04/03/2019

Evasão blogueira

The Writing Cooperative

    Recentemente um amigo decidiu abandonar tanto seu blog quanto seu canal de vídeos, ele não é o único e sequer o primeiro. Os motivos são muitos, basicamente os mesmos que tornam minhas publicações tão esporádicas, mas acrescentemos aqui o fator frustração. A era de ouro dos blogs passou e durou pouco, deixando a pouquíssimas pessoas um contingente significativo de seguidores.

    Em geral as pessoas não gostam de ler. Se um texto tiver mais do que dois ou três parágrafos, as chances de êxito são mínimas. Há os que conseguem se adaptar a isso, simplesmente porque o que têm a dizer pode ser dito com poucas (ou até nenhuma) palavras. De outro extremo há os apaixonados por textos prolixos, retóricos e verborrágicos, do tipo que gasta três capítulos pra dizer as horas. O leitor equilibrado e paciente, que era o público maior da maioria dos blogueiros, não está mais disponível. Não sei se a situação é perene, mas certamente não se reverterá tão cedo.

    Some-se a isso o pacote de expectativas que mesmo os de pensamento mais a longo prazo trazem e protegem. Passar anos sem resultados expressivos, desanima. Um deles reclamou de estar cansado de se esforçar para ter seis ou sete comentários nos textos, e não mais do que uma dúzia de acessos em seus vídeos; cifras que há anos eu não conheço. É como conversar com o espelho. Para algumas pessoas, isso basta, mas não para quem quer passar conteúdo. E meus amigos têm MUITO conteúdo para passar. Eles têm cultura, têm acesso a livros e filmes, conversam rotineiramente com técnicos especializados e, principalmente, eles estudam muito aquilo de que pretendem falar.

    Eu não os culpo. A situação chegou a um ponto em que só quem vive de renda ou do blog, pode se dar o prazer de fazer textos e publicar vídeos todos os dias. O mundo real dos trabalhadores comuns, mesmo os de classe média, não permite isso. Quando se tem família, a coisa complica ainda mais, e geralmente a família é o pior dos públicos; o que menos acessa e o que mais critica. Viver de blog ou canal de vídeos não é para todos, os patrocínios não são infinitos e os contadores de acessos não vão com a cara da maioria de nós. E tem piorado. Recentemente alguns canais de divulgação simplesmente fecharam, o último foi o "Google+", que respondia por metade ou mais dos meus parcos leitores.

    Aliás, um dos meus antigos blogs foi apagado. O Wordpress não aceita mais o meu perfil, não com os baixos acessos que eu tenho. Bem, eles têm custos, têm que pagar os funcionários e impostos; amor ao próximo é uma prática e não um meio de vida.

    Não é tão fácil com parece colocar as idéias com acento no papel, ou no seu monitor. O cérebro não é um computador, é uma coisa MUITO mais complicada e melindrosa, um simples mau humor ou uma irritação no decorrer do texto, pode arruinar a publicação. E não é tampouco só questão de se esperar pelo tempo oportuno, porque somos adultos e as atribulações do cotidiano REAL podem simplesmente desvanecer aquela idéia que não for publicada imediatamente. Enfim, viver de blog ou de vídeos é para quem pode se dedicar totalmente a isso, salvo raras exceções.

    Um dos elementos apontados como vilões é a rede social, que dá seus recados rapidamente com textos curtíssimos e memes, embora lá também haja os que queiram lacrar com textões desnecessariamente gigantescos; estes eu simplesmente lacro com um bloqueio. Ironicamente, essas redes sociais têm sido as grandes divulgadoras do que eu faço, mas talvez só porque minhas chamadas com link não têm mais do que duas linhas. Bem, acessam, se lêem até o final é outra conversa... realmente frustrante.

    Até quando este blog estará no ar, eu não sei. Sei que me manterei nisto até quando me for permitido, não será por minha vontade que esta página de quase treze anos se fechará. As esperanças pueris de viver de canais de internet, porém, jazem. Tampouco me importa mais ver as estatísticas de acessos, são tão pífias que continuar a vê-las só alimentaria minha depressão.

