21/03/2015

Herrar é um mano da Cohab

Cohab José Bonifácio, em Itaquera, ano 2003

  Herrar é um mano da Cohab. A vida de Herrar nunca foi fácil, se fosse difícil, estaria bom, mas varia do terrível para o desespero, mesmo assim ele resiste como um guerreiro. Não que não queira parar, mas não tem escolha, só lhe resta enfrentar a vida tirana, Herrar.

  Nasceu de mãe solteira, tinha apenas quinze anos quando o trouxe à luz, no meio de um apagão, bem debaixo da cruz da Santa Casa, bem ao lado de um velho que acabava de morrer. Não que Herrar quisesse nascer, mas para ele querer precisaria crescer e aprender, saber até onde iria sua liberdade, sua obrigação e a boçalidade de um país que sempre diz não, a quem quer viver honestamente e com dignidade.

  Herrar era seu nome desde que o avô, no cartório a lamentar dizia "Eu sempre tentei ensinar Ladisleyde a ser gente, mas em vez de aprender ela só fez errar! Erra! Errar! Errar!". O tabelião mamado, que voltava da farra sem nem ter passado em casa, só perguntou o sobrenome e assim ficou: Herrar da Silva Caio Rolando da Rocha.

  E Herrar rolou, logo ainda bebê, num alagamento em Higienópolis, Ladisleyde nadou desesperada atrás do rebento. O pequeno sacana foi encontrado rindo da desgraça, dentro de uma Kombi 73 abandonada, que depois da perda do barraco, tornou-se o lar de Ladisleyde e Herrar.

  Herrar cresceu sem nenhum conforto, com poucos amigos e uma cicatriz no rosto. Apanhou de bandido, apanhou de polícia, foi salvo pela polícia, e por isso de novo apanhou de bandido. Até que um dia conseguiu, um motor de roda gigante e algumas baterias. Então Ladisleyde e Herrar se mudaram para outro lugar, para perto da Cohab até acabar a carga e a Kombi parar.

  Lalisleyde conseguiu subemprego, agora era diarista, conseguiu mandar Herrar para a escola, nunca mais precisaria pedir esmola. Foi um tempo difícil, de muito trabalho e muita correria, mas muito melhor do que ser desabrigado e pensar, se durante o sono uma bala perdida os mataria.

  Herrar, que sempre sorriu, um dia chorou sangue, viu sua mãe vertendo sangue pela barriga, uma faca na mão do namorado ciumento que pensou que fosse lésbica, e o traía com a amiga. Uma semana agonizando e Ladisleyde morreu, sem um parente para velar, para consolar seu precioso Herrar.

  Pobre Herrar, pobre guerreiro, sempre foi filho e companheiro, agora estava só, na sua kombi. Parou de estudar, antes de terminar o segundo grau, não tinha cabeça para pensar, quanto mais memorizar lições tão abstratas, que não aplicava em sua vida, que de difícil se tornou o próprio umbral.

  Stallone disse uma vez, que ninguém bate mais forte do que a vida, Herrar estava cheio de hematomas, fraturas e no coração uma enorme ferida. passou mais de um ano se achando um vira-lata, comendo pão amanhecido com ovo, quase sem gastar o que ganhava, sem vontade de viver, nem a morte conseguiu querer.

  A vida não precisava ser moleza, facilidade era coisa que Herrar não conhecia, não precisava dela e às vezes nem queria, mas se considerou desrespeitado e traído. Não tinha que ser fácil, mas tampouco perversa. Herrar afundava a cada dia em sua amargura e solidão, mesmo à beira da festa.

  A vida, como que um mea-culpa, fez a Kombi de Herrar parar em uma blitz. Era toda irregular e foi recolhida para o pátio da prefeitura, onde tecnocratas a deixarão apodrecer, sem se importar se alguém vai ficar sem ganha-pão, ou mesmo ao relento abanando mão.

  Um policial encaminhou Herrar a um albergue, onde poderia pensar na vida, no que fazer doravante. Uma voluntária o reconheceu pela cicatriz, sem saber que por dentro ela ainda sangrava. Herrar, desnorteado começou a contar e ela se apresentou "Sou a Verinha, filha do Hiroshi do pastel, da feira" e ele se lembrou.

  Felicidade! Herrar voltava a sorrir! Voltou à Cohab e deu entrada em um apartamento, onde um ano depois foi morar com Verinha, casados de papel passado para o orgulho de Seu Hiroshi. A vida continuava difícil, mas Herrar agora estava feliz, voltou a estudar, arrematou sua Kombi de volta, montou em cima de um chassi e ela voltou a rodar com a gambiarra de motor e baterias.

  Ontem Herrar voltou das férias em Santos, só alegria, muita farofa, chorinho e selfie na praia. Verinha esperou ele se acalmar da empolgação e avisou, dentro de oito meses vai ter gente nova no apê, o primeiro bacuri está chegando. Herrar ficou feliz, não pôde se agüentar, correu sete milhas, pegou trem para voltar. A vida era dura como sempre foi, mas agora podia zombar dela.

15/03/2015

Um punk domou o sistema



  Era um garoto revoltado como outro qualquer. Queria o fim dos governos, o fim das empresas, o fim das instituições e em alguns casos o fim d humanidade. Acreditava que absolutamente nada tinha jeito, que tudo estava perdido; ninguém presta, ninguém vale nada, todo homem é gay, toda mulher é safada. Assim ele e seus amigos vararam praticamente uma década, se recusando a mudar o que queriam que fosse mudado, porque acreditavam que não haveria mudanças e, mesmo que houvesse, rapidamente o mundo voltaria a se corromper.

  Mas quanto mais se estica o elástico, mais rápido a pedra é atirada. Muitos dos que protestavam contra "tudo isso que aí está", são hoje os que mais querem que assim permaneça. Alguns nem tanto, aliviam a tensão quando percebem que as coisas não são exactamente como acreditavam, por vezes nem de longe se parecem. Aos poucos as turmas foram se desfazendo, embora contactos e alguns teimosos persistissem na senda de vagar em busca do apocalipse perdido.

