28/08/2014

Maria neurônio

  Não é de hoje, mas me surpreende e entristece que a figura da Maria chuteira seja tão
glamorizada pela imprensa desportiva, especialmente porque de desportivas elas não tem absolutamente nada. Já existem até manuais de como se tornar uma, porque algumas delas passaram a viver de serem Marias chuteiras, dando entrevistas e fazendo poses. Vou parecer politicamente incorrecto, sim, mas até segunda ordem, tenho o direito de opinião, e já arquei com ele uma pá de vezes. Após a segunda ordem, me mudo para os Estados Unidos e continuo escrevendo do mesmo jeito.

  Convido agora o leitor a imaginar um cenário diferente. Há uma face que a imprensa tem mostrado muito, mas o brasileiro se recusa a dar valor. Nossos acadêmicos estão ganhando prêmios aos borbotões lá fora, é claro, incluindo áreas desconfortáveis para a maioria, como astronomia e matemática; não dessa que o ensino médio mostra e depois avalia com provas de múltipla escolha, mas do tipo que tua calculadora sem sabe que existe.

  Imagine se a população, mesmo que paulatinamente, começar a tomar gosto por qualquer coisa que funcione acima do umbigo. Imagine campeões de competições científicas sendo recebidos como heróis, dando entrevistas em horários nobres, sendo disputados por programas de televisão e ganhando os tubos em comerciais feitos para seduzir seus fãs. Em pouco tempo, após a consolidação da tendência, apareceriam também as caçadoras de fama do nicho. Não, roupas curtas e justas não ficariam de fora, o corte, os tecidos, estampas e estilo das moças é que mudariam muito.

  Em primeiro lugar, por mais vaidoso que seja um cientista e por mais que ele queira para si as atenções, ele não suportaria a companhia de uma caricatura de loura burra, a moça precisaria ter um grau mínimo de conteúdo. Para esse pessoal, meus amigos, esse "mínimo" deixaria qualquer bacharéu decente encabulado. Para as cavalgaduras que se formam com notas máximas sem terem aprendido porcaria nenhuma, seria algo completamente fora da realidade.

  Algum domínio do bom português e de um segundo idioma ela precisaria ter, porque "mim dá cento e duas gramas disso" seria um pé no traseiro por justa causa. Conhecer ao menos um livro de Jostein Gaarder seria quase obrigatório, além de assaz salutar ao intelecto. Não que um erro ou outro fosse encerrar o flerte, mas as atrocidades a que estamos perigosamente acostumados são repelentes para um cientista. Não confundir gente que tem recursos e desleixa, com gente que fala o melhor que seus parcos recursos lhe permitiram aprender.

  Um bom cientista quase sempre é fã de Star Wars e Star Trek, então conhece as artimanhas de gente que se faz de bem intencionada para alçar vôos ao poder. Subornar e dar para os seguranças para poder entrar no camarim é maquiavelismo primário, assim como os seguranças de celebridades intelectuais seriam de outro naipe e advertiriam seus chefes a respeito. Elas teriam que usar mais o cérebro do que os decotes, afinal quem não mede conseqüências para viver de fama não vai hesitar em abandonar o sujeito assim que aparecer outro mais prestigiado.

  Vestidinhos que precisam ser ajeitados a cada três passos não ajudariam tanto. Por mais curta que fosse a peça, ela não poderia passar a impressão de desconforto para alguém que queima phosphato e nervos ópticos para ganhar seu pão. Marias chuteiras não se importam com isso e querem todas as câmeras para si o tempo todo. Uma Maria neurônio saberia cultivar a relação priorizando a estrela de quem recebe o brilho, inclusive ajudando o cientista a ter a tranqüilidade necessária e cuidando da divulgação de suas pesquisas; claro, colocando seu lindo nome como fonte da informação.

  Não que funk carioca fosse proibido, mas falar e se portar como se estivesse SEMPRE em um baile funk não funciona com essas pessoas. O verdadeiro funk cai no gosto da maioria dos cientistas, mas música clássica e os dinossauros do rock, especialmente para os cientistas nerds assumidos, seriam quase que decisivos para o bote dar certo. Novamente a indumentária seria outra, mesmo que curta e justa, mas nunca centrando atenções nas partes marombadas e siliconadas. Mesmo os cientistas mais jovens gostam de elegância, respeitando a anatomia e valorizando o conjunto, inclusive o cérebro.
  Certo, vamos explicar esta passagem... Para vender apenas sex appeal, basta fazer os homens babarem, o que é muito fácil e a moda predominante dá quase tudo de bandeja, fora as "bem sucedidas" que dão dicas de como dar para dar e posar pelada depois. Não, o problema não é o fim, mas os meios utilizados para obtê-lo. A Maria neurônio se esmeraria em combinar peças, cores, estampas e tecido para cada ocasião, selecionando inclusive os assuntos e o tom de voz para cada uma. Ela saberia que uma mini saia até combina com uma noite outonal, mas precisa de uma meia-calça mais espessa e opaca, que acabaria convidando às estampas e estas não são para julgamentos destreinados.

