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20/04/2021

Pés-de-boi em extinção

 

As rodas de liga leve foram pagas à parte.

A respeito dos últimos e salgados aumentos nos preços dos carros, não é culpa só das montadoras. Elas querem vender, é disso que vivem, mas sabem que não podem cobrar o preço de um Rolls Royce por um Mobi. Assim como nós queremos receber o máximo possível pelo mínimo possível de horas de trabalho, elas também querem valorizar o que oferecem, mas sabem que isso tem um limite. Sim, dá para fazer um carro robusto e confiável para vender por menos de quarenta mil reais na concessionária, zerinho e reluzindo a tinta da fábrica. Tecnicamente é perfeitamente possível até por menos, mas esse preço baixo teria um custo alto que vocês não poderiam pagar mesmo que quisessem; e eu sei que não querem. Por isso lamento informar que os carros realmente baratos estão em processo de extinção, não compensa mais investir neles. Para entender isso, precisamos ver o que encarece tanto um automóvel hoje, mas me aterei àquilo que simplesmente não pode ser retirado do carro, sob pena de nunca ir às ruas. Temos primeiro os itens de segurança activa e passiva, que são os grandes responsáveis pela proximidade de preços entre um pé de boi e um carro de acabamento médio. Não se trata só de instalar, é preciso testar DESTRUINDO protótipos no decorrer do desenvolvimento do modelo.

 

A célula de sobrevivência é projectada para suportar colisões em velocidades consideráveis sem permitir que os ocupantes sejam atingidos, o que acarreta não só aumento de peso, mas também exige que outros componentes sejam superdimensionados, o que constitui uma imensa dor de cabeça para a engenharia, que não pode permitir que um Ônix Joy fique tão pesado quanto uma Suburban, isso acaba excluindo o uso de aços mais baratos e fáceis de serem trabalhados, que precisariam ser empregados em grandes quantidades, agravando ainda a falta de espaço interno. É preciso utilizar aços mais nobres e estamparias mais sofisticadas, mas tudo isso equacionado para que os custos não sejam proibitivos para o público do modelo em questão. Então uma vez a estrutura de proteção escolhida, já conformados em pagar alguns milhares de bolsos a mais por isso, o carro pode ir para as ruas? Não!

 

Por mais forte que seja a estrutura, é a desaceleração brusca que mais causa ferimentos em uma colisão. Não importa a velocidade, se a parada for suficientemente suave, os ocupantes sobrevivem. É necessário haver zonas de deformação progressiva, para que os danos sofridos pelo veículo dissipem o máximo possível da energia da colisão; é por isso que se diz que o para-choque de uma moto é o motociclista. Os testes que resultam na destruição dos protótipos visam encontrar o ponto de equilíbrio entre o tamanho do capô e a máxima absorção possível, sem que o interior do carro seja gravemente afetado, isso é particularmente complicado em carros compactos, e também por isso eles decidiram não investir mais na Kombi porque, né… a zona de deformação ali é zero… O ideal seria mesclar o uso de aço com boas ligas de alumínio, que também é abundante e muito fácil de fundir, mas estampar o alumínio é quase um pesadelo, exigindo matrizes especiais e mão de obra mais qualificada, por isso peças feitas desse metal são tão mais caras.

 

Ainda temos equipamentos de segurança activa que são altamente problemáticos não só para comprar, mas também para instalar, especialmente porque a maioria é de tecnologia relativamente recente, por isso mesmo ainda cara; ABS, airbag, ARS, controle de tração e mais uma penca de equipamentos que em breve serão obrigatórios em todos os automóveis novos de produção em massa no Brasil. O problema é que eles precisam conversar entre si, e compatibilizar tantos sistemas diferentes rouba meses de estudos e testes exaustivos… e caros. Tudo seria mais simples se não precisassem de softwares, mas precisam e nenhum deles é para amadores. Ainda há o facto de que vai demorar para serem equipamentos leves e compactos, eles tomam espaço, tiram capacidade de carga e exigem mais do alternador, o que se reflete no consumo, não só no conforto, fora a fragilidade mecânica e sensibilidade climática de tudo isso, simplesmente não podem ser molhados, o que exige tirar espaço no cofre do motor e do porta-malas para não tirar dos ocupantes, só que isso pode inviabilizar, vide os Land Rovers, uma manutenção sem equipamentos complexos e ainda transformar o porta-malas em um porta-luvas, e tome mais ansiolítico para a engenharia.

