15/02/2021

Mais uma utopia estúpida

"Cyberman" from Dr. Who


 De tanto ler e ouvir discursos prolixos de gente intolerante que luta contra a intolerância, resumi em um texto relativamente curto o conteúdo de suas narrativas. As repetições enfadonhas são propositais, mas a quem se deixa envolver pela conversa, tudo parece ser de uma beleza e clareza raras.


            O ser humano é um animal político, por isso deve-se levar a política em conta em todos os âmbitos e nuances de nossas decisões, a fim de não ferir a individualidade pessoal de cada pessoa em si. Assim sendo, posto que todos concordam, devemos aderir a um modo de vida mais racional e sustentável, pondo de lado o velho normal que priorizada o indivíduo em detrimento do coletivo junto à sociedade estratificada e imersa em devaneios individualistas, a fim de realizar as diretrizes para implementação e adaptação ao novo normal. É sabido que a velha mentalidade lutará para permanecer e não seria de outra forma, por isso a nossa luta urge para a vitória a nível de sociedade coletivizada, enquanto não privada em termos de pessoa e propriedade. Trata-se não de proibir a posse, mas de ressignificá-la para uma ampla discussão livre e democrática, que resultará na conclusão da necessidade de maior acesso dos desassistidos aos bens de consumo e serviços. Tudo é muito fácil de ser resolvido, bastando eliminar o egoísmo materialista consumista que vigora e oprime as populações sujeitadas ao sentimentalismo escravagista, pois é aos sentimentos irracionais que apelam os que querem se perpetuar no controle dos destinos do indivíduo e da coletividade. O ser humano vive em busca de prazer, é só a isso que se resume todos os seus esforços e é só isso que interessa ao corpo, portanto é a isso que devemos convergir esforços, sem sentimentalismos estigmatizadores que nos impedem de viver com pleno domínio de nossos corpos e nossos destinos.

 

            Todos de acordo, vamos aos ditames democraticamente discutidos e amplamente aceitos. É necessário que tenhamos um padrão de consumo e um modo de vida mais racionais e sustentáveis, abrindo mão dos conceitos arcaicos e segregatórios de propriedade absoluta e poder absoluto sobre a própria vida enquanto indivíduo participante e afirmativo na sociedade. Começando assim pelos nossos destrutivos hábitos alimentares, que a ciência já comprovou que são insustentáveis, conforme já disseram os nossos cientistas adesistas de nossas idéias democráticas e acessíveis, amplamente discutidas democraticamente em nossos fóruns libertários. O aquecimento global requer medidas afirmativas e urgentes, então deveremos parar imediatamente de produzir e ingerir cadáveres, cuja produção e processamento demandam energias não renováveis, pelo que em pouco tempo nossa atmosfera retomaria os níveis aceitáveis de absorção de carbono, preservando assim as florestas tropicais destruídas pelos pastos, mantendo a produção de oxigênio, detendo e estancando o efeito estufa causado pela atividade consumista.

 

            O egoísmo de quem está contaminado pela mentalidade e lógica de mercado tenderá a resistir, mas será inútil, pois é o novo normal que vem à tona, é a nova verdade, a nova realidade, a nova ordem do novo mundo de uma nova humanidade mais racional, mais prática, mais sustentável e tolerante às mudanças de paradigmas. Seremos racionais, assim os sentimentalismos que perpetuaram o patriarcado opressor não terão âncoras para se fixarem na nova sociedade, se dissolvendo aos poucos com a figura do “homo proprietarius”. Seremos livres, decidiremos o que fazer com nossos corpos uma vez que os ditames de mercado não oprimirão mais os vulneráveis. A racionalidade prevalecerá e a ciência ditará nossos destinos, não havendo mais lugar para a subjetivização arcaica de interpretações acadêmicas comprovadas, porque o amor, a felicidade e o prazer não passam de reações electroquímicas em nossos cérebros, por isso a solução de nossos anseios é muito mais fácil do que nos permite acessar a mentalidade neandertal que não resistirá à eclosão revolucionária do novo normal.

 

            Quem hoje abre mão das comodidades da inteligência artificial, que facilitam nossas vidas e evitam que cometamos erros irreparáveis, tornando tudo mais eficiente e sustentável? Isso se deve ao reprimido e inato desejo humano de se tornar mais racional, deixar as decisões importantes para quem entende do que se trata cada assunto, sem a interferência da mentalidade individualista que arruína as melhores intenções com sentimentalismos arcaicos e castradores. Se você está usando um computador, está usando o resultado de décadas de mentalidade racional aplicada para o propósito de revolucionar a vida na Terra, proporcionando uma existência mais agradável a todos, democratizando a ideologia racional do novo normal para um mundo onde o egoísmo e a devastação ambiental não têm mais lugar. Aderir à causa é aderir à preservação da própria espécie humana, por isso é na racionalidade científica e filosófica que reside a nossa única esperança. Está cientificamente provado que é a racionalidade pura da inteligência artificial, criada e programada por pessoas racionais, que faz as melhores escolhas, traz as melhores soluções e dá as melhores perspectivas para todos, de modo universal, eficiente e sustentável.

 

            Concordamos que é a ciência que deve ditar tudo, com nossos filósofos aclamados mastigando para o vulgo inculto o que os cientistas disserem, isso já foi ampla e democraticamente discutido pela sociedade engajada e politizada, consciente de seus direitos. É tudo fácil, simples e rápido. A desindustrialização dos bens e primeira necessidade é portanto uma urgência! Devemos abrir mão dos prazeres de sabores não naturais para cessar, de uma vez por todas, a irracional destruição dos mananciais e suas matas ciliares, de modo que a biodiversidade seja restaurada. Com essa mentalidade mais solidária, justa e fraterna, torna-se então desnecessária a figura do comércio, pois cada um estará mais sensível às necessidades do próximo, eliminando a figura egoísta e irracional do comerciante, permitindo que sobrem mais recursos para aplicar nas necessidades básicas a que todos têm direito nato. Assim, sabendo que os frutos de seu trabalho serão aplicados com justiça social e ambiental, é justo que se deixe nas mãos de líderes racionais e solidários os recursos oriundos do trabalho, que dará a cada um o estritamente necessário, eliminando-se assim também as doenças resultantes de abusos alimentares. E uma vez que está nos hormônios do prazer o ponto manipulado pelos sabores que nos levam aos abusos, deverá ser proibido qualquer alimento dotado de impressões sensoriais, porque devemos comer para viver e não viver para comer! Sejamos racionais! Sejamos justos! Sejamos solidários! Sejamos sustentáveis! Sejamos a nova humanidade!

 

            Já deixamos a cargo da inteligência artificial a tarefa de dirigir os carros, escolher nossos programas de televisão, nossas séries, nossas músicas, nossos livros virtuais, nossos vídeos livres e até mesmo a escolha de nossos parceiros em aplicativos de namoro! Já vivemos a racionalidade e desfrutamos de seus benefícios, só que não nos damos conta disso! Por que? Porque sempre somos atormentados pelo pensamento de desligar nossos sonhos perfeitos para sair e trabalhar, porque precisamos pagar para ter prazer, para viver, até mesmo para fazer pagamentos! Isso é injusto, irracional, ineficiente e insustentável! Aqui está provado que o uso da racionalidade delegada pela ciência, a realidade virtual, é um dos alicerces para a plena e perfeita felicidade! Sem esforços, sem culpas, sem preocupações, sem crimes, sem responsabilidades, sem compromissos, tão somente prazeres e felicidade com descargas hormonais não permitidas pelo normal arcaico. Se não há esforço, o consumo de energia é mínimo, e por isso a chance de sobrevivência é maximizada.

