23/01/2013

O profissional


Uma amiga disse certa feita, e resumiu tudo, que a hotelaria brasileira não explora o turismo, explora o turista. Quem conhece nossa medonha realidade hoteleira, sabe bem do que ela falou. De um segmento que se rebela contra o órgão federal, só para não ter que se adequar ao número de estrelas que diz ter, não se pode esperar melhor do que isso.

Aliás, a lista de horrores permeia toda a actividade econômica do país, engloba praticamente todas as áreas. O Brasil sofre de uma carência aguda e crônica de profissionalismo. Não, eu não me refiro à nossa estúpida capacidade de burocratizar tudo, tornando lento e dispendioso, um processo que poderia ser rápido e barato. Tampouco me refiro à mocoronga mania de darmos pronomes de tratamento indevidos, a qualquer panaca que consiga o cargo de segundo sub assistente adjunto de auxiliar de suplente.

Se alguém aí acredita que prolixia, formalismos supérfulos e burocracia desnecessária são o que te torna um profissional, lamento informar, mas é tudo o que tu não és. Andar de crachá e gravata italiana, não torna ninguém um profissional. O boneco Ken usa terno e gravata.

Temos o mau exemplo vindo de cima, sem pudores, aceito plácida e pateticamente cá em baixo, pela maioria. Foi ensinado ao brasileiro, que mais ou menos está bom. Chega a ser heresia falar em padrão de qualidade, se faz um serviço meia-boca com um verniz bonito, uma campanha publicitária para enganar quem não conhece os serviços de outros países, e empurra-se tudo com a barriga até que algo obrigue a empresa a investir. A ordem é correr atrás do prejuízo, jamais se prevenir dele, sempre repassando os custos aos preços.

A mentalidade vigente, ainda manda tratar o cliente como se fosse subalterno. Se ele reclamar de um ônibus, após a viagem, por exemplo, o motorista toma isso como ofensa pessoal e pode até partir para cima dele; isso quase aconteceu comigo, há uns vinte anos, mas não pensem que a mentalidade mudou, não por dentro, só a propaganda mesmo. O empresariado brasileiro é quase uma ficção, foram décadas se acostumando a mamar no erário, às custas de comprar gente influente, e hoje mama nas licitações, oferecendo os productos e serviços mais porcos possíveis, para economizar meio centavo que seja, mas sempre exigindo artigos de primeiro mundo para si mesmo.

O brasileiro vive no dilema de querer seu salário no fim do mês, de qualquer jeito, mas sempre desejando que o patrão morra, que a empresa quebre e que a secretária que nunca lhe deu bola, pegue uma doença venérea fatal. Não precisa pensar muito, para perceber que vestir a camisa da firma, ainda hoje não passa pela cabeça da maioria esmagadora. O cidadão entra já de olho no primeiro real a mais de salário que outro emprego oferecer, sem se preocupar em formar vínculos, compromisso, absolutamente nada. Usa a empresa e os colegas sem escrúpulos, para depois reclamar que foi usado.

Lembram da última crise, não lembram? Claro, ainda estamos atravessando a maledita! Coca-Cola, General Motors, Boeing, Motorola, Micosoft, e mais um monte de empresas sólidas, tradicionais, que são quase parte de nossa genética, com ações sendo dadas quase de graça, por algum tempo. Hoje suas ações voltaram a custar as fábulas que valem. Não me lembro de um só grupo de brasileiros ter comprado lotes gordos, quando estavam baratas. E olha que elas continuaram baratas por algum tempo, depois de a Casa Branca ter anunciado o socorro financeiro. Nem empresários, nem fundos de aposentadoria.

Nossas empresas ainda oscilam entre os extremos do turrão que acha que do jeito que faz está perfeito, e rechaça com aspereza qualquer tentativa de mudança, e o aventureiro irresponsável, que raramente sai do cassino pérfido da especulação financeira. Em ambos os casos, o consumidor é só um detalhe, nem sempre desejável. Típico de uma sociedade anacrônica, que almeja o primeiro mundo sem jamais tirar o pé do terceiro.

Não é de admirar que, em vez de estimular o cidadão a usar seus serviços, simplesmente aumentam os preços, pela falta de demanda. E se ela subir, o preço não desce. Alguém aí usa transporte público? Pois é, entenderam o que eu disse. As turmas que se fingem de empresas de transporte público, se encostam nas prefeituras e acomodam, exigindo direitos de serviço essencial, mas também a liberdade de empresa privada. O usuário, que não é tão diferente deles quanto acredita, reclama e paga do mesmo jeito. O próprio brasileiro comum, não tem idéia do que seja profissionalismo, então não o exige... nem se preocupa em descobrir o que seja.

Essa deficiência de profissionalismo, que é basicamente o comprometimento funcional, pode ser facilmente visto nas salas de aula. O aluno deveria estar lá para aprender, mas só pensa em passar no vestibular, quando muito, para depois disputar uma vaga no serviço público e lá se acomodar. Na melhor das hipóteses, que já é muito ruim, a massa almeja ser pulga de reuniões em uma grande corporação, onde nada fará e por isso não cometerá erros, algo que poderá usar para pedir promoções que não merece, até a empresa descobrir que ele não faz falta.

Para começar, um profissional tem compromisso com suas funções. Enquanto trabalha, ele até pode e deve se divertir, mas sob hipótese alguma deve negligenciar aquilo para que foi designado, e aceitou fazer. Isso inclui o aprimoramento voluntário e constante. Não necessariamente ter uma coleção de diplomas e certificados de presença em palestras caríssimas; sabemos que a maioria delas é só engodo. Prestar atenção à sua volta, ver o que funciona ou não a contento, no seu posto de serviço, corrigir por conta própria as falhas que forem de sua competência, encontrar meios melhores de fazer o serviço, são atitudes que te dão maior domínio de suas funções, te tornando mais necessário ao empregador.