  A Maria neurônio saberia que o frescor juvenil tem prazo de validade. Ela não apostaria suas fichas o tempo todo na estética, por isso mesmo trataria de aproveitar o prestígio do astro para cavar uma carreira duradoura e sólida, para isso cativaria o público dele, que tem aversão à futilidade. Ao contrário de sua contraparte, ela não teria problemas em falar à imprensa e não causaria dores de cabeça ao abrir a boca. Neste cenário ela também seria imitada pelas meninas e veríamos menos mini adultas pelas ruas, as confecções veriam um público mais intelectualizado disposto a pagar por peças bem feitas e bem modeladas, em vez de modelos únicos para adultos em tamanho infantil.

  A Maria neurônio seria algo como Holly Golightly, mesmo não se prostituindo. Ela não daria as costas para a academia de ginástica, mas daria muito mais atenção às academias universitárias e às bibliotecas. Nas entrevistas elas diriam o quando o mundo virtual está se parecendo com o livro 1984, não falando tanto da lipo de que ninguém ficou sabendo, provavelmente nem tocando no assunto se ninguém perguntasse. Aliás, programas que fazem esse tipo de pergunta dificilmente as teriam em sua grade, elas não estimulam o onanismo.

  Outra coisa, provavelmente a Maria neurônio seria um pouco retrô. É mais simples combinar os minis microscópicos dos anos sessenta do que os não tão curtos de hoje. Aqueles, mesmo mínimos, não a obrigariam a roçar coxas e puxar a barra para baixo. Corte, tecido e modelagem evitariam esses constrangimentos.

  Mas tudo isso é virtualmente uma utopia mesmo no horizonte de longo prazo, especialmente em um país no qual as raras Marias neurônio que existem são hostilizadas por adolescentes desocupados, em redes sociais.

13/08/2014

Nonsense, para relaxar


- Mário? Alô?
- Alô, pode falar, coisa horrorosa.
- Mário, você deixou alguém pra vigiar a chácara?
- Não! Por quê?
- Tô vendo um cara muito mau encarado por uma das janelas... e ele é me vigiando faz tempo!
- Putz que paralho! Fica calmo! Ele está armado?
- Só no meio das pernas, eu acho.
- Não brinca com isso!
- Tá legal... Vou olhar discretamente... Não, ele parece estar desarmado... Mas tem uma postura muito ameaçadora!
- Certo, menos mal... Fique junto ao telephone, não saia daí, vou ver se consigo ajuda!

  Ele fica parado, olhando de lado aquela figura emborcada.  Foi muito providencial o corredor estar na penumbra, assim o elemento não pode ver direito o que ele faz, mas o inverso também é verdadeiro, lá fora está muito escuro. Mário liga de volta com más notícias...

- Maneo, cê vai ter que se segurar por um tempo, faltou energia na cidade e todas as viaturas da polícia estão atendendo ocorrências graves em andamento! E o cara?
- Tá parado, do outro lado da janela... Ainda bem que aqui tá meio escuro, ele não pode me ver direito.
- Beleza. Consegue dar uma descrição, para eu tentar ver se bate com algum foragido?
- Difícil... Ele é meio forte... Bochechudo... Tá segurando alguma coisa na mão esquerda, mas dá pra ver que não é arma.
- Forte e bochechudo... Essa descrição não me é estranha... Você trancou tudo?
- Tudo trancado! Levantei pra assaltar a geladeira, quando vi o vulto e me encolhi à mesinha do telephone!
- Fez bem... Sua irmã me mata se te acontecer alguma coisa... Mas você está bem?
- Cara, melhor só se a chácara fosse minha, por mim eu moraria aqui!
- Valeu, levo isso como elogio... Por qual janela você está vendo o invasor?
- Por essa bem em frente ao telephone.

  Ele fica encafifado. Faz uma careta engraçada, coça a cabeça, tenta se lembrar qual das oito janelas daquele corredor poderia ser. Solta um suspiro de paciência e volta a falar...

- Maneo, me diz uma coisa, com sinceridade... Esse sujeito parece te imitar?
- Parece, acho que é pra me intimidar.
- Essa janela tem algo de diferente das outras?
- Por quê?
- Só me diz.
- Tem, tem uma cortininha, aquela que minha avó deu pra Rita...
- Essa janela é a única que tem vidro inteiriço?
- Sim, é essa mesma!
- MANÉO, SUA ANTA! SAI DA FRENTE DESSE ESPELHO!

