15/12/2014

Fusqueando no fim do ano

 Ele entra no Fusquinha 1967 verde, decidido ao que se propôs. Mal sai do bairro residencial e já vê luzes piscando por todos os lados. Mal entra em uma via principal e se vê cercado de carros em vários tons de cinza, praticamente parados. De que adiantou ter importado o Plymouth Superbird numerado, se naquela muvuca o ronronar encorpado de seu V8 permaneceria em marcha lenta o tempo todo? Vai no Fusca mesmo.

  Das janelinhas mínimas ele vê as pessoas apressadas, com celulares e smartphones dividindo as mãos com as sacolas. Uma mulher nem percebe que roubaram as suas, se tão entretida com o maldito tablet. Consegue andar uns dez metros e o trânsito para de novo, desta vez por causa de uma batida. Um Gol enfiou na traseira de um Up! e a maioria estava perto demais para poder desviar. Briga de família, pensa ele, melhor não se meter. Espera pela primeira brecha e se aproveita do metro e meio que manteve do Cruze para trocar de pista.

  A cerca de vinte metros à frente, um Caio Alpha Vip caindo aos pedaços pressiona uma Grand Besta que insiste em respeitar o sinal vermelho, o motorista da Kia estaciona e o ônibus avança o sinal, batendo em outro logo adiante e arruinando de vez o trânsito. Quanta irritação, quanto estresse, quanta vontade de de encontrar um portal das fadas e sumir deste mundo! E olha que estamos na época do amor e da fraternidade! Em época de carnaval ele vê o próprio diabo fugindo do inferno que se instala na cidade.

  Sem escolha, desiste do itinerário que traçou e pega a primeira via transversal que consegue, entrando em bairros mais caros e cheios de luzinhas que simbolizam o que suas casas não têm. Um Azera branco entra na contramão, buzina e vai embora, chamando o milionário do Fusquinha de pobre e intruso. Ele segue pelo reino da plebe esnobe, em meio a casas ajardinadas e repletas de temas natalinos. Tudo tão bonito quanto falso, pelo menos nas que conhece, como a daquele contraventor que quase bateu no seu carro e não o reconheceu.

  A motorista de um Mercedes-Benz E-400 Hybrid preto até demonstra civilidade, dando-lhe a preferência em uma rotatória. Talvez porque ela também esteja farta de tudo aquilo, se há algo que aquele carrinho tem de sobra é honestidade, não parece ser o que não é e dependendo do uso, entrega até mais do que promete. O completo oposto do que está acostumada naquela vizinhança. Sabe de muita gente que arrota Cadillac, mas pena para pagar as prestações do Impala.

  Enfim consegue entrar em uma zona comercial. Aqui, pelo menos, pobre com dinheiro na mão tem alguma consideração. Ele em sua fantasia de pobre pode circular com menos medo. Os panetones que estão à venda desde Outubro não dão para quem quer, mesmo os ruins. Já se preveniu, o carro tem tudo de que vai precisar. E ser bairro caro não o poupa das mazelas de um prefeito que não tem gestão, tem uma congestão à frente da capital do Estado. As madames não têm com seus esportivos utilitários a desenvoltura de seu mini Panzer, em meio a todos aqueles buracos e poças de lama.

  Consegue sair da babel. Agora anda a mais de quarenta por hora, mesmo com asfalto cheio de remendos, desníveis críticos e buracos. Engata a quarta marcha e o boxer ronrona macio. Liga o rádio e ouve "Solitaire" na voz de Karen Carpenter. Acalma-se. Finalmente vai passar o fim de ano sossegado, sem ter que exibir dentes e participar de selfies infames. Participou ontem do último encontro oficial do clube do Fusca, já avisando do que iria fazer, e que por isso não poderia aceitar convites de fim de ano. Hpuve insistência, mas ele está decidido a ter um tempo para meditar e ter em mente o que fará da vida de agora em diante.

  Sua intenção é ficar só, ele e a solidão, mas mudanças de planos que não comprometam o objectivo podem correr, como a de itinerário para pegar as ruas largas de bairros industriais. Encontra uma amiga à beira da alameda, com seu Fusquinha 1968 vermelho parado. Nada de mais, um alicate e uma argola de chaveiro resolvem o problema que mandaria os carros modernos para o guincho. Ela não foi ao encontro de ontem, teve a mesma idéia, passou meia hora antes pelos mesmos lugares, passou pelos mesmos sustos, teve as mesmas irritações e seu Fusquinha está cheio das mesmas coisas.