Um profissional tem ética. Ele segue uma série de regras de conduta, que lhe garantem não ultrapassar seus limites e direitos. Por mais intimidade que tenha com os outros, reconhece princípios básicos de hierarquia e prioridade. Não se trata de ser adulador ou submisso, mas simplesmente de reconhecer que as atribuições do outro, subjugam as suas. Simples assim. Também, porém, que a escravidão foi abolida, e seus subalternos não são sacos de pancada. O paspalho que acredita que não dá para ser amigo de seus chefes e subalternos, este está longe de ser um bom profissional, e naufragará bonitinho na primeira crise aguda que vir. Aliás, estamos atravessando o miolo de uma das mais graves da história, vocês podem ver facilmente as cabeças que rolaram, apenas procurando na internet.

Um profissional, dentro da ética, procura resultados. Ele não dá desculpas. Se não conseguiu o que almejava, tem uma série de motivos devidamente investigados, apontando onde falhou e onde o suporte falhou consigo. Não se trata de escrever um discurso retórico e prolixo, com exibição gratuita de conteúdo gramatical, até porque um bom profissional sabe muito bem o motivo pelo qual se deve ser simples e directo, em textos oficiais, é para sobrar mais tempo para a vida pessoal, mesmo dentro da empresa. Não basta ser eficiente, precisa ser eficaz.

Ainda dentro da ética, e haja texto para todas as suas facetas, um profissional não compete dentro da firma. Pode parecer estranho aos mais jovens, que já nasceram em uma época em que saber perder, tornou-se motivo para ser preterido. Mas vejam o exemplo da General Motors, que estimulava a competição até para ver quem batia o ponto mais rápido. Não que tenha mudado radicalmente, mas as medidas patológicas ficaram na quase falência. Então alguém pergunta, como a competição interna pode arruinar uma empresa, e eu explico: O concorrente, neste contexto, deixa de ser a outra empresa, e passa a ser cada um dos colegas, até a Dona Joana do cafezinho. Fica-se tão empenhado em garantir o próprio emprego, que esquece-se que não vai conseguir tocar toda a companhia sozinho, nem que terceirize tudo. É mais ou menos como um sujeito que se expõe deliberadamente a agentes cancerígenos.

Um profissional dá sempre o melhor de si, sempre. Não precisa escancarar seus truques para qualquer um ver e te passar a perna, não se esqueçam de que vivemos em um mundo expiatório, onde a malandragem ainda reina. Digo apenas para que não façam menos do que gostariam que fosse feito por vocês, que não desistam de uma tarefa até terem tentado todos os meios disponíveis, e que jamais, nem que o Hélio de La Peña seja eleito miss bumbum, para de se aperfeiçoar. Se o teu colega não faz a parte dele, reclame com o chefe, mas não deixe de fazer a tua. Não é demais lembrar, que estamos importando profissionais. Não se espante se aquele inglês acanhado, em alguns anos, passar a lhes dar ordens. Ele conhece productos e serviços bem feitos, ele sabe a diferença e provavelmente sabe fazer. Vendo um bando de reclamões acomodados, verá também um caminho livre para sua ascensão, principalmente quando tiverem que tratar com negociantes estrangeiros.

Um profissional é organizado. Não apenas no visual, que disso cuida-se com dicas de qualquer site de moda. É organizado no ambiente de trabalho, à sua mesa ou máquina, na administração do tempo, no seqüenciamento  eficiente dos serviços e, quando é o caso, tem até um procedimento operacional padrão para se consultar, a qualquer imprevisto. Essa organização acaba se refletindo na vida pessoal e escolar. O raciocínio também se beneficia, que ganha começo, meio e fim, facilitando planejar e ligar causas a consequências. A lida com a clientela tem os resultados dessa disciplina.

Lembrem-se, um profissional está onde está, para fazer as cousas andarem e funcionarem a contento, no mínimo a contento. Mas quando eu falo “a contento”, não é fazer andar do jeito que der. Andar a contento, para quem quer sobreviver no mercado, é ter níveis mínimos e constantes de melhoria interna. Disso dependem a saúde financeira e a confiabilidade pública de uma empresa, mesmo pública. Aliás, caríssimos, quem disse que autarquia pública não pode fechar o ano no azul, com uns trocados sobrando no caixa para poder investir? Quem? Eu digo quem, aqueles safados que nós elegemos. De profissionais, eles não têm absolutamente nada, não passam de malandros que só estão onde estão, porque trapaceiam, nos enganam e nos fazem crer que tudo sempre será assim e todo esforço é inútil.

A China já está pagando caro por isso, algumas cidades estão se esvaziando, porque a população apática, quando envelhece ou adoece, ou ambos, está sempre a esperar que o governo adopte uma política que lhes seja favorável. Lá, a sociedade não pode se organizar, é crime. Qualquer semelhança com um povo que reclama de lotes baldios, mas não pensa duas vezes antes de usá-lo como lixão, é mera realidade.

Só uma dica para vocês, caríssimi leitori, profissionalismo se aprende em casa, e eu já disse inúmeras vezes neste blog, como fazê-lo. Ensinem seus filhos a gostarem do trabalho, acharem normal arcarem com suas responsabilidades e conseqüências, tratarem os diferentes como gostariam de ser tratados e, não menos importante, aprenderem a perder, sempre vendo os pais dando o bom exemplo. Só isso? Sim, só isso. Estão vendo como só somos terceiro-mundistas porque queremos!

25/12/2012

Descanse em paz, Nicolau


Era um homem de idade avançada, faria setenta e oito em Maio. Mesmo assim, ainda era forte, tinha vontade de viver e trabalhar.

