Gostem ou não, este modelo funciona. 1900s |
Podem sapatear, me
xingar, me bloquear e me excluir para o todo sempre forever and ever away, mas
vou contrariar muitos de vocês de novo. Começo alertando para o conteúdo do
texto, caso estejam dispostos a desistir da leitura e procurar outro que os
agrade: Ser careta funciona. Não me refiro às infames repressões e fiscalização
da vida privada alheia, isso deve ficar no passado como modelo do que não
funciona, até é claro o ponto em que essa vida alheia começar a invadir a sua,
como aqueles idiotas que obrigam todo mundo a ouvir as porcarias de que gostam
com o som no talo… isso só para citar o que infelizmente ainda é lícito… o
ilícito eu comentarei mais adiante.
Para começar, a maioria
de vocês estaria morta e já nos ossos se estivesse totalmente por sua conta.
Não me refiro a ir morar sozinho e ficar sem dinheiro para o sanduíche, me
refiro a estar realmente só, fora da sociedade, da civilização, de qualquer
recurso que não seja de suja exclusiva responsabilidade buscar, e isso inclui
não ter ajuda sequer da mais acanhada e primitiva tribo. Sozinho MESMO, só com
suas habilidades de caça, pesca e coleta pra sobreviver. A sua subsistência não
é um direito, nunca foi, é uma concessão da sociedade em que vive. Aquilo que
chamamos de “direitos” foi decidido por representantes dessa sociedade se
seriam ou não concedidos, muitas vezes por pressão pessoal/coletiva dessa
sociedade. Entendam de uma vez por todas que se a sociedade decidir que vocês
não fazem jus à sobrevivência que lhes é concedida, ela pode ser simplesmente
cassada. “Nossa! Que absurdo! Que abcego! Que abmudo! Vou protestar contra tudo
isso que aí está e lutar pelos meus direitos”… Lutar? Jura? Mesmo? Então vai
pegar uma arma e se jogar contra a polícia altamente treinada, armada até os
dentes e já com os nervos à flor da pele? Não, seguramente não. Vai construir
ou gerir alguma coisa para ser menos dependente da ajuda dessa sociedade?
Difícil… a maioria dos casos que conheço, como a Braspel, caiu por terra na
hora de arcar com todas as responsabilidades inerentes à subsistência da
iniciativa. Os casos que deram certo foram os que encaretaram pelo menos um
pouco, na lida com a subsistência.
Nem adianta querer
fundar uma sociedade alternativa acreditando que com isso estará livre de
regras e propriedades, isso não existe. O simples facto de se proibirem regras
é uma regra extremamente rígida, que cedo ou tarde causará problemas de
relacionamentos, por exemplo, quando alguém quiser ficar quieto e em silêncio e
os outros se acharem no direito de fazer fuzarca no canto em que aquele que
quer privacidade estiver, porque não há regras e nem propriedades a serem
repeitadas. Senhoras e senhores, aqui termina a utopia e começa o encaretamento
da sociedade alternativa, que com o tempo será apenas mais uma sociedade com
características próprias. Diga-se de passagem, isso existe desde os primórdios
das civilizações, não por ideologia, mas por necessidade de se adaptar ao
ambiente para sobreviver, e como nesses primórdios as civilizações estavam
muito isoladas e distantes, o ambiente em que cada sociedade em questão se
encontrava era praticamente único. Em todos os casos era necessário proteger
mais as mulheres, por serem as perpetuadoras dos genes do grupo, e as crianças,
o que com o tempo ganhou contornos pouco agradáveis, é verdade, isso verei como
abordar em um texto dedicado. O foco aqui é que a sociedade aparentemente
caótica da fauna e flora local impôs à sociedade humana as regras impiedosas e
geralmente letais a quem as desobedecer. Piedade, fora de grupos humanos, não
existe. Entre no território de uma onça para ver o que te acontece. Viu só? Até
a sociedade precisa seguir regras e se ater a limitações, e vocês reclamando
das que lhes mantêm vivos.