    Eu teria desistido há anos se tivesse ainda a vã esperança de receber um centavo por acesso; daria o quê? Uns quinze reais por mês, quem sabe. Talvez tivesse desistido há anos, se o volume de acessos ainda fosse uma preocupação, porque baixar o nível eu não vou!

    Por que então eu teimo feito um touro indignado? Porque algum dia o que eu publico aqui terá alguma relevância para a arqueologia digital. Não é ficção, já há gente gastando seu tempo com isso, como hobby. E como todo hobby, somando-se as pistas que publicações regulares dão sobre a sociedade de seu tempo, um dia será algo sério e relevante. É para isso que eu teimo. Não pé para mim, nem para o público que já não tenho, é para a posteridade. Penso em no mínimo cinqüenta anos adiante. Provavelmente não estarei mais aqui e, sinceramente, não quero estar.



    Não, meus amigos, isto não é uma despedida. é apenas uma satisfação aos pouquíssimos que restaram. Eu não vou parar enquanto tiver como continuar.

24/01/2019

Precisa complicar tanto?

   
A vida era muito mais simples. 1950s
    Smart tv;

    Conecte o cabo à antena. Ah, não tem antena? Então primeiro contracte um antenista, espere ele ter espaço na agenda e depois a instalação da antena; e é claro, pague por isso.

    Agora sim, conecte o cabo à antena, certificando-se de que está também correctamente contectado à entrada do aparelho. Se for o caso, e quase sempre é, conecte os cabos do receptor de sinais, certificando-se de sob hipótese alguma trocar as cores dos conectores. Se o aparelho estiver sobre seu pé original de fábrica, não é tão complicado, mas se estiver fixado na parede, as dificuldades e as chances de errar crescem muito, porque pode não haver espaço para ver com precisão onde se está enfiando o quê.

    Pronto, primeira parte do trabalho concluída. Agora a segunda.

    Ligue o aparelho com o controle dele, e o receptor com seu respectivo controle; não misture os dois! Com o televisor ligado, inicie os protocolos. Espero que tenha lido o manual do proprietário, porque vais precisar. Informe a localização precisa de seu televisor; ei, não adianta reclamar e se recusar, sem isso a fortuna que gastaste será jogada fora, porque ele NÃO VAI FUNCIONAR se não deres satisfações de tua vida ao fabricante.

    Vamos lá, informe a localização, a área, a cidade, o CEP e o que mais o software exigir. Por que ele não pede, ou se informa tudo direitinho ou ele não libera o uso de tua propriedade. Feito isso está tudo pronto, certo? ERRADO! Agora é hora de "configurar" seu aparelho. Sim, configurar! Con-fi-gu-rar. O computador interno poderia ser programado para receber o sinal do satélite e fazer isso sozinho, mas não o foi. Vamos lá, comece a apertar esses botões, e tome cuidado para não apertar o que não deve.

    Há a opção de buscar manualmente os canais, mas é dor de cabeça, melhor deixar esse trabalho para o aparelho; pode demorar bastante. Não, ele não vai buscar os canais à medida em que apertares os botões para trocar de emissora, tudo tem que ser feito AGORA! Depois tu mudas de canais manualmente.

    Tudo pronto? Se tudo deu certo, talvez possas começar a assistir a algo, mas pode ser que o televisor não tenha reconhecido de imediato o receptor de tevê por assinatura. Então vamos lá, ao controle remoto do televisor. Em algum lugar nesse pandemônio de botões, há um com algo que lembre uma entrada ou indique a ponta do cabo com que os dois aparelhos deveriam estar se comunicando; aperte-o. Use o cursor vertical para selecionar os cabos do receptor e aguarde.

    Enquanto isso, vá lá fora ver o mundo, ver pessoas, lamentar as modas novas, ver os carros novos e chorar de saudades dos antigos, enfim, deixe a tranqueira cibernética trabalhar.

    Ok, serviço terminado, agora é hora de... configurar a internet. Que foi? Pensaste que seria assim fácil, como um computador? A tevê inteligente é burra! Ela tem tudo programado em sua placa mãe, mas precisa ser ensinada assim mesmo, e o risco de esquecer tudo depois é grande! É a modernidade, cara-pálida, eu lamento. Essa coisa é sua só no discurso do fabricante.