Foi tudo muito rápido. Um meliante reconheceu uma gestante e gritou "É dos ômi!", para alertar aos outros assaltantes de que se tratava de uma policial. A gravidez avançada não comoveu o coração de quem nunca aprendeu a se colocar na dor do outro. Pior, de quem foi incentivado a desdenhar a dor alheia.

Nicolau, que mudança, de um velho rabugento e antissocial, tornou-se um escudo humano. Recusou-se a sair da frente dela, no que outros aproveitaram para se esconder atrás dele também.

Há até cinco anos, era semi analphabeto, grosso e desejoso de morrer só. Fora tratado a patadas desde a infância, a ter seus préstimos subjugados e suas faltas super avaliadas. Afinal, era prestativo, todos tinham certeza de que estaria à disposição, logo em seguida.

Mas um dia, farto e já capaz de se manter sobre suas pernas, saiu sem avisar, sem deixar recado e sem olhar para trás. Continuou a ser mal tratado, mas agora com o bônus de poder ir embora sem ar satisfações. Com o tempo, sequer queria mais fazer vínculos.

Estudou o básico do básico, lhe bastava. Passou a ignorar datas festivas, seus apelos e suas decorações, principalmente o natal. Este, aliás, lhe causava repulsa. Aprendera com a vida que tudo aquilo era mentira, absolutamente mentira.

A compleição física de Nicolau fomentava esse comportamento, pois se acostumara a trabalhar mesmo doente. Era forte, grande, sua figura intimidava os possíveis agressores. A muito custo, foi convencido a ver o médico, de vez em quando. Isso só fomentou seu comportamento, sentia-se mais seguro com a saúde monitorada.

A aposentadoria foi tardia. Só depois de sessenta e cinco anos de trabalho. Ainda assim, não quis ficar parado, atitude aplaudida pelo médico, que se encarregou de arranjar-lhe bicos para ele se manter ocupado. Resultado, manteve-se forte e lúcido até o fim.

Pouco afeito à vaidade, deixou a barba crescer de modo permanente. Como também não passava fins de semana em clubes, tinha pouca pigmentação. O médico passou dois anos a tentar convencê-lo a experimentar um serviço sazonal. O facto de demandar sociabilidade, pesou contra, mas um dia ele aceitou. Estava farto de ser vigia e receber a culpa de tudo o que dava errado na expedição.

Foi treinado à exaustão. Desde meados do ano, freqüentava o curso de formação. Foi devidamente alphabetizado, o que lhe abriu um pouco a cabeça. Mas a transformação veio com os testes práticos, com crianças. Elas se encantavam só de vê-lo no uniforme. Aquilo era fascinação sincera, sorrisos sinceros, abraços sinceros. Seu coração embrutecido pelo mundo, começou a amolecer.

Ainda era um homem rude, mas não mais grosso. Muito resistente, trabalhou o mês inteiro, dia e noite, inclusive ajudando a carregar os presentes, no shopping center. O desconforto daquela roupa estilizada não era maior do que o ao qual se acostumara.

Dia após dia, até altas horas da noite, sem reclamar, com uma paciência que jamais pensou que tivesse. Era a primeira vez em que Nicolau podia dizer que estava feliz. Sem exageros, foram milhares de photographias tiradas com o Papai Noel mais verossímil que já tinham conhecido. Claro, alto, forte, longa e volumosa barba branca, olhar vívido e corpo ágil.

Passou a amar as crianças e, por tabela, as gestantes. Mais de uma vez foi visto carregando uma nos braços, até o carro, por um mal estar súbito. A gerência do Shopping agradecia, era uma propaganda preciosa.

Naquela manhã, Nicolau tinha saído do último turno como Papai Noel. Só fora ver o pagamento devidamente depositado em sua conta, quando ouviu o anúncio de assalto. Protegeu a gestante e, na recusa de dar passagem ao "alvo", precisou distribuir sopapos. Desnecessário dizer da chuva de chumbo e do desespero dos clientes.

Conseguiu concentrar as atenções a ponto de a segurança do banco conseguir se reorganizar, e render os assaltantes. Todos eles desmascarados pelos guardas, na frente das câmeras de segurança.

Morreu antes de o socorro chegar. Não antes, porém, de ver seu último presente, a policial deu à luz lá mesmo, a um menino grande e forte, que chamou de Nicolau.

16/12/2012

País sem nação

Ok, o Corinthinans venceu, é campeão do mundo, e nhe-nhe-nhe. Tenho uma dúzia de amigos corinthianos que, espero, resistiram a várias taquicardias seguidas. Eu, pessoalmente, não dei a importância atribuída, mas o evento suscitou uma pequena linha de pensamento, me fazendo lembrar de factos reincidentes.

Ouço dentro de casa, que aqui se torce para qualquer time que for jogar lá fora, mas se for o Goiás, eles torcem até para a Argentina. Similar ouvi de torcedores de outros times, que entrevistados, torceram para o Chelsea, por causa da rivalidade interna. O facto de ser um time brasileiro trazendo a premiação para o Brasil, não lhes pesou na decisão.

Há algo que muita gente, na verdade creio que a quase totalidade, não sabe sobre o oriente médio e a Escócia, mas que cabe muito bem aqui. A Escócia, antes de ser anexada ao Reino Unido, era formada por clãs. Cada clã utilizava pigmentos específicos para fazer as estampas-padrão da região, foi assim que surgiram as diferentes padronagens de xadrez dos kilts escoceses.

A necessidade de padronizar os kilts, e até as saias femininas, quando fosse o caso, era por esses clãs viverem em pé de guerra, literalmente. Era como no oriente médio até hoje, com aldeias que se estranham tanto, que até o idioma sofre pressões de dialelos locais. Em ambos os casos, eles esqueciam suas rivalidades quando um inimigo comum os ameaçava, no caso da Escócia, os ingleses. Era isso que tornava e ainda torna a Escócia, uma nação, mesmo como país subordinado a Londres.