07/08/2014

Não alimente os heróis

   Nunca mesmo! Heróis não precisam ser alimentados e protegidos, é função deles fazer isso por nós. Tampouco brigue com alguém por causa de um herói, ele deve ser um agente agregador, pois um herói de verdade sabe que nenhuma operação de salvamento pode resguardar uma população desunida ou, pior, com rusgas internas. Ele, pelo contrário, fará o que estiver ao seu alcance para que o mundo dependa cada vez menos de si, se torne mais independente e, para tanto, fomentará sempre a união e o respeito mútuo por onde quer que passe.

  Um herói que mereça ser chamado assim, prefere agir na surdina a maior parte do tempo, para que as pessoas se enxerguem umas às outras e não somente a figura gloriosa de um salvador. Não que ele não possa ser uma, pelo contrário, o resplendor de um herói clássico é uma figura extremamente intimidadora para os mal intencionados. O problema vem quando as pessoas passam a enxergar nesta figura tudo de que precisam para serem felizes, com o tempo chegando a torná-lo um ídolo, quase uma divindade a ser cultuada com fervor sacro.

  Eu disse uma vez a uma amiga que um herói quase sempre o é em função das circunstâncias, e quase nunca veste a carapuça de herói, porque assim ele acabaria se tornando uma celebridade, a fama lhe subiria à cabeça e terminaria se tornando um tirano da pior espécie. Em suma, o herói é uma função, não uma pessoa, e a função muda de mãos ao sabor da necessidade. Qualquer um que aceite o rótulo de "herói", na realidade não passa de um deslumbrado que salva em prol de seu ego, não dos que serão salvos, e o ego pode facilmente se voltar contra os antigos protegidos ao menor sinal de contrariedade.

  Uma característica de um herói é que sua figura salvadora obscurece sua pessoa, dificultando o assédio e o florescimento de uma personalidade egocêntrica. Por isso os heróis da ficção costumam usar máscaras ou roupas extravagantes, para que suas identidades civís permaneçam sigilosas. Impostar a voz e fazer poses, faz parte do disfarce. Isso porque o herói que se preze se mantém por seus esforços, pedindo ajuda quando estão em dificuldades, como qualquer pessoa comum. Por isso mesmo não se deve alimentar heróis e ídolos, eles, se forem dignos de admiração, saberão se manter por si.

  Ele não faz questão de ser reconhecido, na verdade às vezes gosta de meditar em salutares e costumeiros momentos de solidão. Isso o faz ter uma visão bem clara do que está fazendo no mundo e no que o mundo está fazendo consigo, porque vida de herói é uma cobrança sem fim, mais dele mesmo do que do mundo, que por si já é um algoz formidável. A solidão que o herói busca, quando pode, pode ser considerado a essência mais pura do verdadeiro ócio criativo, pois o silêncio de que se cerca o faz ouvir a própria consciência com clareza. Advirto que o que para nós seria apenas um deslize, para o herói seria uma falta grave.

  O herói tem qualidades que muita gente até combate por considerar "castração" ou "fanatismo religioso". Ele é resignado com a missão que as circunstâncias (ou dêem o nome que quiserem) lhe impõe, vai até as últimas conseqüências para cumprí-la a contento e não admite que os dissabores dessa missão lhe tolham o amor que nutre pelos que protege; porque ele sabe que as pessoas têm tendências fortes e inatas à ingratidão, sabe que não pode contar com nada mas do que sua determinação em terminar o serviço e buscar ajuda para se refazer dos eventuais danos internos.

  Acreditar que um criminoso pode se recuperar soa muito como ingenuidade, beirando a idiotice, mas ele tem fé (mesmo que seja ateu) na capacidade humana de se erguer da lama em que se enfiou e buscar uma vida nova; Hey, eu já vi isso acontecer, não é abobrinha de auto ajuda de banca de revista, mas o elemento precisa querer, até lá o herói não terá pena dela.

  Pautar seu cotidiano pela lisura, honradez e pela cordialidade às vezes rente a pecha de "chato" ao herói. Acontece que um bom comportamento muito evidente, acaba expondo os nossos maus comportamentos, e isso dói muito. O herói não pensa duas vezes antes de cortar a própria carne, por mais profunda e perene que a ferida se torne, e por mais que isso revolte os que lhe são próximos. Se comportou-se mal, terá que arcar com conseqüências do mau comportamento, mesmo que ele ajude o infrator a corrigir seu erro, mas que vai arcar com ele, ah, isso vai mesmo!

  O herói por excelência não ignora as virtudes de seus inimigos, tampouco as próprias falhas. Ele é ocupado demais para falar mal de alguém e colocar as pessoas umas contra as outras, pois precisa se manter e manter-se em condições de ajudar quando for necessário. É mais um ponto a ser considerado, aquele rapaz que malha duro só para depois fazer selfies em poses forçadas, para conseguir "likes" em redes sociais, muito provavelmente NÃO É E NÃO SERÁ um herói. O herói até pode ser escultural, mas não é um exibicionista, ele se torna forte para ser mais útil, ainda que seja para empurrar com mais facilidade um carro que pifou no meio da rua.

