31/03/2022

Esther e Sarah; A beleza

 

The American Look of 1945 by Nina Leen

Sarah visita a mãe levando um pequeno pacotinho barulhento de carne e travessuras. Esther recebe as duas de forma efusiva e calorosa, pega nos braços aquela bonequinha que dará a primeira continuidade ao seu sangue e a balança com suavidade. Ela serve suas descendentes, a pequena Maria com leitinho morno e à filha com chá de hortelã e biscoitos de limão. As duas conversam amenidades em voz pausada para a pequenina se familiarizar melhor com as palavras e o bom português decentemente pronunciado, dando-lhe todos os afagos que lhes pede. A matriarca sobe aos seus aposentos e desce em seguida com duas camisetas que mandou estampar…

 

- “Mamãe arquiteta projetou essa estruturazinha linda”! Mama, eu amei!

 

Ester sorri largamente enquanto sara veste a si e Maria com as peças, cujas colas em “V” e os arremates de mangas foram customizados com flores ao estilo das culturas balcânicas…

 

- Eu queria tanto poder caprichar nos meus projectos como caprichei nessa bolinha de carne barulhenta que tira meu sono todas as noites!

- O que te impede de fazê-lo, Sarah?

- Os próprios clientes, mama. Meu escritório tem uma salinha cheia de maquetes e sketches de demonstração, mas eles preferem essas coisas que estão na moda… até consigo aqui e acolá colocar pontos e detalhes de beleza e personalidade, mas nada além disso…

- Que tristeza repentina é essa, minha filha? Conte para sua mama.

 

Ela conta à mãe com uma mágoa indisfarçada, até porque sabe que não adianta esconder seus sentimentos de quem conhece até o modo de suas írises contraírem. Diz ouvir muito que beleza, entre muitas outras coisas, é construção social e não deveria sequer ser posta a público…

 

- Enganam-se! Essa afirmação estapafúrdia não tem fundamento.

- Mas tem narrativas fortes.

- Há aves pequenas que cantam e são ouvidas a quilômetros, mas todos calam-se imediatamente assim que vêem uma águia.

- Sei, mas como dizer a um acadêmico cheio de títulos que ele está errado?

- Se ele estiver errado, simplesmente diga que está. Somente Deus não erra, abaixo D’Ele, todos são sujeitos a falhas, tanto mais quanto mais arrogante se for.

- Muitos deles são ateus, então…

- Isso é irrelevante. Esse tipo de ateu arrogante tem seus deuses, só que de carne e osso. Sente-se, respire pausadamente para não preocupar Maria, vou servir-lhe mais chá e biscoitos então explicarei.

 

Sarah se senta acariciando a filha no colo, faz o que a mãe pediu então é servida com finesse. Não se trata de elitismo, mas de autocontrole, utilizando-se da cerimônia do chá para recuperar o centro e se colocar no comando das emoções…

 

- Minha joia, antes de mais nada existe sim um padrão natural de beleza, que não é absolutamente rígido, mas tem suas regras claras e escritas pela própria evolução de cada espécie. Não se trata de futilidade estética, mas do resultado de bilhões de anos de aprimoramento até chegar ao que melhor funciona para a subsistência da espécie na nossa era. As espécies mais primitivas, como alguns reptilianos, se atêm a quem se pareça consigo e que emane odores específicos, mas até entre eles há diferenças fenotípicas entre o macho e a fêmea, que ajuda um crocodilo a não se meter no território de outro macho da espécie.

- Horror! Horror! Horror! Se eu tivesse dito algo assim na faculdade, teria sido decapitada!

- É com muito pesar que eu acredito. Não é de hoje que vejo essa negação da beleza, desde os anos setenta que grupos começaram a tratá-la de modo pejorativo e apontando o dedo para as moças que se cuidavam. Sabia que já puxaram meu cabelo, me acusando de sabotar as causas da liberação da mulher por “subserviência ao namorado”?

- Putsgrila! A pessoa não saiu impune, saiu?

- Decerto que não. Precisei desfazer o coque e prender num rabo-de-cavalo, mas a criatura estúrdia precisou de intervenção odontológica. E aqui vem outro ponto de nosso tópico; é justamente corrompendo as guardiãs da beleza, nós, que os dejetos genéticos conseguem numerário para seus fins espúrios. Incentivar a anorexia e a bulimia, acusando de preconceito e intolerância até mesmo aos médicos que se opõe a isso, faz parte dessa doença. Ponha uma coisa nessa sua cabecinha ainda tão jovem, que mal fez dezoito e já nos deu esta pequena bênção: Beleza é natural e essencial. Como eu disse, cada espécie tem a sua, e nisso reside sua relatividade, não nas narrativas de gente revoltada com o mundo que as sustenta. À parte os excessos, incentivados justamente por essa gente, a beleza humana tem sim um padrão com boas margens de tolerância; para mulheres é de feições delicadas, busto farto, cintura fina e quadril largo; para homens é feições severas, peito largo, braços fortes e postura altiva. Basta ver em agrupamentos mais primitivos e reconhecerá esses padrões, com maior ou menor intensidade, mas estão sempre lá justamente porque funcionam.

- E a senhora?

- Eu o quê, Sarah?

- Esbelta!

- É a minha compleição (risos)! Mas veja, não me furtei o direito a camadas salutares de gordura, isso me esculpiu… Sim, mesmo assim sou um tanto esbelta, mas nunca quis ser a gostosona do bairro.

- Nem na sua época de adolescente revoltada?

- Nem naquela época. Minha mãe me ensinou a ser crítica com o que vem de fora, isso me ajudou a ver que os grupos que tentavam me cooptar não eram diferentes dos outros, um lado me via como objecto, o outro como instrumento. Aprendi a me arrumar para mim, para gostar do que vejo no espelho, só depois de grandinha é que percebi que isso agradava aos garotos.

- A senhora me ensinou isso também…

- E espero que você ensine Maria.

 

Uma pausa, mais afagos em Maria, mais uma fornada de biscoitos, desta vez de chocolate, e mais um pouco de chá. Falam um pouco sobre Jacob e sua luta para fazer propagandas acima da linha do medíocre, ele sempre se lembrando com pesar da genialidade simples que eram os reclames do Fiat 147, em comparação com o lixo caro e caótico que usam para promover os carros de hoje, que não são muito melhores do que suas campanhas publicitárias…

 

- Eu compreendo e oro por meu filho, para que tenha forças e discernimento, porque sei muito bem em que ninhos de serpentes ele precisa pisar todos os dias. Lembre-se, Sarah: Um simples elogio não é por si mesmo um assédio, gostar do corpo feminino saudável não é machismo, tem mais afinidade para um fenótipo do que para os outros não é racismo, ficar horas admirando um corpo nu em uma revista não é estupro…  tem outros nomes, mas nem de longe é uma violência dessas…

- Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

- Eu chamaria essa fixação, de modo elegante, de puerilidade compulsiva…  mas voltemos ao assunto… Aquela frase desprezível “a quem a biologia serve” é mais uma invenção dos negadores da beleza, repetida à exaustão por gente que repete bordões alheios pensando que tem pensamento crítico. A biologia não serve a ninguém, ela não precisa de nós, existe desde antes da primeira cissiparidade, já agia nos coacervados para evoluírem até formarem os primeiros seres vivos. A medicina é sua filha primogênita, tudo o que ela faz é seguir os ditames da mãe para não cometer erros que não possa reparar. Você sabe como surgiu esse padrão de beleza que temos hoje no ocidente?

- Hollywood?

- Não. Por incrível que pareça, não foi obra de uma mídia. Foi nos anos 1940, quando a ciência passou a se valer de métodos mais rigorosos de pesquisas, o que infelizmente acabou gerando mais impessoalidade do que o necessário, mas deu frutos de que nos servimos ainda hoje. Uma dessas pesquisas revelou o que seria o corpo perfeito, do ponto de vista da saúde, e o resultado foi algo muito próximo do padrão natural de beleza humana; nada de esqualidez e tampouco excessos de adiposidade, mas simplesmente um corpo equilibrado com musculatura moderadamente desenvolvida, um pouco de abdômen, no caso do corpo feminino mais sinuosidade, postura erecta e olhar altivo. Como modelo se utilizaram de uma atleta, mas uma mulher tipicamente americana, sem nada de extraordinário em suas medidas e nem mesmo com um rosto particularmente bonito. Isso coincidiu com os valores de uma década que estava emergindo da grande depressão, a austeridade em todas as áreas ainda era vista como demonstração de civilidade e elegância, numa época em que elegância era parte do padrão social de beleza. Inclusive recentemente um corpo assim foi classificado como perfeito pelos cientistas, da modelo Kelly Brook. Ela não é uma atleta, como os escolhidos para as pesquisas nos anos quarenta, é simplesmente um corpo perfeito, mais sinuoso e macio do que na época. O atletismo antes dessa onda de doping, por ser sinônimo de saúde, foi o padrão utilizado como ponto de partida para o que divulgaram porque era um bom exemplo para a juventujde. O resultado é que por décadas o corpo curvilíneo e bem tonificado foi objecto de desejo das moças.

- E as gordinhas sofreram.

- Em muitos casos sim. O prêt-à-porter adorou o que considerou uma padronização do corpo humano, sem atentar para a flexibilidade de proporções que esse corpo perfeito permite, por outro lado isso garantiu o trabalho das costureiras que ajustavam as peças. Mais padronização, menos custos de produção, isso é óptimo para a fabricação de máquinas e insumos, mas não tanto para vestuário. Com a dificuldades em encontrar números adequados, especialmente as mais jovens, o humor de mal gosto teve início oficial, o resto nós já sabemos.

