29/09/2018

Esther; ritual de desaceleração


    Esther conclui o que lhe cabe na limpeza da casa. Certifica-se de que está tudo dentro de seus rígidos padrões de qualidade. Tira o avental branco de babado e o pendura com o avesso ao sol. Vai ver o que o mastim Israel está fazendo, ele já é adulto, mas seria pedir demais que fosse também um exemplo de civilização; se nem a humanidade o é.

    Atravessa o canteiro de dedaleiras, que cercam as cenouras e abobrinhas. Há outras dessas combinações no amplo quintal. Lá está ele, brincando com o gatinho malhado Hebron. Ajeita o longo vestido chemisier de estampa mineral em tons de verde escuro, afaga os dois e então sim, volta para dentro e vai usufruir de seu descanso. Há uma diarista que a ajuda duas vezes por semana, após longa insistência da família, mas ela não baixa a guarda por isso. Desloca sua esbelta massa até a biblioteca, pega um livro de psicologia no meio milhar de títulos disponíveis, então começa o ritual de desaceleração.

    Passa pelo laptop desligado sobre a mesa e vai ao toca discos. Ganhou de Joseph um long play de Adele. Examina a capa, confere as músicas, tira o disco da embalagem e abre o aparelho. Tudo em gestos suaves e delicados, a parte pesada do dia já terminou e seus filhos já não são mais crianças para se preocupar com pequenas demoras; eles têm suas próprias vidas e ela sempre recebe mensagens dos dois.

    Abre as cortinas como se estivesse em um movimento de balé clássico; elegante, delicada e perfeitamente sincronizada. Admira seu jardim e então sim, põe o disco no pick-up, liga, regula o volume, põe a agulha com cuidado e senta-se na poltrona à mesinha do telephone de baquelite rosa. Para quem vê, se parece com uma fada austera, para quem a conhece é a ama e senhora de tudo e todos entre os muros do lote.

    O disco gira e a agulha finalmente inicia a primeira faixa, coincidindo com o início da leitura. Ela balança a perna sobreposta, acompanhando a música, começando a se esquecer das vezes em que tentaram convertê-la no decorrer da semana. Ficou muito irritada com a petulância, mas agora quer dissipar tudo. Lê pacientemente cada página, às vezes fazendo anotações, em hebraico, no bloquinho que tem junto ao telephone, com sua clássica Parker 51.

    Cada parágrafo é uma pausa para meditar sobre o que foi lido, revisar as anotações e voltar a meditar. Evita pensar em problemas, pensa em planos. Volta à leitura com o mesmo cuidado, que já é seu modo natural de ler. Não está alheia ao ambiente, só está concentrada no que está fazendo.

    O lado A do disco termina. Levanta-se em movimentos femininos até o toca discos, levanta a agulha, vira o disco e recomeça tudo. Volta à poltrona e retoma sua leitura. mas é leitura mesmo, não apenas uma passada de olhos para memorizar algumas partes. Lê palavra por palavra, ouvindo-se mentalmente a narrar a leitura, para assegurar-se de que está lendo o que está impresso, não o que uma mente distraída e impaciente inventaria.

    O lado B termina e ela conclui a leitura por hoje, põe um marcador na página e vai em passos semicirculares à estante de onde o tirou. Guarda também o disco e vai à cozinha, fazer o chá da tarde. Escolhe a xícara, com pintura de rosas cor de rosa e bordas douradas, e a colher que usará. Faz sua alquimia com as ervas para ter o que deseja, então inicia outro ritual, de aquecimento, fervuras controladas e filtragem. O que resta vai virar adubo para seu jardim. Adiciona mel, mistura e começa a tomar, agora sentada na cadeira de balanço da varanda. Nesse ínterim chega Sarah, ela está visivelmente aborrecida. Esther diz para que faça um chá e a acompanhe, enquanto conversam a respeito.

    Faz tal qual a mãe lhe ensinou, repetindo os procedimentos que ela executou há pouco, e com o controle que se acostumou a ter nesse processo, boa parte da irritação se dissipa, a ponto de ela conseguir conversar a respeito sem alterar a voz. Não é nada de extraordinário, ela está acostumada como a mãe a se envolver no que está fazendo, assumir a responsabilidade e arcar com todos os ônus...

    - Mas as pessoas lá fora nem sempre são assim, Sarah. Você não pode exigir de uma pessoa mais do que ela pode oferecer e nem o que ela não estiver disposta a oferecer. Eu sei o quanto isso é irritante, foi para isso que lhe ensinei a desacelerar. Uma cabeça acelerada pensa rápido, mas não raciocina direito e é virtualmente incapaz de meditar sobre qualquer coisa. Você não pode esperar muito de quem não se compromete com a própria vida, que dirá com os colegas! Respire e tome seu chá.

    A moça acata. Embora os problemas não se dissipem, e nem é esse o objectivo, os resultados daninhos do que passou hoje sim. Aos poucos o cheiro de estresse e fuligem se desvanece de sua memória. Respira fundo, olha para aquela dama sorridente à sua frente e não tem como não sorrir também. Ama aquela mulher de forma quase devocional, ama aquela casa como se não houvesse no mundo outro lugar habitável. Logo não tem mais do que reclamar, estaria apenas repetindo a ladainha alheia de como o mundo é mau e injusto.