  Um em especial mudou, mas não como pensavam seus próximos. Estudou, arranjou emprego, até constituiu família, parecia ter se rendido ao sistema. Só parecia. Por dentro ele continuava a querer colocar os sacanas de quatro e fazer com eles, o que faziam com gente inocente que não pode se defender. Mesmo de terno e gravata, o punk vivia e respirava com a facilidade de sempre. Só esperava pela oportunidade para dar o bote, e oportunidade era a especialidade do homem de negócios que então o vestia.

  Claro, os antigos amigos começaram a se afastar, alguns o consideraram um traidor, até ameaças de morte ele recebeu dos mais radicais, aqueles que esticaram tanto o elástico, que ele se soltou e deu-lhes na têmpora. Mas ele acreditava que quando os resultados aparecessem, quando vissem que tudo era só uma estratégia friamente maquinada pelo punk, todos entenderiam e talvez até seguissem seus exemplos. Punk esperançoso é como mulher apaixonada, que não enxerga o canalha com quem dorme.

  Um dia ele chegou lá. Tinha a confiança dos acionistas, era amigo e camarada dos colegas, sua capacidade técnica era indubitável, então foi só questão de persistência, coisa que os punks têm de sobra. Seriam excelentes feiticeiros. Ele percebeu no decorrer da jornada, que o capitalismo é um jogo de regras claras, mas um jogo, por isso mesmo atraía tantos trapaceiros e canalhas, mas por ser um jogo poderia ter a mesa virada.

  Quando o poder estava em suas mãos, em vez de se corromper como muitos outros, chutou o pau da barraca do modo mais capitalista possível. Passou a selecionar os fornecedores e prestadores de serviços não só pela relação custo/benefício, mas também pela humanidade com que trabalhavam, e usou isso nas campanhas da empresa, arregimentando a simpatia do consumidor, que no final das contas é o idiota que decide tudo sem perceber coisa nenhuma.

  Lá dentro passou a valorizar as pessoas, pagar melhor, eliminar as distorções de gênero e biotipo, manter na empresa o profissional que ela tinha formado, combateu a alta rotatividade que os panacas corporativos acham tão normal, mas alimenta muito a concorrência desleal e escravocrata dos chineses. Nenhum punk que se preze tolera escravocratas. Um dos resultados foi que a empresa passou com poucos danos pelas últimas crises.

  Estava tudo bem, mas tudo estava mal. Pela primeira vez o punk chorou, e o executivo precisou consolá-lo. Os antigos amigos não queriam saber de domar o sistema, de humanizar o capital, de expurgar os parasitas que deixavam a sociedade tão perversa. Eles queriam é destruir tudo, exterminar a civilização, não aceitavam a hipótese de ela ter conserto, mesmo vendo a prova bem diante de seus olhos.

  Até pensou em desistir de tudo, mas já estava comprometido demais com o sonho do punk, que estava materializado e precisava se alastrar pelo mundo. O punk viu exemplos de gente que antes rejeitava, se aproximar de seus ideais de igualdade e justiça. Viu o arreganha bilionário Bill Gates fazer pela saúde mundial o que a fraude da ONU jamais fez em toda a sua história; hoje ainda menos, influenciada por ditaduras. Um pouco de leitura e soube de gente que quase nunca é lembrada pela sua doação à humanidade; Audrey Hepburn, Grace de Mônaco, Hedy Lamarr e Paul Newman.

  Mais recentemente viu o esquisito Elon Musk abrir as patentes de seu maior sucesso comercial para qualquer um se valer delas. Não que ele não quisesse ser rico, como todos os outros, mas o que fizeram lhe deu a certeza de que não estava sozinho, tinha exemplos de sobra para se inspirar e seguir, mais um monte de patentes excelentes para beneficiar sua empresa e construir o sonho do punk. Na parte que lhe cabia, ele já tinha domado o sistema, e com tanta gente forte fazendo o mesmo, o jogo do capital estaria mesmo com os dias contados. Não para dar lugar a um sistema artificial que só gerou ditaduras sangrentas, o próximo sistema estava em gestação e só seria conhecido quando eclodisse. Nome é o que menos importa, importa que o punk está feliz, e agora ninguém mais o segura.

  Quanto aos ex-amigos... Paciência! Nem todos crescem. Hoje o punk pode cantar e gravar só o que quer, do jeito que quer e onde quer. Ele está pagando!

24/02/2015

Minha vida muito tosca


  Uma das coisas que aprendi em mais de doze anos de Vigilância Sanitária, é que não importa o quanto você saiba pouco, ou mesmo nada de legislação sanitária, o contabilista provavelmente sabe menos. Hoje mesmo foi um a quem precisamos ensinar a diferença entre fiscal de saúde e fiscal ambiental, porque na cabeça dele seriam a mesma coisa. Não que as regras sejam claras e concisas, mas o cidadão leigo costuma compreender melhor e mais rápido que Anvisa e Vigilância Sanitária são intimamente interligadas, mas são órgãos distintos. Mais ou menos como cérebro e intestino, mas os profissionais que deveriam orientar os clientes, confundem... Sim, vocês estão imaginando certo, temos que corrigir muita caca.

  Outra caca que eles costumam fazer, é mandar o coitado do estagiário arrumar algo, mas ensinando TUDO ERRADO! A vítima de hoje foi um jovem senhor de barba cerrada, que chegou à nossa sala com cara de quem não sabia o que estava fazendo lá, ele apresentou um papel e disse que queria "tirar a Anvisa". Ok, vamos por partes. Anvisa não é uma coisa que se tira de um lugar e se coloca em outro; também não é um documento, ninguém anda com uma Anvisa no bolso, nem a pendura na parede com uma moldura cafona; finalmente, também não é leite para o sujeito entrar no prédio de uma vigilância sanitária e pedir que tiremos para ele. Isso lhes parece compreensível? Não para o contador. O rapaz saiu de lá sabendo provavelmente, mais do que todo o restante do escritório.