 

            Rações isentas de flavores, sem assim consumir os recursos naturais para dar sabor e cheiro, consistem no início de uma nova era, em que aos poucos nos desacostumaremos da sedução do mercado e da propriedade individual, sendo geridos por líderes racionais e eficientes que promoverão a saúde preventiva gratuita e universal, disseminando novas diretrizes sustentáveis para vigorar a nova sociedade racional que já está em andamento. Os recalcitrantes discutirão se essa nova realidade é mesmo real? Mas o que é real? A ciência já provou que não existe uma realidade, é tudo uma interpretação resultante de processos bioquímicos de nossos cérebros, por isso uma utopia humana é possível sim! É necessária sim! É obrigatória sim! Não é de hoje que as pessoas se refugiam em jogos de realidade virtual para viverem como gostariam de viver, sem a interferência deste mundo injusto e perverso, vivendo sem ditames e sem regras. É esse o nosso objetivo! É essa a nossa luta! É essa a guerra que travamos todos os dias contra a mentalidade arcaica que nos prende a todos os males artificiais que não existem na natureza, mas são impostos para que trabalhemos duro em troca de doses mínimas dos atenuantes.

 

            Por isso devemos ser racionais! Seguir e obedecer a líderes racionais! Deixar de lado os anseios construídos de uma vida individual irracional, ineficiente e insustentável. Uma vida coletiva com experiências baseadas em realidade virtual, sem consumos e sem cobiças, com a pureza da humanidade primitiva reestabelecida em bases racionais e sólidas. Quem não gostaria de viver tudo o que quer viver sem os riscos do mundo perigoso que habitamos? É essa a nova era de um novo mundo, que sucederá o novo normal para uma humanidade livre de sentimentalismos castradores arcaicos e perversos. A vida racional de trabalho mínimo para prazeres máximos, sem perdas, sem atravessadores, sem custos, com a subsistência cem por cento garantida por líderes científicos racionais. É só um passo para a fase seguinte, em que prescindiremos até mesmo do mundo externo, assim tornando nulo o nosso impacto ambiental. Viveremos não conectados, mas em simbiose com máquinas geridas por realidade virtual perfeita, proporcionada por nossos líderes científicos racionais e repletos de boas intenções. Então o velho mundo não será sequer história, porque será totalmente desnecessário, então seus arquivos poderão ser simplesmente apagados, poupando a nova e racional humanidade de traumas e frustrações decorrentes do contato com as agressões da velha sociedade, que é totalmente formada por indivíduos perversos e sem salvação.

 

            Viveremos totalmente no mundo virtual, trabalhando sem cansaço para produzir as riquezas de nossa nova coletividade, com tempo infinito para desfrutar de prazeres em vários universos virtuais paralelos, tento doas as boas experiências possíveis a custo zero, em uma sociedade utópica e fraterna, justa e sustentável! Sem custos, sem frustrações, sem castrações, sem violência, sem preocupações, sem culpas, sem compromissos, sem crimes, sem devastação, sem propriedades, sem limites! Um mundo onde a racionalidade científica ditará tudo e definirá tudo, sem que você precise se preocupar em tomar suas próprias decisões. Basta imaginar, na limitação irracional em que ainda estamos, um mondo onde tudo seja formado por bits e algoritmos, no qual se pode voar sem asas, viver debaixo d’água ou mesmo andar para apreciar a paisagem de uma natureza perfeita e sustentável. Tudo perfeito, universal e gratuito, até o dia em que alguém tropeçará em uma raiz, que na verdade é o fluxo de dados do suporte de vida, e todas as máquinas que mantinham nossos corpos funcionando são irreversivelmente desligadas.

06/02/2021

Voltem para seus blogs!

 

"Você violou os termos!" "Hein? Tá falando comigo?"
(Str Trek Tomorrow Is Yesterday 1967 ep 19)

            O desencanto com as redes sociais começou quando as pessoas se deram conta de que nem todos são sociais, na verdade uma boa parcela é bem antissocial. O problema aqui veio quando essa índole deixou de ser um mecanismo de defesa para se tornar uma bandeira, de início com "Não estou nem aí para a sua opinião" saindo das respostas particulares a intrometidos, para ser jogado aos quatro ventos em postagens fora de contexto e dirigidas a qualquer um. Já não se tratava mais de gente que só queria passear pelos tópicos e ser deixada em paz, agora eram grupos de malas sem alça enchendo deliberadamente a paciência de todo mundo. Até aqui bastava bloquear o mala sem alça e tocar a vida.

            Juntaram-se a eles os grupos de "novo normal" que festejaram o advento de quadrinhos e animações alternativas repletos de politicamente correcto, engajamentos, inclusões, representatividade, discussões amplas e hai hai hai mil vai pra fora do Brasil! Deveria ser apenas mais um gênero nascente de entretenimento e assim seria, se não fosse a tendência humana em transformar tudo de uma nova religião, ainda que uma religião cética. Porque não basta gostar, é preciso atacar a opção do outro, esfregar na cara do outro seus próprios gostos, tentar obrigá-lo a compartilhar desse re-les en-tre-te-ni-men-to e, por fim, usar de sua paixão pela liberdade de expressão para tentar proibir todo mundo de usufruir dos antigos. Muito coerente mesmo... Depois de algum tempo, como a maioria absoluta dessas publicações e desses programas é absolutamente sem graça, desinteressante e aparentemente feito para só o seu criador entender, essa imensa maioria sai de circulação... então os militantes mimizentos vêm às redes sociais xingando e ameaçando todo mundo porque ninguém deixou de ver o que gosta para prestigiar seus entretenimentos sem graça. Agora chamam de "evolução" a retirada de "Tom & Jerry" do catálogo de uma empresa de demanda de vídeos, para mim uma tentativa de apagar um pedaço da história, porque o contexto das animações clássicas era outro e, assim como há quem diga que ninguém vira psicopata por jogar RPG e vídeo game, ninguém virou serial killer por causa dos desenhos antigos.

            Não sendo isso o bastante, essa gente que se leva à sério mais do que a própria seriedade começou a usar de seu enviezamento político, religioso, ideológico, psicopático para acusar os que não compartilham de seus gostos pessoais de serem inimigos dos oprimidos. Repentinamente, enquanto eles mesmos desejavam em público mortes lentas e sofridas para seus desafetos, pessoas que simplesmente respondiam com "Vai se lascar, corno" passaram a ver suas publicações censuradas, tendo como respostas dos censores discursos prontos que não explicam absolutamente nada. O tal algoritmo já "confundiu" uma imagem de Dom Pedro II com uma campanha da apologia às armas de fogo... e apagou a imagem do perfil de quem a postou... e ficou por isso mesmo. Notaram o sistema de pesos e medidas diversos? Incentivar a violência e a depredação tornou-se um direito de quem compartilha da ideologia ou religião (que no fundo são a mesmíssima porcaria) do censor de rede social, mas basta um do outro grupo escrever "foda-se" para receber bloqueio por uma semana ou mais, bastando uma besta cúbica denunciar como ofensivo. Eu já denunciei certa feita alguém incentivando à depredação, o que recebi DIAS DEPOIS foi uma resposta de "marcaremos como algo que você não quer ver"... Ou seja, não aparece mais para mim aquele tipo de postagem daquelas pessoas específicas, mas elas continuam lá.

            Se houver o discurso certo, é permitido ao usuário escrever "vocês sabem como os franceses protestam, não sabem?" para incentivar a destruição do patrimônio, basta haver o discurso certo com uma justificativa condizente com o pensamento do censor, como "eles se importam mais com vitrines do que com pessoas", mesmo sem conhecer as pessoas que estão acusando de desumanidade, mas o simples facto de ser do outro lado já activa o preconceito dos que lutam contra os preconceitos... dos outros. Nesse mesmo pacote de hipocrisias às claras, perfis de ditaduras e ditadores são mantidos intactos, assim como os de seus financiados, sempre com discursos pseudointelectuais idiotas e vagos como resposta a quem indague a respeito. Foi preciso que uma a Taiwan se reportasse para que UM perfil do PCC fosse posto em quarentena, tão somente em quarentena. Foi preciso que um Estado intervisse para que pelo menos isso acontecesse. O conteúdo? Justificativas à perseguição e prisão de minorias étnicas na China continental. As denúncias de pessoas comuns não surtiram efeito, mas se essas pessoas comuns se atrevem a justificar um revide como retaliação de guerra, pode ter sua conta cancelada por "discurso de ódio". Uma ditadura pode fazer isso, em redes sociais que são notória, aberta e assumidamente proibidas em seus territórios.