    Retoma com a mãe a conversa de ontem, sobre seus planos e a firme intenção de dar-lhe netos.

23/08/2018

O mundo a vapor


Doble E-20 Steam Special de Jay Leno
   Algumas pessoas sabem que nos primórdios do automóvel, não havia posto de gasolina. Para abastecer era preciso comprar em galões ou mesmo na pharmácia... sim, na pharmácia! Petróleo na época era considerado um cosmético e até lhe atribuíam algum poder terapêutico... Foi uma época muito louca.
A compacta caldeira do Doble E-20

    Por essa escassez de abastecimento, até a primeira grande guerra o motor a combustão interna não era unanimidade, em muitos casos os eléctricos eram preferidos, afinal rodava-se pouco e a baixíssimas velocidades naquela época. Mas a exemplo das locomotivas, também havia os carros a vapor. Não eram apenas aquelas máquinas pesadas e tratores que povoam filmes e desenhos da era clássica, eram carros de passeio, e isso durou praticamente até a quarta-feira negra.

    Em minhas buscas aleatórias eu me deparei com um leque muito amplo de carros movidos a vapor. Alguns deles se parecem muito com os carrões de sonhos dos anos 1920, a ponto de parados parecerem carros comuns. A miríade de modelos e versões me surpreendeu e alimentou minha humildade, reafirmando que eu não sei praticamente de nada sobre carros antigos; e quem tiver juízo chegará à mesma conclusão, para todas as áreas da vida.
Orout a vapor carregado um carro a combustão interna 1880s

    De início eram máquinas rudimentares com baixíssima eficiência térmica, quase sempre não excedendo os 5% que as locomotivas conseguem aproveitar da energia produzida pela queima do carvão. Entretanto, pesavam a seu favor o torque quase instantâneo e a ausência da embrenhagem. Era só aquecer a água o suficiente e liberar o vapor para o carro começar a andar. Tudo com suavidade, silêncio e ganho rápido de velocidade.

White pré primeira guerra

    Ao contrário dos carros a combustão interna da época, o funcionamento dos carros a vapor era extremamente suave e silencioso, e os gases do escapamento nem de longe incomodavam como os da gasolina. Provavelmente por lembrarem o cheiro de uma lareira acesa, por algum tempo a combustão externa prosperou e teve seus avanços tecnológicos. Falar de carro barato na época é piada, mas havia dos modelos mais simples e rudimentares aos mais sofisticados, como é até hoje com os carros ciclo Otto, e até com os eléctricos.
Um frugal Stanley pré primeira guerra

    Até a primeira guerra os motores a combustão interna eram rudimentares, trabalhando com baixíssimas pressões e velocidades idem. Para terem uma idéia, muitos usavam pavios acesos em vez de velas eléctricas para queimar o combustível. Sim, um pavio, um pedaço de corda como o de uma vela de parafina, nele se colocava fogo, se tampava o motor e então se dava a partida por manivela. E cuidado para não apagar o pavio, senão começa tudo de novo. Em suma, as máquinas a vapor deviam muito em eficiência, mas não em eficácia aos motores a combustão interna. Carros a vapor ultrapassavam facilmente os a gasolina do começo do século XX.

    Enquanto os tratores, escavadeiras e outras máquinas pesadas ainda se pareciam muito com locomotivas caricaturadas, carros e caminhões tomaram rapidamente formatos próprios, acompanhando a evolução estilística de seus correspondentes eléctricos e a combustão interna. O desperdício de vapor para o meio ambiente e o manuseio do carvão em brasa, quando se estacionava o carro, eram um problema sério. Não para locomotivas, navios e enormes máquinas de trabalho fora de estrada, mas faziam alguns donos olharem com mais simpatia para os ainda primitivos motores a gasolina.

Um modernoso Lorry Super Sentinel anos 1900

    Os riscos de a caldeira estourar eram os mesmos de uma locomotiva, e a inflamabilidade do pó de carvão em suspensão, em caso de acidente, eram notórios. Enfim, os prós superaram os contras por muito mais tempo do que os leigos imaginam, inclusive eu. A morte comercial dos carros a vapor não veio antes da quebra da bolsa de Nova Iorque, eles evoluíram muito rapidamente.
Pontiac 1970 convertido para combustão externa

    Com o tempo, os mais sofisticados se serviram de soluções que aumentavam a eficácia e a praticidade, as caldeiras ficaram menores e o manuseio mais prático. Utilizando o mesmo princípio de resfriamento dos motores a gasolina, o ciclo Otto, os carros a vapor se valeram de radiadores belamente emoldurados para coletar, resfriar e condensar boa parte do vapor que saía do motor, devolvendo a água ao tanque.

    Chegaram a fazer até um avião a vapor viável e, ainda hoje inédito, com marcha ré na hélice. Girar em sentido único é uma limitação do motor de ciclo Otto.

