19/02/2014

Esther e Sarah


  Sarah chega em casa pensando na aula de philosophia de hoje. Sempre gostou da matéria, mas às vezes aparece um professor que tenta enfiar em suas cabeças, na marra, uma opinião pessoal como se fosse uma lei da física. Não raro, com um pouco de pesquisa, a garota descobre que ele pouco faz além de jogar nos alunos as suas frustrações e seus traumas recolhidos. Entra já procurando pela mãe, como sempre fez, Dá-lhe um abraço, um chamego, os tem retribuídos e vai desmontar o figurino de estudante, para ajudar na cozinha.

  Após uma pausa, aproveitando que o pai e o irmão estão viajando, aborda Esther sem o risco de ter a conversa interrompida...

- Mamma... Qual a sua motivação pra viver?
- Nenhuma, Sarah. Por que?
- Como assim "nenhuma", mamma??
- Eu não preciso de motivações. Eu faço o que for necessário e pronto!
- Então a vida, pra senhora, é uma necessidade?
- Também não. A vida é um meio básico de eu satisfazer uma necessidade.

  Sarah observa a mãe com a sobrancelha esquerda levantada, fazendo cara de "Meu D'us, que maluquice é essa?", arrancando uma gargalhada da genitora, que assim se distrai um pouco de seu crochê...

- Juro pelas tábuas sagradas que não entendi.
- Sarah! Você realmente precisa de um motivo para fazer alguma coisa, minha filha? Precisa mesmo sentir que será recompensada de alguma forma?
- Não...
- "Não"? Tem certeza?

Ela encara seu rebento com um sorriso bem esticado, como se dissesse "Não minta para mim, te conheço melhor do que você mesma". O sorrisão e o olhar de piedade encorajam arriscar uma resposta...

- Quer dizer... Eu espero que o que eu for fazer, me traga alguma satisfação, mas isso é básico, não é?
- "Mas isso é básico, não é?" Sarah? Minha filha, você não tem certeza de sua convicção?
- Eu... Mamma, não faz isso comigo...
- Tem?
- Não...
- Óptimo! Isso é muito bom. A falta dessa certeza te abre à humildade para reconhecer um possível erro, e mudar sua linha de pensamento quando for necessário.Você sabe por que eu estou fazendo esta toalhinha de crochê?
- Para o papa não se incomodar com o suor na nuca.
- Isso mesmo. E por que eu estou fazendo isso por ele?
- Porque o ama, é claro.
- Não. Amo seu pai independente de qualquer fator, apesar de todos os defeitos dele. Eu fiz guardanapos para colocar entre os pratos, no armário da cozinha, mas não tenho o menor amor por eles. Faço esta toalha porque ela é necessária. Decerto que eu vou ficar muito feliz de seu pai ter algo confortável para absorver o suor, nos trabalhos de campo, mas eu não estou fazendo isto para eu me sentir feliz, estou fazendo para o problema dele ser resolvido sem que outros venham por efeito colateral.
- Então a senhora faria algo assim para os garis da nossa rua?
- Faria? Não, eu fiz toalhas de algodão para eles prenderem atrás dos bonés, para sofrerem menos com a insolação.

  Sarah medita por alguns segundos, já com as sobrancelhas devidamente alinhadas. Olha para a mãe, que já ostenta uma expressão meiga, se recosta no sofá e se abre...

- Estou ouvindo, mamma.
- Sarah, minha joia, se eu fosse expressar meu amor por seu pai em uma toalha de bolso, ela não seria de crochê. Meu trabalho seria inglório, jamais terminaria porque eu nunca conseguiria colocar em um objecto o que tenho para ele em meu coração. Também não devo ser egoísta de só fazer esta toalhinha porque o amo, estaria me presenteando, a solução do problema dele seria secundária. Eu estaria sendo egoísta. Da mesma forma, eu estaria sendo cruel comigo se me impusesse essa tarefa, seria um círculo vicioso. Se o facto de ser necessário e estar na sua alçada não for uma motivação em si, minha filha, então você não quer realmente fazer algo. Se eu fosse precisar de recompensas motivacionais para viver, eu já estaria morta. Já tentei suicídio, sabia?

Ela não responde, apenas se agarra aterrorizada à mãe. A olha como se a segurasse pendurada no trigésimo andar. Esther, por sua vez, a acolhe e afaga, mas com um olhar impassível...

- Você não teria nascido, se eu tivesse cedido àquela tentação.
- Mas agora você estaria sofrendo muito!
- Ah, minha joia! Você começou a entender. Foi uma fase, já passou. Foi bem antes de eu me debruçar na nossa doutrina. Um dia eu te conto. O facto é que eu não tinha motivos para continuar viva, não sentia prazer nenhum em acordar todas as manhãs e ter que esperar dar dez da noite para voltar a dormir e me livrar do mundo, por algumas horas. Eu estava sendo muito egoísta e ingrata, Sarah! Muito mesmo! Eu só pensei no meu prazer, me iludindo com os pensamentos de que minha família viveria melhor sem um peso morto para alimentar. Eu não estava realmente pensando nela, estava pensando no meu umbigo e em nada mais. É isso o que acontece com a maioria absoluta das pessoas, Sarah, elas precisam de uma luz no fim do túnel para continuar caminhando, por isso param de andar quando não a enxergam mais; geralmente não a enxergam porque passam a olhar para baixo, para o umbigo, quando ela está lá na frente, ligeiramente para o alto. A escuridão pode até te privar da visão, momentaneamente, mas não te torna paraplégica. O prazer que tanta gente busca, minha joia, pode ser obtido de graça, todos os dias, se essa gente parar de adular o próprio ego e passar a fazer as coisas que precisam ser feitas, sem pensar em mais nada além de concluir a contento a tarefa. Existe um prazer sutil, mas duradouro, que vem como conseqüência natural. Não fique assim, a Esther estúpida daquela época já não tem nada a ver comigo.

- Fiquei com medo.
- Você pararia por causa desse medo?
- Acho que não, mas ele dói.

  Ela afaga o rosto da filha, fazendo uma expressão mais terna...