            Não me refiro a uma rede em específico, porque praticamente TODAS estão agindo assim, como candidatos ao grêmio estudantil, prometendo justiça e liberdade, mas tornando-se tiranos inescrupulosos assim que chegam ao poder, disseminando os dedos em riste, censurando opiniões divergentes das suas, editando notícias para só o que lhes interessa ser lido pelos asseclas e retaliando sem hesitação, sempre se fazendo de vítimas de suas vítimas. Sim, eu me lembro, cada grêmio se tornava uma nano ditadura sustentada pelo erário. E cada rede social está se tornando uma também. Bastou aparecer o momento certo e todas estão se mostrando como realmente são. Canais inteiros tirados do ar por divulgarem suas próprias opiniões, que não batem com as dos censores de redes... mas os canaizinhos das ditaduras de estimação estão lá, bem como de "jornalistas" levados para conhecer e falar bem delas. E eu já cansei de mostrar desmentidos, mas meus... "amigos"... ignoram solenemente, continuando a mostrar como o ditador é bonzinho e o democrático é perverso... só vêem o que suas ideolopradas permitem e ignoram o resto, como em uma igreja fundamentalista.

            Não foi à toa que Elon Musk apagou as contas da Tesla, exemplo seguido pela Chevrolet, e em ambos os casos a saída não surtiu nenhum efeito negativo, pelo contrário, o pessoal que estava se descabelando com comentaristas nonsenses, inconvenientes e até mesmo militantes apontando seus dedos acusatórios, agora estão lidando com o estresse normal das relações públicas com clientes e autarquias, dando retorno e justificando seus vencimentos. A divulgação das marcas que estão saindo voltou a ser de total controle dessas marcas, em seus sites, seguindo seus próprios critérios e atingindo sua clientela. Claro que eu lamento de não ter mais um canal de conversa com eles, mas compreendo plenamente, é dor de cabeça demais para retorno de menos. Se por telephone já é difícil controlar os ímpetos de um reclamante indignado, imagine controlar os ímpetos pubianos de gente que simplesmente quer atrapalhar, e de gente que pratica o "ódio do bem" que citei, em milhares de comentários e denúncias orquestrados em turma! Para empresas, não existe conta grátis... para ninguém é na verdade, mas são eles que tiram directametne de seus bolsos.

            Então aos que estão fartos disso, voltem aos seus sites, sejam páginas grandes ou meros blogs como este. No que é seu a censura é muito mais difícil e suas publicações só vão atingir o seu público, vocês sentirão a diferença logo nos primeiros dias. Poder escrever alguma bobagem qualquer, só para descontrair, sem ver dedos apontando para a sua testa ainda é possível, dentro do seu espaço pessoal, fora das redes. Decerto que a divulgação em uma rede é bem mais eficiente, mas essa é uma das armas de sedução dos censores de internet, que assim te obrigam a moderar sem necessidade real até que o que sair de seu teclado já não terá nada mais a ver com o que tu pensas. Não digo para saírem de todo dessas  redes porque isso seria dar espaço aos idiotas referenciados, eles simplesmente não podem se sentir à vontade para soltarem tudo o que querem e contra quem querem, porque qualquer um de nós pode ser alvo desse desvairo. Além do mais, em compartilhamento reservado as redes AINDA são uma ferramenta eficaz para divulgação de suas páginas independentes, bastando que o compartilhamento seja feito apenas a quem realmente interessa. Abandonar as redes sociais AINDA é uma utopia, mas pelo bem de sua sanidade mental, voltem para seus blogs!

07/01/2021

A caixa

 


            Abriu com cuidado a caixa e, em princípio, não vê grande coisa. É apenas uma caixa não muito grande embrulhada em papel listrado de dourado e vermelho com os laços dourados pendentes. Levanta-a com cuidado e uma luz começa a surgir, até surgirem algumas formas. Aos poucos a carinha de decepção se acende em um sorriso singelo exibindo a falha do primeiro dente que caiu. As formas tornam-se nítidas em cores vivas, então o sorriso se escancara.

            As luzes piscando nos enfeites são um deslumbre, como se fossem estrelinhas que vieram visitar as pessoas, para ela realmente são e tem vontade de ir com elas para o céu, brincar na lua e quem sabe rever sua avó, que também virou estrelinha e vive vigiando-a lá do céu, para que não faça danuras demais.

            Vê carrinhos de muitas cores reluzentes, vários modelos e tamanhos, que andam e acendem os faróis. Ri singelamente vendo que todas as portas se abrem e os pneus são de borracha de verdade. Olha tudo ao redor e é incapaz de contar quantos são, mas são todos lindos. Se imagina viajando para longe em cada um deles, como toda criança com um carrinho costuma imaginar, levando a família para a praia, a montanha e até para algum mundo de desenho animado.

            Vê também bonecas aos montes, de inúmeros tipos, com roupinhas que balançam suavemente quando mexem as pernas e braços, cabelos com penteados que não consegue contar quantos estilos são, os longos balançam em ondas a cada movimento da cabeça como se tivessem vida própria. Os sorrisos brilham como nunca viu em nenhuma outra boneca. Se imagina fazendo festas e visitando cada uma delas, conversando enquanto tomam chá e assistem televisão.

            Ainda vê doces, muitos doces. Em cores, formatos e tamanhos tão diversos que parecem mais bichos do fundo do mar, cujos nomes sua pouca idade e falta de familiaridade com o litoral não deixam saber, mas não importa, apenas escancara seu sorriso pueril já se imaginando a degustar tudo aquilo, mesmo que depois vá levar bronca da mãe.

            Ela, aliás, observa seu rebento sem esconder a emoção. Vê a menina olhando para a televisão por aquela caixa sem fundos como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. Não consegue segurar as lágrimas, mas chora em silêncio para não estragar sua efêmera alegria, vendo-a se entreter com a mesma caixa vazia e sem fundo que recolheu do lixo no ano passado, na esperança frustrada de que poderia finalmente colocar lá dentro alguma coisa que pudesse chamar de presente.

12/11/2020

Seu território, nossas leis!

 

Assevero que o bebê panda gostou

            Quatro garotas, cidadãs de um país muito sério e com uma cultura muito rigorosa no tocante ao comportamento em público, afagam o bebê panda de um zoológico local, com severas regras sanitárias, cercadas por profissionais competentes de uma equipe que sabe o que faz e jamais permitiria ocorrências arriscadas próximas a animais raros, ainda mais um filhote. Desde 2016 que Lisa, Jennie, Rosé e Kin Ji-Soo são manchete, primeiro porque o grupo da YG Entertainment jogou na lata de lixo o conceito de que cantoras de K-pop precisam entrar na faca até não se parecerem em nada consigo mesmas, segundo porque são quatro anos sem trocas de integrantes e terceiro, porque não têm papas nas línguas; ou seja, subverteram praticamente tudo o que se considerava como padrão para K-pop até então. Elas ralam duro, ensaiam coreografias complexas, às vezes precisam treinar contando piadas em Fa e rindo repentinamente em Do, mantêm a forma física e costumam usar figurinos extravagantes nos shows em que esbanjam suas belezas joviais, há muita pressão e o treinamento prévio para sua estreia foi tão duro quanto longo; é o que as identifica com os outros astros do gênero. A diferença é que elas caíram em boas mãos, num grupo que lhes permite ser mais autênticas e expressar o que pensam, claro que comedindo as palavras, mas podem o que a maioria dos colegas não pode. Os Blinks, seus fãs, sabem valorizar essa rara autenticidade no mundo artístico.