Em ambos os casos, quando o inimigo comum era repelido, voltavam a se digladiar e perpetuar as juras de vingança pela morte, causada pela vingança jurada pela morte causada por uma vingança, que foi causada por outra morte motivada por vingança, que serviu para responder à morte de outro que fora executado por vingança, et cétera, et cétera, et cétera.

Claro que não quero isto para o Brasil. O banho de sangue pela guerra entre as famílias Alencar e Saraiva, à qual o governo da época concedeu uma vergonhosa conivência, por conveniência política, me dá uma lição local suficiente.

Há ainda a lição dos judeus. Desde que eram cativos o Egito, vamos aqui desconsiderar questões e registros meramente religiosos, eles tinham várias características em comum, além do monoteísmo. Preservaram seu idioma, sua cultura, até mesmo os traços físicos que tantas caricaturas têm rendido, e suas famosas habilidades financeiras. Eles sabiam quem eram desde então.

Mesmo dispersos por incontáveis episódios, em tantas circunstâncias que a história talvez desconheça todas, continuavam a ser hebreus, logo em seguida, judeus. Se um deles viajasse para outro país e lá houvesse judeus, haveria reconhecimento mútuo. Ele seria acolhido pelos seus, como pessoas de outras etnias jamais conseguiriam em terras estrangeiras... Talvez nem nas próprias.

Quando eu falo "estrangeiras", considero que qualquer viagem de duzentos quilômetros, até o século XVIII, era uma grande aventura. A maioria das pessoas morria sem jamais ter saído dos arredores de onde nasceu. Os Estados nacionais são relativamente recentes, assim, mesmo uma região mais distante dentro do mesmo país, para muitos era considerada como terra estrangeira.

Continuando, de modo muito mais acentuado do que os escoceses, os judeus formaram uma nação tão coesa e homogênea, que a ausência de um território não a desfez, pelo contrário. Assim como nos plásticos feitos de polímeros aromáticos, a distância física fortaleceu os laços. Assim, quando o Estado de Israel foi fundado, recebeu um povo disposto a defendê-lo a qualquer custo. Ainda que as diferenças internas sejam famosas... Desculpem, a perfeição não habita este orbe.

Voltemos ao caso do futebol, que causa tantas mazelas quanto os chateus radicais acusam a religião de fazer. Aqui temos um agravante, porque as rivalidades internas não são esquecidas em prol da sobrevivência coletiva. O néscio prefere ver recursos valiosos irem para outros países, a ver o time/gangue/partido/raio-que-o-parta alheio recebê-lo. Eles estão se lixando para o Brasil, querem ver seus adversários de joelhos, pelo prazer fútil de assistir à sua derrota.

Vamos ser francos, se algum país decidir ser realmente um inimigo, e quiser nos invadir, com esta mentalidade tacanha vigente, nós estamos lascados. E temos vários vizinhos com governantes ego-megalomaníacos, que adoptam a máxima de "l'etat c'est moi". A Argentina é um deles.

Me vem a sólida impressão, de que se alguém prometer eliminar o time rival, muita gente facilitaria uma invasão. Não estou exagerando, basta estudar as quadrilhas que se denominam "torcidas organizada", não que todas o sejam, para perceber isso.

Agora pensem bem se, neste contexto mórbido, este país tem como sair do atoleiro terceiromundista. O brasileiro sequer se reconhece como brasileiro! Ele é primeiro flamenguista, depois carioca, depois (do Estado) fluminense, e só por último é brasileiro. Isso se não houver uma facção dentro da torcida, porque então a importância do gentílico cai mais um pouco. O sujeito se endivida, sai do emprego, deixa família e o escambau, para ir ver dois jogos do outro lado do mundo, sem nem saber rir no idioma local. Mas vai chamá-lo para uma campanha de conscientização em benefício coletivo! Ele preferirá ver o próprio filho morto, após atravessar o pára-brisas, do que beneficiar o torcedor do "time rival".

Era para ser uma diversão, não era? Mas só se tornou o exemplo de como o brasileiro pode ser anti-brasileiro, além de ter se revelado um poço de corrupção e desdém para com os serviços públicos. Mas, e daí? O meu grupo está bem, está alegrinho, festejando mesmo na miséria, tripudiando sobre seus inimigos de outros times, enfim.

Se houvesse uma ong com um pingo de vergonha na cara, que realmente quisesse fazer algum bem aos compatriotas, se encarregaria de viabilizar intercâmbios culturais dentro do país, entre regiões, ideologias, etnias, classes sociais, entre imigrantes e nativos, enfim, trataria de fazer o brasileiro se reconhecer como brasileiro, tratando de transformar suas diferenças em base de apoio, não em pólos repelentes.

Claro que há os chacais que se aproveitam, que ganham muito com essa mentalidade inconseqüente. São aqueles caras que "roubam, mas fazem", que já têm 13° e 14° salários aprovados de próprio punho, na surdina, e acabarão tendo salários semanais se continuar assim, livres de impostos. Aqueles que impedem construções de aquedutos para beneficiar a máfia dos caminhões-pipa, que dão costas-quentes à exploração sexual infantil nos rincões da região norte, que loteiam as cidades em prol de especuladores imobiliários que lhes financiaram as campanhas, pondo à venda até quartéis, como o Batalhão Anhangüera, em Goiânia.

Mas, tudo bem, o meu time é campeão, o torcedor do outro está chorando e o filho dele foi morto na última briga de torcidas.