    Vamos lá, deixe de preguiça e exercite esses dedos! Tente descobrir que jargões o fabricante colocou naqueles comandos, porque cada um tem o seu próprio. Tente identificar a rua rede de wifi, espere que o aparelho a identifique e forneça a senha ao mesmo sistema que está transmitindo tudo para sabe-se lá onde aos cuidados de sabe-se lá quem para sabe-se lá o quê. Feito isso, se não tiveres cometido NENHUM ERRO, mas nenhum mesmo, então é hora de aprender a usar aquele controle estúrdio como usaria o mouse ou a tela de toque de um computador; só que infinitamente mais complicado e propenso a fazer besteiras.

    Aprendido a contento, treine um pouco para fazer o mínimo possível de besteiras, porque esse aparelho burro não vai perdoar nenhuma. Haverá casos em que tu não terás feito absolutamente nada de errado, nada mesmo! Ainda assim a tranqueira vai se esquecer de tudo o que foi configurado e terás que refazer ABSOLUTAMENTE TUDO DE NOVO. Pode ser uma queda prolongada de energia, uma pane na emissora ou no provedor de canais, enfim, vais ter que trabalhar para o fabricante, porque nenhum dos gênios que chama essa burrice de televisor esperto levou em consideração que um leigo que só quer ver televisão, teria que lidar com aquela burocracia estúpida.

    Só mais um detalhe, tome muito cuidado para não violar os termos de garantia e a propriedade intelectual do fabricante, algo que tu podes fazer sem ter a mínima idéia de que o está fazendo. Porque se isso acontecer, não só perdes a garantia como o fabricante te processa.

    Televisor das antigas;

    Instale a antena, ligue o televisor na tomada, aperte o botão de ligar, escolha seu canal e se divirta. Se for o caso, dá para adaptar um conversor digital, qualquer bom técnico pode fazer isso. A televisão é sua.

01/12/2018

Dead Train, o meu livro



   Caríssimos, não é segredo para vós que tenho uma veia literária minimamente apreciável. Sabem também que no tempo em que os blogs eram mais importantes do que as redes sociais, mesmo sento este um de pequena visibilidade, amealhei desafetos simplesmente por me opor aos dogmas que eles chamam de "intelectualidade"; tanto os de direita quanto os de esquerda e os que se dizem centro, mas nada têm de centrados.

    Para eles eu represento uma ameaça que o ocaso da era dos blogs parece-lhes ter calado em definitivo. Tolinhos! Desde 2006 eu nutro a intenção de colocar em páginas de papel aquilo que eu acredito, não da forma enfadonha e arrogante com que fazem os que se consideram a salvação incompreendida da humanidade, ele todos eles odeiam. Pretendo fazê-lo de forma lúdica e aprazível, sem mais terrores do que os necessários, deixando claro que o ocidente é sim um bom lugar para se viver e, vou além, é habitado por pessoas boas que demonstram em alienação e rudeza o medo que têm de errar; autocrítica que praticamente não existe do outro lado do mundo, e em nenhum lugar com tamanha monta quanto há no nosso continente.

    Bem, a trama terminada em 2017 gira em torno de seis amigos, uma delas brasileira, que despertam na fictícia e moribunda cidade de Sunshadow, Michigan, seus talentos musicais e a decisão de ganhar a vida cantando. Patrícia, Enzo, Ronald, Rebeca, Robert e Renata se conhecem nos anos 1940 e 1950, iniciando na década seguinte o que será a maior e mais importante banda da história.

    Incidentes graves, atentados contra suas vidas, assédio da imprensa e arremedos, teorias conspiratórias, lendas urbanas, viradas de mesa e o imenso peso que repousa e cresce gradativamente sobre os ombros do sol de todos eles: Patrícia. Dona de uma beleza rara e intensa,  uma capacidade de liderança ainda mais rara e inata, e uma personalidade tão complexa quanto (às vezes) difícil de lidar, ela herda de sua saudosa avó a devoção e o respeito dos sunshadowers, seus concidadãos.