 

            Mas teve gente se irritando com isso. Os mesmos ambientalistas chineses e estrangeiros que fizeram-se de cegos, quando as ilhas militares artificiais dizimaram sítios marinhos, passaram a gritar contra os afagos apontando até para o facto de elas terem cães para acusá-las de terem posto filhote e mãe panda em risco. Nem vou falar novamente sobre a hidrelétrica no rio Amarelo! Nem do uso intensivo de carvão! Nem da pesca predatória em águas territoriais alheias com escolta militar! Para esses ambientalistas melancias nada disso importa. Importa fazer acusações sem investigação prévia de todo o contexto dos acontecimentos, baseando-se apenas em “algo errado nisso poderia ter acontecido”, “na minha opinião não pode” ou “ofenderam o símbolo sagrado da nação”; embora façam troça explícita ao que é sagrado para os outros; a religião lá é o partido. Não consultaram o zoológico, os veterinários, o próprio quarteto a respeito dos cuidados tomados previamente, apenas tomaram as dores de um regime que se considera proprietário de todos os pandas do mundo, inclusive dos que nascem fora de seu território.

 


            Aliás, se considera dono do próprio mundo, dando palpites nas políticas internas alheias e punindo países que contrariem seus interesses… quer dizer, pune os países que não têm poderio bélico e econômico para reagir. Se não dependesse tanto dos alimentos brasileiros para manter a população sob controle, já teríamos sido alvos de sua ira. Sua presença na África já é consistente, muitos países lhe devem os tubos em empréstimos que não conseguirão pagar tão cedo; talvez nunca, porque o PCC pode manipular juros e multas de acordo com seus desejos, assim como faz com o câmbio, ou vocês pensam que a economia local se desenvolveu só na base do “derramar mais concreto do que bombas”, como alardeia a turma do “vai estudar história”? Dinheiro pode ser reposto, o que eles querem é o que não pode ser reposto, como a própria soberania política dos Estados que cometeram o erro de lhes pedir ajuda. Porque não basta fazer os próprios cidadãos terem pavor de dizer em público que se lembram do massacre da praça da paz celestial, usa de seu gigantesco mercado interno para pressionar empresas a baixarem suas cabeças aos caprichos ditatoriais que tanto arrancam suspiros de nossa pseudoelitezinha pseudointelectual.

 

            Aos cidadãos reféns do regime, dizem que o ocidente tem inveja de seu progresso. Se acreditam ou não, pouco importa, mas a quem perguntar é compulsório dizer que acreditam. O agravante é exigirem isso de estrangeiros em seus próprios países, não sendo raro encontrar pessoas que já até moraram lá e foram banidas, simplesmente por terem dito em público algo que pudesse ser interpretado por alguém como uma crítica ao regime (como esta moça). E sim, estrangeiros lá dentro são mais rigidamente vigiados do que o próprio cidadão, a ponto de precisar comprar um celular local porque o que eles não podem espionar simplesmente não funcionam, não têm nenhum suporte; o contrário do que eles fazem em países alheios. Antes um esclarecimento, há uma diferença imensa entre dizer-se insatisfeito com os resultados de uma decisão política, e dizer que precisam de um novo líder; isto se dizia no Brasil entre 1964 e 1984 sem render qualquer sanção, não por isso. Claro que essa completa ausência de oposição ajuda no desenvolvimento material econômico, já que ninguém vai se atrever a perder prazos ou travar uma votação para afrontar o líder... como fazem aqui.

 

            Toda a invejável infraestrutura de internet, mais censurada do que livro ilustrado de pornô pesado em convento da idade média, não é para facilitar a vida do cidadão, isso acontece como efeito colateral até para os mendigos, é para vigiar cada passo, cada atitude, cada comentário, cada imagem compartilhada, cada link postado, cada piada que possa ofender a cultura milenar dos povos ribeirinhos do partido. Foi assim que baniram o ursinho Pooh e banem qualquer vaga menção ao massacre da praça da paz celestial. Como eu já disse, isso é vigiado até em cidadãos de outros países em seus próprios territórios, para tanto se valem de redes sociais e motores de busca que são proibidos na China, até o Youtube, que teve uma repentina explosão de chineses e simpatizantes ocidentais do regime... E com essa hipocrisia escancarada, que passa pelas vistas grossas dos discursadores libertários, formadores de opinião de outras nações são policiescamente vigiados e seus patrocinadores pressionados e chantageados a qualquer mínimo descontentamento do partido único e compulsório, como está acontecendo com Blackpink e já aconteceu com outros artistas, a quem os artistas lacradores não prestaram sequer votos de boa sorte. E ai de quem disser que há mendigos por lá, porque será banido do maior mercado consumidor do mundo.

 

            Aliás, o grupo BST também tem sido alvo de represálias pesadas por terem feito um comentário alusivo à guerra das Coreias, (aqui e aqui) mesmo que superficial e sem citar a participação chinesa naquele ataque pelas costas. Essa parte da história que dificilmente será contada em sala de aula não é nova, mas só têm vindo à tona após o advento da internet, por pessoas que foram banidas e hoje são perseguidas pelo regime, mesmo em países distantes de lá… e a Coreia não fica longe deles… na verdade um pulo geográfico já atravessa a fronteira de terra firme para terra firme. Em suma, os rapazes do BST são obrigados a negar a própria história recende de seu país para não ofender os censores do mundo… eles e qualquer outro artista que não queira ser sabotado, punido, chantageado, banido e perseguido pela gangue comunista e seus minions espalhados pelo mundo. Foi assim que o celular licenciado por eles sumiu do mercado mal tendo sido lançado.

 

Vídeos deles e de outros coreanos

            Não pensem que eles respeitam fronteiras. Se a Índia não fosse tão capaz de se defender, já teria sido anexada, que o diga o Tibete, cujo destino não foi e não é lamentado por aqueles que gritam “Catalunha livre”, sequer é lembrado como um território que já foi soberano e cuja população original foi massacrada e trocada por chineses, restando hoje uma minoria acanhada de tibetanos descendentes dos originais. Quando a Inglaterra devolveu Hong Kong, o que enviaram? Diplomatas? Cidadãos com presentes? Não! Mandaram tanques de guerra! Para deixar claro que todas as promessas feitas ao Reino Unido seriam sumariamente desprezadas. De então em diante alteraram a constituição até hoje nada restar da cidade livre e legre da era britânica. Falar de Taiwan, excluído da ONU por pressão daquela ditadura idolatrada por idiotas acadêmicos, eu acredito ser desnecessário. Se há algo aproveitável que este governo fez, foi nos afastar desses regimes. A alternativa para um mercado gigantesco é a Índia, a maior democracia do mundo. E não, seu preconceituoso, os indianos não fabricam só incensos, filmes toscos e saris, eles têm uma indústria de ponta (https://exame.com/tecnologia/fabricante-indiana-de-smartphones-quer-vender-200-milhoes-de-unidades/) só esperando pela aceitação ocidental. Levaria anos, porque muita coisa precisa ser feita por lá para que o nível de desenvolvimento geral se equipare ao chinês, mas seria um seguro contra novas chantagens, dumpings escancarados e manipulações cambiais. A mentalidade do indiano médio, derivada em parte do sistema de castas e seus costumes, é um dificultador, mas não é intransponível. Sejamos honestos, um país que comprou Cherry QQ não tem o direito de falar mal do Tata Nano!