 

Não bastasse tudo isso, para essa tralha toda ser eficiente, é necessário um nível mínimo de qualidade na construção e montagem, com isso ela fica menos onerosa para um grande carro de luxo do que para um compacto popular, e por isso este nicho está ameaçado de extinção, pois está praticamente no limite para absorver os custos de tudo isso sem se tornar inviável. O facto de não haver uma empresa que fabrique todos esses equipamentos em uma só linha de montagem, bem como não haver um módulo único que faça o serviço de todos eles, o que seria tão arriscado quanto caro para um investidor, ajuda a atrapalhar. Não se pode esperar uma redução de custos sem perda de segurança e qualidade antes que uma dramática evolução de software e hardware aconteça, e isso ainda demora um tempo para ser dramática o suficiente, até lá o Ônix vai sofrer para manter seu preço suficientemente abaixo do Cruze.

 

Todos os fabricantes sonham em poder utilizar os racionais, compactos e baratos motores dois tempos refrigerados a ar em seus carros, isso por si já reduziria muito os custos de produção e manutenção, mas nem em sonhos um carro com um motor desses seria aprovado na mais porca das legislações ambientais, não com o combustível padrão disponível. Não é só a adição de catalisadores e injeção electrônica, quem dera isso bastasse, é preciso que esses dois itens sejam também testados e maltratados até a destruição para que sua eficácia seja comprovada. Vale ressaltar que o catalisador, além de cerâmica sofisticada, se utiliza de metais raros, e caros, para cumprir com sua função. Também por isso, e pela fragilidade inerente, não pode ser instalado de qualquer jeito e nem em lugar inacessível, pois precisa manter a temperatura sob controle para funcionar sem ser danificado, o que demanda interferências no layout do monobloco. Lembram do Fusca Itamar? Precisaram deslocar o silencioso para dentro do para lama esquerdo, para o catalisador caber. Sorte que o conceito dos anos 1930 permite isso, e ambos ficaram em lugares bem protegidos sem subtração do escasso espaço interno do Fusca, em um carro moderno isso é bem mais complicado e por isso os antigos menos antigos do que o Fusca virtualmente não teriam conseguido voltar a ser fabricados nem como lotes promocionais.

 

Ainda no tocante às emissões, é muito difícil para mecânicas antigas e consagradas, que já tiveram seus custos de desenvolvimento pagos pelas vendas e por isso seriam extremamente baratos para serem utilizados em versões de entrada, se adequarem às normas de emissões; também por isso a kombi perdeu o motor a ar, mesmo contando com injeção, bem antes de sair de linha. A questão não é só queimar o combustível, mas queimar de modo que as reações no interior da câmara de combustão resultem em níveis aceitáveis de gases nocivos, algo para o qual os limites decrescem rapidamente, em breve os derivados do petróleo não conseguirão mais atender à maioria das legislações. Se há, por exemplo, uma variação significativa de temperatura no interior do motor, como acontece nos refrigerados a ar, o controle electrônico fica menos eficiente e o trabalho do catalisador é prejudicado. Da mesma forma a maior formação de pontos quentes dentro do motor dificulta o uso de gasolina comum, assim como o trabalho de monitoramento da injeção, o que levou as fábricas a reduzir deliberadamente as potências desses motores em seus últimos anos de produção, para contornar o problema e manter o produto em linha o máximo possível. Seria como uma Montana utilizando o motor 151 quatro cilindros que foi do Opala, que tem força bruta e confiabilidade de sobra, mas não atenderia às leis ambientais. Sim, há meios para equacionar isso, mas para a maioria das pessoas, e presidentes de companhias são pessoas, simplesmente não compensa.