  Ainda assim não é raro um contador indignado ir tirar satisfações, como se nós tivéssemos ensinado errado, então temos que esfregar toda a legislação na cara de pau dele. Isso quando não faz ameaças veladas, dizendo que joga futebol com os vereadores...

  A não mais do que meia hora para meu turno findar, liga uma cidadã. Eu logo identifico a autarquia, e mesmo assim ela pergunta se é da Vigilância Sanitária. Depois começa com "Deixa eu perguntar" e cinta toda a história da humanidade, para só então dizer que pagou uma guia COM ATRASO no Bradesco ainda no ano passado, e o pagamento ainda não caiu no sistema... Queria saber o que poderia ser feito... Pedi que fosse falar com o banco mesmo, estava fora na nossa alçada. Provavelmente terá que fazer um boletim de ocorrência...

  Minutos antes de eu ir embora, uma chuvinha fina reveza com o sol inclemente, até acertarem que o céu ficaria nublado e nada mais. Saí, já que não recebo hora extra. Fui serelepe e tranqüilo ladeira acima, até estar longe demais para voltar, mas ainda longe demais do ponto de ônibus, quando pingos grossos começam a cair. abro o guarda-chuva, e o toró cai de uma vez. Sem ter para onde correr, e ciente de que o ônibus não me esperaria se eu demorasse, segui, ensopado do joelho para baixo, atravessando enxurradas e tentando não ser ensopado do joelho para cima, pelos carros.

  A cada esquina o aguaceiro aumentava, com o vento ajudando a melhorar o quadro. A poucos metros do abrigo, um rapaz em um Porsche Boxter preto de capota vermelha (claro que estava fechada, Pedro Bó!) olhou para mim com alguma piedade, então o trânsito começou a fluir e ele foi junto, com civilidade suficiente para não dar banho de lama nos passantes, com o V8 ronronando logo atrás de si.

  E por falar em lama, ela formou praticamente um lago, por causa da obra faraônica e desnecessária na Praça Cívica, de onde escorria fartamente a correnteza suja, que logo adiante sobrepujava o passeio central, onde fica o abrigo do ponto de ônibus. Mesmo já sob o abrigo, mantive o guarda-chuva aberto por dois motivos; primeiro porque os ônibus e os outros carros não tinham a mesma civilidade daquele rapaz no Porsche e jogavam água com vontade no público, não preciso dizer que havia gente atrás de mim; segundo porque Paralda, sacana, alimentava o vento com uma paixão avassaladora. Fiquei naquela cena ridícula de mover o guarda-chuva toda hora, dependendo de quem molhava menos, a chuva ou os carros. Àquela altura do campeonato, eu já desistira de ficar seco, estava tentando manter a água do lado de fora do corpo.

  Demorou para o Caio Apache Vip, que virou padrão dos paus-de-arara do transporte público goianiense, vir me tomar R$3,30. Pois foram de quinze a vinte segundos dentro do ônibus para a chuva parar... Lá fora a cena esperada e fatídica, grandes galhos caídos em profusão por praticamente todo o caminho, alguns carros apagados, alguns acidentes, incluindo uma Palio Weekend que encolheu a frente após afundar a traseira de um Logus. Me lembrei de pronto dos Fiat 147 e sua lendária vulnerabilidade a alagamentos. Andando eles até conseguiam atravessar algumas enxurradas, mas se parassem, as ondas cessariam e a água que elas afastam entraria rapidamente na distribuição do motor. E aquele anda-e-para deve ter feio várias vítimas pela cidade. Fora o folgado de um Versailles vermelho, que estacionou na diagonal , quase no meio da avenida, para desembarcar algo ou alguém. Estavam lá, os sacripantas, saracoteando com as portas abertas.

  Quase chegando ao ponto, a chuva recomeçou. Como sei a não elogiar algo que parece ir bem, e a não subestimar a lei de Murphy, o motorista fez o favor de parar no meio da rua, e eu novamente encharquei os pés... E ainda atravessei mais duas até chegar ao portão e entrar. Para quem acha pouco, acrescento o episódio que aconteceu às duas horas da manhã, quando o alarme disparou, demoramos a conseguir desligar o porqueira, e não consegui mais dormir. Descansar agora? Eu? Quem me dera!

17/02/2015

Seus medos?

  Quais são? Seja sincero consigo. Tens certeza? Há uma diferença sensível, mas muito efetiva entre o que acreditamos ter, e o que realmente temos. Com o medo não é diferente, ele recebe muitos eufemismos e muitas justificativas, tanto mais quando menos se quer assumir.

  É mais ou menos como ter em casa um velho caminhão Fargo 1948 e achar que ele vale, mesmo caindo aos pedaços, mais do que um Cargo 2429 zero quilômetro. Ou o contrário, pensar que por causa do estado de conservação, ele não vale nem seu peso como sucata, a distorção de avaliação é a mesma.

  Neste ponto todas pessoas quase sempre falham, não se considere um idiota por isso. Elas não avaliam direito os seus medos e por isso também não sabem avaliar as reais dimensões da ameaça, isso quando realmente há uma ameaça. Não que ameaças não existam realmente, existem e são muitas, mas pelo efeito manada, a reverberação do medo alheio funciona como um amplificador, fazendo um um passo no cascalho parecer uma avalanche; também o contrário, é claro.

  Nos últimos anos as pessoas têm ficado mais neuróticas do que na época da guerra fria, que aquele psicopata do Putin tenta ressuscitar a todo custo. A neurose é alimentada pela mídia, que não faz isso só porque é lucrativo, mas também porque jornalistas geralmente são neuróticos, faz parte da profissão. O problema vem quando a neurose toma conta da vida do cidadão e ele passa a ter medo de tudo, dando a reles marginaizinhos um poder que eles não têm. Eu os enfrentei, sei do que estou falando, não passam de moleques mal acostumados. Mas as pessoas pensam que qualquer um usando apenas calção abajur de quenga e óculos ridículos, é um mensageiro do inferno.