    O motor, aliás, deixava de ser um mero conjunto de cilindros avulsos, eles passaram a trabalhar dentro do mesmo bloco, como os motores Otto. Seguramente o ridículo índice de 5% de eficiência foi superado, nos últimos anos da indústria automotiva a vapor. O problema para esses motores, é que os Otto já estavam em um patamar evolutivo muito superior, um motor ruim ultrapassava os 15% de eficiência, e comer poeira de carro a vapor não era mais uma certeza, principalmente em trajetos longos, com a rede de reabastecimento proliferando pelas estradas.

Doble Steam carroceria Murphy Phaeton 1924

    A memória da mobilidade a vapor é preservada por gente que ama e entende do assunto. A Inglaterra reúne o maior séquito de entusiastas e colecionadores. Há inclusive gente que fabrica modelos em escala funcionais de locomotivas, tratores e caminhões a vapor do início do século passado. Há inclusive gente que adapta motores a vapor em carros convencionais. Bizarro? Mas há não só quem faça, mas também, ensina letargicamente a quem quiser aprender.

Chassi do Doble E-20, talvez o melhor carro a vapor já produzido

    Se há uma vantagem do motor a vapor sobre o a combustão, é sua comparativa extrema simplicidade, o que o torna fácil de projectar e construir sem necessidade de maquinários sofisticados, na verdade muitas peças de motor a combustão ou compressores de ar podem ser e são utilizadas por esses inventores. Com a tecnologia de hoje, especialmente o monitoramento electrônico em tempo real das funções da máquina, isolamentos mais eficientes, lubrificação moderna e usinagem de ponta, reciclagem do vapor, aproveitamento de resíduos para a combustão, enfim... um motor a vapor conseguiria ser economicamente viável.

    Para regiões desprovidas de recursos financeiros e com limitações de potencial hídrico, uma máquina a vapor resolveria muitos, mas muitos problemas. Enfim, se até os dirigíveis estão voltando, para fins turísticos, e as locomotivas clássicas sendo restauradas para uso normal, por que não?

    Para saber mais: Fusca a vapor aqui, site sobre máquinas a vapor aqui, uma associação dedicada à máquina a vapor aqui e o avião a vapor aqui com vídeo da época.

Dois belos vídeos da garagem do abusado do Jay Leno

Mais um.

01/08/2018

Back To Blog


    Não consiste novidade o poder das redes sociais para a proliferação de lendas urbanas, teorias conspiratórias, campanhas difamatórias e notícias descaradamente falsas; às quais os tendentes não se dão o trabalho de investigar, esperam que as lideranças da manada lhes digam o que fazer. E é justamente este, o efeito manada, que tem tornado a vida em redes sociais tão difícil. Também é esse efeito manada que dá tanto poder à difamação e às teorias conspiratórias letais, estas que fazem pais se recusarem a vacinar as crianças e comunidades lincharem pessoas inocentes. Não foi um laboratório que inventou a vacina, não foi a NASA que descobriu que a Terra é redonda, e o Fusca não foi criado no Brasil.

    O grande problema é o crônico dos meios modernos de comunicação, existe uma facilidade gigantesca em produzir e fazer circular informações a uma velocidade jamais imaginada por nenhuma ficção cientifica pré internet. E como eu já disse aqui mil milhões de bilhões de trilhões de vezes, a facilidade tem sido uma das drogas mais tóxicas e viciantes da humanidade. É pela facilidade em  fugir da realidade, aliás, que os tóxicos ainda existem mesmo notoriamente danosos.

    Um ingrediente perverso foi acrescentado nesta década. Ditaduras, que simplesmente não toleram liberdade de expressão em seus países, têm se valido da redes sociais que proíbem para disseminar notícias falsas misturadas a factos que podem (ou não) fazer sentido. Poder ou não fazer sentido é mais perigoso do que fazer, porque activa o instinto de auto preservação, o indivíduo passa a desconfiar mais do meio em que vive, especialmente se for jovem, tornando-o mais propenso a  aceitar as teorias conspiratórias mais estapafúrdias e, aos poucos, se voltar contra o mesmo modo de vida que lhe permite fazer o que os disseminadores tolhem em seus territórios, muitas vezes com ameaças de execução do mesmo, quando não da família inteira.

    Até a Reuters tem perdido credibilidade, lançando notícias sobre seus desafetos, em especial Donut Trump, para logo em seguida noticiar o contrário; não desmentindo e se desculpando, mas publicando uma notícia oposta à anterior, sem dar maiores explicações, às vezes sem se explicar em absolutamente nada! Não é de hoje que jornalistas calejados ainda acreditam em sociedades de almoços grátis, mesmo não assumindo com estas palavras, eles AMAM APAIXONADAMENTE a prolixia redundante com pitadas fartas de ladainhas pleonásticas, para parecerem intelectuais. Não é de hoje que jornalistas manipulam as notícias ao gosto do editor, do patrocinador, de correligionários ou de seus próprios interesses. Não é de hoje que jornalistas são humanos, e por isso deveriam se despir da capa inapropriada de defensores da verdade; opinião não é "verdade", não cura perna quebrada.

