04/02/2015

vie noir

  Eu fui à sala vazia, onde jaz a memória d'outrora, onde a calma e o silêncio da mobília conversam com o televisor de 1977, que nunca mais foi ligado. Só a valsa lúgubre das cortinas à meia-luz da meia-noite se faz movimento, pelos sussurros melancólicos da brisa que chora em mono tom.

  Lá fora as flores sorriem tristes em seu leito sem questionar seu destino, que é servirem de cortesãs e logo murcharem. Imagem cálida do morno gélido de uma noite plácida, mas é uma placidez traiçoeira, vampira, que seduz à inércia para servir-se de quem repousar à sua sombra.

  A rua silente canta a última melodia, com o coro de cães desnorteados em suas casas gradeadas, por conta de uma ave ou um gato, um outro cão, talvez. À amiúde é só silêncio, à amiúde é só lembrança, à amiúde é o vazio cantando e eu o ouviria ainda que tivesse surdez absoluta.

  O velho toca discos de 1962 ainda repousa com o David Castle ainda na agulha, com sua capa ainda vazia ao lado do aparelho, todos inertes desde então, desde quando, desde enquanto, fundindo-se em uma só e triste imagem da alegria sepulcra onde a perda encontrou acalanto perpétuo.

  Ainda tenho na mente a última festa, a última dança, a última palavra, a última olhada, a última lavanda que exalava de sua roupa. Ainda tenho em casa as roupas do baile, as veria ainda que contraísse cegueira absoluta, me lembraria delas ainda que delas me esquecesse para sempre.

  Está tudo quieto, está tudo silente, está tudo como sempre esteve desde então, desde quando, desde tanto tempo, desde que terminou, desde que nem me lembro mais. O choque me imprimiu uma loucura que não é outra além da lucidez insana em que se apoia o que me resta de razão.

  As photos no aparador ainda contam suas histórias, ainda cobram por sua narração, ainda vivem o que mostram, ainda existem quando foram batidas. Todas em branco e preto, todas cheias de cor, as veria ainda que a escuridão completa se deitasse sobre a sala, tão densa que afundaria no sofá.

  Eu sei que acabou, eu sei que não há mais, eu sei que nunca mais, mas sei também que o fim é eterno como é sua companhia. O tempo que houve se estende em lapso com o tempo que ainda corre e escorre por entre os dedos, como escorreu, correu, afastou-se até sumir no horizonte que ainda zomba de mim.

  Ainda que tudo passe, ainda que eu me afaste, ainda que me achasse, ainda que finde a fase, ainda assim tudo continuará como está, como esteve desde quando, desde então, desde muito tempo até agora, até amanhã, até sempre, até nunca mais, até tudo se dissolver em si e mergulhar em seu próprio vazio.

  Acabou, eu sei. Acabou. Deveria ter saído, mas já estava de fora, já estava longe, já estava onde a vista não alcança mais. Mas a presença ainda estava lá, ainda está lá, ainda estará lá mesmo quando a ausência chegar e se somar, em vez de substituir, à sua sina de grumete da solidão.

  Acabou, tudo acabou... Inclusive eu.


22/01/2015

Da força bruta

  Desde que começaram a lascar pedras, qualquer pessoa franzina consegue enfrentar um animal mais pesado do que ela, se defender dele e ainda conseguir alimento. Lançando essa pedra com a extensão estabilizadora e potencializadora de um cabo, que nem precisa ser muito retilíneo, o confronto nem precisa acontecer, o sujeito pode simplesmente lançar com a melhor técnica que puder e aumentar suas chances de sobrevivência e a de sua prole. Não só caça, mas também pesca e até derrubar frutas em galhos muito altos, que quase sempre são as melhores.

  De então em diante, qualquer pessoa pode também se defender de outras pessoas bem mais fortes, porque contra uma ponta perfurocortante a força física não significa nada. Até uma criança bem treinada consegue defender os irmãos menores e até os idosos, fazendo os valentões pensarem duas vezes, antes de atentarem contra eles. Mesmo as pessoas de compleição e modos mais delicados conseguem repelir machões embrutecidos.

  Desde que se criou a primeira arte marcial, a força física perdeu quase todo o seu apelo. Falo por experiência própria, já pratiquei judô, lutava com grandalhões com o dobro do meu tamanho. Um praticante devidamente treinado e motivado consegue expulsar uma gangue inteira, ainda que portem armas brancas, quiçá até armas de fogo, dependendo do grau de evolução técnica e (acreditem, em artes marciais isso existe sim) espiritual do praticante. A esbelta Twiggy seria capaz de nocautear qualquer grandalhão marombado e cheio de bomba, se tivesse treinamento e disciplina para tanto.

  Ainda que o agressor também conhecesse artes marciais, a iniciativa da agressão o deixaria vulnerável, ele se exporia às maravilhas que uma boa alavanca é capaz de fazer por um corpo franzino. Não adianta me olharem com essas de "cala boca Deus, que eu sou macho". Há muitas, mas muitas partes do corpo que jamais se fortalecem, não importa o quanto se treine e encha o corpo de músculos, as partes vitais SEMPRE serão sensíveis, e a iniciativa da agressão as expõe. Um murro na base do maxilar, logo abaixo da orelha, pode até causar uma breve parada respiratória, bem como alucinações e perda de consciência. Agarre uma donzela delicada para ver, essa e outras partes ficam vulneráveis.