 

            As empresas americanas já começaram a sondar e demonstrar interesse pelo mercado e pela produção local na Índia, muito tardiamente, mas ao menos estão saindo da letargia. Talvez com as indústrias o prórpio e voraz turista americano comece a ver a Índia com outros olhos. Por essas e outras eu evito a todo custo comprar o que tiver sido feito na China. É extremamente difícil, hoje em dia, mas não é impossível, principalmente porque podemos viver sem quase tudo o que existe no mercado. Sabem aqueles aparelhinhos de MP3 que eram febre no começo do século e todo mundo tinha? Eu não sou todo mundo, então não tive. Isso é como o tráfico de drogas, só que com a quadrilha no poder de um país; quem compra, financia, não há meios-termos aqui. Cansei de procurar um aparelhinho feito na Coreia ou no Japão, na época, mas não encontrei e escolhi não ter. Não, não me interessa abandonar os cidadãos chineses e devolver toda aquela gente à miséria em que Mao a jogou, assim como de jeito nenhum eu vinculo o chinês médio ao partido, e isso não vai acontecer por causa da migração de investimentos.

 

            E, já que nenhuma entidade defensora de oprimidos e perseguidos por censuras de manifesta, começarei a expor minha simpatia pelos garotos coreanos. Eles já sofrem pressões e cobranças mais do que suficientes lidando com a parte honesta de seu trabalho, não precisam da sujeira mafiosa de uma ditadura mimizenta, precisariam sim da manifestação clara e explícita de uma entidade de “classe”, bem como seus préstimos jurídicos e estruturais, mas como isso não acontece, pessoas como eu precisam colocar as acaras a tapa… de novo.

Blackpink: Letras, Pinterest e Youtube.

Mais a respeito: aqui, aqui, aqui e aqui.

03/11/2020

Aqui jaz teu sonho

 

Pity the Sorrows of a Poor Old Man - 1822 - Théodore Gericault - French (MET Museum)

            Aqui jaz o teu sonho não cultivado, legado ao desdém do adulto amargo que se tornaste. O mesmo sonho que em tenra infância ainda se rascunhava em pueris balbucios num mundo que tudo parecia prometer, diante de pessoas que tudo lhe pareciam permitir, ainda que mostrando os limites salutares de tua segurança, enxugando as lágrimas de um pranto repentino por algum susto que só teus olhos e ouvidos sabiam mensurar. Nos mesmos braços que limitavam teu avanço, para não cairdes no fosso profundo, encontravas o bálsamo da segurança oscilante a embalar suavemente teu sono, em cujas brumas os devaneios tomavam formas, cores e toda a miríade de possibilidades com que poderias entreter-se.

            Ainda era cedo, havia tempo de sobra. Era momento para te preparares em aprendizado básico e crescimento sem os perigos ardis que a vida reserva aos que alçam vôo. Ainda havia tempo, os riscos eram ensinados em simulações simples e seguras nas brincadeiras rasas que te ensinariam a enfrentar as adversidades sem temê-las. Quando os temores reais lhes foram apresentados a distâncias e em doses salutares, tão somente para que mesmo em botão, a flor de teus sonhos fosse defendida das pragas e ervas daninhas tão traiçoeiras.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, posto por terra pelas urgências bravateiras. O mesmo sonho que na plena flor da juventude lhe emprestava o perfume balsâmico para curar tuas feridas e ajudar-te a vencer teus medos, quando já sabias que o mundo não tinha obrigação de ser bom, mas que tampouco deveria ser temido como se fosse um mal invencível. Quando as forças lhe pareciam trasbordar e sobrepujar quaisquer decepções pérfidas, dessas que se lhe apresentam com semblantes amigáveis e discursos aduladores em firmes vozes sedosas. Ainda tinhas o amparo de quem pudesse socorrer-te de apuros e, embora certa a reprimenda necessária, encaminhava-te ao curso seguro do caminho reto; que não precisava ser seguido em absoluta retidão, tão somente não se afastar a ponto de perdê-lo de vista já lhe garantiria os louros de teus esforços, pois assim voltarias rapidamente assim que os riscos suplantassem os ganhos... e foram tantas vezes!

            Ainda era cedo, o tempo intercedia em teu favor. Era momento de experimentares os sabores do mundo e decidires que temperos usarias em teu caminho, aqueles que dariam aos teus pares a tua identidade e te tornariam inconfundível, facilitando te reconhecerem e te ampararem na busca de tuas realizações, sob o auxílio prestigioso de mestres e auxiliares, papéis que assumirias vez ou outro, e em definitivo quando os resultados de teus labores deitassem em tuas mãos então experientes.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em preta mortalha coberto pela vida que deixaste de viver, não importam os motivos. O mesmo sonho que na vida adulta lhe serviriam de muleta nas mais duras adversidades, tanto quanto de cetro no regozijo de tuas vitórias cotidianas, resplandecendo a majestade de quem teria ousado na medida e no momento certos, posto que o cabedal e a experiência amealhados te fariam reconhecer de pronto as armadilhas e os inimigos, hábeis em vestir-se de oásis e benfeitores. Quando as forças ainda seriam abundantes e a mente lúcida dos sábios serviria de habitat aos teus pensamentos, guarnecidos de raciocínio e conhecimentos abundantes, o que ainda te permitiriam sonoras gargalhadas a cada vitória; e seriam elas seriadas em tua longa e venturosa jornada.

            Já seria a tua hora, o tempo então generoso lhe mostraria a longa estrada a percorrer com as pernas fortes dos sonhos em plena realização, de uma vida que nunca precisaria ser perfeita, mas tão somente ser a tua vida, a que só a ti serviria e a em que somente tu serviria, construída e ababada sob medida para os teus pesares serem sempre ciscos diante das vigas de tuas realizações, do amparo que agora seria de tua alçada, do aprendizado que agora sairia de tuas palavras e do vasto jardim de sonhos que agora a ti caberia cuidar para a posteridade; assim como teriam feito por ti.


            Aqui jaz teu sonho não cultivado, em jazigo de pedras cruas que restaram de tua vida desventurosa. O mesmo sonho que te for cobrado por não viveres a vida que deverias ter construído, mas cujos tijolos desviaram-se em amparo de quem jamais construiu senão os próprios mimos, desdenhando assim que se levantava o doador desafortunado do que agora abandona e deixa desmoronar. Quando as forças decaem sem reposição hábil e tua visão se turva diante do horizonte escuro que se aproxima, forçando-te a vencer o íngreme aclive sob as dores que não lhe foram curadas, pela falta dos recursos que nunca te foram cedidos em troca das chances que a outrem concederam. A vida apertada e cnidária que sobrou não permitia iniciativas senão em caminhos tortos, a horizontes perpendiculares ao que teus brios ainda te impulsionam. Sim, talvez seja tudo o que te resta, e te priva da queda de um desenlace precoce.

            Já passou a tua hora, o tempo já cobra o tributo dos ganhos não conseguidos e a estrada, embora se encurte a cada passo, é cada vez mais íngreme, dilapidando as poucas energias que ainda restam em teu corpo debilitado, que ainda assim precisa vez ou outra amparar os que se corromperam e nem mais mantêm-se de pé sem esporádicos auxílios. Vai, que é tua sina arcar com proventos dos dividendos não ganhos, dos lucros subtraídos, de toda a sua miserável existência em uma vida que simplesmente ainda não te cabe dentro. Se é tua culpa ou não, é tão oneroso quanto irrelevante ater-se a tão dolorosas elucubrações, apenas arque com o que te cabe, pois não cabes em mais nada do que te cerca e ainda tens chão pela frente. Tua pena, lamento, é esperar sob duras labutas pelo óbito, já morto em uma vida que nunca deveria ser tua.

17/10/2020

Eleitor aqui não entra!