    E as tais ditaduras se aproveitam muito disso. Não só elas, mas também os governos corruptos. Em ambos os casos o escrúpulo é só uma palavra no dicionário, a que dão o sentido que desejam. E quando eu separo ditaduras de governos corruptos, não significa que aquelas não o sejam, muito pelo contrário, pois corrompem até história de seus próprios países, editando-a e forçando a população a esquecer a versão anterior; ditadura não é governo, é uma lavadora de cérebros que aponta o dedo para os outros e amputa os que se atrevem a apontar para si. Depois mandam estudar história, mas só a historinha que acabaram de lançar na edição revista e ampliada para o louvor ao bem amado líder.

    A miséria não foi inventada no século XVIII, e em nenhum momento da existência humana duas tribos deixaram de se engalfinhar e matar crianças só porque falavam o mesmo idioma, não necessariamente a mesma língua. E descobertas arqueológicas têm desmentido o mito de povos puros e de harmonia plena com seu meio ambiente. Te fazer se sentir culpado pelos erros alheios, ocultando o lado B do assunto, faz parte dos métodos.

    Cão em território alheio, fica de rabo entre as pernas. Em seu território ele rosna para qualquer um. Se for do tipo de toma como seu território qualquer lugar em que urine, tenta ser o líder da matilha que encontrar pelo caminho; e essa "matilha" pode ser até mesmo de humanos. Basta ele sentir a sensação de que pode fazer, e o fará.

    Tudo então posto, vem agora o real potencial nocivo do efeito manada em uma rede social, especialmente uma gigantesca como o Facebook. É uma ferramenta extremamente fácil e rápida de usar, é extremamente fácil e rápido reunir um grande contingente e dar a impressão de que o grupo é invencível, é extremamente rápido e fácil atacar um alvo e fazê-lo parecer o agressor. A gerra ideológica resultante disso tem feito vítimas, porque é humanamente impossível aferir todas as denúncias e todos os perfis falsos, então os funcionários e os algoritmos entram em pane fazendo todo o seu possível. A armadilha aqui é que esse "possível" significa dar preferência a padrões, como quantidade de denúncias, e um grupo organizado consegue facilmente uma avalanche com milhares delas para calar seus desafetos; como fazem em seus domínios os regimes com que simpatizam.

    Transformar amigos de longa data em inimigos ferrenhos não dói nem um pouco aos disseminadores de mentiras. Para eles vale a máxima do príncipe de Maquiavel: os MEUS fins justificam os MEUS meios; e ai de vocês se fizerem o mesmo contra mim! Esses disseminadores não se importam inclusive com o facto de suas mensagens falsas serem letais, muita gente já morreu vítima de violência causada pelas fake News, inclusive no Brasil. O caso mais recente foi o de uma mulher acusada de matar crianças para rituais de magia negra, no Rio de Janeiro. Remorsos? Não espere isso de um psicopata.

    Ah, eu sei sim o que vocês estão pensando, e como sempre ERRARAM! Não, eu não gosto do Trump, não concordo com uma tonelada das opiniões dele e sempre me pareceu demasiadamente arrogante, mas tenho amigos morando em vários Estados dos Estados Unidos, e sei de cousas muito boas que a imprensa não conta; notícia boa não vende. Não gostar e não respeitar deixaram de ser coisas diferentes, desde que essa onda de noticiários encomendados começou a varrer as redes sociais que, repito, nos países que promovem essa guerra cibernética são sumariamente censuradas.

    Bem, meus amigos, ainda existe um lugar onde suas opiniões podem ser expressas sem que tu sejas automaticamente detectado pelas hordas cibernéticas; onde o efeito manada é muito difícil, lento e às vezes até mesmo caro de ser formado. Um lugar na internet onde o algoritmo não pode fazer muito mais do que colocar um aviso de classificação etária no acesso ao teu conteúdo. Este lugar é justo a ferramenta que as redes sociais e sua viciante facilidade ameaçou extinguir, mas sobrevive bravamente pelas mãos de cabeças-duras como eu.

    Volte para teu blog. Se o fechaste, reabra. Se não tens, abra um. Enquanto adoradores de ditaduras negam que seus deuses sejam ditadores, se bem que já ouvi "o povo precisa de um ditador para discipliná-lo", as pessoas que escolheres terão acesso às tuas idéias com acento e sem facilitações idiotas da deforma ortográphica. Para quem teve todo o conteúdo gramatical, parece ser fácil e desnecessário informar regras, acentos e pontuações, mas experimente aprender outro idioma e verás a falta que eles fazem.

    Voltem para os blogs. Não existe em tua caixa de comentários a opção de o desaforado de bloquear para evitar ser bloqueado e assim continuar a te atacar, tu simplesmente apagas o comentário dele e ponto! Tu escreves as besteiras ou as maluquices extremamente intrincadas que quiseres, e nenhum moderador de grupo, nenhum vigia de denúncias, nenhum manipulador de algoritmos vai conseguir te punir. Se estiver dentro da lei, nada vai te acontecer.

    Se dê o direito de um pouco de dificuldade, vai te fazer bem pesquisar e publicar teu próprio conteúdo. Diminua a importância, e conseqüentemente com trema o poder destrutivo das redes sociais. Volte para o blog.