  Desde que inventaram o escambo, que ninguém precisa se arriscar muito para sobreviver. As pessoas passaram a estocar o excedente, em vez de abandonar ou deixar estragar, o que garantiu suprimentos em épocas difíceis, como o inverno. Já não era necessário sair todos os dias e arriscar ser morto pela caça ou devorado por um predador natural. O escambo inventou o comércio, para o bem e para o mal, tornando o cérebro mais precioso do que os músculos, para a subsistência. Assim, até uma criança bem instruída consegue seu sustento, caso os pais faltem.

  Com o comércio veio a necessidade de aprimoramento técnico e a brutalidade cedeu de vez lugar à inteligência. Isso não desobrigou as pessoas de cuidarem da boa forma, mas já não era necessário sair sem saber se voltava da caça, afinal uma das técnicas geradas foi a agropecuária, o alimento estava logo ali, bastava negociar. E como diz o ditado, quem quer comércio, não quer guerra; embora uns imbecís de mentalidade pubiana teimem em vestir máscaras de homens sérios para estragar a festa.

  Desde que descobriram a ciência, quase ninguém mais precisa se arriscar em terreno desconhecido, o conhecimento prévio repassado e aprimorado já poupa as pessoas de riscos desnecessários, então uma personalidade de agressividade animalesca não faz mais sentido. Até porque esse tipo de personalidade é de uma inconseqüência suicida, ela não se importa realmente com o grupo, só com a própria satisfação. Com a ciência, o aprimoramento técnico ganhou impulso em todas as áreas, as armas, as artes marciais, o comércio e a nascente tecnologia.

  Morrer esmagado por uma pedra gigantesca não era mais um risco aceitável, já havia alavancas sofisticadas para minimizar os riscos, assim como possibilitar erguer pesos que ninguém nem tentava. Qualquer corpo mediano passou a fazer o trabalho de vários empelotados de músculos, especialmente quando os animais se tornaram motores vivos dessas alavancas. Uma moça franzina já conseguia levar dezenas de litros para casa sem depender de canalhas oportunistas.

  Desde que nasceu a philosophia, a mente humana começou a se livrar das amarras animais que ainda nos prendiam à pré-história. O aqui e agora passou a ater outros significados, o conhecimento foi refinado, a ciência tornou-se uma ferramenta plena, as artes marciais passaram a ser também formadoras de caráter e as armas, mesmo co  o potencial letal, se tornaram também potencializadores do desenvolvimento psicológico e espiritual. O medo começou a ser dominado e as pessoas que aderiram, passaram a evoluir activamente, não apenas moldadas pela necessidade do ambiente.

  Daí nasceu a máxima da mente sã em corpo são, porque um depende do outro para cumprir com seu papel. Quem se concentra apenas em um deles, se torna um fanático nessa área e só causa problemas, jurando que é o único portador da verdade absoluta e inquestionável. Alguém com as faculdades psicológicas e físicas em harmonia e boas condições, consegue extrair da vida o máximo do que ela tem a oferecer, consegue até mesmo viver com menos, ainda que seu senso de civilidade e gosto refinado acumulem muito; sabe que não farão falta se forem subtraídos.

  Um caminhão não precisa fazer careta, ele pode até ter cara de ursinho carinhoso, sua força bruta e sua capacidade de carga não mudam com isso. Um trator com um desenho agradável não se torna menos poderoso. Uma locomotiva é provavelmente a máquina mais poderosa do mundo, mas qualquer magricela pode tomar o comando e ser seu amo e senhor.

  Com essa realidade, de que servem então a agressividade e a força bruta? Se não for para ajudar e defender os mais fracos, para absolutamente nada. Em si, elas só atrapalham, pois mesmo entre os animais selvagens existem códigos de conduta e até civilidade; onde houver mais de um, eles são necessários, assim como onde há mais de um há um Estado, por mais rudimentar que se apresente.

  Pois bem, mesmo com mil séculos transcorridos, ainda há gente usando os frutos de toda essa evolução para se considerar melhor do que as mulheres, para desdenharem e atacarem demonstrações de apreço, fazer tudo o que teria levado nossa espécie arracial à extinção em poucos milênios, se não tivéssemos deixado paulatinamente de lado tudo aquilo. Chegam a negar a história da heroína Maria Quitéria (esta moça aqui) que foi abandonada pelo comando assim que a guerra terminou. Só para se enganarem que são superiores a alguém, como se a internet que usam para espalhar esterco, não fosse devida à Hedy Lamarr, que simplesmente deu um golpe tecnológico de misericórdia na marinha nazista.