Goiânia. Avenida Goiás, Centro, 1950s


             Eles vivem fora da cidade, em uma cidade privativa. Nesta cidade privativa, só entra quem for residente, empregado ou convidado. É um mundo à parte onde as leis ordinárias do país podem bem ser ignoradas, se houver suficiente coesão de interesses para tanto, e geralmente há. Não me refiro apenas a episódios como um do Rio de Janeiro, ainda no fim do século passado, em que um fedelho mimado estúpido foi flagrado dirigindo de forma perigosa dentro das ruas privativas. Chegando em casa, impune por que era menor, encarou a imprensa e gritou "dirijo sim e vou continuar dirigindo". Se isso é aceito pelos moradores, então mais infrações podem ser, bastando haver um código de silêncio, seja voluntário, seja imposto; como o que os traficantes impõe às favelas e bairros periféricos. Não muda muita coisa, até porque já disse que há décadas não temos uma elite, temos um bando de deslumbrados com dinheiro na conta, mas isso verei mais tarde, noutro texto, se for pertinente. Em ambos os casos, as pessoas crescem em realidades paralelas, muitas vezes agindo como estrangeiros, ou alienígenas, quando vão à cidade dos comuns e nem sempre conseguem falar o mesmo idioma dos locais.

            Deixo claro que não sou contra condomínios, cada um mora onde quer e pode. Não me importo com o tamanho e os materiais usados na construção da casa, não dou a mínima, eu sequer abro "notícias" a esse respeito. O problema vem quando a alienação do mundo real atinge quem não deveria sequer se afastar dele. Ainda me lembro, em meados nos anos 1990, de uma reportagem que levou às ruas dois garotos que nasceram e quase nunca tinham saído de seu condomínio, pelo visto jamais o faziam a pé. Ao contrário daquele fedelho insuportável, eram bons garotos, gentis e interessados pelo mundo extra muros. Viram pela primeira vez um policial de perto, conversaram com ele diante das câmeras, a certa altura perguntavam o quanto esse policial ganhava, chutaram um valor que dava umas cinco ou seis vezes o soldo. As carinhas macias com expressões de perplexidade deixaram clara a pergunta mental de "como é que ele vive com isso"; provavelmente era o que cada um gastava com shopping e entretenimento.

            O mote de um condomínio fechado é a comodidade, a segurança é apenas um agregado mais utilizado em países violentos como o nosso. Essa comodidade, que tem seu preço, inclui uma infraestrutura mais sólida e moderna, locais de consumo de bens e serviços dentro do complexo, robustas estruturas de lazer exclusivas para os condôminos, jardinagem, paisagismo, serviços essenciais entre outros. Muito disso o controle da corrupção poderia oferecer facilmente ao cidadão comum e, bem, isso tem a ver um pouco com a facilidade com que esses loteamentos têm proliferado, nem vou agora abordar os métodos e os interesses dessas facilitações. Não não são negócios ilícitos e nem imorais, não são os negócios em si que causam os problemas, mas os facilitadores que se servem deles. E é mais grave do que permitir a construção de um alto edifício em local impróprio, onde a sombra e o tráfego resultantes vão agravar o trânsito, sobrecarregar os sistemas de energia, água e esgoto, chamar mais a atenção de meliantes, comprometer a privacidade dos moradores e tornar o bairro menos habitável; tudo isso é muito ruim, mas a coisa é bem pior.

            Foi-se a época em que políticos viviam em bairros nobres, estes também já sofrendo com a negligência, aonde o cidadão do bairro mais afastado e desassistido poderia ir para tirar satisfações. Casas luxuosas, amplas, com vastos quintais e as melhores empresas do país a poucos minutos, prontas para atender a qualquer hora; mas todas essas casas em logradouros públicos, ao alcance do mais humilde dos cidadãos. É aqui que entra a sedução de uma cidade privativa com muros e total restrição de acesso. Aquela conversa de o político eleito simplesmente sumir após o pleito, agora é literal. Não bastasse os eleitos se refugiarem na bolha artificial de seus condomínios, os primeiros escalões do poder público também o fazem, e o cidadão passa a só ter acesso aos baixos escalões, muitas vezes apenas ao de base, que simplesmente não têm autonomia para fazer muita coisa, mas estão expostos e de mãos matadas à indignação do contribuinte. Os carros que os figurões usam mal os deixa sentir as ondulações do asfalto mal cuidado, e alguns deles sequer usa as ruas para se deslocar; notaram como ficou comum ver dois ou mais helicópteros ao mesmo tempo? Eles se esmeraram e realmente conseguiram se isolar do mundo real, e dos problemas que eles mesmos causaram.

            Não sei em suas cidades, mas os bairros centrais e mais nobres de Goiânia, antes jóias que rendiam photos e suspiros, estão se degradando a olhos vistos. Eles não vão investir de verdade em lugares que não freqüentam, não se não forem persuadidos a isso, mesmo que seja um bairro de mais abastados. O máximo que fazem é remendar o asfalto, passar tinta rala nas guias de calçadas, roçar a grama e trocar algumas lâmpadas. Em época de eleições a coisa muda, mas não muito, porque tudo é feito com economia, para não durar muito mais do que os últimos meses do ano. O Marista, que já foi o sonho de loteria do goianiense, perdeu o brilho. Fora algumas ilhas residenciais, que lutam bravamente para manter o nível do setor, a urgência de outrora não existe mais no atendimento às demandas do morador; calçadas mal conservadas já dão um ar de decadência à jóia da cidade, com isso o interesse do próprio morador pelo bairro diminui. Mas é claro que no condomínio fechado do doutor excelência está tudo bem! Até o paço municipal é hoje um lugar quase inacessível ao trabalhador comum, que não pode simplesmente deixar de trabalhar um dia para viajar até lá.

            Se o bairro mais nobre da cidade está relegado, o centro, que foi concebido para ser habitado por funcionários públicos, está se tornando uma gigantesca boca de fumo. As intervenções feitas o foram para atender aos anseios políticos ou dogmas ideológicos dos últimos prefeitos, como derrubar centenas de árvores do largo canteiro central da Paranaíba para fazer um circo, que não resolveu nem de longe  o problema dos ambulantes, como se propunha na época. O famigerado BRT, que teve obras interrompidas várias e longas vezes, pelo judiciário, e já consumiu o suficiente para uma linha de metrô, este pelo qual esperamos há mais de trinta anos, ainda gera transtornos para os comerciantes e os já poucos moradores do centro. Enquanto prédios históricos ao longo da Avenida Goiás caem aos pedaços, alguns já demolidos para dar lugar a prédios feios de atacadistas shing ling, e os muitos vazios permanecem sem solução, a tal obra permanece como um buraco negro espaguetificando o erário. Há ainda muitas casinhas dos anos 1940 e 1950 em ilhas que ainda têm relativo sossego, mas a pressão é grande... e sair à calçada à noite para conversar com os vizinhos, está fora de questão. Mas na bolha de realidade paralela do excelentíssimo pomposo ninguém reclama da vida.

            O caso mais antigo e agora escancarado, é o de Campinas. Várias casas históricas foram demolidas e viraram estacionamentos idiotas para sacoleiros, ajudando a piorar muito o já pesado e traumático trânsito em ruas que foram dimensionadas para carroças. Os tais sacoleiros fazem um pandemônio no trânsito, parando seus carros NO MEIO da rua e ameaçando quem achar ruim. Muitas dessas casas eram do mais puro e autêntico art déco, uma delas ainda era art nouveau... É que Campinas já era uma cidade centenária, quando Goiânia foi fundada, com o tempo a capital cresceu e anexou, transformando a cidade em bairro. Ainda houve a abertura de saídas directas para a perimetral, que é uma pista dupla com tráfego intenso de imensos ônibus e caminhões com cargas gigantescas, ambos se utilizam do frágil asfalto de nossas ruas estreitas. Cheguei aqui em 1992, quando as mãos de trânsito ainda eram ao contrário, havia muitas pequenas vendas servindo a população e era seguro perambular pelas ruas, mas na época os problemas de esgoto já eram famosos, e não melhoraram nesse meio tempo. Aqueles que moram em mundos paralelos e só se deslocam por via aérea, mesmo sabendo do destino de casas históricas, fizeram-se de desentendidos e não puseram o assunto em pauta até TODAS estarem no chão. Mas nos paraísos fajutos do olimpo caipira ninguém ouviu um tijolo cair... vão todos para Miami quando querem ver art déco.