    Sua imensa beleza lhe traz alguns dissabores que a acompanham pelo resto de sua vida, esta dedicada a proteger seus entes e amigos. Seu imenso amor pelas crianças por vezes torna seu coração duro e frio como granito, ao se deparar com pedófilos e infanticidas. Seu envolvimento com o mundo das conspirações internacionais a torna admirada e odiada por pessoas que sabem que não podem simplesmente tocar nela, sem caírem fulminadas. Como os muitos clichês que uso com parcimônia, tal qual um receituário de manipulação medicinal, me valho da beleza escancaradamente ocidental e a mente afiada de nossa protagonista para dar ao leitor uma idéia com acento do que realmente é o mundo em que vive.

    Não poupo os Estados Unidos da América, assim como não pouco a República Federativa do Brasil, eu não poupo ninguém, nem a mim mesmo; tampouco chamo de republifederenses os que chamam os americanos de estadunidenses. Entretanto, não me fixo nos podres de países que não fizeram a desgraça da humanidade sozinhos. Ninguém que tenha tido a oportunidade deixou de fazer mal a outros povos, e muitos ainda o fazem igual ou pior do que a civilização euroamericana, à qual todos os dedos acusatórios apontam.

    Paralelamente, mostro os perigos ao mundo que a conveniência e o apego ao conforto, mesmo o conforto intelectual, têm nutrido nas últimas décadas. meus queridos, não é porque os antepassados de uma sociedade tenham sido perversos, que os descendentes também o sejam, e um passado de sujeição à opressão não torna uma sociedade boazinha. O oriente não é e nunca foi o paraíso, assim como o ocidente não receberia tantos imigrantes se fosse o portal de satanás que muita gente alardeia ser. Mostro no livro que nós, ocidentais, somos apenas humanos como são os orientais, que superestimam por sabotagem interna consciente ou não o poder alheio, por propaganda vinda de lugares onde a autocrítica e a emissão de uma opinião podem dar pena capital.

    Há choro, há luto, há risos e celebrações, há culturas que precisei criar do zero para ser o mais didático possível. Tudo isso em um universo entrelaçado com cuidado à história do mundo real, a ponto de os poucos betas que me deram retorno terem perguntado onde fica Sunshadow; fica no meu coração.

    Para facilitar a digestão da história, me permiti o uso de um pouco de literatura fantástica, para ilustrar em parábolas e mensagens subliminares o que tenho a dizer. Não houve abuso, me policiei muito para isso, mas expus tudo de forma mais clara do que a verdade nua e simples conseguiria.

    Utilizo o blog Talicoisa, que estava praticamente esquecido pelos meus antigos colaboradores, e desde de que comecei essa encrenca voltou a ter alguns acessos, mas acredito que possa ter mais. Acredito que este método de divulgação pode tornar menos difícil a concretização, em celulose, do primeiro passo dos meus planos gerais de dominação mundial. Se começarem a desconfiar de coisas demais, não se preocupem, apenas guardem segredo... para o bem de vocês.

    Sem mais, espero que gostem das mais de 900 páginas que publico aos poucos e com cortes, para preservar as surpresas, facilitar a leitura on line e preservar meus mais de dois anos de trabalho exaustivo. Peço paciência, só agora tive o lampejo de mostrar aqui o que já tem 106 capítulos publicados.

    Cliquem no link, leiam, comentem, opinem e dêem retorno com circunflexo. A viagem começa aqui.

17/11/2018

O motorista a 80

Experição ZE Rádio Cultura

    Nesta semana um colega veio me dizer, após uma conversa banal, que só Deus agrada todo mundo, no que soltei "menos os ateus". Eu esperava que tudo terminasse por aqui, mas ele ficou realmente transtornado. Disse mais de uma vez (bem mais, diga-se de passagem) que deve ser muito triste a vida e quem não acredita em nada, que seria uma vida vazia e sem sentido; como se o índice de suicídios entre os teístas fosse zero.

    Vamos a alguns factos. Algumas das melhores pessoas que conheço são ateias ou agnósticas, o que para muita gente é a mesma coisa, mas não é. Essas pessoas lêem muito, pesquisam muito, esmiúçam todas as vertentes possíveis do que estão investigando, conhecem as principais religiões melhor do que muitos de seus sacerdotes. Não que sejam imunes a algum dia abraçarem alguma fé, assim como é bem comum fieis antigos deixarem de ver sentido no que fazem e não passarem a enxergar nada mais do que palavras escritas por homens, onde antes viam a palavra divina.