E aqui vamos a mais um
ponto, que é a educação. Em uma sociedade primitiva é, infelizmente para
alguns, necessário algum grau de embrutecimento em virtude da escassez de
recursos. A criança precisa aprender desde as mais priscas eras que se sair da
linha, morre, sem meios termos e sem direito a apelação: errou, é punido. Não
porque os genitores fossem maus e repressores, mas porque desse preparo
dependia e em alguns lugares ainda depende a sobrevivência do indivíduo, e em
último caso de toda a comunidade. Imagine um idiota se aventurando na
propriedade de um predador, indo contra as regras da tribo! Se ele sobreviver,
o risco de toda uma matilha o seguir e atacar a tribo inteira é muito alto. As
chances de crianças pequenas sobreviverem seriam praticamente nulas e o risco
de extinção da comunidade seria alarmante, por isso o costume de banir quem
desobedecer às regras de uma sociedade é tão antigo e enraizado até hoje.
Compreendam uma coisa, entre preservar um irresponsável inconseqüente que cedo
ou tarde vai colocar todo mundo em risco de morte, e preservar a integridade da
maioria, os líderes de uma sociedade minimamente responsável não terão dúvidas.
E não, nem sempre é possível haver um meio-termo, principalmente se o indivíduo
for reincidente! Usá-lo como isca em uma caçada era e ainda é em muitos
lugares, um dos métodos mais eficazes e productivos de lidar com o problema.
Sim, é isso mesmo que
muitos de vocês estão pensando: pena capital. Na ausência de meios de corrigir
um comportamento potencialmente perigoso para toda a comunidade, e a ausência
de alternativas para lidar com isso, o infrator é simplesmente eliminado. E
isso ocorre justamente e sem piedade naquelas sociedades “tradicionais” tão
louvadas e defendidas por quem cospe na bíblia (ou torá, alcorão, vedas, etc)
da avó que trocou suas fraldas e acordou no meio da noite para te acudir.
Também por isso o respeito aos idosos é tão valorizado nessas sociedades,
porque na escassez de recursos é que a prática da gratidão e da reverência aos
mais experientes se faz valer mais. Eles sobreviveram em condições nas quais as
pessoas costumam morrer jovens, nenhum deles teve facilidades e tratamentos de
exceção, então sabem os caminhos das pedras para se ter uma vida menos curta e
menos desagradável. Isso é coisa que nenhuma escola pode ensinar, o
discernimento necessário para esse feito só se consegue vivendo, com tentativa
e erro, este que pode custar a vida em uma sociedade menos sofisticada do que a
nossa. Então quando um idoso de uma comunidade daquelas, e isso pode significar
ter menos de cinqüenta anos, disser “Faça isso e não faça aquilo” ele deve ser
acatado, os questionamentos precisam ser deixados para momento oportuno, quando
tudo estiver relativamente bem e todos os ânimos estiverem amenos, sempre de
forma respeitosa e assumindo que não se conhecem os motivos para aquelas
ordens. Entenderam? Ordens! Fora de nossa sociedade altamente complexa e
repleta de profissionais especializados, anciãos não pedem, ordenam. Já a sua
avó, se ousar perguntar para onde vocês vão…
Há casos relatados em
tons pastéis e cadências românticas de sociedades sem regras e sem
propriedades, onde qualquer um pega o carro que estiver disponível quando
precisa sair sem se importar com quem o comprou. Isso é só um exemplo, claro,
mas mascara os bastidores dessas comunidades tão perfeitas… seus membros
precisam sair para trabalhar e levar recursos para lá. Eles saem todos os dias
para a sociedade cheia de regras e propriedades privadas para vender seus
artigos ou sua capacidade de trabalho, a fim de angariar recursos para a
subsistência de seu quintal tão livre e pacífico, até é claro alguém começar a
incomodar de verdade os outros e se recusar a mudar de comportamento. Essas
comunidades, se não notaram, precisam da sociedade complexa e careta, cheia de
regras punitivas e aparentes contradições para sobreviver. É como se fossem
repúblicas, grandes casas em que pessoas geralmente sem laço consangüíneo vivem
por aluguéis mais módicos do que um apartamento, onde tudo o que estiver nas
áreas comuns é de uso da coletividade interna. Mas como naquelas comunidades
utópicas, os moradores de uma república precisam sair para arcar com suas
responsabilidades, porque nem que derrubem a casa terão área suficiente para
plantar o mínimo necessário à subsistência mais precária, e quase sempre nenhum
dos moradores sabe como subir no pé de abacaxi… se é que entenderam a piada. Se
não entenderam, deixem para lá.
