27/10/2021

O Politburo Global


 


Imagine uma empresa pressionando toda uma comunidade com ameaças e chantagens. Começaria dentro de suas instalações, com funcionários queixosos sendo sumariamente demitidos. E por queixosos pode-se entender praticamente qualquer coisa, mesmo um comentário a respeito do calor que faz no depósito de embalagens. Qualquer coisa que vá contra a imagem de empresa perfeita e benevolente, mesmo involuntária, ainda que as ações sejam o exacto oposto, seria prontamente reprimida. Uma queixa contra um superior então, seria vista como tentativa de sabotagem e calúnia com o intuito de promover a insubordinação e perturbação do bom andamento do trabalho feliz e próspero, conseguido exclusivamente graças à competência e ao bom coração dos chefes da empresa, que por isso devem ser obedecidos sem contestação. As argumentações em defesa do infrator seriam protocolarmente recebidas, porém já com o intuito de impor uma punição exemplar, assim o conteúdo dessa defesa seria usado tão somente para ser utilizado contra a parte defendida, com cada parágrafo, cada frase, cada palavra cuidadosamente escolhida sendo deturpado e interpretado ao bel-prazer da junta julgadora.

 

Qualquer citação a nomes da alta hierarquia ou de erros antigos, seria declarada manifestação caluniosa, acarretando além de prolongadas sanções internas, incluindo trabalho insalubre e humilhações públicas, a demissão crua do denunciante, que então responderia a processo por injúria, calúnia, difamação e actos de terrorismo interno. Ainda lhe seriam cobradas as custas dos procedimentos processuais internos, bem como a inclusão permanente de seu nome em uma lista negra dos que perde o status de ser humano para se tornar um objecto indesejável. Mais humilhação e assédios seriam impostos por todos os meios possíveis de comunicação, incluindo mensagens e chamadas no meio da noite, ameaças por redes sociais e e-mail, bem como advertências para o caso de ele estar pensando em denunciar o assédio. Pelo sistema interno de som os empregados seriam obrigados, sem negligenciar o trabalho cada dia mais abusivo, a ouvir longos discursos de desagravo às lideranças da empresa, com citações raivosas ao traidor maldito pior do que um cão, todas as vezes que os altos chefes julgassem pertinentes. Sistemas de inteligência artificial com reconhecimento facial, vocal e de gestuário assegurariam não só a segurança, como o conforto e o bom relacionamento entre os servos dos altos chefes. Não haveria privacidade, posto que ninguém teria o que temer ou esconder.

 

Com a demonização da vítima e rígida proibição de comunicação interna, mesmo com o colega do lado, sem a prévia revisão dos agentes de fiscalização, a alta chefia veria por bem ampliar o controle interno. Começaria com os fiscais de boa convivência e harmonia interpessoal conversando entre si sobre como é glorioso terem líderes tão competentes e de bom coração a zelar pela prosperidade e segurança de seus subalternos, aleatoriamente puxando conversa com algum empregado, do qual se esperaria resposta pronta e sem titubear em favor d alta chefia, tanto melhor quanto mais ufanista for, não importam os exageros bajulatórios empregados. Toda manifestação de adulação e subserviência seria não só bem-vinda como também compulsória. Para isso funcionar bem, haveria uma larga flutuação interpretativa das palavras e expressões, fazendo até mesmo um “estou cansado” poder variar entre uma manifestação de insatisfação para com o trabalho e um protesto interno não autorizado contra a empresa, dependendo do contexto e do humor de quem tiver ouvido. Claro, a delação seria encorajada, porque o único amigo possível é o alto chefe, por cuja benevolência e por nenhum outro motivo todos ali e suas famílias ainda estão vivos.

 

Campanhas internas sucessivas e massificadas de assédio e diminuição do indivíduo o fariam esquecer, aos poucos e com o acréscimo paulatino de restrições, de que sobrevive por sua força de trabalho e que a empresa não faz favores em pagar seu salário. Salário que, aliás, seria progressivamente substituído por productos e serviços da própria empresa, a bem da harmonia familiar dos servidores que se sentiriam tentados ao consumo desnecessário e vicioso, restando apenas uns caraminguás para despesas ordinárias cotidianas com bobagens inofensivas a que tendem as pessoas sem responsabilidade e de baixo grau civilizatório. Rapidamente a cooperação compulsória incluiria o acesso irrestrito dos fiscais aos seus smartphones, que poderiam ou não ser devolvidos sem qualquer explicação, bem como o acesso a mensagens pessoais e redes sociais, que poderiam ser utilizadas livremente pela empresa para corrigir preventivamente desvios de opinião, a fim de evitar que o servo se encontre desnecessariamente em situação constrangedora ao olhos dos altos chefes. Com o tempo e a aceitação, a interferência se estenderia aos amigos e familiares dos servos, que seriam prontamente excluídos dos contactos a qualquer sinal de recusa à cooperação, o que obviamente renderia reprimendas públicas para o servo que não soube orientar seu círculo pessoal para a boa moral de opinião e expressão. Perdas e isolamentos pontuais são normais e necessários, nem todos se submetem prontamente à doutrina socializadora do bem-amado chefe supremo, que só visa o bem-estar geral e plena felicidade dos que dele dependem.

 

Com os contactos devidamente colhidos, eles também receberiam sua cota de assédio midiático e doutrinatório, para evitar que influências externas estranhas e perniciosas possam corromper a harmonia interna de convivência, opinião e pensamento dos tutelados pelos altos chefes, eles sempre preocupados e observadores da felicidade harmônica daqueles que lhes devem total obediência. Seria contado ao círculo pessoal como o tutelado é feliz e bem tratado no árduo labor em favor da prosperidade geral, com a história da empresa sendo revista periodicamente para impedir qualquer insurgência dissonante, para o bem geral e felicidade coletiva. E para o bem maior dessa harmonia, os altos chefes determinariam o acompanhamento das condições familiares de seus tutelados, dando-lhes relatórios regulares fornecidos pelos mesmos fiscais de harmonia que sempre os acompanham e amparam. Photos amistosas dos encontros amistosos e repletos de sabedoria seriam enviadas de seus filhos e conjugues, para que o tutelado possa se dedicar com tranqüilidade e prazer ao trabalho progressista e humanizador em prol do progresso coletivo. Não importa onde estejam os familiares, eles serão encontrados e abordados com o mesmo carinho das abordagens laborais internas. Claro que todos eles cooperariam da mesma forma, fornecendo seus spartphones e computadores para acesso livre e responsável, com acesso a todos os contactos e, eventualmente, correções preventivas de conduta social e de opinião.

 

Qualquer influência perniciosa ou de opinião desarmoniosa para com o ambiente sócio laboral da empresa, seria totalmente apagada das redes sociais em caráter permanente, de modo a permitir o progresso coletivo e responsável sob o cetro misericordioso dos altos chefes. Sanções pontuais seriam aplicadas, para o bem comum e felicidade geral dos tutelados, especialmente contra quem ousasse interferir nos assuntos internos e deliberações da empresa, se necessário com a destruição total do agressor. Os tutelados e seus parentes saberiam a quem recorrer, saberiam a quem delatar, saberiam a quem servir e saberiam a quem louvar, não se deixando enganar pela falsa liberdade venenosa de livre expressão e pensamento, que simplesmente não cabe na complexidade das relações culturais internas de uma empresa soberana e poderosa, que tem em sua longa tradição o alicerce de seus próprios procedimentos, sua própria e rica cultura, sua própria e justa tábua de leis, até mesmo o próprio e meticulosamente bem-composto hino da empresa. Assim, protegidos de toda e qualquer influência externa, a felicidade suprema reinaria entre os tutelados, sob guarda e proteção benevolente de seus altos chefes e do bem-amado chefe supremo.

 

Problemas? Sim, decerto, todo avanço traz consigo desafios e pequenos desgastes naturais, mas que devem ser enfrentados com alegria e entusiasmo sob as diretrizes da empresa, sem a qual todos estariam fadados ao completo fracasso. Não sejamos insolentes, não demos ouvidos aos inimigos de nosso progresso, aqueles que nos acusam têm inveja da prosperidade e harmonia, porque conseguimos vender nossos artigos de qualidade para o mundo inteiro e estamos engolindo os concorrentes, inclusive aquele estabelecimentozinho rebelde do outro lado da esquina, que ainda resiste à paz da qual somos guardiões, mas é questão de tempo até ser tomado e integrado às diretrizes de fidelidade e total subserviência. Em nossa empresa não há inveja, não há cobiça, não há empresa, porque tudo é de todos e ninguém sente falta de nada, todos os bens e serviços são gentilmente prestados pela empresa, com a sabedoria de dosar o suficiente para cada caso e necessidade. Ninguém é dono de nada, mas todos são felizes e têm o dever de assim se apresentarem, com o sorriso e o entusiasmo de quem não precisa se preocupar com o amanhã, com problemas, com absolutamente nada! NADA!

 

O que parece um cenário distópico de livro apocalíptico onde uma ditadura toda conta de toda uma sociedade, infelizmente não é ficção e não é uma empresa, uma empresa já teria sido massacrada por sindicatos e bastaria um boicote para dar o recado. Isso é feito por Estados e instituições acostumados a impor-se pela coerção aos demais, sempre eufemizando o que dizem e fazem, praticando o mal e diante desse mal culpando outros de terem-no feito. Não me refiro somente à China e Rússia, esta apenas um bebê rebelde se comparada àquela, mas a todo o aparato transnacional repleto de discursos benevolentes, mas que tendem a transformar o indivíduo em um idiota incapaz e totalmente dependente das decisões verticais para qualquer decisão importante, especialmente na lida social cotidiana, que fica cada vez mais repleta de neologismos bizarros, conceitos impostos desprovidos de fundamento e o completo desrespeitos pela própria cultura e história; como se reescrever uma época fosse apagar suas mazelas e conseqüências vigentes. Não sei quantos de vocês precisa de ônibus, mas algo que eu já escrevi aqui tem se agravado, não se limitando mais às pessoas mais pobres e de bairros mais distantes entre si.

