31/05/2016

Do comportamento masculino - o recato do homem



  Caríssimos, vivemos em uma época sem precedentes de neuroses e inimizades gratuitas. Uma pessoa que não tem diploma em philosophia com viés de raciocínio para alguma ideologia é publicamente repreendido, se ousar expor um pensamento. Em contrariedade aos próprios ditames, repreendem quem assume um viés ideológico que contrarie os seus, não importa o quanto a linha de raciocínio adoptada beneficie o que dizem defender. Se não é do meu lado, só pode ser mau.


  Da mesma forma, actos de solidariedade podem ser interpretados, divulgados e levados a julgamento como abuso e violação. Foi o caso recente de uma adolescente estúpida, que processou um homem que a salvou do afogamento, como se houvesse outra forma de fazê-lo que não fosse tocando-lhe o corpo. Isto é só um dos casos que proliferam pelo mundo pseudo-racional em que estamos presos. Mundo em que um cavalheiro é prévia e preconceituosamente acusado de misógino e abusador.


  Existe porém um fundo de verdade no temor da aproximação masculina, que dependendo da faixa etária, tem o fervor hormonal, a garantia quase certa de impunidade e a pressão de turmas de cabeças ocas para agravar os riscos. De quebra, a vítima ainda é responsabilizada publicamente pelo constrangimento imposto ao assediador. O que fazer então? Ser o brucutu que esperam que sejamos? Surtar e fazer todas as barbaridades de que nos acusam, mesmo sem nos conhecerem? Contrariar os hábitos que nos custaram caro cultivar, em uma região do mundo que despreza homens assim?


  Eu digo que não. Afirmo e ofereço uma solução que atenua muito o desconforto feminino à presença de um homem estranho. Há muito tempo pratico e tenho aprimorado a prática, por isso posso asseverar sua eficácia. Embora cause alguma estranheza aos transeuntes, te exclui de pronto de praticamente todas as suspeitas prévias de más intenções. Garanto aos receosos, que não imprime qualquer gesto afeminado, se isso lhes for realmente importante.

  Chamo de recato masculino, porque é não mais do que a prática da contenção do gestuário e da explicitação de sua conduta inofensiva à dama passante. Em verdade uma revisão das normas mínimas de civilidade e convivência.


  Em primeiro lugar, mantenha distância. Não se preocupe tanto se as condições não permitirem que esta seja confortável, quem usa o transporte público e anda por calçadas lotadas de gente sem noção de equilíbrio, sabe que nem sempre é possível. Mas é quase sempre possível não tocar na outra pessoa. O esforço feito para manter-se de pé, pendurado em um ônibus lotado, é perfeitamente aproveitável para evitar tocar as partes baixas da pessoa à frente. A tensão gerada pelo esforço e pelo estresse não será menor se deitar-se sobre o corpo da moça. Mais, a tua presença naquele lugar evita que um cafajeste tenha a chance de fazê-lo.


  Deve-se ficar não menos atento quando se é pedestre. Lembre-se de que as pessoas perderam a noção de espaço e do próprio espaço, esbarrões entre dois tontos são sempre mais graves e mais propícios a contendas. Fique atento por si e para os outros. Isso inclui ver ao redor quem se aproxima e quem acompanha teus passos. Dos que vêm é mais simples desviar e manter distância, ainda que seja virando o corpo para passar por locais estreitos, mas dos que vão no mesmo sentido é mais complicado. Assim como tu, eles não têm olhos na nuca. Acostume-se a olhar ao redor, de vez em quando, inclusive para evitar surpresas desagradáveis para si mesmo.


  Caso uma mulher desconhecida esteja no mesmo passo que tu, retarde um pouco a tua marcha e deixe-a afastar-se um pouco. Só um pouco, o bastante para ela saber que se fosses um mal intencionado, poderia safar-se. Não afastar-se demais também é prudente, não só porque poder-se-ia atrapalhar o tráfego, mas também porque tornaria à polícia suspeita a tua atitude, como se quisesses despistar de uma ação frustrada.


  Ainda a passo, faça um ruído mínimo necessário ao caminhar. Pise com o calcanhar, com decisão, mas sem caricaturas, não precisa marchar. Isso faz com que as pessoas ao redor, especialmente à frente, notem a tua presença, evitando o estresse da surpresa e as reações adversas inerentes. Imagine uma mulher sozinha, já traumatizada, que percebe poder antecipar tua aproximação. Embora não seja um alívio, a deixa mais tranqüila, propícia a aceitar tua presença, até mesmo uma ajuda eventual, e evita um ataque de pânico no caso de tua figura lembrá-la de um episódio traumático.