  O herói não interfere na vida pessoal dos protegidos, se não forem muito íntimos, ele só o faz quando as besteiras que o cidadão comete estiverem saindo de suas fronteiras e prestes a prejudicar terceiros; o que infelizmente virou quase que uma regra, com essa onda de "avida é minha e faço o que quiser", que muitas vezes inclui desprezar potenciais prejuízos a quem nada tem a ver com a farofa. Quando precisa corrigir a quem pode, o herói pode ser muito duro, até um pouco rude, mas jamais será grosseiro e nunca usará termos de baixo calão. Mais do que isso, sua conduta será o avalista de tudo o que disser.

  Pelo exposto, queridos, concluo: Político, jogador, artista e bandido bonzinho NÃO SÃO HERÓIS. Não desfaçam amizades e não se indisponham com ninguém por causa deles, porque geralmente são vilões disfarçados pelo carisma de sua própria propaganda.

01/08/2014

Rafaela está apaixonada

Dita Von Teese no dia a dia

Ninguém a reconheceu de pronto, ela estava completamente diferente do que se acostumaram a vê-la. A jovialidade, a leveza e o frescor que exalava eram quase constrangedores. Rafaela entra no shopping e vai directo à loja preferida do marido, depois à sua loja preferida. Sai, entra em sua Fiat Elba Weekend velha de guerra e vai comprar algo para uma refeição digna de um rei. É um carro de estimação, foi o primeiro que ela comprou na vida. As amigas já foram alertadas a respeito, mas ela evita a maioria delas, na verdade não quer mais saber de uma parcela considerável. Encontra sua irmã no mercado central...

- Podemos conversar?
A leva para uma lanchonete, onde divide um empadão com ela. Espera que coma, que tome o suco de acerola, que suspire três vezes seguidas e tasca a pergunta...
- É outro?
- Hein?
- Você arranjou outro?
- Milena, que juízo é esse a meu respeito??
- Eu é que pergunto, cadê a irmã rabugenta, apagada e grossa que eu tinha até ontem? Não que eu sinta falta dela, já foi tarde.
- Oh, isso...

Os olhos  dela voltam a brilhar como na adolescência. Ela conta em regime de confidência, para não atiçar a sanha das invejosas. Ontem Ronaldo chegou bêbado, quase à meia-noite e foi recebido com a rispidez de sempre, mas daquela vez ela estava muito cansada para bater e xingar, então simplesmente o ajudou a ir para a cama, jurando que na manhã seguinte ele passearia de ambulância. Ele começou a protestar, quando sapatos e paletó foram tirados, sem que ela discernisse o que lhe dizia, até que afrouxou o cinto, desabotoou as calças e ele, em um esforço heroico, conseguiu balbuciar entre soluços "Moça, por favor, não faz isso... Eu sou casado, minha mulher tá me esperando"... Ela conta que de início ficou chocada, pois sabia que todos os amigos dele, maridos de suas amigas, traíam suas esposas com alguma regularidade, era tão regular que quase descaracterizava traição, era quase uma concessão matrimonial para evitar brigas. Ele, que andava com aquela turma desde menino, acabou levando a mesma fama, mas ela não era do tipo que engolia isso e as brigas começaram cedo, até quase chegar ao divórcio, até aquela noite...

- Eu o deitei do jeito de estava, o cobri para não sentir frio e fiquei observando até ele dormir...
- Putz, cara! Mas vem cá... Não tinha mancha, perfume... Nada?
- Não... Só vestígios, porque aquele bar, você sabe... Quando ele dormiu, eu me deitei ao lado dele... Que sonho maravilhoso! Meu Deus, eu acho que desde a adolescência que não sonhava assim!

Conta do desjejum que preparou para ele, da arrumação que fez na casa, dos filhos estranhando tudo aquilo, dos passarinhos verdes cantando ópera. Se arrumou pela primeira vez em seis anos, e caprichou, inspirada na diva Dita Von Teese. Apesar de ser dois anos mais velha e muito mais maltratada pela vida, agora ela parece ser filha da irmã. Concluiu de uma tacada só que as fofoqueiras com quem conversava têm é muita inveja de ele jamais ter sido flagrado com outra, e não o foi simplesmente porque não acredita que a tenha traído, e dane-se quem não acreditar nisso, ela acredita e está irreversivelmente apaixonada pelo marido.

A irmã a acompanha às compras para o jantar. É inevitável, todo mundo a conhece e todo mundo nota a diferença gritante, mal acreditando que seja a mesma Rafaela de ontem. Ela anda em passos leves, circulares, se equilibrando magistralmente nos saltos que não usava há anos, espalhando seu perfume floral pelos corredores entre as bancas. Está jovial, feminina, com jeito de jovem que acabou de conhecer o primeiro amor. Mostra discretamente à irmã, que amarga a inversão se sentindo feia perto dela, a gravata com micro estampas douradas do logo da Chevrolet no fundo preto, noutra sacola a lingerie para logo mais à noite.