- Os cientistas com a melhor das intenções apontaram um norte…

- E os picaretas da moda transformaram uma estrada reta num labirinto. Claro que os ideólogos viram a oportunidade perfeita para cooptar pessoas com cujas lágrimas as pessoas não demonstravam compaixão, eles também não dão a mínima, mas fingem magistralmente que sim e guiam essas pessoas para outro labirinto. O mote é “Se agrada ao meu inimigo, é ruim”, mesmo que até então agrade à pessoa em questão também, de então em diante passa se reprimir para odiar. Assim começam a se encher de tudo o que não presta, seja comida, bebida ou drogas, para se afastar da harmonia de proporções que caracteriza um corpo saudável, porque o inimigo da causa aprova.

- Nem tudo é construção social…

- Não, na verdade o espaço para “construção” é mais estreito do que parece, as condições em que um ser humano consegue sobreviver são restritas, qualquer abuso comprometeria irreversivelmente a sobrevivência do indivíduo, por conseqüência também do grupo que integra. Os povos primitivos precisavam ser pragmáticos, se apegar ao que funciona e descartar o que não funciona, não existia mídia naquela época, foi assim que todas as tradições nasceram, e em todas elas a beleza tem papel central. O uso de coincidências como se fossem provas, à moda de advogados baratos de porta de cadeia, é uma das vigas frágeis desse chassi de vidro que sustenta essas narrativas negacionistas, e por isso defendem-nas com tamanha ferocidade, não admitindo que a outra parte tenha espaço para se expressar; no fundo, sabem que é tudo mentira, como num casamento de conveniências. Não precisamos que revoltados e picaretas nos ditem o que é belo ou não! Nós sabemos instintivamente o que é belo aos olhos humanos, um corpo harmonioso é belo e a beleza não é um crime.

 

Sarah acaricia as bochechas da filha, pensando em que tipo de mundo ela vai crescer, se desde que se sabe por gente ele só tem piorado. Se lembra de quando participou de um concurso informal de pinups no colégio e, justo na sua apresentação, o salão foi invadido por gremistas que queriam reprimir o evento e proibir futuros, gritando palavras de ordem sem dar chance de resposta, apontando dedos e acusando os presentes como se fossem criminosos, apesar de todos terem participado por seu próprio arbítrio; ninguém interferiu nos protestos pró drogas que aqueles fizeram dias depois. Fizeram outro concurso depois, em ambiente privado, mas aquilo não lhe sai da memória, nem a intervenção furiosa de seus pais na sala da reitoria. Ela olha para a mãe e toca no assunto…

- Eu acompanhei a vida de cada um deles, naquela época… metade já morreu de overdose.

 

Sarah arregala os olhos em uma expressão de terror que não surpreende Esther.

 

- Adivinha se houve mea-culpa ou mesmo um lamento pelo caminho que os idiotas escolheram…

- Aposto que não… exigiam respeito sem ter que respeitar a decisão alheia. Quando descobriram que eu fui premiada no estilo Alberto Vargas, apareci como pária no jornal do grêmio.

- Como foi quando decidi ser exclusivamente dona de casa. Meu corpo, minhas regras. Eu decidi preservar o que é naturalmente feminino em mim, e foi por isso que as pistoleiras se viram no direito de tentar sabotar meu casamento… e havia feministas incentivando, justo aquelas que me jogaram pedras na escola…

 

Sarah suspira fundo, vê nas edificações modernas os resultados disso, tem verdadeiro horror por fachadas de vidro, tanto pelo racionalismo patológico de conjuntos habitacionais financiados pelo Estado…

 

- Assumir a beleza é um risco.

- É um risco… muita gente usa da própria inveja para insuflar essas manifestações, fazendo direitinho o jogo dos cafajestes, que têm a chance de aprisionar uma mulher bonita que se sente culpada por sê-lo. Irônico, não?

- Não, nem um pouco irônico. É hipócrita mesmo.

 

Esther anui. Sarah dá o bebê à mãe e se levanta, vai ao espelho da sala, ajusta a camiseta e se admira, nota os glúteos que se formaram com as inúmeras vezes diárias em que sobe e desce os três andares que separam seu escritório do térreo, arregala os olhos, puxa uma perna das calças e nota a tonificação da perna, escancara o sorriso e olha para a mãe, que aplaude sendo imitada pela pequena…

 

- Quer saber? Vou encomendar um ensaio photográphico.

- Estou ansiosa para ver você finalmente assumir a sua beleza!

- Espera! Fique assim, do jeito que está!

 

Sarah saca o celular, abre a câmera e pega distância. Enquadra bem a cena explícita de feminilidade de sua mãe de vestido médio azul claro com a neta no colo, naquele sofá minimalista em cinza mescla claro, com flores nas mesas laterais e o jardim ao fundo. Ajusta a exposição, dá a maior resolução possível e presenteia a família inteira com aquela cena. Esther enrubesce, mas não perde a pose.

11/02/2022

The last goodbye

Audrey Hepburn

 

Don't cry so much because of me!

Because of me! Because of me!

I'm going away! I'm going away!


So far away! So far away!

I'm goind away! So far away!


You'll start your life over with someone who'll love you. Who'll love you!

Don't stop your life remembering the good times! Our sweet times!

The good times! Our sweet times!

The good tiems! Our sweet times!


All that moments with you was wonderfull! So wonderfull!

My life by your side had a great sense. So clear sense!

So clear sense! I had plans!

I had plans! A plans for us!


But honey, the life doesn't care about our feelings!

Don't care about our feelings! 

Don't care about our feelings!


Our feelings! Our feelings!

Our feelings! Our feelings!


Don't cry so much, get up and go ahead! Enjoy your life! Your single life.

Do it for me, walk away and live! Go and live. You're alive!

I don't regret anything I did! I did my best in everything.

I love you, but right now my live is ending.


I love you! I love you!
This is the end! This is the end.


I love you! I love you!

I love you! I love you!


I'd wish to live with you for ever! For ever! Anyway!

But life doesn't care about our feelings! Our plans.

Don't cry too much this is not our fault.

My life is ending! Is ending!


My life is ending! My life is ending!

I'm dying! I'm dying!


I'm dying! I'm dying!

I'm dying! I'm dying!


Good bye...



22/01/2022

Façam seu próprio doodle, se quiserem um




             Não é só aqui nesta porção do ocidente que as festividades de natal fazem a diferença, mito mais para o bem que para o mal, diga-se de passagem. Elas salvam as peles de muita gente no mundo inteiro, simplesmente porque a demanda comercial desta época gira a máquina econômica no mundo inteiro desde o início do século XX, desde a extração da matéria-prima bruta até a logística das encomendas. Não vou repetir aquela ladainha de condições de trabalho porque a mídia faz isso todos os anos sem o mínimo de graduação, e seus repetidores compulsivos alardeiam essas notícias execrando o natal sem JAMAIS fazerem absolutamente nada de concreto para melhorar as condições daquelas pessoas, pelo contrário, querem é destruir a única oportunidade certa de trabalho que muitos têm ao longo de um ano inteiro. Aceitar pagar mais para eles ganharem mais e viverem melhor? Não! Absolutamente não! Nem pensar! Qualquer coisa mais cara do que "de graça" para esses tipos é exploração pelo lucro. Mais do que isso, não só mais ideólogos neopentecostais que se metem nessa sanha utopista, tratando como pecado capital aquilo que na realidade salva milhões de mesas todos os anos, por três meses ou mais. Agora as ditas "big tecs", cujos rendimentos dependem das empresas que lucram alto, ou pelo menos se safam da falência nos meses que rondam o natal, também passaram a tratar ele e virtualmente TODAS as tradições cristãs como confissão de culpa; em resumo, aquele bebê recém-nascido já é culpado pelo que seu ancestral de 1650 possa ou não ter feito.


            Deixo claro que não sou contra, muito pelo contrário, que lembrem tradições de outras culturas, outras religiões, outros povos e até tragédias de comoção global. Quanto mais cultura, melhor. O típico e acomodado cidadão das Américas precisa mesmo saber que existem outras coisas para além de seus mundinho e suas fronteiras, e que as pessoas fora deles não são necessariamente alienígenas que se aproximam para dizer "phone... home..." ou qualquer outra coisa. Um doodle afim, por exemplo, é mais do que perfeito para lembrar e fixar isso na memória coletiva. Nenhum problema em lembrar do pessach e do ramadã, por que haveria? O problema é que por causa de "tradições históricas de povos historicamente oprimidos ao longo da história", povos esses que quase nunca chegaram aos locais em que estão de modo pacífico, às vezes nem poupando quem já estava lá, as estúpidas empresas de serviços virtuais de rede estão simplesmente desprezando as tradições justo dos povos que as sustentam. Falam em "multiculturalismo", mas são as primeiras a deixar claro que as milenares e nem um pouco mais culpadas do que as outras tradições do resto do mundo tradições cristãs, não têm lugar nesse mundo "multicultural". Isso não é de hoje. Só aceitam multiculturalismo com culturas dos outros, aquelas que os mantiveram vivos na juventude e os sustentam até hoje, não servem. Para muitas dessas culturas, aliás, o que eles defendem é pecado capital. Historicamente, mente muito mesmo!