- Então você está entendendo, mas ainda precisa de refinamentos. Sarah, uma das coisas que eu aprendi com minha vida, é que a única coisa que justifica pensar em recompensas imediatas, é trabalhar em um emprego ruim. E olhe lá! Quando você foca na recompensa, acaba perdendo o padrão de qualidade que teria no que estiver fazendo, e muitas vezes perde também as lições que sua actividade tem para lhe dar. Eu não espero ser recompensada no trabalho doméstico, nem mesmo um sinal de gratidão, eu simplesmente me entrego ao serviço que tenho a fazer sem pensar em outra coisa. Mas sou recompensada assim mesmo. A primeira recompensa que vem é o tempo bem preenchido, sem ter lugar para arrependimentos. Há uma sensação de poder também, com o tempo você se torna muito mais forte do que as dificuldades do cotidiano, é como se a vida passasse a te respeitar. A terceira recompensa, você conhece bem, foi eu ter me tornado ama e senhora de mim mesma; nenhum pensamento ou sentimento derrotista tem vez em minha vida. Lembre-se de que eu não busco a serotonina produzida por essas sensações, que também não estão no meu horizonte, elas estão aqui dentro, comigo, e as renovo dia após dia. É mais um efeito positivo, eu me tornei uma pessoa mais tranqüila, porque a renovação diária não me permite atormentar pensando no dia em que serei feliz. Eu peço desculpas a você e seu irmão se nem sempre demonstro isso, é que essa felicidade também é uma conseqüência, por isso eu não demonstro a alegria escancarada que a maioria espera de uma pessoa feliz. percebe, Sarah? Eu não precisaria nem mesmo ter felicidade para continuar viva, ela vem atrás de mim. É como o prazer, que é um resultado maravilhoso, mas só traz frustrações quando é o objectivo. Faz parte de ser uma mulher madura, minha joia, dizer ás emoções quem realmente manda em quem, quem deve servir e quem deve ser servida, quem precisa realmente de quem pra existir. Não é conversa de livreto de auto ajuda de banca de revista, é o resultado de uma surra que a vida me deu e me fez aprender a ser gente.
- A senhora não é uma pessoa sem sal, mamma.
- Não, não sou. Eu sei que às vezes sou tempestuosa, chego a parecer cruel, mas ser equilibrada não me priva de ter reações intensas, pelo contrário, me dá base para tê-las e também o seu controle. Quem disse que uma pessoa equilibrada precisa ser insossa?
- Meu professor de philosophia.
- Aha, está tudo explicado! Mais um que se considera a última reserva intelectual da humanidade! Ele repete o tempo todo "Eu li Nietzsche, eu rinite, tendinite"?

  Sarah dispara a rir. Esther espera que os risos cessem, enquanto novamente afaga os cabelos da filha. Continua com sua explanação...


- Se há uma coisa em que os livros falham crassamente, é que raramente demonstram os caminhos que os pensadores percorreram para chegarem às suas conclusões. A motivação, lembre-se bem, pode transformar uma morte em assassinato ou legítima defesa, suicídio ou heroísmo. O desconhecimento da estrutura que resultou em uma conclusão, torna as consecutivas limitadas, rasas e frágeis, incapazes de resistir à menor mudança de rumos, que o mundo toma sem aviso prévio com relativa freqüência. Dizer, por exemplo, que o prazer é o motor da vida, é levar ao pé da letra as palavras de quem pode ter chegado a uma conclusão ligeiramente diferente, como ter observado as pessoas de sua época e concluído que o prazer é o motor de suas vidas. O pensador, em si, pode ter uma posição completamente diferente. Repetir para si mesmo "Oh, que grande sacada! Que pensamento genial! Vou repetí-lo até acreditar nele" é tudo o que a maioria dos "philósophos" diplomados faz. Arrebitam seus narizes e fingem ter piedade das pessoas comuns, que chamam de alienados e ignorantes, ignorando que dependem delas para sobreviver. Filha, um philósopho de verdade não tem vergonha de dizer que não entendeu algo, de discordar de um pensador famoso, porque ele medita sobre a vida e não sobre seu ego melindroso. Nietzsche, por exemplo, era um homem, falível e passional como qualquer outro, não uma deidade extremamente evoluída. Aliás, a philosophia, em sua essência, nos ensina justamente a abandonar o ego. Foi abandonando o meu ego que eu abandonei também os pensamentos suicidas. Eu não preciso dele, ele precisa de mim.
- Pena que eu não posso colocar isso na prova da escola.
- Não lance suas pérolas aos porcos, eles as comeriam. Dê respostas medíocres e padronizadas para os medíocres padrão, guarde seu intelecto para quem estiver aberto a ele. É até bom que esse intelectual de ar condicionado te subestime, vai te poupar dos aborrecimentos de ser desafiada para disputas egoicas de pseudophilosophia. Sabe aquelas discussões de pontos de vista que não acrescentam coisa alguma? Pois sim, é um dos tipos de disputas de que falei. Ah, pronto, terminei a toalhinha do seu pai. Estou satisfeita. Por falar nisso, você anda calada sobre seu namorado, o que houve?
- Eu não tinha namorado. Eu namorava meu próprio ego, agora eu entendi.

Vão à cozinha, laboratório alquímico da matriarca, preparar um lanche para repor a energia que seus cérebros consumiram durante a conversa.

12/02/2014

Ava Indelicada

Sim, eu sei passar roupas! Aliás, sua cara está tão amarrotada! Vem cá!