06/07/2018

A madrugada, um homem e dez cães

   
https://serbiananimalsvoice.com/

    No ponto de ônibus, esperando pela condução para o trabalho e me perguntando como reporia o sono depois; era essa a minha situação na manhã de hoje. Por volta de 05h20. Não costuma acontecer muita coisa nesse horário, além de meliantes com o producto do furto nas mãos, viciados procurando algo para queimar o a erva, enfim... O trivial de uma metrópole que JÁ FOI um bom lugar para s e viver.

    Fora, talvez, uma cena no verão do ano passado, quando uma loura estava visível do tórax para cima, pelo teto solar de um Civic, provavelmente voltando da balada; a carinha e a dança mostravam que tinha acontecido algo mais.

    Mas hoje uma cena pitoresca me chamou a atenção. Um velho senhor barbudo, aparentando ser um desabrigado, com suas vestes maltratadas, um saco nas costas e um cano plástico de enrolar fazenda de tecido lhe servindo de cajado. Ele se aproximou de mim, passando mais rente do que seria prudente em uma cidade violenta como Goiânia se tornou, mas ele parecia mais preocupado em suas meditações do que em desviar de desconhecidos potencialmente perigosos, aos quais talvez esteja acostumado.

    Enquanto ele se aproximava, uns seis cães, mais diversificados do que pacote de biscoitos sortidos Fortaleza, atravessavam a 24 de Outubro, indo para a esquina da Caixa Econômica Federal. Lá costuma funcionar uma barraquinha de churrasquinho e "jantinha", eles devem ter sentido o cheiro. Não me chamaram a atenção, de início, mas enquanto aquele senhor se afastava, ressonando o ruído do tubo plástico na calçada, os cães começavam a correr para perto dele. Em tempo, essas "barraquinhas" cresceram muito nos últimos anos e quase sempre atrapalham muito, porque tomam as calçadas e vagas de estacionamento como se fossem áreas particulares. Falta regulamentação e fiscalização não é de hoje, nem só neste caso.

    Contei um... dois... três e me perguntei onde estariam os outros. Logo veio o quarto. O quinto e o sexto se demoraram mais, devem ter encontrado espetos ou guardanapos que ainda valiam umas lambidas. Me tocou o modo como eles seguiam aquele senhor, imagino que ele deva trata-los com muito respeito; não necessariamente com suavidade, pois a vida tem o mau hábito de embrutecer até  quem tem um teto estável, imagine a quem vive pelas ruas, esperando restos alheios!

    Mas os cães o seguiam, sem se esfregarem nele, mas sempre por perto. Me surpreendi quando um sétimo cão foi rapidamente sucedido pelo oitavo, ambos com problemas nas patas traseiras esquerdas, mesmo assim andando com desenvoltura em sua dança canina pela avenida ainda fria. Nenhum deles era muito magro, nenhum estava gordinho, mas todos estavam fortes e serelepes, então todos eles e o senhor provavelmente tinham o necessário em intervalos salutares para subsistir.

    Antes que o senhor chegasse à outra esquina, com o cano a ressonar na manhã escura e fresca deste inverno esquizofrênico, mais dois cães se apressaram em virar a esquina oeste e alcança-lo. Então eram dez cães, dos quais um homem muito pobre e velho cuidava a contento, mesmo com todas as dificuldades e não só a parte alimentar, porque os dez estavam muito mansos, sem nem se importar com os poucos carros e os ônibus que circulavam àquela hora.

    Eu não posso fixar atenção em um só ponto, pois a região naquele horário é erma e quanto mais atento estiver, menos riscos eu corro, mas observei aquele senhor e os dez cães em uma convivência clara e totalmente espontânea, se afastarem até sumirem no único horário em que não seriam tratados como agentes patogênicos. Talvez por isso ele não tenha tentado se afastar mais de mim, nem me olhado, nem me cumprimentado, talvez ser invisível tenha sido a regra de ouro para evitar mais dissabores do que a vida ingrata já lhe trazia.

    Tão repentinamente quanto surgiu, o som do tubo na calçada sumiu. Com ele o senhor e seus dez cães. Talvez para ele não faça a mínima diferença e, não fossem dez cães dependendo de si, talvez para ele fosse até um alívio desaparecer pura e simplesmente.

    Estamos no segundo semestre, as propagandas de natal não tardam muito a aparecer, então me veio à mente os antigos filmes sobre Papai Noel, em que o bom velhinho podia se disfarçar em alguma forma desafortunada para testar a reação das pessoas. Bem, eu não fui gentil com ele, não do modo como me acostumei, também tenho meus traumas e aprendizados e não incomodar um estranho em situação que me desfavorecem se tornou um hábito quase automático. Ficarei sem presente neste natal, ao que me parece.

11/06/2018

A cidade não perdoa erros

Imagem de "Beverly Hillbilies" (A família Buscapé) 1960s

    Não é de hoje, mas a facilidade com que as notícias circulam neste século, a quantidade de pessoas que são engolidas pelas metrópoles parece ser suficiente para formar outas metrópoles. Parece algo fora de moda, a história do caipira que vai para a cidade grande tentar a sorte e se dá mal... e é. O grande problema hoje é de gente de cidades pequenas e médias que vão confiantes (ou desesperadas) demais tentar a sorte em uma metrópole.