P.S: Os leitores mais assíduos devem estar se perguntando sobre os textos de natal. Me desculpem, o espírito natalino, que costumava me tomar logo em meados de Novembro, desta vez me boicotou.

14/12/2012

Ponto final

Não era uma pessoa feliz, na situação em que estava. Permaneceu nela, por forças maiores do que as suas, mas acabou. Sai do quarto com a decisão de quem sabe que não tem mais tempo a perder. Mas vai devagar, não sabe ainda aonde vai.

Não crescera naquele lugar. Esteve em tantos, que não conseguiria enumerar todos. Sabe apenas que a cada novo, a sensação de esperança e entusiasmo decrescia. E quem se importa? Em todos eles, a história foi a mesma.

Não que não tivesse tido bons momentos no período, os teve. O problema foi eles terem sido tão tênues e efêmeros, que a dor cotidiana os ofuscava facilmente. Sempre repetia para si mesmo, que o melhor estava por vir, na esperança de que realmente viesse.

Não veio. Passa pelas sombras intercaladas com as luzes que vêm das janelas, se lembrando de todas as vezes em que foi traído e teve que se levantar sozinho. As circunstâncias sempre pediam um mínimo de investigação, que nunca veio, então acabava arcando com todo o ônus. E quem se importa?

Com o tempo, o optimismo se esvaiu como água entre os dedos. A quem estava tentando enganar? A si? Porque era só quem acreditava nas esperanças que alimentava. Esperanças, diga-se de passagem, que precisou deixar morrer, para que não fosse antes.

Passa pelos móveis da sala, com as almofadas todas fora de lugar, como quem vê um monte de mentiras empilhadas. Aquilo deveria ter sido um lar, não deveria? Não que fizesse altas expectativas, com toda sorte de fantasias, na realidade tinha se acostumado desde cedo a ser voto vencido, lidar com divergências não seria problema. O silêncio começou a ser a única resposta que tinha, à maioria das interrogações feitas. e quem se importa?

Toda a dignidade e respeito negados, há alguns anos começaram a fazer falta. Com o tempo, até a raiva e os rompantes escassearam. Começou a se acostumar à tristeza, ela passou a ser seu estado normal. Não uma tristeza com causas definidas, mas no estado mais puro, tão puro que rapidamente tornou-se um traço de personalidade.

Teve sonhos. Teve muitos sonhos. A cada tentativa de viabilizar um deles, levava um tombo, com ele as acusações de não ter feito tudo o que podia. Abriu mão de um por um, com o passar dos anos e o peso da idade. A partir de certo momento, não poderia mais considerar todos eles. No esvair da areia na ampulheta, tinha um cemitério cheio deles. E quem se importa?

A porta está destrancada. Abre-a sem rodeios e tem a prudência de trancá-la, na saída. É também um modo simbólico de encerrar aquela fase mórbida, que por tantos anos enganou quem via de fora. Para estes, tudo parecia bem, à exceção daquela pessoa dissonante, que parecia querer chamar atenção com sua excentricidade. Passou a evitar festas, reuniões e similares, porque a cobrança dos sonhos mortos já era mais do que seria salutar.

A solidão passou a ser sua companhia preferida, chegava a se irritar quando lhe impunham uma companhia. Lhe tiravam o que lhe era caro, em troca de algo que rejeitava figadalmente. Como gostavam de dar palpites na sua vida! Se viam como padrão a ser seguido. De sua parte, só via um rebanho indo para o matadouro. Sabem aqueles momentos em que tudo o que se quer é ficar quieto, silente, chorar para si mesmo? Foram muitas as vezes em que precisou disso, quase todas negadas, à revelia de seu arbítrio. Com o tempo até a capacidade de chorar ficou seriamente comprometida. E quem se importa?

De todos os pesos que vergavam sua coluna, até então, viu claramente que o maior era o seu mesmo. Tendo se acostumado ao tolhimento sem critério, passou sem perceber a se tolher por conta própria. Hábito que lhe custou a saúde, que nunca fora lá essas cousas. Mas acabou. A vida inteira passa diante de seus olhos em um instante. A memória até agora pérfida, torna-se sólida e cristalina. Ganha a rua sentindo os ombros leves. Agora não tem mais compromissos, não tem maisa medos, não tem mais travas.

O senho sempre franzido, agora começa a suavizar, lentamente, na mesma lenta velocidade em que uma garoa começa a cair. Na mesma lentidão com que a primeira lágrima começa a sair, em muitos e muitos anos. Os passos pesados e cansativos, passam a ser leves, a voz embargada começa a sair cristalina, e se põe a cantar. Canta uma canção triste, para encerrar aquela vida. Está triste, mas está feliz.

05/12/2012

Diploma pra quê?

Imagem cedida pelo autor Alberto Benett.

Jornalismo brasileiro nunca foi lá essas cousas. A diversificação de recursos de mídia, que hoje permitem a qualquer um montar uma matéria e mandar para o ar, mesmo que esteja preso no trânsito, não significou ganho de qualidade, de ética nem de isenção. Pelo contrário.

Desde que foi abolida a necessidade de diploma para se exercer o jornalismo, não que antes a lei fosse cumprida à risca pelos jornais, as redações se encheram de postadores de notícias. Não que o curso de jornalismo, na maioria absoluta dos casos, ensine muito mais cousas do que se aprende na prática, mas a organização e disciplina mínimas necessárias à conclusão do curso, conseguem formar o básico do básico do básico, que é um procedimento operacional de trabalho, mesmo que seja individual e em nada case com os outros. Pelo menos, é um procedimento pelo qual o editor e o leitor conseguem identificar, pelo estilo e linguajar, o autor da matéria.