De longe, as que ainda não sabem ser ex-amigas a observam, se remoendo de inveja, se perguntando quem será o amante hiper dotado que ela arranjou para acordar assim. Ela está absolutamente linda, com o frescor facial que todas perderam ainda na adolescência. Acham um absurdo que alguém seja tão feliz. Mas ela está e quer distância delas. O sorriso emoldurado naquele batom a faz parecer tudo, menos uma mãe de família a caminho do jubileu de ouro. E não é um sorriso de mulher calejada, é sorriso de garota apaixonada, displicente e cheia de esperanças para o porvir. Parece ser filha de si mesma, provavelmente sua filha vai se constranger em andar com uma mãe tão linda e radiante, mas terá que se acostumar.

Conversam dentro do carro, com a irmã notando seu tom de voz completamente mudado. Vê flores em cada palavra. Em dado momento ela não segura o "Mi, eu estou apaixonada!". Agora ela também começa a ter um pouco de inveja da irmã mais velha. Quando chegam, lá está ele, estupefato após o filho ter lhe dito o que aconteceu naquela casa, que era a antessala do umbral e agora está às portas do sétimo céu. Ele a vê se saindo do carro, com um olhar malicioso, decidida a seduzi-lo, a caminhar com a classe de uma dama e a leveza de uma menina, em passos semicirculares, requebrando suavemente. Ele baba, fica mole, está hipnotizado. Se lembra de ter vivido algo parecido, mas foi há muitos e muitos anos, quando ainda tinha esperanças de ter uma vida adulta feliz e bem resolvida; a esperança acabou de voltar. Ela limpa a baba que escorria, o agarra pelo pescoço, junta narizes e testas, solta um "Eu te amo" com uma voz sedosa e em volume só percebido por ele, então dá o bote. O beija como jamais até então. Agora é tarde. A presa acaba de ser abatida.

Mudam-se em menos de um mês, para não terem mais que ver aquela vizinhança amarga, mas especialmente das cobras que envenenaram suas cabeças, só dando o novo endereço a quem realmente interessa que saiba. O casamento de comercial de margarina com que sonhavam na juventude, agora é realidade.

21/07/2014

Deveria ser uma farra

BOOO! Eu sou o inimigo de suas convicções e vou te comer! (Na photo, Lana Turner)

  Mas está se tornando um porre! Estão fazendo com o Facebook praticamente o mesmo que fizeram com o Orkut e que acabou matando-o. As pessoas estão se desumanizando, levando à sério a única coisa no universo que jamais deveria ser levada; elas mesmas.

  As antigas e divertidas trocas de farpas estão dando lugar a agressões explícitas com indirectas agressivas e absolutamente bizarras. Não é mais seguro simplesmente dizer que não se gosta de algo ou de alguém, porque sempre tem um sensível que vai te acusar SERIAMENTE de ser preconceituoso, discriminador, inimigo da família, reacionário, recalcado, invejoso e tudo mais. Não se sabe mais diferenciar um "Não gosto disso" de um "Eu te odeio". Isso muitas vezes chega aos formulários de reclamações formais do Facebook!

  Os "politizados" figuram no topo, porque se dizem abertos e quase sempre "democráticos", desde que a abertura e democracia sejam em favor de sua ideologia. Entre os muitos bordões, estão os da família do "Não é por não gostar, é por gostar por motivos de que não gosto", que quase sempre implica sim em a antipatia ser por não gostar, ou seja qual for o verbo conjugado. Porque os eufemismos patologicamente aplicados fazem parte dessa deterioração interpessoal, como se os membros da rede social tentassem atenuar as ofensas dirigidas ao outro. Algo como "Não importa o que eu disse, se sai de mim não tem más intenções, mas se sair de você, terá".

  Os conceitos de "democracia" e "liberdades individuais" foram tão deturpados, que praticamente qualquer coisa que convenha pode receber ou perder os termos. Alguns chegam a entrar em rodas de um assunto de que não gostam, falam asneiras, mandam os outros se calarem e acham ruim se forem repreendidos. Em seus perfis ou grupos, fazem exactamente o que acusam os outros de terem feito, com requintes de crueldade, se achando não só os mais lúcidos do mundo, como também os maiores perseguidos por dizerem "a verdade" em público.

  Muitos levam tão a sério suas opiniões, que tecem longos, prolixos e enfadonhos discursos até em balões de diálogos de quadrinhos, um tipo de comunicação que geralmente deveria ser curta, directa e ágil. Não raro, é um discurso que dá vontade de perguntar quem seria o público, porque só lê até o fim e concorda quem já é simpatizante daquelas idéias, quase como uma doutrinação religiosa, em que o cidadão é colocado para ler trechos de seu livro sagrado até memorizar tudo, e sem raciocinar muito, para ver algo mágico em trechos absolutamente descritivos e se viciar em reler e repetir indefinidamente, até para a própria sombra.