            Há muitos anos, desde o começo do século (como podem ver clicando aqui) o Google se recusa de modo arrogante a fazer o doodle de páscoa. Também não é de hoje que essa gente tem medo patológico de polêmicas e desavenças, por isso mesmo prefere desabilitar uma busca, piorando ainda mais os serviços que nem de longe são os que eu conheci por muitos anos, do que assumir seus erros e acatar as demandas do público; não aquela gente que vive numa bolha e pensa que vai salvar a humanidade que odeia, mas o público mesmo, o montante tratado como ignorante e que na realidade sustenta todo o planeta. Se recusaram a fazer os doodles de páscoa, de semana santa, de natal e nada indica que esses cristofóbicos vão fazer algum para este ano. Fizeram para as festas NÃO CRISTÃS, celebrando prazeres, as diversões o vampirismo mútuo, mas nem pensar em lembrar o sentido original das celebrações que renegam. Isso não significa que não haja gente usando algo bom para fazer o mal, Hitler fez isso, Mussolini fez isso, Hirohito fez isso, Stálin fez isso, Mao fez isso, ninguém além de seus seguidores nega. No entanto, em vez de chamar as pessoas para o sentido mais nobre das celebrações ocidentais, se resumem a fingir que elas não existem, isso quando nas as demonizam. Chamar as pessoas para a partilha? Fazer lembrar o próximo em dificuldades? Mostrar que o presente é um meio e não o fim em si? NÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!!!!!! É muito mais fácil, cômodo e divertido ser simplesmente contra e tentar fazer o mundo esquecer de suas origens. Apesar do que eles fazem parecer, existem sim altruísmo e filantropia sincera entre as pessoas mais tradicionais, não é nossa culpa terem escolhido lidar com as pessoas erradas.


            Vamos ser claros, nada na humanidade é perfeito, nada chega sequer a ser bom na maior parte do tempo, mas tem funcionado. Se não funcionasse, bestas, já estaríamos extintos, do jeito que seus mentores ideopatas querem, apesar de posarem como benfeitores filantropos altruístas. Se a SUA família é uma miséria que só existe para dar desgostos e depois finge que está tudo bem, o problema é SEU! Seu e de mais ninguém! Todas as famílias têm problemas e isso se estende até mesmo na natureza, não só no reino animal, mas até entre as plantas; uma semente que caia muito perto da árvore terá problemas. Bem ou mal, as famílias se protegem, protegem seus membros, os socorrem com podem e à amiúde deixam as diferenças de lado na hora da emergência. Essas cutucadas que vocês vêem em redes sociais são só isso mesmo! Ninguém ficaria junto, mesmo que de forma virtual, se um décimo do que os detratores dizem fosse verdade. Funciona! Funciona tanto que desde o século XVIII não é mais bem visto o comportamento bruto e cruel tolerado na idade antiga, desde o XIX não é mais bem visto comercializar pessoas, desde o XX não é mais bem visto tratar gente diferente como desmerecedora de dignidade. Isso tudo não foi conseguido por esses bocós de mula, foi feito pelos avós e bisavós que eles hoje desprezam e tratam como criminosos. Falam mal da riqueza sem abrir mão das fortunas rápidas que conseguiram com publicidade na internet. Nem vou repetir o que já digo há tempos sobre a tolerância que eles têm com ditaduras, enquanto censuram da forma mais sem-vergonha a opinião alheia, e tentam fazer doenças como obesidade e anorexia não serem vistas como doenças.





            Já faz tempo (ver aqui) que os descontentes buscam alternativas ao rebelde, com essa demanda os concorrentes surgem a todo momento e, é claro, a receita fica comprometida. Da mesma forma como deturpam as celebrações, usam dos mesmos expedientes para fazer o usuário acreditar que não pode viver sem eles, se baseando em facilidades, prazeres, vantagens e todo tipo de apologia à indolência, com isso fomentando o egoísmo que dizem combater. Mas contradições só a outra parte tem, a deles é bem intencionada e voltada para a preservação do meio ambiente, o mesmo que os países aos quais se curvaram moem e queimam todos os dias sem ninguém dar um piu. Pensando bem, a obra fala mais do que as palavras, então isso explica muita coisa! São reles fariseus digitais! Eles sabem no fundo que não servem para nada, vivem de enrolar as pessoas e tirar dinheiro dos incautos, vendendo cada passo e cada gesto seu na internet a quem pagar por isso. Então são até piores do que Judas! Ele fez aquela asneira acreditando que o pior não aconteceria, já aqueles o fazem sabendo que o pior vai acontecer! Se tu não pagas, não ajudas ou mesmo não encaminha a quem possa ajudar, então o serviço "grátis" cobra um preço bem alto! Pago o que posso, se não posso eu fico sem e continuo vivendo.


            O ditado "façam o que eu digo, não façam o que eu faço" é pouco, agora é "façam o que eu digo e nem olhem para o que eu faço" porque o risco de represálias é real. Eles querem que todos finjam estar em harmonia plena, que sejam submissos aos governos, que não vivam sem tirar os olhos de uma tela luminosa com acesso às redes sociais. Na verdade muita gente não consegue mais viver sem essas porcarias, precisamos urgente de um tratamento em massa de desintoxicação, nos mesmos moldes dos alcóolicos e narcóticos anônimos. Vá questioná-los para ver, vá! Se for nas redes sociais, o risco de punição e censura é quase uma certeza. Se for cara a cara, cosia que os covardes evitam a todo custo, virão com discursos prolixos de "uma discussão ampla e democrática" enquanto em seu meio a opinião (como, não gosto de funk carioca) é tratada e punida como crime hediondo e inafiançável. A única rede social electrônica confiável era a lista de contactos do telephone analógico, e olhe lá!


Nem Pedro me negou tantas vezes!



            Quanto aos doodles de páscoa, não queimem azeite procurando pelo que quase certamente não vão encontrar, façam vocês mesmos os seus. Eu sugiro até mesmo que os publiquem em seus perfis, enquanto ainda não forem censurados por "promoção da opressão às culturas secularmente oprimidas dos povos ribeirinhos dos desertos", mas sem alarde, apenas para que seus contactos vejam, compartilhem e se dêem conta de que não estão sozinhos, porque o bombardeio de desgraças que a mídia faz diariamente, os faz crer que estão. Vão alardear os preços dos ovos de páscoa, pegar o gancho para falar da inflação, tentar colocar na culpa do seu chocolate a causa da miséria nos países africanos cujos antigos líderes se alinharam aos soviéticos, mas sob hipótese alguma vão lembrar e insistir que algo de bom e repleto de esperanças pode haver ali, vão focar no consumo, te fazer sentir culpa por comer chocolate, enquanto embolsam os lucros dos anúncios. Esses doodles que aparecem neste artigo, são montagens que eu mesmo fiz no simples e arcaico paint brush. Se eu fui capaz de fazer, vocês tiram de letra.

06/12/2021

O maldito opressor do bairro

  

Via Área de Mulher


           Pedro Exelissómenos era um homem comum de um bairro pobre comum, com uma vizinhança pobre comum, que preferia pagar cem por cento de juros em prestações a perder de vista em uma televisão maior do que a parede, a ter uma de tamanho médio e investir os recursos restantes no bem-estar da família. Pedro, porém, não se sentia confortável nessa situação, estava mais se espremendo para se adequar do que propriamente usufruindo da vida que levava. Certa feita, na volta para casa, o ônibus com suspensão e chassi de caminhão precisou fazer um desvio, passando por um dos poucos bairros nobres restantes, posto que a maioria se mudara para cidades privadas que chamam de "condomínio fechado", como se este já não existisse aqui dentro. Enquanto os outros se admiravam com a riqueza e alguns cuspiam nos carros estacionados, inclusive em um raro Mercedes-Benz SL500 com a capota baixa, Pedro observava o que até então lhe passava desapercebido. Não era só pela coleta mais freqüente que aquelas ruas eram limpas, todo o lixo era depositado em local adequado e bem organizado, mesmo as coisas que os ricos não queriam mais eram postas de modo a não atrapalhar o caminho dos vizinhos. A grama também era interessante por estar bem cuidada e bem aparada, enquanto sua rua era um matagal só. Bem, aquilo ele poderia fazer, não precisava ser rico para ser limpo e civilizado. De repente reconsiderou a compra daquele celular caro e badalado. Estava mesmo na hora de comprar um novo, mas optou por um modesto que, surpresa, atendeu com sobra a todas as suas necessidades. Como custou menos do que um carro usado, pôde parcelar em menos vezes e pela primeira vez sem juros.


            Pedro chegou em casa e viu aquela baderna em frente à sua porta. Na falta de um tesourão, pegou um facão e deixou aquele mato com cara de grama, voltou para dentro a tempo de pegar o lixo e o colocou em uma caixa à porta, então foi tomar seu banho. Para quem passava em frente, a diferença era gritante, a casa de Pedro estava cercada me mato que os vizinhos esperavam que a prefeitura roçasse. Com o lixo bem acondicionado, os coletores levaram rapidamente sem deixar cair nada pelo caminho, com isso sua frente também estava bem mais limpa do que as dos vizinhos. Até aqui tudo bem, era só uma casinha mais limpa do que as outras, situação que pensavam que não fosse durar muito tempo. Mas durou. Com aquela imagem de civilidade pulsando em sua mente, Pedro começou a prestar mais atenção à sua casa e à sua família, mudando suas prioridades e realocando seus parcos recursos para seu lar. Em vez de comparar aquele televisor O-led de cem polegadas com imagem tridimensional e sistema de som tetradimensional, manteve o seu de quarenta que já tomava boa parte da parede. O dinheiro não gasto foi investido na família. Pôde pagar um tratamento dentário em uma clínica melhor e não deixou de prestar atenção à decoração que, olhando de perto, poderia fazer similar em sua casa com madeiramento que vê jogado fora no bairro. Não foi difícil encontrar a matéria-prima de precisava. Tratamento com óleo queimado, cortes bem feitos em uma marcenaria e pronto. Toras mais brutas se tornaram um caminho do portão à porta de casa, que por dentro recebeu painéis de madeira em todos os ambientes, que inclusive permitiam pendurar prateleiras e elementos de decoração.