Da dispensa do diploma até hoje, coincidência ou não, e eu não acredito em coincidências, a qualidade do jornalismo tem piorado volumetricamente. Eu gostaria de citar casos específicos, mas já são tão comuns e banalizados, que fica desumano querer que eu apresente um só dos idiotas, e qualquer um de vocês pode encontrar o fenômeno do copia-e-cola, em qualquer jornal, virtual ou impresso, fora a repetição atrasadas de matérias que tinham sido dadas dias antes, por outros veículos.

A situação ficou tão grotesca, que no acto de copiar e colar, eles já não se dão ao trabalho de fazer uma alteraçãozinha sequer, às vezes nem apagando os créditos originais, sob os quais o "profisisonal" coloca os seus próprios. Ficam dois autores, sendo o do rodapé, claramente o falso, pela incompetência demonstrada em nem corrigir os erros do original.

Se não tomam cuidado para maquiar o plágio, podem imaginar que o cuidado com a língua também não prima. Não se trata de usar expressões pessoais ou regionais, trata-se de esculhambar com o idioma mesmo. Escrever "O juiz impetrou um mandato junto ao ministério..." já não é mais motivo para estarrecimento, mas ainda me estarrece. Não me incomodo com "A gente pensa diferente" ou até mesmo "Véi, isso não cola!", dependendo do tópico veiculado, o que me incomoda é o achincalhamento escancarado.

N'outras línguas, a cousa não melhora. Existe hoje, e eu utilizo muito, a ferramenta em rede de tradução instantânea, que tem o requinte de traduzir até sites inteiros. Já traduzi um texto em árabe, do alphabeto árabe para o português em caracteres latinos. Uma maravilha que os antigos jornalistas nem sonhavam, era um tormento traduzir uma noca em um idioma desconhecido, às vezes varando noites, com o editor berrando ao pé do ouvido. Hoje é só colar o atalho, mandar traduzir e ler. Os jornalistas de hoje fazem QUASE o mesmo.

Eu coloco para traduzir, leio e filtro, porque a tradução é literal, fica muitas vezes sem sentido, para quem não conhece bem o assunto de que está se tratando. Mas os fulanos simplesmente copiam e colam. Não se dão ao trabalho de fazer uma correção sequer, simplesmente copiam e colam, ainda que saia "O desenho da linha córrego foi bolo de queijo, na época" ou "Lana Del Rey estrelado nova apresentação no caminho amplo".

Eu sei, os prazos são apertados, ganha-se por lauda, paga-se pouco por matéria, o leitor não se importa com caprichos, o mundo é injusto e não existe uma estrada de tijolos de ouro. Os jornalistas d'outras épocas também passavam por isso, mas sabiam que um erro crasso de português poderia ter, como conseqüência, sua substituição por alguém melhor alphabetizado. No mínimo.

Parece que eles interpretaram a liberação do diploma, como uma licença para relaxar. Eu sou parente de jornalistas, já ajudei a trabalhar no ramo, inclusive montando bonecos de jornais para fazer fotolitos e mandar rodar. As dificuldades nunca foram desculpa para fazer serviço porco. Nunca! Quando a matéria saía e víamos a simples ausência de uma conjugação verbal, mesmo que o espaço denotasse uma falha simples de datilographia (não riam!), o mundo caía! Ficávamos nos sentindo incompetentes pelas vinte e quatro horas seguintes. E O LEITOR NOTAVA!

Podíamos esperar placidamente pelas trolhas, porque se ontem éramos parabenizados pela bela matéria, hoje seríamos os fugitivos do mobral. E pagava-se mal, muito mal! Não existia uma entidade, como a agência Comunique-se, para dar um mínimo de representatividade aos jornalistas e profissionais de apoio. Ou alguém aí pensa que o repórter trabalha sozinho? Nem se ganhasse bem, conseguiria!

Mas fazíamos um trabalho aceitável. Fazíamos a diferença. Ganhar pouco era motivo até para dar um pé nos fundilhos do jornal e ir procurar outro, mas nunca para fazer serviço porco. Até porque, quem fazia serviço porco, não conseguia se manter no ramo.

Fica em mim, a impressão de que eles aproveitam a pressa, para fazer tudo de qualquer jeito. Que não se valem sequer de corretores ortográphicos, do próprio editor de textos, para evitar os vexames que amigos meus em outros países, notam de cara. Bem fizeram os lusitanos, que se rebelaram contra a deforma ortográphica e continuam a escrever do MODO CERTO.

Não são erros esporádicos, são rotineiros. Também não são simples trocas, como escrever "decidas" em vez de "cedidas", ou "amis" em vez de "mais". Tampouco são erros de alto nível, são falhas que reteriam qualquer um na antiga quarta série primária. Claro que o relaxamento oficial da língua, contribuiu muito, pois agora podem alegar que "é assim qu'eu falo, é assim qu'eu inscrevo". E nisso perseveram até só eles mesmos entenderem o que está escrito. Às vezes nem eles.

26/11/2012

Everybody hates Nanael

http://rederecord.r7.com/2012/06/28/ela-pega-muito-no-pe-do-chris-conheca-a-senhorita-morello/?pid=3875#ngg-img

Depois que um certo directorzinho chamou de mongos, gente com Q.I um pouco acima da média, com eu, a Record deu um pequeno e temporário refresco para o Pica-Pau, passando a reprisar "Todo Mundo Odeia o Chris". Eu preferia o Pica-Pau ao programa do cidadão em questão, porque gosto da influência de Tex Avery na animação; e como ele faz falta! E, francamente, a série oitentista dá de dez que quase todas as atrações da televisão nacional. Mostra muito mais sobre sociedade e política, de uma forma muito agradável de se encarar o pior da realidade, do que todos os nossos telejornais e periódicos juntos, não bastasse a narrativa indefectível do Chris adulto. Fora que é uma delícia ver os anos oitenta tão bem reproduzidos. Quase um Peanuts com actores de verdade.