  Há casos de pessoas que têm tanto medo de serem demitidas, que se esse medo não se concretizar depois de anos, elas mesmas se demitem e depois lamentam pelo desemprego. Não necessariamente pedindo demissão, mas se comportando como se a demissão fosse inevitável e comprometendo suas funções, então a chefia não tem escolha. Ou até tem, mas o surgimento de uma vítima mais cômoda pode tê-lo tirado de um dilema.

  Sabem aquelas comédias de paspalhos que terminam o namoro com medo de serem traídos? Eu até riria delas, se fossem só comédias. Algumas pessoas, e num universo de mais de sete bilhões esse "algumas" pode render muitas dezenas de milhões, têm tanto medo reprimido ou camuflado de serem felizes, que cedo ou tarde fazem de tudo para sabotar um relacionamento sadio que está dando certo. São pessoas que só se sentem à vontade em relações doentias, repletas de ciúmes e desconfianças, que desgastam e causam danos perenes. Elas têm medo da felicidade, simplesmente porque têm medo de se acostumarem às nuvens e caírem delas de repente.

  Quem já não desejou passar por cima daquele bocó de mula, que trava o trânsito porque só tem coragem de atravessar quando não houver nenhum carro no horizonte? Não importa que aquela Mobilete com um condutor de duzentos quilos atravesse antes de o carro da transversal alcançar metade do caminho, mesmo que o cidadão em questão esteja em um Maverick 302, ele vai ficar travado ao menor reflexo de um para-brisas a um quilômetro de distância. O medo de arriscar e falhar pode ser maior do que o instinto de sobrevivência. As causas são inúmeras, duas pessoas com o mesmo sintoma podem ter condicionamentos ou traumas completamente diferentes.

  Para justificar seus medos, porque muita gente tem pavor de não sentir medo e ser pega desprevenida, um contingente cada vez maior se apega e dissemina teorias conspiratórias das mais diversas, tão sortidas quanto absurdas. Muitas têm até muito de verdade, mas é uma verdade tão fragmentada e dispersa pela explanação, que mesmo que fosse tudo verdade, uma pessoa culta e com o medo na medida saudável não levaria à sério. Infelizmente o medo de ficar de fora de um grupo tem ceifado bastante do afã literário, as pessoas temem ser esclarecidas porque isso as tornaria diferentes e ser diferente, neste mundo onde é obrigatório aderir a um rótulo idiota, vai contra a sociedade defensora da diversidade... Hello, meu nome é Ironia, a fina.

  Essas teorias conspiratórias modernas, que deixam muito a desejar às clássicas, tratam pessoas ou entidades como deuses. Alertam que o mundo está em perigo, que eles são terríveis, invencíveis, que nada pode detê-los, que sabem de tudo sobre todos e vão colocar suas conversas no whats upp no programa da Ophay. Ai, meu Deus, eles são onipotentes, ninguém é capaz de falar deles, muito menos de denunciá-los, por isso devemos nos unir para dar um basta, mas eles vão destruir o mundo e ninguém pode impedir, por isso temos agir e detê-los... Notaram a contradição? Os disseminadores desse medo mostram entidades humanas como supra divinas, cujo poder é irresistível, e mesmo assim se empenham em denunciar o que eles mesmos afirmam que é inútil denunciar, mas todo mundo tem que saber, nem que seja para borrar as calças a qualquer sombra que aparecer, mesmo a própria.

  Infelizmente pessoas mal intencionadas são hábeis em perceber o pânico potencial, e se aproveitam dele. Fazem as pessoas esquecerem quem sustenta a quem, aproveitam para disseminar factoides entre seus contactos na imprensa, apelando sempre para os temores mais básicos da população, esses factoides ganham força e passam a sobreviver sozinhos, puxando eles mesmos audiência e patrocínio, em um círculo vicioso.

  Sim, é verdade que disseminar versões escrachadas de informações sigilosas, é um bom meio de desacreditar uma denúncia, da mesma forma repetir com cara séria uma mentira é uma boa forma de essa mentira ganhar credibilidade. Principalmente se essa mentira tiver algum fundo de verdade, mais ainda se acompanhar teorias conspiratórias antigas sobre o mesmo tema. Sim, é verdade que a CIA avisou ao anencefálico do Bush sobre as conspirações da Al Qaeda, tão verdade quanto isso foi divulgado e ninguém impediu a divulgação.

  É o mesmo princípio usado no Brasil, onde direita e esquerda acusam a imprensa de ser servil ao outro lado, ambos negando e dizendo que não existe sua ideologia de verdade no país. Fica como uma lenda urbana, que ninguém prova que existe, mas ninguém prova que não existe, assim a dúvida acaba tendo o mesmo efeito do medo nas pessoas, que não sabem a quem se reportar e a quem encher de tapas. Aliás, é alimentando o medo coletivo que eles se mantém no poder, porque o cidadão comum se preocupa demais em se manter vivo, não tem disponibilidade para cortar a verba e começar a dar ordens.

  Os efeitos colaterais desse medo são conhecidos, mas é difícil relacioná-los, porque parecem nada terem a ver um com o outro. As pessoas ficam susceptíveis a vícios, qualquer coisa que propicie um escape da realidade, que não é essa realidade toda que a mídia divulga. O escape pode ser por drogas químicas, drogas televisivas, drogas musicais, pode ser a inversão de papéis, quando o indivíduo passa a flertar com comportamentos agressivos e perigosos, tornando-se então ele um gerador de medo.

  Certo, como resolver esse problema? Com conhecimento. Não simplesmente devorando uma enciclopédia e sair arrotando conteúdo. O maior problema é saber processar esse conteúdo, saber onde, quando, como e até que ponto aplicá-lo. Precisa-se desenvolver o raciocínio crítico, de preferência livrar-se de ideologias. Sei que este ponto pode colocar muita gente de cabelo em pé, mas quem abraça uma ideologia não percebe que está agindo como quem abraça um dogma, tende a vetar tudo o que vem do outro lado e exaltar tudo o que está do seu, sempre criando argumentação para sustentar o que diz.