  Eu não sou "ista" de espécie alguma, é idiotice uma pessoa livre aceitar rótulos, como se fosse uma garrafa de refrigerante. Só posso assegurar que eu tenho muitas, mas muitas saudades da época em que a humanidade errava tentando acertar, em vez de louvar os erros já consagrados. Isso não se aplica a um grupo específico. Serve também para sujeitos que se consideram intelectuais, que berram por direitos e liberdades, mas babam por ditaduras sangrentas de tiranos implacáveis, que primam justo pela supressão do indivíduo, tal qual a mentalidade pré-histórica. Todos fazem, na prática, a mesmíssima merda.

02/01/2015

Ano novo, vida nova

Pryscila Vieira, cartunista e diva
  Jarbas acordou como se tivesse voltado da lua, estranhando a gravidade terrestre e a densidade do ar. Vai lânguidamente ao lavabo, acredita que é segunda-feira e precisa comparecer ao emprego. Empurra a porta e novamente estranha, ela costumava abrir para o outro lado. Vê algo que parece ser um monstro do pântano à sua frente, então deve ser o espelho. Vai fazendo tudo mecanicamente, como procurar a porta do armário detrás daquele espelho, mas não encontra. Sente sim algo roçando suas partes baixas, se afasta e vê que são alças de um armarinho sob a pia. Abre uma gaveta e vê uma escova de dentes com seu nome gravado, estranha porque se lembra que a escova que tem em casa é azul, e das mais vagabundas, aquela é toda sinuosa, de transparente verde com emborrachado branco.

  Terminada a higiene, e estranhando a toalhinha felpuda e macia que tem em mãos, volta para sua cama e não vê sua cama. Na verdade não vê o seu quarto. Aliás, seu quarto é um dos piores da casa, não tem saída para o lavabo. O que aquela cama de casal com excesso lateral está fazendo ali? Que suíte é aquela? E que pijama grã fino é aquele? Olha ao redor, vê uma decoração neoclássica do tipo que costuma ver na Vogue que sua mãe assina. Aliás, foi ela quem o convenceu a ir com os amigos, passar o réveillon em Madri... Ah, deve ser isso, está no hotel... Não! Lembra-se bem de que o hotel não era exactamente fuleiro, mas era bem básico, porque planejaram passar a maior parte do tempo nas ruas. Põe o punho contra a boca, pensando no caso, quando sente uma textura estranha, então sente um anel no dedo, olha e... HORROR! É uma aliança de casamento!

  Ele, que execrou George Clooney por ter traído o sagrado juramento dos solteirões convictos, estava com a prova do crime no dedo. Vai àquela porta de vitrais e vê uma cena estranha, estranha e bem lá em baixo, não sabe dizer em que andar está, sabe que não dá para fazer uma corda de lençóis e dar o fora. Procura por um telephone, porque não sabe onde raios deixou seu celular, que também é básico e por isso planejava comprar um moderno na Europa. Encontra um smartphone, daqueles cuja câmera registra bactérias em tamanho natural. Serve, se fizer ligação. Liga para um dos amigos...

  - Aê, Jarbão! Acordou cedo, magnata!
  - Lucio, cadê vocês??
  - Ué, a gente voltou pro Brasil, depois que vocês foram pra lua de mel!
  - O QUÊ??? Cara, eu não lembro de nada!
  - Ah... Como assim?
  - Eu pensei que hoje fosse segunda-feira, ia me arrumar pro trabalho e me vi num palacete!
  - É a cobertura de vocês... Bicho, cê jura que não lembra?
  - Juro pela minha mãe!
  - Puta que pariu! Então vai com calma, pra não magoar a Dolores... É, Maria Dolores Nuñes Hidalgo é a sua linda e rica esposa. eu queria ficar com ela naquela noite, mas o seu capilé foi melhor do que o meu.
  - Porra... E a minha mãe?
  - A sua família inteira adorou viajar de graça pra Europa, ganhar presentes e ver o seu casamento nababesco. Olha, fica calmo, que eu vou fazer um resumo e você vai lembrando, certo...

   Assim que desembarcaram, os quatro racharam o táxi e não demoraram a se aboletar no hotel de uma estrela. A primeira coisa que fizeram foi comprar câmeras sem a taxação extorsiva e corrompida do Brasil. Pagaram por câmeras profissionais o que mal daria para comprar as pequenininhas que têm em casa. A paisagem exuberante rendeu dezenas de cliques, como a fascinante Plaza Major, mas especialmente as fascinantes e coradas espanholas. Foi justo uma nativa que não queria ser photographada e foi tirar satisfações, o pivô de tudo. Se encontraram de novo à noite, os quatro foram pedir desculpas e ele apagou as photos na frente dela, recebendo um "gracias, señor" tão aveludado que o deixou ébrio sem precisar beber...

  - Tá lembrando?
  - Putz... É mesmo, agora... Mas como ela me pegou?
  - Foi o irmão dela que te pegou, mermão...

  O brasileiro de estatura média encarou o irmão ciumento de três por quatro metros, ofendido por ter sido confundido com um paparazzo que o acusou de ser. Levou uma bifa, levantou, levou outra, levantou e revidou, mas ele desviou e lhe deu outra, então ele aproveitou que estava caído e chutou-lhe os fundilhos. A partir de então, a luta ficou equilibrada, até a polícia chegar e encanar os dois na mesma cela, onde os sopapos só não continuaram porque o policial avisou que qualquer coisa que acontecesse lá, poderia ser considerado briga de detentos...