            Para os que passavam a trabalho pelo bairro, era como ver uma casinha de classe média em um espaço limpo no meio do lixão. O carteiro já não confundia mais os endereços, inclusive porque o da casa estava bem nítido e ladeado por pastilhas de cerâmica azul, enquanto na vizinhança o melhor que havia era algo pintado à mão em pedaços de lata que a ferrugem já carcomia, muitas vezes ilegível. Por dentro as mudanças eram comentadas pelas visitas, porque eles estavam comendo melhor, não necessariamente gastando mais, mas os hábitos da casa estavam se refinando quase que inconscientemente. Nem tudo vinha mais do supermercado do bairro, que já não supria mais as necessidades da família, muita coisa era trazida de lojas mais centrais, o que também não deixou de ser notado pelos vizinhos, que não viam mais Pedro torrando seu dinheiro nos botequins próximos. Alguns amigos se afastaram e gente nova tomou seu espaço, acentuando mais as mudanças, que não demoraram a se refletir na indumentária, eles não aceitavam mais pagar caro para parecerem mendigos e fazerem propaganda grátis para marcas da moda. Um discreto e eficiente Prisma branco não demorou muito mais a encontrar vaga na garagem daquela casinha, do lado oposto ao do alpendre com seus bancos rústicos de madeira de toras descartadas em podas m al feitas pela prefeitura. Estavam tão imersos nessa nova vida, que só os comentários dos parentes os fez se darem conta do que estavam fazendo. A bem da verdade, só trabalharam com o que já tinham, em cima daquela mesma casa que passaram a cuidar melhor, e isso por si já tinha feito uma gigantesca diferença, o facto de estar limpa e com a pintura em dia a destacava das demais.


            Pedro e sua família começaram a pegar gosto naquilo em que estavam vivendo, em poucos meses sua humilde casinha já não tinha mais "suja" e "sufocante" como adjetivos. Só com material descartado, e algumas velhas revistas de decoração, conseguiram transformar sua casinha humilde em uma humilde ilha de beleza e bom gosto naquela vizinhança. Sua parte da calçada estava limpa e com a grama aparada, o lote contando com jardins verticais e lugares para se sentar e descansar. Claro que nem tudo fugia à regra, eles tinham suas contas em redes sociais, então publicavam normalmente imagens e vídeos curtos, cuja diferença paulatina foi notada e comentada pelos contactos, até chegar ao ponto em que pareciam ser uma família de classe média não deslumbrada. Agora não só comentavam como compartilhavam as postagem aos milhares, fazendo o mundo ver gente pobre sem pobreza mental, arrancando elogios de várias partes do mundo, com o bom gosto e a originalidade arrebanhando fãs pelos quatro cantos do mundo. Ah, isso foi demais! Quem eles pensam que são para querer parecer mais do que seus vizinhos? Não demorou para um ou outro jogar seu lixo na frente daquela casa, e as queixas não demoraram a serem respondidas com violência, então parecia que o bairro todo jogava seu lixo na calçada bem cuidada deles. Facilitou a vida da coleta, mas os coletores não gostavam do que estavam vendo, aquilo de jeito nenhum era lixo de uma casa só.


            Pedro conseguiu em uma demolição uma grande estrutura de condomínio para o lixo, acreditando que isso resolveria o problema, mas não. Ignorando a providência, continuaram jogando lixo em sua calçada, e eles tiveram que trabalhar mais para manter sua frente limpa. A ousadia, nutrida pela impunidade, posto que o poder público deu de ombros para as denúncias, fez os autores publicarem em vídeo o que faziam, e nesta era em que o podre tem mais apoio do que a sanidade, os vândalos conseguiram fãs. Não demorou a aparecerem fezes bem na saída da casa, e o lixo ser jogado para dentro do lote. Com tristeza a família Exelissómenos decidiu se mudar, mas em silêncio, sem nem mesmo contar aos parentes. Em um dia de jogo de futebol, com todos amontoados e berrando em poucos lugares, conseguiram ir embora levando o que conseguiram de toda aquela decoração já feita, mas muita coisa simplesmente não podia ser transportada. Findado o jogo, com a derrota amargando e sendo nutrida pelo álcool, alguém aventou que Pedro seria torcedor do time vencedor, então graças a Deus que saíram cedo e sem alarde, porque o que eles puderam destruir, foi destruído. Só não tiveram o linchamento que pretendiam porque a esta altura Pedro estava ajudando a organizar sua nova casinha, ajeitando como podia os elementos de decoração que tanta ira atraiu daquela vizinhança. Aos filhos autorizou continuarem a postar imagens e vídeos, desde que não revelassem seu endereço.


            Mas para a felicidade deles, estavam mais próximos daqueles internautas que tanto elogiaram suas postagens, e reconheceram de cara o estilo enquanto passavam por aquela nova rua. Ao baterem à porta para pedirem indicação, encontraram o próprio artista, cujas feições e olhar não escondiam suas origens humildes e sofridas, mas já não era aquele olhar de derrota e rancor de outrora. A tristeza então era pelas circunstâncias que obrigaram sua família a sair à francesa daquela casinha, que virou ponto de tráfico e aterroriza a antiga vizinhança. Ele começou orientando os novos vizinhos sobre o que poderiam fazer com o pouco que tinham, no caso dos passantes mais abonados como não parecerem cafonas deslumbrados. Como gosta de crianças, fez coisas com compartimentos secretos, surpresas, elementos que mudam de forma e se transformam em outra coisa, com isso encantando até os adultos. Foi no primeiro Dezembro na casa nova, com a decoração deslumbrando e virando notícia, que Pedro precisou deixar seu emprego, porque as insistentes encomendas de lojas e residências tomaram todo o seu tempo, precisou abrir um CNPJ e colocar a família para trabalhar. Decorações de natal com compartimentos secretos, surpresas, alta interatividade e alto grau de personalização deram início à vida para a qual então já estavam realmente prontos e familiarizados. Comprar celular caro? Televisor gigantesco? roupa brega e cara com jeito de mendicância fazendo propaganda para a grife? Atormentar a vizinhança com som no último volume e obrigar todo mundo a ouvir o que eles querem? De jeito nenhum! Até porque o que eles gostam de ouvir hoje, simplesmente não combina com exibicionismo, não combina com pobreza mental.

27/11/2021

Comentários que ninguém me pediu, mas fiz assim mesmo

Clara Nunes



Ao contrário de vias externas, que fazem os sistemas mais avançados confundirem uma lua cheia com sinal fechado e forçam uma frenagem de emergência por causa de um trem que está correndo no subsolo, o ambiente funcional é perfeito para veículos autônomos, tão perfeito que pode até dispensar assistência externa de antenas transmissoras e satélites. Aliás, não existe autonomia real se há dependência de meios externos para qualquer coisinha que se faça. O ambiente controlado de uma empresa, ou mesmo de treinamento das forças armadas, é o melhor possível para não só utilizar, como também aprimorar carros autônomos, de modo que venham a ser realmente autônomos, sem precisar usar crianças estabanadas a correr inadvertidamente para a rua como cobaias. Da mesma forma, embora com restrições, corredores fechados de uso exclusivo do transporte público são excelentes para isso, não só pelo uso (teoricamente) restrito da via, mas também pelo milionário preço de um bom ônibus articulado ou biarticulado, que diluiria muito bem os custos de um sistema de controle de automação veicular, embora aqui o monitoramento humano ainda seja imprescindível.

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Ainda sobre esse excesso de confiança na tecnologia, que querem nos enfiar goela abaixo, a dependência de fornecimento externo de instruções e permissões já começou a causar mais dores de cabeça do que os entusiastas conseguem esconder. Ficar trancado do lado de fora do carro por não haver meio físico para o próprio dono entrar, ou dentro por não poder sair, pode acarretar riscos à integridade física. Não me refiro apenas à chateação de perder o controle de sua propriedade e ficar debaixo de chuva, e um Tesla não é barato nem nos Estados Unidos, mas também aos casos de emergência em que a celeridade das providências podem ser a diferença ente a vida e a morte, como um médico precisar sair no fiofó da madrugada para atender um paciente na mesa de cirurgia, situação que está longe de ser rara. Imagine isso acontecendo com uma ambulância, com uma viatura policial ou do corpo de bombeiros. Ter que quebrar os vidros do carro para resgatar seu filho, por exemplo, e descobrir que o caro mandou um alerta de tentativa de roubo para a polícia, seria uma experiência horrível. Não menos pior, imaginem a sua casa “smarthome” barrando a sua entrada por falha no servidor do fabricante, ou porque um hacker decidiu usar isso como meio de chantagem; pior, um hacker pedófilo decidiu usar isso para gravar seus filhos pelas câmeras da própria casa…

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Agora, por que há tanto incentivo para que tenhamos essa confiança cega na tecnologia? Suspeito que um dos motivos é o adestramento para que tenhamos paulatinamente confiança cega nas instituições, nas ONGs, nas empresas, enfim, o que facilitaria nos convencer a ter confiança cega no Estado; leia-se, políticos. Notaram que os amantes da Tesla, por exemplo, agem tal qual uma torcida organizada, às vezes como uma máfia? Foi só a Ford lançar aquele (AAAAAAAARG!!!) suv eléctrico do Mustang e a imprensa especializada morrer de amores por ele, que seus proprietários passaram a ser ameaçados pelos teslanóicos. Gente assim é facilmente mobilizada para agredir e até matar opositores de figurões, que ficariam limpos na imprensa por não terem precisado mandar ninguém fazer nada. Aliás, se eu fosse um repórter automotivo e começasse a ver no Celestiq qualidades que não tivesse visto no Model S, eu providenciaria segurança privada. Com esse tipo de gente submissa e raivosa à disposição, é extremamente fácil conseguir censurar a mídia, seja por coerção, por destruição dos meios de publicação ou por puro extermínio; coisa que certos países já fazem, cujos regimes são cegamente acatados por gente da própria mídia e por formadores de opinião na internet.

