05/07/2021

A especializada é muito melhor!

 


Câmera analógica:

 

Mesmo aquelas mais caras e sofisticadas, cheias de computadores para auxiliar o trabalho. Com tudo certo, e a tampa retirada da lente, seu mané, aponte, dispare e está feito. Se for mesmo das mais sofisticadas, uma memória electrônica vai mostrar se e o que foi clicado.

 

Eu estou falando de um resultado que uma câmera comum de boa qualidade com um filme comum de boa qualidade pode conseguir, sem precisar penhorar os rins para comprar uma no crediário, e as imagens que só um bom filme de prata oferece podem ser facilmente digitalizadas em arquivos imensos que podem facilmente passar de 24mb por photographia. As profissionais com filmes caros e lentes ídem, nem se fala… Decerto que agregar tecnologia NÃO CONTROLADORA  nessas máquinas ajudaria a fazer milagres, faria um photógrapho amador fazer imagens dignas de profissionais, mas isso é assunto para outro texto… se for conveniente.

 

Ah, claro, com a manutenção em dia ela nunca vai te deixar na mão, não importa as circunstâncias. Dificilmente haverá um dano que não compense o conserto.

 

Câmera digital:

 

Ligue, porque se ficar ligada o dia inteiro não há bateria que dê conta, reze para ela iniciar rápido o suficiente para aquilo que tiver sido avistado com a devida antecedência, aponte e clique. Se tudo estiver certo, evite movimentos bruscos porque pode perder o foco e um passarinho não vai ficar parado para esperar o processador decidir o que é um foco e suas implicações sociopolíticas no contexto negacionista da neossociedade cibernetizada, ele vai voar! Então torça para ninguém passar na frente, porque os décimos de segundos necessários à retomada do foco podem ser o fim de uma bela photo!

 

Mesmo com a certeza de que conseguiu tirar aquela photo, a conhecida letargia dos algoritmos pode ter estragado tudo na hora de armazenar e em vez do passarinho, só um galho seco pode ter sido capturado e estar a ocupar pelo menos 1,5mb de memória, na configuração mais econômica e rápida. Claro, com o tempo essa letargia cessa e tudo fica mais rápido, não muito é lógico, mas se precisar desligar a câmera a romaria recomeça. Mesmo em casos de alvos estáticos, como uma flor, pode haver riscos. Descobri que colocando minha mão detrás de uma, por exemplo, ajuda a ajustar mais e melhor o foco de curta distância, então é só tirar a mão de lá para não estragar a composição e disparar, o problema é que não dá para fazer isso com animais, muito menos se for um predador, como uma aranha… pode não matar, mas vai doer muito assim mesmo.

 

Para que uma câmera dessas seja discreta, compacta e caiba no bolso, por exemplo, não pode ter baterias muito grandes, o que te obriga a levar uma sobressalente consigo, sempre é claro em um invólucro plástico para não haver riscos de curto-circuito com as moedas que porventura lá estiverem.

 

A facilidade e rapidez com que essas câmeras digitais photographam e filmam inundou a internet com gente que se acha digna do Oscar, do Leão de Ouro, da Palma de Ouro, do Kikito de ouro, do Troféu Imprensa, do prêmio Nobel da paz, mas que em sua maioria só fez criar registros de vergonha alheia que farão a fortuna dos arqueólogos cibernéticos, e farão seus descendentes tentarem mudar o sobrenome na justiça. Se antes era preciso ter noção de luz, sombra, profundidade e até de sonoplastia, então a babá electrônica das novas câmeras fez todo mundo se achar o próprio Steven Spielberg.

 

Cedo ou tarde ela vai te deixar na mão, simplesmente porque o software, ao contrário do que as pessoas pensam, não vai rodar incólume para todo o sempre. Cinco anos de uso e já vai pedir aposentadoria. Até pode haver quem possa consertar, mas não sai barato. Fora que uma câmera digital para ter a mesma qualidade de uma câmera química, precisa ser ao menos um nível de preço mais cara.

 

 

Câmera de celular:

 

Desbloqueie o aparelho, selecione o aplicativo de câmera, espere ser aberto e tudo checado, reze para o motorista daquele Corvette Stingray estar apenas apreciando a paisagem porque se ele acelerar vai abrir um buraco de minhoca e nem a luz vai alcançá-lo, então clique. Agora, tenha a precaução de fazer isso sem que outros carros em distâncias diferentes se aproximem, o que é claro que não depende a tua vontade! Se um passar na tua frente antes daquele Corvette, lá se foi o foco! Tente tocar na porcaria da tela e rezar de novo para recuperar o foco antes que ele ganhe velocidade, por experiência própria posso dizer que isso pode levar até cinco intermináveis segundos, tempo suficiente para um carro em velocidade mínima permitida por lei andar mais de quarenta metros. Ainda há o risco de Tico e Teco cibernéticos se digladiarem para ver quem tem razão no foco e na velocidade do clique, então mesmo que pressione o botão a tempo, o melhor que pode conseguir é photographar a ponta do para-choque traseiro.

 

Com dois ou três cliques a porcaria do software “entende” que é para dar alguma prioridade à câmera, então os erros diminuem, mas não faça fosquinha antes de entender a anedota. Ainda assim, com a musculatura photográphica já aquecida, perder o foco é uma companhia tão constante quanto indesejável. Se na câmera digital dedicada colocar a mão logo atrás daquela flor pode resolver o problema, aqui há o inconveniente de nem sempre uma mão só poder tocar onde o foco deve ficar e estar em posição para disparar, e tirar a mão detrás daquela flor pode fazer a porcaria da lente focar o chão! O recurso de colocar o botão em qualquer lugar da tela, até facilita, mas exige algum contorcionismo que mãos mais curtas e grossas, como as minhas, não estão aptas a fazer.

 

Há uma miríade de acessórios que ajudam a contornar isso, mas exigindo para tanto mais investimentos financeiros não só com eles, como também com bolsas apropriadas para seu transporte seguro; fora o volume extra que invalida completamente a alardeada praticidade de um celular. Ainda há o inconveniente dos celulares mais modernos, que é a impossibilidade de se trocar a bateria, porque o fabricante decidiu que aqueles 2,5 amperes são o suficiente para todo mundo em qualquer situação mesmo com todos os recursos utilizados regularmente, e quem quiser mais terá que comprar o topo de gama da linha, pelo triplo ou mais do preço.

 

Ainda há um inconveniente, o facto de não ser um aparelho dedicado pode te fazer perder uma photo mesmo com tudo correndo a favor, simplesmente porque se trata de um telephone, então a prioridade é a telecomunicação, e se alguém te ligar a câmera será colocada em modo de espera, consumindo energia da bateria mesmo sem poder ser utilizada. Aliás, nem precisa de uma ligação, basta te chamarem por texto que o alarme abrirá uma aba de aviso e tirará uma parte preciosa de tua visão da composição da imagem, o que pode fazer um pedestre estragar tudo. Não, não é só esperar a se recolher, porque a câmera pode demorar um pouco a voltar à forma e então, meus amigos, o alvo da photographia pode já ter ido embora. Isso se não travar! Nem venham me falar daquela porcaria daquela maçã pode fomentadora de ditaduras, já tive relatos de que aquilo também trava, e quanto mais aplicativos rodando, mais propenso a travar, daí tem que reiniciar, esperar toda a bagunça ser resolvida e já viu… Bau-bau photographia.

 

Como não poderia deixar de ser, a facilidade e rapidez com que imagens e vídeos podem ser publicados na internet, sem o intermédio de um computador, faz com que mais porcarias inundem e baixem mais o já parco padrão de qualidade reinante. Não me refiro apenas a estilos de gosto dúbio, mas à qualidade da produção, muitas vezes maquiadas com adjetivos idiotas com neologismos estúpidos para angariar a simpatia de quem se acha o próprio sucessor de Sócrates.

 

E pode ter certeza de que, não bastasse a vulnerabilidade a ataques cibernéticos, em dois anos o aparelho estará velho. Dá para consertar? Dá. Mas a mão de obra necessária só é justificada se for um objecto de estimação com alto valor sentimental. Muitas vezes o software original não será compatível com as novas tecnologias e o firewall passa a ser só um peso morto, então deixa de ser um utilitário multitarefas para se tornar só um brinquedo. Fora que um celular para ser páreo para uma digital dedicada, precisa muito mais caro!

 

Toda a tecnologia cara de um celular para captura e edição de arquivos, se aplicada a uma câmera digital, faria a felicidade de qualquer amante ou simples hobista, que dirá os profissionais. Pensemos aqui cá com nossos botões; um cartão de memória é praticamente uma unha de plástico que cabe em qualquer fresta, então uma câmera de filme de boa qualidade poderia ter um software e hardware básicos para captura paralela de arquivo, que seria transmitido para o celular sem o risco de o arquivo principal, o do filme, ser corrompido. Imagine então as câmeras profissionais mais completas, e mesmo as filmadoras de película… Os leitores habituais sabem que não sou contra o progresso, mas também sabem que tenho algum cabedal técnico e por isso sei quando uma tecnologia ajuda ou atrapalha; colocar todos os recursos num só aparelho e querer usá-lo como especializado em um ou dois deles, é fazer como aquele investidor principiante e entusiasmado com os balanços de uma ação, ele dificilmente não ficará na miséria. Ter equipamentos especializados reduzem ao mínimo as chances de tudo dar errado, e de seus arquivos vazarem e serem reivindicados por terceiros, mesmo antes de serem publicados.

A praticidade tem seus prós, mas nem na vida pessoal ela deve ser o norte de uma pessoa, ela te anestesia para os perigos reais e de torna despreparado para eles.

21/06/2021

Caretice funciona

 

Gostem ou não, este modelo funciona. 1900s

Podem sapatear, me xingar, me bloquear e me excluir para o todo sempre forever and ever away, mas vou contrariar muitos de vocês de novo. Começo alertando para o conteúdo do texto, caso estejam dispostos a desistir da leitura e procurar outro que os agrade: Ser careta funciona. Não me refiro às infames repressões e fiscalização da vida privada alheia, isso deve ficar no passado como modelo do que não funciona, até é claro o ponto em que essa vida alheia começar a invadir a sua, como aqueles idiotas que obrigam todo mundo a ouvir as porcarias de que gostam com o som no talo… isso só para citar o que infelizmente ainda é lícito… o ilícito eu comentarei mais adiante.