    Não confundir ateus e agnósticos com aquela turminha de que já falei: os chateus, teofóbicos e misoteístas, estes merecem um pé nos fundilhos e um bloqueio em qualquer rede social e antissocial.

    Voltando aos que valem à pena, os ateus e agnósticos não acreditam simplesmente porque não foram convencidos. Ninguém acredita no que não convence! Acreditar porque "assim está escrito" é fanatismo, é dogma. Ateus são cientistas inatos e habilidosos, não se dão o direito de portar uma verdade absoluta. Ainda que uma ideia não possa ser comprovada de imediato ou a curto prazo, eles ainda aceitam uma explicação convincente e minimamente respeitosa com a lógica. Não a TUA lógica pessoal e doutrinada, mas A LÓGICA, aquilo que quase sempre pode ser expresso em equações e não faz troça com as leis da física.

    Posto que a ideia de uma divindade não os convence, portanto não tem sua adesão, para eles simplesmente não existe. Simples assim.

    Não existe, então não faz falta. Não faz falta, então a ausência não implica em tristeza. Eles não são tristes por não acreditarem no que vocês acreditam, ou por acreditar no que vocês não acreditam. e quando acreditam, não é por fé, é por comprovação ou, no mínimo, por coerência com o mundo real.

    Imagine que um motorista viaje a 80km/h em uma boa estrada. Não há sinalização, não há guardas de trânsito informando, não há nem mesmo indicação no mapa. Ele para em um posto e aproveita para comer. No restaurante, enquanto come, ouve gente falando com espanto de um carro cuja descrição corresponde ao seu. Todos criticam, mas cada um por seus próprios motivos. Alguns dizem que ele estava rápido demais, que nem dava para ver a placa e que causaria um acidente. Outros diziam que ele estava atrapalhando o trânsito por andar devagar, que causaria um acidente e morreria de velho antes de chegar ao seu destino.

    Curioso e atento, como todo motorista que se preze, ele prestou atenção ao que estavam falando. Os que criticavam sua rapidez estavam parados ou de bicicleta. Ele passou por alguns pedestres e ciclistas, mas estava longe deles, às vezes as bicicletas estavam na pista secundária ao lado da estrada, livres de qualquer risco. Concluiu então que as queixas destes não faziam sentido, não para aquela situação.

    Os que criticavam sua lentidão eram os que passaram zunindo por ele. Motorista habilidoso e consciente que é, sempre se mantém à direita até ser necessário ultrapassar. E o movimento da estrada era pequeno, houve poucas ultrapassagens ao seu carro, destas, nenhuma se deu com mudança de faixa, ou seja, os apressados estavam sempre na pista da esquerda. Não precisou sequer tencionar o braço esquerdo para dar passagem. Concluiu então que essas queixas, para aquela situação, também não faziam sentido.

    Ele não tinha pressa, a estrada não estava ruim, seu carro estava em óptimas condições e ele simplesmente não põe álcool na boca quando dirige. Viu o relógio, ainda tinha tempo de sobra, chegaria antes do pôr do sol. Continuou a comer, depois pagou a conta e foi embora. Nenhum dos queixosos disse algo que invalidasse sua decisão e seu modo de dirigir.

    Chegar antes não lhe daria ganho e se atrasar seria perder o pôr do sol que queria registrar, durante sua estadia.

    Haveria um modo de dirigir? Provavelmente sim, com toda certeza ele poderia conseguir algo melhor, mas o método e os motivos para tanto não lhe foram apresentados. Simplesmente bradavam "O meu modo é que é o certo" e "motorista de verdade dirige como eu".

    Assim funciona, a grosso modo, a mente de um ateu, ou um agnóstico. Dizer que ele é triste por não ter um deus é como dizer que uma andorinha sente falta de um sofá. As pernas da andorinha não foram feitas para ela se sentar e seu traseiro não foi feito para suportar seu peso, uma superfície acolchoada não lhe faz a menor diferença. Seus ovos precisam de algo que absorva o impacto, mas é só. Elas não ficam tristes por repousarem em um galho rígido, aquilo supre suas necessidades de descanso e talvez até de pernoite.

    Meus caros, não é o ateu que fica triste por não ter fé, a vossa fé fraca é que necessita da adesão alheia. Não confundam as coisas.