 

Mas o que mais dificulta a vida de quem sonha em produzir um modelo popular no Brasil, talvez seja justamente o consumidor brasileiro. Não dá a mínima para equipamentos de segurança e controle de emissões, mas ama ostentar! Para terem uma idéia com acento que é o certo, quando a GM decidiu lançar o Celta, teve o bom senso de consultar o público alvo. Seria uma das poucas vezes que o consumidor realmente ajudaria a projectar o carro que iria comprar meses depois. O pé de boi que a engenharia tinha em mente foi descartado. Imaginem o Celtinha velho de guerra com um painel pobre como o do Fusca, só velocímetro e marcador de combustível, com retrovisores e lanternas traseiras perfeitamente simétricos, de modo que servissem de qualquer lado. O acabamento interior exclusivamente de plástico rígido e porta-malas totalmente pelado. O banco traseiro teria penas dois cintos, pois seria para quatro pessoas, e não permitiria o rebatimento fácil que transforma um hatch subcompacto em um furgãozinho, para isso seria preciso tirar o banco do carro, e nada de console central de tipo nenhum. O sistema de ventilação seria mínimo, apenas para manter os ocupantes vivos, só haveria um paras sol de plástico rígido para o motorista. Ah, claro, para racionalizar a linha de montagem, haveria só a versão de duas portas. Teria sido significativamente mais barato, mas como sabemos, não foi isso que o consumidor decidiu, preferiu pagar mais. Se já tem manolo reclamando que as caixas de rodas dele são muito pequenas para as rodas que eles querem usar... Ainda há um agravante, um carro muito básico precisa de uma tiragem gigantesca para que os investimentos e a apertada margem de remuneração da fábrica sejam pagos, ou seja, o Celta teria morrido logo se não tivesse sido o sucesso que foi.

 

Se pensam que isso é um pé-de-boi de fazer inveja aos carros militares, ainda há meios de depenar e baratear mais. Por exemplo, tirando a máquina do vidro das portas, que então seriam de correr, como nos antigos caminhões Mercedes 608 e na Kombi corujinha, basta ver os ônibus urbanos para saberem o que é. Os bancos poderiam ser apenas conchas de plástico minimamente estofado, impossibilitando qualquer regulagem que não fosse de distância do volante, o que seria exclusivo do motorista. Já imaginaram ter que fazer muita força para frear? Ou então ter que pisar bem fundo num pedal de curso muito longo? Seriam as opções para compensar a falta do hidrovácuo, que é o aparelho que ajuda a frear sem que isso se pareça com uma aula de musculação. E por falar nisso, que tal ter que parar totalmente o carro para engatar a primeira marcha? A não ser que seja um motorista muito experiente e habilidoso, para compensar a falta dos caros anéis sincronizadores, que nos permitem passar as marchas às vezes mal pisando na embrenhagem. Tapetes? Que tapetes? E o porta-luvas pode muito bem ser apenas um buraco maior, sem tampa, assim como a luz de cortesia poderia funcionar apenas com intervenção humana, sem essa de ligar quando se abre a porta e desligar quando fecha, instalação eléctrica é coisa cara! Não podemos nos esquecer das rodas com apenas três parafusos e de usar os mínimos pneus 145R80, que foram do Fiat 147. Parece estranho? Há países em que um cidadão de baixa renda não se importa em ter que esticar o braço para regular o retrovisor do outro lado, neles os carros mais espartanos do mundo gozam de relativo prestígio.

 

Ainda há uma solução que faria vocês jogarem pedras em quem sugerisse, que é utilizar eixo rígido na dianteira. Explico, trata-se de trocar a suspensão relativamente complexa da dianteira, que torna o carro mais fácil e confortável de ser controlado em pisos ruins, que são a regra em nosso país, por uma barata e robusta barra que ligaria rigidamente as duas rodas, assim o que acontecesse com uma se refletiria na do outro lado, e no volante, tornando qualquer irregularidade no asfalto um pesadelo cacofônico dentro do carro, fazendo tudo tremer a cada trepidação. Claro, isso seria coroado com um ou dois feixes de molas transversais em cada eixo, substituindo as confortáveis e caras molas helicoidais; sim, perto do que eu estou descrevendo, o Celta é um Opala. Nos anos setenta eu passei por isso, ainda havia carros em que um pneu fofocava sobre o seu lado do piso para o outro e para o volante. Se serve de consolo, essa receita tornaria o carro mais rápido, ágil e econômico, além de baratear muito a manutenção...  Mas é claro que vocês preferem pagar vinte mil reais a mais para não passar por isso! Mesmo que percorressem rotineiramente estradas de boa qualidade entre condomínios de luxo, vocês não tolerariam ser vistos em um carro assim! Mesmo que uma boa calibragem atenuasse muito os problemas de conforto, e isso uma montadora consegue fazer sem dificuldades, vocês não tolerariam descer um degrau social ainda que fosse bom para vocês! Então paguem!