O resumo da ópera até
aqui, gostemos ou não, é: Sua sobrevivência é uma concessão da sociedade.
Sempre foi e assim será até o dia em que cada um for realmente capaz de suprir
sozinho absolutamente todas as suas necessidades do início ao fim da vida.
Sabem quando isso vai acontecer? NUNCA! Até certa idade somos jovens,
inexperientes e frágeis demais para nos virarmos sozinhos; após certa idade
somos velhos, limitados e frágeis demais para nos virarmos sozinhos. Entre o
muito jovem e o muito velho há uma janela em que isso também não é possível,
porque ninguém sabe e pode tudo o que precisa para sua sobrevivência. Mesmo
para os super autônomos que vivem em cabanas longínquas no meio do mato, uma
doença mais grave o obrigará a recorrer aos préstimos de um médico, que não
estaria à disposição se fizesse o mesmo que ele. Mesmo nos Estados Unidos, onde
virtualmente inexiste uma previdência social, é possível se recorrer a uma
unidade pública de saúde que depois até pode te encher a paciência por muito
tempo para receber os custos do tratamento, mas depois te deixa em paz e com a
saúde restaurada. Lá, onde é normal as pessoas viverem longe de tudo e de
todos, onde um cidadão pode aprender a fazer de tudo o que precisa para viver
no mato que escolheu para chamar de lar, ainda é necessário ir de tempos em
tempos para a sociedade e obter suprimentos, para a maioria dos quais ele terá
que oferecer em troca algo que interesse ao dono da mercadoria ou prestador de
serviço… que geralmente prefere receber em valores em vez de productos que nem
todos aceitarão como moeda de troca.
Para o indivíduo não
depender tanto desta sociedade e não precisar sair tanto do recanto que
escolheu para viver, ele precisa se cercar de pessoas com ideias afins e
especializações que complementem seus talentos, com essas pessoas então haveria
um acordo ainda que informal de convivência, com regras minimamente complexas
para abranger o máximo possível de situações sem precisar recorrer a litígios a
toda hora. Ou seja, para se livrar de nossa sociedade, é preciso fundar uma
sociedade. Saiu da grelha para a frigideira, meu amigo! Ainda há o agravante,
por assim dizer, de que mesmo essa sociedade suficientemente complexa e
organizada não ser capaz de atender a absolutamente todas as suas necessidades,
forçando seus integrantes a buscarem recursos em outras que exigirão
contrapartida, fomentando acordos e protocolos que inevitavelmente desembocarão
em algum grau de integração. Ou seja, simplesmente não dá para fugir de uma
sociedade sem cair em outra, que cedo ou tarde terá que lidar com aquela.
Terrível? Por que? Salvo trapaças, que a maioria de vocês aceita se for em
proveito de seus grupinhos particulares, as regras sociais visam à subsistência
da comunidade. É possível ter uma boa autonomia, se for angariado uma boa soma
de recursos materiais e intelectuais, poder dar uma banana para muitos
problemas que afligem o cidadão comum, mas nada além disso. Por exemplo, no
Brasil não se pode armazenar e vender combustível sem a autorização estatal,
mas fabricar uma certa quantidade e já colocar no tanque do seu carro são
outros quinhentos. Os riscos são seus, de mais ninguém, então pode… claro, até
ter que enfrentar a vistoria e passar pelos testes de emissões, então reze para
seu combustível ser suficientemente bom.