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Uma forma velada de censura, por exemplo, é dar amplo espaço a gente que é totalmente contra ou totalmente a favor de algo, mas dar pouco ou nenhum espaço para o outro lado, no caso de uma mídia informativa como a dos jornais. Ironicamente, só que não, são justamente aqueles que reclamam de censura externa os que mais a impõe em suas instalações, muitas vezes até pela linguagem corriqueira não ser a padronizada pelo editor. Muito pelo medo de turmas barulhentas, mas muito menos numerosas do que fazem parecer, afugentarem os patrocinadores e atraírem as atenções de políticos mais oportunistas, a editoração enviesada adora lançar bombas contra quem o senso comum rotula como mau, ainda que sobre esse alvo se erija justo o sustentáculo de tudo o que mantém esses mesmos jornais de pé. Se há uma coisa que esses gritadores odeiam em seus domínios, e o golpe de 1889 o fez na prática, é a plena liberdade de pensamento e expressão.

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Escrever textos enormes, prolixos e repletos de referências, para só nas últimas linhas do último parágrafo contar o outro lado da história, e ainda usando uma linguagem sem graça, faz parte da tática, confiando que o grosso dos leitores só lê as partes de destaque. Adoram lembrar da nefasta era da escravidão africana, mas hoje dão de ombros para as aflições que dilaceram o coração dos países africanos. Assim como a memória de uma professora que morreu defendendo seus alunos não vale absolutamente nada para eles, as vidas de professores e estudantes mortos por rebeldes também não. E por falar nisso, a imagem que eles vendem da África é basicamente aquela caricatura que predominava no cinema até meados dos anos 1970, como se não houvesse metrópoles e indústrias naqueles países. Mesmo os europeus, que moram ao lado, têm uma visão mais deturpada do que seus avós tinham dos africanos, não devendo em nada ao americano mais alheio ao mundo.

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Aliás, o próprio continente americano, que um dia eles empinavam seus narizes para chamar de “colônia”, é um grande desconhecido deles, que se contentam em ruminar noticiários que confirmem suas visões e narrativas de estimação. Arrotam a defesa de liberdades, mas quem mais faz isso ainda tem e não abre mão de suas colônias, inclusive uma delas é nossa vizinha de extremo norte. Hoje não passam de um monte de países que se amontoam na marra, se tolerando na marra e fazendo poses na marra para passar a imagem de continente civilizado que já não são, e nunca foram tanto quanto apregoam. No tocante ao poderio bélico, mais ladram do que mordem, já que sem o apoio americano que desprezam, provavelmente teriam sido engolidos pelos soviéticos. Diga-se de passagem, foi a interferência de “ONGs” européias a gota d’água para Putin decidir invadir e anexar a Criméia de forma humilhante. Toda aquela conversa de paz, amor e união, de “estar estando promovendo o entendimento intercultural” só mascarava a velha arrogância de mandar soluções que o dono da casa não pediu, e enfiar goela alheia abaixo suas paranóias. Reunir Rússia e Ucrânia em um lugar neutro para aparar as arestas? Não, vamos primeiro fazer um serviço de inteligência o mais amadorista e caricata possível, porque nossas boas intenções nos livrarão de toda e qualquer conseqüência de nossos actos. O Kremlin está obrando e se locomovendo para eles, já viu que são tão bonzinhos quanto o próprio governo russo.

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Os americanos também não estão tão bem das pernas, afinal neste início esquizofrênico de século ninguém está, mas pelo menos andam por conta própria, apesar de gente que quer proibir inovações apenas porque não pode controlá-las. Não é de hoje que o pavor pelo poder fora das próprias mãos atrapalha um país, com os Estados Unidos não seria diferente. Gente que prefere cultivar a culpa e apontar o dedo, em vez de investigar se, e como o mal causado pode ser reparado, nunca é realmente afeita à liberdade individual, porque teme doentiamente que uma pessoa livre se torne uma ameaça às suas crenças e narrativas, então vende a ilusão de que a diluição do indivíduo em uma coletividade rotulada seria a salvação da humanidade. Falando sério, se tu não se aventura ao controle ou, pelo menos, ao domínio de uma novidade, seus inimigos o farão livremente, e é o que está acontecendo agora. O caso do bitcoin, lamento informar, a adesão dentro do próprio território americano já é grande e muita gente já o utiliza como moeda corrente. Se preocupar se isso vai afetar o Dólar em vez de adequar a moeda à nova realidade, isso sim causaria uma tragédia irreparável à população; e como diz a primeira emenda, o povo é o país. Não um partido, não uma legenda, não um grupo, mas o povo.

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O Japão, por exemplo, que é conhecido pelo conservadorismo com que trata sua própria economia, a ponto de os japoneses preferirem utilizar notas e moedas no cotidiano, mesmo que a escancarada intimidade com a tecnologia moderna, já está planejando utilizar oficialmente o bitcoin como forma corrente de pagamento, mesmo conhecendo a resistência financeira de seu povo. Provavelmente porque as empresas envolvidas já aprenderam, mesmo que tardiamente, as lições amargas da excessiva intervenção estatal na economia, que tem levado a recessões repetidas, só não agravados com inflações galopantes graças justamente à disciplina fiscal do próprio cidadão comum, que economiza ou gasta de acordo com seus próprios critérios. À parte as críticas à cultura japonesa, claro que em sua parte rígida, que tem por si causado os problemas de natalidade e suicídio, ela é responsável pela rápida e espontânea adesão do japonês comum a qualquer medida que visem o bem comum, mesmo que o governo peça o contrário, tanto que não estão aderindo à eletrificação dos carros como os cordeirinhos cheios de culpa estão fazendo na Europa; isto em particular um aprendizado amargo da segunda guerra. Dela também veio a pior aplicação da tecnologia que eles fomentam, mas do outro lado do mar, ou seja, o mesmo lado que alardeava que eles o fariam.

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Claro que os ladradores do fim do mundo nunca vão reconhecer que o país ao qual seus rabos estão presos, seja por financiamento, permissão mercadológica ou por dependência acadêmica, é justo o Estado policial que eles diziam combater, mas cujas botas hoje lambem e cujas atrocidades hoje fingem que são apenas parte da cultura local, não devendo haver interferência externa. Apontam seus dedos sujos para o Brasil, principalmente em prol das girafas da Amazônia, repetem discursos de ódio do bem alheio, reproduzem opiniões em queixumes catastrofistas como se fossem relatos de factos consumados, mas fingem que sua ditadura de estimação não faz nada de errado. País que é tão avesso à liberdade, que já começou a trocar até os jornalistas por versões cibernéticas virtuais, com a ajuda da tecnologia deep fake, que faria até mesmo os smurfs parecerem reais e plausíveis em um telejornal. Se os humanos já não contestavam as instruções do partido único e compulsório, mesmo tendo que dizer agora o oposto agora do que disse antes, sem nem corar, imaginem um robô virtual! E ao contrário do que aconteceria se fosse no ocidente, ninguém disse nada, nem um piu a respeito de desempregar jornalistas e calar a imprensa. Aliás, eles já aumentaram a queima de carvão para gerar energia! Ambientalistas?

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Enfim, são tantos assuntos acumulados e foi tão pouca condição para escrever, que uns vinte textos ainda não seriam o bastante para eu encerrar o ano com dignidade. Mas gostaria de comentar sobre algo que o brasileiro começou a rascunhar, ainda engatinhando e sujando fraldas, que é garantir por si mesmo a própria aposentadoria, porque já vimos que o Estado sozinho não dá conta. O nosso modelo de previdência só funcionaria se todo mundo pagasse, mas bem poucos, de preferência só os bem pobres usufruíssem. Imagine, por exemplo, se todos os brasileiros decidirem ao mesmo tempo, usar a rede pública de saúde! Já precisei tirar do meu bolso para suprir necessidades de emergência. Da mesma forma já tenho uma magra e humilde previdência privada para evitar que os desmandos estatais me joguem na necessidade de precisar do assistencialismo estatal. Mais do que sobrevivência, é também questão de dignidade humana.

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27/10/2021

O Politburo Global


 


Imagine uma empresa pressionando toda uma comunidade com ameaças e chantagens. Começaria dentro de suas instalações, com funcionários queixosos sendo sumariamente demitidos. E por queixosos pode-se entender praticamente qualquer coisa, mesmo um comentário a respeito do calor que faz no depósito de embalagens. Qualquer coisa que vá contra a imagem de empresa perfeita e benevolente, mesmo involuntária, ainda que as ações sejam o exacto oposto, seria prontamente reprimida. Uma queixa contra um superior então, seria vista como tentativa de sabotagem e calúnia com o intuito de promover a insubordinação e perturbação do bom andamento do trabalho feliz e próspero, conseguido exclusivamente graças à competência e ao bom coração dos chefes da empresa, que por isso devem ser obedecidos sem contestação. As argumentações em defesa do infrator seriam protocolarmente recebidas, porém já com o intuito de impor uma punição exemplar, assim o conteúdo dessa defesa seria usado tão somente para ser utilizado contra a parte defendida, com cada parágrafo, cada frase, cada palavra cuidadosamente escolhida sendo deturpado e interpretado ao bel-prazer da junta julgadora.

 

Qualquer citação a nomes da alta hierarquia ou de erros antigos, seria declarada manifestação caluniosa, acarretando além de prolongadas sanções internas, incluindo trabalho insalubre e humilhações públicas, a demissão crua do denunciante, que então responderia a processo por injúria, calúnia, difamação e actos de terrorismo interno. Ainda lhe seriam cobradas as custas dos procedimentos processuais internos, bem como a inclusão permanente de seu nome em uma lista negra dos que perde o status de ser humano para se tornar um objecto indesejável. Mais humilhação e assédios seriam impostos por todos os meios possíveis de comunicação, incluindo mensagens e chamadas no meio da noite, ameaças por redes sociais e e-mail, bem como advertências para o caso de ele estar pensando em denunciar o assédio. Pelo sistema interno de som os empregados seriam obrigados, sem negligenciar o trabalho cada dia mais abusivo, a ouvir longos discursos de desagravo às lideranças da empresa, com citações raivosas ao traidor maldito pior do que um cão, todas as vezes que os altos chefes julgassem pertinentes. Sistemas de inteligência artificial com reconhecimento facial, vocal e de gestuário assegurariam não só a segurança, como o conforto e o bom relacionamento entre os servos dos altos chefes. Não haveria privacidade, posto que ninguém teria o que temer ou esconder.