 

Para começar, a maioria de vocês estaria morta e já nos ossos se estivesse totalmente por sua conta. Não me refiro a ir morar sozinho e ficar sem dinheiro para o sanduíche, me refiro a estar realmente só, fora da sociedade, da civilização, de qualquer recurso que não seja de suja exclusiva responsabilidade buscar, e isso inclui não ter ajuda sequer da mais acanhada e primitiva tribo. Sozinho MESMO, só com suas habilidades de caça, pesca e coleta pra sobreviver. A sua subsistência não é um direito, nunca foi, é uma concessão da sociedade em que vive. Aquilo que chamamos de “direitos” foi decidido por representantes dessa sociedade se seriam ou não concedidos, muitas vezes por pressão pessoal/coletiva dessa sociedade. Entendam de uma vez por todas que se a sociedade decidir que vocês não fazem jus à sobrevivência que lhes é concedida, ela pode ser simplesmente cassada. “Nossa! Que absurdo! Que abcego! Que abmudo! Vou protestar contra tudo isso que aí está e lutar pelos meus direitos”… Lutar? Jura? Mesmo? Então vai pegar uma arma e se jogar contra a polícia altamente treinada, armada até os dentes e já com os nervos à flor da pele? Não, seguramente não. Vai construir ou gerir alguma coisa para ser menos dependente da ajuda dessa sociedade? Difícil… a maioria dos casos que conheço, como a Braspel, caiu por terra na hora de arcar com todas as responsabilidades inerentes à subsistência da iniciativa. Os casos que deram certo foram os que encaretaram pelo menos um pouco, na lida com a subsistência.

 

Nem adianta querer fundar uma sociedade alternativa acreditando que com isso estará livre de regras e propriedades, isso não existe. O simples facto de se proibirem regras é uma regra extremamente rígida, que cedo ou tarde causará problemas de relacionamentos, por exemplo, quando alguém quiser ficar quieto e em silêncio e os outros se acharem no direito de fazer fuzarca no canto em que aquele que quer privacidade estiver, porque não há regras e nem propriedades a serem repeitadas. Senhoras e senhores, aqui termina a utopia e começa o encaretamento da sociedade alternativa, que com o tempo será apenas mais uma sociedade com características próprias. Diga-se de passagem, isso existe desde os primórdios das civilizações, não por ideologia, mas por necessidade de se adaptar ao ambiente para sobreviver, e como nesses primórdios as civilizações estavam muito isoladas e distantes, o ambiente em que cada sociedade em questão se encontrava era praticamente único. Em todos os casos era necessário proteger mais as mulheres, por serem as perpetuadoras dos genes do grupo, e as crianças, o que com o tempo ganhou contornos pouco agradáveis, é verdade, isso verei como abordar em um texto dedicado. O foco aqui é que a sociedade aparentemente caótica da fauna e flora local impôs à sociedade humana as regras impiedosas e geralmente letais a quem as desobedecer. Piedade, fora de grupos humanos, não existe. Entre no território de uma onça para ver o que te acontece. Viu só? Até a sociedade precisa seguir regras e se ater a limitações, e vocês reclamando das que lhes mantêm vivos.

 

E aqui vamos a mais um ponto, que é a educação. Em uma sociedade primitiva é, infelizmente para alguns, necessário algum grau de embrutecimento em virtude da escassez de recursos. A criança precisa aprender desde as mais priscas eras que se sair da linha, morre, sem meios termos e sem direito a apelação: errou, é punido. Não porque os genitores fossem maus e repressores, mas porque desse preparo dependia e em alguns lugares ainda depende a sobrevivência do indivíduo, e em último caso de toda a comunidade. Imagine um idiota se aventurando na propriedade de um predador, indo contra as regras da tribo! Se ele sobreviver, o risco de toda uma matilha o seguir e atacar a tribo inteira é muito alto. As chances de crianças pequenas sobreviverem seriam praticamente nulas e o risco de extinção da comunidade seria alarmante, por isso o costume de banir quem desobedecer às regras de uma sociedade é tão antigo e enraizado até hoje. Compreendam uma coisa, entre preservar um irresponsável inconseqüente que cedo ou tarde vai colocar todo mundo em risco de morte, e preservar a integridade da maioria, os líderes de uma sociedade minimamente responsável não terão dúvidas. E não, nem sempre é possível haver um meio-termo, principalmente se o indivíduo for reincidente! Usá-lo como isca em uma caçada era e ainda é em muitos lugares, um dos métodos mais eficazes e productivos de lidar com o problema.

 

Sim, é isso mesmo que muitos de vocês estão pensando: pena capital. Na ausência de meios de corrigir um comportamento potencialmente perigoso para toda a comunidade, e a ausência de alternativas para lidar com isso, o infrator é simplesmente eliminado. E isso ocorre justamente e sem piedade naquelas sociedades “tradicionais” tão louvadas e defendidas por quem cospe na bíblia (ou torá, alcorão, vedas, etc) da avó que trocou suas fraldas e acordou no meio da noite para te acudir. Também por isso o respeito aos idosos é tão valorizado nessas sociedades, porque na escassez de recursos é que a prática da gratidão e da reverência aos mais experientes se faz valer mais. Eles sobreviveram em condições nas quais as pessoas costumam morrer jovens, nenhum deles teve facilidades e tratamentos de exceção, então sabem os caminhos das pedras para se ter uma vida menos curta e menos desagradável. Isso é coisa que nenhuma escola pode ensinar, o discernimento necessário para esse feito só se consegue vivendo, com tentativa e erro, este que pode custar a vida em uma sociedade menos sofisticada do que a nossa. Então quando um idoso de uma comunidade daquelas, e isso pode significar ter menos de cinqüenta anos, disser “Faça isso e não faça aquilo” ele deve ser acatado, os questionamentos precisam ser deixados para momento oportuno, quando tudo estiver relativamente bem e todos os ânimos estiverem amenos, sempre de forma respeitosa e assumindo que não se conhecem os motivos para aquelas ordens. Entenderam? Ordens! Fora de nossa sociedade altamente complexa e repleta de profissionais especializados, anciãos não pedem, ordenam. Já a sua avó, se ousar perguntar para onde vocês vão…

 

Há casos relatados em tons pastéis e cadências românticas de sociedades sem regras e sem propriedades, onde qualquer um pega o carro que estiver disponível quando precisa sair sem se importar com quem o comprou. Isso é só um exemplo, claro, mas mascara os bastidores dessas comunidades tão perfeitas… seus membros precisam sair para trabalhar e levar recursos para lá. Eles saem todos os dias para a sociedade cheia de regras e propriedades privadas para vender seus artigos ou sua capacidade de trabalho, a fim de angariar recursos para a subsistência de seu quintal tão livre e pacífico, até é claro alguém começar a incomodar de verdade os outros e se recusar a mudar de comportamento. Essas comunidades, se não notaram, precisam da sociedade complexa e careta, cheia de regras punitivas e aparentes contradições para sobreviver. É como se fossem repúblicas, grandes casas em que pessoas geralmente sem laço consangüíneo vivem por aluguéis mais módicos do que um apartamento, onde tudo o que estiver nas áreas comuns é de uso da coletividade interna. Mas como naquelas comunidades utópicas, os moradores de uma república precisam sair para arcar com suas responsabilidades, porque nem que derrubem a casa terão área suficiente para plantar o mínimo necessário à subsistência mais precária, e quase sempre nenhum dos moradores sabe como subir no pé de abacaxi… se é que entenderam a piada. Se não entenderam, deixem para lá.

 

O resumo da ópera até aqui, gostemos ou não, é: Sua sobrevivência é uma concessão da sociedade. Sempre foi e assim será até o dia em que cada um for realmente capaz de suprir sozinho absolutamente todas as suas necessidades do início ao fim da vida. Sabem quando isso vai acontecer? NUNCA! Até certa idade somos jovens, inexperientes e frágeis demais para nos virarmos sozinhos; após certa idade somos velhos, limitados e frágeis demais para nos virarmos sozinhos. Entre o muito jovem e o muito velho há uma janela em que isso também não é possível, porque ninguém sabe e pode tudo o que precisa para sua sobrevivência. Mesmo para os super autônomos que vivem em cabanas longínquas no meio do mato, uma doença mais grave o obrigará a recorrer aos préstimos de um médico, que não estaria à disposição se fizesse o mesmo que ele. Mesmo nos Estados Unidos, onde virtualmente inexiste uma previdência social, é possível se recorrer a uma unidade pública de saúde que depois até pode te encher a paciência por muito tempo para receber os custos do tratamento, mas depois te deixa em paz e com a saúde restaurada. Lá, onde é normal as pessoas viverem longe de tudo e de todos, onde um cidadão pode aprender a fazer de tudo o que precisa para viver no mato que escolheu para chamar de lar, ainda é necessário ir de tempos em tempos para a sociedade e obter suprimentos, para a maioria dos quais ele terá que oferecer em troca algo que interesse ao dono da mercadoria ou prestador de serviço… que geralmente prefere receber em valores em vez de productos que nem todos aceitarão como moeda de troca.

 

Para o indivíduo não depender tanto desta sociedade e não precisar sair tanto do recanto que escolheu para viver, ele precisa se cercar de pessoas com ideias afins e especializações que complementem seus talentos, com essas pessoas então haveria um acordo ainda que informal de convivência, com regras minimamente complexas para abranger o máximo possível de situações sem precisar recorrer a litígios a toda hora. Ou seja, para se livrar de nossa sociedade, é preciso fundar uma sociedade. Saiu da grelha para a frigideira, meu amigo! Ainda há o agravante, por assim dizer, de que mesmo essa sociedade suficientemente complexa e organizada não ser capaz de atender a absolutamente todas as suas necessidades, forçando seus integrantes a buscarem recursos em outras que exigirão contrapartida, fomentando acordos e protocolos que inevitavelmente desembocarão em algum grau de integração. Ou seja, simplesmente não dá para fugir de uma sociedade sem cair em outra, que cedo ou tarde terá que lidar com aquela. Terrível? Por que? Salvo trapaças, que a maioria de vocês aceita se for em proveito de seus grupinhos particulares, as regras sociais visam à subsistência da comunidade. É possível ter uma boa autonomia, se for angariado uma boa soma de recursos materiais e intelectuais, poder dar uma banana para muitos problemas que afligem o cidadão comum, mas nada além disso. Por exemplo, no Brasil não se pode armazenar e vender combustível sem a autorização estatal, mas fabricar uma certa quantidade e já colocar no tanque do seu carro são outros quinhentos. Os riscos são seus, de mais ninguém, então pode… claro, até ter que enfrentar a vistoria e passar pelos testes de emissões, então reze para seu combustível ser suficientemente bom.