  Quando eles se cansam do assunto, ou acham que venceram a discussão, que quase sempre só existe em suas cabecinhas ocas, encerram o tópico, viram as costas e vão falar de outra coisa. Isso, claro, depois de terem tentado enfiar pontos de vista e convicções políticas goela abaixo dos outros, em uma situação na qual só eles podem se manifestar, quem pensa diferente não pode e nem deveria ter direito ao voto, quanto mais de manifestação.

  A proximidade das eleições piorou tudo, com a famigerada copa, à qual eu sempre fui contrário, servindo de palanque ideológico. Há pouco espaço para o equilíbrio transitar no corredor ente as salas do "O governo roubou tudo sozinho" e do "Os empresários roubaram tudo sozinhos". Piadas contra a copa passaram a ser piadas contra a honra pessoal, porque o inimigo pode e deve ser ridicularizado, mas seus ídolos, deuses e heróis precisam ser reverenciados liturgicamente.

  Paralelo a isso tem a guerra de informações. Algumas tão grotescas, e vindo de todas as partes, não só de um grupo ideopático, que surpreende que pessoas com diploma universitário as levem à sério, mesmo que elas tenham saído de páginas e sites de humor. Isso sem contar as montagens photográphicas, que mesmo quando dizem a verdade e com boas intenções, fazem parecer mentira pelo grau de amadorismo e o radicalismo embutido. E mesmo assim as pessoas levam à sério, mesmo assim caçam briga por causa delas, mesmo assim se esquecem que o país deveria ser uma nação e não um monte de tribos inimigas que se aturam na marra. Os parasitas eleitorais estão achando o máximo, claro!

  Não adianta mostrar parâmetros e casos confirmados em que a sua palavra teve valia. Se eu disser, por exemplo, que foi firmando o pulso e expulsando a psicopedabobagia do coitadinho que o colégio onde trabalhei conseguiu rapidamente se destacar dos outros, e que os alunos estavam efetivamente felizes, e se dando bem até com os policiais da Rotam, e que conseguimos até consertar um monte de marginais que aterrorizavam outrora a região, sou caçado até no inferno. Aparece rapidamente um grupo me acusando de ser nazista e querer retroceder nas conquistas da infância e juventude enquanto cidadãos em situação de menor idade, e outro me acusando de ser comunista e me mandando levar bandido para casa. Neste momento, tudo o que eu disser será mentira, ainda que consiga uma máquina do tempo e volte com áudio o vídeo de todo o período, de todos os alunos e os publique para livre acesso.

  Eles não vêem. Ainda que assistam, se contrariar suas convicções, eles não vêem, se limitam a procurar erros que confirmem suas neuroses e se não encontrarem, atacam assim mesmo, acusando de ser um traidor de suas causas ou um discriminador de sua comunidade/turma/gleba/raça(?) e entopem a caixa de reclamações do site com denúncias. Não é brincadeira, várias páginas saíram do ar assim, sem explicações, porque os moderadores são humanos, eles não têm tempo para ver caso por caso como deveria ser. Até se provar que focinho de porco não é tomada, os transtornos já se instalaram e a convivência nunca volta aos parâmetros de então, sempre fica no ar a desconfiança de que algum imbecil vai anotar em seu caderninho cada palavra do que escreverem, para levar ao censor de sua turminha heroica e engajada.

  Praticamente todos elegeram seus coitadinhos e seus verdugos, atacando fervorosamente estes não importa o que tenham feito de bom, para proteger com afinco aqueles, mesmo que tenham comemorado o estupro de uma repórter só porque sua ideologia mandava. Há sempre uma mensagem politizada, engajada, idealizada para curar o dodói de um, alfinetando com agulha enferrujada o outro. Mesmo que o outro seja um filantropo e dedique sua vida ao próximo, não importa, se acreditar em algo diferente é e será tratado como inimigo da humanidade.

  Ideologia, o ópio dos intelectuais. Um dogma impiedoso travestido de intelectualidade.

  As pessoas já não estão mais deixando tantas postagens abertas ao público, na verdade algumas já se fecharam quase que totalmente, permitindo quase que só o acesso de seus contactos mais próximos. Se isso tem algum problema? Sim, tem muito problema, porque a função de uma rede social é aproximar as pessoas e os idiotas que se levam à seriedade de mártires, estão dessocializando uma rede que há bem pouco tempo era uma ferramenta de convívio entre diferenças, agora elas só são toleradas se não forem expostas, formando um marasmo de opiniões que tanto tentam ser neutras, que perder seu caráter opinativo. E o fechamento das publicações empobrece uma das maiores virtudes da internet, que é a troca de arquivos e o intercâmbio entre povos. Mas tudo isso é secundário se seus dodóis não forem tratados sem jamais serem tocados.