 

Pessoas de comunidades diferentes que têm dificuldades em se comunicar, agora engloba também indivíduos com, ao menos deveriam ter, alto grau cultural e acadêmico. São pessoas com uma tonelada de citações na ponta da língua, mas que mal conseguem se virar quando encontram outras de turmas diferentes, tanto mais quanto mais díspares for o assunto central que os uniu. Entretanto, quando a chamada é para defender pautas e ideologias, todos passam a falar a mesma língua, ainda que cartazes pedindo liberdade estejam ao lado de outros exaltando “ditaduras do proletariado”, eles simplesmente não raciocinam por conta própria, só seguem as ordens de um líder central que talvez nem conheçam, mas cujos diretórios a ele se reportam. Mesmo diante das mazelas e dos arroubos autoritários de quem defendem, atacam o outro lado como se fosse ele o responsável pelo acontecido. Piorou muito quando o próprio Estado, levando ao extremo o excremento mental de “o que importa é a interpretação, não a lei” para praticar aqui o que seus deuses fazem com países vizinhos que não podem se defender. Imaginem um pedófilo julgando à sua interpretação as leis de proteção às crianças, então terão uma idéia do perigo a que essa prática nos expõe, porque agora qualquer um pode ser preso por absolutamente qualquer motivo, mesmo por crime de opinião, bastando o discurso ser suficientemente prolixo e repleto de manobras retóricas para convencer um magistrado. Se isso não assusta, imaginem um nazista no lugar do pedófilo a julgar um negro homossexual. Não é efeito colateral! Cuidar para que ninguém se entender pessoalmente, mas se unir em uníssono em defesa do que seus ditadores de estimação proíbem em seus territórios, é parte do procedimento. Assassinar os idiomas locais faz parte da tática.

 

As redes sociais, que já foram fone de entretenimento e socialização, hoje são abertamente acusadas por muita gente com canais prósperos que, por tocarem em feridas de ditaduras que agem livremente nessas mesmas redes sociais, têm seus conteúdos censurados ou excluídos sem maiores satisfações, só tendo-os de volta à exposição depois de muito tempo e perda dos bons modos diplomáticos, como tem acontecido com o Marcelo do excelente Hoje No Mundo Militar e o canal China Em Foco. Eu mesmo já o fui e, perto deles, sou um nada em produção de conteúdo, mesmo assim meus blogs são bloqueados na China… que com todas as atrocidades e ameaças a vizinhos que tem feito, fala o contrário em redes sociais e fica impune, mesmo sendo suas falas notoriamente mentirosas, com a plena e plácida aquiescência dos tais “verificadores da verdade”. Para os outros o simples facto de acreditar ou não em algo já é motivo para censura e até represálias, quem já ouviu “você devia ser expulso da faculdade por creditar nisso” pode ter uma idéia do que estou falando, aos outros desejo que nunca saibam. Os países que foram abertamente ameaçados por aquela tirania, por outro lado, são tratados como disseminadores de notícias falsas no meio acadêmico, artístico e nos conselhos das empresas de mídia, o que inclui as de redes sociais. Usar o que décimo terceiro ancestral de um indivíduo desses países teria feito, como argumento acusatório, é plenamente aceito e o assédio prontamente ignorado pelos (tambores rufando e metais tocando) VERIFICADORES DA VERDADE. Qualquer queixa mais severa é respondida com discursos prontos e cheios de neologismos medonhos como “estamos estando estarendo promovendo uma discussão ampla e democrática ao nível de socialização enquanto promoção da verdade dos factos” de fazer inveja ao mais barato e inepto dos advogados de porta de cadeia. Na prática manipulam as pessoas umas contra as outras e deixam ditadores livres para espalhar sua influência, estimulando aqui o que daria fuzilamento sumário em seus domínios; como exigir vagões de metrô com separação por sexo ao mesmo tempo em que exige banheiros unissex, bem como processar lésbicas por recusarem sexo (fundo musical de drama medieval aqui) com “mulheres trans” e ainda as fazerem se sentirem culpadas por isso. Esse tipo de desarranjo social é encorajado pelos idiotas úteis de que se servem, mas lá dentro de seu território eles exigem mulheres femininas e homens másculos.

 

Não à toa Putin perdeu o respeito pela comunidade européia, que tem feito contra seus países membros o mesmo que Moscou fazia com os países escudos soviéticos. Basicamente o mesmo que a então URSS e hoje a China estimulam seus lacaios a fazerem contra os países onde nasceram, contra sua história, contra sua cultura e até contra sua soberania. Também não à toa a Polônia está para ser a próxima baixa na União Européia, porque sua população ainda se lembra com frescor das dores que sofreu sob o jugo de uma ideologia que o politburo de Bruxelas quer impor na marra, sem dar a menor importância a aspectos culturais, tradições e traumas de cada população. Não importam os motivos, não aderir integral e subservientemente aos ditames dos burocratas que não dão satisfações à população, é motivo para represálias duras; sim, teremos um Polexit, não é se, mas quando. E é isso que estão tentando fazer no Brasil, bem debaixo de seus narizes, conforme venho alertando há anos, com a plena cooperação do judiciário, o maior culpado pelas mazelas do país. A mesma imprensa que destruiu as vidas dos donos da Escola Base, e que hoje se vendeu em alguns casos literalmente ao PCC, o que os impede de tocar nas atrocidades que ele comete, repete o bordão de compromisso com a verdade, a justiça e os valores democráticos, que seu agora proprietário despreza com asco, usando-os tão somente para chegar ao poder em cada nação lacaia e então impor com literalidade suas leis cruéis. Não por acaso, o PCC financia viagens de políticos e estudantes à parte mais próspera e controlada da China, de onde fazem transmissões lisonjeiras e trazem todo o discurso antiocidental que o regime propaga.

 

É ingenuidade acreditar que imposições de burocratas, ainda mais estatais, visam o bem comum, pior ainda o bem-estar do indivíduo. O estado não produz, só gere, e à amiúde gere muito mal, quase sempre com foco exclusivo para o benefício de seus gestores. De regra básica, para vocês se defenderem, peço que verifiquem até que ponto oque estão lendo ou ouvindo é auditável, qual o nível de transparência e até que ponto a fonte se permite ser investigada; notícia que não é auditável, não é confiável, não importa a fonte. Eu já adianto e já disse aqui muitas vezes que a auditabilidade e a autocrítica nacional são quase que exclusividades do ocidente, principalmente do continente americano. Mais uma é a abordagem de temas sensíveis, quem quer resolver o problema tenta te despertar o senso de responsabilidade para com o que estiver acontecendo, lacaios de ditaduras já chegam apontando o dedo e te incutindo culpas, como se uma mulher escolher ser dona de casa fosse crime hediondo e abrisse um portal para a volta da escravidão legal, por exemplo. Assim como nas máfias, os verdadeiros mandantes jamais são expostos pelos testas de ferro, que nunca se assumem como tal, então desconsidere de cara quem não aceitar expor a fonte primária para auditoria. Tenha paciência ao fazer suas investigações, levei vinte anos para chegar a muitas conclusões, algumas até mais, mas hoje os acontecimentos mostram que eu INFELIZMENTE estava certo.

 

Talvez eu pudesse ficar aqui a escrever eternamente sem jamais ter o texto pronto, mas acredito que o que já expus é suficiente par quem se dispõe ao doloroso fardo de raciocinar por conta própria. E antes de me despedir: Voltem aos seus blogs!

 

Inspiração para o texto: A Referência

06/10/2021

Seu concorrente é seu melhor amigo

 

1955 Packard

É consenso no mundo militar que o seu inimigo mais poderoso pode vir a ser, e sem grandes surpresas muitas vezes torna-se, seu maior aliado. Foi por isso que os americanos, mesmo com o risco confirmado, armaram e deram suporte ao exército soviético durante a segunda guerra mundial. Com os soviéticos indignados e furiosos, espumando de raiva, esfregando as caras dos nazistas no asfalto quente, eles puderam se dedicar mais a tirar satisfações de quem os atacou pelas costas. E o Japão derrotado, mas não rendido, tornou-se décadas depois o maior aliado contra a nova ameaça, que francamente não tinha feito nenhuma questão de esconder suas ambições e seus métodos; as gerações seguintes novamente não aprenderam nada com seus ancestrais. É assim em todas as áreas da vida, em todos os ambientes, provavelmente em todos os supostos planetas habitados e civilizados do universo; até mesmo um parasita pode se converter em aliado, como acabou acontecendo com as mitocôndrias, que de meros coletores de material se tornaram parte indissociável das células modernas.

Assim como a economia, a gravidade e a termodinâmica, não é uma lei inventada por uma pessoa, é uma regra inerente à própria existência. Um oponente honesto, que prime por jogar limpo, é o melhor parceiro que uma pessoa ou uma empresa pode ter, mesmo tendo às vezes ganas de torcer seu pescoço. A pessoa porque um, por assim dizer, inimigo franco deixa todas as suas falhas à mostra, sem disfarces, mas sem cair na armadilha de exceder a dose necessária. Ele não te romantiza, te enxerga com uma crueza que nenhum psicoterapeuta é capaz porque depende disso para te sobrepujar. Assim, com essa franqueza ferina, a proximidade desse inimigo te deixa a estrada limpa e sinalizada para o teu crescimento, com todos os alertas contra as armadilhas que o teu ego espalhou pelo caminho; é ele, o ego, o único e potencial inimigo que alguém realmente pode ter. Para não dar a esse “inimigo” o espaço que ele almeja, tua atenção à virtude e aos riscos te farão exemplo até para ele, que em último caso será o único a levar uma flor ao teu túmulo, ainda que para ter a satisfação de ter sobrevivido ao adversário, mesmo que caia fulminado antes de sair do cemitério.

Por causa de um oponente de valor, uma pessoa se esforça sempre e dá sempre o seu melhor, sabendo que o menor deslize dará preciosos milímetros de faixa para ele ultrapassar e ganhar preferência. Com o tempo, e fazendo as contas que esse adversário atento nos obriga a fazer sempre, vem a sabedoria de não precisar temer e tampouco perder tempo remoendo pequenas falhas e atrasos, porque a disputa é, ainda que palmo a palmo, de longo prazo. Aflições desnecessárias e ansiedades nutridas por eventos adversos é que te deixarão real e nitidamente para trás. Pode até haver o caso de esse inimigo te ajudar em segredo, é claro que ele JAMAIS vai admitir tê-lo feito, ou de forma dissimulada, porque ele também terá percebido que o teu progresso é que o faz perceber suas falhas antes que elas se tornem casos perdidos. Os erros que um rival vê o outro cometer com sua família, e ele prestará toda a atenção do mundo a eles, se esforçará para não repetir na sua, e o sucesso do rival logo chamará a atenção do outro para suas falhas. Assim um se torna para o outro um compêndio dos erros que não deve cometer, ou pelo menos deve-se abster-se ao máximo e corrigir com a maior presteza possível.

Não vamos nos iludir que inimigos sempre farão tudo diferente, é conversa mole. Eles fazem rigorosamente as mesmas coisas de formas diferentes, mudando estilos e adereços, nada mais do que isso. O seu inimigo em uma guerra vai guerrear, em uma corrida vai correr, em um teatro vai encenar, em um palco vai cantar e assim por diante. Se fizerem realmente coisas diferentes, um não incomodará o outro e não haverá motivos para contendas, assim não haverá rivalidades. O seu inimigo é você mesmo jogando no outro time. Ele te conhece tão bem que poderia ler sua mente apenas olhando nos seus olhos, e seguramente se aproveitaria dessa baixa de guarda para tirar vantagem. O facto de ser um “inimigo” leal, não significa que ele não entrará no seu território sempre que puder, por exemplo, para conquistar sua família falando bem de você e demonstrando qualidades que só ele notou até hoje, assim te deixando de mãos atadas para falar mal dele em público.