  Vão os dois Volks então para o recanto que ele preparou, onde até há bons sinais de celular e internet, mas quase não usam os recursos, querem mesmo usufruir da solidão a dois. O ano novo começa com uma senhora dando ordens na casa. Só digo uma coisa, não digo nada. E digo mais, só digo isso.

03/12/2014

Papai Noel da depressão

Fonte: Bear Tales
  Carta: Querido Papai Noel, eu pedi uma conta gorda e um corpo magro! Por favor, não confunda novamente as coisas.

  Resposta: Eu te dei um emprego de gerente em uma academia grã-fina, você ganha o bastante para trocar de carro todos os meses e tem direito de usufruir de graça de todos os recursos da academia. O que você fez? Malhou? Fez o pé de meia? NÃO! Você se empenhou em dar em cima dos instrutores e quase perdeu o emprego por isso! Passa mais tempo pensando em como ferrar aquela sócia linda e maravilhosa que malha pouco e tem muitos resultados, do que se cuidando. Sua preguiça é tamanha, que torra quase três quartos do seu salário em clínicas de estética para preguiçosos que não querem malhar. Mas eu sei o que te falta, vou te mandar embrulhada em uma caixa aveludada com laços de fitas douradas, uma dose cavalar de vergonha na cara.

  Carta: Aí, Noel! Tô com a Maria e o Menino Jesus! Se não trouxer o que eu pedi, você nunca mais vai ver eles. VLW!

  Resposta: Aí, boçal! Pensa que está falando com quem? Com a turminha "Telma eu não sou gay" da sua rede social? Pode enfiar esses bonequinhos de gesso onde você já tomou, na cadeia, e é para onde vai voltar se não tomar jeito de homem, rapá! Vê se toma vergonha nessa cara lerda e usa o computador que EU TE DEI para aprender alguma coisa que presta, em vez de bancar o mano revoltado e oprimido que você nunca foi! Se vacilar de novo, mermão, vais ganhar é um par de braceletes judiciais e um apê com vista pro pátio do Carandiru.

  Carta: Eu não fui um bom menino, mas foda-se! Meu pai é deputado, tem imunidade, tem grana e vai me dar o que eu quiser! Chupa, velho chato!

  Resposta: Seu pai vai ser cassado antes de comprar os presentes, vão aparecer todos os podres, as amantes e O amante dele vão aparecer para dilapidar o fruto do furto ao erário, vai virar boneca na cadeia porque o diploma dele é falso e você vai estudar na escola municipal pipoco feliz. E você sim, vai correr o risco de chupar algo na pior acepção da palavra, se tentar montar banca por lá, fedelho insuportável.

  Carta: Querido Papai Noel... Ah, qualé, isso é invenção da Coca-Cola pra vender aquele desentupidor de pia que ela faz todo mundo beber! Por que continuo escrevendo essas cartinhas idiotas?

  Resposta: Querida adolescente revoltada que pensa que sabe tudo, meu nome verdadeiro é Nicolau e eu fui monge na idade média. A roupa vermelha não foi invenção de nenhuma companhia industrial, várias propagandas do século XIX já me mostravam assim, o que eles fizeram foi contractar Haddon Sundblom para criar uma imagem mais amigável às crianças, e o artista retratou a si mesmo para agradar à neta. Veja aqui e aqui. Quanto a evitar refrigerantes, você faz muito bem. Quanto a continuar escrevendo essas cartinhas idiotas, é porque você é o melhor tipo possível de idiota. Você não pediu nada, mas vou te dar uma bolsa em Harvard.

  Carta: papai noeu eu keria ganha um plestexiom e porke todo mundo ja tem e so eu q nam tem e poriso me intristese muitu eu vou fi k felis se ganha o plestexion. Vlw.

  Resposta: Ai, meus olhos seculares! Vou te dar é um ano de internato, para aprender o que essa escolinha empurrista não te ensinou.

  Carta: Querido Papai Noel, eu não quero um presente, propriamente dito, quero uma ajuda sua. Tenho muitos amigos, mas alguns deles são meio "politizados" e ideológicos, me trollam porque eu te escrevo cartinhas todos os anos, berrando que eu tenho problemas mentais e deveria é lutar pelos preceitos ideológicos de mudanças e eleger os candidatos que eles apóiam. Toda vez que eu falo em algum sonho, aparece um deles para me criticar de novo, afirmando que o sonho é um governo dos militantes que eles apóiam e que o senhor é invenção de exploradores para alienar as crianças. O que eu faço?