  - Eh... Peraí... Eu briguei com um cara com o dobro do meu tamanho e gritei o quê???
  - "Eu não sou moleque, para me aproveitar de mulher indefesa! Me respeite, vagabundo!"
  - E eu saí vivo??
  - Depois de ter dito o mesmo, em tom moderado, para o pai dela, que é coronel da real força aérea.

  Os três viram, pasmos, o bancário Jarbas da Silva enfrentar um alto oficial veterano de guerra. Pensaram que seu corpo voltaria para o Brasil em três pacotes distintos. A própria polícia chegou a pensar que o turista seria usado como munição de bombardeiro. O bate boca durou exactas duas horas, três minutos e quarenta e sete segundos, que culminaram na gargalhada do militar, ele viu que estava na presença de um homem de verdade...

  - Eu fiquei amigo de milico?

  Depois Dolores, já com boas recomendações a seu respeito, o procurou no hotelzinho simples e barato em que estava hospedado. Como ela costuma dizer, prefere andar em um Seat Marbella com um cara legal, a entrar no Jaguar de um cafajeste. Conheceu muitos e foi magoada por todos...

  - Foi aí que você tentou passar o capilé nela, agora me lembro... Suas cantadas sempre foram ruins, Lucio, por isso eu sempre te digo pra você se concentrar nos presentes, nestes você é imbatível!
  - Valeu pela dica. Ela levou a gente pra conhecer Madri no Rolls Royce dela...
  - Caracoles! Eu nunca tinha entrado num Impala e andei de Rolls???
  - Na frente, ao lado dela, com a gente atrás. Mas teve mais porrada...

  Verdadeiras nulidades no show business, Jarbas e seus amigos de infância não conheciam a moça, mas notaram que era famosa por lá, porque paparazzi começaram a aparecer feito piranhas sobre boi de sacrifício. Além de terem interrompido um beijo em gestação, estragaram uma tarde em um café muito simpático, cheio de gente muito agradável e atrapalharam o som de Maria Callas. Ficou furioso quando um deles clicou o decote, ele exigiu que apagasse na frente dele, então a muvuca começou. Novamente se encontrou com o capitão, irmão da moça, mas desta vez foi um encontro amigável e ele agradeceu por tê-la defendido...

  - Puta merda... Agora lembrei disso... Jura que eu não estava bêbado, que não tinha fumado nada ilegal...
  - Nada! Só bebeu vinho branco, coladinho a ela, Romeu. Cara, a gente já tinha muita coisa pra contar na volta, mas teve mais...

  Mas alguém não queria que ele voltasse. Não até ter uma última boa impressão. Em um dos encontros ele disse ser bancário, formado em economia e que conhecia de cor os bastidores da última crise mundial, e a que hoje o governo brasileiro tenta maquiar com decretos. Provou isso em uma conversa de alto nível, quando lhe deu conselhos para evitar o pior, se outro ataque especulativo tentar parasitar de novo a economia européia...

  - Pela primeira vez eu vi vantagem em ser nerd nos estudos, cara! Você ganhou de vez a garota e eu fiquei chupando dedo... Quer dizer, tomando vinho caro e enchendo o pandú com comida de primeira, no apartamento de vocês em Madri.
  - Não tô em Madri??
  - Málaga. Esse marzão que você tá vendo daí, é o Mediterrâneo, rabudo.

  Dolores procurou todas as referências que pudesse a respeito do brasileiro. Chegou mesmo a falar com o presidente mundial do banco, obtendo informações sigilosas sobre o hoje ex-funcionário com boas perspectivas dentro do banco, talvez um dia fosse gerente de uma agência. No facebook viu seu perfil, teve paciência para investigar todos os contactos que estavam abertos, se dispôs a fazê-lo quebrar a promessa de solteirice perpétua. A modelo, actriz, empresária, radialista, colunista e filantropa chamou amigos da alta roda para o próximo encontro. Ele não reconheceu ninguém, nunca tinha ouvido falar deles, tanto que agiu com naturalidade, como se ali não estivesse uma super concentração de celebridades de elite. Os amigos estranharam aquilo, embora aproveitassem, mas ele estava apaixonado demais para se lembrar que precisaria voltar ao Brasil, no fim das férias. Ela o chamou para um canto reservado, em um vestidinho solto de tecido fino, com aquele requebrado de modelos e eles transaram...

  - Eu???
  - Você mesmo! Você saiu daquela suíte gritando "VOU FICAR NA ESPANHA, GALERA"!
  - Eu não estava no meu juízo perfeito! Não mesmo!
  - Estava! Estava e até me deu o seu SP2 de presente, muito obrigado!
  - O SP2??? PORRA, CARA! Então eu tava era drogado mesmo!
  - Sim, drogado de amor, como você mesmo disse.
  - Eu falei isso?? Eu falei essa pieguice?
  - Você ficou todo romântico, depois disso.