            Agora, quanto aos bairros mais afastados, que não faz muito tempo que conheceram o asfalto, e alguns ainda nem isso, vocês podem imaginar o regaço em que estão. O Jardim Novo Mundo ainda hoje carrega o estigma que NINGUÉM se preocupou em pelo menos atenuar. A falta do metrô trens urbanos se sente muito mais nesses lugares, muitos deles resultados de invasões que foram toleradas e negligenciadas por interesses eleitorais, e depois legalizados sem a mínima condição de receber infraestrutura decente... que nem bairros mais centrais têm, mas vá lá. E a quem reclamar? Ao judiciário que passa um traficante na frente de mais de 1400 pedidos de habeas corpus sem se importar com os precedentes? Seus membros também não moram mais nas cidades há muito tempo! O que era uma idéia para suplementar a infraestrutura, trazer conforto interiorano a quem se dispusesse a manter, tornou-se uma barreira física e sólida entre o poder público e quem o sustenta.

22/09/2020

O lado B dos civilizados

 

Tóquio

            A despeito de toda a admiração que se possa, e se deva ter por povos mais civilizados, é pertinente ressaltar que a utopia é um prato que alguém já pagou; nada é grátis. Quando esse alguém cessa a subvenção e por qualquer motivo não se encontra outro à altura, a utopia deixa de ser uma flor aprazível e se revela uma planta carnívora. Vamos deixar claro a diferença entre “mágica” e “ilusionismo”; a mágica faz milagres com o que se tem, potencializando e optimizando de tal forma os recursos, que permite a um pé rapado fazer com suas mãos o que nem todo magnata conseguiria fazer com toda a sua fortuna aplicada; ilusionismo pressupõe pegar o nada, dele fazer o tudo e a este dar duração eterna, transformando uma casquinha de sorvete em cornucópia… pois é a este que os defensores de utopias se apegam, criando um universo paralelo onde até as leis da física mudam, onde até a velocidade da luz é relativa, apenas para dar suporte aos seus anseios. Neste universo paralelo eles são os mestres, mesmo que mal saibam amarrar os próprios cadarços no mundo real, por isso só aceitam conversar sob as leis desse universo.

 

            Uma das regras sacras e mais furadas desses defensores é a de que existe uma sociedade justa com um sistema justo suprindo todas as necessidades do cidadão, claro que problemas existem, nada é perfeito, mas juntos avançaremos mais e mais para um país mais próspero e humano. Usar de bordões empolgantes e inflar o entusiasmo faz parte dessa defesa, por isso os jovens são tão vulneráveis a essas idéias. Se enchendo dessas idéias, se aprofundando nelas e em suas meias-verdades, esses jovens acabam se levando demasiadamente a sério e se considerando um cientista, vendo os outros como ignorantes e esfregando na cara de qualquer discordante o “embasamento” de suas convicções; não basta tê-las, é preciso impô-las. Já falei disso e de tantos outros temas correlatos, mas praticamente nada mudou verdadeiramente de 2006 para cá, e um vídeo triste de 2015 mostrou-me o apocalipse individual que já acontece há muito tempo, mas que essa empolgação pueril pelas civilizações civilizadas prima censurar a qualquer custo. Sistemas e sociedades e sistemas são como máquinas virtuais coletivas, máquinas não tem a menor obrigação de serem boas, têm obrigação de funcionar a contento e, sempre que necessário, a toda velocidade, mesmo que alguém seja atropelado. Ser bom e justo é papel das pessoas, não de entidades burocráticas.

 

            Começo falando de um dos piores equívocos, e que mais frustram emigrantes pelo mundo, o de que em países “civilizados, evoluídos e bem desenvolvidos” a sociedade por si já supre suas necessidades ou, pelo menos te garante o acesso aos meios de supri-las; e aqui se confunde necessidade com aspiração e desejo. Não me refiro a ditaduras, me aterei a países que são satisfatoriamente democráticos. Para se conseguir uma colocação digna, por mais fácil que seja, é preciso sair à rua e ouvir um “não temos vagas” atrás do outro. Pode ser rápido? Sim, pode, até no Brasil sei de casos em que a procura foi mais efêmera do que o seguro-desemprego, mesmo em épocas de recessão, mas são exceções. Ter suas reservas e fazer economia de guerra atenuam os efeitos do desemprego, mas muita gente quer manter um padrão próximo, ou até igual ao de que desfrutava quando estava empregada. Assim não adiantam seguro social e bicos esporádicos, a situação financeira vai se deteriorar mais rápido do que os sortudos conseguem uma recolocação. O pensamento de que se está em um “sistema justo de uma sociedade evoluída” deixa rapidamente de ser um tranqüilizante para se tornar um desespero, não raro acompanhado de revolta pelo sentimento de exclusão. É quando o indivíduo descobre o quanto é caro manter toda aquela infraestrutura.

 

            Para as pessoas ao redor, à amiúde imersas em seus próprios problemas, fica a impressão de que aquele problema é só seu e que tu vais, cedo ou tarde, retomar sua vida normal; boa parte do que chamamos de egoísmo se baseia nisso, na certeza inconsciente de que tudo vai se resolver por si ou que alguma entidade virá em seu socorro. Nesta certeza, em conjunto com narrativas de pessoas rudes com quem tenta ajudar, o cidadão comum prefere não se aproximar e não se inteirar dos seus dramas; aos poucos a indiferença se torna um casulo protetor de que as pessoas não abrem mais mão. Não é só em países violentos como o nosso que existe medo social, ele existe em toda parte e por diversos motivos, este é só um deles. Ainda pesa especialmente entre os jovens, o anseio por liberdade e de cortar os laços familiares, para finalmente sentir-se dono de sua própria vida; uma das mais belas meias-verdades cantadas pelos idealistas. Esse topete atrapalha muito, porque o indivíduo não percebe a mensagem corporal que transmite, isso pode ser uma pá de cal em qualquer entrevista para emprego, pode ser até mesmo para quem decide trabalhar por conta própria. Com esse anseio por liberdade, a necessidade de viver bem pode ficar em segundo plano; assevero que não são incompatíveis, pelo contrário, mas humildade e planejamento são fundamentais na vida adulta, que pode chegar antes da fase adulta. Muita gente, mas muita gente mesmo tapa o sol da necessidade com a peneira dos desejos, não só por prazeres físicos, e vai levando a vida assim até quando der; não é raro dar em suicídio.


            Acreditar piamente que se vive em um país quase perfeito, com problemas pontuais e nos quais ninguém de fora deve se meter, ajuda a pressionar o indivíduo. Qualquer sinal de insatisfação é tratado como ingratidão, pois bilhões de pessoas pelo mundo passam fome e ele tem tudo o que quer. A reprimenda tem sua validade, mas não para todos os casos. Não é só de fome que se chora, não somos cactos, precisamos de mais do que água e nutrientes para viver. Uma das drogas mais utilizadas para atenuar essa deficiência é apontar o dedo para os outros países, que não são tão conscientes e limpos, por isso não estão fazendo sua parte para salvar o mundo, assim a causa da infelicidade não é ter trocado suas necessidades por desejos, é a existência de pessoas que não correspondem ao seu idealismo; vejam, meu país é um paraíso, um exemplo e paradigma para toda a humanidade, por que vocês simplesmente não nos imitam e páram de destruir nossos sonhos? O facto de se ter pós-doutorados não torna ninguém imune a isso, intelectualidade não é vacina contra males da psique.