Ele não vai tirar proveito de sua família, muito pelo contrário, vai defendê-la como se fosse dele. Contraditório? Não! Humilhante! Ele fará de tudo para você perceber que ele é que está certo, e sua família acreditar que a sua implicância não tem nenhum fundamento. As flores que você deixou de dar à esposa, os agraços de boas-vindas que nunca mais deu ao marido, as conversas francas de que uma criança necessita e seus filhos já nem lembram como são, as datas de aniversário que a correria fez mofar na agenda, os detalhes na indumentária que o tédio da rotina jogaram ao esquecimento, as promessas que a falta de uma pressão moderadora te fizeram quebrar e muito mais, tudo isso está nos planos do rival. Se tiver um mínimo de juízo, ainda que como instinto de sobrevivência, o troco há de ser dado na mesma moeda, mas de forma personalizada. É uma aliança compulsória, bipolar e a certa altura será indispensável.

Da mesma forma um concorrente honesto será capaz de reconhecer o valor da tua empresa, mas se valerá justamente disso pra exaltar a dele e convencer a tua clientela a experimentar o que ele oferece. Ele vai agregar valores e diferenciais que remeterão imediatamente àquilo que você oferece, mas sem os problemas crônicos que você negligenciava por custos, por tradição, teimosia ou o que quer que seja, seu concorrente terá se debruçado sobre o problema até encontrar uma solução razoável e economicamente viável. Quem se lembra da Kia Besta, sabe dos benefícios que trouxe à Kombi. Por décadas sem concorrência, permaneceu praticamente sem qualquer aprimoramento, limitando-se a atender minimamente a legislação ano a ano, só evoluindo de facto quando a coreana chegou e chamou para si as atenções do público que simplesmente não tinha escolha. Quando a Besta saiu de linha, a Kombi novamente parou no tempo e, sem concorrentes, a VW não exitou em descartá-la sem deixar descendência assim que não era mais rentável…  e perdeu a liderança que nunca mais vai conquistar de volta.

Assim como a Cadillac é a única coisa que impede a Ford de cometer mais uma asneira e enterrar a Lincoln, a concorrência com a Besta e em menor escala com a Towner era o que motivava as atenções que a Kombi recebia da marca. A bem da verdade, a falta de concorrência real e leal tem corroído nossa indústria há tempos, em todo o ocidente. E é o pior tipo de corrosão, pela falta de uso. Foi de tal forma que quando as importações foram abertas, muito de nossa indústria se reduziu a pó, principalmente as fábricas de brinquedos e de tecidos. A falta de concorrência ostensiva nos deixou particularmente de tal forma despreparados, que quando ela veio quase decretou a extinção de nosso parque industrial. A própria indústria automotiva nacional, que cometeu o pecado de simplesmente eliminar marcas adquiridas, em especial a VW que mentiu descaradamente que manteria Chrysler e DKW, nosso portfólio era tão pobre a acanhado que mesmo as marcas de luxo fizeram a festa. Nós tínhamos os fora de série, claro, alguns deles muito sofisticados, mas eram incapazes de suprir uma demanda séria, demoravam muito para ser entregues e custavam o mesmo que esportivos puro-sangue e sedãs de alto luxo consagrados que povoavam o imaginário do brasileiro, eles a pronta entrega. Tivessem dado o devido apoio aos fora-de-série, que aliás eram clientes das grandes montadoras, teriam enfrentado melhor os importados, diluído os custos na maior escala de produção de componentes vitais e hoje teriam um portfólio digno de exportação… Não nos esqueçamos da Troller.

Para quem não sabe, e infelizmente o brasileiro tem memória de areia, a própria predadora VW já precisou recorrer à concorrência no Brasil. Claro que Scania e Toyota, à época, não eram concorrentes directas, embora a Bandeirante disputasse com a Kombi a preferência nos lugares onde não havia estradas. O problema foi na seção de pintura, que nos anos 1970 simplesmente pegou fogo, obrigando os executivos a fazerem negociações emergenciais rapidamente em uma época em que o Fusca vendia mil carros por dia no Brasil, na época metade da nossa frota motorizada era só Fusca. Isso não só resolveu o problema como salvou a Toyota do Brasil, cujo aluguel da ociosa seção de pintura deu fôlego financeiro em uma época de vacas anoréxicas. Isso além te ter enriquecido um pouco nossas ruas, com Fuscas usando as paletas da Scania e da Toyota se diferenciando dos outros. Mas passou a crise e os benefícios da cooperação com os rivais foi esquecida. Os primeiros caminhões VW, para constar, nada mais eram do que Caminhões Dodge com cabines VW… e as propagandas da ápoca, como aconteceu com a DKW, diziam que os clientes Chrysler então poderiam contar com a rede VW.

Não muito diferente da indústria americana, que com a perda gradativa das pequenas e criativas marcas, foi perdendo também o incentivo doméstico e os toques de criatividade de que as três grandes tanto sentem falta hoje. Essas pequenas tiravam leite de pedra, faziam modelos obsoletos continuarem bons por muito tempo, até terem condições de apresentar uma geração realmente nova, com isso ainda se davam o luxo de zombar da mesmice de General Motors, Chrysler e Ford; e mesmo essa “mesmice” deixava a indústria brasileira no chinelo. Com o ocaso das marcas pequenas, as japonesas tomaram conta. Um problema disso é que ao menos na época, elas não primavam pela lealdade na concorrência, o Iene era, ainda mais do que hoje, mantido baixo pelo governo japonês justamente para forçar uma competitividade maior, o resto vocês já sabem. Mais tarde veio a China que fez essa tática parecer brincadeira, fazendo dumping descarado e descaradamente desmentido diante dos números expostos, o resto vocês já sofrem. Às vezes, mesmo em se tratando de um rival, é preciso ajudar a resolver seus problemas para que eles não cresçam demais, saiam da casa dele e entrem na sua. Uma parceria com a AMC para produzir compactos, para os quais a GM não tinha cabedal nenhum, teria freado os orientais e feito bem a ambas; foi justo para os orientais que a clientela das extintas pequenas migrou, e todos perderam. Dar o devido valor e esporádico amparo ao concorrente doméstico, talvez tivesse minimizado a crise de 2008 a ponto de não haver riscos de insolvência. Hoje eles têm centenas de pequenos fabricantes, mas são como os nossos saudosos fora-de-série, e a maioria só produz kits para montar ou modificar carros já existentes.

E no dia 5 deste mês tivemos mais um exemplo de como a falta de concorrência é danosa, com a queda do grupo que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp. A burrice de colocar todos em um só lugar ajudou a agravar o problema, porque a queda de um se estendeu quase que imediatamente aos outros. Para quem pensa que foram apenas seis horas sem redes antissociais, muita gente tem nessas plataformas, na verdade essa plataforma única de três faces em que os três serviços se aglutinaram, o seu meio de vida. Soube de microempresários que tiveram trinta mil ou mais reais de prejuízo, e isso para quem só tem uma porta ou um pequeno estoque em casa, é muito dinheiro! Para quem vive de circular rapidamente bens e serviços, seis horas em horário comercial são uma eternidade. O hábito de se tratar o website como uma loja física piorou o quadro, porque uma loja física não pode ser simplesmente derrubada por um problema tecnológico, enquanto uma virtual só precisa de uma oscilação de energia para travar uma venda; ou pior, para travar o cartão do cliente no site, aí a coisa fica realmente feia! Houvesse cooperação com outras plataformas, inclusive as que foram engolidas, transtornos e prejuízos teriam sido mitigados.

Por último, mas não menos importante, vejamos o exemplo dos Estados Unidos, que perdeu um oponente poderoso, que o impelia a ser sempre melhor, mas cujo vácuo foi ocupado por um parasita que mente diante da verdade exposta e dá de ombros para os métodos, inclusive contra seu próprio povo. Aquela rivalidade elegante e inspiradora, ainda que perigosa, mantinha as atenções e os esforços no seu progresso, sempre migrando o mais rapidamente possível os avanços da área militar e espacial para o cotidiano do cidadão, que na época ainda conseguia se maravilhar e usufruir o máximo dessas conquistas. Hoje o que temos é uma parcela perigosamente grande da população americana simplesmente acomodada em confortos, simplesmente se deitando na almofada sem mais se encantar com o facto de tê-la e poder usufruir dela, consumindo entretenimentos que fazem os mais bestas dos shows dos anos 1970 parecerem altamente intelectualizados, somando-se a isso intelectuais moradores de bolhas que querem decidir até o que as pessoas devem pensar. Na falta de um rival real, aceitaram os inimigos imaginários que picaretas impuseram. Não deveriam ter deixado a Rússia à própria sorte, esta que sempre foi madrasta para os russos. Hoje são eles que precisam ocupar parte do vácuo deixado, a custos altos, porque o império parasita já quer forçar vácuos para ocupar, agindo como uma figueira estéril, que estrangula e vampiriza seu hospedeiro, gerando frutos ruins de aparência aceitável, só produzindo de verdade para si mesma. A esse parasita não interessam alianças, só subserviência.

Agora, empresário, olhe bem ao seu redor. Veja tudo o que seu esforço e suas estratégias conseguiram amealhar. Faça um breve histórico das últimas crises severas, desde 1998, dê especial atenção às vezes em que seu empreendimento correu o risco de fechar as portas, faça uma análise crítica honesta de tudo o que precisou enfrentar e das decisões amargas que precisou tomar até agora. Antes de bater no peito se achando o máximo, acenda uma vela para o seu concorrente, com toda certeza ele é um dos grandes responsáveis pelo seu sucesso.

22/09/2021

O mundo de infantilizados

 


Não sei se vocês já se deram conta de o quanto tornou-se arriscado contrariar uma pessoa. Os mais desatentos podem acreditar que a estafa mais freqüente se deve aos tempos difíceis que atravessamos, bem é também isso, mas não é só isso; é verdade, mas não é toda a verdade, não é nem a península da verdade. Encontrar um adulto que não veja uma discordância ou negativa como ameaça de morte está se tornando uma tarefa inglória. Várias vezes eu falei de adultos se portando como crianças mimadas, pois a coisa piorou muito, o mimo de querer atacar e não tolerar ser atacado tornou-se pandêmico. Não, as redes sociais não inventaram isso, o problema é antigo e já abordei em outros textos, a parcela delas desta empreitada medonha é a catálise, são enzimas que fazem tudo parecer muito maior do que realmente é, o que não seria um grande problema se todos os adultos tivessem feito dezoito anos, mas muitos não fizeram. A bem da verdade, a mim parece que a maioria nem fez dezesseis. O agravante é o facto de, admitam ou não, os adolescentes imitarem os adultos ainda que em modo reverso, daí vocês podem imaginar a caca que sai.