31/10/2018

Epitáfio de um vivo



  Não lamento as perdas ditadas pelo ciclo do inevitável, cuja vacância resultante abre a porta para o novo; sem a respiração deste ciclo a vida estagna e apodrece.
    Não lamento as perdas mais caras que cumpriram com seu dever, cuja dor resultante empunha a forja do caráter; sem os golpes deste ciclo o espírito enfraquece e sucumbe.

    Lamento somente a porta trancada que não permitiu a entrada do novo, deixando a perda crua e seu ônus descoberto sem a bonificação.
    Lamento silente a perda que em vão deixou sua vaga vazia e ressonante nas quatro paredes duras do vazio que se estabeleceu perene.

    De tudo o que perdi, vi cego em flashes fugazes a fuga do que fazia a diferença, levando consigo seu valor. Ainda que tudo perdesse havia então a esperança de tudo recobrar, ainda tinha eu a vontade pujante de viver.

    De tempos em tempos mais um pedaço que tinha morrido deixava o vazio maior, evaporando no nada em que as lembranças de apoiavam; Era duro sustentar tanto peso no vazio.
    De tempos perdidos eu já tinha um cervo que adoçava com a calda da esperança, evaporando as lágrimas vertidas das dores lavadas; Era duro perceber que ainda assim a dor aumentava.

    Cantei silente a melodia que aos poucos se desvanecia da memória sobrecarregada, deixando em brumas tudo o que tinha nitidez.
    Cantei inocente a esperança de que toda perda eu recobraria no fim da estrada, mas a força pujante sem reposição um dia se esgota.

    De tudo o que perdi, vi já não tão cego, mas ainda nebuloso a fuga da esperança remanescente, levando consigo seu calor. Ainda que tudo perdesse havia então a decisão de tudo recobrar, ainda tinha, petulante, a firme decisão de viver.

    Já havia mais passado do que porvir, o prazo escasseando indiferente ao que eu sonhava ou deixava de sonhar, e o sonho perdeu as cores como uma photographia exposta à chuva e ao sol; É duro perceber que só lembro o que sei, que o sentimento desapareceu com os rostos.
    Já havia mais pesares do que sorrir, os olhos secando pela lágrima faltante hoje dificultam dormir, e dormindo não há mais sonhos que refaçam a lucidez perdida, somente monstros das lembranças distorcidas; É duro enxergar mais do que pelo espelho se vê.

    Chorei mudo o choro seco que a meus olhos irritava, vindo então como única certeza o campo estéril que meu trabalho não foi capaz de fertilizar.
    Chorei alheio ao mundo em meu mundo fechado para não ser incomodado, vendo minha distopia desmoronar e revelar a areia suja do tempo de quem sofre só.

    A inércia mantém o movimento, Deus sabe até quando. A estrada não parece ter fim, o aclive mais íngreme a cada passo, mas parar não me pouparia do cansaço, só aumentaria a dor da fadiga. Não viria o desenlace para tudo terminar, só aumentaria o sofrimento da dor crescente. Músculo quente dói menos, músculo só se aquece em movimento.

    De tudo o que perdi, vi então ante minha cegueira moribunda, nada mais fazia diferença, nada mais tinha sabor. Ainda que tudo recobrasse nada mais serviria em meu favor. Já tinha eu, sem perceber, perdido a mim mesmo.

23/10/2018

Cartilha do que é Pedro


Isto é Pedro / Não é mais.

Segundo as definições acadêmicas, catedráticas e intelectuais sobre Pedro, Pedro é um homem de barba cheia com olhar vago e cabelos longos. Pedro usa camisa xadrez verde e jeans índigo tradicional, com sapatos marrons de bico largo. Ou seja, isto é Pedro! Pedro tem barba, assim ele foi definido e só assim será reconhecido e devidamente tratado. Está claro e inequivocamente descrito em nossos conceitos escritos em linguagem adequadamente academizada e prolixa, com os neologismos pertinentes.

Isso é parte dos cânones dos anais retóricos de nossa conceituologia amplamente debatida democraticamente enquanto empoderamento ao nível de contribuição acadêmica a uma sociedade que deve se adequar ao decidirmos que assim seja. Foi decidido e aceito por ampla maioria e decretado que todos deve aceitar que assim o é. E “TODOS” inclui VOCÊ, seu subversivo! Foi decretado democraticamente em reunião da qual só nossos membros foram avisados, portanto TODOS DEVEM SE SUBMETER democraticamente às definições do colegiado!