 

Agora vamos aos hábitos danosos de cada um. Desde que não exceda o seu quintal, em princípio não tem problema, mas geralmente tem. Som não respeita cerca, então seu som alto vai ser danoso a quem precisa estudar, se concentrar no trabalho ou descansar de um dia duro para acordar cedo e enfrentar novamente o mundo real. A fumaça do churrasco também não sabe ler aquela placa de “propriedade privada, não ultrapasse”, ela vai entrar no quintal do vizinho e incomodar, então é bom escolher bem o carvão de boa qualidade, a carne sem excesso de gordura amarela e o tempero não tão agressivo; aliás, se puder não usar carvão, melhor. Fumaça não é só desagradável, pode complicar muito um problema respiratório crônico, inclusive invadindo a sua própria casa. E por falar em fumaça, foi-se a época em que ser fumante era considerado chique e másculo, essas regras mudaram. Para quem vive em apartamento é ainda mais dramático, especialmente se o fumante moda no andar de baixo! Mesmo assim o uso de nicotina é o mais ameno deles. Por que? Digam em que estado de espírito fica um fumante inveterado após consumir duas carteiras de cigarro, além é claro de estar mais perto da morte do que seria necessário? Ele não vai dicar doidão com isso, não vai perder noção de perigo, não vai perder as inibições que evitam tornar-se mais agressivo do que um ser humano normalmente é e, principalmente, não vai ficar paranoico. Preciso desenhar ou vocês entenderam que a realidade ruim do tabagismo legal não é coisa nenhuma igual à do fumo de entorpecentes? Também não preciso então explicar por que ainda é criminalizado.

 

A malfadada lei seca, que revigorou uma máfia que estava em dificuldades, foi um exemplo de como NÃO LIDAR, com um problema. Acreditar que uma caneta vertendo tinta em uma folha de papel resolveria os problemas de alcoolismo de TODA UMA POPULAÇÃO, varia entre a ingenuidade e o puro idiotismo. A educação e a presença rente da família sempre foram mais efetivas, e isso inclui deixar regras claras que devem ser ensinadas desde muito cedo, na medida em que a criança for capaz de compreender em casa fase de seu crescimento. Mas para isso os pais do petiz precisam ter o cabedal e a experiência necessários, que infelizmente nem sempre são dados a contento… na verdade isso falha muito mesmo… Os casos que conheço me dão conta de que as famílias sempre esperam que o indivíduo vá se corrigir com o tempo e preferem não dispender recursos em discussões desagradáveis, mas que lamento, muitas vezes são necessárias. MUITO necessárias. Ensinar regras e como se valer delas é uma conversa que está escasseando rapidamente, o grande problema disso é que o tipo de raciocínio necessário para se valer de regras é o mesmo que possibilita se dar bem no mundo profissional, e eu nem estou falando de burlar legalmente a leis, me refiro a usar a face protetiva das regras em seu favor; por exemplo, saber que seu chefe também tem chefes é uma arma poderosa! Mesmo o dono único de uma grande corporação precisa lidar em última instância com seus clientes, que são seus chefes. Não existe indivíduo sem comando no mundo, até mesmo Vladmir Putin responde ao seu eleitorado e sua base militar, ainda que só seu modo, e faz o possível do que eles esperam de si.

 

O resumo desta parte é que o indivíduo precisa dar contrapartida á sociedade que o sustenta, mesmo os pedintes o fazem à sua maneira, servindo de testemunhas para qualquer eventualidade. As donas de casa, que muita gente ainda hoje diz que não trabalham, fazem na verdade o trabalho de base de toda a sociedade, algo que por si já deveria render alguma remuneração porque a contribuição para aposentadoria já é possível. Quem cuida da casa cuida da descendência e manutenção demográfica. Sim, concordo plenamente que deve caber a ela a decisão de engravidar ou não, mas quem o faz tem a chance de formar cidadãos nos quais poderá incutir seus valores e suas esperanças, tornando sua prole uma multiplicadora de tudo em que acredita.     À amiúde os adultos, conscientes disso ou não, levam em suas escolhas e atitudes pelo menos um pouco do que lhes fora ensinado no lar; vocês não imaginam o quão poderosa pode se tornar uma mãe. Em última instância até mesmo um adolescente que sai cantarolando todos os dias, que cumprimenta as pessoas do bairro, especialmente as mais velhas, está prestando um serviço à sociedade. Qualquer coisa boa que tu faças é um trabalho e uma contribuição positiva para a civilização, muitas vezes isso por si basta para a sociedade te considerar mais útil do que perigoso e assegurar sua subsistência. Sim, meus amigos, é simples e frio assim. Pessoas têm sentimentos, amizades e consideração para com o próximo, não as coletividades.

 

Grupos agem de forma primitiva e precisam agir assim, por isso se diz que nações têm aliados e não amigos. Entre os habitantes dessas nações pode e deve haver amizade, nunca entre coletividades, sob o risco de uma concessão levada pelos sentimentos prejudique um país inteiro. É por isso, por exemplo, que uma empresa precisa demitir um empregado que não valha o que recebe, se não o fizer os outros terão que trabalhar para suprir o que ele não executou; manter um mau componente sempre aumenta a carga de toda a estrutura. Assim como é com os países, que precisam manter o mais alto grau possível de paz e cooperação entre si, mas nunca às custas de dilapidar as riquezas internas, transformadas pelo trabalho árduo de seus habitantes. Sem esses habitantes, o Estado não existe. Estados gerenciam nações, só isso, não produzem absolutamente nada, e nem é esse o seu papel! Se o estado se preocupar em ter lucro, por exemplo, terá um monopólio que é a pior coisa que pode acontecer com um mercado! Ou seja, mesmo as sociedades como coletividades precisam seguir regras e não só impô-las. Não invadir águas territoriais e zonas econômicas exclusivas alheias é uma dessas normas que asseguram um mínimo de boa convivência. Sim, até mesmo e principalmente os Estados precisam ser um pouco caretas. Ousar demais pode significar invadir o espaço do outro, se entre vizinhos isso dá briga, entre nações a conseqüências são muito piores e uma guerra pode ser só o prelúdio delas.

 

Ainda sobre os Estados, devemos lembrar que eles não são entidades sobrenaturais, nem mesmo são indivíduos super poderosos. Estados são gerúndios. São a ação coletiva de indivíduos que gerem os assuntos de todo o grupo que lhes confiou a gestão dos assuntos nacionais, para que os membros desse grupo possam se ocupar em resolver os problemas mais localizados, para os quais o governo não tem capilaridade suficiente. Não é só o indivíduo que precisa ser útil à sociedade, esta precisa ser útil aos seus componentes se quiser mantê-los sob sua guarda e influência. Tiranias costumam ter ondas de deserções justamente porque são Estados que vivem só para si, sem se importar em ser úteis para aqueles que as sustentam. As pessoas têm aquela janela de que falei para serem mais úteis do que perigosas aos seus conterrâneos. Os muito jovens e os muito velhos geralmente não estão mais aptos ao trabalho formal, os primeiros ainda não estão prontos e os segundos já deram o que podiam, por isso são tolerados e mantidos. A rigor, quem não trabalha, remuneradamente ou não, é um parasita. Quem não dá algo interessante em troca daquilo que recebe é um parasita, e é por isso que muita gente se incomoda tanto quando está desempregada.

 

Caríssimos, tenham em mente uma coisa que pode chocar muitos de vocês: TODOS são um pouco caretas em ao menos algum ponto e em ao menos alguma circunstância. Quem se dispuser a fazer uma análise crítica de si mesmo verá que é mais careta do que imagina, que defende mais regras e costumes do que admite. Isso não é ruim, é parte do instinto de sobrevivência. Lembrem-se, se um infrator é poupado de arcar com seus actos, um inocente vai arcar com um prejuízo que talvez não tenha condições para tanto. Se um petiz inconseqüente faz besteiras e não for cobrado por isso, não só vai deixar o fardo para quem não o produziu como vai encorajar outros a fazerem o mesmo, com o tempo essa tolerância indevida alimenta um comportamento danoso que contamina uma geração inteira e… vocês conhecem o final dessa novela, o estamos vivendo hoje. Ainda que tudo seja reparado e o máximo possível de falhas sanadas, porque uma vez feito o estrago não é totalmente irreversível, restarão duas facções básicas na sociedade, a que não quer mais passar por aquilo e a que quer viver o que levou a tudo aquilo. Em ambos os casos o viés de radicalismo e conspiracionismo está feito, e as regras podem ter que ser ampliadas e endurecidas… Vide a Califórnia de hoje, onde o furto foi praticamente legalizado por políticos permissivos, que querem resolver um problema que eles mesmos causaram onerando quem não o produziu e tentava resolvê-lo de forma consistente… várias lojas pequenas já fecharam e a migração para Estados tidos como conservadores continua. Em vez de ajudar as pessoas a se erguerem, decretaram que suas vidas devem ser mais fáceis, o que se deu às custas dos que trabalham duro. Permitir a quebra de uma regra vital para qualquer sociedade estável abriu um precedente que vai custar caro por muitos anos.

 

O sonho de a regra ser quebrar regras tornou-se um pesadelo que seus causadores se recusam a admitir, retroalimentando o problema que afirmam combater. O meio oeste, até então rejeitado por ser, aham… careta… tornou-se o destino dos que descobriram que essa história de liberdade plena não existe na natureza, e se for mantida é por meios artificiais, que têm um custo alto, que aquelas pessoas não querem mais pagar. Sem regras não há liberdade, porque sem elas cada um se vê no direito de invadir o espaço alheio que então não seria de ninguém, e o espaço em questão pode ser o seu corpo. Lembram daqueles filmes todos que mostravam cenários apocalípticos em Estados tradicionalistas? Pois seus cenários estão se desenrolando justo nos “progressistas”. Claro, às vezes é bom arriscar, dizer um sim, comer um chocolate entre as refeições, mas tornar isso é um hábito arraigado é letal para um ser humano, que dirá para uma sociedade! O Estado Dourado tornou-se o Estrago Embaçado.