  Resposta: Então eles acreditam em discursos de políticos e te criticam por acreditar em mim? Meu filho, quem tem problemas mentais são eles! E te digo mais, eles nunca foram seus amigos, se não te respeitam. Vou te dizer o que farei, vou te dar um endereço novo e um emprego de meio período, para poder continuar estudando e não ter tempo de ser encontrado por esses caras, de quebra vai ter seu próprio dinheirinho.

  Carta: Aí, Noel! Ohooo! Valeu, aí!

  Resposta: Só, bicho!

07/11/2014

O postador invisível


  Ele caprichava, sejamos justos! Todos os dias colocava ao menos uma publicação digna de nota. Interagia bem com os contactos, fazia questão de ler todo mundo, na medida de seu possível. Tinha sua preferência, é claro, os quadrinhos antigos, mas falava de praticamente tudo. Discorria com autoridade nos comentários e não levava para o lado pessoal as broncas e desabafos dos outros.

  Tinha uma boa técnica para o cabeçalho, utilizava palavras sem muito rebuscamento em chamadas de três a cinco linhas, para anunciar e descrever sucintamente sua postagem, sempre com algum viés de utilidade prática, quase sempre com boas doses de diversão. Utilizava palavras-chave populares para chamar atenção, mas queria evitar a mendicância de curtidas que infestava a rede social. Achava um horror a chantagem emocional que muita gente utilizava em tudo quanto era lugar para implorar que favoritassem suas páginas.

  Algumas de suas postagens eram repletas de referências, isso quando o conteúdo não era de sua autoria, o que era muito comum. Photographias, vídeos, desenhos, textos, enfim, fazia questão de deixar e não só se valer do conteúdo que vagavam pela rede. E era muita coisa, com muita, mas muita diversidade, capaz de agradar a todo mundo. Seu perfil acabava por se tornar uma revista cibernética, quem entrasse lá estaria actualizado com o mundo e ainda encontraria algo para curar os traumas pelas notícias brutais que se tornaram tão corriqueiras.

  Tinha sua rádio preferida e sempre que podia, colocava um vídeo da música que estivessem tocando no momento. Às vezes com um comentário de uma linha a respeito do cantor ou da banda. Seguia algumas boas rádios com perfil oficial, além de alguns artistas de que gostava, especialmente músicos e cartunistas, embora estes não se considerem artistas, chegou mesmo a ser e ter alguns como contactos regulares. Tudo acessível aos outros contactos, para que pudessem se entreter com facilidade, sem ter que catar páginas pela rede.

  Tecnicamente era um perfil muito, mas muito interessante, mas não decolava. Enquanto gente que postava photos de sua unha encravada, nada além da photo da unha encravada se tornava viral, ele via suas postagens muitas vezes ignoradas solenemente até pelos seus contactos, que não raro sugeriam que ele falasse de coisas que já tinha falado várias vezes e ninguém tinha dado bola.

  Na verdade até a família dava mais bola para bobagens superficiais do que para suas boas postagens. Não que ele de vez em quando não publicasse algo bobo e leve, para atenuar as tensões do dia e arrancar algumas risadas de alívio, mas até nisso os acessos estavam muito abaixo da média. Ele não entendia, simplesmente não entendia o porquê desse fiasco. Verificou os bastidores do perfil, viu as permissões, acessibilidade, enfim, era um perfil aberto e bem organizado, fácil de lidar até por leigos, mas simplesmente não decolava.

  Fez um passeio por perfis mais acessados, estudou-os, deixou curtidas e comentários de cortesia, mas simplesmente não havia explicação técnica satisfatória. Viu até alguns comentários que simplesmente mendigavam curtidas e seguidores, mas eram coisas de robôs com programas cancerianos, piegas tamanha a chantagem emocional. Praticamente ninguém clica nesses comentários, não passam de spams. Chegou a publicar uma notícia de como tornar seu perfil interessante, mas nunca aquelas tranqueiras de "ganhe um milhão de seguidores em um dia", que lhe soam como aqueles anúncios fajutos em revistas baratas dos anos oitenta, que prometiam músculos do Hulk com pouco esforço e em pouco tempo.