 

Sem todos esses supérfluos que vocês amam, e se a lei permitisse, os carros populares poderiam ser assim:


28/02/2020

Agora é com os pequenos!





           Hoje o Impala sai de linha. A imbecilização da indústria ganhou mais um ponto dentro do mundo automotivo, abrindo mais espaço para a idiotice crônica dos SUVs. Por que eu digo isso? Porque eu já comentei aqui a respeito sobre o quanto esses trambolhos são tecnicamente inferiores e operacionalmente mais perigosos do que um carro de verdade. Deixo minha admiração de exceção à gigantesca Suburban, que nasceu numa época em que camionete precisava antes de tudo ser útil, e assim se mantém até os dias correntes, mantendo seu formato familiar e sua configuração casca grossa de chassi e carroceria. Via de regra, o que se faz com um SUV que não se pode fazer com um hatch ou uma perua, se devidamente preparado? Absolutamente nada. Se não for um fora de estrada autêntico, não há nada que um carro de gente não possa fazer igual, com mais espaço e menos peso para rebocar em caso de quebra.

            Eis o que perdemos:



           Mas infelizmente não é só a indústria automotiva que sofre com o emburrecimento de um mundo mais intelectualizado e menos raciocinante. Estou sofrendo para conseguir baterias extras para minha câmera, simplesmente porque ao contrário dos carros, ela não aceita uma com mesma tensão e corrente, mas de marca diferente; na verdade um carro aceita qualquer bateria com 12 volts, não importa se é a pequena original ou a de um caminhão. E aqui temos o motivo de a indústria automotiva ainda ser mais confiável do que a electrônica, bem como é esta a principal responsável pela imbecilização já dita. Se a tua bateria perder carga e não aceitar mais recarga, o que pode acontecer se ela for totalmente descarregada, uma fraqueza das tradicionais baterias de chumbo, podes ir a uma loja de baterias e comprar outra de qualquer marca e qualquer amperagem, desde que seja de 12 volts. Se for uma bateria menor, vai sofrer, mas vai trabalhar, se for maior vai ficar um pouco pesada, mas vai funcionar e ainda te dar mais segurança. E AI da indústria automobilística se essa liberdade for tirada do consumidor!



            Agora vamos a uma geringonça electrônica qualquer… se a bateria não for aquela própria, da mesma marca, mesma capacidade e mesma geração, o aparelho simplesmente avisa que não vai aceitar. Mesmo que forneça carga, o trambolho maldito, projectado por um cretino sob ordens de um filho de foca atolada, vai se recusar a obedecer seu dono, basta que seja de uma geração anterior ou posterior ao aparelho em questão… e nós achamos isso normal. Mas esses picaretas corporativos não fazem isso sem o amplo apoio passivo, mas apaixonado de uma maioria absoluta do público. E NÃO! Não é por causa do capitalismo! Nos anos 1950 e 1960 as pessoas compravam como loucas as novidades ano a ano, de productos que eram feitos para durar e duravam a vida inteira, além de serem fáceis de consertar! O índice de sobrevivência do que se fabricava na época, quando as condições de uso eram muito mais severas, é imenso, se comparado ao quase zero dos lixos que pifam assim que vence a garantia. É muito fácil encontrar carros do meio de século passado circulando em boas condições. Ainda hoje é possível encontrar peças para eles, é possível até encontrar válvulas para rádios e televisores antigos. A culpa não é “do sistema” É SUA! O saudosismo dos vintagistas não é gratuito e nem fruto de mentalidade rançosa, ele tem embasamento na vida real.