  Ao analisar uma notícia, esqueça sua opinião e adopte parâmetros. Pergunte-se sempre os porquês de sua conclusão, lembrando-se de que confirmar um temor pode ser um modo de manter-se na zona de conforto; masoquista, mas um conforto. Pergunte-se, por exemplo, como aquela notícia foi veiculada se alegam que o denunciado é tão poderoso, ele teria sido capaz de abafar tudo em tempo, provavelmente o editor não teria permitido a veiculação, porque ele pode fazer isso e faz muito, para garantir patrocínio. Muitas vezes a nossa própria preguiça de ler, e nosso medo de nos decepcionarmos com nossos heróis, nos pregam essa peça.

  O mesmo vale para obras de cunho científico, tudo deve passar pelo crivo do senso crítico, que sem parâmetros não tem onde se apegar para crescer. Como um bougainville, que precisa de um suporte para exibir todo o seu potencial ornamental. Procure saber de onde nasceu aquela idéia, que suporte ela tem, como o autor chegou a ela, o que fez com que chegasse àquele resultado, uma seqüência de "por quê" capaz de fazer muitos intelectuais arraigados se decepcionarem com suas próprias idéias, como aconteceu comigo há cerca de vinte e poucos anos. É desconfortável, mas uma vez instalado o raciocínio lógico, não o pensamento da tua lógica, o medo se recolhe ao seu lugar e para de atrapalhar tanto.

  Queridos, ninguém é invencível, ninguém é onipotente, ninguém é eterno, nem seus medos.

04/02/2015

vie noir

  Eu fui à sala vazia, onde jaz a memória d'outrora, onde a calma e o silêncio da mobília conversam com o televisor de 1977, que nunca mais foi ligado. Só a valsa lúgubre das cortinas à meia-luz da meia-noite se faz movimento, pelos sussurros melancólicos da brisa que chora em mono tom.

  Lá fora as flores sorriem tristes em seu leito sem questionar seu destino, que é servirem de cortesãs e logo murcharem. Imagem cálida do morno gélido de uma noite plácida, mas é uma placidez traiçoeira, vampira, que seduz à inércia para servir-se de quem repousar à sua sombra.

  A rua silente canta a última melodia, com o coro de cães desnorteados em suas casas gradeadas, por conta de uma ave ou um gato, um outro cão, talvez. À amiúde é só silêncio, à amiúde é só lembrança, à amiúde é o vazio cantando e eu o ouviria ainda que tivesse surdez absoluta.

  O velho toca discos de 1962 ainda repousa com o David Castle ainda na agulha, com sua capa ainda vazia ao lado do aparelho, todos inertes desde então, desde quando, desde enquanto, fundindo-se em uma só e triste imagem da alegria sepulcra onde a perda encontrou acalanto perpétuo.

  Ainda tenho na mente a última festa, a última dança, a última palavra, a última olhada, a última lavanda que exalava de sua roupa. Ainda tenho em casa as roupas do baile, as veria ainda que contraísse cegueira absoluta, me lembraria delas ainda que delas me esquecesse para sempre.

  Está tudo quieto, está tudo silente, está tudo como sempre esteve desde então, desde quando, desde tanto tempo, desde que terminou, desde que nem me lembro mais. O choque me imprimiu uma loucura que não é outra além da lucidez insana em que se apoia o que me resta de razão.

  As photos no aparador ainda contam suas histórias, ainda cobram por sua narração, ainda vivem o que mostram, ainda existem quando foram batidas. Todas em branco e preto, todas cheias de cor, as veria ainda que a escuridão completa se deitasse sobre a sala, tão densa que afundaria no sofá.

  Eu sei que acabou, eu sei que não há mais, eu sei que nunca mais, mas sei também que o fim é eterno como é sua companhia. O tempo que houve se estende em lapso com o tempo que ainda corre e escorre por entre os dedos, como escorreu, correu, afastou-se até sumir no horizonte que ainda zomba de mim.

  Ainda que tudo passe, ainda que eu me afaste, ainda que me achasse, ainda que finde a fase, ainda assim tudo continuará como está, como esteve desde quando, desde então, desde muito tempo até agora, até amanhã, até sempre, até nunca mais, até tudo se dissolver em si e mergulhar em seu próprio vazio.

  Acabou, eu sei. Acabou. Deveria ter saído, mas já estava de fora, já estava longe, já estava onde a vista não alcança mais. Mas a presença ainda estava lá, ainda está lá, ainda estará lá mesmo quando a ausência chegar e se somar, em vez de substituir, à sua sina de grumete da solidão.

  Acabou, tudo acabou... Inclusive eu.


22/01/2015

Da força bruta

  Desde que começaram a lascar pedras, qualquer pessoa franzina consegue enfrentar um animal mais pesado do que ela, se defender dele e ainda conseguir alimento. Lançando essa pedra com a extensão estabilizadora e potencializadora de um cabo, que nem precisa ser muito retilíneo, o confronto nem precisa acontecer, o sujeito pode simplesmente lançar com a melhor técnica que puder e aumentar suas chances de sobrevivência e a de sua prole. Não só caça, mas também pesca e até derrubar frutas em galhos muito altos, que quase sempre são as melhores.

  De então em diante, qualquer pessoa pode também se defender de outras pessoas bem mais fortes, porque contra uma ponta perfurocortante a força física não significa nada. Até uma criança bem treinada consegue defender os irmãos menores e até os idosos, fazendo os valentões pensarem duas vezes, antes de atentarem contra eles. Mesmo as pessoas de compleição e modos mais delicados conseguem repelir machões embrutecidos.

  Desde que se criou a primeira arte marcial, a força física perdeu quase todo o seu apelo. Falo por experiência própria, já pratiquei judô, lutava com grandalhões com o dobro do meu tamanho. Um praticante devidamente treinado e motivado consegue expulsar uma gangue inteira, ainda que portem armas brancas, quiçá até armas de fogo, dependendo do grau de evolução técnica e (acreditem, em artes marciais isso existe sim) espiritual do praticante. A esbelta Twiggy seria capaz de nocautear qualquer grandalhão marombado e cheio de bomba, se tivesse treinamento e disciplina para tanto.