  Certa feita, meditando sobre outros assuntos dentro do ônibus, notou o estresse do motorista. Provavelmente estava atrasado e toda a habilidade que demonstrava ao volante não ajudava muito, o trânsito estava caótico e cada um queria ser o primeiro a sair daquele caos. Imaginou que o problema estaria justo em cada um querer se ver livre sem se importar se isso aprisionaria mais os outros, ainda que essa atitude os deixasse mais travados no congestionamento. Pensou em dar uma palavra amiga ao motorista, mas percebeu que isso só o irritaria mais.

  Já em casa, após comer e descansar, ao computador, pensou em falar a respeito e algo engrenou. Aquele motorista ter evitado batidas naquele caos, mesmo sem um cobrador para ajudar a ver quem pedia parada e quem ainda estava descendo, demonstrava um alto grau de preparo, mas não dependia só dele. Se as pessoas colaborassem um pouquinho só, um esforço mínimo, o trânsito teria fluido a contento e ninguém se estressaria, mas não eram vulcanos ao volante, eram humanos. Humanos e lógica são auto excludentes, pensou. então olhou para o seu perfil, pensou um pouco, sorriu de tristeza e se conformou. Era isso, estava lidando com pessoas e esperava que agissem com coerência, estava pedindo muito delas.

  Voltou às suas publicações habituais, abriu uma página sobre quadrinhos antigos, alguns dos quais quase ninguém jamais tinha ouvido falar, obtendo os mesmos índices de retorno, mas desta vez sem grilos. Um dia, quem sabe, um arqueólogo cibernético possa se deliciar com os arquivos preservados nos discos rígidos do provedor, a sua contribuição para um mundo menos besta estava dada. Afinal, estava fazendo aquilo para agregar conteúdo interessante que quem quisesse pudesse acessar facilmente, não para ganhar dinheiro, não ainda.

29/10/2014

Um crime perfeito


  Aparentemente era uma esposa recatada e submissa, mas todos sabem que dentro de casa as coisas costumam ser um bocado diferentes do que se ostenta nas ruas. Ela se fazia de "levemente" submissa para o marido se encher de confiança e enfrentar o mundo, afinal foi mimado para ser o macho alpha da humanidade e não estava muito preparado para as frustrações. Ela o poupava de todas as que podia, às vezes tomando a frente dos negócios e dando recados indelicados aos malandros que tentavam depenar seu marido. Nada de extraordinário, só coisas de máfia mesmo.

  Praticamente todos os seus caprichos eram satisfeitos pela linda e dedicada esposa. Contra as ordens médicas, fumava à vontade em uma área específica na chácara onde moravam, feita para as crianças não se acostumarem a ver o pai fumando tanto e sentindo prazer nisso. Algumas concessões ele fazia, confiava muito no bom senso de sua adorável esposa. Afinal, ela era sua cúmplice, seu porto seguro, o acalanto onde tinha seu repouso garantido, protegido do mundo agressivo lá fora. Ah, era um casamento muito, mas muito feliz.

  Ela também era uma confeiteira talentosa. Tomava para si, dispensando empregadas, a tarefa de encher a casa com bolos, doces, pães, roscas, bombas, cremes e tudo mais. O casal de filhos podia comer, sim, mas só um pouco. Quase tudo era para seu amo e esposo ter uma alegria a mais na volta ao lar, onde era o rei e assim o tratava.

  E os drinques? Ah, ela poderia abrir um restaurante-bar e ensinar tudo aos empregados, teria casa cheia todas as noites. Sua criatividade, sua vastidão e profundidade de conhecimento, era tudo de cair o queixo! Identificava de cara a qualidade de um vinho, raramente precisando abrir a garrafa. Um uísque que tivesse onze anos e onze meses não passava pelo seu crivo, sabia identificar até a madeira do tonel. Os amigos o invejavam muito, em seu lar eles tinham bebidas que não encontravam em outro lugar nenhum do mundo.

  Não eram só aparências para visitas ou transeuntes, os empregados sempre comentavam o quanto ela conseguia manter a paz e a harmonia daquela mansão, enquanto outros ricos gastavam os tubos para manter as aparências e manter amantes. Ela não, ela conseguia manter seu esposo no cabresto do matrimônio contraído. M\as era um cabresto muito confortável, muito prazeroso, era tudo o que importava àquele homem. Ter muito mais prazeres do que aborrecimentos estava de bom tamanho.