            Vamos deixar claro, antes de alguém vir com discursos, o que é a tal obsolescência programada. Quando um carro fica pronto para ser lançado e começa a ser vendido, seu substituto já começa a ser desenvolvido. Por que? Porque um modelo não pode ficar em desenvolvimento até se tornar perfeito, ou consumirá recursos sem jamais ser vendido. Quando o desenvolvimento dos protótipos alcança um nível satisfatório para o público e a época que se pretende atender, então é lançado, mas seu aprimoramento continua no substituto, ou na geração seguinte, que pode levar de dois a cinco anos para chegar; a versão de então é passível de ser aprimorada e retocada ao longo de sua vida industrial, e o próprio consumidor costuma ser o motivador dessas pequenas mudanças. Existe um ciclo para que um substituto seja lançado, não para que o modelo já lançado caia aos pedaços no meio da rua, e aproveitar componentes suficientemente bons do modelo anterior é prática corrente, para cortar custos. Baixa qualidade é outra conversa e foi banalizada pelos productos orientais baratinhos, de onde aliás vem essa prática de nada funcionar se a bateria for recarregada em uma rede de energia que penteie o cabelo para o outro lado. Entendidos? Continuemos.



            Depois que grupos japoneses de “turistas” invadiram as fábricas do Vale do Silício, ainda nos anos 1970 e levaram photos estratégicas para engenheiros de seu país, numa época em que o Iene não valia praticamente nada, começou a invasão de aparelhos baratinhos que, se não quebravam fácil, também podiam ser jogados fora se quebrassem. Do Japão migrou para a Coréia e de lá para a China, que foi quando tudo perdeu o controle. A política do desenvolvimento a absolutamente qualquer custo deu um século de desenvolvimento tecnológico à ditadura mais perigosa do mundo. Com a inundação de artigos com relação custo/benefício quase surreal, o padrão de exigência começou a cair muito e piorou quando discursos inflamados passaram a ser quase que um dialeto de uma geração que destruiu tudo o que as anteriores penaram para construir, rejeitando e rotulando de mau e pecaminoso tudo, material e imaterial, o que fosse anterior aos seus malfadados nascimentos. Não estudar E não trabalhar passou a ser aceitável, até desejável para alguns grupos que se rotulam como “desapegados”. Ao mesmo tempo em que são agressivos quando julgam que alguém ofendeu algum grupo com que simpatiza, fazem questão de ofender os com que antipatizam; não ouvem, mas exigem ser ouvidos. Em maior ou menor escala isso acabaria por contaminar, cedo ou tarde, o restante da massa.



            Essa praga migrou rapidamente para o consumo de bens e serviços. Em “serviços” incluem-se a grade de televisão e a indústria musical. Revistas que primavam por serem chiques e inteligentes se renderam em poucos anos também, passando a repetir citações alheias em vez de formar e dar voz a todo mundo; lembro-me que uma delas, a melhor então diga-se de passagem, fez um artigo extenso e bem explicativo sobre mulheres que eram apaixonadas pela vida de dona de casa; foi um escândalo em uma época em que dar para qualquer um em qualquer lugar era alardeado como direito e dever. O resto o desinteresse pela leitura fala por si. O lixo electrônico começou a preocupar as publicações especializadas precisamente na mesma época, mas o “novo” consumidor não deu a mínima, apesar de encher os recém-criados fóruns de internet com discursos ecológicos e anticonsumistas. Bem, eu estou careca de falar que quando um lado cresce, o outro também cresce, mesmo que à sombra dos que estão sob holofotes. Os que declaradamente não estão nem aí e querem que o mundo exploda depois da darem seu último suspiro, claro que com discursos analgésicos para evitar a rejeição dos de quem dependem seus prazeres, também emergiram da mesmíssima lama. São iguais, só estão em lados opostos.