 

Com a demonização da vítima e rígida proibição de comunicação interna, mesmo com o colega do lado, sem a prévia revisão dos agentes de fiscalização, a alta chefia veria por bem ampliar o controle interno. Começaria com os fiscais de boa convivência e harmonia interpessoal conversando entre si sobre como é glorioso terem líderes tão competentes e de bom coração a zelar pela prosperidade e segurança de seus subalternos, aleatoriamente puxando conversa com algum empregado, do qual se esperaria resposta pronta e sem titubear em favor d alta chefia, tanto melhor quanto mais ufanista for, não importam os exageros bajulatórios empregados. Toda manifestação de adulação e subserviência seria não só bem-vinda como também compulsória. Para isso funcionar bem, haveria uma larga flutuação interpretativa das palavras e expressões, fazendo até mesmo um “estou cansado” poder variar entre uma manifestação de insatisfação para com o trabalho e um protesto interno não autorizado contra a empresa, dependendo do contexto e do humor de quem tiver ouvido. Claro, a delação seria encorajada, porque o único amigo possível é o alto chefe, por cuja benevolência e por nenhum outro motivo todos ali e suas famílias ainda estão vivos.

 

Campanhas internas sucessivas e massificadas de assédio e diminuição do indivíduo o fariam esquecer, aos poucos e com o acréscimo paulatino de restrições, de que sobrevive por sua força de trabalho e que a empresa não faz favores em pagar seu salário. Salário que, aliás, seria progressivamente substituído por productos e serviços da própria empresa, a bem da harmonia familiar dos servidores que se sentiriam tentados ao consumo desnecessário e vicioso, restando apenas uns caraminguás para despesas ordinárias cotidianas com bobagens inofensivas a que tendem as pessoas sem responsabilidade e de baixo grau civilizatório. Rapidamente a cooperação compulsória incluiria o acesso irrestrito dos fiscais aos seus smartphones, que poderiam ou não ser devolvidos sem qualquer explicação, bem como o acesso a mensagens pessoais e redes sociais, que poderiam ser utilizadas livremente pela empresa para corrigir preventivamente desvios de opinião, a fim de evitar que o servo se encontre desnecessariamente em situação constrangedora ao olhos dos altos chefes. Com o tempo e a aceitação, a interferência se estenderia aos amigos e familiares dos servos, que seriam prontamente excluídos dos contactos a qualquer sinal de recusa à cooperação, o que obviamente renderia reprimendas públicas para o servo que não soube orientar seu círculo pessoal para a boa moral de opinião e expressão. Perdas e isolamentos pontuais são normais e necessários, nem todos se submetem prontamente à doutrina socializadora do bem-amado chefe supremo, que só visa o bem-estar geral e plena felicidade dos que dele dependem.

 

Com os contactos devidamente colhidos, eles também receberiam sua cota de assédio midiático e doutrinatório, para evitar que influências externas estranhas e perniciosas possam corromper a harmonia interna de convivência, opinião e pensamento dos tutelados pelos altos chefes, eles sempre preocupados e observadores da felicidade harmônica daqueles que lhes devem total obediência. Seria contado ao círculo pessoal como o tutelado é feliz e bem tratado no árduo labor em favor da prosperidade geral, com a história da empresa sendo revista periodicamente para impedir qualquer insurgência dissonante, para o bem geral e felicidade coletiva. E para o bem maior dessa harmonia, os altos chefes determinariam o acompanhamento das condições familiares de seus tutelados, dando-lhes relatórios regulares fornecidos pelos mesmos fiscais de harmonia que sempre os acompanham e amparam. Photos amistosas dos encontros amistosos e repletos de sabedoria seriam enviadas de seus filhos e conjugues, para que o tutelado possa se dedicar com tranqüilidade e prazer ao trabalho progressista e humanizador em prol do progresso coletivo. Não importa onde estejam os familiares, eles serão encontrados e abordados com o mesmo carinho das abordagens laborais internas. Claro que todos eles cooperariam da mesma forma, fornecendo seus spartphones e computadores para acesso livre e responsável, com acesso a todos os contactos e, eventualmente, correções preventivas de conduta social e de opinião.

 

Qualquer influência perniciosa ou de opinião desarmoniosa para com o ambiente sócio laboral da empresa, seria totalmente apagada das redes sociais em caráter permanente, de modo a permitir o progresso coletivo e responsável sob o cetro misericordioso dos altos chefes. Sanções pontuais seriam aplicadas, para o bem comum e felicidade geral dos tutelados, especialmente contra quem ousasse interferir nos assuntos internos e deliberações da empresa, se necessário com a destruição total do agressor. Os tutelados e seus parentes saberiam a quem recorrer, saberiam a quem delatar, saberiam a quem servir e saberiam a quem louvar, não se deixando enganar pela falsa liberdade venenosa de livre expressão e pensamento, que simplesmente não cabe na complexidade das relações culturais internas de uma empresa soberana e poderosa, que tem em sua longa tradição o alicerce de seus próprios procedimentos, sua própria e rica cultura, sua própria e justa tábua de leis, até mesmo o próprio e meticulosamente bem-composto hino da empresa. Assim, protegidos de toda e qualquer influência externa, a felicidade suprema reinaria entre os tutelados, sob guarda e proteção benevolente de seus altos chefes e do bem-amado chefe supremo.

 

Problemas? Sim, decerto, todo avanço traz consigo desafios e pequenos desgastes naturais, mas que devem ser enfrentados com alegria e entusiasmo sob as diretrizes da empresa, sem a qual todos estariam fadados ao completo fracasso. Não sejamos insolentes, não demos ouvidos aos inimigos de nosso progresso, aqueles que nos acusam têm inveja da prosperidade e harmonia, porque conseguimos vender nossos artigos de qualidade para o mundo inteiro e estamos engolindo os concorrentes, inclusive aquele estabelecimentozinho rebelde do outro lado da esquina, que ainda resiste à paz da qual somos guardiões, mas é questão de tempo até ser tomado e integrado às diretrizes de fidelidade e total subserviência. Em nossa empresa não há inveja, não há cobiça, não há empresa, porque tudo é de todos e ninguém sente falta de nada, todos os bens e serviços são gentilmente prestados pela empresa, com a sabedoria de dosar o suficiente para cada caso e necessidade. Ninguém é dono de nada, mas todos são felizes e têm o dever de assim se apresentarem, com o sorriso e o entusiasmo de quem não precisa se preocupar com o amanhã, com problemas, com absolutamente nada! NADA!

 

O que parece um cenário distópico de livro apocalíptico onde uma ditadura toda conta de toda uma sociedade, infelizmente não é ficção e não é uma empresa, uma empresa já teria sido massacrada por sindicatos e bastaria um boicote para dar o recado. Isso é feito por Estados e instituições acostumados a impor-se pela coerção aos demais, sempre eufemizando o que dizem e fazem, praticando o mal e diante desse mal culpando outros de terem-no feito. Não me refiro somente à China e Rússia, esta apenas um bebê rebelde se comparada àquela, mas a todo o aparato transnacional repleto de discursos benevolentes, mas que tendem a transformar o indivíduo em um idiota incapaz e totalmente dependente das decisões verticais para qualquer decisão importante, especialmente na lida social cotidiana, que fica cada vez mais repleta de neologismos bizarros, conceitos impostos desprovidos de fundamento e o completo desrespeitos pela própria cultura e história; como se reescrever uma época fosse apagar suas mazelas e conseqüências vigentes. Não sei quantos de vocês precisa de ônibus, mas algo que eu já escrevi aqui tem se agravado, não se limitando mais às pessoas mais pobres e de bairros mais distantes entre si.

 

Pessoas de comunidades diferentes que têm dificuldades em se comunicar, agora engloba também indivíduos com, ao menos deveriam ter, alto grau cultural e acadêmico. São pessoas com uma tonelada de citações na ponta da língua, mas que mal conseguem se virar quando encontram outras de turmas diferentes, tanto mais quanto mais díspares for o assunto central que os uniu. Entretanto, quando a chamada é para defender pautas e ideologias, todos passam a falar a mesma língua, ainda que cartazes pedindo liberdade estejam ao lado de outros exaltando “ditaduras do proletariado”, eles simplesmente não raciocinam por conta própria, só seguem as ordens de um líder central que talvez nem conheçam, mas cujos diretórios a ele se reportam. Mesmo diante das mazelas e dos arroubos autoritários de quem defendem, atacam o outro lado como se fosse ele o responsável pelo acontecido. Piorou muito quando o próprio Estado, levando ao extremo o excremento mental de “o que importa é a interpretação, não a lei” para praticar aqui o que seus deuses fazem com países vizinhos que não podem se defender. Imaginem um pedófilo julgando à sua interpretação as leis de proteção às crianças, então terão uma idéia do perigo a que essa prática nos expõe, porque agora qualquer um pode ser preso por absolutamente qualquer motivo, mesmo por crime de opinião, bastando o discurso ser suficientemente prolixo e repleto de manobras retóricas para convencer um magistrado. Se isso não assusta, imaginem um nazista no lugar do pedófilo a julgar um negro homossexual. Não é efeito colateral! Cuidar para que ninguém se entender pessoalmente, mas se unir em uníssono em defesa do que seus ditadores de estimação proíbem em seus territórios, é parte do procedimento. Assassinar os idiomas locais faz parte da tática.