  Ainda que o agressor também conhecesse artes marciais, a iniciativa da agressão o deixaria vulnerável, ele se exporia às maravilhas que uma boa alavanca é capaz de fazer por um corpo franzino. Não adianta me olharem com essas de "cala boca Deus, que eu sou macho". Há muitas, mas muitas partes do corpo que jamais se fortalecem, não importa o quanto se treine e encha o corpo de músculos, as partes vitais SEMPRE serão sensíveis, e a iniciativa da agressão as expõe. Um murro na base do maxilar, logo abaixo da orelha, pode até causar uma breve parada respiratória, bem como alucinações e perda de consciência. Agarre uma donzela delicada para ver, essa e outras partes ficam vulneráveis.

  Desde que inventaram o escambo, que ninguém precisa se arriscar muito para sobreviver. As pessoas passaram a estocar o excedente, em vez de abandonar ou deixar estragar, o que garantiu suprimentos em épocas difíceis, como o inverno. Já não era necessário sair todos os dias e arriscar ser morto pela caça ou devorado por um predador natural. O escambo inventou o comércio, para o bem e para o mal, tornando o cérebro mais precioso do que os músculos, para a subsistência. Assim, até uma criança bem instruída consegue seu sustento, caso os pais faltem.

  Com o comércio veio a necessidade de aprimoramento técnico e a brutalidade cedeu de vez lugar à inteligência. Isso não desobrigou as pessoas de cuidarem da boa forma, mas já não era necessário sair sem saber se voltava da caça, afinal uma das técnicas geradas foi a agropecuária, o alimento estava logo ali, bastava negociar. E como diz o ditado, quem quer comércio, não quer guerra; embora uns imbecís de mentalidade pubiana teimem em vestir máscaras de homens sérios para estragar a festa.

  Desde que descobriram a ciência, quase ninguém mais precisa se arriscar em terreno desconhecido, o conhecimento prévio repassado e aprimorado já poupa as pessoas de riscos desnecessários, então uma personalidade de agressividade animalesca não faz mais sentido. Até porque esse tipo de personalidade é de uma inconseqüência suicida, ela não se importa realmente com o grupo, só com a própria satisfação. Com a ciência, o aprimoramento técnico ganhou impulso em todas as áreas, as armas, as artes marciais, o comércio e a nascente tecnologia.

  Morrer esmagado por uma pedra gigantesca não era mais um risco aceitável, já havia alavancas sofisticadas para minimizar os riscos, assim como possibilitar erguer pesos que ninguém nem tentava. Qualquer corpo mediano passou a fazer o trabalho de vários empelotados de músculos, especialmente quando os animais se tornaram motores vivos dessas alavancas. Uma moça franzina já conseguia levar dezenas de litros para casa sem depender de canalhas oportunistas.

  Desde que nasceu a philosophia, a mente humana começou a se livrar das amarras animais que ainda nos prendiam à pré-história. O aqui e agora passou a ater outros significados, o conhecimento foi refinado, a ciência tornou-se uma ferramenta plena, as artes marciais passaram a ser também formadoras de caráter e as armas, mesmo co  o potencial letal, se tornaram também potencializadores do desenvolvimento psicológico e espiritual. O medo começou a ser dominado e as pessoas que aderiram, passaram a evoluir activamente, não apenas moldadas pela necessidade do ambiente.

  Daí nasceu a máxima da mente sã em corpo são, porque um depende do outro para cumprir com seu papel. Quem se concentra apenas em um deles, se torna um fanático nessa área e só causa problemas, jurando que é o único portador da verdade absoluta e inquestionável. Alguém com as faculdades psicológicas e físicas em harmonia e boas condições, consegue extrair da vida o máximo do que ela tem a oferecer, consegue até mesmo viver com menos, ainda que seu senso de civilidade e gosto refinado acumulem muito; sabe que não farão falta se forem subtraídos.

  Um caminhão não precisa fazer careta, ele pode até ter cara de ursinho carinhoso, sua força bruta e sua capacidade de carga não mudam com isso. Um trator com um desenho agradável não se torna menos poderoso. Uma locomotiva é provavelmente a máquina mais poderosa do mundo, mas qualquer magricela pode tomar o comando e ser seu amo e senhor.

  Com essa realidade, de que servem então a agressividade e a força bruta? Se não for para ajudar e defender os mais fracos, para absolutamente nada. Em si, elas só atrapalham, pois mesmo entre os animais selvagens existem códigos de conduta e até civilidade; onde houver mais de um, eles são necessários, assim como onde há mais de um há um Estado, por mais rudimentar que se apresente.

  Pois bem, mesmo com mil séculos transcorridos, ainda há gente usando os frutos de toda essa evolução para se considerar melhor do que as mulheres, para desdenharem e atacarem demonstrações de apreço, fazer tudo o que teria levado nossa espécie arracial à extinção em poucos milênios, se não tivéssemos deixado paulatinamente de lado tudo aquilo. Chegam a negar a história da heroína Maria Quitéria (esta moça aqui) que foi abandonada pelo comando assim que a guerra terminou. Só para se enganarem que são superiores a alguém, como se a internet que usam para espalhar esterco, não fosse devida à Hedy Lamarr, que simplesmente deu um golpe tecnológico de misericórdia na marinha nazista.

  Eu não sou "ista" de espécie alguma, é idiotice uma pessoa livre aceitar rótulos, como se fosse uma garrafa de refrigerante. Só posso assegurar que eu tenho muitas, mas muitas saudades da época em que a humanidade errava tentando acertar, em vez de louvar os erros já consagrados. Isso não se aplica a um grupo específico. Serve também para sujeitos que se consideram intelectuais, que berram por direitos e liberdades, mas babam por ditaduras sangrentas de tiranos implacáveis, que primam justo pela supressão do indivíduo, tal qual a mentalidade pré-histórica. Todos fazem, na prática, a mesmíssima merda.