  O casamento foi uma loucura de logística, tiveram menos de um mês para organizar tudo, porque os outros queriam se despedir do amigo, precisavam voltar à vida dura em Santos. Jarbas conheceu a casa da família de Dolores, deu uma olhada nas finanças das empresas, conheceu o trabalho dela, tudo levando os outros três a tiracolo. Rever mãe, pai, irmãs, cunhado, sobrinhos pela última vez...

  - Putz...  Tô começando a me lembrar... Minha mãe, cara! Chorando daquele jeito!
  - Ela se recuperou, principalmente depois da grana que passou a mandar pros seus pais...
  - Passei a mandar? Não estamos em Janeiro?
  - Em Janeiro vocês vieram visitar sua família. Ela tinha um ensaio pra fazer aqui e você veio junto. Agora é fim de Fevereiro...
  - Lucio do céu, agora eu me lembro! Apareceu um cara marombado...

  Apareceu. Um ex namorado tentou interromper o casamento, chamando Jarbas de aproveitador morto de fome, e levou um gancho de direita do próprio. Incrível como ficou valente, depois de se apaixonar. As lembranças agora estão claras, só não tem clara ainda justo a imagem da esposa, ainda não não se acostumou à idéia. Desliga e medita, teme cometer uma gafe, quando ela parecer. Aliás, onde ela estará? Uma empregada dá uma olhada pela fresta da porta e desce, então Dolores deixa alguns adiantamentos de serviço de lado e vai levar a bandeja com o desjejum...

  - Buenos dias, my amado...

  Ele fica paralisado com a visão daquela sinuosa deusa malageña de cabelos esvoaçantes, entrando com o carrinho e trajando apenas uma camisa fina, com aquele jogo de pernas em passos que a profissão moldou aos seus hábitos. Agora se lembra de tudo com clareza, de cada segundo, cada milímetro, cada mililitro, cada grau, cada lúmen, cada odor, cada tudo! Foi a noitada de ontem, os dois se esbaldaram, depois de quase vinte e quatro horas seguidas apagando incêndios na imprensa. O pijama de seda avisa que não foi só ele que se levantou, então deixarão o desjejum para depois.

21/12/2014

Tragédia de natal

  "Coma uma fatia de panetone, Berenice" insiste Adalberto. Mas ela não come, sequer responde. Está há anos neste estado, como se estivesse morta. Ele a vê à sua frente, aquele olhar lacônico que a acompanha desde a adolescência, aquele coque quase vertical, aquele terninho imitando os modelos Chanel que ela mesma fez. Tudo como sempre foi, exceto que ela não responde mais.

  O natal há duas décadas tem sido uma época triste para a casa, o último filho se casou e tudo ficou muito vazio. Foi coisa de três anos. Num dia a primogênita apresentava o namorado e no outro o caçula saía em lua de mel. Seis casamentos em três anos. A euforia pelas festividades seqüenciadas logo deu lugar à ressaca da casa vazia, enorme, construída pelo casal quando decidiu pelo matrimônio. Já nem há mais decoração natalina na sala, que outrora foi um festival de luzes coloridas.

  Os sete primeiros netos deram uma alegria estrondosa, o último nasceu poucos dias antes de o caçula se casar. Hoje estão todos adultos, donos de seus narizes e sabe-se lá por onde andam. Sabe que estão com as vidas encaminhadas, deixando seus pais a sós com o patrimônio que construíram. Eles sabem por onde andam seus rebentos, todos nos exterior, mas são nomes de lugares aonde Adalberto nunca sonhou em ir. Não que a miséria tivesse batido à sua porta, apesar dos sufocos e revezes de uma vida longa, mas sempre foram ele e Berenice, um casal com os pés no chão, não se iludiam com o que na época era um luxo.

  Aos poucos ele desiste de oferecer o acepipe à esposa. Não está irritado, compreende sua situação. Aquela era a casa mais festiva do bairro, afinal eram seis jovens que a habitaram por muitos anos. Eles sim, conheceram o mundo, trazendo de volta aos pais a riqueza do que tinham aprendido lá fora. Photos, presentes, revistas e miudezas que até hoje repousam com carinho, no baú do quarto de casal.

  Lembra-se de como as pessoas faziam troça, quando dizia que se casaria com aquela moça linda e risonha. Era a alegria em pessoa. Com tantos rapazes em carros caros e vivendo de mesada do papai, por que ela o aceitaria? Pois por isso mesmo ela o aceitou. Foi um casamento dos sonhos, com todos os problemas que a vida doméstica tem, foi um conto de fadas.

  Lembra-se ainda de que a esposa era alegre até demais, em algumas ocasiões. Era uma estrela radiante, mas depois que o caçula se casou, as coisas mudaram muito. Ela nunca mais foi a mesma desde que ele saiu em lua de mel, pegou a estrada prudentemente pela manhã, mas logo na saída teve seu Chevette Hatch 1982 esmagado pelo Scania 113 de um motorista drogado.

  Ninguém se recuperou de verdade até hoje, mas todos aprenderam a conviver com a dor. Todos, exceto Berenice. Coração de mãe, também, mas a mídia estampando o corpo esmagado do rapaz em todos os jornais, tornou irreversível o que era extremamente grave. De então em diante o olhar lacônico não ra mais uma armadilha, Berenice definhava a olhos vistos, para a tristeza do marido dedicado.