    Isso é no mundo inteiro, mas só em democracias as notícias viajam à vontade, e vêm dos Estados Unidos as cenas mais tristes, como o caso de mãe e filha que foram tentar a sorte como cantoras em (JUSTO ONDE, MEU DEUS) Hollywood. Assim, sem degraus, sem preparo, só acreditando que talento e vontade de trabalhar fossem suficientes, pensando que alguém de uma gravadora ou programa de televisão as veria no shopping, se encantaria com suas vozes e as chamaria para uma estreia exclusiva. Não é um caso isolado, mas é o que mais me dói na memória, porque são duas gerações juntas na pobreza das ruas de Los Angeles... literalmente nas ruas.

    Também por isso eu sempre digo que os jovens de hoje são amis trouxas do que os da minha época. Meus amigos, a severa crise de 2008 (em parte) passou, sim, mas uma crise é como uma doença econômica, e esta durou muito tempo! Antes da metade dos anos vinte não teremos o optimismo de 2006 de volta, ainda mais com gente querendo que os sintomas perdurem.

    É sim verdade que uma metrópole está cheia de oportunidades, mas não são para quem quiser. Não basta chegar a São Paulo com um detector de metais e procurar por seus tesouros, quem dera fosse tão simples! Para começar, quem chega pela primeira vez a uma cidade grande, simplesmente se perde em seu gigantismo; ou seja, chegar sem saber precisamente para onde ir é um réquiem para o desastre. Para saber aonde ir, é preciso ter conhecido alguém que lhe tenha indicado confiavelmente para onde ir, porque por algum tempo tu terás que ficar sob a tutela de um nativo ou veterano daquela cidade. É a forma mais segura de ser apresentado a uma metrópole.

    Até o começo do século a pessoa precisava ter amigos de infância ou parentes na cidade, para recebe-la, não havia alternativas. Hoje temos redes sociais, qualquer celular barato consegue acesso a elas. E com isso temos mais um problema que acomete nossos aventureiros da vida real, a falta de planejamento. Não se fixa moradia em uma terra estranha. Não é porque hoje é perigoso, SEMPRE foi perigoso, simplesmente porque é uma terra estranha e o sujeito não sabe nem para que lado cair, se tropeçar na guia calçada. Longe de mim querer que uma pessoa fique o resto da vida em um rincão onde não é feliz, mas cada cidade tem suas próprias regras e elas nem sempre são claras; as de uma metrópole quase nunca são claras.

    Então, antes de fazer as malas e dar adeus à tua cidadezinha, saiba realmente para onde estás indo. O ideal é fazer pelo menos três visitas em épocas diferentes, em todas conhecer lugares diferentes, SEMPRE ACOMPANHADO, para inclusive saber se aquilo é realmente o que quer para si. Uma terra estrangeira trata de formas completamente diferentes o turista, o temporário e o residente; só este conhece todos os rigores e todas as armadilhas que sua terra oculta a olhos forasteiros. Por isso cuide de conhecer o máximo que puder do lugar aonde pretendes ir, de preferência faça as viagens que recomendei, e mesmo com elas não dispense as pesquisas em livros, jornais e internet; são fontes completamente diferentes, com focos completamente diferentes, que te darão todos os meandros e caprichos que uma metrópole reserva.

    A primeira coisa que precisas saber, por mais que te doa em teus sonhos, é se aquela região REALMENTE TE QUER LÁ como morador. Porque um morador demanda um investimento muito alto, é alguém que os concidadãos terão que aturar pelo resto da vida. Muito provavelmente alguns hábitos de tua região serão mal vistos em outra, e vice-versa. Há lugares que não entendem pessoas reservadas, que dá cumprimentos mínimos e protocolares, há outras que simplesmente não toleram exibicionismo e barulho em áreas residenciais. Para um pode não ser exibicionismo, para outro pode não ser frieza, são as regras de berço da cada um. Se vais mesmo mudar de região, deves seguir as regras do teu destino, ou ele vai te rejeitar sumariamente e tu vais difamar o lugar por algo que pode ter sido de tua estrita responsabilidade. Aceite as regras da casa que te acolher, ou não entre lá.

    Outra coisa que as pessoas negligenciam é o preparo. Achas mesmo que tua cidade de um milhão de habitantes é agitada, apressada e estressante? Juras? Experimente viver e trabalhar normalmente por apenas um mês em São Paulo! Na segunda semana vais desejar uma vida de ermitão. Para isso servem as pesquisas e as viagens. A permanência gradualmente mais prolongada vai amortecer o impacto das diferenças, e evitar que o tem problema de ideal de vida se torne um problema social em um lugar que NÃO TE CONVIDOU para morar lá. Duro? Sim, mas é assim que as coisas funcionam. Experimente ir para uma cidade bem menor do que a tua, bem no interior do país e veja como as pessoas podem simplesmente se escandalizar, mesmo hoje, com o teu comportamento.