Colaborando com o hábito de usuários se valerem de gente realmente famosa para passar recados, ou só zoar mesmo, apresento prováveis frases que dariam certo com Ava Gardner, conhecida como "O mais belo animal do mundo", por seu temperamento tempestuoso e sua disposição em passar o ferro de roupas na cara do primeiro que a confrontasse. Sua sinceridade cortante era um dos melhores seletores de amizades que alguém poderia ter, e acreditem, muita gente a amava apesar de seus rompantes.
  • Então você se chocou com o que eu escrevi? Pois eu estou chocada por você saber ler.
  • Sim, eu estou com TPM, mas também estou com um ferro de passar roupas bem quente, e você está próximo demais para falar besteiras.
  • Eu respeito a sua opinião, só não quero saber dela.
  • Meus parabéns a você, que assiste televisão só para falar mal e depois faz campanha contra seus patrocinadores.
  • Sem essa de "Nada pessoal", é pessoal sim! Cai fora ou te arrebento!
  • Eu não guardo ressentimento, guardo seu nome, endereço, problemas de saúde e os números de alguns rapazes barra pesada.
  • Sim, eu tinha um minuto para ouvir a "Palavra do Senhor", mas vocês gastaram dois se apresentando. Adeus.
  • Sim, eu te amo, mas isso não te torna à prova de balas. Comporte-se.
  • Eu não quero vocês chorando no meu velório, quero ter o prazer de ver isso em vida.
  • Não, eu não estou sozinha, minha pistola e suas vinte e uma balas estão me acompanhando.
  • Então se eu te jogar aos lobos, você volta liderando a matilha? Vale à pena arriscar.
  • Seus melhores amigos são o espelho e a balança, pare de ignorá-los só porque te dizem a verdade.
  • Eu não vou te bater por tão pouco, precisa muito para me arriscar a cometer um crime ambiental.
  • Entenda, eu não sou violenta, violentas são suas demonstrações de imbecilidade aos meus pobres ouvidos, só estou me defendendo.
  • Vai me bloquear se eu continuar postando coisas assim? Jura? Promete mesmo?
  • Então você está cansado de sua família chata e careta? Quantas entrevistas para emprego você já fez mesmo?
  • Suas idéias não me impressionam, me impressiona você acreditar que tem alguma.
  • Então você se sente um completo idiota por ter feito uma besteira! Meus parabéns, alcançou o auto conhecimento.
  • O adolescente cheio de atitude chega e diz que teria sido muito melhor ter sido abortado, eu lhe dou os parabéns, nunca é tarde para reconhecer um erro. Agora se mata!
  • Não me incomodo tanto quando você posta o que está comendo, me irrita é insistir em postar o tempo todo o resultado da digestão.
  • É claro que eu não acordo linda, penteada e maquiada! Só um idiota como você pensaria que uma mulher faz um make up para dormir!
  • Sua coragem me impressiona! Não é qualquer um que xinga alguém com uma faca de churrasco na mão, só porque está do outro lado do monitor.
  • Não me impressiona certas pessoas postarem besteiras, me impressiona é elas saberem escrever, com a inteligência que demonstram.
  • Compreendo, você tem orgulho de ser hétero, quer trancar as mulheres em casa e ficar cercado só de homens o dia inteiro. Faz todo sentido.
  • Quando eu vejo alguém postando "Diga não" a qualquer coisa, me dá uma vontade de responder "E por que não?".
  • Não, não sou jovem e minha vida não é um livro aberto, muito menos para analphabetos funcionais como você.
  • Seus elogios não me comovem, pelo contrário, me fazem pensar no que eu teria feito de errado para ter te agradado tanto.
  • Eu sei que isto engorda e faz mal! Agora tira o olho do meu sanduíche e cai fora!
  • No meu tempo de actriz, usávamos apenas maquiagem e todos nos reconheciam nas ruas, hoje é preciso o retrato na revista com o nome da fulana, para o público saber de quem se trata.
  • Você pode ser sincero comigo, não me ofende, é até uma oportunidade para eu treinar minha mira.
  • Sua mãe disse que você é lindo? Ela aproveitou e disse quem é o seu pai?
  • Incrível como vocês aprendem valores nobres com desenhos idiotas! Mais incrível ainda é não colocarem nenhum em prática.
  • Não tenha inveja do papel dos outros no mundo, descubra o seu e seja feliz; provavelmente é o higiênico.
  • Mas é claro que eu tenho TPM, celulite e mau-humor! O que você quer namorar, uma mulher ou um traveco?
  • Eu não preciso de motivos para estar irritada! Eu estou e pronto! Cai fora!
  • Eu não estou louca! Te bati consciente do que estava fazendo.
  • Não, você não é um perfeito idiota, precisa melhorar muito para conseguir ser um mais ou menos.

Texto em honra à irmã astral Patrícia Balan.

07/02/2014

Poupem gerúndio

Twitter by Orlandelli

O Ministério do Racionamento adverte, o gerúndio está com os níveis mais baixos da história, desde que foi inventado, ainda na pré-história. Pedimos aos cidadãos que façam uso comedido da linguagem, para que não falte em um futuro próximo, pelo menos até a próxima safra ser colhida.

Não se trata de uma metáfora colorida, que floresce rapidamente em qualquer canto e  mesmo sem cuidados, o gerúndio é uma fruta fina que tem sido consumida com voracidade e desperdiçada sem dó. Então, antes de xingar os perdulários, o Senhor Ministro do Racionamento mandou comunicar o alerta, para conhecimento e providência popular.

Seguem algumas recomendações.

  • Evitem gerundiar sem necessidade. Usem sempre o presente ou o futuro simples, eles quase sempre resolvem o problema de comunicação, geralmente até melhor do que um gerúndio indevidamente colocado;
  • Não ponha dois gerúndios seguidos em uma  oração, muito menos em uma só frase. É sabido que o vício pelo gerundismo força alguns dos dependentes a aplicar até três doses seguidas, em uma só frase. Não reproduziremos para justamente dar o bom exemplo e poupar o artigo que, repito, escasseia rapidamente;
  • Faça duas ou três versões do texto, para se assegurar que aquela quantidade de gerúndios é realmente necessária à comunicação da idéia. Caso seja, faça o texto mais curto possível, de preferência com linguagem mais seca, com orientações para que as partes não respondam com a mesma fartura;
  • No decorrer dos acontecimentos, faça como os portugueses, informem que as coisas estão a acontecer ou que acontecerão. De início as pessoas estranharão, mas vão entender e logo se acostumarão, o que até aumentará a riqueza do linguajar do vulgo;
  • Não dê opiniões que não lhe forem solicitadas, pois o risco de gerundiar sem necessidade é muito grande. Grande parte do desperdício de gerúndios, se deve às colocações intrusas e à falta de conteúdo, que incluem o desperdício das palavras "enquanto", "nível" e "junto", cujos níveis também começam a baixar de modo preocupante;
  • Reaproveitem textos, assim as pessoas passarão por eles e só perceberão o que estiver realmente fora de lugar, já tendo conhecimento seu conteúdo, o que evita que gerundiem em pensamentos, conseqüentemente também por palavras ao balbuciarem o que lêem.

Caríssimos, a situação é crítica. O Ministério do Racionamento jamais pensou que algum dia, nem nos sonhos mais loucos, seria necessário fazer uso comedido de uma linguagem tão popular, mas os tempos nos dão lições duras, urge que tenhamos consciência e a pratiquemos

Os grandes focos de verborragia, ainda não estancados, são os intelectuais de ar-condicionado e o serviço público, este sabidamente desdenhador do erário, quanto mais do vocabulário. Suspeita-se que a intenção seja, a fim de não parecerem que não sabem o que estão falando, quando geralmente realmente não sabem mesmo, parecerem mais cultos e inteligentes, causando boa impressão no público com textos prolixos, repletos de retóricas,  dialéticas e, claro, gerúndios desnecessários.

Sabido também que essas pessoas são muitas vezes protegidas, não raro em cargos comissionados ou indicados por políticos aliados, pedimos a compreensão do cidadão ordinário, que não faz uso de linguajar rebuscado para impressionar terceiros. A culpa não é sua, mas como no racionamento do FHC, novamente cabe a nós o ônus de restaurar a normalidade linguística, com o uso estritamente necessário do gerúndio.

As redes sociais, no entanto, não escapam ao vício gerundiocômano, em especial quando se trata de algum garoto a tentar impressionar uma dama de grandes encantos, ou mesmo petizes ainda mais crus do que o mesmo.

Pedimos também que evitem o uso de "enquanto", "nível" e "junto", especialmente seguido das partículas "de", "ao" e "em", estas que ainda têm bons estoques, mas não mais confortáveis como quando de nossas mocidades.