  Mas os excessos de seus prazeres cobraram o preço. Cedo ou tarde eles sempre cobram. Os abusos alimentares lhe causaram disfunções graves no tubo digestivo, rapidamente evoluindo para uma úlcera muito importante. Também os níveis de açúcar e gordura no sangue começavam a ficar mais altos do que se poderia controlar. Não demorou muito para precisar de intervenções medicamentosas para conseguir fechar qualquer ferida cotidiana, pois o corpo já não o conseguia.

  Paralelamente o fígado começou a falhar. Os prazeres etílicos, aquelas misturas que só sua amada esposa sabia fazer, também cobravam a gorjeta pelos momentos alegres que ofereceram, pela alienação conveniente do mundo real que ele tanto buscava em casa. Ela por sua vez, compensava seu sofrimento físico com sexo, muito sexo, que o ajudava a tolerar com facilidade o sofrimento físico que seus vícios lhe renderam.

  Ele começou a falhar e temer por isso, mas ela sempre lhe dizia "Até que a morte nos separe, meu esposo" e ele ficava tranqüilo. Ela sempre revigorava seu orgulho masculino e ele sempre se sentia à vontade para dar escapadelas dos tratamentos complexos que fazia. Era seu amo e esposo, como prometera que seria, e suas vontades eram sempre satisfeitas, a qualquer preço.

  Certa manhã, porém, ela berrou por cada morador da mansão. Todos os empregados se apressaram em ir acudir sua generosa senhora, que tantas vezes os socorrera em situações que nada tinham a ver com os assuntos do trabalho. Diante dos filhos, empregados, irmãos do esposo e advogados, ela teve a trágica notícia do inevitável. Falência múltipla de órgãos. Estava praticamente cego e impotente, quando morreu.

  Todos eram testemunhas de sua dedicação, de quantas noites perdeu cuidando dele, após tomar conta dos negócios. Todos eram testemunha de sua lealdade, de ter transformado o matrimônio em um sacerdócio. Todos sabiam o quanto ela era forte, que depois do luto conseguiria levar a vida e criar os filhos. Tinham certeza que aquela mulher que tanto admiravam sairia deste luto de cabeça erguida e passos firmes, pronta para mais tarde, quem sabe, fazer algum sortudo se sentir um deus.

  Mas as coisas não eram assim tão bonitas. Em seu coração, só ela sabia o que realmente havia por detrás de tudo. Não o deixou viciado nos excessos de prazeres por amá-lo, pelo contrário, o odiava tanto que se tornou insensível à sua presença e aos seus toques. Ao lado do caixão, momentos antes da cremação, sozinha, fingindo rezar...

  _ Queime no inferno, filho da puta! Tudo o que você sofreu foi pouco, eu queria ter prolongado sua agonia por mais cinco anos, mas desgraçados como você são sempre fracos mesmo! Você não sofreu nem metade do que minha mãe sofreu após ter matado meu pai, só porque ele parou o ônibus e não te deixou furar o sinal, seu vagabundo! Vou com prazer pro umbral, sabendo que sairei de lá muito antes de você, porque não me apeguei aos valores baixos que sua gentalha amaldiçoada apregoa debaixo do pano. Agora eu sou a dona de tudo, vou levar meus filhos e minha mãe para morar em San Francisco, como o meu pai sempre sonhou. Já você, vou jogar suas cinzas no aterro sanitário, cachorro infeliz. Agora eu vou ter um marido, você foi só um alvo do meu ódio.

  Se levanta, autoriza a cremação e cumpre com tudo o que disse que faria, e tudo o que disse se realiza.

18/10/2014

O destino de Catharina Roque


  Ele chega com a filha ao prédio, um casarão dos anos quarenta que estava para ser demolido, quando uma mulher maluca fez uma oferta por aquele mocó gigante. Com ajuda de voluntários, ela reformou e deixou como novo o imóvel, encheu os jardins com flores e árvores frutíferas e, não bastasse isso, transformou em praça o lote baldio ao qual a prefeitura se recusava terminantemente a dar destinação. Quase trinta anos passados desde então, a praça foi oficializada e batizada com o nome de um vereador qualquer. O facto é que as casas ao redor e próximas não demoraram muito a ter os mesmos cuidados.