02/01/2015

Ano novo, vida nova

Pryscila Vieira, cartunista e diva
  Jarbas acordou como se tivesse voltado da lua, estranhando a gravidade terrestre e a densidade do ar. Vai lânguidamente ao lavabo, acredita que é segunda-feira e precisa comparecer ao emprego. Empurra a porta e novamente estranha, ela costumava abrir para o outro lado. Vê algo que parece ser um monstro do pântano à sua frente, então deve ser o espelho. Vai fazendo tudo mecanicamente, como procurar a porta do armário detrás daquele espelho, mas não encontra. Sente sim algo roçando suas partes baixas, se afasta e vê que são alças de um armarinho sob a pia. Abre uma gaveta e vê uma escova de dentes com seu nome gravado, estranha porque se lembra que a escova que tem em casa é azul, e das mais vagabundas, aquela é toda sinuosa, de transparente verde com emborrachado branco.

  Terminada a higiene, e estranhando a toalhinha felpuda e macia que tem em mãos, volta para sua cama e não vê sua cama. Na verdade não vê o seu quarto. Aliás, seu quarto é um dos piores da casa, não tem saída para o lavabo. O que aquela cama de casal com excesso lateral está fazendo ali? Que suíte é aquela? E que pijama grã fino é aquele? Olha ao redor, vê uma decoração neoclássica do tipo que costuma ver na Vogue que sua mãe assina. Aliás, foi ela quem o convenceu a ir com os amigos, passar o réveillon em Madri... Ah, deve ser isso, está no hotel... Não! Lembra-se bem de que o hotel não era exactamente fuleiro, mas era bem básico, porque planejaram passar a maior parte do tempo nas ruas. Põe o punho contra a boca, pensando no caso, quando sente uma textura estranha, então sente um anel no dedo, olha e... HORROR! É uma aliança de casamento!

  Ele, que execrou George Clooney por ter traído o sagrado juramento dos solteirões convictos, estava com a prova do crime no dedo. Vai àquela porta de vitrais e vê uma cena estranha, estranha e bem lá em baixo, não sabe dizer em que andar está, sabe que não dá para fazer uma corda de lençóis e dar o fora. Procura por um telephone, porque não sabe onde raios deixou seu celular, que também é básico e por isso planejava comprar um moderno na Europa. Encontra um smartphone, daqueles cuja câmera registra bactérias em tamanho natural. Serve, se fizer ligação. Liga para um dos amigos...

  - Aê, Jarbão! Acordou cedo, magnata!
  - Lucio, cadê vocês??
  - Ué, a gente voltou pro Brasil, depois que vocês foram pra lua de mel!
  - O QUÊ??? Cara, eu não lembro de nada!
  - Ah... Como assim?
  - Eu pensei que hoje fosse segunda-feira, ia me arrumar pro trabalho e me vi num palacete!
  - É a cobertura de vocês... Bicho, cê jura que não lembra?
  - Juro pela minha mãe!
  - Puta que pariu! Então vai com calma, pra não magoar a Dolores... É, Maria Dolores Nuñes Hidalgo é a sua linda e rica esposa. eu queria ficar com ela naquela noite, mas o seu capilé foi melhor do que o meu.
  - Porra... E a minha mãe?
  - A sua família inteira adorou viajar de graça pra Europa, ganhar presentes e ver o seu casamento nababesco. Olha, fica calmo, que eu vou fazer um resumo e você vai lembrando, certo...

   Assim que desembarcaram, os quatro racharam o táxi e não demoraram a se aboletar no hotel de uma estrela. A primeira coisa que fizeram foi comprar câmeras sem a taxação extorsiva e corrompida do Brasil. Pagaram por câmeras profissionais o que mal daria para comprar as pequenininhas que têm em casa. A paisagem exuberante rendeu dezenas de cliques, como a fascinante Plaza Major, mas especialmente as fascinantes e coradas espanholas. Foi justo uma nativa que não queria ser photographada e foi tirar satisfações, o pivô de tudo. Se encontraram de novo à noite, os quatro foram pedir desculpas e ele apagou as photos na frente dela, recebendo um "gracias, señor" tão aveludado que o deixou ébrio sem precisar beber...

  - Tá lembrando?
  - Putz... É mesmo, agora... Mas como ela me pegou?
  - Foi o irmão dela que te pegou, mermão...

  O brasileiro de estatura média encarou o irmão ciumento de três por quatro metros, ofendido por ter sido confundido com um paparazzo que o acusou de ser. Levou uma bifa, levantou, levou outra, levantou e revidou, mas ele desviou e lhe deu outra, então ele aproveitou que estava caído e chutou-lhe os fundilhos. A partir de então, a luta ficou equilibrada, até a polícia chegar e encanar os dois na mesma cela, onde os sopapos só não continuaram porque o policial avisou que qualquer coisa que acontecesse lá, poderia ser considerado briga de detentos...

  - Eh... Peraí... Eu briguei com um cara com o dobro do meu tamanho e gritei o quê???
  - "Eu não sou moleque, para me aproveitar de mulher indefesa! Me respeite, vagabundo!"
  - E eu saí vivo??
  - Depois de ter dito o mesmo, em tom moderado, para o pai dela, que é coronel da real força aérea.

  Os três viram, pasmos, o bancário Jarbas da Silva enfrentar um alto oficial veterano de guerra. Pensaram que seu corpo voltaria para o Brasil em três pacotes distintos. A própria polícia chegou a pensar que o turista seria usado como munição de bombardeiro. O bate boca durou exactas duas horas, três minutos e quarenta e sete segundos, que culminaram na gargalhada do militar, ele viu que estava na presença de um homem de verdade...

  - Eu fiquei amigo de milico?

  Depois Dolores, já com boas recomendações a seu respeito, o procurou no hotelzinho simples e barato em que estava hospedado. Como ela costuma dizer, prefere andar em um Seat Marbella com um cara legal, a entrar no Jaguar de um cafajeste. Conheceu muitos e foi magoada por todos...