 

As redes sociais, que já foram fone de entretenimento e socialização, hoje são abertamente acusadas por muita gente com canais prósperos que, por tocarem em feridas de ditaduras que agem livremente nessas mesmas redes sociais, têm seus conteúdos censurados ou excluídos sem maiores satisfações, só tendo-os de volta à exposição depois de muito tempo e perda dos bons modos diplomáticos, como tem acontecido com o Marcelo do excelente Hoje No Mundo Militar e o canal China Em Foco. Eu mesmo já o fui e, perto deles, sou um nada em produção de conteúdo, mesmo assim meus blogs são bloqueados na China… que com todas as atrocidades e ameaças a vizinhos que tem feito, fala o contrário em redes sociais e fica impune, mesmo sendo suas falas notoriamente mentirosas, com a plena e plácida aquiescência dos tais “verificadores da verdade”. Para os outros o simples facto de acreditar ou não em algo já é motivo para censura e até represálias, quem já ouviu “você devia ser expulso da faculdade por creditar nisso” pode ter uma idéia do que estou falando, aos outros desejo que nunca saibam. Os países que foram abertamente ameaçados por aquela tirania, por outro lado, são tratados como disseminadores de notícias falsas no meio acadêmico, artístico e nos conselhos das empresas de mídia, o que inclui as de redes sociais. Usar o que décimo terceiro ancestral de um indivíduo desses países teria feito, como argumento acusatório, é plenamente aceito e o assédio prontamente ignorado pelos (tambores rufando e metais tocando) VERIFICADORES DA VERDADE. Qualquer queixa mais severa é respondida com discursos prontos e cheios de neologismos medonhos como “estamos estando estarendo promovendo uma discussão ampla e democrática ao nível de socialização enquanto promoção da verdade dos factos” de fazer inveja ao mais barato e inepto dos advogados de porta de cadeia. Na prática manipulam as pessoas umas contra as outras e deixam ditadores livres para espalhar sua influência, estimulando aqui o que daria fuzilamento sumário em seus domínios; como exigir vagões de metrô com separação por sexo ao mesmo tempo em que exige banheiros unissex, bem como processar lésbicas por recusarem sexo (fundo musical de drama medieval aqui) com “mulheres trans” e ainda as fazerem se sentirem culpadas por isso. Esse tipo de desarranjo social é encorajado pelos idiotas úteis de que se servem, mas lá dentro de seu território eles exigem mulheres femininas e homens másculos.

 

Não à toa Putin perdeu o respeito pela comunidade européia, que tem feito contra seus países membros o mesmo que Moscou fazia com os países escudos soviéticos. Basicamente o mesmo que a então URSS e hoje a China estimulam seus lacaios a fazerem contra os países onde nasceram, contra sua história, contra sua cultura e até contra sua soberania. Também não à toa a Polônia está para ser a próxima baixa na União Européia, porque sua população ainda se lembra com frescor das dores que sofreu sob o jugo de uma ideologia que o politburo de Bruxelas quer impor na marra, sem dar a menor importância a aspectos culturais, tradições e traumas de cada população. Não importam os motivos, não aderir integral e subservientemente aos ditames dos burocratas que não dão satisfações à população, é motivo para represálias duras; sim, teremos um Polexit, não é se, mas quando. E é isso que estão tentando fazer no Brasil, bem debaixo de seus narizes, conforme venho alertando há anos, com a plena cooperação do judiciário, o maior culpado pelas mazelas do país. A mesma imprensa que destruiu as vidas dos donos da Escola Base, e que hoje se vendeu em alguns casos literalmente ao PCC, o que os impede de tocar nas atrocidades que ele comete, repete o bordão de compromisso com a verdade, a justiça e os valores democráticos, que seu agora proprietário despreza com asco, usando-os tão somente para chegar ao poder em cada nação lacaia e então impor com literalidade suas leis cruéis. Não por acaso, o PCC financia viagens de políticos e estudantes à parte mais próspera e controlada da China, de onde fazem transmissões lisonjeiras e trazem todo o discurso antiocidental que o regime propaga.

 

É ingenuidade acreditar que imposições de burocratas, ainda mais estatais, visam o bem comum, pior ainda o bem-estar do indivíduo. O estado não produz, só gere, e à amiúde gere muito mal, quase sempre com foco exclusivo para o benefício de seus gestores. De regra básica, para vocês se defenderem, peço que verifiquem até que ponto oque estão lendo ou ouvindo é auditável, qual o nível de transparência e até que ponto a fonte se permite ser investigada; notícia que não é auditável, não é confiável, não importa a fonte. Eu já adianto e já disse aqui muitas vezes que a auditabilidade e a autocrítica nacional são quase que exclusividades do ocidente, principalmente do continente americano. Mais uma é a abordagem de temas sensíveis, quem quer resolver o problema tenta te despertar o senso de responsabilidade para com o que estiver acontecendo, lacaios de ditaduras já chegam apontando o dedo e te incutindo culpas, como se uma mulher escolher ser dona de casa fosse crime hediondo e abrisse um portal para a volta da escravidão legal, por exemplo. Assim como nas máfias, os verdadeiros mandantes jamais são expostos pelos testas de ferro, que nunca se assumem como tal, então desconsidere de cara quem não aceitar expor a fonte primária para auditoria. Tenha paciência ao fazer suas investigações, levei vinte anos para chegar a muitas conclusões, algumas até mais, mas hoje os acontecimentos mostram que eu INFELIZMENTE estava certo.

 

Talvez eu pudesse ficar aqui a escrever eternamente sem jamais ter o texto pronto, mas acredito que o que já expus é suficiente par quem se dispõe ao doloroso fardo de raciocinar por conta própria. E antes de me despedir: Voltem aos seus blogs!

 

Inspiração para o texto: A Referência

06/10/2021

Seu concorrente é seu melhor amigo

 

1955 Packard

É consenso no mundo militar que o seu inimigo mais poderoso pode vir a ser, e sem grandes surpresas muitas vezes torna-se, seu maior aliado. Foi por isso que os americanos, mesmo com o risco confirmado, armaram e deram suporte ao exército soviético durante a segunda guerra mundial. Com os soviéticos indignados e furiosos, espumando de raiva, esfregando as caras dos nazistas no asfalto quente, eles puderam se dedicar mais a tirar satisfações de quem os atacou pelas costas. E o Japão derrotado, mas não rendido, tornou-se décadas depois o maior aliado contra a nova ameaça, que francamente não tinha feito nenhuma questão de esconder suas ambições e seus métodos; as gerações seguintes novamente não aprenderam nada com seus ancestrais. É assim em todas as áreas da vida, em todos os ambientes, provavelmente em todos os supostos planetas habitados e civilizados do universo; até mesmo um parasita pode se converter em aliado, como acabou acontecendo com as mitocôndrias, que de meros coletores de material se tornaram parte indissociável das células modernas.

Assim como a economia, a gravidade e a termodinâmica, não é uma lei inventada por uma pessoa, é uma regra inerente à própria existência. Um oponente honesto, que prime por jogar limpo, é o melhor parceiro que uma pessoa ou uma empresa pode ter, mesmo tendo às vezes ganas de torcer seu pescoço. A pessoa porque um, por assim dizer, inimigo franco deixa todas as suas falhas à mostra, sem disfarces, mas sem cair na armadilha de exceder a dose necessária. Ele não te romantiza, te enxerga com uma crueza que nenhum psicoterapeuta é capaz porque depende disso para te sobrepujar. Assim, com essa franqueza ferina, a proximidade desse inimigo te deixa a estrada limpa e sinalizada para o teu crescimento, com todos os alertas contra as armadilhas que o teu ego espalhou pelo caminho; é ele, o ego, o único e potencial inimigo que alguém realmente pode ter. Para não dar a esse “inimigo” o espaço que ele almeja, tua atenção à virtude e aos riscos te farão exemplo até para ele, que em último caso será o único a levar uma flor ao teu túmulo, ainda que para ter a satisfação de ter sobrevivido ao adversário, mesmo que caia fulminado antes de sair do cemitério.

Por causa de um oponente de valor, uma pessoa se esforça sempre e dá sempre o seu melhor, sabendo que o menor deslize dará preciosos milímetros de faixa para ele ultrapassar e ganhar preferência. Com o tempo, e fazendo as contas que esse adversário atento nos obriga a fazer sempre, vem a sabedoria de não precisar temer e tampouco perder tempo remoendo pequenas falhas e atrasos, porque a disputa é, ainda que palmo a palmo, de longo prazo. Aflições desnecessárias e ansiedades nutridas por eventos adversos é que te deixarão real e nitidamente para trás. Pode até haver o caso de esse inimigo te ajudar em segredo, é claro que ele JAMAIS vai admitir tê-lo feito, ou de forma dissimulada, porque ele também terá percebido que o teu progresso é que o faz perceber suas falhas antes que elas se tornem casos perdidos. Os erros que um rival vê o outro cometer com sua família, e ele prestará toda a atenção do mundo a eles, se esforçará para não repetir na sua, e o sucesso do rival logo chamará a atenção do outro para suas falhas. Assim um se torna para o outro um compêndio dos erros que não deve cometer, ou pelo menos deve-se abster-se ao máximo e corrigir com a maior presteza possível.

Não vamos nos iludir que inimigos sempre farão tudo diferente, é conversa mole. Eles fazem rigorosamente as mesmas coisas de formas diferentes, mudando estilos e adereços, nada mais do que isso. O seu inimigo em uma guerra vai guerrear, em uma corrida vai correr, em um teatro vai encenar, em um palco vai cantar e assim por diante. Se fizerem realmente coisas diferentes, um não incomodará o outro e não haverá motivos para contendas, assim não haverá rivalidades. O seu inimigo é você mesmo jogando no outro time. Ele te conhece tão bem que poderia ler sua mente apenas olhando nos seus olhos, e seguramente se aproveitaria dessa baixa de guarda para tirar vantagem. O facto de ser um “inimigo” leal, não significa que ele não entrará no seu território sempre que puder, por exemplo, para conquistar sua família falando bem de você e demonstrando qualidades que só ele notou até hoje, assim te deixando de mãos atadas para falar mal dele em público.