  É tudo muito bonito, muito bem organizado, muito calmo e o clima muito aprazível. Não parece que estão na São Paulo que já sofre com as conseqüências das décadas de impermeabilização. O portão está aberto, a escola de pedagogia estranha está em pleno funcionamento, mesmo nesta tarde de sábado. Os dois entram, ele emocionado, toca à filha a função de pedir informações e tratar do assunto. Ainda hoje lhe dói ter lido "Dona de escola é agredida por radicais de igreja" em um jornal. Quase chorou quando viu o nome da vítima, porque hoje ela é uma anciã, deve ter mais de oitenta anos. Se bem que ele em seus setenta não é mais aquele garotinho que desafiava colegas para brigas atrás da igreja.

  A escassez de formalidades está em todos os cantos, embora isso não signifique carência de disciplina. Lembra-se bem, o bom comportamento e o excesso de felicidade que ela conseguia em sua turma, era demais para as encruadas que exerciam indevidamente a profissão de professora. Quando ela se foi, por não poder mais ensinar como fazia e para assumir seu amor, sua turma começou a evadir e os poucos que ficaram pareciam ser gênios perto dos outros alunos, porque tinham aprendido a raciocinar e tinham fome de conhecimento. As aulas passaram a ser não só enfadonhas, como irritantes, ele chegou a ser expulso de sala por ter gritado com a professora e a chamado de imbecil.

  O tempo provou que sua linda professora estava certa, com o frescor pedagógico que havia levado à cidade. era uma lufada de ar fresco em uma cidade que não dava perspectiva nenhuma aos seus jovens. Mas era tarde e ninguém mais teve coragem para fazer as coisas do jeito certo, só seguia o roteiro medíocre de uma grade pífia. Hoje ele volta a ver crianças aprendendo aritmética estudando geografia, certamente caprichando na caligraphia e na boa gramática. Pela janela do corredor vê crianças aprendendo biologia no meio do jardim, enquanto desenham e fazem anotações, aprendendo mais e melhor vários tópicos ao mesmo tempo, como era com a sua turma.

  Ele tem uma ligeira queda de pressão quando vê uma moça com vinte e poucos anos saindo do pequeno teatro com seus alunos. Decerto que não é ela, mas é ela esculpida em carrara. Balbucia "Professora Catharina" um pouco alto demais para um simples balbuciado e ela ouve...

- Oi, boa tarde. Estão procurando a minha avó?

  A filha do ancião explica a situação, conta um resumo do que sabe da história e a jovem professora não se agüenta...

- PACHEQUINHO!! Meu Deus, você existe! Minha avó não pára de falar de você! Vó!

  Ela pede que a turma vá para a sala e entra em outra, onde se demora pouco e de onde sai com uma anciã. É ela, aqueles trejeitos não têm similar. Os olhos serelepes e gulosos o analisam do ápice à base, detrás de óculos de cuja armação não sabe contar as cores. Apesar das marcas do tempo, todos os traços que conheceu na infância estão lá. Ela pisca um olho, faz um sorriso torto e debochado e corre para o abraço. Está mais ágil e lúcida do que seu ex-aluno. Ela os leva para sua sala, que mais parece uma sala de estar, e começa a falar, contar dos bastidores de sua fuga da cidade, a vida que enfrentou depois, a viuvez ainda jovem e as dificuldades para criar os três filhos. Só o que não perdeu com as escolhas que fez, foi a coragem. Apesar de tudo, de nada se arrepende. Mas fala puco de si, pergunta por ele, pela moça bonita que o acompanha, quer saber tudo.

  Ele conta uma história mais triste, com menos coragem e mais tragédias. Arranca algumas lágrimas da ex-professora com relatos de mortes trágicas, de ex-professoras que enlouqueceram e viraram prostitutas, da turma que há uns sessenta anos não vê. Mas também fala da família, esposa, os três filhos encarreirados mais a temporona que o acompanha. Todos encaminhados e tocando suas vidas com dignidade. Fala ainda do início difícil da carreira de psiquiatra em um mercado saturado, dos anos amargos de divã vazio até se lembrar das aulas de sua professora, e as adaptar ao seu trabalho. Foi assim que fez sua clientela e sua fama profissional.

  Ela faz questão de apresentar o psiquiatra à família, toda ela trabalhando na escola, e aos alunos. Quer mostrar a todos o que podem se tornar, se não desistirem se seus sonhos e tiverem coragem de correr atrás deles. Consegue mais dois para o elenco de sua escola. Como queria esfregar isso nas caras daquelas quengas que saíram do armário, mas acha que não vale à pena descer ao inferno só para isso.

11/10/2014

Os Dragões de Titânia, A Dama da Montanha

  Certo, fui lerdo e quem casou já está amamentando o rebento. Lamento, as coisas nunca saem como esperamos, pelo menos para mim.