    Para maior ou para menor, a mudança de cidade SEMPRE demanda um gradiente, o que pode inclusive ajudar a conseguir uma hospedaria até tu poderes caminhar com tuas próprias pernas.

    Mais um erro que as pessoas cometem é não quererem outro trabalho que não seja aquele dos seus sonhos. Meus amigos, Brad Pitt fez com maestria o papel de garçom até ser chamado e se estabilizar em sua próspera carreira! Não é humilhação! Não superestime teus talentos, acreditando que a metrópole vai desenrolar um tapete vermelho na rodoviária para te receber. Nem para seus filhos ela faz isso, imagine tu, aventureiro petulante! Uma metrópole não mima ninguém! As gigantescas como São Paulo, New York e Los Angeles não perdoam um erro sequer, e tu podes cometer um monte deles assim que puser os pé em uma delas, mesmo sem perceber!

    Tu achas que canta bem? Mesmo? Então tente primeiro ter a admiração de teus concidadão, exponha-se às críticas deles, seja humilde. SEJA HUMILDE. Nem bilionários podem ser arrogantes à vontade, que dirá tu! Rico arrogante em território alheio, é pato a ser depenado. Pobre arrogante em território alheio, é pato servido em molho pardo. Mantenha a cabeça erguida, mas abaixe teu topete.

    Quando fui a São Paulo, fiquei lá só por um dia, mas segui à risca as instruções que estou lhes passando. Resultado? Todos me trataram muito bem: polícia, cobrador de ônibus, do metrô, enfim, TODOS me ajudaram como puderam. Isso vindo de uma cidade que a mídia se espera em maldizer todos os dias. Não voltei para lá porque não deu mesmo, vontade e motivos não me faltam.

    Assuma-se como um caipira, que não sabe nada da vida fora dos teus limites, que precisa aprender tudo de novo se pretender mudar de Cocalzinho para Jataí. Faça um curso informal sobre com ser jataiense, e saiba esperar o momento certo. Não é o teu tempo que vai dizer isso, é o tempo da cidade. Jataí é uma cidade bem desenvolvida do sudoeste goiano, mas nem de longe se compara a Anápolis, que é muito menor do que Goiânia, que é um beija-flor se comparada ao gavião real que é São Paulo.

    Antes de sair da segurança, por desconfortável que seja, de tua cidade, conheça bem a aprenda tudo o que lhe for possível sobre o teu destino, e prepare-se para ele; porque ninguém gosta de quem chega pedindo uma chance, mas não sabe o que fazer com ela.

24/05/2018

Esteja presente

   
A falta de recursos não é pior do que o Estado ausente, do que pais ausentes, do que parceiros ausentes, do que você ausente de si mesmo. Recursos se arranjam, com maior ou menor dificuldade, se improvisam, mas a ausência é, neste contexto, o vazio de um recipiente que deveria estar pleno, talvez até transbordando. Há de se lamentar a ausência de outrem, tanto mais quanto maior o compromisso feito, mas não se pode justificar a auto ausência naquilo que se dispuser a fazer.

    A maior carência de quem busca por momentos de prazer, nem sempre é o prazer. A pessoa vai ao lugar fazer algo, arca com os custos e riscos, então sai de lá (se vivo) sentindo-se mais vivo. Isso inclui a moda de esportes radicais, onde o risco de morte é o que atrai muita gente. A descarga de adrenalina, uma vez cessada, dá lugar à serotonina e a diferença de potencial resultante pode dar ao corpo a sensação de estar flutuando, a ponto de pequenos ferimentos nem serem considerados.

    É como estar em um campo de batalhas e sair vivo. Ninguém sobrevive se corpo e mente não estiverem lá, unidos, focados em fazer bem feito o que deve ser feito. Não se pensa na namorada, no desafeto, no programa de televisão, enfim, em nada que não seja concluir a contento aquilo que se foi fazer. O mesmo vale para cirurgiões, que precisam controlar até a respiração, esquecer-se da própria fadiga após oito horas contínuas com o paciente aberto. Em ambos os casos, a pessoa precisa estar presente no que faz para não causar uma tragédia.

    Não é raro uma notícia ou vídeo de motoristas que destruíram famílias inteiras, por se ausentarem momentaneamente da direção para mexer em alguma bobagem cibernética, mesmo que só para alterar o toque do smartphone. Parece ser algo banal, rápido, mas lembremos que qualquer veículo em baixa velocidade percorre uma quadra antes que a mudança de toque seja feita; uma quadra que o motorista não viu passar. Imagine um caminhão em uma rodovia, percorrendo mais de vinte metros a cada segundo! Qualquer distração pode significar de cinqüenta a cem metros de ausência das funções em andamento, se o indivíduo for rápido.

    Sejam quais forem a atividade e seus objectivos, o que quase todos querem na realidade é se sentirem mais vivos no final, fazendo todo o restante da semana valer à pena. Para se sentir mais vivo, o indivíduo precisa estar todo focado no momento que vive, relevando todo o restante; ele precisa estar presente consigo. Isso vale para tudo, inclusive para religiões.