 

Do meu ponto de vista (não opinião, mas PONTO DE VISTA, a posição em que me encontro em relação aos acontecimentos) vejo pessoas até então ponderadas e sensatas, que levavam no deboche e risadas as contrariedades cotidianas, começarem a se levar a sério e contrair as moléstias inerentes, como repetir compulsivamente discursos alheios e não se darem conta da carga de rancor e ódio que recebem com isso, um veneno que vai fazer doer cada vez mais e tolher progressivamente suas capacidades de discernimento. Um exemplo é de uma pessoa por quem ainda nutro muito carinho, cuja consciência dos riscos e burrice das generalizações parecia ser uma apólice de seguro, mas hoje vem justamente seguindo e compartilhando opiniões de pessoas que generalizam descaradamente contra os que considera ser seus inimigos, afirmando que TODOS os de um grupo ou outro são absolutamente maus ou absolutamente bons, claro que com outras e prolixas palavras, a mesma prática de radicais religiosos para controlar seus seguidores e, em última instância, perseguir os que tiverem os estigmas do mal. Essa novela é repetida e eu já a vi literalmente milhares de vezes, em muitas delas vários capítulos exibidos simultaneamente… e continuo a assistir a essas reprises tóxicas. Para essa pessoa, agora, todos os indivíduos do grupo que seus mentores desgostam, são previamente julgados e condenados, sem o menor traço de investigação e sem querer saber os nomes dos bois; é aquela gente, então deve ser odiado.

 

Não se trata apenas de política, essa erva daninha enraizou em praticamente todos os campos. Vá, por exemplo, dizer que prefere sedãs familiares aos esportivos e verá uma legião de ofendidos por tu não babares por Lamborghini e Ferrari, tentando te fazer confessar crimes não cometidos. Isso é só um exemplo e já me aconteceu. O que agrava esse fenômeno quando se trata de política, é a imensa quantidade de apelos sentimentais e humanitários que os gurus da área despejam o tempo todo, mas para os quais na vida real não dão a mínima, basta ver os heróis que e porque eles cultuam. São pessoas para as quais, a medida em que se radicalizam, a vida do outro perde valor se estiver do outro lado da discussão, e com o tempo esse outro já nem é mais visto como ser humano. Recentemente um contato causou problemas deliberadamente em vários grupos e perfis, caçando briga por políticos. Eu estranhei ele trocar de perfil apenas dando pequenas mudanças no nome, ao longo dos meses, mas faz poucos dias que o flagrei ameaçando processar quem o xingasse, que era precisamente o que ele estava fazendo com os simpatizantes de outra corrente, ou quem simplesmente não concordasse com a dele. Não precisei investigar muito para descobrir que ele simplesmente saía pelo facebook procurando discordantes com o firme propósito de atacar, ridicularizar, humilhar os outros e fazer troça de qualquer sofrimento de que tomasse conhecimento. Agora, praticamente isolado, queima carbono com postagens de indirectas.

 

Quando se faz engenharia reversa do histórico dessas pessoas, se descobre que aos poucos, com maior ou menor ímpeto e velocidade, elas abandonam a busca de notícias dos factos, o que convenhamos tem se tornado cada vez mais difícil, para buscar publicações que corroborem com as narrativas adoptadas; as semelhanças com igrejas fundamentalistas não são mera coincidência, a estrutura funcional é a mesma. Muitas vezes essas pessoas gostam de compartilhar coisas como “Não gostou, passa por cima e esqueça” mas praticam o oposto na primeira oportunidade, naturalmente, como se nada de errado estivesse acontecendo, algo como “Oi, dei um murro na sua cara agora há pouco, vamos sair pra tomar um sorvete”. Claro que se o murro for na deles, o convite será rispidamente rejeitado, mas na situação oposta eles vêm discursos prontos de reconciliação e tentando incutir culpa à menor reação contrária, como crianças pirracentas. Aliás, pirraça parece ter se tornado a ideologia oficial do país, com as pessoas se recusando a ver as qualidades do opositor e aprender com elas, bem como fechando os olhos para as mazelas dos seus, novamente se valendo da polarização extrema com um raciocínio simplista, versando com amplitude sobre a superfície da água. A redução da capacidade de discernimento não é, entretanto, responsabilidade exclusiva deles, existe toda uma estrutura patológica suportando comportamentos imaturos e egocêntricos. Já faz algum tempo que as pessoas têm se deixado ser tratadas como mentalmente inaptas, e o primeiro fornecedor dessa droga foi o telejornalismo, que com técnicas de locução apresenta primeiro a sua conclusão e depois a notícia editada ao sabor de seus interesses, assim não importa o que tiver sido apresentado, a tendência do espectador será aceitar a conclusão prévia. Nas versões impressas as técnicas são outras, como deixar para um último e tímido parágrafo o outro lado ou o complemento da notícia, já sabendo que as pessoas têm ficado preguiçosas para ler o que não lhes der prazer.

 

O tolhimento do raciocínio para tirar conclusões e tomada de decisões tem cobrado seu preço, que é repassado à vítima já viciada e os que a cercam, como acontece com qualquer cadeia de tráfico de drogas. A proliferação de programações idiotas e idiotizantes, muitas vezes com frágil aparência cultural, é um dos reflexos disso. Decerto que a actividade partidária se beneficiou disso. O efeito colateral é a progressiva estreiteza do raciocínio, com as pessoas se recusando a cogitar o que quer que não esteja em sua zona de conforto intelectual, com o tempo comprometendo até mesmo a fluência linguística. Eu tenho testemunhado em pessoas próximas um empobrecimento vocabulário acentuado, tanto verbal quanto escrito e, meu Deus, como meus olhos doem de ter que ler certas coisas! Algumas sequer consigo decifrar! O excesso de emojis e gifs ajuda a dar uma idéia do que a pessoa quer dizer, e medir o grau de infantilização a que já está exposta, mas mesmo isso já está falhando, com figurinhas que nada têm a ver com o assunto sendo colocadas como resposta ou complemento da…  aham… comunicação. Não me refiro a pessoas de baixa formação escolar, há pessoas com pós-graduação ou mais contaminadas com isso. Gente diplomada com severas restrições de vocábulo e nenhuma capacidade de interpretação de texto, quando muito recorrendo a citações memorizadas para maquiar a deficiência, tem saído em profusão das academias. Agora imaginem a deterioração linguística da população comum, que mal lê um parágrafo por dia. Adultos cronológicos que desconhecem palavras básicas da língua portuguesa, que mal conseguem se comunicar fora de seus territórios, que podem mal cobrir a área de um bairro.

 

Nas redes sociais isso é muito amplificado e tanto mais quanto maior a interatividade. Conflitos por motivos torpes com “Vá se f@d3r filho da p¢t4” tomando o lugar do “bobão cabeça de mamão”, usando de argumentação do mesmo nível, enchem as caixas de comentários. A situação ficou ainda mais pesada quando a turma de visão rasa cheia de referências começou a querer ditar o que cada um deve pensar, se achando a escola do mundo, assim soltar “a coisa tá preta” pode custar vinte e quatro horas ou mais de banimento por acusação NUNCA INVESTIGADA de racismo. Às vezes nem terá sido o interlocutor o denunciante, mas o contacto do contacto do contato que conhece alguém que tem um contacto mais radicalizado e este tomou as dores que não foram sentidas, bem como julgou e condenou o autor como réu revel. Nem quer saber se houve intenções, em que contexto a expressão foi utilizada e nem mesmo que já faz parte do cabedal popular, Tico e Teco decidiram que aquilo é o mal absoluto e deve ser exterminado. E a gerência da rede social, o que faz? Isso, censura! Como é humanamente impossível analisar milhões de casos diários, deixam por conta de um algoritmo a ingrata tarefa de adivinhar o que o cidadão está pensando, quando na verdade nem é capaz de diferenciar um cotovelo de um seio. Mas as contas de ditaduras que em seus países baniram essas empresas, essas estão a salvo de qualquer represália.

 

E para o gargalhar dessas mesmas ditaduras, tanto ao algoritmo quanto os censores humanos aceitam qualquer birra como denúncia, às vezes até uma letra digitada errado como prova para censurar uma publicação. Ter dois adultos usando palavreado mais rústico para conversar, já é motivo para punições mais severas. A impressão que fica é que eles querem que nos tornemos todos Pollyannas, que só postemos coisas belas e agradáveis (não sei a quem) o tempo todo, que só escrevamos palavras carinhosas e enternecedoras, não importa o estado de espírito em que a pessoa esteja, como narrou o filme “O Demolidor”. Essa tutela forçada com censura de pensamento tolhe ainda mais o discernimento, já que haveria alguém para pensar e concluir no seu lugar; ou, pelo menos, haveria, se os próprios censores não fossem enviesados e simpatizantes de ditaduras, posto que não as punem, portanto com pensamentos também tolhidos. O resultado é a infantilização dos adultos, que respondem em duas principais frentes opostas e igualmente perigosas, uma aceitando usar fraldas e chupetas, outra tentando ser mais ogra do que queixada faminto. No meio, tentando sobreviver, temos dois tipos, o que ainda não se deu conta da desgraça que está acontecendo, mas sabe que não gosta do modo como tem sido tratado, e o que acompanha desde o começo essa degeneração, e não raro tem crises depressivas. Os infantilizados são a maioria, estão brincando de adulto e levando a ferro e fogo os seus brinquedos, enquanto adolescentes maldosos conduzem a brincadeira, evitando a qualquer preço que aqueles tentam contato saudável com o mundo adulto, repetindo o mantra “o mundo é mau, ninguém presta e ninguém vale nada” em seus ouvidos puerilizados. Assim, quando buscam uma notícia, já têm em mente o que querem saber e não toleram resultados diferentes, como se a realidade fosse obrigada a se moldar às suas expectativas, tal qual criança mimada de cinco anos. Já se apresentam a autores de algo que não tenham gostado de espírito armado e dedo em riste, acusando previamente e mandando estudar aquilo só o fazem quando corresponde ao que esperam saber.

 

Vocês notaram que os carros estão cada vez mais parecidos com brinquedos Hot Wheels? Que os esportivos parecem cada vez mais terem sido feitos com origami? Não é coincidência, é conseqüência. Se antes havia o medo de envelhecer, hoje o medo é parecer ter mais de trinta anos, porque a partir dessa idade não se é mais formalmente jovem e a coerência de atitudes passa a ser cobrada com rigor… ou passava, antes de ser socialmente aceito um marmanjo de quarenta se comportar como um púbere que tomou seu primeiro porre. Andar balançando lateralmente já foi sinal de problema ortopédico ou tontura, hoje caminhar como um bebê trombando em tudo e em todos é considerado normal, e ter a mesma reação de um ao ser contrariado também é. E do que uma criança pequena gosta? Gosta de coisas arregaladas, de desenhos exagerados e estereotipados, de caretas e luzinhas coloridas piscando por toda parte, de uma babá electrônica guiando seus passos et voilà, temos o design industrial contemporâneo. Esse mesmo critério é utilizado nas redes sociais.