  Morreu, como disseram os médicos, de coração partido. Hoje Adalberto chora sozinho, conversando em vão com o último retrato da esposa, tirado há quinze anos, pouco antes da morte súbita.

15/12/2014

Fusqueando no fim do ano

 Ele entra no Fusquinha 1967 verde, decidido ao que se propôs. Mal sai do bairro residencial e já vê luzes piscando por todos os lados. Mal entra em uma via principal e se vê cercado de carros em vários tons de cinza, praticamente parados. De que adiantou ter importado o Plymouth Superbird numerado, se naquela muvuca o ronronar encorpado de seu V8 permaneceria em marcha lenta o tempo todo? Vai no Fusca mesmo.

  Das janelinhas mínimas ele vê as pessoas apressadas, com celulares e smartphones dividindo as mãos com as sacolas. Uma mulher nem percebe que roubaram as suas, se tão entretida com o maldito tablet. Consegue andar uns dez metros e o trânsito para de novo, desta vez por causa de uma batida. Um Gol enfiou na traseira de um Up! e a maioria estava perto demais para poder desviar. Briga de família, pensa ele, melhor não se meter. Espera pela primeira brecha e se aproveita do metro e meio que manteve do Cruze para trocar de pista.

  A cerca de vinte metros à frente, um Caio Alpha Vip caindo aos pedaços pressiona uma Grand Besta que insiste em respeitar o sinal vermelho, o motorista da Kia estaciona e o ônibus avança o sinal, batendo em outro logo adiante e arruinando de vez o trânsito. Quanta irritação, quanto estresse, quanta vontade de de encontrar um portal das fadas e sumir deste mundo! E olha que estamos na época do amor e da fraternidade! Em época de carnaval ele vê o próprio diabo fugindo do inferno que se instala na cidade.

  Sem escolha, desiste do itinerário que traçou e pega a primeira via transversal que consegue, entrando em bairros mais caros e cheios de luzinhas que simbolizam o que suas casas não têm. Um Azera branco entra na contramão, buzina e vai embora, chamando o milionário do Fusquinha de pobre e intruso. Ele segue pelo reino da plebe esnobe, em meio a casas ajardinadas e repletas de temas natalinos. Tudo tão bonito quanto falso, pelo menos nas que conhece, como a daquele contraventor que quase bateu no seu carro e não o reconheceu.

  A motorista de um Mercedes-Benz E-400 Hybrid preto até demonstra civilidade, dando-lhe a preferência em uma rotatória. Talvez porque ela também esteja farta de tudo aquilo, se há algo que aquele carrinho tem de sobra é honestidade, não parece ser o que não é e dependendo do uso, entrega até mais do que promete. O completo oposto do que está acostumada naquela vizinhança. Sabe de muita gente que arrota Cadillac, mas pena para pagar as prestações do Impala.

  Enfim consegue entrar em uma zona comercial. Aqui, pelo menos, pobre com dinheiro na mão tem alguma consideração. Ele em sua fantasia de pobre pode circular com menos medo. Os panetones que estão à venda desde Outubro não dão para quem quer, mesmo os ruins. Já se preveniu, o carro tem tudo de que vai precisar. E ser bairro caro não o poupa das mazelas de um prefeito que não tem gestão, tem uma congestão à frente da capital do Estado. As madames não têm com seus esportivos utilitários a desenvoltura de seu mini Panzer, em meio a todos aqueles buracos e poças de lama.

  Consegue sair da babel. Agora anda a mais de quarenta por hora, mesmo com asfalto cheio de remendos, desníveis críticos e buracos. Engata a quarta marcha e o boxer ronrona macio. Liga o rádio e ouve "Solitaire" na voz de Karen Carpenter. Acalma-se. Finalmente vai passar o fim de ano sossegado, sem ter que exibir dentes e participar de selfies infames. Participou ontem do último encontro oficial do clube do Fusca, já avisando do que iria fazer, e que por isso não poderia aceitar convites de fim de ano. Hpuve insistência, mas ele está decidido a ter um tempo para meditar e ter em mente o que fará da vida de agora em diante.

  Sua intenção é ficar só, ele e a solidão, mas mudanças de planos que não comprometam o objectivo podem correr, como a de itinerário para pegar as ruas largas de bairros industriais. Encontra uma amiga à beira da alameda, com seu Fusquinha 1968 vermelho parado. Nada de mais, um alicate e uma argola de chaveiro resolvem o problema que mandaria os carros modernos para o guincho. Ela não foi ao encontro de ontem, teve a mesma idéia, passou meia hora antes pelos mesmos lugares, passou pelos mesmos sustos, teve as mesmas irritações e seu Fusquinha está cheio das mesmas coisas.

  Vão os dois Volks então para o recanto que ele preparou, onde até há bons sinais de celular e internet, mas quase não usam os recursos, querem mesmo usufruir da solidão a dois. O ano novo começa com uma senhora dando ordens na casa. Só digo uma coisa, não digo nada. E digo mais, só digo isso.