  Não seria, mas aqui se faz necessário em virtude da conjuntura de descontroles emocionais, especialmente de quem se rotula como intelectual, lembrar que se a dama em questão estiver atenta à tua presença, alertada pelos teus passos, estará também a tudo mais ao seu redor, o que pode evitar até mesmo um atropelamento. Por isso mesmo aconselho a todos que usem sapatos confortáveis, de saltos baixos, porque tênis dificilmente produzirão o ruído necessário. Talvez com uma meia-sola de borracha dura no calcanhar, mas tênis hoje são artigos tão caros e tão difíceis de serem trabalhados, que é melhor mesmo investir em bons pares de sapatos sociais, com solados e palmilhas adequados à caminhada.


  As mãos merecem uma atenção especial. Aqui apliquemos a famosa e tão mal interpretada fleuma dos ingleses. Não saia por aí balançando os braços como se todo o espaço da via pública fosse teu espaço privativo. O balanço dos braços deve ser o estritamente necessário para equilibrar o corpo durante a marcha. Nem vou dizer o quanto exageros gestuários passam más impressões e disparam alertas, vocês são capazes de deduzir por si. E não se deixem levar pelo óbvio de “Nem todo mundo que parece é”, o óbvio não passa de um gancho do ego, que te deixa confortável em uma conclusão que não passou pelo crivo do raciocino e da investigação.


  Mantenha as mãos bem próximas ao corpo, mas longe o bastante para que se movam com naturalidade. Para saber qual é essa distância, observe-se parado, se necessário a um espelho, com os braços relaxados. Em público, mantenha-as sempre viradas para o corpo. Qualquer outra posição denotará intenções ocultas, fará com que passes a impressão de estar preparando o bote. Canalhas que se aproveitam do tráfego intenso para tocar partes íntimas de mulheres, ou mesmo de outros homens, sempre deixam a mão pronta para isso, para não perderem chance de serem adjetos. À aproximação de uma dama, e SEMPRE considere uma mulher previamente uma dama, seja quem for, recolha o braço com a mão virada para dentro, junto ao diafragma, como se estivesse carregando um guarda-chuva como se deve carregá-lo. Esta posição te impossibilita de qualquer esbarrão constrangedor e, no caso, passível de má interpretação e sanção legal.


  Sei que nem sempre há tempo hábil, nestas épocas de neurose e pressas absurdas, mas se mantendo a atenção já corres o risco, imagine se fores displicente! Eu esbarro de vez em quando, peço desculpas e sigo meu caminho, não há outro remédio.


  O olhar. Ah, o olhar! Policiais dizem que são capazes de reconhecer meliantes rapidamente, e é verdade. À parte os abusos de alguns, amplamente incentivados por governadores de poucos escrúpulos, eles são treinados e praticam o que treinaram. O meliante sempre tem olhar de predador. Por isso manter uma expressão neutra, ainda com que o cenho franzido, ajuda a manter as damas ao teu redor confortáveis. O cenho pode ter muitas, mas muitas motivações, que uma mulher experiente até pode identificar com razoável precisão. O olhar agudo e direcionado a poucos pontos, sempre significa prontidão para o ataque.


  Ao olhar para uma dama, faça-o sempre aos seus olhos, sob hipótese alguma fixe olhares no corpo de uma desconhecida; na maioria das vezes nem de uma conhecida! E não detenha o olhar se não estiver pronto para iniciar um diálogo, por curto que seja. Olhar à fronte, embora mais confortável do que a outras partes, é uma evocação não verbal, qualquer espécie, especialmente do grupo dos primatas, sabe reconhecer isso instintivamente. Os bebês usam isso para terem a atenção da mãe.


  Aos leitores habituais, ficou claro, após leitura e rápida meditação, que a simples presença de um cavalheiro denuncia a presença de um meliante, por simples comparação comportamental, assim as más intenções de outrem tornam-se mais arriscadas; pelo menos maios fáceis de serem antecipadas e de investigação policial. Sim, há os “homens” que vão te acusar de tudo o que eles realmente são e não admitem, inclusive de não gostares da fruta, mas isso também pode ser bom, vai selecionar tuas amizades.


  O que eu escrevi não é tudo, mas é o bastante para evitar quase todos os apuros a que estamos expostos em uma época que teria tudo para ser a áurea da humanidade, com todos os avanços científicos que as ficções de outrora nem sonhavam, mas só trouxe às relações o pior da idade média.

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