 

Hoje sou visto entre outras coisas como encrenqueiro, por não aceitar ser infantilizado. As mesmas pessoas que outrora me admiravam por eu ser ponderado e coerente, hoje reclamam de mim por ter mantido oque eu demonstrava desde o começo, mas não admitem que elas mesmas podem ter mudado para pior. O tal “pensamento crítico” não é aplicado ao próprio escopo, assim não ajuda nem um pouco a pessoa a se melhorar, até porque a pessoa não quer. Porque isso implicaria em colocar em xeque seus heróis e suas narrativas, abandonar a conveniência de filosofias rasas e simplistas, admitir que pode estar errado e que o que foi tomado como inimigo pode não ser tão ruim assim, que todas as ofensas dirigidas a ele podem não ter base real e outras coisinhas mais, que acarretariam a necessidade de trocar as fraldas por calças ou saias. Mas é tão confortável se manter infantilizado, acreditar que existem heróis bonzinhos que pensam por você, te fazem acreditar que as decisões são suas e te dão um diploma de bem-comportado com o selo de aprovação do líder, enfim, entregar seu destino a outrem e brincar de ser adulto livre e independente, repetindo bordões alheios e aceitando suas conclusões; confortável como a picada do vampiro.

 

Já faz tempo que deixei de me encantar com palavras, que passei a estudá-las com ceticismo e frieza, sem me importar mais com sua forma, justo para não cair nas armadilhas acolchoadas em que outros se deitam placidamente. Isso explica em parte minha maior dificuldade para escrever e a aleatoriedade das publicações. Ainda que isso choque alguns de vocês, é um remédio tão amargo quanto necessário para me manter desperto porque lamento informar que, antes de melhorar, ainda vai piorar muito.

12/08/2021

Sem surdina e sem vergonha!

 


Não foi uma, duas, três… foram inúmeras vezes ao longo de muitos anos que ouvi falar de controle da poluição sonora em Goiânia, no fim da década passada chegaram a fazer barulho e parecia que daria em algo, mas foi só mais barulho mesmo… como se não tivéssemos o bastante! Antes que comecem a queimar motocicletas e expulsar seus fabricantes do país, um esclarecimento: Quando uma motocicleta sai da fábrica, o nível de ruído é relativamente baixo a ponto de permitir até ouvir o funcionamento da corrente, especialmente em média velocidade. Há casos em que uma moto original nem é percebida pelo pedestre e o condutor precisa acionar aquela buzininha estridente. Apesar de atrasadas em relação aos carros, motocicletas são submetidas a restrições cada vez mais severas de emissões de gases e ruídos, a ponto de até nelas o carburador estar com os dias contados, ainda assim todas já saem de fábrica com catalisador, que em si já restringe a passagem dos gases e reduz o nível de ruído. Em resumo, todas elas saem de fábrica já adequadas ao sacro direito de repouso de estudantes e trabalhadores. Sem exceção, desde a espartana Honda Pop até a luxuosa Gold Wing, até mesmo as genéricas chinesas que usam peças de motos nacionais fora de linha, o fabricante faz a sua parte; quando a moto sai da concessionária é que complica.

 

Para tornar uma motocicleta mais ruidosa, basta remover catalisador e o silencioso, mas isso não pode ser feito apenas cortando o escapamento, ficaria visível a grandes distâncias e os fiscais perceberiam mesmo com o veículo parado, então é preciso levar a uma oficina, quase sempre boca-de-porco, remover os miolos e remontar as carcaças. Pronto, o imbecil tem um veículo com aparência original de moto moderna, mas nível de ruído de fazer inveja às Yamahas envenenadas dos anos 1980. Existem escapamentos esportivos que prometem algum ganho real de potência, quase sempre irrisório para peças que não são baratas, as mais caras chegam a custar o mesmo que uma motocicleta de entrada e mesmo assim não fazem nada de relevante quando sozinhas, mas o aumento do nível de ruído é bem perceptível, especialmente em altas rotações. Aborrece a maioria, mas mesmo com essa artimanha cara ainda pode ser tolerável. Preparar um motor não é para amadores e não é barato; e filtro “esportivo” não é veneno! Basicamente é preciso preparar o motor para trabalhar com os novos limites, e nos modernos isso inclui retrabalhar o módulo da injeção, geralmente sem garantias de que a máquina vai suportar a nova carga de trabalho… e sem garantias de que vai passar na vistoria do Detran.

 

O que os malas fazem é algo bem mais simples e danoso, simplesmente retiram os miolos do escapamento, para combinar com o vazio de seus crânios, e trocam a injeção por um carburador para eliminar o limite de rotações. Eles sabem que a moto será levada para o pátio assim que caírem em uma blitz, mas os vidas-loucas só pensam no prejuízo quando vem a cobrança, e tentam passá-la para terceiros. A receita é simples: um carburador, que simplesmente fornece ar e combustível sem medir nem controlar nada, uma admissão mais aberta e escapamento sem restrições. Assim uma motocicleta que saiu de fábrica mais silenciosa do que as Kombis carburadas, fica mais ruidosa do que um Boeing 737 em procedimento de decolagem. A intenção não é se divertir com o som metálico e puro de um motor a 10000RPM, a diversão é justamente arruinar o necessário descanso do máximo possível de pessoas, porque esses lixos acelerados são ouvidos literalmente a mais de um quilômetro. Piora o facto de eles usarem marchas mais baixas para precisarem manter aceleração máxima a fim de desenvolver alguma velocidade, demorando mais tempo em cada trecho da cidade e atormentando mais pessoas com mais intensidade por períodos maiores. Poderiam estar a mais de 150km/h, mas estão a um terço disso e a população útil paga o preço.

 

Justamente por nada disso ser barato eles costumam usar essas mesmas motos como ferramentas de trabalho, nem sempre é TRABALHO, mas vamos só a este. Uma artimanha para admissão em empresas mais exigentes é pegar o escapamento de uma moto legal na hora da vistoria ou entrevista, troca desfeita assim que consegue a vaga. Por isso nem sempre ser possível e por haver demanda crescente e descriteriosa, a maioria trabalha por conta própria não como motociclistas, mas como cachorros loucos, costurando o trânsito em marcha baixa e alta rotação, dando de ombros para a segurança e o patrimônio de terceiros, destruindo retrovisores (cada dia mais complexos e caros) sem cerimônia e sem o menor remorso, ainda que aquele seja um carro de aplicativo, de que seu motorista depende para levar comida para casa, mas sem retrovisor ele não pode circular. Importando-se unicamente com o próprio prazer, destrói a motocicleta por uso abusivo por quase sempre saber como conseguir outra fácil por meios tortos. Em muitos casos porque o “papaaaaai” passa o cartão e ele tira uma nova da loja no mesmo dia, mas esse estrume de classe alta é assunto para frente. Por causa do estrume pobre os trabalhadores de verdade ganham má fama. Sim, é comum o cidadão precisar comprar uma motocicleta surrada para trabalhar, mas NEM DE LONGE uma moto mal conservada faz o ruído de uma deliberadamente modificada.

 

Já conversei com empresários que usam serviços de entregas e eles me descreveram seu pesadelo com esses tipos. Eles fazem questão de estragar a motocicleta e, quando indagados, soltam gargalhadas abobalhadas, que se convertem em prantos de arrependimentos crocodilianos assim que recebem o cartão azul. A descrição que me fizeram, e que soam grego aos leigos, vão desde garfos zero quilômetro completamente tortos ou trincados a rodas zero quilômetro empenadas como se fossem acidentadas. Quando vão investigar as numerosas multas que chegam, dão graças a Deus por a Polícia Federal não ter batido à porta. Até sugeri que lhes dessem motos eléctricas de baixa potência e aspecto mais feminino, mas eles reiteraram que esses cachorros loucos não dão a mínima, demonstram ter prazer em destruir patrimônio alheio, e seria também por isso que eles não fornecem mais motocicletas, contractam já exigindo veículo próprio para que o prejuízo vá para o bolso de seu causador; à parte os patifes que realmente esfolam o trabalhador, a maioria não fornece a motocicleta porque não quer riscos desnecessários. Bons tempos em que frotas de Fusquinhas com a propaganda da empresa faziam as entregas… mas um Fusca de firma não costura o trânsito com tanta facilidade e não encantaria adolescentes descerebradas sem limites, elas são parte das motivações, o sexo fácil e sem regras fomenta muito esse comportamento nocivo.

 

Claro que a indolência crescente e o padrão de exigência típico de novos-ricos se alastrando por toda a sociedade, tanto quanto o mau gosto generalizado inerente, faz com que o consumidor contemporâneo não se importe com os meios usados para a entrega ser feita, quer tudo na hora e com preço promocional! É o pretexto perfeito para o cachorro louco, e o pesadelo perfeito para quem realmente quer trabalhar direito. É facto que quem trabalha direito preferiria comprar um Mille 1998 para fazer suas entregas, com mais segurança e conforto do que qualquer motocicleta é capaz de oferecer, mas com esse trânsito moribundo simplesmente não dá. Antes de virem falar em custos, façam as contas. O baixo consumo de uma motocicleta se dá em razão da relativa baixa carga de trabalho do motor, que foi pensado para girar rápido e entregar boas porções de força em uma gama ampla de velocidades, se um imbecil decidir abusar dela, principalmente com modificações absurdas, essa vantagem desaparece e a balança pende paulatinamente para o Mille, que com seu motor muito maior pode pegar muitas entregas de uma só vez e cobrir uma área muito grande em uma única viagem, sem expor o entregador a intempéries e abordagens escusas… ou poderia, se prefeitos e vereadores ainda morassem nas cidades de que deveriam cuidar, mas moram em condomínios fechados e muitas vezes nem andam de carro. A película de asfalto aspergida em algumas ruas de Goiânia, por falar nisso, já está cheio de buracos.