Agora vamos aos hábitos
danosos de cada um. Desde que não exceda o seu quintal, em princípio não tem problema,
mas geralmente tem. Som não respeita cerca, então seu som alto vai ser danoso a
quem precisa estudar, se concentrar no trabalho ou descansar de um dia duro
para acordar cedo e enfrentar novamente o mundo real. A fumaça do churrasco
também não sabe ler aquela placa de “propriedade privada, não ultrapasse”, ela
vai entrar no quintal do vizinho e incomodar, então é bom escolher bem o carvão
de boa qualidade, a carne sem excesso de gordura amarela e o tempero não tão
agressivo; aliás, se puder não usar carvão, melhor. Fumaça não é só
desagradável, pode complicar muito um problema respiratório crônico, inclusive
invadindo a sua própria casa. E por falar em fumaça, foi-se a época em que ser
fumante era considerado chique e másculo, essas regras mudaram. Para quem vive
em apartamento é ainda mais dramático, especialmente se o fumante moda no andar
de baixo! Mesmo assim o uso de nicotina é o mais ameno deles. Por que? Digam em
que estado de espírito fica um fumante inveterado após consumir duas carteiras de
cigarro, além é claro de estar mais perto da morte do que seria necessário? Ele
não vai dicar doidão com isso, não vai perder noção de perigo, não vai perder
as inibições que evitam tornar-se mais agressivo do que um ser humano
normalmente é e, principalmente, não vai ficar paranoico. Preciso desenhar ou
vocês entenderam que a realidade ruim do tabagismo legal não é coisa nenhuma
igual à do fumo de entorpecentes? Também não preciso então explicar por que
ainda é criminalizado.
A malfadada lei seca,
que revigorou uma máfia que estava em dificuldades, foi um exemplo de como NÃO
LIDAR, com um problema. Acreditar que uma caneta vertendo tinta em uma folha de
papel resolveria os problemas de alcoolismo de TODA UMA POPULAÇÃO, varia entre
a ingenuidade e o puro idiotismo. A educação e a presença rente da família
sempre foram mais efetivas, e isso inclui deixar regras claras que devem ser
ensinadas desde muito cedo, na medida em que a criança for capaz de compreender
em casa fase de seu crescimento. Mas para isso os pais do petiz precisam ter o
cabedal e a experiência necessários, que infelizmente nem sempre são dados a
contento… na verdade isso falha muito mesmo… Os casos que conheço me dão conta
de que as famílias sempre esperam que o indivíduo vá se corrigir com o tempo e
preferem não dispender recursos em discussões desagradáveis, mas que lamento,
muitas vezes são necessárias. MUITO necessárias. Ensinar regras e como se valer
delas é uma conversa que está escasseando rapidamente, o grande problema disso
é que o tipo de raciocínio necessário para se valer de regras é o mesmo que
possibilita se dar bem no mundo profissional, e eu nem estou falando de burlar
legalmente a leis, me refiro a usar a face protetiva das regras em seu favor;
por exemplo, saber que seu chefe também tem chefes é uma arma poderosa! Mesmo o
dono único de uma grande corporação precisa lidar em última instância com seus
clientes, que são seus chefes. Não existe indivíduo sem comando no mundo, até
mesmo Vladmir Putin responde ao seu eleitorado e sua base militar, ainda que só
seu modo, e faz o possível do que eles esperam de si.
O resumo desta parte é
que o indivíduo precisa dar contrapartida á sociedade que o sustenta, mesmo os
pedintes o fazem à sua maneira, servindo de testemunhas para qualquer eventualidade.