  As pessoas estão ficando chatas! Muito chatas! Tão chatas que levam à sério a sua chatice! Repetem seus bordões como se estivessem em um palanque eleitoral, tentando convencer o eleitor de que aquela imagem de assassinato foi uma montagem de inimigos. E quanto mais cultas, mais chatas e irascíveis ficam, porque se acham a última reserva intelectual do mundo. E quem não é, reclama dos que escrevem direito, porque se acham a única turma de perseguidos do mundo. Um bando de albatrozes querendo voar com uma asa só, porque a outra representa tudo aquilo contra o qual lutam... Só que sem a outra asa, só fazem se debater na praia, às vezes caindo dos penhascos, transformando em um show de horrores o que deveria ser um dos mais belos espetáculos do mundo.

  Quem quiser me excluir por causa deste texto, fique à vontade, não levarei como ofensa. Afinal eu posso muito bem, a julgar pelo que publico, ser um agente da CIA infiltrado, agindo em nome dos inimigos da causa e conseqüência.
E quem garante que eu realmente não seja? Ninguém acreditaria mesmo se eu dissesse!

BOOO!

10/07/2014

Não quero muito


  Uma rua para caminhar sem ter que tropeças nas pedras alheias, só nas minhas. Poder seguir essa rua até o seu fim, ou até ela se reencontrar em seu início e então recomeçar a jornada. Mas não seria a mesma rua, ao fim da jornada ela já teria mudado bastante, mudança que começaria assim que eu perdesse cada ponto de vista. Os brotos já seriam mudas, as mudas já seriam plantas altas, as plantas já seriam árvores, as árvores talvez já fossem madeira. Retomando essa rua, por conseqüência, eu retomaria minha própria vida em suas nuances mais singelas, vendo consciente que o que foi deixado para trás, agora estaria à minha frente, diferente, mas em essência a mesma coisa; bastariam o discernimento e a vista treinada que a maturidade decorrente da jornada terão me dado.

  Um jardim para encher meus dias de vida, e emprestar um pouco de vida aos que pensam já não tê-la. Não precisa ser grande, bastaria o tamanho suficiente para abrigar a maior diversidade que eu pudesse conseguir, de flores, pequenos frutos, árvores frutíferas ou não, ervas e passarinhos. Todos os dias, ao acordar, eu veria o mesmo jardim, que não seria mais o mesmo. Algumas pétalas teriam caído, algumas folhas estariam amarelas e outras brotando, alguns insetos teriam ido embora e outros chegado. Os odores seriam em essência os mesmos, mas jamais seriam aqueles de ontem. Um jardim para me mostrar sua severidade lúgubre invernal, quando a natureza se recolhesse e me pedisse para meditar acerca do que fiz no restante do ano. Renascer na primavera e me receber com sua explosão vital, como dizendo que sentiu saudades. Seria sempre o meu jardim, sempre à minha janela, mas meus olhos já treinados pela convivência, veriam que ele nunca seria o mesmo enquanto estivesse vivo, e eu iria querê-lo assim.

  Uma casa espaçosa, sem luxos, mas aconchegante e apta a receber os meus. cadeiras e mesas para todos se acomodarem bem e se olharem nos olhos, enquanto conversam. Uma cozinha ampla com um fogão e um forno bem feitos, uma mesa grande ao centro onde eu praticaria a alquimia da boa culinária. Pães e doces para servir às visitas e aos que me pedissem um reforço para sua própria viagem, após descansarem à sombra de uma figueira que ornaria a entrada. Uma construção sólida, para durar muitos anos sem desabar sobre minha cabeça, mas não eterna. Pediria reparos periódicos, receberia novas decorações de vez em quando, sempre respeitando sua integridade e identidade. Seria minha casa e estaria sempre lá, a me proteger e abrigar, a me aquecer com sua lareira no auge do inverno. Seria ela, mas nunca seria a mesma, refeita a cada necessidade como um organismo que se regenera de um ferimento. Meus olhos acostumados a todos os seus recantos a reconheceriam em cada um deles, mas também lembrariam que cada um estava diferente na primeira vez, como na segunda, na terceira e em todas as outras, e que por isso mesmo a casa continuaria de pé.