Alertamos, caríssimos, que pode haver alguma impopularidade inicial, na adoção dessas medidas, mas elas são absolutamente necessárias e demandam a maior adesão possível, para que a população em geral também as adopte por imitação; afinal, é tudo o que a massa faz mesmo.

Se tudo mais falhar, teremos que importar o português lusitano e utilizá-lo de modo definitivo, o que mesmo assim pode não estancar a verborragia, nos obrigando à penosa e prolongada transição para substituição do idioma. Talvez tenhamos que falar romeno, se não quisermos nos tornar de facto colônia cultural dos americanos; sim o nome daquele país é América.

Sem mais, aqui termina o comunicado do Ministério do Racionamento.

30/01/2014

Internet - Um drama adolescente

Praia do Arpoador 1966-67

Sempre foi um garoto normal, dentro do que se pode considerar normal em um adolescente, é claro. Fazia homenagens solitárias no banheiro, nem sempre se lembrando de limpar a bagunça, sempre dando aos “amigos” as satisfações de suas aventuras sexuais imaginárias. Os pais tinham vontade de torcer-lhe o pescoço pelo menos uma vez ao dia, como normalmente acontece nesta fase crítica da vida humana.

Implicava com as amigas da irmã, embora xavecando quando ela não estava por perto, implicava com seus namoricos, com as primas, com qualquer coisa que respirasse, enfim. Era um adolescente, caramba!

Certa feita, pelas ondas magnéticas da internet, encontrou um site de um colégio antigo e conceituado; até porque os de hoje só se interessam pelo vestibular, fazem os alunos memorizarem horrores que esquecerão assim que saírem da sala de provas. Lhe chamou a atenção a página de álbuns. Começou a ver só para poder implicar. Um narigudo que sustentaria o tráfico sozinho se começasse a cheirar, um balofo que faria sucesso no cinema como dublê de baleia, uma garota que rendeu uma homenagem solitária, outra que só se casaria com um cego, et cétera.

Começou a ver photos mais antigas e começou a implicar com elas também. Usando prints, já que o site não permitia salvar suas imagens, começou a postar algumas no facebook, com comentários maldosos sobre a moda de eras passadas. Os anos setenta e oitenta arrancaram risadas e piadas até perversas de seus contatos, em especial o comprimento de saias e shorts. Nenhum deles imaginou que poderia estar xingando seus próprios pais, em especial suas mães, a quem exigiam respeito sacrossanto e reverência antes de serem citadas por terceiros.

Retroagindo, começou a ver com alguma simpatia os anos sessenta, ainda que as saias fossem ainda mais curtas. Mais homenagens solitárias, mas tendo o cuidado de não deixar meleca espalhada no banheiro. O acervo do colégio era bem vasto, ele se divertiu muito vasculhando tudo, e salvando com um print screen o que lhe interessava. Em dado momento, chegando à segunda metade dos anos cinqüenta, começou a se encantar com uma aluna da época, de volumosos cabelos curtos. Sorrisinho singelo cerrando os olhos, franja bem penteada, cinturinha marcada e jeitinho maroto. Na época, deveria ser um pouco mais velha do que ele hoje. Vê os nomes no rodapé da photographia, identifica o dela e passa a buscar por mais. O registro mais antigo dela é de 1948, ainda menina.

Ele comete o erro de se apaixonar perdidamente por alguém que pode já estar morta. Já está meio tarde e amanhã precisa acordar cedo para ir ao colégio, mas salva o site nos seus favoritos, para continuar amanhã, assim que voltar das aulas. Sonha com ela durante a noite inteira, acordando a casa no meio da madrugada com os pulos na cama. Sua irmã grita de nojo ao ver o cobertor melecado. Chama-o de moleque pervertido e o proíbe de chegar perto de suas amigas, diz que vai avisar aos irmãos delas e tudo mais. A mãe dele é mais amena, embora lhe dê uma reprimenda por ter interrompido o sono de gente que dá duro o dia todo. O pai fica calado, na adolescência apanhou da mãe pelo mesmo motivo. Ele terá que lavar a roupa de cama, para aprender.

Nos dias seguintes ele toma mais cuidado, alivia as tensões no banho imediatamente anterior ao sono. Frio, sempre que o clima permite. Com as tensões desfeitas, os sonhos são menos eróticos, mas o travesseiro continua amanhecendo ensopado de baba, de tanto que troca beijos de língua com sua namorada onírica.

O caso não prejudica sua vida social nem a escolar, menos mal. Ele não quer ser punido com o cancelamento de sua internet, sem a qual ficaria sem poder conhecer melhor sua paixão virtual, talvez até póstuma, ele está se preparando psicologicamente para isso. Quase um ano depois do “amor à primeira vista”, ele consegue quebrar o sistema de segurança e ter acesso livre a todas as dependências do site. Entra em arquivos reservados, encontrando photographias de acesso restrito, quando encontra sua paixão em trajes de banho. Fica maluco ao vê-la de biquini, mesmo os da época serem enormes para os padrões vigentes. Salva tudo, não deixa um bit sem ser vasculhado. Fica louco de tesão mesmo ao vê-la em trajes de baliza, de quando liderava os desfiles do colégio com aquela minissaia curtíssima. Começa a achar que se houvesse nternet nos anos sessenta, gostaria de ter vivido neles.

Um dia a irmã o flagra beijando avidamente o monitor. Ela imagina que se aquilo fosse uma garota, seria uma endoscopia de língua, não um beijo. Quando ele sai, ela entra rapidamente e vê o histórico, encontra centenas de buscas pelos anos de 1940 aos 1960. Começa a ver alguma ternura nisso, a ter um tênue e frágil fio de esperança no irmão. Acha tudo aquilo muito fofo para ser coisa de um fedelho pervertido. Fica de butuca ligada, saindo imediatamente quando o vê pela janela, chegando do banco. Vai à mãe, contar a coisa mais fofa que já viu. A mulher estranha, pede para ver assim que ele for para o colégio, na segunda-feira. Pois na segunda-feira lá estão as duas...

  • Gente!!!
  • Não é fofo, mãe?
  • É o colégio da sua avó! Mamãe estudou aí, quando tinha a sua idade!

Vasculham os arquivos, já com o sistema de segurança domado pelo garoto. Photos do pátio, da sala de aula, dos desfiles, dos carnavais, do clube, da praia e até algumas particulares, cedidas ao colégio. A garota reconhece que as moças cheinhas de então, eram muito atraentes, apesar de hoje se apregoar o contrário, conclusão que aos poucos desfaz os sorrisos das duas...

  • Não, não pode ser isso!
  • Será que ele tá esquisito assim por causa dessas garotas??
  • Pior! Será que ele está esquisito assim por causa da minha mãe??
  • Fodeu... A gente conta pra ele?
  • … Primeiro pro seu pai... Depois pra mamãe, pra prevenir... Bem, sou eu...

O homem cai na cadeira da secretária. Pragueja, diz que vai torcer o pescoço do moleque, mas depois se acalma. Embora sem tanta gravidade, ele já foi apaixonado por Greta Garbo, a ponto de não cogitar ter outra mulher, até conhecer a sua. Nisso reflete e releva, ele é só um garoto, um adolescente boboca como qualquer outro, afinal ser boboca é quase um sinônimo da adolescência. Apressa as remessas, antecipa algumas entregas e dirige seu Atron 1635 verde e preto para casa. Pára o caminhão do lado de fora mesmo e vai ver. Odeia, simplesmente odeia figadalmente reconhecer, mas sua sogra já foi um tremendo avião. Quem o conhece sabe o quanto lhe sai caro ter que admitir isso, especialmente diante do sorriso de triunfo da esposa. Mas decide que o moleque vai ter que saber e já deixa uma consulta psiquiátrica agendada. Toca o telephone e quem é? Sim,. A sogra. A mesma de quem ele disse maravilhas há alguns minutos, fazendo-o pensar “Vou esfolar esse moleque!”. Ele não sabe o que a dita cuja está falando à filha, mas ela não fez questão de moderar a voz ao reproduzir seus elogios; quase pode ver o sorriso de triunfo da jarraca, que decide passar algum tempo com eles, até para ver se pode ajudar com o neto.

No sábado, trazendo photographias de sua juventude, ela está lá. O homem começa a se odiar, porque já não consegue mais ver a broaca horrorosa e disforme que conseguia ver nela, simplesmente porque ela é uma idosa bonita e charmosa, tem que admitir mesmo com o estômago doendo. O garoto faz festa na volta do colégio, vendo a avó, mas dura pouco...

  • Você sabe quem é essa moça?
  • Conhece ela, vó? Ela tá viva?
  • Olha pra ela e depois pra mim.

Ele o faz. O faz dezenas de vezes, com todas as photographias, se enchendo aos poucos de desespero. Dá um berro e sai correndo descontrolado. O Mercedes-Benz do pai lhe tira a visão e é colhido por um Scania R620, felizmente em baixa velocidade, mas duas dezenas de toneladas não precisam de muita velocidade para fazer muito estrago. Ele é jogado dez metros para frente e rola até bater em um Fusca verde 1967.

Acorda quase um mês depois, vendo a avó ao seu lado. Não houve danos irreversíveis, mas a quebra dos ossos da face obrigaram a várias cirurgias delicadas de reconstrução, que o deixaram um bocado diferente, a ponto de os colegas talvez não reconhecerem suas novas feições. Antes de chamar a filha, ela segura a mão do rapazote, que chora feito um bebê. Como todo adolescente foi radical, tinha depositado todos os seus sonhos em uma época que já não existia. Chorando pede desculpas à avó, que o cala e se limita a abraçá-lo, até o choro cessar, então liga para a filha.

Volta para casa no mesmo dia, mas não a mesma pessoa. A psicoterapia o ajuda a digerir a quase tragédia que aconteceu, o faz perceber que a responsabilidade foi da visão pubiana que ele tem das relações pessoais, que o impediram de ver as coisas como elas realmente são. Os colegas realmente não o reconheceram, mas não foi só pelo novo rosto, ele já não era o mesmo. Via agora as pessoas, especialmente as mulheres, com um respeito cavalheiresco, mesmo que aos olhos do senso comum elas não se dessem a esse respeito. Bem, o respeito era dele, ele o dava a quem quisesse. No final das contas, e de um ano inteiro trabalhando o trauma, ele saiu uma pessoa muito melhor do que a que foi atropelada. Virou vintagista, aceitou uma vaga de ajudante de motorista, trabalhando no mesmo caminhão que o pai, já ciente do quanto desperdiçava sua vida nas esbórnias “secretas” com colegas, que todo mundo sabia onde e quando aconteciam. Não gostou de ter sido atropelado e quase feito em pedaços por aquele mostro mecânico, até porque poderia ter morrido, porque aquele moleque insuportável morreu. E já foi tarde.

Ainda acha que se houvesse internet nos anos sessenta, adoraria ter vivido neles.

24/01/2014

O que aprender com a máfia


Voltando a colocar minha cabeça na linha de tiro, como fiz ao escrever "O que aprender com o crime", porque o assunto infelizmente não se esgotou, volto a fazer comparações baseadas em minhas reflexões. Como lá, aqui alguns pontos em que as máfias do velho mundo deveriam ser imitadas pelo poder público:

01- Promessa é dívida. Se um mafioso prometer algo, ele moverá o mundo inteiro para cumprir essa promessa, e seus pares o pressionarão pelo resto da vida até que ela seja cumprida. Sem essa conversa de "não é bem assim" ou "as bases mostraram outra realidade". Sem essa de precatório para o sucessor do sucessor do sucessor do sucessor pagar, quando o cidadão pode já ter falecido. Ele vai fazer absolutamente tudo para honrar sua palavra, ou morrer tentando. Se prometeu te matar, desapareça.

02- Favor feito é favor pago. Ao contrário do Zezinho Passamão, que proibiu sua entrada na assembleia legislativa assim que tomou posse, um mafioso vai se lembrar pelo resto da vida por qualquer préstimo que lhe tenha sido feito. Dependendo do que tiver sido, pode se considerar parte da família, no dia em que precisares de retribuição, lá estará ele para retribuir. Ficas marcado como alguém que pode ser útil ou perigoso, mas quem disse que isso não acontece na política?

03- Ética se paga com sangue. Não há dois pesos e duas medidas, quem quebra o código de conduta é punido, em vez de visto como vítima por correligionários e militantes de massa de manobra. Os julgamentos são austeros e desprovidos de qualquer acessório, e mentir é o mesmo que cometer suicídio. Se for algo reparável, de pronto o membro é posto a reparar e o que foi feito fica registrado, mas fica no passado, apenas para que ele não volte a errar. Aliás, a ética é cobrada tanto no serviço quanto no convívio social.

04- Pagou, levou. Ao contrário dos impostos ao Estado, quem paga por proteção tem proteção. O dinheiro entregue ao mafioso traz resultados quase imediatos, não importa o fim a que se destina, sem burocracias e sem a necessidade de se recorrer a um tribunal; porque se for necessário, será uma quebra de ética por parte do mafioso, então...

05- Honra e lealdade. Pode parecer clichê de filme, mas não é. À parte as firulas românticas de Hollywood, um mafioso precisa ter compostura e ser leal à organização, assim como a tudo o que lhe disser respeito. Ninguém pula de máfia em máfia para ter um cargo melhor, e cometer um crime desnecessário é falta grave; como atropelar e matar alguém em um acidente, por exemplo. Ser flagrado bêbado em público então, pelos riscos que isso acarreta, é certeza de punição. Não é como acontece com filho de ex-ministro, o mafioso tem que fazer de tudo para que sua imagem não saia nas páginas policiais. Fazer caridade é atitude muito bem vista em praticamente todas as organizações, mesmo que não vá parar nos jornais. Já na política, o safado chama a imprensa para ser filmado colocando uma moeda no chapéu do mendigo... E depois pegar de volta.

06- A hierarquia é rígida, mas não demais. Um membro da máfia não mofa em filas intermináveis e não carrega toneladas de papel inútil, se realmente precisar falar com um chefão. Se a necessidade for constactada, ele é imediatamente encaminhado e terá com o dito cujo o mias rápido possível. Isso vale mesmo para um popular que tenha ligações consistentes com a organização. Ninguém é tão bom que não possa receber um faxineiro, ninguém é tão pequeno que não possa falar com o chefão. Vá tentar falar directamente com um juiz, vá, podes até ser preso por "desacato à autoridade", simplesmente por insistir.

07- Chances e punições iguais. A política de um peso e uma medida é a regra, o mensageiro tem as mesmas chances de comandar as organizações quanto o filho do chefão. Se ele fizer por merecer, e sobreviver, sua ascensão não será impedida por ciúmes ou desafetos internos. O foco é o bem comum, que é o bem de toda a máfia. Ninguém sequer menciona travar uma conversa para pressionar a cúpula em causa própria, não importa quem seja, porque mesmo o chefão precisa do respeito dos demais para permanecer vivo e onde está.

08- Ninguém fica sem resposta. Seja agente externo ou interno, quem fizer mal a um dos seus, estará lascado, porque a organização inteira estará no encalço do responsável. Se um membro fizer mal a um cidadão com alguma ligação, ele será punido e terá que reparar o erro. Se um estranho fizer mal a esse cidadão, não haverá trâmites supérfulos para aumentar sua agonia, os braços da organização já estarão trabalhando para dar satisfações do caso; sem ter que apresentar CPF, RG, comprovante de endereço, preencher ficha, registrar B.O, pegar senha... Identificado o autor e comprovada a sua autoria, é melhor que seu seguro esteja em dia.

09- Cinismo não existe. Se o mafioso tiver conhecimento de algum problema, ninguém precisa chamá-lo e provar documentalmente que o problema existe, ele já sabe e tomará providências. Já que não existe peso morto indicado por aliados na organização, não existe burocracia para alguém precisar dizer que está chovendo lá fora. Problema detectado, problema resolvido, simples assim. E ninguém pense que o que tiver feito ficará desapercebido pelos outros, isso aqui é máfia, não política.

Ficaram tristes? Eu também, mas não dá para fechar os olhos e fingir que o torto assumido, tem mais a nos ensinar do que o que se diz reto.

15/01/2014

Machismo, feminismo e outras tranqueiras



  Os leitores mais antigos já perceberam que eu não tenho tocado, ao menos não tanto, nos termos do título, bem como em alguns outros. Os mais assíduos sabem que não dou a mínima para polêmicas, porque quem polemiza o que eu escrevo, sinceramente, tem uma vida bem pouco interessante.

  No decorrer dos anos (que papo mais ancião, meu Deus) eu percebi que as pessoas têm suas próprias noções do que significam as palavras e seus conceitos básicos, não raro mudando-os ao sabor de seus caprichos subconscientes. Dessa feita, tem gente que se considera convictamente machista, mas contraria o senso comum, se horrorizando com a crescente onda de mutilações e assassinatos de moças por motivações passionais. Assim como o termo "feminismo" tomou um leque extraordinariamente amplo, com variações bruscas de acordo com grupos específicos que se consideram os verdadeiros guardiões do feminismo, alguns dos quais pregam que os homens sejam subjugados como tem acontecido milenarmente com as mulheres, enquanto outros até admiram damas que declarem sua vocação para a maternidade.

  Leiam quantas vezes forem necessárias o parágrafo anterior, porque ele dá uma noção precisa do nó que desatei em minha mente lesada. Há homens que chamam de bichas e chamam para a briga, qualquer um que agir como um cavalheiro, ainda que este se considere machista. Há feministas que apontam o dedo e acusam de reacionária, qualquer uma que mesmo se considerando feminista, declare gosto por delicadezas e assuntos domésticos, ainda que deteste ter que passar roupa, o faz porque gosta da casa arrumada. Para ambos os grupos de dedos em riste, é um absurdo que quem se considere dos seus, faça qualquer mínima concessão ao sexo oposto.

  Em ambos os casos, leitores esporádicos me apontam esses mesmos dedos e dizem que estou inventando, não raro fazendo  discursos prolixos sobre o que é (em suas cabecinhas) o machismo e o feminismo, mas não conseguem fazer mais do que repetir bordões, frases prontas e senso comum, como se estivessem em campanha eleitoral.

  Da mesma forma tem vilanovense que não tolera que quem torça para o Vila Nova, tenha amizade com alguém que torça para o Goiás, tratando-o como se fosse um traidor de uma causa nobre... Futebol, causa nobre? Rá!

  Embora os objectos sejam diferentes, o princípio é o mesmo. Gente que assume rótulos, se integra a um grupo que considera afim e passa a adaptar todos os seus significados às suas expectativas. Desde o que sabe que futebol não passa de entretenimento, até aqueles chatos perigosos que querem dizimar os torcedores de outros times. O mesmo vale para fãs de grupinhos descartáveis, que os idolatram enquanto eles durarem e hostilizam sem dó quem não for da turma.

  A base de tudo é querer fazer parte de um grupo para se defender dos demais. Quem for de fora é concorrente ou inimigo, em ambos os casos o contacto é cercado de cuidados. Quando o indivíduo já tem uma bagagem prévia e negativa do que é o outro grupo, ele passa a aglutinar quem tiver más impressões e a nutrir a desafeição, tornando a cada dia pior a imagem do outro. Geralmente essas pessoas não admitem que mudaram, quando alguém de seu grupo alerta para seu radicalismo, passam a estranhar e até hostilizar os membros moderados, com acusações de frouxidão e reprimendas do tipo "Estou estranhando você! Que conversa é essa, tá passando pro lado deles, é?".

  É mais ou menos isso o que acontece com grupos armados, mais visivelmente do oriente médio, que se dão bem quando estão massacrando inimigos comuns, mas se estranham imediatamente quando as diferenças internas emergem; por isso alguns membros nunca mais conseguem viver em paz, passam a associá-la à discórdia interna. Cada um deles se considera "O Insurgente", e a todos os outros como traidores da causa. Esta deixa de ser um meio para se tornar o fim perene e maquiavélico de suas vidas.

  Em todos os casos, o indivíduo passa a adaptar os conhecimentos formais de modo que confirmem suas crenças, rejeitando qualquer raciocínio que leve a conclusões que as desmintam. Muitas vezes amputam e distorcem, até torturam sem dó a ciência e a religião, para não contrariar seus conceitos íntimos. Não raro, passa a rejeitar o conhecimento e se apega à zona de conforto da ignorância, para afirmar a si que está certo e ponto final, e que todos os outros devem acatar cegamente suas ideias, custe o que custar.

  Isso me lembra um pouco os detratores dos carros eléctricos, que dizem que seriam necessárias três Usinas de Itaipu para alimentar uma frota deles... Base? Ouviram um detrator famoso afirmar isso e rejeitam qualquer argumentação em contrário, mesmo que sejam cálculos matemáticos. Não raro, cogitam hipóteses absurdas, como a de que todos os Tesla Model S, com seus 85kWh de baterias, teriam que se recarregar completamente todos os dias, e todos na mesma hora... Argumentação? Nenhuma. Sequer toleram civilizadamente a emersão de alguma. É "acredite e ponto final, boiola esquerdopata safado". Vocês sabem que eu tenho um blog para mobilidade alternativa, mas também sabem o quanto admiro o som encorpado de um V8 bem regulado.

  E por falar nisso, muita, mas muita gente mesmo distorce ao seu bel prazer o que chamam de ideologia, ainda que todos estejam falando dos mesmos autores de base. Eu já vi, com estes olhos que terão suas córneas doadas antes de a terra comer, gente que se diz de direita defender o escravismo negro, afirmando que foi o fim da escravidão que lançou os africanos na miséria... Não riam, estou falando sério, eu li pasmo e nauseabundo os cidadão "argumentando" isso. E é gente com formação superior. Idiotas que dão combustível para outros idiotas, que caçam inimizade com qualquer um que tenha gosto declarado pela estética clássica, alegando a perseguição secular aos negros e pardos, com freqüência se apegando a coisas que a ciência desmentiu, como a existência de raças, como se quem não acredita em raças estivesse negando o racismo. Em ambos os casos, discursos longos e enfadonhos, não raro agressivos, acompanham a visita.

  Também assim agem os dois grupos que se acham os únicos lúcidos sobre a realidade ambiental. Os que negam categoricamente que a humanidade tenha qualquer responsabilidade nas mudanças climáticas e na poluição, e os que afirmam categoricamente que a humanidade precisa ser extinta. Em ambos os casos eles rasgam e mastigam os tratados científicos com alguma credibilidade, afirmando que quem não concorda com eles é um simpatizante do outro lado e precisa ser combatido a qualquer preço. Não acreditar que a humanidade é culpada até pelo fim dos dinossauros, é ser direitopata safado e reacionário, jamais um ambientalista sério, na visão vesga deles.

  Alguns leitores acidentais vão se horrorizar e tentar argumentar que não é bem assim, que sua ideologia visa o bem da humanidade, uma sociedade justa, a proteção da família e o pote de Nutella de um quilo para todos. Bem, de discursos eu estou farto. Gente que me chama para discutir, invariavelmente está é tentando me vencer pelo cansaço para eu admitir que está com a razão e empunhe sua bandeira; como se houvesse alguém mais teimoso e cabeça dura do que eu. Eu não sou criança, minha juventude ficou para trás há muito tempo. Estão malhando em ferro frio e não percebem que suas marretas já têm fissuras.

  Por essas e outras, caríssimos, eu me nego terminantemente a assumir qualquer rótulo, me alinhar a qualquer movimento e adoptar qualquer discurso. Estão todos subordinados ao caprichos e temores de seus portadores, que enxergam o mundo e a si mesmos com as lentes que aqueles lhes emprestam, e às vezes essas lentes são absolutamente incompatíveis, gerando distorções cognitivas e até emocionais comparáveis ao uso de drogas. Tanto maiores quanto maior a rejeição às ideias contrárias.

  Ainda que um conceito seja proveniente de inspiração divina, nos caberá o trabalho de interpretar e aplicar esse conceito à realidade, é quando acontecem os erros, tanto maiores quanto maior a certeza de que se está certo. Deus é infalível, mas nossos julgamentos não são sequer bons.

09/01/2014

A democrática discriminação

Ok, gente, aqui nós podemos ser nós mesmos, ninguém está vendo.

  A discriminação não privilegia. Ela facilita, mas não dá privilégio nenhum. A idéia simplista de que só quem se enquadra nos tipos secularmente discriminados, sofre alguma discriminação, é um isqueiro aceso sob qualquer tratado de psicologia. Ah. não, não me venham com essas caras! Eu já cansei de ler e ouvir que "branco não sofre racismo", "religiosos não são perseguidos", "vintagistas não são discriminados", "gente refinada não é destratada", de gente que faz justamente tudo o que nega; só tomando o cuidado de dar outro nome ao que fez, geralmente acompanhado de algum discurso prolixo.

  Tudo pode ser e é motivo para segregação. Uma observação atenta em uma escolinha, durante o recreio, demonstra o que eu digo. Uma observação atenta em um colégio, durante o intervalo, demonstra o que eu digo. Uma observação atenta em uma faculdade, durante os intervalos, demonstra bem o quanto a mentalidade demora a alcançar a maturidade biológica, e nem sempre alcança. Experimente, por exemplo, comer polidamente em uma cantina repleta de jovens relaxados. Não demora muito a te olharem torto, te taxarem de esnobe ou elitista, te vincularem a teorias conspiratórias e a fofoca correr solta pelo estabelecimento. Se fores jovem então, a coisa piora, porque uns te rotulam de fresco e outros de reaça, coisa que muitos jovens bem educados já reportaram a mim. Já não basta mostrar ao mundo o que se está comendo, querem mostrar o que estão mastigando.

  Embora a pele escura custe caro ao seu portador, e muito idiota teime em alardear que não existe racismo no Brasil, que o próprio governo oficializou, há pessoas que radicalizam e querem dar o troco, mesmo sabendo que aquele indivíduo em questão não teve nada a ver com a farofa de séculos atrás. Sim, caros leitores, existe sim o revanchismo de extremistas, que querem descontar nos descendentes o que os retardados do passado fizeram; e temos muitos exemplos de retardados ainda piores que dão combustível, alimentando hoje a discriminação dos biotipos. Nem precisa ser a Nicole Kidman, ter alguns tons a menos de canela na pele já basta. As bases são as mesmas da discriminação aos negros, só que com discursos empáticos.


  Pensam que estou exagerando? Vocês então nunca viram uma pessoa ser humilhada por usar gravata borboleta em público. As pessoas são muito cruéis com quem tenta ser um milímetro diferente do grupo predominante, especialmente se esse milímetro for na direção de seus desafetos.

  Se alguém aí acredita que a falta de tecido é o único motivo visual para uma mulher ser destratada, experimente usar um maiô Jantzen ou Catalina. se os biquínis dos anos oitenta podem lhe custar a pecha de "piranha", as peças cinqüentistas te transformam em aleijada ou mal amada. Aliás, rapazes, experimentem tentar usar os velhos calções de praia em local público, vocês entenderão a mais cruél acepção do bullying. O bando de sunguinha com rego à vista vai esquecer de suas próprias misérias e te transformar em uma. O bando com bermudões com estampas de abajur de quenga também. Um te acusará de pertencer ao outro e ambos te hostilizarão, se tentares ser gentil. Mais ou menos como a briga de direita e esquerda brasileiras, que se acusam mutuamente de nazismo e empurram com agressividade, para o lado oposto, quem não se enquadrar em suas ideopatias. Para ambos os lados, tu se tornas uma ameaça a tudo em que acreditam.

  Sim, leitori, a segregação é como a morte, sorrateira e não faz distinção. Só que ela, ao contrário desta, depende da vontade humana para agir. A vontade humana, caros amigos, é muito, mas muito má!

  Aliás, não sei se vocês já notaram, mas reclamar de som automotivo alto pode te render processo por racismo, se o dono do carro for de uma "minoria historicamente perseguida". Mas experimente tocar "Boemy Rapsody" em alto som. É música de imperialista branco, não interessa de Freddy Mercury foi perseguido por ser homossexual, naquele momento serás taxado de racista ou burguês imperialista, ou ambos, e tratado como tal. Não, eu não estou puxando pela imaginação, isso acontece há muito tempo e muita gente me reporta reclamações afins. O que foi? Quem gosta de "música de branco" não tem direito a reclamar? Por quê? Um amigo carioca já reclamou de ter sido chamado de racista e tratado como tal, por gostar de Lynyrd Skynyrd. Mas vá ver se os acusadores apreciam James Brown ou mesmo Emílio Santiago, vá!

  Quem participa de redes sociais, vai reconhecer o que direi agora, salvo é claro, se for um dos boçais descritos.

  Em uma conversa aberta sobre carros antigos, é comum aparecer um idiota simplesmente xingando os apreciadores, louvando a destruição massiva dos muscle cars nos anos oitenta e ainda reclamando, se for repreendido. Vejam bem, ele entrou em uma conversa à qual não foi chamado, no meio de apreciadores, e começou a destratar o tópico e seus participantes para depois reclamar da repercussão. Isso quando não chama a turma para bagunçar tudo de vez. O mesmo vale para qualquer assunto, falar de feminilidade é interpretado como opressão à mulher, sensibilidade masculina como nos tempos do cavalheirismo é tratada como viadagem, ou mesmo apologia ao machismo misógino; sim, porque há vários tipos de machismo, para alguns, quem não bate em mulher não é homem. O direito à opinião fica restrito aos que concordam E disseminam, não um ou outro, mas ambos, quem pensar ou agir diferente é um pária. Isso serve para todo e qualquer assunto, citei o antigomobilismo porque é a minha área.

  Lembram daquela artista estúpida que reclamou de seu porteiro poder, hoje, se sentar na mesma fileira de avião que ela? Pois sim, não basta haver os tapados "coitadizadores" infernizando as relações pessoais, tem que haver alguém estúpido o bastante para dar razão com seus maus exemplos. E por falar em maus exemplos, já experimentaram usar cinto de segurança no carro de quem se recusa a usar? Quando não está deliberadamente enfiado debaixo dos bancos, está sujo e às vezes travado por falta de uso. Tente usar, e deixas de ser amigo do sujeito, ele vai atazanar com "Quê que é? Não confia em mim não? Eu não vou bater o carro, porra!" até o fim da viagem. No dia seguinte ele vai agir como se tivesse sido ofendido, e começar a te ofender, de preferência com a turma do botequim, para intimidar. Isso já me aconteceu. Seguir as leis de trânsito também pode te custar exclusões.


  Não beber há muito deixou de ser uma opção de vida, para se tornar um risco de isolamento. Salvo para servir de chauffeur aos ébrios, o abstinente corre o risco contínuo de ser menosprezado na maioria dos grupos, se eles souberem que é. De início acham simplesmente que não aprendeu a beber, ou que não conheceu uma cerveja agradável, mas a paciência acaba quando descobrem que simplesmente se recusa a ingerir álcool. Quem não bebe com eles, não é amigo deles. Aliás, são os mesmos tipos que assediam mulheres simplesmente porque acham que têm obrigação de assediar e até atacar, e elas de acatar ao assédio, e ai do homem que não fizer o mesmo. Não preciso dizer o que pode acontecer, preciso?

  Antigamente era até socialmente aceito discriminar quem só tinha uma bicicleta como meio de transporte, era sinal de pobreza e falta de perspectiva. Conceito tão falso quanto frágil. Hoje, com bicicletas custando tanto quanto um carro simples, os ciclistas xiitas é que passaram a denegrir quem anda de carro, não raro apontando o dedo para um motorista como se ele fosse a causa das mazelas do mundo. Mas carregar a mãe doente na garupa, eles não explicam como fazer. Não importam as tuas necessidades, andar de carro é considerado crime e ponto final, aquele Chevette 82 deve ser destruído e seu dono comprar uma bicicleta na marra. Quem tem carro é mau e deve ser combatido, exceto o motorista do caminhão que trouxe a bicicleta de R$ 36.000,00, cujos pneus custam mais de R$1.000,00 cada um.

  Ter ou apreciar um caro eléctrico é ser taxado de veado, esquerdopata, destruidor de empregos e morador do mundo da lua. Ter ou apreciar um legítimo muscle car americano, é ser taxado de machista, direitopata, destruidor da natureza e alienado das causas sociais. Em ambos os casos o cidadão sofre as conseqüências de sua escolha. Se ele gostar de ambos, então, um lado o discrimina acusando de ser defensor do outro.

  Política, futebol e religião dispensam comentários, vocês todos sabem o quanto esses três itens são usados para justificar o ódio a quem não for do grupo. Eu digo "ódio" me referindo à acepção da palavra, não é uma metáfora. E eles, os perseguidores, a qualquer menção de reação se declaram perseguidos e discriminados. O mal que praticarem é sempre justificado, mas experimente olhar torto para eles! O mundo estupidificado desde início de século agora permite que qualquer um possa ser discriminado e segregado, por qualquer motivo, qualquer um mesmo, se não houver um eles inventam na hora.

  Discriminar deixou de ser uma coisa idiota, para se tornar uma tática tolerada de defesa preventiva. Não importam os danos, importa que se discrimine antes de ser discriminado, mesmo que recorrendo à agressão física.

  Voltando a citar a Doutora Rosane Alencar, de história antiga: O perseguido tende a se tornar um perseguidor mais cruel do que seus antigos algozes. A humanidade, em vez de tomar tino e contrariar, confirmou novamente a máxima.