03/12/2014

Papai Noel da depressão

Fonte: Bear Tales
  Carta: Querido Papai Noel, eu pedi uma conta gorda e um corpo magro! Por favor, não confunda novamente as coisas.

  Resposta: Eu te dei um emprego de gerente em uma academia grã-fina, você ganha o bastante para trocar de carro todos os meses e tem direito de usufruir de graça de todos os recursos da academia. O que você fez? Malhou? Fez o pé de meia? NÃO! Você se empenhou em dar em cima dos instrutores e quase perdeu o emprego por isso! Passa mais tempo pensando em como ferrar aquela sócia linda e maravilhosa que malha pouco e tem muitos resultados, do que se cuidando. Sua preguiça é tamanha, que torra quase três quartos do seu salário em clínicas de estética para preguiçosos que não querem malhar. Mas eu sei o que te falta, vou te mandar embrulhada em uma caixa aveludada com laços de fitas douradas, uma dose cavalar de vergonha na cara.

  Carta: Aí, Noel! Tô com a Maria e o Menino Jesus! Se não trouxer o que eu pedi, você nunca mais vai ver eles. VLW!

  Resposta: Aí, boçal! Pensa que está falando com quem? Com a turminha "Telma eu não sou gay" da sua rede social? Pode enfiar esses bonequinhos de gesso onde você já tomou, na cadeia, e é para onde vai voltar se não tomar jeito de homem, rapá! Vê se toma vergonha nessa cara lerda e usa o computador que EU TE DEI para aprender alguma coisa que presta, em vez de bancar o mano revoltado e oprimido que você nunca foi! Se vacilar de novo, mermão, vais ganhar é um par de braceletes judiciais e um apê com vista pro pátio do Carandiru.

  Carta: Eu não fui um bom menino, mas foda-se! Meu pai é deputado, tem imunidade, tem grana e vai me dar o que eu quiser! Chupa, velho chato!

  Resposta: Seu pai vai ser cassado antes de comprar os presentes, vão aparecer todos os podres, as amantes e O amante dele vão aparecer para dilapidar o fruto do furto ao erário, vai virar boneca na cadeia porque o diploma dele é falso e você vai estudar na escola municipal pipoco feliz. E você sim, vai correr o risco de chupar algo na pior acepção da palavra, se tentar montar banca por lá, fedelho insuportável.

  Carta: Querido Papai Noel... Ah, qualé, isso é invenção da Coca-Cola pra vender aquele desentupidor de pia que ela faz todo mundo beber! Por que continuo escrevendo essas cartinhas idiotas?

  Resposta: Querida adolescente revoltada que pensa que sabe tudo, meu nome verdadeiro é Nicolau e eu fui monge na idade média. A roupa vermelha não foi invenção de nenhuma companhia industrial, várias propagandas do século XIX já me mostravam assim, o que eles fizeram foi contractar Haddon Sundblom para criar uma imagem mais amigável às crianças, e o artista retratou a si mesmo para agradar à neta. Veja aqui e aqui. Quanto a evitar refrigerantes, você faz muito bem. Quanto a continuar escrevendo essas cartinhas idiotas, é porque você é o melhor tipo possível de idiota. Você não pediu nada, mas vou te dar uma bolsa em Harvard.

  Carta: papai noeu eu keria ganha um plestexiom e porke todo mundo ja tem e so eu q nam tem e poriso me intristese muitu eu vou fi k felis se ganha o plestexion. Vlw.

  Resposta: Ai, meus olhos seculares! Vou te dar é um ano de internato, para aprender o que essa escolinha empurrista não te ensinou.

  Carta: Querido Papai Noel, eu não quero um presente, propriamente dito, quero uma ajuda sua. Tenho muitos amigos, mas alguns deles são meio "politizados" e ideológicos, me trollam porque eu te escrevo cartinhas todos os anos, berrando que eu tenho problemas mentais e deveria é lutar pelos preceitos ideológicos de mudanças e eleger os candidatos que eles apóiam. Toda vez que eu falo em algum sonho, aparece um deles para me criticar de novo, afirmando que o sonho é um governo dos militantes que eles apóiam e que o senhor é invenção de exploradores para alienar as crianças. O que eu faço?

  Resposta: Então eles acreditam em discursos de políticos e te criticam por acreditar em mim? Meu filho, quem tem problemas mentais são eles! E te digo mais, eles nunca foram seus amigos, se não te respeitam. Vou te dizer o que farei, vou te dar um endereço novo e um emprego de meio período, para poder continuar estudando e não ter tempo de ser encontrado por esses caras, de quebra vai ter seu próprio dinheirinho.

  Carta: Aí, Noel! Ohooo! Valeu, aí!

  Resposta: Só, bicho!

07/11/2014

O postador invisível


  Ele caprichava, sejamos justos! Todos os dias colocava ao menos uma publicação digna de nota. Interagia bem com os contactos, fazia questão de ler todo mundo, na medida de seu possível. Tinha sua preferência, é claro, os quadrinhos antigos, mas falava de praticamente tudo. Discorria com autoridade nos comentários e não levava para o lado pessoal as broncas e desabafos dos outros.