Ele não vai tirar proveito de sua família, muito pelo contrário, vai defendê-la como se fosse dele. Contraditório? Não! Humilhante! Ele fará de tudo para você perceber que ele é que está certo, e sua família acreditar que a sua implicância não tem nenhum fundamento. As flores que você deixou de dar à esposa, os agraços de boas-vindas que nunca mais deu ao marido, as conversas francas de que uma criança necessita e seus filhos já nem lembram como são, as datas de aniversário que a correria fez mofar na agenda, os detalhes na indumentária que o tédio da rotina jogaram ao esquecimento, as promessas que a falta de uma pressão moderadora te fizeram quebrar e muito mais, tudo isso está nos planos do rival. Se tiver um mínimo de juízo, ainda que como instinto de sobrevivência, o troco há de ser dado na mesma moeda, mas de forma personalizada. É uma aliança compulsória, bipolar e a certa altura será indispensável.

Da mesma forma um concorrente honesto será capaz de reconhecer o valor da tua empresa, mas se valerá justamente disso pra exaltar a dele e convencer a tua clientela a experimentar o que ele oferece. Ele vai agregar valores e diferenciais que remeterão imediatamente àquilo que você oferece, mas sem os problemas crônicos que você negligenciava por custos, por tradição, teimosia ou o que quer que seja, seu concorrente terá se debruçado sobre o problema até encontrar uma solução razoável e economicamente viável. Quem se lembra da Kia Besta, sabe dos benefícios que trouxe à Kombi. Por décadas sem concorrência, permaneceu praticamente sem qualquer aprimoramento, limitando-se a atender minimamente a legislação ano a ano, só evoluindo de facto quando a coreana chegou e chamou para si as atenções do público que simplesmente não tinha escolha. Quando a Besta saiu de linha, a Kombi novamente parou no tempo e, sem concorrentes, a VW não exitou em descartá-la sem deixar descendência assim que não era mais rentável…  e perdeu a liderança que nunca mais vai conquistar de volta.

Assim como a Cadillac é a única coisa que impede a Ford de cometer mais uma asneira e enterrar a Lincoln, a concorrência com a Besta e em menor escala com a Towner era o que motivava as atenções que a Kombi recebia da marca. A bem da verdade, a falta de concorrência real e leal tem corroído nossa indústria há tempos, em todo o ocidente. E é o pior tipo de corrosão, pela falta de uso. Foi de tal forma que quando as importações foram abertas, muito de nossa indústria se reduziu a pó, principalmente as fábricas de brinquedos e de tecidos. A falta de concorrência ostensiva nos deixou particularmente de tal forma despreparados, que quando ela veio quase decretou a extinção de nosso parque industrial. A própria indústria automotiva nacional, que cometeu o pecado de simplesmente eliminar marcas adquiridas, em especial a VW que mentiu descaradamente que manteria Chrysler e DKW, nosso portfólio era tão pobre a acanhado que mesmo as marcas de luxo fizeram a festa. Nós tínhamos os fora de série, claro, alguns deles muito sofisticados, mas eram incapazes de suprir uma demanda séria, demoravam muito para ser entregues e custavam o mesmo que esportivos puro-sangue e sedãs de alto luxo consagrados que povoavam o imaginário do brasileiro, eles a pronta entrega. Tivessem dado o devido apoio aos fora-de-série, que aliás eram clientes das grandes montadoras, teriam enfrentado melhor os importados, diluído os custos na maior escala de produção de componentes vitais e hoje teriam um portfólio digno de exportação… Não nos esqueçamos da Troller.

Para quem não sabe, e infelizmente o brasileiro tem memória de areia, a própria predadora VW já precisou recorrer à concorrência no Brasil. Claro que Scania e Toyota, à época, não eram concorrentes directas, embora a Bandeirante disputasse com a Kombi a preferência nos lugares onde não havia estradas. O problema foi na seção de pintura, que nos anos 1970 simplesmente pegou fogo, obrigando os executivos a fazerem negociações emergenciais rapidamente em uma época em que o Fusca vendia mil carros por dia no Brasil, na época metade da nossa frota motorizada era só Fusca. Isso não só resolveu o problema como salvou a Toyota do Brasil, cujo aluguel da ociosa seção de pintura deu fôlego financeiro em uma época de vacas anoréxicas. Isso além te ter enriquecido um pouco nossas ruas, com Fuscas usando as paletas da Scania e da Toyota se diferenciando dos outros. Mas passou a crise e os benefícios da cooperação com os rivais foi esquecida. Os primeiros caminhões VW, para constar, nada mais eram do que Caminhões Dodge com cabines VW… e as propagandas da ápoca, como aconteceu com a DKW, diziam que os clientes Chrysler então poderiam contar com a rede VW.

Não muito diferente da indústria americana, que com a perda gradativa das pequenas e criativas marcas, foi perdendo também o incentivo doméstico e os toques de criatividade de que as três grandes tanto sentem falta hoje. Essas pequenas tiravam leite de pedra, faziam modelos obsoletos continuarem bons por muito tempo, até terem condições de apresentar uma geração realmente nova, com isso ainda se davam o luxo de zombar da mesmice de General Motors, Chrysler e Ford; e mesmo essa “mesmice” deixava a indústria brasileira no chinelo. Com o ocaso das marcas pequenas, as japonesas tomaram conta. Um problema disso é que ao menos na época, elas não primavam pela lealdade na concorrência, o Iene era, ainda mais do que hoje, mantido baixo pelo governo japonês justamente para forçar uma competitividade maior, o resto vocês já sabem. Mais tarde veio a China que fez essa tática parecer brincadeira, fazendo dumping descarado e descaradamente desmentido diante dos números expostos, o resto vocês já sofrem. Às vezes, mesmo em se tratando de um rival, é preciso ajudar a resolver seus problemas para que eles não cresçam demais, saiam da casa dele e entrem na sua. Uma parceria com a AMC para produzir compactos, para os quais a GM não tinha cabedal nenhum, teria freado os orientais e feito bem a ambas; foi justo para os orientais que a clientela das extintas pequenas migrou, e todos perderam. Dar o devido valor e esporádico amparo ao concorrente doméstico, talvez tivesse minimizado a crise de 2008 a ponto de não haver riscos de insolvência. Hoje eles têm centenas de pequenos fabricantes, mas são como os nossos saudosos fora-de-série, e a maioria só produz kits para montar ou modificar carros já existentes.

E no dia 5 deste mês tivemos mais um exemplo de como a falta de concorrência é danosa, com a queda do grupo que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp. A burrice de colocar todos em um só lugar ajudou a agravar o problema, porque a queda de um se estendeu quase que imediatamente aos outros. Para quem pensa que foram apenas seis horas sem redes antissociais, muita gente tem nessas plataformas, na verdade essa plataforma única de três faces em que os três serviços se aglutinaram, o seu meio de vida. Soube de microempresários que tiveram trinta mil ou mais reais de prejuízo, e isso para quem só tem uma porta ou um pequeno estoque em casa, é muito dinheiro! Para quem vive de circular rapidamente bens e serviços, seis horas em horário comercial são uma eternidade. O hábito de se tratar o website como uma loja física piorou o quadro, porque uma loja física não pode ser simplesmente derrubada por um problema tecnológico, enquanto uma virtual só precisa de uma oscilação de energia para travar uma venda; ou pior, para travar o cartão do cliente no site, aí a coisa fica realmente feia! Houvesse cooperação com outras plataformas, inclusive as que foram engolidas, transtornos e prejuízos teriam sido mitigados.

Por último, mas não menos importante, vejamos o exemplo dos Estados Unidos, que perdeu um oponente poderoso, que o impelia a ser sempre melhor, mas cujo vácuo foi ocupado por um parasita que mente diante da verdade exposta e dá de ombros para os métodos, inclusive contra seu próprio povo. Aquela rivalidade elegante e inspiradora, ainda que perigosa, mantinha as atenções e os esforços no seu progresso, sempre migrando o mais rapidamente possível os avanços da área militar e espacial para o cotidiano do cidadão, que na época ainda conseguia se maravilhar e usufruir o máximo dessas conquistas. Hoje o que temos é uma parcela perigosamente grande da população americana simplesmente acomodada em confortos, simplesmente se deitando na almofada sem mais se encantar com o facto de tê-la e poder usufruir dela, consumindo entretenimentos que fazem os mais bestas dos shows dos anos 1970 parecerem altamente intelectualizados, somando-se a isso intelectuais moradores de bolhas que querem decidir até o que as pessoas devem pensar. Na falta de um rival real, aceitaram os inimigos imaginários que picaretas impuseram. Não deveriam ter deixado a Rússia à própria sorte, esta que sempre foi madrasta para os russos. Hoje são eles que precisam ocupar parte do vácuo deixado, a custos altos, porque o império parasita já quer forçar vácuos para ocupar, agindo como uma figueira estéril, que estrangula e vampiriza seu hospedeiro, gerando frutos ruins de aparência aceitável, só produzindo de verdade para si mesma. A esse parasita não interessam alianças, só subserviência.

Agora, empresário, olhe bem ao seu redor. Veja tudo o que seu esforço e suas estratégias conseguiram amealhar. Faça um breve histórico das últimas crises severas, desde 1998, dê especial atenção às vezes em que seu empreendimento correu o risco de fechar as portas, faça uma análise crítica honesta de tudo o que precisou enfrentar e das decisões amargas que precisou tomar até agora. Antes de bater no peito se achando o máximo, acenda uma vela para o seu concorrente, com toda certeza ele é um dos grandes responsáveis pelo seu sucesso.