Eu não sou exactamente um nerd de televisão, nem me considero um caxias, expressão equivalente do meu tempo. Não vi todos os episódios da série, não memorizei nomes e frases, e sou incapaz de citar, com segurança, um que tenha me chamado mais a atenção, a exceção de um. Foi quando Chris, sabotado por um professor mal amado, como se sua má sorte não fosse suficiente, largou os estudos formais, conseguindo concluir a escola com testes supletivos. Bem, sabemos que o ensino público americano não é a maravilha que os alienados fazem parecer, mesmo assim dá de dez na maioria das nossas escolas particulares. Lá, para passar, ainda tem que saber. E Chris provou que sabia o suficiente, quando mostrou à família, em uma lanchonete, o envelope com o resultado de aprovatório.

Foi então, na desistência, que o branquelo valentão confessou que tinha inveja dele, por isso o agredia. Claro que na vida real, é quase improvável que um mané que só conhece a inteligência muscular, faça isso. Mas como eu disse, a série é uma aula de sociedade e política, não poderia ser fidelíssima à realidade porque, bem... a realidade em que vivemos é mais falsa do que Louis Vuitton de R$ 19,99. Uma série bem feita como essa, mesmo retratando o mundo de trinta anos atrás, é mais fidedigna do que os noticiários. Ei, eu não sou um jovenzinho, eu estava lá para ver, posso dizer como era a época e se uma ficção a retrata bem. "Everybody Hates Chris" é uma das melhores produções retrô-oitentistas que já vi, se não a melhor. Por que? Porque retrata gente comum em suas rotinas comuns, mas de forma ligeiramente caricata, uma parábola novelística para ajudar a compreender melhor, não há pedagogia que supere este método.

A professora bonitona, e depois promovida a directora da escola, Senhorita Morello, era provavelmente a única pessoa que REALMENTE acreditava nele. Era ela que o segurava na escola, que enxergava o seu potencial e, principalmente, que o tratava com o devido respeito... E mesmo assim, acabou acreditando nas evidências circunstanciais de que era vítima. Não dava, ele não era só atrapalhado, ele tinha uma caveira de burro como signo solar!

Bem, como Chris narra sua vida de cão, de quando era um garoto, podemos supor que ele sobreviveu aos percalços que vieram depois. Não pensem que tudo aquilo é só ficção, não de todo, há pessoas que passaram por cousas parecidas, e uma delas é este escriba que vos fala.

Eu também precisei abandonar os estudos formais, por absoluta falta de resultados. Não entrarei em pormenores, não cabe fazer isso aqui, mas posso dizer que amarguei a culpa de ter decepcionado muita gente. De algumas eu carrego ainda os lutos, um deles bem recente. Conclui o antigo segundo grau em provas de suficiência, como Chris.

Não foi uma decisão fácil, agradável e não me deixou mais livre. Contra indico para qualquer um que ainda tenha um fio de esperança de conseguir um diploma. Eu já não tinha nenhuma. Mas quando digo "nenhuma", não é porque odiava alguém, algo, ou estava revoltado e protestando contra tudo isso que aí está. Minhas forças já tinham acabado mesmo, e paguei caro pela minha decisão. Não foi a melhor, foi a menos ruim, algo como desligar os aparelhos e deixar o paciente ter uma morte digna, após anos de coma profundo, nos quais só faltou a recomendação de adubar uma vez ao mês.

Crianças, foi péssimo. Vocês pensam que sabem o que é humilhação? Eu amarguei meia década sendo tratado como um pária, um americano espionando para Hitler. Por muitos anos, todo mundo me apontou o dedo, veladamente ou não. Se alguém aí pensa que sabe o que é bullying, e eu conheci isso durante toda a vida escolar, não faz idéia do que se passa ao tomar uma decisão assim.

Arrependimento? Não. Não porque eu lutei até o fim. Não larguei de repente, porque estava cansado e decidi dar um tempo na vida. Larguei porque não agüentava mais mesmo, e dei sinais inequívocos, por anos, de que isso iria acontecer.

Não vou choramingar pitangas, nem sou apreciador desta fruta, mas sinto falta de uma rotina de estudos. Infelizmente, nas condições, no contexto e com a cabeça sempre à beira da explosão, nem cuidar de meus blogs, o que fazia com os pés nas costas, tenho conseguido a contento.

Estudar formalmente, à sério, demanda mais do que disciplina e força de vontade. Um mínimo de continuidade na leitura e nos exercícios, sob pena de tudo se perder, é imprescindível. Meia hora por dia, basta, em condições adequadas. Estou longe de tê-las.

Como seria minha vida hoje, se eu tivesse insistido? Melhor? Tens certeza? Estavas lá, do meu lado, para poder dizer? Tudo o que se disser será mera especulação. Tudo o que posso,e devo afirmar, é que não tomem isto como exemplo, tomem como lição. Se vocês ainda têm um mínimo de esperanças, e 99,99% de vocês têm, insistam. Vocês não fazem idéia do grau de rebaixamento a que se é submetido, por se largar os estudos, especialmente quando todo mundo "acha" que tu tens um potencial enorme, gigantesco, colossal, cósmico, escalafobético.

Todo mundo me achava inteligente, mas por isso mesmo, todo mundo achava que ia mal porque queria. Não daria pelota, se não fosse gente muito cara para mim. Sei que e o quanto decepcionei todo mundo. Ninguém além de mim, sabe o preço que paguei por isso. Acreditem, garotos, vocês não sabem. Então ponham todas as suas fibras no foco dos estudos, e deixem o lazer para as horas de lazer.