 

Não neguem suas origens, suas tradições, seu legado e suas próprias falhas. É isso que mantém uma sociedade minimamente estável, que faz as pessoas se reconhecerem em seu gentílico e cooperarem com os assuntos coletivos de seu país. Dá para ter liberdade sim, em meio a regras claras e bem pensadas, elas te mostram até onde é seguro ir, conhecê-las a fundo permite tirar delas um proveito que nenhuma utopia permite, pois esta não te dá referências de o quanto estás a exceder seus próprios limites e o quanto está invadindo a vida do outro. Todo mundo é careta, um pouco que seja. Assumir e trabalhar isso de modo maduro vai lhes trazer uma paz e uma perspectiva de futuro que absolutamente nenhum diploma e nenhum psicodélico seria capaz, mesmo em doses insuportáveis para um ser humano.

11/06/2021

O que fazer com as máscaras...




           Uma hora essa pandemia passa, nos livramos de pisar em ovos até para respirar e, principalmente, entrar mascarado em uma loja volta a ser motivo para suspeita de crime em andamento. Sairemos da situação em que se pode andar pelado e mascarado de volta ao oposto, mas não sem adaptações e reabilitações nos livrarmos dos tiques e paranóias adquiridos nestes anos de restrições, parando de passar compulsivamente álcool em coisas que só nós usamos. Há crianças mais jovens que vão se assustar porque não reconhecerão as pessoas de cara livre, em alguns casos nem mesmo as próprias mães, uma breve fase de berreiros fará parte da readaptação. E por falar nisso, o que fazer com todas as máscaras duráveis que já compramos e especialmente o que os comerciantes e fabricantes farão com as que vão encalhar? A produção está a todo vapor, fazendas inteiras são desviadas do vestuário para fabricar as famigeradas focinheiras de pano, há até mesmo fazendas estampadas especificamente para confecção dessas máscaras! Imagina o prejuízo!


          Entretanto, me lembrando de um episódio em que um comerciante sem noção queria autorização para vender bojo de sutiã como máscara, obviamente negada, deixei o Rivotril de lado para pensar em meios de reaproveitar essas pequenas tranqueiras quando não forem mais obrigatórias, e estar sem máscara não será mais considerado atentado ao pudor... 


          Sutiã: Não, eu não estava brincando, o cidadão realmente apareceu gente na vigilância sanitária querendo vender bojo de sutiã como máscara, claro que foi prontamente indeferido, mas como o contrário não traz riscos abriu espaço para pensar se não poderia ser feito. Bem, poderia e pode, inclusivo o formato de muitas máscaras é bem propício para segurar os seios com conforto! Como os modelos sanfonados se moldam a vários formatos e tamanhos de rostos, os seios muito grandes e muito pequenos não ficarão desconfortáveis


          Biquíni: Na mesma linha dos sutiãs, muitos modelos de boa qualidade são bons preservadores das partes pudentas, fora que a fartura de cores e estampas combinam muito com a proposta recreativa das peças. Mas fazer o favor de antes de usar, lavar a máscara… Por serem feitas de tecidos que precisam permitir a respiração, as partes cobertas se secariam mais rapidamente, prevenindo infecções.


          Tanga masculina: Na mesma linha do biquíni, apenas acrescentando duas ou três máscaras para cobrir o derrière. Uma máscara estruturada daria liberdade e conforto ao dito cujo, evitando os males do estrangulamento que as peças tradicionais podem impor, com todas as conseqüências inerentes. Vale lembrar que dependendo do modelo usado na frente, suas investidas podem render processo por propaganda enganosa.


          Pochete: Já tem as alças, as tais tridimensionais já têm o formato ideal, então basta unir duas, realocar as alças e pronto! Se brincar, só se costura um retalho na parte côncava e está pronta para ser presa ao cinto, sem precisar de uma cinta específica. Para as crianças as coloridas serviriam não só para identificá-las de longe, mas também para guardar os doces e outros petiscos que fazem a alegria do dentista.


          Máscara para dormir: Um elástico nas alças e pronto, a cesta sagrada de cada dia está assegurada, pelo menos na questão ocular, não há máscara capaz de fazer o mala-sem-alça aceitar que ninguém é obrigado a ouvir as porcarias de que ele gosta; e afinal, muita gente já usa assim mesmo. Uma vantagem dessa máscara é o conforto, por não pressionar a sensível área dos olhos e ainda poder envolver o nariz sem grandes riscos de asfixia.


          Coador de café: Favor não fazer isso com máscaras usadas, só com novas! Também não recomendo o uso de máscaras planas, só as estruturadas, ou o pó vai derramar pelos lados. As vantagens sobre o coador comum são várias, principalmente a filtragem dupla ou tripla e a facilidade maior em torcer o coador para ticar cada gota de café, e valorizar seu suado dinheirinho. Na hora de lavar e secar são muito mais práticas e podem ser penduradas com as roupas no varal. E antes de coar de novo, certifique-se de que não foi usada para os fins originais...


          Funda: Não, não é escatologia! Trata-se daquele pedaço de pano que Davi usou para acertar a testa de Golias. As máscaras mais simples têm o formato ideal para isso. Seria colocar a pedra na peça, segurar uma alça com o polegar e a outra com os outros quatro dedos, girar o mais rápido possível e soltar o polegar para atirar. É uma arma silenciosa, compacta e utiliza munição barata.


          Lustrador de sapatos: Muitos de vocês nem sabem o que é isso, mas quando os engraxates eram comuns nas ruas, todo mundo estava familiarizado com aquele pedaço sujo de tecido que faziam os sapatos brilhares como se fossem envernizados. A diferença entre um sapato engraxado por um profissional e um engraxado em casa é gritante. As alças facilitariam o armazenamento entre expedientes, mas a maior vantagem aqui é que elas reduziriam a sujeira nas mãos e sob as unhas, bastaria colocar uma flanela na face virada para o sapato e sentar a pua!


          Solidéu. Por incrível que pareça, alguns modelos só precisam perder as alças para se encaixarem na cabeça. Claro que a sinagoga inteira vai te olhar torto se aparecer por lá com a Lady Bug na cabeça! Tenha bom senso e vá de pretinho!


          Artesanato: Um pouco de verniz para engomar, umas demãos de tinta, criatividade e pronto, as máscaras estruturadas podem virar desde relicários até refletores de luminárias. Para os mais caprichosos e cintes de normas de higiene, elas podem servir como embalagens permanentes para petiscos e doces. Com uma boa resina pode-se fazer até mesmo um refletor para luzes de carros.


          Combustível: Em último caso, para as que estiverem muito sujas ou danificadas, resta aproveitar a energia armazenada mas moléculas do tecido e aquecer o ambiente… desde que haja uma chaminé, não me vá matar sua família intoxicada! Lamento informar que não servirá para o churrasco, a carne ficaria com um sabor estranho… 


         Finalmente, máscara: Pode parecer falta de criatividade, mas descobri que essas porcarias ajudam a manter o ar ao redor do nariz morno e úmido, o que para quem mora em regiões de clima seco é de uma ajuda imensa, especialmente agora, com o inverno cafungando no cangote e a temperatura caindo, piorando o quadro.


18/05/2021

A imperdoável

 



Desta vez ela passou dos limites! Aquela xexelentazinha!!!!!!!!! Como se atreve???? COMO SE ATREVEEEEEEE?!?!?!?!?!?!?!?!?! SUBVERSIVA! TRAIDORA DAS CONQUISTAS SOCIAIS AO NÍVEL DE LIBERTAÇÃO DAS PESSOAS DE VAGINA!!!!!!!!!!!!!!!! Não bastou ter se casado! Não! Não bastou ter se aliado a essa tradição judaico-cristã misógina, homofóbica, genocida, opressora, perpetuadora de privilégios milenares dos povos ribeirinhos patriarcais! Ainda casou-se com uma pessoa de pênis! UMA PESSOA DE PÊNIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Mas não é esse o pior da história! Não! Ela se atreveu a adoptar o sobrenome dele… Uma pessoa de vagina jovem casou-se com uma pessoa de pênis e aceitou usar o sobrenome dele!!!!!!!!!! Uma acinte contra as conquistas revolucionárias das pessoas de vagina ao nível histórico enquanto enfrentamento da sociedade patriarcal neandertal!!!!! Agora a pessoa de pênis vai dar opiniões na vida dessa jovem de vagina!!!!! NINGUÉM PODE DAR OPINIÕES NA VIDA DE UMA PESSOA DE VAGINA!!!!!!!!!!! Nossos corpos, nossas regras!!!!!!!!! E nossas regras proíbem essa atitude de submissão à cultura milenar segregatória às vontades absolutistas fascistas das pessoas de pênis!!!!! Só falta ela chamar essa pessoa de pênis de… de… de marido!!!!!!!!!!!!!! Isso destruiria todas as nossas conquistas e anularia todas as nossas lutas para derrubar esse sistema patriarcal estuprador injusto e perpetuador de privilégios burgueses!!!!!!!! Isso fará com que percamos todos os nossos direitos e sejamos novamente presas em jaulas conjugais! Mas eu sei o porquê! Eu (esta aqui) que leio pensamentos, vejo através do tempo e conheço a vida dela melhor do que ela, sei por que motivos essa pessoa de vagia teria traído nossa causa libertária! A literatura progressista explica em detalhes o plano maligno e perverso de predestinação que toda pessoa de pênis nasce sabendo e por isso é previamente culpada por todas as mazelas da sociedade corrupta e injusta em que vivemos!

 

Isso é uma tradição criada visando não a felicidade da pessoa de vagina, mas para colocá-la em seu lugar na sociedade patriarcal neandertal, mostrando que não passa de um objecto que naquele momento, está sendo passada de um dono para outro, de uma opressão para outra, de uma castração para outra, de uma escravidão para outra, de uma microssociedade opressora para outra, de uma autonegação para outra! A pessoa de vagina é toda enfeitada como um presente porque é só a isso que se resume nesse ritual que não serve para porcaria nenhuma, a não ser legitimar e consolidar os papéis pré-fixados de gêneros construídos ao longo de milhares de anos na sociedade patriarcal! A pessoa de Pênis com todos os privilégios e liberdades, a pessoa de vagina reclusa para cuidar do curral patriarcal e de seu rebanho, sem o direito de interromper a formação do filhote de pessoas! Enquanto a pessoa de vagina é reduzida a uma autômata escravizada, à pessoa de pênis é permitido estuprar outras pessoas de vagina estigmatizadas e mercantilizadas para satisfazer a construção de sua negação de sua homossexualidade!