            Foi o apogeu. A propaganda terrorista de que “a China vai comprar tudo e ser sua dona” acompanhou o temor dos mesmos especuladores que mandavam dinheiro e tecnologia para lá. No meio dessa gororoba ideoapocaliptica o cidadão comum foi bombardeado com discursos tão inflamados quanto distantes de sua necessidade e realidade. Não foi por falta de aviso! As revistas, quando eram boas, se cansaram de avisar, mas foram vencidas pelo cansaço, pelos patrocinadores e pela nova geração de colaboradores repletos desses mesmos discursos pretensamente libertários, mas que só confundem mais e mais até hoje a cabeça pragmática do cidadão comum. Este passou a dar de ombros para tudo o que o tirasse de sua zona de conforto a passou a consumir mais passivamente do que seus antecessores; ainda que muitos digam consumir conscientemente, só fazem seguir as instruções de algum grupo ou de uma celebridade pseudointelectual, o que dá na mesma, apenas com um rótulo mais apresentável. Bem, daí a aceitar ordens das marcas mais badaladas foi um passo. Eles até podem escolher como o que vão comprar será apresentado, por customização, mas obedecem pianinho aos ditames, mesmo os mais ricos que se rendem à idiotice cavalar do apelo pela emoção e tradição de marcas arrogantes. Diga-se de passagem, customização era algo fácil e farto do meio de século até meados dos anos 1970, e não só para productos caros, dificilmente se encontrava um Passat exactamente igual ao seu, por exemplo; isso só no Brasil, nos Estados Unidos a festa era ainda mais colorida e detalhada.



            Agora vem o ingrediente final, o cianureto para glaciar o bolo! Políticos semi ou literalmente analphabetos, mas hábeis em argumentação prolixa, metendo o bedelho em assuntos que deveriam ser restritos a técnicos altamente capacitados. Eles não disseram aos engenheiros “encontrem uma solução para isso”, disseram “façam do jeito que eu mandar”, e a diversidade de soluções e estilos começou a decair. Do outro lado, forçando a vítima a comer o bolo envenenado, activistas tão rasos quanto, mas cheios de citações e boas intenções… e o diabo precisou alugar outros planetas para acomodar tanta gente boa. Não preciso dizer o quando o cidadão comum ficou mais informado e proporcionalmente mais alienado, a profusão de reality shows cada vez mais estúpidos é a medida. Mas quem foi mesmo que colocou aqueles políticos lá? E quem é mesmo que paga a mesada de toda essa juventude agressivamente bem-intencionada? Quem dá audiência para essas porcarias e assim informa aos fabricantes o nível cada vez mais baixo do consumidor? YEEEEEEEEEEEEESSSSSSSSSSSSS!!!!!!! NÓS! Não é culpa do sistema, da mídia, dos iluminati, dos reptilianos, do Zukerberg, dos globalistas, dos aliens, nem da Odete Hoitmann! A culpa é nossa!



            A morte lenta e humilhante dos carros de gente é só um aspecto, o mais visível e doloroso diga-se de passagem, da morte da própria indústria, que agora é apenas uma replicadora de tendências que nem mesmo quem pensa ditá-las sabe realmente de onde vêm. Quem não participa da troca de ofensas de ódio politizado, engajado e bem-intencionado, geralmente prefere se alienar mesmo, pelo bem da sanidade mental. Só que nisso o mundo fica á deriva. E não, novamente, não há nenhum grupo comandando o mundo, embora haja muitos tentando fazer isso, ou não estaríamos derivando. Estaríamos muito maus lençóis, mas não à deriva. A praga dos SUVs é só um sintoma disso, assim como a ausência de fabricantes de componentes de reposição para electrônicos modernos, a pobreza estilística insana e quase compulsória dos edifícios espelhados, as grades televisivas que copiam tudo em vez de apenas adoptar um estilo e trabalhar isso para seu público, programas que vivem de parodiar ou comentar outros programas, “músicas” hoje explícitas de apologia ao crime e à sexualidade infantil, criminosos sendo glamourizados pela mídia e lançando “biografias” para seus fãs… enfim, eu me cansaria e infartaria sem chegar ao fim da lista. Mas onde fica o consumidor nesse balaio de gato noiado? Fica escondido e com medo. Não se destacar, e o exibicionismo em redes sociais é um modo de se misturar e não de se distinguir, é uma forma de proteção. Deveria procurar um profissional de saúde mental, sim, mas esse também está tentando se defender e raramente tem ciência de toda a teia de acontecimentos daqueles sintomas; até porque não é obrigação dele, seria de jornalistas e historiadores que, bem, vocês já sabem.