  A Dama da Montanha é mais uma demonstração do enorme talento do amigo Renato Rodrigues para administrar muitos, mas muitos personagens ao mesmo tempo. Outro enorme talento dele é mostrar que ser louco não significa ser idiota, e vice versa.

  Este terceiro livro da saga mostra uma maturidade já consolidada da trama, prevista para ter quinze livros, por isso cada um pode ter tão poucas páginas, por conseqüência ter custos mais baixos de produção para seu autor. Sim, o número de páginas não é determinante, nada é determinante, mas são mais horas de funcionamento da impressora, mais horas de salário para os montadores, mais caminhões para carregar toda a edição, enfim. Por isso vai uma dica, se a história for muito longa, é melhor dividir em fascículos. Páginas encarecem.

  Já que toquei no assunto, este livro nos mostra justamente isso, que absolutamente nenhum fator isolado determina o desenrolar e o final de uma trama, o que vale também e principalmente para a vida real. O leitor atento e ávido por conteúdo pode se irritar com o jogo de "Wataru é bom! Wataru é mau! Wataru é bom! Wataru é mau!" que toma boa parte do livro, mas a persistência na leitura mostrará que o lorde manequim de funerária tem seus motivos para agir daquela forma. Aliás, todos têm seus motivos para suas esquisitices, como é na vida real e o nosso bom amigo mostra isso com maestria.

  Em dado momento parece que o Renato enlouqueceu, se deixou influenciar demais por séries estúpidas de televisão e colocou tudo a perder. Depois parece que ele ficou preso em um elevador
jamaicano e saiu doidão directo para seu computador, depois ainda dá a entender que se arrependeu e tentou consertar tudo, mas gostou tanto do estrago que resolveu deixá-lo lá mesmo. Mas não é essa zorra que parece. como o Citröen 2CV, que parece ter sido feito de qualquer jeito, mas foi cuidadosamente desenhado para o que se propunha. A trama também é assim, mas só nos últimos capítulos é que o leitor vai se dar conta de quase tudo o que aconteceu. Eu disse "QUASE" porque só nas últimas páginas é que muita coisa começa a fazer um débil sentido, porque os esqueletos só começarão a sair do armário no livro quatro, ainda em gestação.

  Uma característica deste volume é ter sido escrito a quatro mãos. Renato teve a colaboração de sua adorável esposa para escrever um dos capítulos, onde o leitor habitual vai pensar que o rivotril fez efeito contrário. É um manicômio! Dois personagens preciosos dos Dragões de Titânia pensam que estão entrando em um país, mas entram em um sanatório e caem justo na ala dos casos perdidos. Morre de dó das vaquinhas marrons, mas devora sem dó o porquinho selvagem... Sei... Bem, o facto é que nossos adoráveis e cômicos personagens não voltam sozinhos à Titânia, embora ninguém seja visto com eles. Só sei que o amor é lindo!

  Há ainda cenas que seriam proibidas para menores de dezesseis anos, em um ambiente psicodélico de fazer inveja aos anos setenta. Parece, mas ninguém aproveitou a viagem para se servir de cogumelos ardentes, A partir deste ponto, decepções e revelações acontecem, coisas que sozinhas renderiam um livro exclusivo. Esta fase ainda nos brinda com o fio da meada, o que realmente causou toda essa confusão, e mostra que eles estão apenas ganhando tempo, força e aliados para o confronto final.

  O que o livro nos ensina?

  Primeiro que jamais devemos confiar no óbvio. O que nos parece claro e inequívoco a ponto de xingarmos quem não enxergar o mesmo, pode ser uma ilusão, uma armadilha do ego que se apropriou da conclusão que lhe era mais confortável, como a recusa em acreditar que a figura tida como herói não passa de um canalha, ou vice versa.

  Mostra também que o mal mente sempre, que o mal é sempre covarde, que sempre se encolhe quando está em desvantagem. Que aquela frase usada por cidadãos revoltados para os bandidos, serve direitinho para ditadores. Nenhum deve ser admirado, ditadores mentem sempre.

  Mostra ainda o quanto são absurdamente cotidianas e até infantis, as motivações de eventos de grande envergadura, que uma dor de cotovelo pode ser o estopim de uma guerra, um casamento mal sucedido o motivo da busca pelo poder, enfim... Não existem motivações extraordinárias, transcendentes ou sobrenaturais para os vultos históricos, não são nem mesmo razoáveis em sua maioria. O leitor atento vai reconhecer esta e outras lições no decorrer do livro.