  Vasos bonitos para decorar minha morada, alegrar meus dias de reclusão e dar abrigo as provisões. Não precisariam ser rebuscados, mas teriam que ser bonitos. Pelo menos um em cada aposento, para que em todos eles eu reconhecesse aquele lugar como um lar. Também para me servirem de lição e exemplo, para que eu aprendesse a ter cuidado na lida com as pessoas, que como eles também têm uma sensibilidade inaparente. Quando um se quebrasse, eu tentaria consertar, talvez com sucesso, talvez sem. Mas saberia que mesmo um vaso quebrado poderia me dar proveito, como revestimento, como calçamento, como amparos no jardim. E cada vez que eu me ferisse por quebrar um deles, teria paciência, pois saberia que revidar causaria mais ferimentos, e assim eu aprenderia a lidar melhor com o coração alheio, que é o vaso mais frágil e precioso de todos. Eles estariam sempre lá, enquanto conseguisse preservá-los, mas seu conteúdo seria sempre renovado, pelo que nunca seriam os mesmos todos os dias, conciliando tradição e novidade.

  Um meio honesto de vida, que me permitisse acumular o necessário para minha velhice. Não faria questão de uma vida nababesca, apenas da generosidade para com a retribuição do suor derramado, do tempo empregado e da concentração requerida. Um trabalho que me ensinasse a cada dia a lição cotidiana e continuada que a vida entrega em capítulos. Que me ensinasse o equilíbrio entre a força e a delicadeza, para eu saber socorrer e aceitar socorro quando a dor batesse à porta. Seria o meu trabalho, sempre esperando o dia seguinte para receber a transformação por minhas mãos, e porque se transformaria nunca seria o mesmo. Como eu também nunca seria. E porque sempre seríamos nós, eu e meu labor, sem nunca sermos os mesmos, nos renovaríamos continuamente e continuamente renovaríamos nosso pacto de crescimento. Minhas mãos treinadas pela prática seriam cada vez mais hábeis, mas também mais sensíveis pela ação da idade, me obrigando a ter mais capricho com sua execução e mais cuidado para comigo. Eu, por conseqüência, seria sempre eu, mas jamais a mesma pessoa todos os dias, sempre reconhecido e renovado.

  É pedir muito?

08/07/2014

O deus anglicano do gelo


  Há muito, muito tempo, antes de a escrita ser traçada em folhas de papiro, havia um deus que governou a última era glacial. Era um deus muito severo, mas também generoso e gentil para com quem o respeitava. Seu nome era Coldfeet McJagg.

  McJagg sabia que seu reinado estava caminhando para o fim, mas estava sereno, estava nas estrelas que sua era um dia terminaria, mas voltaria a acontecer noutras ocasiões, como sempre foi desde o início dos tempos. Ele estava se preparando para isso. Até lá, ele se ocupava em controlar a variação da temperatura entre gelado e "meu Deus, que p0##@ de frio é esse?".

  Em sua vida eterna solitária, McJagg desenvolveu uma bela voz, às vezes cantando ritmos alegres e bem cadenciados, noutras canções melódicas e claramente dolorosas, mesmo para seu coração de gelo. Mas ele era um deus, uma criatura elevada, não O Criador.

  Um dia McJagg foi chamado à presença da Consciência Primordial, que há muitos milênios se compadecia de seu sofrimento resignado. Diante D'Ela, ele chorou lágrimas líquidas pela primeira vez em milhões de anos, desde que causou uma das grandes extinções. Ela sabia o motivo de seu tormento.

  Por milênios, o deus do frio cuidou de uma mortal em seu longo ciclo reencarnatório, com tamanha dedicação, que se apaixonou por ela. Lhe foi dito das agruras pelas quais passaria, se continuasse nutrindo essa paixão. O nome da donzela, naqueles dias, era Làah Erö Djin. Uma filha que a Consciência Suprema dotara de beleza extraordinária e de um coração morno e acolhedor, desde suas mais remotas vidas. Coldfeet sabia que era um amor impossível, por isso se consolava e chorava cantando.

  E'La, porém, em sua infinita misericórdia, propôs que assim que ela estivesse pronta, eles poderiam se encontrar e tentar se entender. A única condição era que ele jamais se esquecesse de quem realmente é. Para isso, seria mergulhado sete vezes no Lago Boyne, sendo que na última os pés ficariam de fora, permanecendo frios para que ele retornasse imediatamente às suas funções, ao fim da vida mortal.

  E assim se fez. Angus Mc Og se encarregou de mergulhar seu amigo sete vezes no lago, deixando os pés de fora na última, deixando-o pronto para iniciar sua longa jornada, até estar pronto para vestir a carne ordinária e perecível dos humanos.

  Mas ele não se ocupou apenas em se envelopar até poder caber em um corpo humano, ele aperfeiçoou seus dotes artísticos, para que tivesse um meio digno de sustento, sem precisar ser pesado para os outros, tornando-se um artista de extraordinário talento. Valoroso e destemido, ele não titubeou quando soube que a conclusão de sua jornada coincidiu com a pior guerra da história lembrada. E assim, em26 de Julho do ano do Senhor de 1946, nasceu como Michael Philip Jagger, Mick para os íntimos. E como rezava a profecia, tornou-se um deus da música moderna, mas sempre com os pés frios, para se lembrar de quem realmente é.

Website dele, clicar aqui.