  - Foi aí que você tentou passar o capilé nela, agora me lembro... Suas cantadas sempre foram ruins, Lucio, por isso eu sempre te digo pra você se concentrar nos presentes, nestes você é imbatível!
  - Valeu pela dica. Ela levou a gente pra conhecer Madri no Rolls Royce dela...
  - Caracoles! Eu nunca tinha entrado num Impala e andei de Rolls???
  - Na frente, ao lado dela, com a gente atrás. Mas teve mais porrada...

  Verdadeiras nulidades no show business, Jarbas e seus amigos de infância não conheciam a moça, mas notaram que era famosa por lá, porque paparazzi começaram a aparecer feito piranhas sobre boi de sacrifício. Além de terem interrompido um beijo em gestação, estragaram uma tarde em um café muito simpático, cheio de gente muito agradável e atrapalharam o som de Maria Callas. Ficou furioso quando um deles clicou o decote, ele exigiu que apagasse na frente dele, então a muvuca começou. Novamente se encontrou com o capitão, irmão da moça, mas desta vez foi um encontro amigável e ele agradeceu por tê-la defendido...

  - Puta merda... Agora lembrei disso... Jura que eu não estava bêbado, que não tinha fumado nada ilegal...
  - Nada! Só bebeu vinho branco, coladinho a ela, Romeu. Cara, a gente já tinha muita coisa pra contar na volta, mas teve mais...

  Mas alguém não queria que ele voltasse. Não até ter uma última boa impressão. Em um dos encontros ele disse ser bancário, formado em economia e que conhecia de cor os bastidores da última crise mundial, e a que hoje o governo brasileiro tenta maquiar com decretos. Provou isso em uma conversa de alto nível, quando lhe deu conselhos para evitar o pior, se outro ataque especulativo tentar parasitar de novo a economia européia...

  - Pela primeira vez eu vi vantagem em ser nerd nos estudos, cara! Você ganhou de vez a garota e eu fiquei chupando dedo... Quer dizer, tomando vinho caro e enchendo o pandú com comida de primeira, no apartamento de vocês em Madri.
  - Não tô em Madri??
  - Málaga. Esse marzão que você tá vendo daí, é o Mediterrâneo, rabudo.

  Dolores procurou todas as referências que pudesse a respeito do brasileiro. Chegou mesmo a falar com o presidente mundial do banco, obtendo informações sigilosas sobre o hoje ex-funcionário com boas perspectivas dentro do banco, talvez um dia fosse gerente de uma agência. No facebook viu seu perfil, teve paciência para investigar todos os contactos que estavam abertos, se dispôs a fazê-lo quebrar a promessa de solteirice perpétua. A modelo, actriz, empresária, radialista, colunista e filantropa chamou amigos da alta roda para o próximo encontro. Ele não reconheceu ninguém, nunca tinha ouvido falar deles, tanto que agiu com naturalidade, como se ali não estivesse uma super concentração de celebridades de elite. Os amigos estranharam aquilo, embora aproveitassem, mas ele estava apaixonado demais para se lembrar que precisaria voltar ao Brasil, no fim das férias. Ela o chamou para um canto reservado, em um vestidinho solto de tecido fino, com aquele requebrado de modelos e eles transaram...

  - Eu???
  - Você mesmo! Você saiu daquela suíte gritando "VOU FICAR NA ESPANHA, GALERA"!
  - Eu não estava no meu juízo perfeito! Não mesmo!
  - Estava! Estava e até me deu o seu SP2 de presente, muito obrigado!
  - O SP2??? PORRA, CARA! Então eu tava era drogado mesmo!
  - Sim, drogado de amor, como você mesmo disse.
  - Eu falei isso?? Eu falei essa pieguice?
  - Você ficou todo romântico, depois disso.

  O casamento foi uma loucura de logística, tiveram menos de um mês para organizar tudo, porque os outros queriam se despedir do amigo, precisavam voltar à vida dura em Santos. Jarbas conheceu a casa da família de Dolores, deu uma olhada nas finanças das empresas, conheceu o trabalho dela, tudo levando os outros três a tiracolo. Rever mãe, pai, irmãs, cunhado, sobrinhos pela última vez...

  - Putz...  Tô começando a me lembrar... Minha mãe, cara! Chorando daquele jeito!
  - Ela se recuperou, principalmente depois da grana que passou a mandar pros seus pais...
  - Passei a mandar? Não estamos em Janeiro?
  - Em Janeiro vocês vieram visitar sua família. Ela tinha um ensaio pra fazer aqui e você veio junto. Agora é fim de Fevereiro...
  - Lucio do céu, agora eu me lembro! Apareceu um cara marombado...

  Apareceu. Um ex namorado tentou interromper o casamento, chamando Jarbas de aproveitador morto de fome, e levou um gancho de direita do próprio. Incrível como ficou valente, depois de se apaixonar. As lembranças agora estão claras, só não tem clara ainda justo a imagem da esposa, ainda não não se acostumou à idéia. Desliga e medita, teme cometer uma gafe, quando ela parecer. Aliás, onde ela estará? Uma empregada dá uma olhada pela fresta da porta e desce, então Dolores deixa alguns adiantamentos de serviço de lado e vai levar a bandeja com o desjejum...

  - Buenos dias, my amado...

  Ele fica paralisado com a visão daquela sinuosa deusa malageña de cabelos esvoaçantes, entrando com o carrinho e trajando apenas uma camisa fina, com aquele jogo de pernas em passos que a profissão moldou aos seus hábitos. Agora se lembra de tudo com clareza, de cada segundo, cada milímetro, cada mililitro, cada grau, cada lúmen, cada odor, cada tudo! Foi a noitada de ontem, os dois se esbaldaram, depois de quase vinte e quatro horas seguidas apagando incêndios na imprensa. O pijama de seda avisa que não foi só ele que se levantou, então deixarão o desjejum para depois.