    O que separa, basicamente, uma religião de uma mera superstição, é a presença do fiel durante os procedimentos, especialmente as preces. Memorizar e recitar uma oração complexa tem pouco valor, se a cabeça estiver em outras paragens, ou na malha colada da moça no banco da frente. Ok, o ambiente precisa de mais sobriedade, mas fixar-se e manter olhares no alvo é tua escolha. Não se trata de uma praia, não se está lá para apreciar a paisagem. Se tu não prestas atenção ao que está fazendo, então não acredita realmente no que está fazendo. Rezar pensando exclusivamente na prosperidade que espera conseguir com aquilo, também é ausência.

    A cultura de se ter tudo aqui e agora na potência máxima, é uma das grandes inimigas do compromisso para consigo. Entre os servos dessa inimiga, estão os "antenados" que querem que todos estejam plenamente cientes daquilo que consideram mais importante do que tudo, o que no Brasil tem se traduzido na figura do militante político/ideológico; infelizmente ele superou de longe o fanático religioso, que não tem a chancela da aparência de intelectualidade. O problema é que esses dois costumam ser carismáticos e demonstram sincera decepção para com os que não se alinham, alimentando a culpa e tirando a pessoa de si mesma para a carapuça apertada que querem que vista.

    Nem vou falar dos maníacos que tentam saber de tudo ao mesmo tempo e têm dezenas de abas abertas ao mesmo tempo no computador, e se consideram o suprassumo da inteligência. Bem, já falei, então serei breve, para não me perder de mim aqui. Há uma diferença sutil entre estar ciente de tudo o que nos cerca, e ter pleno conhecimento de tudo o que nos cerca; o primeiro é o salutar e necessário, o segundo é uma utopia insalubre que muita gente persegue. Perseguir uma utopia é correr de si mesmo a toda velocidade e depois se queixar da perda, culpando outros pela própria escolha.

    Aceitar se perder de si, muitas vezes significa abrir mão da própria personalidade, tornando-se mais um número a se parecer paulatinamente com todos os outros auto ausentes. Nem sempre parece, porque é gradual e nem todos escalam as graduações, mas os que o fazem tornam-se modelos para os outros e são tidos como corajosos, quando na verdade estão fugindo de si mesmos para não enfrentarem a própria ira, por terem traído o que mais acalentavam. E acabam destruindo aquilo que pretendiam, em princípio, proteger. Infelizmente esta é uma regra sem exceções, o radicalismo te toma de si mesmo e destrói as tuas bases mais caras, sem o quê a doutrinação e a lavagem cerebral não seriam possíveis; esta última a ausência total de si mesmo. É como usar palavras como drogas, o efeito é bem similar.

    E como fazer para não se ausentar de si mesmo?

    Prática. Prática contínua e persistente. Tentar ao máximo focar no que se estiver fazendo, deixar para depois o que pode ser deixado para depois, não olhar o gatinho que passa ali perto, não dar conversa para fofocas, não parar um minuto para ver o casamento do não sei quem com a nunca ouvi falar, não olhar as horas a cada cinco minutos; enfim, treinar estar presente naquilo que se estiver fazendo. Se algo realmente grave não acontecer, tente não se desviar. Não é fácil, ninguém diz que é, mas é necessário.

    Com o tempo, o teu compromisso para consigo mesmo aumenta, e passas a ter prazer e sentir-se vivo com as coisas mais banais e cotidianas, mesmo que só aconteçam uma ou duas por dia. Com o tempo não vais mais procurar prazeres todas as noites, porque já os tens ao teu alcance. Com o tempo, a culpa deixa de ter lugar na tua vida e ela cede lugar à responsabilidade, que é até parecida, mas não é histérica e violenta.

    Com o tempo e a prática, o resto do mundo pouco vai importar, porque não terá mais peso em tuas decisões e tuas opiniões, estas que não terás mais necessidade de mostrar todas a todo mundo. Vais descobrir eu uma hora sentado, tomando chá e meditando, muitas vezes é todo o prazer de que precisa na tua vida.

25/04/2018

Eu roubo sim de você; paródia

Art by Benett

Malandro sem mutreta
Licitação sem treta
Sou eu sem me corromper!

Caixa dois pro espaço
Comissão bem abaixo
Sou eu sem me corromper!

Por que que tem que ser assim,
Se minha ganancia não tem fim?
Cobiço a todo instante
Nem dez mil palanques
Vão poder mentir por mim!

Eu não resisto em me corromper
E a delação é meu pior castigo
Eu compro votos pra me eleger
Mas o Sérgio Moro tá de mal comigo!

Por quê? Por quê?

Rouanet mais reta
Sonegação discreta
Sou eu sem me corromper!

Merenda sem atraso
Professor bem pago
Sou eu sem me corromper!

Por que que tem que ser assim?
Eu quero mais do que dindin!
Eu minto a todo instante
Pior que meliante
Roubar é parte de mim!

Eu não resisto em me corromper
E a delação é meu pior castigo
Du carteirada pra me eleger
Mas o Sérgio Moro tá de mal comigo!

Por quê? Por quê?