O que temos aqui NÃO É PEDRO! Não tem barba! Todo o resto coincide, mas NÃO TEM BARBA! Portanto NÃO É PEDRO! Pare de insistir que esse aí é Pedro, seu ignorante sem pompa universitária! Seu disseminador de fake news! Seu inimigo de tudo em que eu acredito! Vai estudar Pedro, vai! Sua marionete de interesses estrangeiros enquanto neocolonialismo globalista!

Quem você pensa que é para contrariar meus filosofinhos de estimação? Eles disseram que esse aí não é Pedro, portanto NÃO É PEDRO! NÃO É PE-DRO! Você só lê coisas de exactas, coisas de matemática, que é inútil! Eu li Nietzsche! Eu rinite! Tendinite! Portanto eu sou intelectualmente superior e você é hierarquicamente inferior, portanto tem que calar a boca e respeitar minhas deliberações!

Veja aqui, seu ignorante sem argumentos! Aqui está escrito o que é Pedro! Você sabe ler? Sabe, seu ignorante? Então leia o que está escrito aqui! Pedro tem barba! Não me interessa o que essa cara aí faz, ele não tem barba, portanto ELE NÃO É PEDRO! Sua falta de intelectualidade canonicamente aceita em nossos manuais te fez aceitar idéias que estreitaram sua visão crítica, que só existe dentro do meu círculo! Aceite e se submeta, se sabe o que é melhor pra você, seu sabotador!

Validação? "VALIDAÇÃO"? O que você quer dizer com isso? Você devia ser morto por acreditar nessas coisas! As deliberações de nossa entidade não precisam de validação externa, nós somos autovalidantes! Nós temos os intelectuais! Nós temos a literatura! Nós não precisamos resolver problema nenhum, nossa existência se basta! Você é que tem OBRIGAÇÃO de seguir o que decidirmos! E nós decidimos que se não tem barba, não é Pedro! Só será Pedro quando a barba voltar a crescer e tiver o corte determinado por nossos manuais!

Enfia esses documentos no rabo! Você nem devia estar aqui, num lugar de intelectuais imprescindíveis ao mundo! E joga essa p@##* de documentos fora agora! Isso não vale nada! Nossa cartilha decretou que Pedro tem barba, então ele não é Pedro! Enfia a constituição lá também, só seguimos as deliberações do comitê, essas leis aqui a gente usa pra limpar a bunda! Vai se #*@& babaca! E sai logo da nossa área senão vai ver, a polícia ainda não pode entrar aqui!

- Ok, Pedro, vamos oferecer os estágios remunerados com casa, comida, roupa lavada e passeios turísticos em Michigan para outro grupo.

- Aqueles ali, conversando alegres com quem não concorda com eles, deve aceitar.

P.S: Texto curto baseado no que eu já li, vi e ouvi... e ainda ouço.

29/09/2018

Esther; ritual de desaceleração


    Esther conclui o que lhe cabe na limpeza da casa. Certifica-se de que está tudo dentro de seus rígidos padrões de qualidade. Tira o avental branco de babado e o pendura com o avesso ao sol. Vai ver o que o mastim Israel está fazendo, ele já é adulto, mas seria pedir demais que fosse também um exemplo de civilização; se nem a humanidade o é.

    Atravessa o canteiro de dedaleiras, que cercam as cenouras e abobrinhas. Há outras dessas combinações no amplo quintal. Lá está ele, brincando com o gatinho malhado Hebron. Ajeita o longo vestido chemisier de estampa mineral em tons de verde escuro, afaga os dois e então sim, volta para dentro e vai usufruir de seu descanso. Há uma diarista que a ajuda duas vezes por semana, após longa insistência da família, mas ela não baixa a guarda por isso. Desloca sua esbelta massa até a biblioteca, pega um livro de psicologia no meio milhar de títulos disponíveis, então começa o ritual de desaceleração.