 

Antes de algum idiota útil vir com discursos acerca de situações que não conhece, e seus filósofos de estimação menos ainda, eu lidei e de vez em quando ainda lido com esses tipos. Desde meados dos anos 1980 que o declínio das relações familiares (sim, se não quiser ouvir a outra metade da história, dê licença) vem causando ou incrementando esses estragos. Com garotos se casando ou simplesmente “ficando” cedo demais, às vezes antes da maioridade, sem ter aprendido praticamente nada com seus pais, que talvez pouco tivessem aprendido com os deles, tendo que aprender de modo torto as noções de limite que o mundo exterior dá com rudeza; por não ter recebido limites em casa, em vez de meditar a respeito das lições, muitas vezes se revolta por tê-las recebido e acha que por isso ninguém o ama, ninguém o quer, ninguém o chama de Alô Doçura. Nesses mais de trinta anos que eu acompanhei com atenção, cerca de quatro gerações nasceram e cresceram achando que o mundo inteiro lhes deve satisfações e proventos, com a mídia dando suporte a essa mentalidade umbilical. Não, nem todos se corromperam e nem todos os que se sentiram lesados pagaram a terceiros na mesma moeda, mas os que o fizeram eram numerosos e barulhentos o suficiente para causar o estrago, e choraram alto o bastante para atrair as lentes piedosas das câmeras de televisão, comportamento repassado à posteridade putrefata que temos hoje. O assassino passou a ser visto como vítima e sua vítima como apenas um número a servir de palanque eleitoral para direita e esquerda, dando-se ombros à família desamparada, retroalimentando o ciclo maldito.

 

Some-se a isso a fiscalização porcamente feita e meramente punitiva, quase unicamente para arrecadar com multas e taxas de liberação, penalizando quase sempre só o veículo, deixando o meliante livre para arranjar outro e voltar a fazer caca sonora pela cidade. O resultado são os pátios cheios de veículos aproveitáveis amarrados numa burocracia aleatória, obesa e burra, feita por quem não diferencia um disco de freio de um volante, apodrecendo às intempéries, enquanto o cretino está livre para barbarizar. Nem adianta tentar reter a habilitação, eles dirigem mesmo sem ela, às vezes sem jamais terem entrado em um CFC; outra coisa burra que inventaram, porque não atenuou em absolutamente nada a periculosidade do trânsito. Isso vale tanto para os imbecis que pensam que não têm nada a perder quanto para os cretinos que pensam que não têm nada a temer, as leis da física cobram caro para ensinar que estão errados. Quanto ao segundo grupo de amebas com nomes em colunas sociais, cito o caso de um filho de um certo ministro do Fernando Chilique Maldoso, que atropelou e matou por dirigir como louco em Brasília. Por ser menor de idade à época, não tinha habilitação. O que aconteceu bem pouco tempo depois? A porcaria da ECA foi posta em prática! Não defende as crianças de gente realmente ruim e nenhum dos ladradores que a defendem encara um traficante que abusar delas, mas as deixa completamente imunes às responsabilidades com que teriam que arcar, ainda que dentro de sua capacidade cognitiva e de resposta, mesmo que matem a sangue frio, para livrar o mandante do crime de uma acusação… isso quando o ilícito não se dá por vingança pessoal, o que para uma criança pode ser ABSOLUTAMENTE qualquer coisa, mesmo uma contrariedade rotineira.

 

Não foi para defender crianças e adolescentes que essa porcaria foi inventada, foi para dar imunidade aos filhos deles, os que a formularam e aprovaram! O alastramento e agravamento das tensões sociais e de segurança pública não são importantes para eles, não até fazerem discursos para angariar votos do eleitorado desesperado. O resultado é que qualquer besta de classe média que faz consórcio de Hilux passou a se achar parte da casta de intocáveis de Brasília, se vendo no direito de usufruir de uma imunidade que não tem e se achando à prova de balas. Chamar essa trolha precariamente alphabetizada de “elite” é ofender a própria língua portuguesa! Mesmo os que têm recursos para tanto, dificilmente merecem o termo, quando muito estudam para passar e esquecem tudo no dia seguinte. Infelizmente, porém, é nela que a juventude se espelha, gente com muita titularidade ou cobertura midiática e nenhum conteúdo.

 

Esquecendo-se de que as balas são supersônicas, ou talvez não sabendo pois o diploma foi comprado, os biltres mimados aceleram brutalmente no meio do trânsito e não raro desafiam a polícia em suas ruidosas, disformes, cafonas e horrorosas motocicletas, chorando na delegacia e fazendo ameaças quando são submetidos à lei da ação e reação. Então vem advogado que inventa argumento para transformar vítima de pedofilia em réu, papai endinheirado e corrompido ameaçando expulsar todo mundo da corporação, depois o imbecil faz vídeos mostrando o quanto foi injustiçado e prometendo sair do país (quem dera) para sempre, enfim! Fazem tudo o que JAMAIS fariam contra um traficante, cuja lei é a do velho oeste. Então vem um pé rapado encantado com a glamorização do crime e a criminalização da polícia, decide que se o descerebrado com dinheiro pode, um descerebrado ferrado também pode, arranja uma motocicleta mais torta do que sua própria fama e pronto! O descerebrado com dinheiro vê o descerebrado pobre obrando pela cidade e decide que pode mais do que ele, então em vez de simplesmente pôr a vida alheia em risco, a ceifa em um vídeo ao vivo. Aí sim, cumpre a promessa de ir embora do país antes que um flagrante possa acontecer. O descerebrado ferrado então tenta sentir o mesmo nível de adrenalina e se lasca, porque não tem dinheiro nem para a passagem de ônibus, que dirá sair do país! Mas vira herói de debilóides.

 

E com esses paradigmas o comportamento de símios no cio se intensifica, com o Estado se limitando a arrecadar com multas e taxas, sem a mais remota intenção de resolver o problema e perder essa fonte de renda, que não sei para onde vai, mas não é para as ruas da cidade. Solução? Infelizmente não vejo sinal de uma pacífica, embora não queira conflito armado, posto que quem fez o estrago são justo quem faz a lei e quem deveria executá-la, este aliás dá os piores exemplos possíveis. Filho de desembargador, por exemplo, tornou-se imune à lei, quem tentar prendê-lo recebe voz de prisão. Não precisa pensar muito para se dar conta de que além da arrecadação com multas e taxas aleatórias, o facto de os filhos mimados deles fazerem isso inibe qualquer ação efetiva para resolver o problema. É também pela sensação de impunidade que a saúde pública é corroída pela poluição sonora que, por lei, jamais deveria acontecer, mas no Brasil leis são feitas para anularem outras leis que continuam em vigor. Infelizmente foi-se o tempo em que crianças mimadas eram coisas de rico, agora temos desde os anos 1990 pobres mimados também, cuja indumentária grotesca dá subliminarmente o tom de ameaça a quem tentar limitar seus prazeres, combinando com o que fazem com as motocicletas e nelas com a sanidade pública. Em ambos os casos os parasitas sociais correm para suas famílias ou suas turmas, quando a força policial, que é o que impõe respeito à lei e não o nariz empinado de um magistrado arrogante, está em seu encalço.

 

Eu bem poderia aqui incentivar à desobediência civil, incitar a população a fazer justiça com as próprias mãos, dizer que uma parede de caminhões que apareça repentinamente na contramão não daria tempo para essas zoonoses falantes desviarem e evitar serem colhidas pelos para-choques e pneus dos brutos, que jogar balões de água com acetona repentinamente os desnortearia e os meteria em acidentes que poderiam ser fatais, não, eu não vou fazer isso… e nem precisaria. A confiança nas instituições já está no solo, é pouca coisa para se dar um abalo sísmico e nem a “força nacional” inventada pelo pior deles dar conta da revolta, então não haverá desembargador satânico arrogante que gosta de dar voz de prisão a policiais, todos vão simplesmente se esconder como os covardes que realmente são e apenas assistir à lei de Talião ser posta em prática por quem foi posto de lado pelos que interpretam a lei ao seu bel prazer… na verdade isso já acontece aqui e acolá, pontualmente, em rincões onde a pessoalidade ainda permeia relações comerciais e burocráticas. Porque o CPF não chora, o RG não se ofende e o CNPJ não sofre, quem chora, se ofende e sofre é a pessoa que os porta, então para um cidadão indignado e abandonado pelo sistema é sim tudo pessoal. Mais pessoal do que o apego doentio daqueles idiotas de motocicletas pelos seus prazeres baixos.

 

Os que poderiam evitar isso, assim como eles, estão muito acomodados em sua zona de conforto dentro da bolha burocrática em que entraram, como uma casta superior. Aquilo que não lhes doer na pele não será resolvido, já que dentro das bolhas habitacionais em que vivem essas coisas não acontecem, violariam as regras do condomínio.

02/08/2021

Os carrinhos de bolso japoneses

 

Subarus 360 and Ascent

Para quem já conhece, os keijidosha são famosos e tradicionais kei cars japoneses, mas para quem não os conhece vou dar uma explicação didática. Imaginem nosso antigo e pequeno Uno Mille com seus cerca de 3,6m de comprimento e não mais do que 1,57m de largura. Agora tirem 30cm do comprimento e 9cm da largura. É mais ou menos isso um kei car. Mas em vez do motor de 1000cm³, são permitidos no máximo 660cm³, que precisam de muita tecnologia e refinamento para conseguir potências aceitáveis, algo como um meio termo entre o motor de carro e o de motocicleta. E eles conseguem! Para um país com pouco espaço disponível, posto que seu território é extremamente recortado e montanhoso, onde muitas ruas medievais, feitas para dois pedestres em sentidos contrários trafegarem ainda existem, até mesmo o estreito 1,54cm de largura do Fusca passaria apertado; até Tóquio tem várias dessas ruas mesmo na região mais central. Assim como a escassez e alto custo do espaço horizontal, foi justo da necessidade de economia que nasceram os keijidoshas logo após o tratado de paz pós-guerra, na época as restrições de dimensões externas e tamanho dos motores eram ainda maiores! No máximo 150cm³ para motores quatro tempos e 100cm³ para dois tempos, a cilindrada de uma motocicleta pequena! Mas para as necessidades da época, em que japoneses carregavam esposa e filhos em motocicletas, estava óptimo! Essa restrição durou de 1949 até 1955, porque os gênios estatais se deram conta de que isso simplesmente NÃO FUNCIONAVA! Ainda mais com 2,8m de comprimento e 1m de largura máximos… simplesmente não funciona, assim como os carros bolha europeus como a nossa Romi Isetta simplesmente não vingaram quando perderam os incentivos fiscais. Se descontar a espessura das paredes do carro, por menores que sejam, sobravam uns 80 ou 85cm para os ocupantes se espremerem. Até as placas pra kei cars são específicas, amarelas para os de passeio e pretas para os utilitários.

 

Mazda R360 coupé 1960

Aqui tem um adendo: quando falo de “economia”, é sério! O Japão tinha contraído um empréstimo com os americanos para a reconstrução do país e queria se livrar da dívida o quanto antes! Evitar evasão de divisas fazia compensar o custo dos subsídios naquele momento, esses fatores tornaram o protecionismo japonês uma necessidade maior do que uma mera questão econômica, era questão de sobrevivência! Só se importava o que era essencial e de modo algum poderia ser produzido por uma empresa nacional, naquele momento. Eles trabalhavam basicamente em função de exportar, para isso o padrão de qualidade dos artigos industrializados foi para a estratosfera, um nível que ainda hoje é raro de se encontrar no Brasil. No final das contas, o vencedor da guerra foi o único a realmente dar a mão a quem se rendeu, os japoneses não se esqueceram disso.