As donas de casa, que muita gente ainda hoje diz que não trabalham, fazem na
verdade o trabalho de base de toda a sociedade, algo que por si já deveria
render alguma remuneração porque a contribuição para aposentadoria já é
possível. Quem cuida da casa cuida da descendência e manutenção demográfica.
Sim, concordo plenamente que deve caber a ela a decisão de engravidar ou não,
mas quem o faz tem a chance de formar cidadãos nos quais poderá incutir seus
valores e suas esperanças, tornando sua prole uma multiplicadora de tudo em que
acredita. À amiúde os adultos,
conscientes disso ou não, levam em suas escolhas e atitudes pelo menos um pouco
do que lhes fora ensinado no lar; vocês não imaginam o quão poderosa pode se
tornar uma mãe. Em última instância até mesmo um adolescente que sai
cantarolando todos os dias, que cumprimenta as pessoas do bairro, especialmente
as mais velhas, está prestando um serviço à sociedade. Qualquer coisa boa que
tu faças é um trabalho e uma contribuição positiva para a civilização, muitas
vezes isso por si basta para a sociedade te considerar mais útil do que
perigoso e assegurar sua subsistência. Sim, meus amigos, é simples e frio
assim. Pessoas têm sentimentos, amizades e consideração para com o próximo, não
as coletividades.
Grupos agem de forma
primitiva e precisam agir assim, por isso se diz que nações têm aliados e não
amigos. Entre os habitantes dessas nações pode e deve haver amizade, nunca
entre coletividades, sob o risco de uma concessão levada pelos sentimentos
prejudique um país inteiro. É por isso, por exemplo, que uma empresa precisa
demitir um empregado que não valha o que recebe, se não o fizer os outros terão
que trabalhar para suprir o que ele não executou; manter um mau componente
sempre aumenta a carga de toda a estrutura. Assim como é com os países, que
precisam manter o mais alto grau possível de paz e cooperação entre si, mas
nunca às custas de dilapidar as riquezas internas, transformadas pelo trabalho
árduo de seus habitantes. Sem esses habitantes, o Estado não existe. Estados
gerenciam nações, só isso, não produzem absolutamente nada, e nem é esse o seu
papel! Se o estado se preocupar em ter lucro, por exemplo, terá um monopólio
que é a pior coisa que pode acontecer com um mercado! Ou seja, mesmo as
sociedades como coletividades precisam seguir regras e não só impô-las. Não
invadir águas territoriais e zonas econômicas exclusivas alheias é uma dessas
normas que asseguram um mínimo de boa convivência. Sim, até mesmo e
principalmente os Estados precisam ser um pouco caretas. Ousar demais pode
significar invadir o espaço do outro, se entre vizinhos isso dá briga, entre
nações a conseqüências são muito piores e uma guerra pode ser só o prelúdio
delas.
Ainda sobre os Estados,
devemos lembrar que eles não são entidades sobrenaturais, nem mesmo são
indivíduos super poderosos. Estados são gerúndios. São a ação coletiva de
indivíduos que gerem os assuntos de todo o grupo que lhes confiou a gestão dos
assuntos nacionais, para que os membros desse grupo possam se ocupar em
resolver os problemas mais localizados, para os quais o governo não tem
capilaridade suficiente. Não é só o indivíduo que precisa ser útil à sociedade,
esta precisa ser útil aos seus componentes se quiser mantê-los sob sua guarda e
influência. Tiranias costumam ter ondas de deserções justamente porque são
Estados que vivem só para si, sem se importar em ser úteis para aqueles que as
sustentam. As pessoas têm aquela janela de que falei para serem mais úteis do
que perigosas aos seus conterrâneos. Os muito jovens e os muito velhos
geralmente não estão mais aptos ao trabalho formal, os primeiros ainda não
estão prontos e os segundos já deram o que podiam, por isso são tolerados e
mantidos. A rigor, quem não trabalha, remuneradamente ou não, é um parasita.