 

            Aliás, esses países são campeões em auto assassinato. Para quem tem um mínimo de recursos, tudo é muito fácil. Comida é muito fácil, diversão é muito fácil, sexo é muito fácil, droga é muito fácil, pular na frente do trem é muito fácil… A facilidade é uma ajuda valiosa para quem está fragilizado, mas para quem está em boas condições gerais ela é um ópio de ação limitada, aos poucos deixa de fazer efeito e aquele que tiver feito da satisfação de desejos o norte de sua vida, perde facilmente o sentido de viver. Uma estrutura perfeita, com uma civilização perfeita, proporcionando uma vida perfeita em uma ilusão perfeita, cujo desvanecimento mostra o imenso espaço vazio onde deveria haver uma coleção de experiências de vida, que dariam suporte à subsistência e aos planos para anos seguintes. Não é à toa que cidades grandes, com vida noturna mais frenética, concentram o grosso dos casos registrados. Em países nórdicos, e do extremo oriente, isso nem sempre é notícia porque já faz parte da rotina, e porque a indiferença cumpre bem seu papel de casulo protetor. Ah, claro, quando há uma notícia vinda de muito longe, a hipermetropia que esse casulo causa logo eriça pêlos, fazendo parecer que os problemas próximos simplesmente não existem. Isso que tanta gente chama de pieguice, foi o que garantiu a sobrevivência da espécie na pré-história, e teria garantido a de tantas crianças que se mataram por não terem a quem ou não conseguirem chorar e pedir por socorro.

 

            Essa indiferença não está apenas na sociedade externa, a família geralmente não vê a hora de se livrar dos filhos, que não são mais aqueles bebês fofinhos e fedorentos, mas tão aprazíveis que a lei os obrigou a criar até terem idade para se virarem sozinhos, e isso pode ocorrer antes da maioridade. Fazem questão de que o já petiz não se sinta tão à vontade dentro de casa, tratando-o como uma mudinha que será plantada muito longe do viveiro; a cobrança pelo suprimento de suas necessidades básicas pode fazer parte do longo e doloroso ritual de expulsão. Confiantes de que o adolescente vai conseguir se virar, os genitores viram as costas assim que ele põe os pés para fora, e não raro nunca mais querem notícias. Adolescente sozinho é uma mina terrestre. Se cedo morrer, morreu, talvez nem saibam se e quando isso acontecer. Os laços familiares, que em muitos casos poderiam ser a única ligação com a subsistência, são consideravelmente frágeis nesses países. Tão frágeis que deixam de existir na primeira esquina virada. Aos poucos aquela imagem photográfica na estante perde não só a cor, mas também o nome de quem ninguém se lembra mais quem é... ou era. Qualquer ensaio de culpa pelo feito ou sentimento de responsabilidade para com o indivíduo, é prontamente sufocado pela narrativa das oportunidades fartas e do bem estar social garantido. Garantido, meus queridos, só o óbito.


            Quando o subconsciente começa a perguntar o que tu estás fazendo aí, é o sinal amarelo para prestar atenção ao redor e se certificar de que aquele lugar é ou não adequado à tua natureza. Infelizmente ele não consegue falar muito alto, nos primeiros momentos, precisa de prática e observação para conseguir gritar, até lá a propaganda do falso frugal te convence de que 2m² bastam para morar, que a vida deve ser vivida lá fora, e que qualquer coisa além é ostentação ofensiva à sociedade civilizada e inclusiva; não importa a tua real necessidade de espaço, aquilo é obrigatoriamente o bastante e ponto final. O lar é o convívio social civilizado e desenvolvido do sistema justo e solidário, que está se lixando para suas necessidades íntimas, quer é te enfiar facilidades e prazeres, dando conforto moral mesmo que às custas de destruir seu corpo e seu psicológico. Eles acreditam ser livres, precisam acreditar nisso, mesmo vivendo numa gaiola psicológica que os mantém à parte dos próprios sangramentos. Quando a propaganda começa a perder efeito, os gritos do subconsciente ficam cada vez mais altos e não há para onde escapar, ou os ouve ou enlouquece. O abuso crescente de ansiolíticos não deixa dúvidas sobre o que mais acontece.


            Corrobora para esse quadro de declínio humano, o gigantismo de muitas cidades contemporâneas, que é acompanhado pela indiferença não muito menor para com o indivíduo. Para onde quer que se olhe há faces, tão somente faces sem rostos, falas sem vozes, expressões sem sentimentos, agasalhos sem calor. Todos são estranhos, mesmo aqueles que se conhecem há muito tempo. Ninguém quer conviver com o próximo, quer simplesmente usufruir das experiências que o outro puder oferecer, em um vampirismo mútuo e cada vez amis intenso. Tudo o que essas pessoas poderiam oferecer de bom, quando o fazem, é dedicado à privacidade pública das redes sociais, onde escancaram seus pedidos de socorro nos anseios não realizados dos desejos satisfeitos em photos, vídeos, gifs e toda essa parafernália virtual. Daí o sucesso que faz cada plataforma de compartilhamento que parece ser diferente, mais prática e descolada do que as anteriores. Cobram de si mesmos aproveitar o dia em cada segundo das distrações que seu país desenvolvido e civilizado pode oferecer, evitando ao máximo olhar para dentro e ver o que seu próprio cabedal tem a oferecer, porque isso implicaria em encarar também os gritos de dor e socorro abafados com o tempo. Sabem aquela máxima de que o palhaço é um homem triste? Ela é real. Via de regra, ninguém expressa a contento uma necessidade satisfeita, só se consegue expressar o que lhe falta, e tanto melhor quanto mais falta fizer.


            Tal como o bom palhaço, o jovem, solto num mundo cheio de prazeres e nenhuma alegria, perde paulatinamente o interesse pela própria vida. A maioria, com uma coragem de fazer inveja aos melhores combatentes, enfrenta a tendência crescente ao suicídio se segurando só por mais um dia, só por mais esta vez, ainda que recorrendo e ingerindo distrações menos perigosas, álcool e fumo entre elas. Claro que isso tem um preço, transtornos mentais não são exclusivos dos azarados que nascem com eles. E a resistência destes faz seus governos inflarem as estatísticas de bem estar e prosperidade, acompanhando com a retórica confortável de que seu povo é desapegado de bens materiais, quando na verdade está é se lixando para tudo e para todos, inclusive cada um para si mesmo. Mas é uma retórica confortável, faz a vida parecer que tem sentido, então vestem carapuças em que não cabem suas cabeças. Quando a carapuça se rasga, pela insistência em vestir, as expectativas não correspondidas cobram o preço de terem sido chamadas em vão.


            Do lado de cá, um exército de alienados memorizadores de frases alheias repede ad aeternum o que manda a cartilha, muitas vezes atribuindo seus próprios ideais aos povos que julgam ser o apogeu da civilização, mesmo que esses povos rejeitem tais ideais; vocês não vão gostar de ser um norueguês furioso, ao ouvir "fale da experiência socialista no seu país" de um desses memorizadores, é uma das poucas coisas que já soube fazê-los sair do sério. Eles sofrem do mesmo mal que os outros, mas apontando o dedo acusatório para o próprio país  e sonhando com a vida fácil, farta e gratuita de outras paragens. Não por coincidência, a maioria mora em grandes cidades e padece dos mesmos males de quem falei agora, só que em um país muito imperfeito, o que só alimenta tudo isso. Repetem para si mesmos que são livres, bem resolvidos, com senso crítico aguçado, que os outros são a causa de suas frustrações e depressões. E uma vez que a maioria desses países civilizados não admite suas reais mazelas, a narrativa de "eu sou livre", mesmo dentro de uma gaiola bem intencionada, se sustenta.