 




                Embora esses motorzinhos de motocicleta bastassem para os 40km/h de limite das áreas urbanas, a coisa complicava muito quando o carro estava carregado e precisava enfrentar os íngremes aclives que recheiam a paisagem japonesa, então as motocicletas com a mesmíssima potência e umas centenas de quilos a menos os ultrapassavam com facilidade. De 1956 até 1975 os limites cresceram para realistas 360cm³, que tiveram seu ápice nos 40cv do Daihatsu Fellow Max SS de 1970. Para eles era um muscle car da categoria! E hoje é disputado pelos colecionadores do gênero. As dimensões máximas subiam para 3m e 1,3m, o que já deixava dois adultos viajarem sem se espremerem e se esfregarem a cada manobra. Não se enganem, havia sim carros bem maiores, inclusive alguns imensos carros americanos, para que para os padrões japoneses pecavam na qualidade da montagem; eram robustos, confiáveis, podia-se guardar Tóquio inteira no porta-malas e ainda ter reserva de potência, mas a necessidade de ajustes e pequenos consertos simplesmente irritava o perfeccionismo nipônico. Aliás, fora isso, eles amam os gigantes americanos, mas a pressão sindical para não sobrecarregar os empregados americanos tira deles esse mercado precioso. O problema dos carros maiores era e ainda é a falta de incentivos que os kei cars têm, e são também o calcanhar de Aquiles dos pequeninos, falarei disso mais adiante.

 

Daihatsu Fellow Max Hardtop TL1972

De 1976 até 1990, com o crescente poder aquisitivo e nível de exigência do consumidor local, os encantos dos 360cm³ desvaneceram e foi necessário aumentar para 550cm³ o limite fiscal para incentivos, as dimensões cresceram para 3,2m de comprimento e 1,4 de largura, em 1990 aumentaram para 3,3m, possivelmente por questões de segurança passiva. Isso é pouco mais do que meio motor de um popular no Brasil, mas ainda assim eles tiraram leite de pedra para que as novas motocicletas e os compactos de categoria acima não parecessem mais atraentes, aquelas por questões de segurança e estes por questões políticas e espaciais. O problema não era tanto o desempenho, mas o acréscimo de itens de conforto, de segurança e os reforços estruturais necessários aos testes de colisão acrescentaram massa, exigindo mais do que 360 cilindradas poderiam oferecer com a tecnologia da época. Como podem imaginar, isso só piorou com o tempo. Com os novos limites aqueles 40cv podiam ser alcançados com motores mais mansos e dóceis, com mais torque (a grosso modo a força que o motor gera para produzir potência e poder mover o carro) em rotações mais lentas e mais facilidade para transpor os morros. Como não são burros, os fabricantes não limitaram os kei cars aos veículos de passeio, utilitários minúsculos fazem parte da paisagem japonesa, trafegando com relativa facilidade pelas ruas medievais que já citei. Com esses novos limites eles ficaram atraentes e economicamente viáveis para outros mercados, especialmente Europa e alguns países sul-americanos, destes se destacando o Chile. Fora o Brasil as normas automotivas na América do Sul são muito brandas, quando não inexistentes, e a necessidade de status do brasileiro pesa bastante contra. No caso dos americanos, um kei car precisaria ser extremamente barato para ser atraente, a ponto de concorrer com motocicletas grandes, mas fora do Japão fica muito difícil dar renúncias fiscais e, mesmo que as tivessem, precisariam crescer e ficar mais potentes para serem vistos como carros de verdade. Na Europa ainda se incentivam carros pequenos, mas a realidade do mundo está se distanciando cada vez mais do idealismo político e, como eu já disse, esses carrinhos estão sob ameaça iminente fora do Japão.

 

Honda N360 1966

Em 1990 o limite subiu para 660cm³, mas a potência líquida (medida descontando todos os acessórios movidos directamente pelo motor) foi limitada a 64cv. Os motivos de os burocratas estatais terem escolhido justo este número ainda são brumosos, mas os motivos de limitarem a potência líquida fiscal é que com a tecnologia da época, especialmente o refinamento dos turbos, esses 660cm³ podiam facilmente alcançar 100cv e equipar mini esportivos, que sendo tão leves e pequenos, desvirtuariam os princípios legais dos incentivos ao kei car. Basta ver as motocicletas esportivas, que com essa cilindrada vão fácil de 90cv a 120cv sem grandes artifício, até mais se forem topo de linha. Isso entretanto não impediu que o recheio tecnológico e as listas de opcionais transformassem esses carros em pequenas salas do trono, com muitos deles contando hoje com direção semiautônoma, algo que NENHUM carro topo feito no Brasil tem. Coisas que um burocrata, com sua visão turva e estreita não consegue enxergar. Mas manter uma potência máxima legal não é ruim assim, para esses carrinhos, a disponibilidade de torque pode ser trabalhada para torná-los mais ágeis e menos sensíveis à carga máxima, algo relativamente simples com a gigantesca electrônica que monitora seus motores. Em 1998 aumentaram os limites dos carros para 3,4m de comprimento e 1,48m de largura, mas os números dos motores permanecem inalterados.

 

Tentativa de entrar no mercado americano, justo no auge dos gigantes V8.

Vou falar rapidamente do lado B do kei car. O maior problema é que eles são reféns daquilo que os criou, se mantém interessantes ao consumidor porque têm não só vantagens fiscais como também permissão para pernoitar na rua, circular em vias com severa restrição de carga. No Japão a compra de um carro comum está vinculada legalmente à comprovação de que se tem uma garagem apropriada para as dimensões do veículo. Em um país onde o metro quadrado vale ouro, ter uma garagem pode ser um luxo na maioria das cidades. Já se cogitou a derrubada de incentivos porque as ruas de Tóquio estavam se transformando em estacionamentos de kei cars, quase que impossibilitando outros cidadãos de chegarem e estacionarem no local, ou mesmo o acesso de carros de resgate e polícia. Não bastasse isso, esses incentivos geram um rombo nos cofres públicos de um país que tem uma dívida de 2,3 vezes o seu PIB, o que torna o Japão o país mais endividado do mundo, agora imagine isso com uma população cada vez mais idosa e menos contribuinte, para quem o kei car já se tornou parte da cultura e simplesmente não abre mais mão dele; e “ai” do premier se cogitar tirar os subsídios! É uma armadilha que nasceu de uma idéia interessante, mas virou um atoleiro.

 

Honda Life 1973 também não vingou, nem com a crise do petróleo.

Como já escrevi aqui, as normas de emissões e segurança não permitem mais aquela doce diferença natural de preços entre um carrinho de vocação urbana e um sedã médio familiar. Reforços estruturais, centrais de monitoramento, atuadores, cinqüenta quilos ou mais de fiação, bolsas infláveis por todo o interior e mais a histeria ideológica patológica anticarros reinante, tudo isso praticamente nivela os custos. E não adianta sonhar com a simplicidade dos carros eléctricos, ela ainda é sobrepujada pelos altos custos e baixa densidade energética das baterias! Por hora, no mundo real, compra eléctrico que quer um eléctrico, e mesmo ele só vende tão bem porque tem facilidades e isenções fiscais. A única fabricante não japonesa de kei cars no Japão era a Smart, e sabemos que nunca foi muito bem das pernas por alguns motivos que fogem à racionalidade pura. E sim, dá para fugir um pouco dessas restrições, até certo ponto, obviamente abrindo mão de parte das renúncias fiscais e das facilidades de circulação. Mesmo aquele carrinho que a GMC faz em parceria com a SAIC e a Guangxi oferece pouco para o que os japoneses esperam, além de ser chinês, o que de cara angaria a antipatia japonesa. Fora da China as chances desse carrinho seriam tão mínimas quanto a confiabilidade do regime.

 

Honda N-One 2021

Por tudo isso os kei cars de passeio se tornaram tão atidos ao gosto japonês, que virtualmente não têm espaço relevante no resto do mundo. O mercado chinês é gigantesco, mas os veículos baratos obram e se locomovem para normas de emissões e segurança, então não conta. Os europeus até compram, mas facilidade com que se deslocam de um país para o outro, tornam os subcompactos locais mais atraentes e interessantes para os incentivos do politburo de Bruxelas. Até mesmo a ilha britânica oferece mais espaço útil do que o Japão, então as restrições consideravelmente menores tornam um kei car típico muito menos atraente. Decerto que os utilitários, e aqui temos um erro crasso de estratégia de marketing, obteriam mais êxito para entregas urbanas, ainda mais considerando que mesmo o Brasil ainda tem muitas ruas do tempo do império, especialmente nas cidades históricas. Seria a Suzuki trazer suas microvans e aquelas motocicletas transformadas em veículos de carga passarem por muito maus bocados. Aliás, a saudosa Aisa Towner, ainda bem valorizada no mercado de usados, é prova de que eles lograriam êxito, e quem sabe abrissem caminho para os de passeio. Até mesmo o Suzuki Spacia poderia vir em uma versão utilitária, antes de desembarcar como carro de passeio. Apesar de que eles sofreriam muito aqui, porque a economia de espaço inclui caixas de rodas pequenas, o que significa pouco espaço para a suspensão trabalhar, o que implica em pouco curso e por conseqüência com trema que é o certo a maior sensibilidade a pisos irregulares. Haveria poucos lugares em que eles poderiam rodar sem se desmanchar por ressonância. Os utilitários tudo bem, podem ter suspensões mais altas e com cursos maiores, mas os carros de passeio teriam problemas sérios. Outro obstáculo é que as normas de segurança são um pouco mais brandas e o comportamento do japonês ao volante ajuda muito, duas coisas que são impensáveis por aqui.

 

Daihatsu Move Canbus

O cidadão japonês é culturalmente protecionista, embora não tão irracional quanto os franceses, por isso mesmo eles preferem pagar mais por um carro japonês a se render aos encantos de um importado, e muitos deles consideram importado um modelo fabricado no Japão por montadora estrangeira. Apesar de gostarem dos carrões de luxo e dos clássicos americanos, os nacionais reinam absolutos e isso criou seres estranhos na fauna automotiva, inclusive porque a legislação permite absurdos 2 metros de altura para incentivo pleno a um kei car. Os desenhos feitos para maximizar o aproveitamento de espaço os faz parecerem minifurgões, isso é particularmente um pesadelo para o departamento de design. Eles precisam ser quadradões e terem pneus minúsculos mandados para os extremos dianteiro e traseiro do carro, para que as caixas de rodas não roubem o pouco espaço disponível para os quatro, e não mais do que quatro ocupantes. O pequenino e estreito pneu 145R80, que equipava o Fiat 147, é fácil de ser encontrado em um kei car. O alívio é que os japoneses são muito, mas muito mais abertos a novas formas de arte do que nós, por isso os designers podem delirar à vontade nos poucos pontos disponíveis. Assim como o mercado americano tem espaço para uma imensa gama de versões e um gosto arrebatado por carros grandes, o japonês dá margem para uma infinidade de versões de kei cars, alguns como o charmoso Honda N-One, inspirado no clássico dos anos 1960, até se parecem muito com hatches ocidentais miniaturizados. Curiosamente é o mesmo fabricante do caixote N-Box, cuja combinação de elementos estilísticos o tornou no mínimo exótico. Uma das obras primas do gênero foi o Nissan Fígaro, um roadster com estilo cinqüentista que angariou fãs no mundo inteiro.