 

É tudo uma construção social imposta às pessoas de vagina para sustentar a opressão do patriarcado neandertal opressor, porque casamento é como sexo, é pura construção! Pior ainda o monogâmico que é totalmente antinatural, inclusive o dos cisnes, de várias espécies de pinguins e araras, todos criados, construídos e estruturados por essa sociedade feminicida! É compreensível que jovens pessoas de vagina alimentem sonhos românticos construídos e impostos pela misoginia estrutural desse patriarcado negacionista de sua homossexualidade! Comprou a ilusão de uma felicidade não hormonal e portanto falsa e construída, na vã e idiota esperança de que aquela noite de glória e glamour vai garantir que sejam ambos felizes para sempre! Ela quer o sonho de uma noite de romances tolos em uma festa castradora em que a pessoa de vagina não é o centro das atenções, mas o centro das vigilâncias, porque a partir daquele maldito “sim” ela aceita ser propriedade de uma pessoa de pênis, em vez de viver sua vida em liberdade e seguindo suas próprias regras, e uma delas é não se casar com pessoas de pênis! Mas tudo o que ela realmente quer é gozar das delícias hormonais de uma lua de mel, porque é só a isso que se resume a felicidade, é só hormônio! A ciência provou que sim! Então ela deveria ter aproveitado a vida segundo as regras dela para o corpo dela, que deve ser livre e sem fronteiras para seguir as regras do nosso movimento!

 

E para finalizar, eu sou intelectual! Eu sei de tudo o que há para se saber! Eu conheço a verdade! Eu sou a verdade, o caminho e a salvação! A minha verdade é a única que realmente vale! Ninguém chega à revolução de gênero senão por mim!

 

Só faltou ela pedir a pena de morte para quem nascer homem. Vamos ser francos, a vidinha da Sasha é dela, foi bancada pela mãe até quando quis e teve todas as suas vontades respeitadas, um dinheiro que foi ganho honestamente e não deve satisfações senão à receita federal, porque essa não tem jeito mesmo. Namorou quem quis, o quanto quis, aproveitou a vida como quis e vai continuar aproveitando como quer, isso inclui ter escolhido se casar nos moldes tradicionais. O corpo é dela, a vida é dela, a decisão é dela! Não estou falando de uma garotinha oprimida que ficou presa em casa durante a vida inteira, obrigada a memorizar uma bíblia neopentecostal porcamente traduzida ajoelhada no milho sob o sol do meio-dia. Ela sempre foi livre, estudou muito, mas muito mesmo, formou sua mentalidade e sua personalidade por conta própria, apoiada pela mãe, que deu a ela toda a liberdade de que precisava! E em vez de ser mais uma idiota repetidora de bordões alheios, ela decidiu ser jovem e fazer o que os jovens mais gostam de fazer, que é contrariar um sistema injusto e opressor; no caso, o que dá a cada um a liberdade para obedecer cegamente as regras dogmáticas do grupo intelectual de ar condicional e julga o indivíduo pelo que a coletividade faz, generalizando ao extremo e ainda cobrando-lhe pelos crimes que algum de seus ancestrais mais distantes talvez pudesses ter cometido. Ela se rebelou não com pompa e holofotes, queimando carros de trabalhadores em protestos que no fundo são pró ditaduras ideológicas, mas intimamente, se decidindo por si mesma pelo romance tradicional.

 

Eu não sou o maior fã de Maria das Graças Meneguel, meu estilo é outro, mas uma das coisas que aprendi a admirar nela é a competência de sua administração tanto empresarial quanto pessoal. Todo mundo dizia que ela estava acabada, depois de romper com sua empresária, mas o supremo senhor da razão deu-lhe ganho de causa. De início, e isso faz muitos anos, fiquei com um pé atrás com o excesso de cuidados que ela aparentemente dispensava à filha, a mim parecia superproteção de mãe inexperiente, muitas vezes até comprando briga com seu próprio público por coisas às quais eu simplesmente daria uma resposta sarcástica chamando civilizadamente o idiota de idiota, mas isso é o que EU faria, seria a MINHA escolha resultante de MEU livre arbítrio para tomar MINHAS decisões, e só eu arcaria com as conseqüências. A vida doida de artista que ela teve deve ter influenciado seu comportamento e seus métodos… bem, para mim qualquer vida baseada em noitadas é doida, então minha opinião aqui não conta tanto, meus parâmetros são bem mais caseiros, já disse isso aqui um monte de vezes em vários textos, enfim. Ao contrário da mãe, que teve um início de carreira nas telas rendendo polêmicas acaloradas com as esteiras de turbulência se estendendo até hoje, foi polêmica em seu auge e continuou polemizando para defender seu rebento, como a mãe com “M” maiúsculo que decidiu ser, Sasha escolheu curtir a vida adoidada ao lado de um esposo para chamar de seu. Esposo… esposo… esposo…

 

Vocês podem acusar a Xuxa de um milhão de coisas, afinal ela está rotineiramente nas manchetes e é calejada o bastante para lidar com isso, mas as funções da maternidade ela cumpriu com louvor. Sua pimpolha seria chamada de “emancipada e empoderada”, se estivesse vivendo da mesada da mamãe em boates escuras cheias de drogas e promiscuidade gratuita, seria assim posta em pedestais como modelo de mulher livre a ser seguido, mesmo não fazendo absolutamente nada de útil, apenas buscando desesperadamente prazeres efêmeros e destrutivos que alimentariam narrativas rasas. Seria um ícone de algum movimento igual a tantos outros que faz o oposto do que prega em frases de redes sociais. Foi uma adolescente comum e deu as dores de cabeça que se espera de uma, nada muito além disso. Ela, entretanto, decidiu ser esposa, em condições nas quais teria de tudo para ser um manancial de desespero e tristezas para sua mãe, sendo inclusive retratada pela “mídia especializada” como uma garota fútil que vivia só para si, e por parecer uma garotinha fútil e egoísta era aclamada por colunistas de “celebridades”, só que ela provou o contrário. Enquanto expunha superficialmente ao público uma vida social, ela construía em sua intimidade a vida que realmente queria levar, e foi isso que revoltou certas pessoas… “formadoras de opinião… que se revoltaram por ela ter tido a sua própria contrária à que esperavam que tivesse, a fazer o que querem proibir os outros de fazerem. A máxima do “a vida do outro não é da sua conta” virou “a vida do outro é coletiva”.

 

Na época em que teve a Sasha, mesmo com o pai sendo conhecido e bem-afamado, foi duramente criticada por ser mãe solteira, inclusive pelo então ministro da saúde José Serra, que recebeu uma reprimenda dura da então também musa da vacinação infantil. Assim como tantas outras calúnias, inclusive de que seu “dixionário” ensinava as palavras erradas, ela esfregou na cara dele o quanto a sua participação na campanha incrementava a adesão dos pais e atenuava nas crianças o medo da injeção. Não, meus amigos, ela não era a única extravagante da época, os anos 1980 foram férteis em tosqueiras que fazem a Xuxa parecer uma simples boneca colorida. Ela se defendeu sozinha, diga-se de passagem, e ao que parece transmitiu essa experiência à filha, que teria então segurança emocional suficiente para trilhar um caminho paralelo ao de outra pessoa, no caso, um homem. Não tenho detalhes até porque ambas tiveram o bom senso de manter suas vidas realmente pessoais fora do alcance dos odiadores invejosos, que agem como fanáticos religiosos sob seus discursos libertários, mas tudo leva a crer que ela não foi prometida para casamento antes de a mãe nascer e tampouco foi levada agrilhoada para o altar, noves fora toda a especulação altamente passional dos opinadores birrentos, Sasha fez valer de facto o poder e a liberdade de sua emancipação plena.

 

Aliás, pelo pouco que a Xuxa já disse da vida pessoal da família, Zafir também teve participação na formação da então petiz, portando um homem ajudou a garota a formar uma personalidade autônoma e capaz de exercer seu livre-arbítrio em uma vida adulta e sem frescuras. Ou seja, a parte do patriarcado dessa equação teria sido altamente benéfica para ela, porque sabemos o quanto um cafajeste pode destruir a vida de uma criança, mesmo não morando sob o mesmo teto. E posto que certa feita a então infanta queria um irmão, e a mãe mandou pedir ao pai dela, é facilmente concluível que ele foi um pai presente e actuante, dentro do que sua carreira doida de artista lhe permitiu. No mais, sendo ele o pai da então menor, sem a sua permissão ela não teria ido para os Estados Unidos, para estudar e viver lá, então a abestalhada narrativa da opressão e submissão ao patriarcado ai, ai, ai mil, vai pra fora do Brasil, cai por terra por pura falta de alicerce. Viveu na cidade mais cosmopolita do mundo, com todos os perigos que vêm de carona nesse bonde, onde pôde ver tudo e teve a chance de experimentar o que quisesse, então decidir o que fazer de sua jovem vida. Ela teve sim escolha, assim como a mãe teve.

 

Eu sei que vocês estão estranhando eu falar de artista em um blog que tradicionalmente é avesso a isso, mas em verdade estou me referindo às pessoas e não aos personagens que suas carreiras demandam que vistam. Pessoas precisam ser ajudadas e fortificadas para que possam se defender sozinhas, buscando obviamente ajuda sempre que a carga for maior do que suas forças, em vez de serem rotuladas e estigmatizadas por faladores frouxos que fazem tudo o que dizem combater. No avatar da rede social, um sorriso e uma frase fofinha, mas a carga de ódio e rancor despejada contra quem se atreve a contrariar suas narrativas faria inveja ao mais imaturo dos mafiosos. Ou seja, mesmo quem aparentemente, durante uma vida inteira e pregressa, teria atendido a todas as expectativas de um grupo dito libertário, quando decide tomar suas próprias decisões sem consultar o manual da doutrina deles, passa a ser no mínimo cidadão de segunda classe, ou membro de uma casta inferior. O que lhes parecer ser conservador é demonizado e acusado de renascimento das trevas medievais, justo eles que querem mudar tudo para que então nada jamais mude para todo o sempre e “AI” de quem então tentar mudar alguma coisa.