Se voltarei aos bancos, algum, dia, eu não sei. Os tempos de turbulência e impotência não terminaram. O que eu queria ser, não vem ao caso, eu não sou, mas também não vou procurar culpados para isso, não vai retroceder o tempo e não vai resolver meus problemas. Leiam bem o que vou dizer agora, e meditem sempre que pensarem em largar os estudos, seja qual for o motivo: O inferno existe, e eu estou nele.

23/11/2012

Eu não sou gado

Sou "certinho" porque quero.
Reconheço que sou, por vezes, um chato irascível. Especialmente quando se trata de não seguir maus exemplos, o comportamento do efeito manada é um deles.

É muito freqüente eu me lembrar da canção de Zé Ramalho, quando entro em um ambiente público, vendo o comportamento absolutamente irracional dos cidadãos descidadaniados, que o são muitas vezes pelo próprio comodismo.

Hoje, neste pedaço de dia ainda infindado, tive mais um desses maus exemplos... Quer dizer, mais dois. O primeiro foi ter sido o único otário da divisão, saindo quando sou pago para sair, cumprindo o meu horário à risca. O segundo se deu quando fui ao banco, tapar um buraco escarlate na minha conta.

A porta giratória nunca foi amistosa comigo, porque trago chaves, celular, câmera e um guarda-chuva; desta vez acrescentou-se a bateria reserva da câmera. Ok, a chuva ainda não tinha começado, demorei uns segundos mais e consegui entrar. O bisonho estava lá dentro, na, como direi, segunda sala de uma das agências mais tradicionais do Setor Campinas, logo depois da "sala de auto atendimento".

Vi quatro cidadãos descidadaniados na fila, antes da curva marcada no chão. A questão aqui, é que a fila que esses quatro formavam, estava fora da fila. Pela concepção, de quando o Itau ainda não tinha comprado o BEG, a agência foi planejada para um número relativamente pequeno de clientes, por isso a arquitetura de mobília teve que rebolar, para fazer os painéis de vidro fosco dividirem espaço com os assentos.

Bem, em vez de fazerem a curva normalmente, como qualquer pessoa civilizada, os descidadaniados formavam um rabicho de fila na direção do corredor, ao lado dos acentos que separa a fila comum da dos idosos, gestantes e deficientes físicos. Se eu tivesse aderido, os que vieram depois de mim acabariam embolados em frente a uma sala de acesso restrito; potenciais assaltantes adorariam ver essa bagunça.

Well, lá estava o vosso amigo Nanael, de fora do rabicho, dentro da marcação de fila, alonemente sozinho e desamparado. O facto de eu estar usando chapéu de linhagem crua com desenho clássico, um pesado relógio analógico de aço e um guarda-chuva apoiado no chão, como uma bengala, já me faria destoar daquelas figuras que pareciam prestes a desmanchar.

Mas ainda contava o facto de eu me recusar a ir com a boiada, me mantendo impassível aos olhares de estranhamento, parado, até que o último boi da fila entrasse na demarcação. Ok, alguém aí vai dizer que quem fica na demarcação é que é boi. Meia verdade, nada além de uma conclusão simplista de quem não consegue raciocinar sem atrelamentos ideológicos, dogmáticos ou o que valha.

Eu estava na demarcação por livre arbítrio, porque desejava um ambiente organizado, em que ninguém tivesse sua vez desrespeitada. Os outros estavam no rabicho porque lhes foi dito que é assim mesmo, que não adianta nada, que nunca vai mudar e vote em mim. O rebelde lá, era eu.

Aliás, um adendo, este foi um dos pontos que mais gostei em São Paulo. Cada ônibus pára em seu respectivo ponto, e a fila se mantém formada, mesmo com transeuntes a atravessando, por falta de espaço na calçada. Fim do adento.

A minha rebeldia fez efeito, os que vieram depois de mim, ficara atrás de mim, mesmo com o rabicho ainda formado. Dava tristeza ver aquelas pessoas, ainda jovens e fortes, com caras de preguiça, jeito de preguiça e se escorando de modo preguiçoso em tudo o que podiam se escorar.

O efeito manada se repetiu quando eles começaram a se amontoar na frente, como se isso fosse apressar o atendimento. Eu não saí do lugar. Enquanto um deles não ia para o guichê, eu não dava um passo. Adivinhem se alguém esperou menos tempo do que eu, para ser atendido! Decerto que demorou mais do que eu gostaria, mas por causa de gente que pega contas do condomínio inteiro para pagar, ou boys que deixam tudo acumular para só resolver na sexta-feira.

Vou contar uma cousa, que talvez nem todos aí, do outro lado do monitor, saibam: Eu saí ileso do banco. Não faltou um centavo sequer, apenas mil reais a menos, que depositei na boca do caixa para me prevenir contra imprevistos, mas foi só. Saí de chapéu ajeitado e guarda-chuva na mão, pela mesma famigerada porta giratória, sem um arranhão sequer, nem na auto estima.

Não, meus amigos, rebelde não é aquele que faz bagunça. Rebelde é aquele que se rebela, que sai da zona de conforto social, ciente das conseqüências. Muitas vezes, especialmente em uma cidade que estava ascendendo na civilidade e regrediu bruscamente, ser civilizado é um acto de alta rebeldia. Afinal, ter touro como signo solar, não significa que devo me comportar como boi de corte.


Vocês que me olham com desconfiança, como se eu estivesse cantando dentro de uma gaiola de ouro, olhem de novo. Eu não cedo à tentação de falar o que todo mundo fala, não absorvo vícios de linguagem e comportamento dos grupos que integro, não compro uma tranqueira electrônica só porque está baratinha e todo mundo já tem, não pago uma fortuna para fazer propaganda de graça para uma grife que usa mão-de-obra semi-escrava, não voto por protesto nem por simpatia, enfim... Resumindo, quem aqui está em uma gaiola mesmo?