 

Subaru 360 1958

Se externamente a maioria deles pode parecer repelente para o típico consumidor ocidental, por dentro o amor à primeira vista é altamente provável, eles têm mimos de fazer inveja ao muitos “premiuns” de araque do mercado brasileiro. Claro que o plástico predomina, mas os japoneses não se importam com isso assim como não gostam muito de bancos de couro, preferindo os de tecidos refinados e bem estampados, tanto que até o aristocrático e exclusivista Toyota Century sai de fábrica com bancos revestidos em tecido. Uma das soluções mais criativas é um lugar para guardar o guarda-chuva, algo que no ocidente só se vê em carros de extremo luxo como os Rolls Royce! Industrialmente o custo varia de irrisório a zero, mas vai procurar um carro ocidental médio que tenha essa praticidade! Direção nas quatro rodas também não chega a ser novidade nesse nicho de mercado. Também por isso, pelo foco na praticidade, os kei cars atraíram particular simpatia das mulheres, o que fez os charmosos tons pastéis e o bom gosto publicitário fazerem parte da estratégia dos fabricantes. Não, não estou dizendo “isso é coisinha de mulher e isso é coisona de homem”, seu pateta! Pelas diferenças BI-O-LÓ-GI-CAS inerentes aos gêneros, a mulher vem equipada com um kit genético de sobrevivência que falta ao homem, e por isso homens vivem menos! Esse kit genético inato, independente de aprendizado, dá ênfase à praticidade e à formação de estoque, por isso evitam comprar brigas que não valem a pena. Conseqüência: carros esportivos e agressivos, com seus altos custos operacionais e riscos de perdas, só entram na lista se todo o resto estiver bem, por mais sedutores que eles sejam. Embora as japonesas já estejam rejeitando productos muito estereotipados, elas ainda não pedem desculpas por serem mulheres. Mas não são só elas, os homens japoneses também gostam tanto de kei cars, que os utilizam em projectos, e a moda mais recente é fazê-los parecer com clássicos ocidentais, mesmo que só na dianteira e na traseira.

 

Suzuki Spacia

Daí muitos deles terem caras de menininho zangado ou bebê fofo, apesar de estruturalmente serem sólidos e capazes de muito mais do que aparentam. Pela própria arquitetura quase padronizada, não tem muito para onde fugir, um desenho muito agressivo na dianteira faria os para-lamas se destacarem no para-choques, com a pareidolia fazendo-os parecerem com bochechas gordas. Lamento pelos fãs do idiota “Velozes e Furiosos”, mas um Mazda Flair Wagon só vai figurar na franquia se for parafusado em cima de um chassi com motor que ficaria de fora do carro. Nem o esportivo Mazda AZ-1 tem agressividade para agradar ao público dessa… dessa… obra de cinema… mau gosto para tudo neste mundo! Enfim, o apelo familiar e a baixa potência em relação aos carros comuns, tornam um kei car o primeiro carro ideal para novatos e para quem precisa de um carro, mas não gosta muito de dirigir. A visibilidade é muito boa, as câmeras de ré e contra pontos cegos ajudam muito, fora que é perfeitamente viável obter um auxiliar de estacionamento que praticamente estaciona e sai da vaga sozinho. Para quem tem cadeirantes na família, as amplas portas traseiras são especialmente valiosas, é relativamente comum equipar um kei car com rampa de acesso. Para quem quer um negócio itinerante, a modularidade do interior acomoda facilmente um equipamento de cozinha, que pode ser retirado e devolver as funções de turismo do carro, quando não estiver em uso, e a tampa traseira levantada faz as vezes de extensão, bastante utilizada em piqueniques no Japão. Para quem odeia SVU, um kei car prático e econômico é o extremo oposto mais bem-vindo do mundo, e os homens japoneses provaram que o pinto não cai se tu dirigir um. Dependendo do caso, é o segundo carro ideal para a família, que seria utilizado no cotidiano, deixando o maior e mais potente para incursões de fins de semana ou férias. Ou seja, kei car é carro de homem de verdade.

 

Suzuki Hustler

Para não dizer que nunca os tivemos por aqui, a Mitsubishi tentou sem sucesso emplacar o I-Miev, no começo do século, mas o preço alto e a pouca autonomia espantaram os interessados pela minivan. A Subaru trouxe o Vívio, que foi mais bem-sucedido, mas os custos de importação e as tarifas mais tarde erguidas o mataram por aqui, ainda é possível vê-lo em muitas cidades pelo Brasil. Também tivemos algo parecido com kei cars na nossa indústria, o Gurgel BR800, sucedido pelo Supermini e teve uma minúscula versão biposta no Motomachine, tinha 3,2m de comprimento por 1,46 de largura, mas os anêmicos 32cv eram produzidos por um motor de 800cm³ porque o pretendido de 650cm³ mal dava para ele sair do lugar. Se o de 800 vendeu pouco, imagine com 650! Se colocassem um motor de kei car moderno, ele voaria! Também a saudosa e malograda Romi Isetta já citada, que por não atender aos quesitos da GEA ficou de fora dos incentivos fiscais, com isso se tornando mais caro do que o razoável para competir com o Fusca e até mesmo com a Vemaguete. Ela só levava três pessoas, se uma fosse criança pequena, se arrastava com o motor Iso de 9cv, que foi substituído pelo BMW de 13cv e ainda assim mal chegava a 85km/h, em uma época que não havia limites de velocidade nas estradas; com menos de 25cv ela não teria chances mesmo. E aqui, meus amigos, temos uma encruzilhada que ameaça os kei cars, porque a queda dos incentivos não é questão de “se”, mas de “quando”. Houve outros, mas não passarem de tentativas, como o minúsculo Mignone que tinha só 2,8m de comprimento, mas nunca saiu do protótipo de paradeiro hoje desconhecido, e o Economini, que teve até peça publicitária, mas sabemos que não foi um sucesso de vendas.

 

Mignone por  Jorge A. Ferreira Jr. e oficina Mecânica via Lexicar 1986.jpg

Uma alternativa plausível seria criar uma categoria abaixo dos dezoito anos, com menos exigências burocráticas e menos custos para a condução de um kei car, o que até serviria como um degrau para carros mais potentes. Vender para uso interno em condomínios de luxo também seria viável, particularmente útil para o comércio interno e para corretores imobiliários, bem como para hotéis fazenda, este uso em particular mitigaria os custos de aquisição e manutenção. Táxis especiais para cidadelas com ruas muito estreitas, e as temos em profusão no Brasil, também ajudariam o kei car a se livrar paulatinamente da necessidade de subsídios. Nos três casos seriam serviços que um carro comum teria dificuldades para prestar, em alguns casos nem conseguiria entrar nas vielas sem perder os retrovisores. O problema aqui seria a revenda, tão cara para o brasileiro, porque embora fossem imbatíveis em funções específicas, no uso geral são fartamente subjugados pelos carros comuns, mas seriam a única alternativa para um adolescente que precisa de seu meio próprio de transporte, para trabalhar e/ou estudar sem depender dos horários nem sempre coincidentes do transporte público. E por falar nisso, os supermercados e prestadores de serviços também teriam vantagens técnicas. Se o poder público fosse convencido da conveniência desses minicarros em suas frotas, que atrairiam pouca cobiça e desencorajariam comportamentos predatórios, seguramente haveria um mercado lucrativo para os fabricantes. O certo é que sem uma evolução súbita e dramática na tecnologia automotiva, o kei car continuará refém do fio de navalha que é o orçamento estatal, que nem de longe pode ser confiável, quanto mais eterno. O mais certo é que se tornem minicarros de luxo ou esportivos de bolso, se nada devolver aquela diferença natural de preços entre pequenos e grandes.

 

Daihatsu Midget

Para quem pensa em fazer um kei car em casa, as facilidades básicas são as pequenas dimensões, que demandam instalações mais simples, e a arquitetura básica de uma minivan. O maior problema técnico é encontrar para-brisas e vidro traseiro que sirvam nas escassas medidas, mandar fazer sai caro! O painel pode se resumir a um tablet barato formatado e reprogramado, isso qualquer camelódromo e qualquer técnico de informática podem fornecer, de quebra pode acumular a função de multimídia. O restante pode ser encontrado com facilidade em leilões do Detran e da polícia federal, inclusive o motor de uma motocicleta grande acidentada, que pode ser amansado para servir ao pacato propósito predominantemente urbano do seu veículo. Nada que fuja ao que sugeri aqui no texto anterior. Por ser artesanal, a quantidade menor de matéria-prima se traduziria em custos e prazos significativamente menores. Por não ser atraente a certos tipos de damas, seu cunhado mala não iria pegá-lo emprestado sem tu saber, ainda mais se tua escolha de design for o de um monstrinho zangado e fofo, com alegres cores pastéis e interior pensado para o seu tipo de mulher gostar, não os dele.

 

Links úteis:

 

- Kei car – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

- The 10 best Kei cars (List) | GRR (goodwood.com)

 

- Os 10 carros mais vendidos no Japão, sede da Olimpíada | Revista Carro

 

- Japan's Best "Kei-cars" or "Light-weight" Automobiles (japaninsider.com)

 

- Kei cars: como são os carrinhos minúsculos que fazem sucesso no Japão (uol.com.br)

 

- 10 Kei Cars That Prove Japan Has it Right (topspeed.com)

 

- Kei-Cars for Europe! (carthrottle.com)

 

- Ten Japanese kei cars we need in the UK | Top Gear

 

- The U.S. Has Kei Cars, They Just Don't Know It - carwitter

 

- Mitsubishi Announces Large-Scale Investment In New EV Kei Cars (insideevs.com)

 

- Oficina recria vans e caminhões clássicos a partir de minicarros japoneses - Quatro Rodas (abril.com.br)

 

- Daihatsu foi transformado num mini Land Rover Defender | Auto Drive (auto-drive.pt)

 

Fabricantes:

 

Home | DAIHATSU

 

クルマ | Honda公式サイト

 

マツダ オフィシャルウェブサイト (mazda.co.jp)

 

三菱自動車 (mitsubishi-motors.co.jp)

 

SUBARU オフィシャルWebサイト

 

スズキ株式会社 (suzuki.co.jp)