Quem não dá algo interessante em troca daquilo que recebe é um parasita, e é
por isso que muita gente se incomoda tanto quando está desempregada.
Caríssimos, tenham em
mente uma coisa que pode chocar muitos de vocês: TODOS são um pouco caretas em ao
menos algum ponto e em ao menos alguma circunstância. Quem se dispuser a fazer
uma análise crítica de si mesmo verá que é mais careta do que imagina, que
defende mais regras e costumes do que admite. Isso não é ruim, é parte do
instinto de sobrevivência. Lembrem-se, se um infrator é poupado de arcar com
seus actos, um inocente vai arcar com um prejuízo que talvez não tenha
condições para tanto. Se um petiz inconseqüente faz besteiras e não for cobrado
por isso, não só vai deixar o fardo para quem não o produziu como vai encorajar
outros a fazerem o mesmo, com o tempo essa tolerância indevida alimenta um
comportamento danoso que contamina uma geração inteira e… vocês conhecem o
final dessa novela, o estamos vivendo hoje. Ainda que tudo seja reparado e o máximo
possível de falhas sanadas, porque uma vez feito o estrago não é totalmente
irreversível, restarão duas facções básicas na sociedade, a que não quer mais
passar por aquilo e a que quer viver o que levou a tudo aquilo. Em ambos os
casos o viés de radicalismo e conspiracionismo está feito, e as regras podem
ter que ser ampliadas e endurecidas… Vide a Califórnia de hoje, onde o furto
foi praticamente legalizado por políticos permissivos, que querem resolver um
problema que eles mesmos causaram onerando quem não o produziu e tentava
resolvê-lo de forma consistente… várias lojas pequenas já fecharam e a migração
para Estados tidos como conservadores continua. Em vez de ajudar as pessoas a
se erguerem, decretaram que suas vidas devem ser mais fáceis, o que se deu às
custas dos que trabalham duro. Permitir a quebra de uma regra vital para
qualquer sociedade estável abriu um precedente que vai custar caro por muitos
anos.
O sonho de a regra ser
quebrar regras tornou-se um pesadelo que seus causadores se recusam a admitir,
retroalimentando o problema que afirmam combater. O meio oeste, até então
rejeitado por ser, aham… careta… tornou-se o destino dos que descobriram que
essa história de liberdade plena não existe na natureza, e se for mantida é por
meios artificiais, que têm um custo alto, que aquelas pessoas não querem mais
pagar. Sem regras não há liberdade, porque sem elas cada um se vê no direito de
invadir o espaço alheio que então não seria de ninguém, e o espaço em questão
pode ser o seu corpo. Lembram daqueles filmes todos que mostravam cenários
apocalípticos em Estados tradicionalistas? Pois seus cenários estão se
desenrolando justo nos “progressistas”. Claro, às vezes é bom arriscar, dizer
um sim, comer um chocolate entre as refeições, mas tornar isso é um hábito
arraigado é letal para um ser humano, que dirá para uma sociedade! O Estado
Dourado tornou-se o Estrago Embaçado.
Não neguem suas
origens, suas tradições, seu legado e suas próprias falhas. É isso que mantém
uma sociedade minimamente estável, que faz as pessoas se reconhecerem em seu
gentílico e cooperarem com os assuntos coletivos de seu país. Dá para ter
liberdade sim, em meio a regras claras e bem pensadas, elas te mostram até onde
é seguro ir, conhecê-las a fundo permite tirar delas um proveito que nenhuma
utopia permite, pois esta não te dá referências de o quanto estás a exceder
seus próprios limites e o quanto está invadindo a vida do outro. Todo mundo é
careta, um pouco que seja. Assumir e trabalhar isso de modo maduro vai lhes
trazer uma paz e uma perspectiva de futuro que absolutamente nenhum diploma e
nenhum psicodélico seria capaz, mesmo em doses insuportáveis para um ser
humano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário