26/09/2013

O peixe do estrangeiro


Dois fazendeiros, um de Jataí e um de Rio Verde, se encontram para a prosa de todo sábado à tarde. Trabalhadores, mas completamente desactualizados com tecnologias modernas, cuja operação delegam aos filhos, logo começam com um assumto...

- Cumpadi, ocê já viu qual é a moda de comida, hoje?
- Não! Qual é?
- Eu nunca comi, mais parece que é um trem bão demais!
- Se num comeu, comé que sabe que é bão?
- Minha filha falou. Ela disse que já tem milhões de pessoas pelo mundo, que come todo dia. e já tem gente viciada, de tão bom que é! Parece que é um pexe que só dá lá nos esta'zunido!
- Ué! Intão deve de ser muito caro! Se é importado e só dá num lugar!
- E merm'assim o povo come todo dia!

O rioverdense matuta, tenta puxar pela memória, enquanto o outro dá um trago, mas não imagina que tipo de peixe possa ser...

- É pexe de água doce ô salgada?
- Num sei. Sei que tem até briga por causa dele. Tem país que até censurô, porque o povo tava fazeno bestera pra conseguir.
- Censurô? Quer dizer, racionamento?
- Acho que é! Cê sabe, se o povo compra demais, a balança econômica fica em déficit!
- Mas esse pexe deve ser gostoso demais! Vô querer experimentar.
- Minha filha falô que amanhã eu vô conhecê. Vô vê se te sobra um pedaço.
- Uai, eu fico agradecido, cumpadi. Mais, me fala, quem é que produz esse pexe?
- Eu até pensei que era brasileiro, por causa do nome, mas é americano do estrangeiro mermo. É um tal de José Quembergue, que o povo chama de Zé Quembergue, ele já deve tá íntimo dos fregueis.
- Esse nome num me é estranho... Mais num me alembro de onde ouvi...
- O rapais tá bilionário, vendendo esse pêxe pro mundo todo.
- Ué, se só ele sabe produzir e todo mundo gosta, que come todo dia, então enrica fácil mermo! Mais, que pexe é esse mermo, cumpadi?
- É pexe buquê.

Ele olha o amigo de longa data com uma cara de espanto! A primeira coisa que imaginou, foi um buquê de noiva nadando rio acima...

- Pexe buquê?
- Strai'né?
- Cumpadi, num tem nada dos estrangeiro  que eu não ache estranho! Minissaia, por exemplo!
- Num gosta?
- Gosto muito! Falei que é estranho, não que não apreceio! É, quem sabe esse pexe buquê...
- Minha filha garantiu, falô que no começo vô estranhá, mais logo o trem fica bão! Só me alertou pra eu não me iludi com promessa de pexe buquê de cor diferente. Só tem azul! Os otro é falso!

Agora ele imagina um buquê azul subindo o rio, com um monte de buquês coloridos atrás, tentando acompanhar...

- Onde foi que a Mariinha incontrô esse pexe?
- Nas interlete.
- Ah, a interlete! Até hoje não intendo comé que funciona!
- Nem eu, nem quero. Só quero comê esse pexe! Diz que tem gente que até arranjô casamento, depois que comeu!
- Ué! Itão divia chamar pexe Sant'antoin! Agora é que vô querê um pedaço! Já tô cansado da viuvez!

O celular do jataiense toca. é a filha dele, avisando que já pode ir experimentar o facebook. Eles de despedem e o amigo promete mandar um prato para ele.

18/09/2013

Os trólebus, para quem não os conhece

Saudoso trólebus de Ribeirão Preto.

É difícil selecionar uma ou duas incoerências do poder público nacional, então temos que nos ater aos urgentes, que também são muitos. Então acabo optando pelo que me aparece pela frente. Agora é a vez dos trólebus.

Simplificadamente, são ônibus com motores eléctricos que usam a rede aérea de energia, por meio de uma haste tetrátil que funciona como fio da tomada. Os mais modernos têm baterias e se recarregam aos poucos, quando páram nos pontos, o que lhes garante uma mobilidade que os de haste não têm, alguns até contam com um pequeno motor diesel para estender a autonomia.

Aos compatriotas que moram longe do centro do país, pode parecer óbvio o que descrevi, mas a maior parte do território nacional não conheceu os trólebus. Muita gente sem sabe que eles existem. E se depender de prefeitos do naipe de Marta Suplicy, que demonstram saber mais de supercordas do que de transporte público, o interior do país nunca terá os benefícios desses ônibus singulares.

Felizmente não depende só deles. Infelizmente, mesmo assim, eles conseguem atrapalhar muito. Se eles desejam ou não um transporte público decente, não sei, nunca me coloquei à sua frente para ler seus pensamentos. O que sei é que eles não têm a mínima noção do que seria um transporte público decente; estou sendo gentil.

Quem já viu, como eu, o motorista descer do ônibus e entrar em uma drogaria, implorando por um analgésico, sabe do que vou falar agora. O nível de ruído dos ônibus de que dispomos é muito alto! Atenuaria muito se usassem motor traseiro, que continuaria a incomodar os passageiros, mas incomodaria muito menos os motoristas. O problema é que nossos ônibus não passam de caminhões encarroçados, e francamente eu não conheço um só caminhão brasileiro, com motor traseiro. Sai mais barato, a estrutura de motor à frente já existe e é feita aos milhares, para transporte de carga.

Sim, meus amigos, vocês leram certinho! Somos transportados por veículos de carga adaptados ao uso de passageiros! Sem cintos de segurança e quase sempre usando os duros e melindrosos feixes de mola na suspensão. Não raro, os amortecedores são simplesmente retirados, quando precisam ser trocados, deixando as molas sem controle algum. Tudo isso com a plena aquiescência das prefeituras. Se eles não se importam com suas vidas, vão se importar com sua sanidade mental?

Pesa contra os trólebus antigos, a completa dependência dos fios de alta tensão dos postes. Se a haste caía, eles paravam. Se a energia acabava, facto recorrente, eles paravam. Não por problema do trólebus, mas por falhas de infraestrutura, inclusive do asfalto de péssima qualidade, que faz qualquer veículo dar pulos. Lombadas e valas para redução de velocidade, são exclusividades de países onde a educação é artigo supérfulo.

Em muitos países, os trólebus modernos estão substituindo os bondes com grande vantagem, porque não ficam presos aos trilhos, eles têm baterias próprias, podem rodar muitos quilômetros sem precisar da fiação aérea. Quando têm um motor para estender a autonomia, ele pode ser pequeno, com uma fração da potência do motor de tração, podendo ser mais silencioso e só trabalhar por curtos períodos. Quando precisar, há casos em que eles têm que ser ligados por alguns minutos, para não travarem por falta de uso.

Mas, é claro, isso acontece em países que levam a mobilidade urbana à sério, que estimulam o uso do transporte público em vez de simplesmente penalizar o uso do automóvel. Resolver problemas não faz parte do repertório da política brasileira, torrar o erário em propaganda enganosa e acusar os críticos de golpistas, fazer-se de vítima, alegar intriga da oposição, quando se é situação, ajuda a enrolar o eleitorado e confundí-lo. Deixar pura e simplesmente de dar manutenção, é um modo de convencer a população que os ônibus a combustão são melhores. Nem Rolls Royce dispensa manutenção regular, eles sabem disso.

A grande vantagem econômica dos trólebus, é que se tratam de veículos com concepção naturalmente muito cara. Um ônibus urbano simples, só com o que a lei manda, passa fácil de duzentos e cinqüenta mil reais. Ver exemplos aqui. Fica mais fácil diluir os custos de uma conversão para tração eléctrica ou híbrida. Embora a compra seja bem mais cara, não muito mais, a manutenção é mais simples, há muito menos peças para quebrar e nenhum movimento alternante para fragilizar o motor. Mas veículo que não dá manutenção, não gera licitação.

Para a população e para o motorista, a primeira vantagem é o silêncio. Quase nenhum ruído sai do trólebus, pode-se conversar em voz baixa, ouvir o MP4 em volume mínimo ou mesmo ler algo sem o ronco constante a encher a cabeça. O motorista, pela ausência de ruídos, não estressa tanto, o que resulta em um padrão de segurança muito mais alto. Ele ouve melhor o que se passa dentro e fora do veículo, se antecipando mais a qualquer emergência. Ele chega ao fim do expediente com a audição intacta.

A ausência de descarga, quando o gerador não está ligado, permite que ele circule em ruas onde um veículo a combustão de grande porte não pode, como ruas onde há escolas e hospitais, o que pode significar um itinerário bem mais curto.

O motor eléctrico tem uma vantagem imensa, ele produz força instantânea. O motor a combustão precisa ganhar rotação, velocidade, para conseguir tirar o ônibus do lugar, para isso serve a embrenhagem. Como conseqüência, muitas vezes ele acaba produzindo mais potência do que seria necessária. Resultando em mais desgaste, mais emissões e muito mais ruído, para o desespero de todos o que estiverem a menos de vinte metros do motor. Fora a mania de motoristas idiotas, de jogar fumaça nos pedestres e carros pequenos.

O limite de velocidade em perímetro urbano, é de 60km/h, mas eles têm que arrancar, acelerar, reduzir, frear, retomar; tudo isso exige uma troca freqüente de marchas. Uma operação que exigiria, em média, 40cv em velocidade normal, acaba exigindo quase que potência máxima na maior parte do tempo, o que às vezes significa usar mais de 240cv. Por suas características, o trólebus pode arrancar usando muito menos potência, na maioria das vezes dispensado troca de marchas, não raro dispensando até a caixa de marchas, trabalhando bem próximo à potência mínima na maior parte do tempo. Não admira que as pesadas e arcaicas baterias de chumbo dos nossos trólebus, dêem conta do recado.

Há ainda o menor custo energético. Um trólebus ruim, custa menos de um quarto do que se paga pelo quilômetro de um ônibus. Um trólebus bom, não chega a um quinto. Um de última geração nem se fala! Nem temos no Brasil! Se levar em conta que dificilmente o kWh passa de R$ 0,50, e que ele pode bastar para rodar vários quilômetros, vocês podem imaginar o impacto positivo que um trólebus bem conservado tem nas contas públicas.

Actualmente, que me conste, só temos uma montadora que fabrica trólebus, e converte ônibus para trólebus no Brasil. A Eletra, ver clicando aqui, é a última sobrevivente nacional de uma tecnologia que só prospera do resto do mundo. Felizmente a empresa teve a visão de considerar o mercado externo, que também atende, ou já teria virado página da história. Porque se dependesse do poder público, já teria fechado. O resultado do esforço, é uma qualidade construtiva e tecnológica de padrão internacional, que por aqui nós simplesmente ignoramos.



Um trólebus antigo, em Santos.

09/09/2013

O longevo Século XIX

Fonte: No Amazonas é Assim
Os mais novos não se lembram, mas muita gente esperava que, na virada para este século, o mundo fosse
transportado para o universo dos Jetsons. Lamentavelmente, as coisas não andaram como o esperado e este século, apesar dos avanços tecnológicos, ainda está muito longe de ser o que poderia. Mas que século é este mesmo? XXI? Não, meus amigos, assevero que não. Estamos em pleno e deformado século XX. Não levem o calendário tão à sério, ele só marca o tempo, a entidade secular é outra coisa, e ela ainda não mudou.

Antes de prosseguir, me digam quando terminou o século XIX. Heim? 1899? Não, garanto que foi um "pouco" mais adiante. 1900? Tampouco. A euforia da bélle époque só mascarou tudo, mais ou menos como um anti inflamatório,  que alivia o incômodo, mas não ataca suas causas. O século XIX, meus caros, terminou em 1994, com o fim do apartheid na África do Sul, que era mantido por princípios que de cristãos, não tinham absolutamente nada. Da mesma forma, a máscara de pós-modernidade mascara o psicótico século XX, que ainda vigora.

Fomos iludidos por nossas próprias conquistas tecnológicas, nos convencendo de que estávamos evoluindo e nos tornando mais civilizados. Longe dos olhos sociais, as máscaras caem rapidamente. A idéia de que há pessoas que merecem mais do que as outras, e muitas que não merecem mais do que a subsistência animal, é o que sustentava não só o regime segratório sul-africano, como também o que havia nos Estados Unidos até meados dos anos setenta. Até 1974, em muitos estados americanos, era crime um branco se casar com uma negra, ou vice-versa. E o presidente que os tirou da crise foi justo um negro gaiato com nome oriental!

É a mesmíssima mentalidade que ainda existe, de que mulheres devem ser separadas dos homens, de que elas são as culpadas pelas desgraças do mundo e não podem exercer altos cargos de poder, e nem sempre têm o direito de ganhar seu próprio sustento. A mesma que tem devastado o país com a onda de machismo extremo, que já custou a vida de milhares de ex-namoradas e ex-esposas, já que os fedelhos mimados não toleram perder o que julgam lhes pertencer. E não é só com as moças que fazem isso, essa mentalidade se estende a quem não é do seu grupo e não pode se defender. Tal qual as políticas de colonização vigentes até o século retrasado. Aliás, alguns países ainda têm colônias, algumas voluntárias, outras nem tanto.

Está acontecendo um exemplo claro no Brasil, onde as manifestações estão se dividindo em basicamente dois grupos, um rechaçando as reivindicações e legitimidade do outro. Por que? Porque estão tão apegados às suas bandeiras, ao conceito de que tudo no outro é errado e tudo nos seus é certo, que não se dão conta de que estão ambos sendo manipulados da forma mais elementar do maquiavelismo, ambos pelas mesmas pessoas. Típico do colonialismo, separar para enfraquecer e dominar. E as aldeias idiotas, crentes de que estão do "lado certo", se digladiam, enquanto os colonizadores se apropriam do que é seu.

Assim como no século em questão, vivemos uma época de revolução tecnológica e industrial sem precedentes. Tecnicamente falando, já é possível improvisar com dois guindastes, uma impressora 3D capaz de construir um palácio em uma fração do tempo que levaria, pelo ultrapassado e ainda vigente método de tijolos. é possível construir uma espaçonave, se o interessado tiver recursos, e alugar um avião de grande porte para o lançamento. É possível até mesmo construir um continente no meio do oceano, com recursos suficientes para formar uma nação e prosperar. Já podemos cultivar alimentos de modo a não macular o solo, e fazer com que renda muitas vezes mais do que conseguimos hoje, tornando o custo unitário absolutamente desprezível.

O problema seria que, por serem tecnologias relativamente recentes, ainda são demasiadamente caras, então vamos esperar que ALGUÉM comece a comprar, para que ALGUÉM barateie, e após ALGUÉM atestar que é viável, então compraremos. Só que o problema não é este. Assim como nos anos 1890, ainda estamos com medo das inovações, temerosos de que elas nos engulam, e o cinema não ajuda, só mostrando o lado sombrio de uma humanidade dominada pelas máquinas. Houve, quando do advento da locomotiva a vapor, uma histeria mundial, inclusive em solo americano. Um político chegou a mandar uma carta ao presidente (não me lembro qual, não me pressionem) exigindo a proibição daquela máquina demoníaca. A carta falava em urros selvagens, celeiros e plantações incendiados, animais mortos ou assustados pela visão, crianças atemorizadas, e que Deus certamente não queria que o homem viajasse a velocidades tão perigosas.

Notem que ele se ateve ao medo. Não utilizou absolutamente nenhuma argumentação fundamentada. E Deus não tem nada a ver com nossa burrice, é culpa nossa! Basta ver o episódio recente, em que um senador americano jogava em seu aparelhinho irritante, enquanto o representante da Casa Branca explicava os motivos do bombardeio a Síria. Ou ainda o que aconteceu há poucos minutos, quando o senador Álvaro Dias deu uma prova de patetismo, sugerindo que as prospecções no pré-sal sejam suspensas por conta da espionagem americana... Ele sabe algo de política internacional?

O cidadão médio, e infelizmente inclui quem faz, executa e defende as leis, não sabe muito mais coisas realmente úteis, do que quem morreu em 1900. Não falo de fofocas de subcelebridades, de capítulos de novelas falsamente engajadas, tampouco novos meios de burlar a receita federal; tudo isso é da idade média. Falo de conhecimentos técnicos, científicos e, se for o caso, verdadeiramente teológicos, algo que vai muito além de memorizar cada parágrafo de um livro que foi retraduzido dezenas de vezes, e que precisa ser lido com muito discernimento. Ainda hoje, tem gente que pensa que o sol gira em torno da terra, mesmo com diploma universitário. Como era no século XIX.

Quase todo mundo sabe lidar com um celular, mas quase ninguém faz idéia de como sua conversa vai pra lá e a do outro vem pra cá. Nem se importam, mas deveriam. Os cérebros atrofiados pela comodidade e pelo uso restrito de suas faculdades, fazem falta ao bem comum. Quem se acostuma a investigar um pouco de vez em quando, só um pouco mesmo, tem uma percepção de realidade muito mais lúcida e cristalina. Pode até errar, mas mesmo no erro presta bons serviços à posteridade. Na realidade, até sabedorias populares estão se perdendo, então o cidadão do século retrasado leva alguma vantagem.

As guerras continuam, por motivos que não ameaçam absolutamente em nada as fronteiras, as segregações continuam na marra e legitimadas pelo rótulo de "tradição nacional", as pessoas continuam com medo das inovações, o desprezo por quem não é do grupo continua arraigado e por aí vai. Tudo típico do século XIX. Não vou me aprofundar no fundamentalismo e na intolerância dogmática, que nada tem de religiosa, é só dogma mesmo. Isso tem explodido desde 1979. "Traficantes de Jesus" expulsando espíritas do morro... Qualquer semelhança com o obscurantismo de séculos passados é mera realidade.

A chegada do Século XX foi desastrosa, tanto quanto se poderia esperar. Ele só existe mesmo desde 1995, praticamente, foi espremido pelo antecessor, que durou quase dois séculos. Como uma criança que demora muito a nascer, e nasce em meio a violências diversas, ele tem esquizofrenia grave. Não bastasse a saúde debilitada e a personalidade muito agressiva, ele não sabe quem é, o que faz aqui e tem horror às pessoas que vivem neste tempo, tanto que as liquida sem dó.

O facto de o século ter finalmente virado, não significa grandes cousas, porque a influência do anterior persiste pelas primeiras décadas. Ainda estamos nelas. A mentalidade fechada, o raciocínio focado nas satisfações animais, a rejeição de idéias que lhe são desconfortáveis e o apego agressivo ao que se acredita possuir, seja um conceito, uma coisa ou mesmo uma pessoa. Isso não é exclusivo de uma ideologia, é uma obsessão quase "religiosa" de todas elas, porque todas empunham bandeiras e não arredam pé de um milímetro sequer.

Preciso dizer que ditaduras sangrentas ainda existem e que ainda encontram defensores, que não dão a mínima para a população oprimida, desde que sustentem suas ideologias ou o os conceitos que lhes são anestésicos? Não, não preciso. E ai de quem disser que são regimes nocivos, viram inimigos mortais de seus defensores, ainda que tenham acabado de salvar-lhes as vidas.

Ainda hoje as pessoas confiam cegamente nas fontes com que simpatizam, bastando que continuem a dizer o que lhes anestesia. Ainda hoje as pessoas interpretam ao pé da letra tudo o que lêem, isso quando lêem, em vez de simplesmente repetir como um papagaio o que ouviram falar. Ainda hoje as pessoas vêem com desconfiança quem simplesmente tem um sotaque diferente, não raro isso é motivo para agressões, como na época das cruzadas.

As pessoas não compram algo pela sua utilidade, ou pela sensação de afeto que suscitam. Quase sempre, compram para parecerem o que não são, como os penetras de festas palacianas do século XIX. Quase ninguém compra carro colorido, por exemplo, porque o outro pode não querer comprar, na hora da revenda. Assim, o outro também evita comprar o que gosta, porque o outro outro pode não gostar e se recusar a comprar, já que também visa agradar o outro outro outro e assim por diante. Ou seja, ainda hoje sobrevivemos de aparências, nos esquecendo de viver nossas próprias vidas. E quem não vive a própria vida, vocês sabem, se mete na alheia ainda que não dê o mínimo por ela.

Bem, queridos leitores, eu poderia escrever páginas e mais páginas a respeito, mas este resumo dá bem o recado do que eu quero dizer. Não se iludam com a evolução técnica e científica, que resultou mais em quinquilharias supérfulas do que realmente em soluções reais. Este século ainda é o XX, e rogo que ele dure pouco, ele e sua mentalidade perniciosa. Espero de coração, que não chegue aos anos sessenta.

29/08/2013

A valsa triste

Não pensava que fosse passar por isso. Já fora hostilizada pelas patricinhas acomodadas, que só querem
arranjar um marido rico que as sustente, com luxos e mimos, em troca de não precisar lhes das satisfações com o que faz noutras camas. Sabem aquelas aprendizes de dondocas, cheias de não-me-toques, que publicam as coisas mais fofas do mundo nas redes sociais, mas humilham sem dó o garçom que trouxe o prato errado? Estas já a tinham execrado, a chamavam de comunista, de cubanista, adoradora de petralhas, feminazista abortadeira e um monte de outros adjetivos que não lhe serviam. Ela não era e não assumia absolutamente nenhum rótulo, muito menos os "istas".

Não queria ser guerrilheira de coisa nenhuma, conhecia muito bem a história, que estuda com gosto, e sabe das mazelas de ambas as polaridades ideológicas. Por isso mesmo também é olhada torta pelas turmas às quais pensam que pertence, acham-na muito bem adaptada ao sistema, muito mulherzinha, muito romântica, com gostos muito burgueses. Sabem aquelas marxistas de boutique, que clamam por direitos e morrem de amores por ditaduras sangrentas? Estas ainda a toleram porque ela é engajada e contraria interesses de multinacionais, embora por motivos totalmente adversos. Uma vez ela soltou "Salário não é um tipo de lucro?" e quase foi linchada. Teria sido, não fosse praticante de kung-fu.

No cotidiano, porém, o verniz social se juntava ao medo de levar uma surra, e todos a tratavam com alguma civilidade. Às vezes até riam sinceramente das mesmas situações. Os professores, no entanto, não tinham a mesma simpatia, não os ideologicamente definidos. Eles podiam puní-la, então não tinham tanto medo de levar uma surra.

A gota d'água, porém, veio quando ela apareceu na sexta-feira, dia de traje livre no colégio, em um vestidinho trapézio com estampas geométricas, um vintage sessentista que comprara em uma feira de pulgas.

No fim de semana anterior, viajara com a família para São Paulo, onde havia um evento de antigomobilismo e memorabilia. Ficou encantada com aquelas peças e pediu aos pais que seu debute fosse temático. Não dispensaria a valsa, mas queria todo mundo com roupas retrô, se possível também a decoração. Nisso, trataram de comprar as primeiras peças dos anos cinqüenta e sessenta, o que incluía revistas, para se orientarem, e dois jogos de roupas.

Aquela visão era o pretexto que tanto sonhavam para enquadrá-la em seus padrões de difamação. De ambos os lados, incluindo professores "engajados e politizados", aquela indumentária suscitou os adjetivos "fútil", "reacionária", "prostituta", "alienada", "americanóide" e "nonsense". Ninguém falou uma palavra, não na frente dela.

Um dia, no mural do pavilhão, um convite estilizado com a imagem de um drive-in de época, convidava os amigos a aparecerem para seu debute. Foi a gota d'água. Para um grupo, ela estava ultrajando uma tradição sagrada, para o outro estava se entregando à subserviência patriarcal que tanto combatiam. Perseguição? Imaginem! Para um grupo, perseguição é desculpa de quem quer ser o coitadinho. Para o outro, só minorias historicamente oprimidas podiam ser perseguidas.

Chegou o dia. Não havia pompa, mas tudo estava um brinco! O bar temático montado, um velho frigobar transformado em juke box ao lado, mesas pequenas e bem distribuídas por todo o salão, exceto o bom espaço para dança. Os parentes quase todos foram, mas todos mandaram presentes. Alugaram câmeras de segurança para filmar de vários pontos do forro, e dar um diferencial ao evento. Lá fora, duas Vespas e três Lambrettas faziam companhia a um DKW 1963, um Fusca 1968, uma Rural 1960 e um Mustang 1967.

Arrematando, a discoteca era de época, com discos de vinil. Dezenas de títulos, com artistas das quais a debutante nunca tinha ouvido falar, antes de pegar o vírus vintage. Para se diferenciar, copiou um modelito dos anos trinta, com xale e chapéu ornamental.

Com o passar das horas, chegaram três professoras. Só elas e ninguém mais. a noite avançava e quase metade dos lugares estava vaga. O pai da moça, vestido de motoqueiro rebelde, foi ver com elas qual seria o motivo da ausência massiva, não agüentava ver a filha ansiosa e tristonha. Pediram para chamar também a mãe da moça, vestida da personagem Sabrina, de Audrey Hepburn, e contaram em voz baixa o que colegas e professores realmente pensavam dela.

O homem, indignado, quase pegou uma Lambretta para ir tirar satisfações, mas foi detido pela esposa. Conversaram e acharam melhor dizer-lhe que todos os seus veerdadeiros amigos, estavam naquela festa, mesmo sabendo que iria chorar. E chorou. Precisou retocar a maquiagem. Agora ela precisa prolongar a infância por alguns minutos, nos braços da mãe, depois retoma a alvorada da vida adulta.

Choro passa e ela volta ao salão. Manda tocarem Mireille Mathieu, porque agora será uma moça, não mais uma menina. É para isso que serve o debute, para avisar formalmente que não serão mais toleradas reações infantís da moça. Ela agora está a poucos passos de ser uma adulta. Será uma valsa triste, mas será a sua valsa e não abrirá mão dela por quem não merece.


22/08/2013

Fórmula Vee

Fonte: Race Brazil

Existe uma categoria no automobilismo, que uma boa empresa de médio porte pode bancar sem problemas.Não estou falando do kart, que já é arroz-com-feijão da mídia especializada. Falo de uma categoria que quase não recebe espaço eu mesmo jamais vi uma reportagem a respeito.

Me refiro a uma categoria que é levada à sério em todos os outros países, por suas federações e confederações, por permitir que adultos ingressem no automobilismo sem serem milionários. O Brasil, como sempre negligencia esta potencial fonte de circulação de recursos.

Trata-se da Fórmula Vee. O princípio é simples, um carro monoposto com a tradicional e acessível mecânica Volkswagen a ar, usando o máximo possível de peças já existentes no mercado, prontas para utilizar, inclusive as usadas na preparação do motor. Com esta receitinha básica, o médio empresário pode usar o dinheiro de uma caminhonete nova para iniciar uma equipe.

Sim, eu sei, automobilismo e "barato" são antônimos. A vantagem econômica da F-Vee, é que ela não tem custos astronômicos. Qualquer categoria excede fácil um milhão de reais, para fazer uma temporada, fora a compra do carro. Sem contar que a Stok Car brasileira não é mais aquela carismática, que utilizava carros de rua de verdade em suas provas. Carisma é o que não falta à Fórmula Vee.

Para começar, eles têm em média, apenas 75cv @, que empurram um veículo muito leve, com uma suspensão que exige braço da ou do piloto. Essa potência de carro popular seria inviável em qualquer outra categoria adulta, mas na Vee ela faz a festa, tanto do piloto, quanto da equipe e do público.

Mesmo pouca, a potência permite uma aceleração bruta dos carrinhos, que se passam fácil por aquelas réplicas motorizadas para crianças. Com o entre eixos, a distância ente as rodas da frente e as de trás, curto, as derrapagens obrigam a alguns malabares em curvas rápidas, oferecendo ao público o que toda competição deveria oferecer, muita diversão. E diversão sadia.

Há, claro, os detratores. A maioria por motivações políticas e pessoais. São eles, infelizmente, que detém a administração das entidades que dão tanto espaço físico quanto midiático, às categorias. A Fórmula Vee é muito equilibrada, o amigo Zullino trabalhou muito arduamente para fazer um projecto que agradasse a federação, com pés no chão e olhos no horizonte. Não há muitas chances de aparecer um super herói nacional que estampe matérias torpes em telejornais.

Sim, meus queridos, infelizmente a doença crônica da adulação invadiu todos os espaços. As pessoas que se esmeram em ter carisma para ganhar poder político em entidades que poderiam salvar o automobilismo nacional, só se preocupam em abrilhantar suas imagens e alçar vôos mais altos.

Ah, sim, a maioria de vocês não soube. Pois bem, muitos autódromos estão sendo vendidos à especulação imobiliária, no Brasil. O de Jacarepaguá foi só o mais famoso e escandaloso caso. O de Goiânia só não o foi ainda, porque o dono apenas concedeu a área, e só para uso automobilístico. Se pensarem em construir qualquer coisa diferente no lugar, ele toma de volta. Sorte que os outros não tiveram.

Infelizmente, um dos grandes trunfos do automobilismo é uma das causas de sua desgraça, em um país onde ser analphabeto funcional dá status. Precisa usar a cabeça. Não é só pegar um carro e sair dando cavalos de pau na pista. É preciso ter raciocínio rápido, conhecimentos mínimos de matemática, saber interpretar as decisões das reuniões com a equipe e, se for o caso, ter altos graus de conhecimento técnico, que inevitavelmente são precedidos de conhecimento acadêmico.

Well... Enquanto o brasileiro se encanta com polêmicas fúteis e baba por causa de "ídolos" que se esmeram em dar péssimos exemplos, esportes que desenvolvem o intelecto e a sociabilidade, como o automobilismo, vão ficando para escanteio, nas mãos de quem pode sustentá-los sem precisar de uma massa midiática apoiando. Quando aparece uma categoria séria e acessível, é o que estamos vendo.

Aliás, os pilantras que estão vendendo os autódromos, patrimônio público, para incorporadoras que não têm mais onde construir espigões, e não querem pagar o preço justo de um terreno no centro, fazem questão de que o povo continue a pensar que "corrida de carro é besteira pra rico torrar dinheiro".

Uma pequena metalúrgica que patrocinasse a Vee, e fornecesse alguns componentes de sua fabricação, teria um laboratório rápido e barato para aprimorar seus productos, se capacitando a crescer e enfrentar as gigantes do mercado. É só um exemplo, um de muitos que poderiam fazer a economia girar mais rapidamente.

Aliás, aqui deixo um adendo. Ao contrário da crença popular, o volume de dinheiro vale, em um sistema econômico, bem menos do que a rapidez com que circula. Um real que circule mil vezes, faz o trabalho de dez notas de cem. Assim uma categoria relativamente barata, conseguiria alavancar fácil a economia de uma região, se lhe fosse dado o apoio de que necessita, porque até agora eles têm trabalhado no peito e na raça.

Dãã... "O Brasil é país de futebol, quem não gosta de futebol não é brasileiro"... "Corrida é só Fórmula 1, o resto a televisão não mostra"... "Corrida de carro não faz copa do mundo"... "Inteligência é frescura de gringo"... Tudo isso é coisa que já cansei de ler e ouvir. Infelizmente este país se transformou em uma nação de umbigos que só raciocinam daí para baixo. Para a parcela que quer evoluir além do que apregoam as estatísticas do governo, acaba taxada de "burguesa reacionária", fútil, elitista, traidora da nação e mais um monte de abobrinhas. Ou seja, gostar ou concordar com outras coisas, é passaporte para a personificação non grata. Os malandros sabem disso e se aproveitam.

Infelizmente não há atalhos, o caminho é íngreme e os sabotadores vivem a molhar a grama da rampa, mesmo quando já está encharcada. Ajudaria se um artista da moda aderisse? Ajudaria, mas ainda assim é difícil, porque seria necessário manter o público mesmo depois do oba-oba que as publicações "especializadas" deflagrassem. Ainda assim, o gigantismo do estrago não deteve os teimosos que mantém o automobilismo honesto vivo.

Pode até acontecer de os campeonatos monomarcas, usados só para fidelizar a clientela, acabem expulsando as categorias acessíveis dos autódromos restantes. Eu já vi coisa pior acontecer por bem menos e em áreas essenciais. O que não vai acontecer, é essa gente deixar um laboratório eficaz e divertido ser extinto pela falta de caráter e compromisso de dirigentes, como fizeram com o Museu Alfredo Nasser, em Brasília... Ah, desculpem, o jornal não deu destaque nenhum, né...

Bem, caríssimos, pois os convido a pararem de colocar culpas em conspirações internacionais, acima de todos os poderes e de toda paranormalidade, e assumirem o quinhão que lhes cabe. Se há culpa de gente de fora, ela não nos exime da nossa, que é deixar nas mãos dos outros a decisão de nossos destinos, do que devemos ver, vestir, ouvir, assistir, comer e até do que devemos gostar. Tênis, como o automobilismo, não é esporte de burguês, é esporte de quem quer jogar tênis. Metam isto em suas cabecinhas, quem deve decidir o que vocês querem, são vocês, e eu sei que uma parcela gigantesca da população é automobilista enrustida. Não se assume com medo de perder suas turmas costumeiras. Pois paguem o preço, quem realmente for seu amigo, não vai se afastar por causa disso. A diversão, como tudo mais o que o automobilismo traz de bom, é garantida.


14/08/2013

A mais elegante

O anúncio segue o suspense comum a qualquer concurso feminino, com uma grande parcela das concorrentes se considerando a vencedora. Nenhuma gastou pouco, até porque é muito difícil conseguir modos refinados e aparência impecável, em um mundo extremamente apressado e poluído.

O mestre de cerimônias tira o resultado em papel rústico do envelope com relevos art noveau, dá uma balançada nas sobrancelhas e anuncia a vitória da "Senhora Grace Müller". Ela sinceramente não esperava, não depois do que passou para chegar em cima da hora ao pavilhão do concurso.

As outras também não esperavam, mas não podem reagir sem parecerem galinhas choronas. Elas não, mas mães, pais e agentes não só podem como o fazem, da forma mais deselegante possível! Sobem ao palco e cercam o mestre de cerimônias que, já esperando por isso, providenciou algumas apostilas e assentos para todos. Só se pronuncia quando estão todos sentados e de apostilas nas mãos, então explica os parágrafos marcados com fundo amarelo, no regulamento:
  1. Este é um concurso de cunho artístico e cultural. Não serão considerados o nome da família, as posses, a tradição nem o histórico precedente da candidata, a não ser que contribua positivamente para a sua boa apresentação.
  2. Os recursos movidos pela candidata e/ou sua equipe de apoio e/ou consulta, NÃO serão levados em consideração, a não ser que sejam considerados pelo júri, muito pequenos em comparação com os resultados obtidos.
  3. O aspecto estético conta dez pontos válidos, na escala de duzentos e cinqüenta, podendo ser majorado se houver nota máxima concedida por todo o corpo de cinqüenta jurados.
  4. A bagagem cultural conta de quinze a vinte pontos válidos na escala já citada neste regulamento. Não serão considerados "bagagem cultural" os seguintes ítens: novidades de revistas de celebridades, de reality shows, de artistas específicos que não tenham contribuído para o engrandecimento da arte e/ou da humanidade, viagens que não tenham agregado cultura útil.
  5. O vocabulário conta de dez a doze pontos, podendo ser majorado a critério do corpo de jurados, se houver unanimidade na nota máxima. Erros de português incompatíveis com a escolaridade, serão eliminatórios. Gírias e neologismos devem ser ditos somente na entrevista individual, devidamente acompanhados pelo sinal com os dedos de "aspas". O tom de voz acrescenta ou subtrai até três pontos, de acordo com a deliberação do corpo de jurados.
  6. A prova escrita conta de dez a quinze pontos, podendo ser majorado a critério do jurado, se houver unanimidade na nota máxima. A prova escrita terá duas etapas, a coloquial, em que é permitida a "reforma ortográphica", e a clássica, em que ela eliminará a candidata. Erros de português incompatíveis com a formação da candidata, serão eliminatórios.
  7. A prova de canto leva em consideração a afinação, a dicção e a sensação causada pelo timbre; este ítem fica a critério de cada jurado, com participação do público inscrito. Cada candidata cantará seis canções, três de sua escolha e três determinadas pela organização do concurso. Caso queira, a candidata poderá incluir uma canção à sua escolha, sem prejuízos ou acréscimos à pontuação.
  8. A prova de simpatia será avaliada por um júri extra, composto por três psicólogos, uma professora de boas maneiras e a vencedora do último concurso. Neste ítem, será avaliado o modo como a candidata trata cada pessoa, desde que entra até o momento em que si dos portões do local do concurso. Conforme aceito no acto da inscrição, todos os passos das candidatas serão vigiados de perto, e serão utilizados os serviços de actores para testes simulados.Espontaneidade conta pontos.
  9. A prova de relevância levará em conta a utilidade da candidata para a sua família e a sociedade. A promoção de festas, eventos e viagens para seus pares, sem finalidades altruístas, será desconsiderada. Trabalhar regularmente conta dez pontos, assistir entidades filantrópicas regularmente conta dez pontos, actividades socialmente úteis na internet contam até cinco pontos.
  10. A prova de solidez da elegância pode dobrar a pontuação da candidata, de acordo com o critério do corpo de jurados, se houver unanimidade na pontuação máxima. Serão levados em consideração o grau de dificuldades enfrentado pela candidata, os elementos potencialmente sabotadores, os danos sofridos e a apresentação da candidata após ter enfrentado todas as adversidades.
  11. Talentos. A criatividade e a capacidade de fazer mais com menos recursos, serão avaliados neste ítem. Não será necessário à candidata, apresentar artefatos complexos ou muito refinados. O bom gosto, o conteúdo e o conhecimento de causa, serão avaliados pelo corpo de jurados. Custos vultuosos não serão levados em consideração.
  12. Discrição. A candidata deverá ser comedida  em suas palavras, seus gestos e nos comentários a respeito de terceiros. Demonstrações de alegria e gestos particulares da candidata, poderão ser relevados, ou mesmo somar pontos na escala final. O corpo de jurados novamente contará com o auxílio do corpo auxiliar.
  13. Indumentária. Não será julgado o gosto pessoal da candidata. Serão avaliados três sub ítens: Estética, com consenso dentro do corpo de jurados e do público inscrito; Respeito à anatomia, com ênfase nas proporções e arranjos, bem como truques de conhecimento pessoal; Adequação dos trajes ao ambiente; Conhecimento sobre moda e costura. As categorias avaliadas são: Casual, Esporte, Esporte fino, Passeio, Gala, Vintage, Praia e outro à escolha da candidata.

Bem, vamos "desenhar", para evitar equívocos de interpretação. A Senhora Grace Müller usa uma Kombi 1974 da família para se deslocar. Eu andei de Kombi a infância inteira, quando meus pais eram feirantes, sei do que vou falar agora. Nossa vencedora, com louvor, mora em um bairro afastado, enfrenta o trânsito caótico de nossa metrópole em horário de rush, sem ar condicionado, sem bancos confortáveis e sem uma suspensão macia para ajudar.

Se não leram direito, isto é um concurso de elegância e bons modos, não de ostentação. Suas fortunas não contam pontos e não nos ameaçam.

A Senhora Grace Müller saiu da escola pública onde trabalha, se apressando para estar pronta para o andamento do concurso, saindo bem cedo de casa com não mais do que seu dedicado marido, enfrentando ruas com péssima pavimentação e sinalização deficiente, até conseguir chegar à ilha de civilização que é a região onde estamos agora.

Com tudo isso, a Senhora Grace Müller sempre tratou a todos com polidez, solicitude, sem medo de suar um pouco para ajudar nossos actores abusados, mesmo quando se vestiam de mendigos. No momento de suas avaliações, embora cansada, manteve o sorriso em seu belo rosto, se saindo bem em todas as provas, sempre agradecendo às pessoas que a ajudaram a chegar à etapa em que se encontrava.

Não citarei nomes, mas cada uma saberá de quem estou falando. Todas vocês, que agora reclamam, vieram de bairros próximos, quando não da vizinhança do evento. Mesmo tão de perto e vindo em carros de luxo, inclusive Rolls Royces, algumas candidatas não hesitaram em destratar e ofender nossos actores, mesmo já dentro da área externa do centro de convenções.

Antes das entrevistas individuais, absolutamente todas, à exceção da vencedora, foram flagradas disseminando intrigas contra as concorrentes, inclusive contra a Senhora Grace Müller, por ser de origem humilde. Reclamações de atitudes racistas chegaram aos nossos ouvidos, mesmo de candidatas claramente miscigenadas. Embora pequenos atrasos, devidamente justificados, fossem tolerados, algumas usaram de argumentação fútil, como facebook ou a chegada da nova coleção de inverno, outras simplesmente ignoraram a ficha de justificativa.

Com triste freqüência,  flagramos candidatas vindas de famílias abastadas, com formação acadêmica invejável, em atitudes vulgarescas, dignas do estereótipo das meretrizes de beira de estrada. A modéstia passou longe destas.

O objectivo do concurso é incentivar a civilidade, os bons modos e a humanidade nas pessoas, se valendo das vencedoras do concurso para dar o bom exemplo. E acreditem, há muitas pessoas que ainda prezam essas qualidades, inclusive os financiadores do concurso. Caso os reclamantes queriam contestar judicialmente, nossos advogados estão à disposição, conforme consta no contracto de inscrição. A Senhora Grace Müller agiu como uma princesa o tempo inteiro.

À vencedora e seu adorável marido, além da premiação divulgada, a premiação surpresa: Uma viagem de um mês à Europa, com o bônus de hóspedes por três dias, de sua Majestade a Rainha Elizabeth II da Inglaterra, uma de nossas apoiadoras, no Palácio de Buckingham. Sem mais, vamos à cerimônia de premiação! Maestro, patrocinadores e apoiadores, a homenagem à nova Senhora Elegância!

13/08/2013

A Dancing Nun




Patrícia é uma mulher bonita, de olhos penetrantes, com voz solene e envolvente, solteira, livre e desimpedida, mas com um elevado ponto de corte. Ela trabalha para sobreviver, pagar suas contas e sustentar seu gato, em um apartamento que não é muito maior do que uma Renault Master. Poderia passar facilmente despercebida na multidão carioca, e passa, já que conteúdo não aparece na testa.



Patrícia tem alguns problemas com o meio em que vive. Primeiro porque ela tem um bom gosto incompatível com sua condição econômica, ou será uma condição econômica muito aquém de seu bom gosto?



Segundo porque, novamente, tem um bom gosto incompatível com a cafonice do meio em que vive, ela é desenhista profissional e tem noção de proporções, sabe da lástima estética que é alguém usar calças seis números abaixo do seu e com a vagina quase à mostra, de tão baixo o cós. Fora outras bizarrices fashionistas.



Terceiro porque é freira anglicana. O voto que ela fez, é o de caridade, por isso precisa trabalhar para sobreviver, sustentar seu gato e seu apartamento, pegar ônibus lotados que levam quatro horas para fazer uma viagem que duraria meia de carro, enfim... Patrícia tem tudo para se desanimar com a vida... E andava meio desanimada mesmo.



Um dia, porém, não mais que derrepente, um lampejo taurino lhe invadiu a mente cansada e os brios de quem viveu a década perdida como se fosse a última; porque havia o risco de que realmente fosse, quem não viveu então, não sabe o que foi. Se determinou a livrar-se de seu pior inimigo, aquele cafajeste safado que tantas alegrias já tinha lhe tirado, que lhe incutia culpa por qualquer tabletinho de chocolate que comesse, que a torturava com as saudades de quando era uma garota dançante.



Levou a mão às costas, para pegar a espada e gritar “Pela honra de Grayskull, mas não tinha espada nenhuma, então gritou “VAI PRO INFERNO, SEDENTARISMOOOOOOOOOOO!!!!!” e começou a dançar.



Mas vocês sabem o quanto um cafajeste resiste em perder sua vítima. A tentou com os confortos do sofá, com a cama quentinha e aconchegante, com os mimos de seu próprio gatinho, vejam que canalha! Sem resultados, decidiu agredi-la! Começou a castigar-lhe os joelhos, que clamavam pelo retorno do sedentarismo charmoso e sedutor. VAI PRO INFERNO, DOR NO JOELHOOOOOO!!!!



Mesmo dolorida, continuou dançando, rebolando e fazendo o serviço pesado que Flash Dance faz parecer tão fácil! Fácil o cacete! Alguém aí já tentou virar um motor que ficou parado por anos, sem lubrificação? É a mesma coisa! O óleo novo demora a entrar, a ferrugem teima em gerar atrito e dificultar o giro do motor!



Depois de tantos protestos de apoio, inclusive de uma bailarina talentosa, a coragem cresceu e a teimosia tomou o lugar do ânimo, que pode variar, a teimosia nunca! A teimosia foi maior do que a dor, o cansaço, a chantagem, a manha do gato, a falta de espaço do imóvel e até da indolência que há muito assumira... VAI PRO INFERNO VOCÊ TAMBÉM, INDOLÊNCIAAAAAAAA!!!!!



A estrada é longa, com rampa íngreme, acidentada e escorregadia. Mas não dá mais. Já mandou o maldito sedentarismo ir procurar uma coitada qualquer. Não terá mais seu antigo parceiro de volta. E se ele voltar, o joga pela janela.



Não, mané! Ela não dança até o chão-chão-chão! Olha o respeito! Ela dança danças dançantes! Cousas que activam muito mais do que o baixo ventre, que geram coordenação motora, que atiçam os reflexos musculares, que afinam o raciocínio reflexo, que a tornam ainda mais maravilhosa! A freirinha tem bom gosto, eu já disse! Ela tem senso e tino. É uma freira rebelde, não se acomoda com massificações pseudo-populares! Não se acomodou nem com sua antiga paixão, vai se acomodar com esse pateta?



Patrícia dança ao som de gente talentosa, que fez a mídia ao seu redor, em vez de ter sido feita por ela. Patrícia dança o que lhe faz a diferença para a melhor, ela dança para ser o sol de seu sistema, não um satélite de sistemas alheios!



Não tem volta. Agora terá que subir o morro até o cume, até o planalto dançante que a espera. Patrícia dança pop, rock, tango, samba, dança rumba, dança cha-cha-cha porque nasceu, nasceu para bailar!



Após chutar o pau da própria barraca, está determinada não a recuperar as curvas da adolescência, mas a saúde e a disposição a que tem direito, são dela, só dela e ninguém tasca! Ela aprendeu de uma vez por todas que quem não dança, dança!



Aviso aos descrentes, céticos e línguas quilométricas: vocês vão se engasgar com seus próprios venenos.