de vinte e poucos anos. É desconfortável, mas uma vez instalado o raciocínio lógico, não o pensamento da tua lógica, o medo se recolhe ao seu lugar e para de atrapalhar tanto.

  Queridos, ninguém é invencível, ninguém é onipotente, ninguém é eterno, nem seus medos.

04/02/2015

vie noir

  Eu fui à sala vazia, onde jaz a memória d'outrora, onde a calma e o silêncio da mobília conversam com o televisor de 1977, que nunca mais foi ligado. Só a valsa lúgubre das cortinas à meia-luz da meia-noite se faz movimento, pelos sussurros melancólicos da brisa que chora em mono tom.

  Lá fora as flores sorriem tristes em seu leito sem questionar seu destino, que é servirem de cortesãs e logo murcharem. Imagem cálida do morno gélido de uma noite plácida, mas é uma placidez traiçoeira, vampira, que seduz à inércia para servir-se de quem repousar à sua sombra.

  A rua silente canta a última melodia, com o coro de cães desnorteados em suas casas gradeadas, por conta de uma ave ou um gato, um outro cão, talvez. À amiúde é só silêncio, à amiúde é só lembrança, à amiúde é o vazio cantando e eu o ouviria ainda que tivesse surdez absoluta.

  O velho toca discos de 1962 ainda repousa com o David Castle ainda na agulha, com sua capa ainda vazia ao lado do aparelho, todos inertes desde então, desde quando, desde enquanto, fundindo-se em uma só e triste imagem da alegria sepulcra onde a perda encontrou acalanto perpétuo.

  Ainda tenho na mente a última festa, a última dança, a última palavra, a última olhada, a última lavanda que exalava de sua roupa. Ainda tenho em casa as roupas do baile, as veria ainda que contraísse cegueira absoluta, me lembraria delas ainda que delas me esquecesse para sempre.

  Está tudo quieto, está tudo silente, está tudo como sempre esteve desde então, desde quando, desde tanto tempo, desde que terminou, desde que nem me lembro mais. O choque me imprimiu uma loucura que não é outra além da lucidez insana em que se apoia o que me resta de razão.

  As photos no aparador ainda contam suas histórias, ainda cobram por sua narração, ainda vivem o que mostram, ainda existem quando foram batidas. Todas em branco e preto, todas cheias de cor, as veria ainda que a escuridão completa se deitasse sobre a sala, tão densa que afundaria no sofá.

  Eu sei que acabou, eu sei que não há mais, eu sei que nunca mais, mas sei também que o fim é eterno como é sua companhia. O tempo que houve se estende em lapso com o tempo que ainda corre e escorre por entre os dedos, como escorreu, correu, afastou-se até sumir no horizonte que ainda zomba de mim.

  Ainda que tudo passe, ainda que eu me afaste, ainda que me achasse, ainda que finde a fase, ainda assim tudo continuará como está, como esteve desde quando, desde então, desde muito tempo até agora, até amanhã, até sempre, até nunca mais, até tudo se dissolver em si e mergulhar em seu próprio vazio.

  Acabou, eu sei. Acabou. Deveria ter saído, mas já estava de fora, já estava longe, já estava onde a vista não alcança mais. Mas a presença ainda estava lá, ainda está lá, ainda estará lá mesmo quando a ausência chegar e se somar, em vez de substituir, à sua sina de grumete da solidão.

  Acabou, tudo acabou... Inclusive eu.