    Passa pelo laptop desligado sobre a mesa e vai ao toca discos. Ganhou de Joseph um long play de Adele. Examina a capa, confere as músicas, tira o disco da embalagem e abre o aparelho. Tudo em gestos suaves e delicados, a parte pesada do dia já terminou e seus filhos já não são mais crianças para se preocupar com pequenas demoras; eles têm suas próprias vidas e ela sempre recebe mensagens dos dois.

    Abre as cortinas como se estivesse em um movimento de balé clássico; elegante, delicada e perfeitamente sincronizada. Admira seu jardim e então sim, põe o disco no pick-up, liga, regula o volume, põe a agulha com cuidado e senta-se na poltrona à mesinha do telephone de baquelite rosa. Para quem vê, se parece com uma fada austera, para quem a conhece é a ama e senhora de tudo e todos entre os muros do lote.

    O disco gira e a agulha finalmente inicia a primeira faixa, coincidindo com o início da leitura. Ela balança a perna sobreposta, acompanhando a música, começando a se esquecer das vezes em que tentaram convertê-la no decorrer da semana. Ficou muito irritada com a petulância, mas agora quer dissipar tudo. Lê pacientemente cada página, às vezes fazendo anotações, em hebraico, no bloquinho que tem junto ao telephone, com sua clássica Parker 51.

    Cada parágrafo é uma pausa para meditar sobre o que foi lido, revisar as anotações e voltar a meditar. Evita pensar em problemas, pensa em planos. Volta à leitura com o mesmo cuidado, que já é seu modo natural de ler. Não está alheia ao ambiente, só está concentrada no que está fazendo.

    O lado A do disco termina. Levanta-se em movimentos femininos até o toca discos, levanta a agulha, vira o disco e recomeça tudo. Volta à poltrona e retoma sua leitura. mas é leitura mesmo, não apenas uma passada de olhos para memorizar algumas partes. Lê palavra por palavra, ouvindo-se mentalmente a narrar a leitura, para assegurar-se de que está lendo o que está impresso, não o que uma mente distraída e impaciente inventaria.

    O lado B termina e ela conclui a leitura por hoje, põe um marcador na página e vai em passos semicirculares à estante de onde o tirou. Guarda também o disco e vai à cozinha, fazer o chá da tarde. Escolhe a xícara, com pintura de rosas cor de rosa e bordas douradas, e a colher que usará. Faz sua alquimia com as ervas para ter o que deseja, então inicia outro ritual, de aquecimento, fervuras controladas e filtragem. O que resta vai virar adubo para seu jardim. Adiciona mel, mistura e começa a tomar, agora sentada na cadeira de balanço da varanda. Nesse ínterim chega Sarah, ela está visivelmente aborrecida. Esther diz para que faça um chá e a acompanhe, enquanto conversam a respeito.

    Faz tal qual a mãe lhe ensinou, repetindo os procedimentos que ela executou há pouco, e com o controle que se acostumou a ter nesse processo, boa parte da irritação se dissipa, a ponto de ela conseguir conversar a respeito sem alterar a voz. Não é nada de extraordinário, ela está acostumada como a mãe a se envolver no que está fazendo, assumir a responsabilidade e arcar com todos os ônus...

    - Mas as pessoas lá fora nem sempre são assim, Sarah. Você não pode exigir de uma pessoa mais do que ela pode oferecer e nem o que ela não estiver disposta a oferecer. Eu sei o quanto isso é irritante, foi para isso que lhe ensinei a desacelerar. Uma cabeça acelerada pensa rápido, mas não raciocina direito e é virtualmente incapaz de meditar sobre qualquer coisa. Você não pode esperar muito de quem não se compromete com a própria vida, que dirá com os colegas! Respire e tome seu chá.

    A moça acata. Embora os problemas não se dissipem, e nem é esse o objectivo, os resultados daninhos do que passou hoje sim. Aos poucos o cheiro de estresse e fuligem se desvanece de sua memória. Respira fundo, olha para aquela dama sorridente à sua frente e não tem como não sorrir também. Ama aquela mulher de forma quase devocional, ama aquela casa como se não houvesse no mundo outro lugar habitável. Logo não tem mais do que reclamar, estaria apenas repetindo a ladainha alheia de como o mundo é mau e injusto.

    Retoma com a mãe a conversa de ontem, sobre seus planos e a firme intenção de dar-lhe netos.