  Mostra finalmente, que não existe poder bom ou mau, bom ou mau é quem faz uso dele. E mesmo um poderoso mau pode se arrepender e se tornar bom, mas sem se tornar idiota, que ser bom E idiota é coisa da DC Comics.

  O que me causa estranheza é a semelhança da narrativa do Dom Renatonski com a minha, dá a impressão de que bebemos na mesma fonte, no Norte dos estados Unidos. Conversarei com ele mais tarde. O facto é que eu recomendo, rebebendo e redançando o livro. Exemplares desta edição ainda podem ser encontrados nas lojas de departamento e no site da Linhas Tortas (clicar aqui). Por agora eu aguardo o próximo hospício, digo, volume da saga de OS DRAGÕES DE TITÂNIA.

06/10/2014

E o quociente levou


 A depressão tomou conta do ambiente. Era para ser um dia festivo, até mesmo de alívio pelo êxito de meses de trabalho árduo, enfrentando adversários baixos, com piadinhas e provocações altamente misóginas, alguns até tentaram agredí-la por ter se candidatado.

  Tinham lhe dito que aquilo era jogo sujo, que dificilmente alguém com boa índole conseguiria furar o bloqueio. e mesmo que conseguisse, seria completamente engessada pelos picaretas que só se candidatam tendo em vista dois objectivos: roubar o quanto puder ou se perpetuar nos prazeres do poder a que nenhum ciadão comum tem acesso; quando não ambos.

  Olha para as lixeiras com sua bela esfinge, nome e número estampados, simbolizando sua campanha limpa e ética. Riram de sua cara quando leram seu slogan. Não, não foram os adversários, foram justamente seus correligionários. Foi a única coisa engraçada que ouviram naquela reunião longa, enfadonha e prolixa. Sete horas de discursos para concluírem que todos precisavam se empenhar pelos ideais do partido. Bem, logo de cara ela percebeu que os ideais em questão poderiam ser parcelados no cartão de crédito, mas também aceitavam carro, casa e até uma noite com uma adolescente... E ela viu negociações assim.

  Qual foi a surpresa de todo o partido, quando sua campanha decolou na base da criatividade e competência administrativa! Começaram a vê-la com outros olhos, na verdade passaram a adular descaradamente, para receber respingos do prestígio que conseguiu com o eleitorado. Chegaram a imprimir santinhos conjuntos, o que acabou beneficiando alguns que estavam em baixa. Ajudou a eleger o governador, que estava em uma saia justa por conta de estripulias de parentes.

  Mas aconteceu o que todos temiam. Ela recebeu votação suficiente para se eleger prefeita, mas ficou de fora da câmara federal. Por causa do tal coeficiente eleitoral um zé mané, que se livrou de um processo porque uma das testemunhas morreu "misteriosamente", levou a vaga com um décimo dos votos, tudo porque alugou candidatura em um partido nanico, que vive justo de alugar candidaturas.

  Está desolada. Tão desolada que nem se importou quando o governador, constrangido, a chamou para um canto e disse que todas as secretarias já estavam negociadas. É, "negociadas" desde o início da campanha, quando ainda era motivo de piadas. Ele tentou alegrá-la, prometeu que um dos secretários pretende concorrer ao pleito municipal e então a vaga será dela, até lá teria regalias, vantagens e tudo o que sua preciosa ajuda a fez merecer.

  Parece que até seus centenas de milhares de eleitores a esqueceram, depois da apuração. Que derrota amarga! O fel da perversidade eleitoral amarga até sua genital. Esta, aliás, motivo das dificuldades acima da média. Foi discriminada até por ser "bonita demais para cargos sérios"! Calou todas as bocas, disso pode se orgulhar, mas perder para um analphabeto funcional que quer acabar com os doces de Cosme e Damião, alegando que são coisas do capeta, dói demais em seu coração católico. Ele não vai conseguir mais do que uma bala na testa, se insistir, mas dói assim mesmo.

  Fazer o quê? Pelo menos sua formação em administração evitou grandes dívidas, poderá dar conta das que tem. Palestras, quem sabe, pelo sucesso nas urnas? Vai pensar em algo, mas por hoje quer tirar sua Lambretta da longa hibernação e espairecer. É o que vai fazer, amanhã esquenta a cabeça de novo.