  Tinha uma boa técnica para o cabeçalho, utilizava palavras sem muito rebuscamento em chamadas de três a cinco linhas, para anunciar e descrever sucintamente sua postagem, sempre com algum viés de utilidade prática, quase sempre com boas doses de diversão. Utilizava palavras-chave populares para chamar atenção, mas queria evitar a mendicância de curtidas que infestava a rede social. Achava um horror a chantagem emocional que muita gente utilizava em tudo quanto era lugar para implorar que favoritassem suas páginas.

  Algumas de suas postagens eram repletas de referências, isso quando o conteúdo não era de sua autoria, o que era muito comum. Photographias, vídeos, desenhos, textos, enfim, fazia questão de deixar e não só se valer do conteúdo que vagavam pela rede. E era muita coisa, com muita, mas muita diversidade, capaz de agradar a todo mundo. Seu perfil acabava por se tornar uma revista cibernética, quem entrasse lá estaria actualizado com o mundo e ainda encontraria algo para curar os traumas pelas notícias brutais que se tornaram tão corriqueiras.

  Tinha sua rádio preferida e sempre que podia, colocava um vídeo da música que estivessem tocando no momento. Às vezes com um comentário de uma linha a respeito do cantor ou da banda. Seguia algumas boas rádios com perfil oficial, além de alguns artistas de que gostava, especialmente músicos e cartunistas, embora estes não se considerem artistas, chegou mesmo a ser e ter alguns como contactos regulares. Tudo acessível aos outros contactos, para que pudessem se entreter com facilidade, sem ter que catar páginas pela rede.

  Tecnicamente era um perfil muito, mas muito interessante, mas não decolava. Enquanto gente que postava photos de sua unha encravada, nada além da photo da unha encravada se tornava viral, ele via suas postagens muitas vezes ignoradas solenemente até pelos seus contactos, que não raro sugeriam que ele falasse de coisas que já tinha falado várias vezes e ninguém tinha dado bola.

  Na verdade até a família dava mais bola para bobagens superficiais do que para suas boas postagens. Não que ele de vez em quando não publicasse algo bobo e leve, para atenuar as tensões do dia e arrancar algumas risadas de alívio, mas até nisso os acessos estavam muito abaixo da média. Ele não entendia, simplesmente não entendia o porquê desse fiasco. Verificou os bastidores do perfil, viu as permissões, acessibilidade, enfim, era um perfil aberto e bem organizado, fácil de lidar até por leigos, mas simplesmente não decolava.

  Fez um passeio por perfis mais acessados, estudou-os, deixou curtidas e comentários de cortesia, mas simplesmente não havia explicação técnica satisfatória. Viu até alguns comentários que simplesmente mendigavam curtidas e seguidores, mas eram coisas de robôs com programas cancerianos, piegas tamanha a chantagem emocional. Praticamente ninguém clica nesses comentários, não passam de spams. Chegou a publicar uma notícia de como tornar seu perfil interessante, mas nunca aquelas tranqueiras de "ganhe um milhão de seguidores em um dia", que lhe soam como aqueles anúncios fajutos em revistas baratas dos anos oitenta, que prometiam músculos do Hulk com pouco esforço e em pouco tempo.

  Certa feita, meditando sobre outros assuntos dentro do ônibus, notou o estresse do motorista. Provavelmente estava atrasado e toda a habilidade que demonstrava ao volante não ajudava muito, o trânsito estava caótico e cada um queria ser o primeiro a sair daquele caos. Imaginou que o problema estaria justo em cada um querer se ver livre sem se importar se isso aprisionaria mais os outros, ainda que essa atitude os deixasse mais travados no congestionamento. Pensou em dar uma palavra amiga ao motorista, mas percebeu que isso só o irritaria mais.

  Já em casa, após comer e descansar, ao computador, pensou em falar a respeito e algo engrenou. Aquele motorista ter evitado batidas naquele caos, mesmo sem um cobrador para ajudar a ver quem pedia parada e quem ainda estava descendo, demonstrava um alto grau de preparo, mas não dependia só dele. Se as pessoas colaborassem um pouquinho só, um esforço mínimo, o trânsito teria fluido a contento e ninguém se estressaria, mas não eram vulcanos ao volante, eram humanos. Humanos e lógica são auto excludentes, pensou. então olhou para o seu perfil, pensou um pouco, sorriu de tristeza e se conformou. Era isso, estava lidando com pessoas e esperava que agissem com coerência, estava pedindo muito delas.

  Voltou às suas publicações habituais, abriu uma página sobre quadrinhos antigos, alguns dos quais quase ninguém jamais tinha ouvido falar, obtendo os mesmos índices de retorno, mas desta vez sem grilos. Um dia, quem sabe, um arqueólogo cibernético possa se deliciar com os arquivos preservados nos discos rígidos do provedor, a sua contribuição para um mundo menos besta estava dada. Afinal, estava fazendo aquilo para agregar conteúdo interessante que quem quisesse pudesse acessar facilmente, não para ganhar dinheiro, não ainda.