            A alternativa é entrar no círculo vicioso que alimenta a moda de débil mental dos SUVs, que matou um dos melhores carros do mundo, após matar o irmão maior Caprice e suas peruas, todos, segundo proprietários, tão fáceis de manter que o consumo de combustível nem pesa. Agora temos trambolhos volumosos, com pouco espaço interno, beberrões, comparativamente instáveis, de difícil acesso para pessoas com problemas motores, estilisticamente pobres, fácies de estragar, difíceis de consertar, mas que dão sensação psicológica de segurança a seus condutores. Dá para ver tudo ao redor, inconscientemente as ameaças não o pegarão desprevenido. Está tudo sob controle. E para compensar a falta de interesse crescente por carros, resultante disso, a solução é o quê? Dar estilo? Ampliar as opções de customização de fábrica? NÃO! É encher o apinel de porcarias cibernéticas para fazer o cidadão se sentir moderno, antenado, um cidadão do século XXI, e abrir as portas para hackers matarem pessoas utilizando O SEU CARRO seguro e altinho. Então vocês poderiam se perguntar, e o farão se tiverem senso, se dá para colocar toda essa tralha em um carro antigo. Sim, dá. Fazendo um circuito totalmente à parte, dá sim. Assim como dá para reforçar a carroceria de modo que se torne segura em colisões. Também dá para fazer um televisor, rádio ou vitrola antigo se comunicar com a internet das coisas… e gravar analogicamente o que seria impossível com os scripts digitais.



            Vocês podem procurar referências sobre comunidades vintage na internet, verão até mesmo pessoas que fazem questão de viver como se vivia em épocas passadas, alguns até como na era vitoriana. Não é atraso, é escolha. Eu mesmo, quando as condições me permitirem, chutarei todas as redes sociais para longe, não vou querer saber de televisão na minha casa nem de graça! Usarei a internet e o e-mail para aquilo que foram criados para fazer, e depois me debruçarei na minha vida quarentista!



            Serei honesto, a GMC tentou com bravura salvar seus sedãs. Foi uma luta árdua que chegou às raias do romantismo. Mas por tudo o que eu já escrevi, a demanda já era insuficiente para justificar a produção, e ter prejuízo em uma época tão dura é inaceitável. Resta então aos pequenos fabricantes, aos quais a baixa demanda inicial dos vintagistas fez florescer uma indústria vigorosa, atender à demanda reprimida de um grupo ainda sensato e saudoso dos carrões. Eles (nós) estão dispostos a pagar o preço que, francamente, a maioria já paga por um SUV feio e sem personalidade. Dar de ombros à gritaria de grupos bem-intencionados é algo impensável para grandes corporações, mas perfeitamente aceitável para pequenos fabricantes, que podem se servir de peças já existentes para construir coisas totalmente novas, ainda que com aparências de velhas. Os grandes estão de mãos atadas em um terreno onde os pequenos se movem com desenvoltura, e a quem os grandes deveriam ter recorrido para assumir productos de baixa demanda, como o Impala, a Pontiac, Oldsmobile, Mercury, Plymouth, enfim... Isso manteria os ícones vivos e os proprietários das marcas bem conceituados. Mas vai dizer isso a um especulador paranóico! Vai dizer isso a um gritador bem-intencionado e seus manipuladores! Vai dizer isso a um político cheio de vazios mentais! Vai dizer isso ao cidadão comum amedrontado!



            Meus amigos, a salvação dos gigantes está nos nanicos, cuja estrutura permite uma flexibilidade muito grande de produção. Assim como a moda retrô se tornou uma cultura que hoje se mantém sozinha, com suas estrelas e legiões de fãs próprios e custos paulatinamente menores, é nos pequenos que nossa indústria de bens duráveis terá sua salvação e, também aos poucos, a volta da viabilidade da produção em larga escala.