 

Sinceramente? Mrs. Sasha, go ahead! Vá em frente e distribua bananas! Tu ainda és jovem, cheia de vida e tem décadas para mudar ou não sua decisão. Vá viver a vida adoidada com sua família, dar cascudos no senhor seu marido e mimá-lo quando ele fizer por merecer! Mande os detratores tomarem xarope de cicuta! Se eles encherem o saco, manda se verem com a sua mãe, ela sabe dar o recado direitinho… e benza a Deus, ela tenta parecer velha mas ainda é um mulherão!

06/05/2021

Comentários diversos

Propriedade intelectual de Maurício de Souza. Se tentar piratear, vai levar coelhada!
 

Na falta de organização, tempo hábil e ambiente, vou simplesmente comentar algumas notícias e curiosidades, cujos links estarão nos próprios parágrafos. São coisas que eu pretendia compartilhar em redes sociais, mas a esterilidade ideológica/religiosa inibiu um plantio que estaria fadado ao fracasso.

 

Esta é a Tina. Maurício de Souza a criou como uma hippie baiana, que na época já estava saindo de moda, para ser coadjuvante do irmão Toneco, mas, na prática, ele quase desapareceu para sempre e só voltou nas fases recentes, enquanto ela se tornou não só a protagonista com seu próprio título, como também a mandachuva da turma. Segue a moda como qualquer jovem comum, gosta de celebridades como qualquer jovem comum, tem suas crises existenciais e de cotovelo como qualquer jovem comum, mas sua relação de liderança para com os outros está longe de ser comum. Por mais que tente ser uma no meio dos outros, cedo ou tarde alguma coisa vai fazê-la levantar o topete e começar a dar ordens, e os outros terão que acatar. A característica básica dela, uma parte da personalidade que jamais mudou nestes cinqüenta e um anos, é sua indomabilidade. A característica física que nunca mudou é que ela é tão linda que comove.

 

Passando agora para assuntos automotivos.

 

Conforme eu já alertei aqui, os carros baratos estão em extinção, e agora foi o chefão da Renault que deu seu diagnóstico. A Europa já se rendeu ao mau gosto e dubiedade dos SUVs. Embora as motocicletas, que não oferecem segurança nenhuma, e ainda sejam fabricadas sem restrições, os pés-de-boi familiares estão com os dias contados justo por causa da imensa parafernália electrônica e dos reforços estruturais que são obrigados a carregar, embora esses reforços não signifiquem DE JEITO NENHUM que sejam mais duráveis e confiáveis do que seus antecessores, basta ver a quantidade de Gols quadrados que ainda rodam e comparar com a decadência estrutural da maioria dos concorrentes modernos do Gol de hoje. A versatilidade ímpar e praticidade dos hatches pequenos e médios está com os dias contados, a não ser que vários pequenos fabricantes se unam para compartilhar componentes a fim de reduzir custos, e montem manufaturas pra modelos de baixa demanda em nichos de mercado; ainda assim eles teriam que rebolar para manter seus modelos no mercado.

 

E o absurdo não pára por aí. Uma pequena montadora vietnamita que prometia muito, começou a pisar na jaca querendo prender um comprador que fez críticas constructivas ao carro que ele comprou, em seu canal de vídeo. O rapaz deixou claro que gosta do carro, apenas apontou detalhes que o desagradaram e foi acusado de manchar a imagem da empresa e prejudicar suas vendas. Sabem aquela máxima de que o cliente sempre tem razão, embora nem sempre tenha? Parece que alguém por lá tem saudades da ditadura em que vivia, quando a opinião emitida podia ser motivo para fuzilamento. E o idiota quer entrar nos Estados Unidos, onde uma opinião de cliente pode até definir o CEO de uma indústria… e quer fazer o mesmo por lá… criminalizar opiniões em vez de usá-las para melhorar seus productos… que nem foram totalmente desenvolvidos por ele, seus carros usam todo o monobloco dos BMW série 5. O que ele pretende fazer em caso de recall? Processar quem requisitar os reparos? Prefiro pagar muito mais caro pelo Série 5 original made in Germany, pelo menos os alemães sabem quem tem razão nessa relação.

 

Uma notícia mais amena é que os fabricantes de caminhões instalados no Brasil que ouvem seus clientes em vez de mandar prender em caso de críticas, confirmaram investimentos significativos para ampliação e melhoria de seus portfólios, que já são bastante ecléticos e bem-conceituados. Só a Ford e a GM estão de fora, uma por burrice e a outra por… bem… burrice também, porque o mercado só cresce. A diferença é que a GMB cometeu o erro muitos anos antes e foi por falha da gestão anterior, não por covardia. Enfim, esse aporte é uma daquelas notícias que só aparecem em mídias generalistas de vez em quando, de modo superficial e com algum atraso, principalmente porque é um alívio em um momento de crise global. Apesar do avanço das ferrovias, a demanda por caminhões cresce. Em tempo, gosto da GM, mas por isso mesmo preciso fazer críticas quando se fizerem necessárias… poderia ao menos ter falado com a Agrale para assumir a produção, durante a baixa de demanda.

 

E a demanda por caminhões plug-in também. A aceitação tem sido maior do que a esperada e as promessas sérias de lançamentos já pipocam. O caso aqui é de entregas urbanas e intermunicipais, ramo e que a fumaça e o barulho são mais críticos. A união de alta capacidade de transporte com emissão quase zero, já que a poluição é apenas potencial e fica lacrada nas baterias, vai permitir entregas em horários e lugares que hoje são proibidos justamente para evitar incômodos para o cidadão exausto pelo dia de trabalho. Apesar do custo inicial maior, afinal são baterias grandes para motores potentes que imprimirão pouca velocidade, os custos de manutenção são ridiculamente baixos, e a máquina é muito apta ao trabalho pesado prolongado. E posto que Itaipu está perto de pagar a dívida de sua construção, as tarifas de energia serão mais atraentes quando os pequenos brutos começarem a ser comuns, melhorando a rentabilidade dos negócios; estão precisando mesmo disso.

 

Com tanta demanda, tantos investimentos e tantos caminhões novos, não é de admirar que o fenômeno americano esteja se repetindo por aqui; faltam motoristas. A demanda por caminhoneiros está crescendo mais do que a formação e oferta de mão de obra, isso em breve vai tornar qualquer motorista de Accelo em um bom partido para casamento. Apesar da já citada redenção das ferrovias, os trens não têm a capilaridade de um caminhão e não teriam mesmo que houvesse rios de riquezas para investir em novas linhas; a bem da verdade é capaz até de esse incremento de demanda por caminhões tornar mais ramais viáveis para entregas de curta e média distâncias, então meus amigos, esqueçam aquele protesto rançoso dos anos 1990 de caminhoneiros ameaçando parar o país se as ferrovias fossem revigoradas, porque isso está acontecendo e os temores estão indo pela culatra.

 

Aliás, a coisa está andando de tal forma que os lançamentos de caminhões estão mais interessantes do que os de carros de passeios, que viraram um mar idiota de futilitários esportivos de fim de semana. Mesmo os de cabine avançara têm mais personalidade e fazem mais falta ao saírem de linha, mesmo as comemorações por longevidade de uma linha são mais autênticas e festivas. Quem diria que esses monstros de vinte toneladas, capazes de arrastar cem outras, seriam mais confortáveis, avançados, bem desenhados e coloridos do que os carros de passeio? Ririam da minha cara, há trinta anos, se eu dissesse isso. Já gosto mais dos lançamentos da Marcopolo do que os da Chevrolet.

 

Isso vale mesmo para os utilitários leves e feitos para o trabalho mais bruto como as picapes de cabine simples. Praticamente esquecidas pelo modismo ridículo que vigora, as versões para trabalho pesado ainda existem e, pela pouca concorrência, encontram caminho praticamente livre para suas vendas. Muita gente ainda se lembra com saudades da longa e versátil Chevrolet C-15, com sua enorme caçamba e destemor por ambientes rudes, mas poucos sabem que caminhonetas pés-de-boi ainda existem, muito porque o departamento de marketing as têm desprezado nos últimos anos.

 

Alçando vôos com circunflexo que é o certo mais altos, vamos falar um pouco de aviação.

 

A exemplo do porto de Los Angeles, que fornece tomadas de energia para que os navios não precisem consumir combustível quando estiverem atracados, os aeroporto de Brasília decidiu fazer o mesmo para os aviões à espera de passageiros e/ou carga em seus terminais. O combustível é de longe o maior gargalo de custos da aviação comercial, então Brasília vai chamar mais atenções e terá mais preferência das companhias aéreas. Fora isso, o nível de ruído menor tornará a espera dos passageiros muito mais aprazível, o trabalho do pessoal de apoio na pista ficará tanto quanto mais e ainda mais salubre, com a redução da poluição local, até mesmo a temperatura ambiente ficará mais baixa. Resta esperar que o aeroporto fique tão solicitado, que os outros precisem adoptar medidas semelhantes, será bom para todo mundo.

 

Inclusive os resultantes da iniciativa da Infraero para incrementar os regionais. Se isso for para frente, e eu acredito que irá, as pequenas companhias regionais com seus turboélices, vão prosperar muito, pois são justo a falta de infraestrutura e a escassez de boas pistas homologadas que mais estrangulam a parte técnica das operações. Mesmo para quem não voa, não pretende ou tem medo de avião, a notícia é bem-vinda. Não foi uma e nem só duas vezes em que fiquei horas intermináveis dentro de um ônibus de uma linha monopolizada, às vezes em velocidades baixíssimas, tendo que viajar mal em uma poltrona estranha por terem vendido a minha para outra pessoa, sendo tratado rom desdém e rispidez pelos funcionários. Muita gente vai migrar para o serviço aéreo e esses picaretas vão lamber sabão com suas concessões politiqueiras monopolistas; ou trabalham direito, ou fecham… não fariam falta.

 

Assim teremos até bizarrices bacanas para transformar em memes, como a do sujeito que se despachou como carga frágil e se deu mal. Ele não contava com a lei de Murphy, foi extraviado e passou dias perdido de aeroporto em aeroporto, até ser resgatado. Francamente, as chances de isso dar certo não eram grandes, ainda mais que o americano médio já não faz mais jus à boa fama de seus antecessores e não entrega o seu melhor no serviço que faz, dá só o suficiente e assim elimina a margem de segurança que daria suporte contra eventuais falhas. O bom é que o pateta sobreviveu e parece que quer virar filme. Mais um…

 

Outra bizarrice é esta também vinda dos Estados Unidos. Não é incomum haver partos durante o vôo, o bizarro é a criatura passar mal e precisar ser atendida sem saber dizer o que está sentindo, porque ela simplesmente não sabia que estava grávida! Aham… só faltou dizer que não sabia como aquele bebê foi parar na barriga… A sorte de ambos é que uma série de sincronicidades fez seu embarque atrasar, o que a colocou à presença de médicos a bordo. Pela carinha lerda que fez durante o flagrante… bem, deixa pra lá… Importa que mãe e bebê estão bem, sendo cuidados no Havaí. Criatividade para tosqueira não falta a eles (https://www.aeroflap.com.br/voo-da-american-com-o-embraer-175-acaba-em-pizza-apos-alternar-devido-a-fortes-chuvas/) inclusive para evitar motins dentro do avião.

 

Para os geeks a boa nova é que o museu Smithsonian está montando uma réplica em tamanho naturam das incônicas X-wing. Assim que estiver pronta para visitação, vocês saberão, porque seguramente será notícia nos meios nerd de comunicação. Uma das críticas de cientistas e técnicos à saga Star Wars é justo contra essas naves, porque têm flaps. Certo, não há ar no espaço e mexer asas por lá não adianta nada, mas se esquecem que elas também operam em atmosferas, então as asas móveis são sim necessárias, para não dependerem só da vetorização do empuxo. Decerto que o desenho foi feito mais para impressionar do que para funcionar, mas a boa distância dos motores para a fuselagem torna o vôo mais fácil de controlar. Vocês poderão tagarelar em caracteres à vontade a respeito, quando a exposição estiver pronta, os mais abonados poderão até mesmo protagonizar tosqueiras divertidas com vestes à caráter, encenando alguma passagem da série, quando estiverem lá.

 

E por falar em “lá”, um dos melhores sites nacionais de aeronáutica está há dias sem uma actuzlização. A Aeroway fez sua última publicação no dia vinte de Abril.

 

Indo para o generalismo.

 

No país dos jogos proibidos, a jogatina estatal prospera! Para evitar criar mais impostos, o que fazem? Estimulam? Facilitam? Combatem oligarquias monopolistas? NÃO! Criam mais uma loteria financiar saúde e turismo… Loteria para financiar turismo… Não sei se vocês se lembram, mas quanto mais o Estado meteu o bedelho na economia, mais caca saía. É como analgésico vagabundo, que no começo dá um alívio, mas logo em seguida deixa a dor voltar mais forte e mantém a causa do problema intacta… ou já se esqueceram da quase planificação econômica do plano cruzado? Este país já é um cassino de baixo custo a céu aberto, é pior do que jogo de azar, porque aqui não é só o apostador que perde, perde a população inteira.


Para o desespero dos lambedores de ditaduras e da própria ditadura maior, as lideranças ocidentais ensaiam uma recuperação sólida. Ao contrário daqueles, que estão dissolvendo soberanias nacionais e exigindo que seus membros sejam tratados como cidadãos de primeira classe, legando os nativos a castas inferiores, estes estão sendo chamados até mesmo por quem, nas cabeças simplistas de retoristas compulsivos, deveriam odiá-los e aderir à causa do big brother da vida real. Por mais defeitos que eles tenham, e em conversa com nativos eles os assumem, permitem as manifestações contrárias e cavoucam eles mesmos suas dívidas. 

 

O que tem a Barbie a ver com a pandemia? A princípio nada, mas esta crise sanitária marcou a história da boneca e sua linha de productos. As vendas de algumas linhas de brinquedos cresceram absurdamente, enquanto quase todos os outros setores amargaram quedas expressivas, quando não fatais. Uma explicação é que se trata de brinquedos pensados para uma época e que as pessoas já moravam em apartamentos, então são apropriados para crianças que não podem ou pouco podem sair de casa. A boa notícia neste caso é que esses fabricantes estão empregando mais, com isso ajudando a atenuar a crise e melhorando as perspectivas para quando vier o alívio.

 

Preparem-se para mais riscos de quedas de energia, e desta vez a culpa não será das concessionárias. A produção de cobre não está acompanhando a demanda e os preços estão disparando, isso torna a fiação eléctrica mais atraente para meliantes. Eles não se importam em interromper uma cirurgia cardíaca no meio dos procedimentos, eles não dão a mínima, se tiverem a chance vão cortar o fornecimento de energia para roubar o cobre da fiação, então recomenda-se mais atenção policial ostensiva para prevenir o pior. É o mesmo problema que acomete as montadoras pela falta de processadores, cujo problema é tão grave que fez o Ônix despencar do primeiro para o sétimo lugar em vendas, não por desinteresse do comprador, mas porque não há essa matéria-prima essencial a carros modernos para concluir a montagem dos veículos. Com o cobre será pior, porque a produção de maquinário será toda comprometida, inclusive os motores dos carros eléctricos… A expectativa, se não houver mudanças na oferta, é que duplique o preço até 2025.

 

Sabem aqueles contractos aparentemente vantajosos, mas que dão exclusividade a alguém sobre os direitos locais de uma marca reconhecida? Fuja deles! Ou no mínimo exija cláusulas que lhe permitam desfazer a parceria, ou vai acabar com os mesmos problemas da Lamborguini que é só o caso mais famoso no momento. O mesmo vale para procurações em que o procurador tenha poderes demais para representação, sua vida pode ser arruinada por um erro ou má-fé. Mesmo que se trate de um amigo íntimo ou parente confiável, ninguém sabe o que vai acontecer daqui a uns anos e ninguém sabe que pressões psicológicas ou mesmo chantagens procurador vai enfrentar. Para o bem de ambos, é preciso haver uma cláusula de ruptura contractual por parte do titular, ou as vidas de ambos podem ser arruinadas por pessoas que não vão se importar com vocês.

 

É notório o risco que as malditas ponteiras laser impõe à aviação, bem como seu uso intensivo pela pesca pirata predatória chinesa em águas exclusivas de outros países. Deveria ser apenas um instrumento de trabalho corporativo e acadêmico, mas virou uma praga. Felizmente essa necessidade está trazendo uma solução relativamente simples já existem óculos que protegem contra esses ataques, é questão de tempo até chegarem ao mercado nacional, e não muito mais para que os motoristas percebam sua utilidade nas estradas, dirigindo contra o sol. Foram desenvolvidos para as forças armadas, mas os óculos CALI têm ganhado a simpatia e elogios rasgados de pilotos civis. São discretos, de longe não parecem ter nada de extraordinário, mas podem evitar tanto uma cegueira quanto uma tragédia, e o visual austero é um convite para customizadores.

 

Concluindo e complementando o que eu já escrevi lá em cima. A falta de personalidade dos carros é tamanha, que já há empresas ganhando com remodelação de veículos contemporâneos deixando-os parecidos com carros antigos. No caso os japoneses transformam seus minúsculos kei cars, que não podem passar de 1,48m de largura por 3,4m de comprimento (o Fiat Mobi tem 1,63m por 3,56m) em filhotes de clássicos ocidentais, como a Kombi corujinha, o Bel Air 1957, entre outros. Como o trabalho é artesanal, demora alguns dias, talvez meses se o pedido for muito extravagante. Entenderam, montadoras? Ou querem que os japoneses desenhem abocanhando mais um naco de mercado ocidental?

20/04/2021

Pés-de-boi em extinção

 

As rodas de liga leve foram pagas à parte.

A respeito dos últimos e salgados aumentos nos preços dos carros, não é culpa só das montadoras. Elas querem vender, é disso que vivem, mas sabem que não podem cobrar o preço de um Rolls Royce por um Mobi. Assim como nós queremos receber o máximo possível pelo mínimo possível de horas de trabalho, elas também querem valorizar o que oferecem, mas sabem que isso tem um limite. Sim, dá para fazer um carro robusto e confiável para vender por menos de quarenta mil reais na concessionária, zerinho e reluzindo a tinta da fábrica. Tecnicamente é perfeitamente possível até por menos, mas esse preço baixo teria um custo alto que vocês não poderiam pagar mesmo que quisessem; e eu sei que não querem. Por isso lamento informar que os carros realmente baratos estão em processo de extinção, não compensa mais investir neles. Para entender isso, precisamos ver o que encarece tanto um automóvel hoje, mas me aterei àquilo que simplesmente não pode ser retirado do carro, sob pena de nunca ir às ruas. Temos primeiro os itens de segurança activa e passiva, que são os grandes responsáveis pela proximidade de preços entre um pé de boi e um carro de acabamento médio. Não se trata só de instalar, é preciso testar DESTRUINDO protótipos no decorrer do desenvolvimento do modelo.

 

A célula de sobrevivência é projectada para suportar colisões em velocidades consideráveis sem permitir que os ocupantes sejam atingidos, o que acarreta não só aumento de peso, mas também exige que outros componentes sejam superdimensionados, o que constitui uma imensa dor de cabeça para a engenharia, que não pode permitir que um Ônix Joy fique tão pesado quanto uma Suburban, isso acaba excluindo o uso de aços mais baratos e fáceis de serem trabalhados, que precisariam ser empregados em grandes quantidades, agravando ainda a falta de espaço interno. É preciso utilizar aços mais nobres e estamparias mais sofisticadas, mas tudo isso equacionado para que os custos não sejam proibitivos para o público do modelo em questão. Então uma vez a estrutura de proteção escolhida, já conformados em pagar alguns milhares de bolsos a mais por isso, o carro pode ir para as ruas? Não!

 

Por mais forte que seja a estrutura, é a desaceleração brusca que mais causa ferimentos em uma colisão. Não importa a velocidade, se a parada for suficientemente suave, os ocupantes sobrevivem. É necessário haver zonas de deformação progressiva, para que os danos sofridos pelo veículo dissipem o máximo possível da energia da colisão; é por isso que se diz que o para-choque de uma moto é o motociclista. Os testes que resultam na destruição dos protótipos visam encontrar o ponto de equilíbrio entre o tamanho do capô e a máxima absorção possível, sem que o interior do carro seja gravemente afetado, isso é particularmente complicado em carros compactos, e também por isso eles decidiram não investir mais na Kombi porque, né… a zona de deformação ali é zero… O ideal seria mesclar o uso de aço com boas ligas de alumínio, que também é abundante e muito fácil de fundir, mas estampar o alumínio é quase um pesadelo, exigindo matrizes especiais e mão de obra mais qualificada, por isso peças feitas desse metal são tão mais caras.

 

Ainda temos equipamentos de segurança activa que são altamente problemáticos não só para comprar, mas também para instalar, especialmente porque a maioria é de tecnologia relativamente recente, por isso mesmo ainda cara; ABS, airbag, ARS, controle de tração e mais uma penca de equipamentos que em breve serão obrigatórios em todos os automóveis novos de produção em massa no Brasil. O problema é que eles precisam conversar entre si, e compatibilizar tantos sistemas diferentes rouba meses de estudos e testes exaustivos… e caros. Tudo seria mais simples se não precisassem de softwares, mas precisam e nenhum deles é para amadores. Ainda há o facto de que vai demorar para serem equipamentos leves e compactos, eles tomam espaço, tiram capacidade de carga e exigem mais do alternador, o que se reflete no consumo, não só no conforto, fora a fragilidade mecânica e sensibilidade climática de tudo isso, simplesmente não podem ser molhados, o que exige tirar espaço no cofre do motor e do porta-malas para não tirar dos ocupantes, só que isso pode inviabilizar, vide os Land Rovers, uma manutenção sem equipamentos complexos e ainda transformar o porta-malas em um porta-luvas, e tome mais ansiolítico para a engenharia.

 

Não bastasse tudo isso, para essa tralha toda ser eficiente, é necessário um nível mínimo de qualidade na construção e montagem, com isso ela fica menos onerosa para um grande carro de luxo do que para um compacto popular, e por isso este nicho está ameaçado de extinção, pois está praticamente no limite para absorver os custos de tudo isso sem se tornar inviável. O facto de não haver uma empresa que fabrique todos esses equipamentos em uma só linha de montagem, bem como não haver um módulo único que faça o serviço de todos eles, o que seria tão arriscado quanto caro para um investidor, ajuda a atrapalhar. Não se pode esperar uma redução de custos sem perda de segurança e qualidade antes que uma dramática evolução de software e hardware aconteça, e isso ainda demora um tempo para ser dramática o suficiente, até lá o Ônix vai sofrer para manter seu preço suficientemente abaixo do Cruze.

 

Todos os fabricantes sonham em poder utilizar os racionais, compactos e baratos motores dois tempos refrigerados a ar em seus carros, isso por si já reduziria muito os custos de produção e manutenção, mas nem em sonhos um carro com um motor desses seria aprovado na mais porca das legislações ambientais, não com o combustível padrão disponível. Não é só a adição de catalisadores e injeção electrônica, quem dera isso bastasse, é preciso que esses dois itens sejam também testados e maltratados até a destruição para que sua eficácia seja comprovada. Vale ressaltar que o catalisador, além de cerâmica sofisticada, se utiliza de metais raros, e caros, para cumprir com sua função. Também por isso, e pela fragilidade inerente, não pode ser instalado de qualquer jeito e nem em lugar inacessível, pois precisa manter a temperatura sob controle para funcionar sem ser danificado, o que demanda interferências no layout do monobloco. Lembram do Fusca Itamar? Precisaram deslocar o silencioso para dentro do para lama esquerdo, para o catalisador caber. Sorte que o conceito dos anos 1930 permite isso, e ambos ficaram em lugares bem protegidos sem subtração do escasso espaço interno do Fusca, em um carro moderno isso é bem mais complicado e por isso os antigos menos antigos do que o Fusca virtualmente não teriam conseguido voltar a ser fabricados nem como lotes promocionais.

 

Ainda no tocante às emissões, é muito difícil para mecânicas antigas e consagradas, que já tiveram seus custos de desenvolvimento pagos pelas vendas e por isso seriam extremamente baratos para serem utilizados em versões de entrada, se adequarem às normas de emissões; também por isso a kombi perdeu o motor a ar, mesmo contando com injeção, bem antes de sair de linha. A questão não é só queimar o combustível, mas queimar de modo que as reações no interior da câmara de combustão resultem em níveis aceitáveis de gases nocivos, algo para o qual os limites decrescem rapidamente, em breve os derivados do petróleo não conseguirão mais atender à maioria das legislações. Se há, por exemplo, uma variação significativa de temperatura no interior do motor, como acontece nos refrigerados a ar, o controle electrônico fica menos eficiente e o trabalho do catalisador é prejudicado. Da mesma forma a maior formação de pontos quentes dentro do motor dificulta o uso de gasolina comum, assim como o trabalho de monitoramento da injeção, o que levou as fábricas a reduzir deliberadamente as potências desses motores em seus últimos anos de produção, para contornar o problema e manter o produto em linha o máximo possível. Seria como uma Montana utilizando o motor 151 quatro cilindros que foi do Opala, que tem força bruta e confiabilidade de sobra, mas não atenderia às leis ambientais. Sim, há meios para equacionar isso, mas para a maioria das pessoas, e presidentes de companhias são pessoas, simplesmente não compensa.

 

Mas o que mais dificulta a vida de quem sonha em produzir um modelo popular no Brasil, talvez seja justamente o consumidor brasileiro. Não dá a mínima para equipamentos de segurança e controle de emissões, mas ama ostentar! Para terem uma idéia com acento que é o certo, quando a GM decidiu lançar o Celta, teve o bom senso de consultar o público alvo. Seria uma das poucas vezes que o consumidor realmente ajudaria a projectar o carro que iria comprar meses depois. O pé de boi que a engenharia tinha em mente foi descartado. Imaginem o Celtinha velho de guerra com um painel pobre como o do Fusca, só velocímetro e marcador de combustível, com retrovisores e lanternas traseiras perfeitamente simétricos, de modo que servissem de qualquer lado. O acabamento interior exclusivamente de plástico rígido e porta-malas totalmente pelado. O banco traseiro teria penas dois cintos, pois seria para quatro pessoas, e não permitiria o rebatimento fácil que transforma um hatch subcompacto em um furgãozinho, para isso seria preciso tirar o banco do carro, e nada de console central de tipo nenhum. O sistema de ventilação seria mínimo, apenas para manter os ocupantes vivos, só haveria um paras sol de plástico rígido para o motorista. Ah, claro, para racionalizar a linha de montagem, haveria só a versão de duas portas. Teria sido significativamente mais barato, mas como sabemos, não foi isso que o consumidor decidiu, preferiu pagar mais. Se já tem manolo reclamando que as caixas de rodas dele são muito pequenas para as rodas que eles querem usar... Ainda há um agravante, um carro muito básico precisa de uma tiragem gigantesca para que os investimentos e a apertada margem de remuneração da fábrica sejam pagos, ou seja, o Celta teria morrido logo se não tivesse sido o sucesso que foi.

 

Se pensam que isso é um pé-de-boi de fazer inveja aos carros militares, ainda há meios de depenar e baratear mais. Por exemplo, tirando a máquina do vidro das portas, que então seriam de correr, como nos antigos caminhões Mercedes 608 e na Kombi corujinha, basta ver os ônibus urbanos para saberem o que é. Os bancos poderiam ser apenas conchas de plástico minimamente estofado, impossibilitando qualquer regulagem que não fosse de distância do volante, o que seria exclusivo do motorista. Já imaginaram ter que fazer muita força para frear? Ou então ter que pisar bem fundo num pedal de curso muito longo? Seriam as opções para compensar a falta do hidrovácuo, que é o aparelho que ajuda a frear sem que isso se pareça com uma aula de musculação. E por falar nisso, que tal ter que parar totalmente o carro para engatar a primeira marcha? A não ser que seja um motorista muito experiente e habilidoso, para compensar a falta dos caros anéis sincronizadores, que nos permitem passar as marchas às vezes mal pisando na embrenhagem. Tapetes? Que tapetes? E o porta-luvas pode muito bem ser apenas um buraco maior, sem tampa, assim como a luz de cortesia poderia funcionar apenas com intervenção humana, sem essa de ligar quando se abre a porta e desligar quando fecha, instalação eléctrica é coisa cara! Não podemos nos esquecer das rodas com apenas três parafusos e de usar os mínimos pneus 145R80, que foram do Fiat 147. Parece estranho? Há países em que um cidadão de baixa renda não se importa em ter que esticar o braço para regular o retrovisor do outro lado, neles os carros mais espartanos do mundo gozam de relativo prestígio.

 

Ainda há uma solução que faria vocês jogarem pedras em quem sugerisse, que é utilizar eixo rígido na dianteira. Explico, trata-se de trocar a suspensão relativamente complexa da dianteira, que torna o carro mais fácil e confortável de ser controlado em pisos ruins, que são a regra em nosso país, por uma barata e robusta barra que ligaria rigidamente as duas rodas, assim o que acontecesse com uma se refletiria na do outro lado, e no volante, tornando qualquer irregularidade no asfalto um pesadelo cacofônico dentro do carro, fazendo tudo tremer a cada trepidação. Claro, isso seria coroado com um ou dois feixes de molas transversais em cada eixo, substituindo as confortáveis e caras molas helicoidais; sim, perto do que eu estou descrevendo, o Celta é um Opala. Nos anos setenta eu passei por isso, ainda havia carros em que um pneu fofocava sobre o seu lado do piso para o outro e para o volante. Se serve de consolo, essa receita tornaria o carro mais rápido, ágil e econômico, além de baratear muito a manutenção...  Mas é claro que vocês preferem pagar vinte mil reais a mais para não passar por isso! Mesmo que percorressem rotineiramente estradas de boa qualidade entre condomínios de luxo, vocês não tolerariam ser vistos em um carro assim! Mesmo que uma boa calibragem atenuasse muito os problemas de conforto, e isso uma montadora consegue fazer sem dificuldades, vocês não tolerariam descer um degrau social ainda que fosse bom para vocês! Então paguem!

 

Sem todos esses supérfluos que vocês amam, e se a lei permitisse, os carros populares poderiam ser assim: