07/09/2022

O valor das coisas e do trabalho

De 0 a US$1.000.000,00 em menos de vinte anos.

             Em 1969 A Chrysler fez uma aposta muito ousada, não porque queria, mas porque o regulamento da NASCAR exigia uma produção mínima para um carro poder competir, na época e ainda por muitos anos só carros que o cidadão pudesse tirar da concessionária e ir dirigindo para casa poderiam ser homologados na categoria. Daí nasceram os gêmeos de suas subsidiárias Dodge Daytona e Playmmouth Superbird. Autênticos representantes da escola americana de esportivos, esses muscle cars na época ultrapassavam a então altíssima marca de 250km/h, quando chegar a 200km/h já fazia o motorista sentir-se em um foguete. A cereja do bolo, entretanto, vinha nas versões especiais, com preparação de corrida, verdadeiros monstros que passavam dos 320km/h, marca que os outros carros de rua lavaram mais de vinte anos para bater. Pela referência ao Papa-léguas da Warner Bross, e seu apelo mais jovial, o Road Runner, que é o nome original da ave, sempre foi mais popular. De quebra a aerodinâmica foi planejada em conjunto com a NASA e até hoje é muito superior à da maioria absoluta dos carros do mundo, de rua ou de competição. Com o lema de "vença no domingo e venda na segunda", as expectativas eram muito altas para a dupla, que era relativamente cara, mas nem de longe via os preços absurdos cobrados pelos esnobes e pouco confiáveis europeus bipostos, cuja única argumentação de verdade era a exclusividade.


            Infelizmente as coisas não saíram como planejado. O visual muito exótico para o gosto americano da época não ajudava, embora não tenha sido decisivo. O consumo de combustível era muito alto mesmo para os padrões da época, fazer 2km/l na cidade já fazia o dono se dar por satisfeito, mas isso sozinho também não seria motivo para o fracasso retumbante. O maior problema não era eles não serem bons, eram excelentes, verdadeiras maravilhas da enxuta e espartana engenharia americana, eram na verdade bons demais, a ponto de eles terem ameaçado o interesse do público pela NASCAR. Se houvesse mais de dois Superbird na competição, por exemplo, os outros competidores poderiam esquecer o pódio. A Chrysler produziu dois foguetes a pistão que facilmente deixavam os mais velozes dos outros comendo poeira, os responsáveis não tiveram outra escolha para salvar a categoria além de mudar as regras e assim tirar Daytona e Superbird do páreo. Não bastasse esse golpe duro, as seguradoras simplesmente se recusavam a fazer apólices para carros tão rápidos e velozes que estavam disponíveis a qualquer cidadão de classe média. Não era como um Porsche, cujo peço absurdo de sua grife limitava sua população, eram carros feitos para as massas. Em muitos Estados americanos um carro até pode rodar sem placa por alguns meses, mas jamais sem seguro, especialmente na Califórnia, que ainda é o maior consumidor automotivo dos Estados Unidos. Se eu não posso tirar o carro da garagem para ir ao supermercado, por que o compraria?


            Os Daytona e Superbird chegavam a ficar dois anos parados nas concessionárias, mesmo com promoções absurdas, feitas só para desovar o estoque e liberar o pátio. O resultado, além do prejuízo enorme, é que o primeiro carro feito em colaboração com a NASA valia, da noite para o dia, absolutamente nada. Valia alguma coisa como matéria-prima de siderúrgica, absolutamente nada como carro. As crises do petróleo puseram uma pá de cal na corrida dos cavalos, fenômeno causado pelo gosto do americano por motores cada vez maiores e mais potentes, enterrando de vez os investimentos nos dois bólidos. Vejam bem, o trabalho absurdo de dimensionamento e refinamento de duas máquinas que tinham tudo para serem clássicos instantâneos passou a valer zero. Pelo menos três anos de trabalho duro de milhares de pessoas, que chegaram a resolver os problemas mais crônicos de confiabilidade de um motor que era absurdamente poderoso, mas tendente a se autodestruir por superaquecimento, agora valiam zero. Centenas de milhões de dólares na época valiam, repentinamente, zero. Enquanto os outros muscle cars com haras muito menores continuavam recebendo encomendas e mantinham seus valores, os dois ápices da espécie valiam zero. Todo o trabalho estava lá, os carros cumpriam com o que prometiam e seu alto consumo era até razoável para o desempenho que forneciam, fora o facto de levaram a família toda e sua bagagem, coisa que nem sonhando um europeu "puro sangue" conseguiria, mas eles valiam zero.


            Na virada do século, porém, o interesse por eles ressurgiu como não surgira na época de seu lançamento, então um monte de sucata abandonada no mato já valia facilmente dez mpouco tempo depois um Superbird em perfeitas condições não trocaria de garagem por menos de cento e cinqüenta mil dólares, já as versões especiais pedeíam mais do que os duzentos e vinte mil dólares de cotação, era preciso convencer o proprietário de que não é uma idéia de jerico desfazer-se de seu agora sim clássico; um foi recentemente leiloado por mais de, segurem-se na cadeira e peguem fôlego, cerca de US$1.600.000,00! Se os carros são os mesmos, o desempenho é o mesmo e ainda há outros sendo descobertos e restaurados por aí, o que explica esse preço? A resposta é o interesse. Não acredito que essas cifras durem por muitos mais anos, mas não espere chegar com muito menos do que isso e sair dirigindo um Superbird. Agora as pessoas não só aceitam pagar, como pagam sorrido essas pequenas fortunas pelo que há menos de vinte e cinco anos não valia seu peso como sucata. Não foi uma grande corporação e nem uma nação dominante que definiu isso, foi o interesse das pessoas, sua admiração espontânea pelos modelos que os fez valorizar tanto. Então cai por terra a tese pueril de que uma empresa põe o preço que quiser em seus artigos.


            Mudando de exemplo, imaginem uma tonelada de pedregulho, pedrinhas de riacho. Bonitinhas, arredondadas, todas amontoadas em um monte. Experimente de sua própria iniciativa, carregar essa tonelada de pedras para um lugar que lhe seja mais conveniente. Vai levar muito tempo, algumas pedrinhas vão se perder e terão que ser encontradas, mas é um trabalho possível. Ajuda muito se usar dois baldes não grandes demais, pois isso arruinaria sua coluna e aceleraria sua fadiga. Se ao fim do serviço não estiver satisfeito, sendo de sua vontade podes realocar a tonelada de pedregulhos para outro lugar, até mesmo para o original. é um trabalho árduo e com o tempo seria os métodos de empilhamento seriam aperfeiçoados. Agora a pergunta de um milhão: quanto vale esse trabalho? Difícil de calcular? Então vamos a outras: Quem pediu para fazer isso? O que foi combinado? Resolveu que problemas? Além do ganho de massa muscular, se tiver feito o trabalho com a parcimônia necessária, eu lamento informar que seu trabalho vale absolutamente nada. Não importam sua dedicação, seus ferimentos, seu tempo e nem mesmo o desapego para tê-lo executado, mover uma tonelada de pedregulhos sem deixar um sequer perdido, vale absolutamente zero. Seu prejuízo, descontando a maior força muscular resultante, foi de 100% do capital investido... se os baldes forem seus, porque se tiver se endividado para a empreitada, eu lamento.


            Não importa o quanto tenha investido em um trabalho, seja para fazer um producto, prestar um serviço, oferecer entretenimento, o que seja! É o consumidor que vai dizer que quer ou precisa daquilo o suficiente para pagar pelo preço pedido, afinal o dinheiro é dele, fruto do trabalho dele, ele diz se troca ou não uma parcela do trabalho que teve pelo trabalho que está sendo oferecido. Daí idéias muito boas nem sempre virem ao mercado, porque o público-alvo não está disposto a pagar por elas, não pelo preço mínimo que o idealizador pode vendê-las. Algum tempo depois alguém descobre um meio melhor de fazer ou de oferecer essas idéias, de modo que entrem na faixa de preços exequíveis ou atendam a um público que se disponha a gastar mais. Não adianta apelar para o Estado, ele não tem dinheiro! Tudo o que entra em seus cofres é tirado à força da mesa do cidadão que paga impostos. A pessoa não escolhe contribuir para o erário, é coagida a isso. Ao contrário de épocas de grande crise, como a segunda guerra em que todo mundo comprava voluntariamente bônus de guerra para ajudar a derrotar o Eixo, não há virtualmente motivos para uma pessoa tirar da boca de seus filhos para dar a uma gigantesca onerosa burocracia, isso a faz dar mais valor àquilo que quer fazer por si, daí a indústria de entretenimento e os alimentos recreativos serem tão valorizados, mesmo que nem sempre sejam saudáveis.


            Cito o caso ocorrido há cerca de vinte e cinco anos, na Praça Coronel Joaquim Lúcio, aqui no Setor Campinas, quando um desses artesãos de rua começou a pedir uma passagem de ônibus para o centro, ou para Goiânia como alguns campineiros ainda falam, sem obter êxito. Ele ofereceu qualquer um de seus artesanatos em troca da passagem, todos eles bijouterias feitas com penas, pedras e resinas. Eram até bonitos, mas absolutamente não interessavam aos presentes nos dois pontos de ônibus da pracinha. Aquelas pessoas estavam em sua maioria muito ocupadas com seus afazeres, provavelmente com o dinheiro contado para as despesas da jornada, eu mesmo não conheço ninguém que usaria aquele tipo de enfeites, então ele não conseguiu a passagem que queria. Ficou triste e desolado, certo? Errado! Ele começou a gritar e xingar, chamando repetidamente todo mundo de hipócrita, alegando que não queria passagem de graça, que pagaria com o trabalho exposto no tecido que servia de mostruário. O problema, além de ele ter intimidado e afastado a potencial clientela com sua agressividade discursada, é que ninguém realmente se interessava por aquilo, mesmo os que porventura pudessem pagar o que pedia não estavam dispostos, ainda mais após a saraivada de ofensas bradadas por alguém que parecia acreditar que as pessoas eram obrigadas a comprar o que ele produzia. Nem restaurantes, que oferecem artigos de primeira necessidade, agem assim. Se em princípio, para aquele público, o trabalho dele valia zero, a partir daquele momento o valor de sua presença era negativo. Assim como com os bólidos já citados, não foi uma entidade burguesa que definiu o valor negativo do que era oferecido de modo rude, eram as pessoas que então não queriam nem ver a oferta.


            Da feita que não é o custo, seja lá em que padrão ele seja medido, que define o preço final possível de uma oferta, então meus amigos a teoria pueril de que existe um valor intrínseco em todo trabalho é completamente falsa, fruto de uma análise rasa de pessoas que em verdade nunca pegaram no cabo de uma enxada. Sim, eu já fiz isso, já fui até servente de pedreiro, já limpei até fosse séptica. Por isso gente externa à negociação raramente consegue avaliar o valor de uma oferta, via de regra não consegue avaliar direito nem mesmo os custos, que ao contrário do que a maioria pensa não são fixos, variam ao sabor até mesmo das intempéries, mesmo uma eventualidade que agilize ou precarize a logística pode alterar esses custos, e mesmo assim eles nem sempre podem ser repassados. Da mesma forma uma vaga pode ficar meses em aberto porque o público-alvo da oferta considera os termos envolvidos muito aquém do que deveriam ser; nem sempre é por "vagabundagem", embora eu conheça casos, na maioria das vezes o pagamento e os benefícios não cobrem o mínimo esperado. Na verdade, comprar um carrinho de pipoca ou pegar um de picolé para vender pode render mais do que a maioria dos empregos mais simples, que por conta disso estão empregando robôs, como as vending machines que infestam cada esquina de Tóquio. Custo e remuneração é que definem se um negócio sobrevive ou não, porque só quitar as contas não basta, as pessoas que investiram seu tempo e seus recursos materiais, precisam sair felizes assim como o cliente precisa sair feliz com o que tiver adiquirido.


            O valor intrínseco não existe nas relações materiais, ele é meramente moral e afetivo. Seu emprego em relações comerciais se deu por um erro de cálculo de pessoas que usaram a si e sua posição social como parâmetros para uma equação que deu zero, como se houvesse simetria e perfeição possíveis nas relações mundanas; não há, é tudo muito mais pessoal e menos racional do que sugerem os manuais catedráticos. Muito dessa mentalidade surgiu quando eclodiu a revolução industrial e as pessoas migraram em massa para as cidades, então a imprensa e os, vamos chamar assim por falta de outros adjetivos não ofensivos, intelectuais começaram a enxergar pessoas e condições de vida que simplesmente não conheciam, pelo facto de que jamais se preocupavam e ainda não se preocupam realmente em saber o que existe fora de seus mundinhos particulares. Analisar uma situação nacional pelas condições que ocorrem em seu bairro até faz sentido em um primeiro momento, mas tudo isso rui a medida em que o tempo passa e as condições naturais mudam, e uma análise real demanda uma capilaridade que grandes organizações rígidas são incapazes de ter, assim como uma grande locomotiva de modo algum consegue fazer entregas de porta em porta. Ainda que se construam duas fábricas idênticas em tudo, a diferença de localização e as diferenças pessoais entre os funcionários de ambas ditarão custos diferentes, e só cada uma vai saber como equacionar sua fração de realidade. Mais do que isso, as partes precisam inspirar confiança mútua, se não houver essa confiança o negócio simplesmente não acontece, não importa o quão vantajoso pareça, e isso sempre varia de pessoa para pessoa; como o investidor que nem olha para promessas absurdas e o trouxa que vai torrar eu patrimônio de novo em mais uma pirâmide, enfim ... Não pode e não tem como dar zero, funciona se perder um pouco agora para ganhar depois, é como respirar, consome-se energia para fazer a troca voluntária de dióxido de carbono por oxigênio, em movimentos alternantes.


            O conceito de valor intrínseco e tudo que dele deriva, inclusive a malfadada "mais valia", embora faça sentido a quem não se aprofunda no inferno invernal das análises de causa e conseqüência, simplesmente não existem.

24/07/2022

Só pensando com meus botões. Trabalhar no verão e descansar no inverno.

Imagine chegar mais cedo e ser recebido assim.
1950s-60s


             Não existe um tempo realmente certo para se tirar férias ou folgas prolongadas, primeiro porque a civilização geralmente nos provê o necessário para escolhermos quando isso vai acontecer, segundo porque essa mesma civilização precisa de nós tanto quanto nós dela, por isso essa escolha precisa ser bem pensada e feita com alguma antecedência sem garantias de que não haverá prejuízos De qualquer forma, é imoral que nos deixem morrer de fome, então com maior ou menor presteza haverá algum socorro; não espere por isso em comunidades isoladas, elas são tão restritas que quando um membro precisa parar, todos os outros sentem o peso e todos padecem junto em maior ou menor grau. Em uma comunidade isolada, ou mesmo no caso de eremitas, o que dita a época de trabalho e a época de descanso é o clima. Em época de fartura, trabalha-se duro para prover o necessário, reparar eventuais danos inclusive à saúde, reforçar a despensa e planejar a próxima estação restritiva, quando o repouso compulsório para a preservação dos recursos amealhados se dá.


            Era mais ou menos assim a até não muito tempo, na verdade até a revolução industrial muita gente nem sabia o que era um relógio, então não estranhava dormir mais no inverno do que no verão; provavelmente a maioria nem percebia esse fenômeno, simplesmente tratava de dançar de acordo com a música circadiana e ponto final. As coisas começaram a mudar quando deslocar-se deixou de ser algo de estrita necessidade à sobrevivência, e ser analphabeto não era mais uma "obrigação". As pessoas passaram a ler e escrever à luz de velas, sair para visitar alguém na primeira folga, coisas que incentivavam varar algumas horas além do ocaso. Com isso o hábito de dormir em dois turnos durante a noite, regra quase absoluta até a idade média, começou a dar lugar às horas corridas de sono. Foi um efeito colateral especialmente para a caótica era de reurbanização ocidental, quando sair para visitar alguém no fiofó da madrugada deixou de ser socialmente aceitável; isso é hábito medieval do sono de dois turnos. Para quem ainda não soube, na idade média as pessoas iam dormir com o sol, então sobravam horas de vida noturna que não cabiam no sono, então eles simplesmente tocavam a vida como se fosse dia, incluindo ir visitar pessoas no meio da madrugada, então voltavam para mais uma soneca. Imagine isso no inverno, com suas noites tão longas!


            Com o avanço dos meios de produção, que tornaram até um tecido caro como o algodão acessível aos mais pobres, as pessoas passavam a prestar mais atenção aos detalhes e não só ao conjunto, posto que sua sobrevivência agora dependia também disso, inclusive pelas novas regras sociais, por outro lado essas mesmas regras novas e sua fome por novidades deixaram as pessoas do povão cada vez menos parecidas, dando ao trabalhador braçal noções mínimas de individualidade. Embora as novidades tecnológicas da bélle époque ainda fossem inacessíveis, posto que eram tecnologias muito novas e com produção ainda consideravelmente rudimentar para se manter a qualidade em larga escala, antigos luxos como livros e relógios já não eram mais surpresas em casas pobres. As pessoas estavam mais cientes de si mesmas e de seu tempo disponível, então todas essas celebrações pessoais que temos hoje se alastraram. Já não se era mais um reles passageiro do tempo, já se era membro da tripulação, já se poderia fazer um mínimo para organizar a vida com relativa eficiência. Quando do advento das férias, com elas o hábito de viajar, que era reservado aos muito ricos e à extrema necessidade, a preferência especialmente setentrional pelo verão tornou-se mais cultural.


            Ficou quase que padronizado, o verão seria a época de se descansar e divertir, o inverno a de maior recolhimento mesmo com as actividades laborais ainda vigentes, primavera e outono seriam épocas festivas com ecos das tradições pagãs e tudo mais. O interessante disso é que justo nas épocas de maior fartura, as pessoas estão mais propensas a descansar. O irônico nisso é que do meio da primavera até o auge do outono temos a melhor época para acumular recursos e enfrentar os rigores invernais. Então seria o verão, com os bons efeitos da primavera ainda vigentes e as colheitas do outono se anunciando, a melhor época para fazer horas extras e não precisar trabalhar quando for mais necessário poupar energia. Aqueles memes que tratam o frio como tendo mais vida, deixam de lado por sua natureza satírica o facto de que o corpo trabalha mais para manter-se funcionando, com isso reclamando ingestão de mais calorias, que dão a sensação de saciedade que um quilo de brócolis não conseguem; dá um trabalho enorme digerir brócolis e, vai muita energia embora nisso. Assim consumimos os recursos que as fábricas fornecem, pois já há tecnologia mais do que suficiente para isso acontecer sem perda de qualidade, garantindo a quem precisa andar de ônibus uma subsistência mais confortável do que os ricos da baixa idade média tinham, até em casas de nobres a garantia de sobreviver ao frio era questionável. Um pobre de hoje pode ser mais rico do que os ricos de então, não romantizem tanto a idade média, na verdade ela era bem abaixo da nossa média.


            Ficou muito fácil produzir calorias de modo que não apodreçam em uma semana. Sim, a qualidade nutricional de um alimento industrializado é geralmente questionável, na maioria dos casos eles são alimentos recreativos, mas adivinha o que acontece se modificarem o sabor de uma barra doce para ser mais funcional do que saborosa. Ainda vai tempo até tudo ser saudável e saboroso sem custar os olhos da cada, até lá não subestime o poder de um refrigerante e suas altas doses de açúcar para quem está sofrendo de hipotermia e não tem outro recurso à mão. O facto é que essas calorias abundantes e baratas, com extensa validade, simplesmente não podem faltar em uma despensa de emergência, e um inverno rigoroso é uma emergência prolongada. Só temos algo parecido no Brasil na região Sul e olhe lá, não dura muito, mas enquanto dura ela castiga quem vive lá; admirar-se pela televisão com o espetáculo da neve caindo é coisa de gente tropical. Bem, se é fácil e barato produzir alimentos em plena era glacial provisória, imagine fazendo isso quando o clima é propício! Não que se deva parar no inverno, imprevistos ocorrem e precisam ser supridos, mas o ritmo biológico é naturalmente mais lento quando há menos luz, e em certas partes do mundo há mais de três meses de breu. Seria então mais econômico e até mais producente trabalhar mais nos meses mais quentes e confortáveis, para trabalhar uma ou duas horas diárias a menos no inverno, aproveitando mais a família e os amigos, bem como dedicando mais tempo à própria pessoa.


            Há de se pensar que o ocidental já é um trabalhador compulsivo, que passa horas no trânsito todos os dias, mas isso pode ser resolvido com planejamento, as empresas combinando de os operários da indústria de base entrar e sair uma hora mais cedo, por exemplo, mantendo esse escalonamento para as etapas econômicas consecutivas, bem como incentivar o quanto se puder o trabalho remoto. Nem tudo pode ser feito remotamente, não se desamassa um capô com planilhas e e-mails, mas boa parte da actividade intelectual pode, pelo menos uma parte da semana. Nisso se aproveitaria não só o clima favorável como também o dia mais longo para desestressar o trânsito em horários de pico. Com tudo propício para se produzir mais com menos dispêndio de recursos, com o calor e a luz solares incrementando o crescimento vegetal, animais engordando com mais rapidez, lâmpadas acesas por menos tempo, aquecimentos obrigatórios demandando menos energia e tudo mais, os custos de produção dos recursos necessários à época de escassez diminuiriam consideravelmente, pelo muito maior aproveitamento dessa janela energética. Nos meses consecutivos os preparos para o inverno incluiriam a redução gradual da jornada de trabalho, para facilitar a adaptação de nossos corpos que ainda são os mesmos da pré-história. A produção apenas para reposição e manutenção demandaria horas a menos de trabalho diário, dando às pessoas a serenidade que a estação demanda.


            Sim, é claro que é lícito entreter-se e esbaldar-se com a fartura veraneia, para isso se tem o excedente de produção, em nenhum momento eu disse o contrário. O que eu disse é que as estações mais claras e quentes são as melhores para se trabalhar mais e acumular recursos. E é este o ponto, porque as pessoas à amiúde querem aproveitar o dia mais longo para justamente aproveitar o dia, como se uma ou duas horas extras coletivas bem planejadas não o permitissem. Muito ajuda a manter essa mentalidade o cinema, que louva o verão como a estação do usufruto, como se pessoas não precisassem trabalhar duro para que alguns usufruam. Assim como a passagem da mentalidade laboral medieval para a moderna/contemporânea, não seria algo abrupto e impositivo, isso simplesmente não funciona. teria que ser incentivada a adesão voluntária ao modelo de cargas horárias cíclicas, em que se trabalha um pouco mais todos os dias nos meses quentes e o contrário nos mais frios, do modo mais gradual possível. Claro que o mesmo cinema que atrapalha aqui, ajudaria a incentivar essa adesão, da mesma forma como mostra o não trabalho como objectivo de vida.


            Decerto que nos países tropicais essa mudança seria bem menor e traria menos benefícios, fazer o quê? A economia gerada pelo resto do mundo, entretanto, seria benéfica para nós, que não precisando trabalhar menos nos poucos momentos de frio real que temos, venderíamos para eles o de que necessitam e, afinal, há artigos que simplesmente não são cultiváveis em zonas temperadas, não sem um custo abusivamente alto. Além do quê, não é para cá que eles viajam quando o inverno aperta lá? E esse mesmo inverno, com seu convite à introspecção e à meditação, tem tudo para se tornar uma época extremamente aprazível e romântica. Não, não estou apresentando uma agenda para impor e tampouco ordenando ao cancelamento de quem não aderir, meu grau de idiotice ainda é bastante baixo. Como diz o título, isto é apenas uma coisa que me veio à mente e que daria algo decente para publicar, mas também algo em que eu acredito, ou não teria me dado o trabalho de um dia inteiro dedicado a este labor. Desse modo nós deixaríamos de lutar contra o relógio, ele seria nosso aliado.

30/04/2022

A pergunta do espelho

Margarita Terekhova em Mirror 1975


             Quem é você? Não estou perguntando pelo seu nome, isso é mais frágil do que pensa, ele pode mudar de acordo com o idioma, até mesmo o sotaque de uma cidade para a outra! De um Estado para o outro seu nome pode perder o "S" e ganhar um "X" na pronúncia de uma pessoa comum, e lá pode ser que ninguém consiga pronunciá-lo como foi registrado, com o tempo alguém de fora que te conheça não saberá de quem eles estarão falando. Seu nome aqui pode ser comum, até bonitinho, mas em alguns lugares pode ser a coisa mais feia para se dizer, não raro até obsceno! Experimente, por exemplo, dizer "Rui" na Rússia, quando pedirem que se apresente, especialmente se houver crianças no ambiente! Vão te levar preso, depois de algumas bordoadas. Sua carteira de identidade é posterior à sua existência, não o contrário, então guarde seu registro geral e pense de novo em minha pergunta.

            Quem é você? Não, sua profissão também não conta. Ela é aquilo que você conseguiu, ou o que alguém conseguiu para você se manter e não depender tanto das pessoas. Digo "tanto" porque até mesmo as pessoas mais independentes dependem de prestações alheias, ainda que seja o simples acto de fazer seu pedido à atendente da loja. Hoje és um motorista, amanhã podes vir a ser o gerente de frota, um dia quem sabe largar tudo e abrir uma lojinha de doces a granel, então não importa! Assim como a identidade, o profissional depende do que você for, não o contrário, isso é apenas uma função para lhe servir de esteio, com muita boa vontade também para evolução moral. Para quem aprende sobre os melindres da vida em sociedade, é muito fácil montar um personagem para cara ambiente e ocasião e pode ser que NENHUM deles sequer represente o que ou quem é você. Nem mesmo nas festas de confraternização da empresa uma pessoa se apresente realmente como é, não se deve levar em conta o estado de embriaguez porque ele á uma caricatura tosca da pessoa, não ela em si.

            Quem é você? Criatura, de todas as coisas da vida, poucas são mais supérfluas e voláteis do que sua imagem social. Seu status nem começou pela sua vontade, lhe foi dado por seus pais assim que deste seus primeiros berros neste mundo. Só depois é que suas ações construíram a armadura de papel que, se fosse efetiva, não precisaria ser defendida, ela te protegeria, mas não é assim que funciona. Pode-se ter uma alta reputação vivendo de rendas modestas, assim como ter todos os bens que se sonha e ninguém ser capaz de não cuspir ao ouvir seu nome; bem como sua figura pode inspirar medo, admiração ou escárnio sem que qualquer uma dessas reações seja a justa. Não, definitivamente seu status não diz quem és, porque os motivos de o ter podem ser totalmente opostos aos que lhe são atribuídos. Seja um plebeu sem eira ou o imperador, essa imagem não vai refletir o que ela guarda.

            Quem é você? Muito menos o que as pessoas pensam a seu respeito. Como já dito, o público só poderá fazer juízo do que lhe for apresentado, e isso é demasiadamente submisso aos interesses do apresentador, cuja imparcialidade não pode ser fiel de balança nenhuma, afinal ele é humano! Mesmo que a tarefa seja dada a uma máquina, ela terá sido construída por um humano, cujo julgamento de sua pessoa vai influenciar pontos nodais de sua apresentação ao público, não importa o quão justo ele tente ser. Conhecer toda a sua história e ter acesso até a pensamentos que lhe são involuntários, é o mínimo que outra pessoa precisaria para fazer um julgamento confiável a seu respeito, e assim ter um pensamento minimamente justo, o que já deve ter percebido ser mera quimera. Quem o preza tenderá a compensar qualquer agravo exagerando algo que considere ser uma virtude sua, e que pode ser uma característica que em seu íntimo considere um defeito, mas parecerá ser uma qualidade aos olhos das pessoas.

            Sei que posso parecer arrogante ou cruel, mas é imperioso que nesta altura da vida você tenha um pouco de noção de quem realmente você é. Não peço que sejas ciente plena e em toda a vastidão, porque isso é tarefa para deuses, não para um reles mortal. Ter essa noção mínima já te imuniza contra uma miríades de mazelas da sociedade, não só a desta época, mas as de qualquer uma no espaço-tempo. Tendo o norte de quem você é, te desvia automaticamente de tentações que te induziriam a escapar da realidade como modo de vida, te arrastando não só para longe das feridas como também de sua cura, te vestindo com máscara sobre máscara até que a quantidade delas seria tão grande, e sua acomodação à fuga tão arraigada, que não conseguiria mais voltar a encarar sua vida como ela se apresenta, quando muito procurarias um culpado para o que deu errado, recorrendo aos inimigos do grupo que ora integrasse para ser o bode expiatório.

            As conseqüências disso eu não precisaria, mas lembrarei brevemente o que suas curtas meditações já explicaram. É como uma ovelha que é criada com cães e acaba acreditando ser uma deles. Enquanto o perigo real não vir, ela até pode ser útil ajudando a guardar a casa, alertar audivelmente a qualquer tentativa de invasão, até mesmo afugentando invasores de baixo calibre, mas ela jamais poderá comer da mesma ração dada aos cães, o que seria um risco quando não houvesse grama fresca, como em tempos de seca, mas o perigo real viria quando com eles precisasse enfrentar invasores realmente perigosos, como os lobos. Lobos respeitam cães, não ovelhas, e eles sabem muito bem diferenciar um do outro, sabem que cães são ameaças, mas ovelhas são refeições, não importa se ela credita ser um leão, vai virar a caça do dia... infelizmente o condicionamento a impelirá a atacar a alcateia, levando seu frágil pescoço directo para os caninos do inimigo. Da mesma forma um cão que pense ser uma ovelha morrerá rapidamente de inanição por comer grama, e fugirá dos lobos que em situações normais seria capaz de enfrentar.

            A única coisa certa do que sabes, é que és aquela pessoa que vem diariamente ao lavabo, dar de cara com um espelho para jamais se olhar nos olhos, centrando-se na higiene matinal e na estética para ser mais agradável do que repulsivo. Eu sei, todas as manhãs tens que ser ágil e prático, do cumprimento de sua rotina depende o sucesso da rotina de mais pessoas, nada há de errado nisso, é louvável sua consideração para com os outros. Entretanto, nos momentos de folga, em vez de fugir da realidade fingindo vê-la em telejornais, seria bom se encarar de vez em quando, por poucos minutos que fossem. Nem precisa vir ao lavabo e dar de frente para o meu painel de prata sob vidro fixo na parede. Desligue o que não for necessário, peça que só te liguem quando for realmente necessário, deixe o ambiente arejado, mas com a luz estritamente necessária, fique em silêncio na posição que achar melhor, por mais ridícula e impublicável que seja, e deixe os pensamentos fruírem. Apenas deixe fluir e não tente mudar de assunto quando um deles te encarar. Vai ser rápido. Com o mundo alheio lá fora, sem poder entrar, em pouco tempo não vou mais precisar repetir a pergunta: Quem é você?

31/03/2022

Esther e Sarah; A beleza

 

The American Look of 1945 by Nina Leen

Sarah visita a mãe levando um pequeno pacotinho barulhento de carne e travessuras. Esther recebe as duas de forma efusiva e calorosa, pega nos braços aquela bonequinha que dará a primeira continuidade ao seu sangue e a balança com suavidade. Ela serve suas descendentes, a pequena Maria com leitinho morno e à filha com chá de hortelã e biscoitos de limão. As duas conversam amenidades em voz pausada para a pequenina se familiarizar melhor com as palavras e o bom português decentemente pronunciado, dando-lhe todos os afagos que lhes pede. A matriarca sobe aos seus aposentos e desce em seguida com duas camisetas que mandou estampar…

 

- “Mamãe arquiteta projetou essa estruturazinha linda”! Mama, eu amei!

 

Ester sorri largamente enquanto sara veste a si e Maria com as peças, cujas colas em “V” e os arremates de mangas foram customizados com flores ao estilo das culturas balcânicas…

 

- Eu queria tanto poder caprichar nos meus projectos como caprichei nessa bolinha de carne barulhenta que tira meu sono todas as noites!

- O que te impede de fazê-lo, Sarah?

- Os próprios clientes, mama. Meu escritório tem uma salinha cheia de maquetes e sketches de demonstração, mas eles preferem essas coisas que estão na moda… até consigo aqui e acolá colocar pontos e detalhes de beleza e personalidade, mas nada além disso…

- Que tristeza repentina é essa, minha filha? Conte para sua mama.

 

Ela conta à mãe com uma mágoa indisfarçada, até porque sabe que não adianta esconder seus sentimentos de quem conhece até o modo de suas írises contraírem. Diz ouvir muito que beleza, entre muitas outras coisas, é construção social e não deveria sequer ser posta a público…

 

- Enganam-se! Essa afirmação estapafúrdia não tem fundamento.

- Mas tem narrativas fortes.

- Há aves pequenas que cantam e são ouvidas a quilômetros, mas todos calam-se imediatamente assim que vêem uma águia.

- Sei, mas como dizer a um acadêmico cheio de títulos que ele está errado?

- Se ele estiver errado, simplesmente diga que está. Somente Deus não erra, abaixo D’Ele, todos são sujeitos a falhas, tanto mais quanto mais arrogante se for.

- Muitos deles são ateus, então…

- Isso é irrelevante. Esse tipo de ateu arrogante tem seus deuses, só que de carne e osso. Sente-se, respire pausadamente para não preocupar Maria, vou servir-lhe mais chá e biscoitos então explicarei.

 

Sarah se senta acariciando a filha no colo, faz o que a mãe pediu então é servida com finesse. Não se trata de elitismo, mas de autocontrole, utilizando-se da cerimônia do chá para recuperar o centro e se colocar no comando das emoções…

 

- Minha joia, antes de mais nada existe sim um padrão natural de beleza, que não é absolutamente rígido, mas tem suas regras claras e escritas pela própria evolução de cada espécie. Não se trata de futilidade estética, mas do resultado de bilhões de anos de aprimoramento até chegar ao que melhor funciona para a subsistência da espécie na nossa era. As espécies mais primitivas, como alguns reptilianos, se atêm a quem se pareça consigo e que emane odores específicos, mas até entre eles há diferenças fenotípicas entre o macho e a fêmea, que ajuda um crocodilo a não se meter no território de outro macho da espécie.

- Horror! Horror! Horror! Se eu tivesse dito algo assim na faculdade, teria sido decapitada!

- É com muito pesar que eu acredito. Não é de hoje que vejo essa negação da beleza, desde os anos setenta que grupos começaram a tratá-la de modo pejorativo e apontando o dedo para as moças que se cuidavam. Sabia que já puxaram meu cabelo, me acusando de sabotar as causas da liberação da mulher por “subserviência ao namorado”?

- Putsgrila! A pessoa não saiu impune, saiu?

- Decerto que não. Precisei desfazer o coque e prender num rabo-de-cavalo, mas a criatura estúrdia precisou de intervenção odontológica. E aqui vem outro ponto de nosso tópico; é justamente corrompendo as guardiãs da beleza, nós, que os dejetos genéticos conseguem numerário para seus fins espúrios. Incentivar a anorexia e a bulimia, acusando de preconceito e intolerância até mesmo aos médicos que se opõe a isso, faz parte dessa doença. Ponha uma coisa nessa sua cabecinha ainda tão jovem, que mal fez dezoito e já nos deu esta pequena bênção: Beleza é natural e essencial. Como eu disse, cada espécie tem a sua, e nisso reside sua relatividade, não nas narrativas de gente revoltada com o mundo que as sustenta. À parte os excessos, incentivados justamente por essa gente, a beleza humana tem sim um padrão com boas margens de tolerância; para mulheres é de feições delicadas, busto farto, cintura fina e quadril largo; para homens é feições severas, peito largo, braços fortes e postura altiva. Basta ver em agrupamentos mais primitivos e reconhecerá esses padrões, com maior ou menor intensidade, mas estão sempre lá justamente porque funcionam.

- E a senhora?

- Eu o quê, Sarah?

- Esbelta!

- É a minha compleição (risos)! Mas veja, não me furtei o direito a camadas salutares de gordura, isso me esculpiu… Sim, mesmo assim sou um tanto esbelta, mas nunca quis ser a gostosona do bairro.

- Nem na sua época de adolescente revoltada?

- Nem naquela época. Minha mãe me ensinou a ser crítica com o que vem de fora, isso me ajudou a ver que os grupos que tentavam me cooptar não eram diferentes dos outros, um lado me via como objecto, o outro como instrumento. Aprendi a me arrumar para mim, para gostar do que vejo no espelho, só depois de grandinha é que percebi que isso agradava aos garotos.

- A senhora me ensinou isso também…

- E espero que você ensine Maria.

 

Uma pausa, mais afagos em Maria, mais uma fornada de biscoitos, desta vez de chocolate, e mais um pouco de chá. Falam um pouco sobre Jacob e sua luta para fazer propagandas acima da linha do medíocre, ele sempre se lembrando com pesar da genialidade simples que eram os reclames do Fiat 147, em comparação com o lixo caro e caótico que usam para promover os carros de hoje, que não são muito melhores do que suas campanhas publicitárias…

 

- Eu compreendo e oro por meu filho, para que tenha forças e discernimento, porque sei muito bem em que ninhos de serpentes ele precisa pisar todos os dias. Lembre-se, Sarah: Um simples elogio não é por si mesmo um assédio, gostar do corpo feminino saudável não é machismo, tem mais afinidade para um fenótipo do que para os outros não é racismo, ficar horas admirando um corpo nu em uma revista não é estupro…  tem outros nomes, mas nem de longe é uma violência dessas…

- Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra! Ra!

- Eu chamaria essa fixação, de modo elegante, de puerilidade compulsiva…  mas voltemos ao assunto… Aquela frase desprezível “a quem a biologia serve” é mais uma invenção dos negadores da beleza, repetida à exaustão por gente que repete bordões alheios pensando que tem pensamento crítico. A biologia não serve a ninguém, ela não precisa de nós, existe desde antes da primeira cissiparidade, já agia nos coacervados para evoluírem até formarem os primeiros seres vivos. A medicina é sua filha primogênita, tudo o que ela faz é seguir os ditames da mãe para não cometer erros que não possa reparar. Você sabe como surgiu esse padrão de beleza que temos hoje no ocidente?

- Hollywood?

- Não. Por incrível que pareça, não foi obra de uma mídia. Foi nos anos 1940, quando a ciência passou a se valer de métodos mais rigorosos de pesquisas, o que infelizmente acabou gerando mais impessoalidade do que o necessário, mas deu frutos de que nos servimos ainda hoje. Uma dessas pesquisas revelou o que seria o corpo perfeito, do ponto de vista da saúde, e o resultado foi algo muito próximo do padrão natural de beleza humana; nada de esqualidez e tampouco excessos de adiposidade, mas simplesmente um corpo equilibrado com musculatura moderadamente desenvolvida, um pouco de abdômen, no caso do corpo feminino mais sinuosidade, postura erecta e olhar altivo. Como modelo se utilizaram de uma atleta, mas uma mulher tipicamente americana, sem nada de extraordinário em suas medidas e nem mesmo com um rosto particularmente bonito. Isso coincidiu com os valores de uma década que estava emergindo da grande depressão, a austeridade em todas as áreas ainda era vista como demonstração de civilidade e elegância, numa época em que elegância era parte do padrão social de beleza. Inclusive recentemente um corpo assim foi classificado como perfeito pelos cientistas, da modelo Kelly Brook. Ela não é uma atleta, como os escolhidos para as pesquisas nos anos quarenta, é simplesmente um corpo perfeito, mais sinuoso e macio do que na época. O atletismo antes dessa onda de doping, por ser sinônimo de saúde, foi o padrão utilizado como ponto de partida para o que divulgaram porque era um bom exemplo para a juventujde. O resultado é que por décadas o corpo curvilíneo e bem tonificado foi objecto de desejo das moças.

- E as gordinhas sofreram.

- Em muitos casos sim. O prêt-à-porter adorou o que considerou uma padronização do corpo humano, sem atentar para a flexibilidade de proporções que esse corpo perfeito permite, por outro lado isso garantiu o trabalho das costureiras que ajustavam as peças. Mais padronização, menos custos de produção, isso é óptimo para a fabricação de máquinas e insumos, mas não tanto para vestuário. Com a dificuldades em encontrar números adequados, especialmente as mais jovens, o humor de mal gosto teve início oficial, o resto nós já sabemos.

- Os cientistas com a melhor das intenções apontaram um norte…

- E os picaretas da moda transformaram uma estrada reta num labirinto. Claro que os ideólogos viram a oportunidade perfeita para cooptar pessoas com cujas lágrimas as pessoas não demonstravam compaixão, eles também não dão a mínima, mas fingem magistralmente que sim e guiam essas pessoas para outro labirinto. O mote é “Se agrada ao meu inimigo, é ruim”, mesmo que até então agrade à pessoa em questão também, de então em diante passa se reprimir para odiar. Assim começam a se encher de tudo o que não presta, seja comida, bebida ou drogas, para se afastar da harmonia de proporções que caracteriza um corpo saudável, porque o inimigo da causa aprova.

- Nem tudo é construção social…

- Não, na verdade o espaço para “construção” é mais estreito do que parece, as condições em que um ser humano consegue sobreviver são restritas, qualquer abuso comprometeria irreversivelmente a sobrevivência do indivíduo, por conseqüência também do grupo que integra. Os povos primitivos precisavam ser pragmáticos, se apegar ao que funciona e descartar o que não funciona, não existia mídia naquela época, foi assim que todas as tradições nasceram, e em todas elas a beleza tem papel central. O uso de coincidências como se fossem provas, à moda de advogados baratos de porta de cadeia, é uma das vigas frágeis desse chassi de vidro que sustenta essas narrativas negacionistas, e por isso defendem-nas com tamanha ferocidade, não admitindo que a outra parte tenha espaço para se expressar; no fundo, sabem que é tudo mentira, como num casamento de conveniências. Não precisamos que revoltados e picaretas nos ditem o que é belo ou não! Nós sabemos instintivamente o que é belo aos olhos humanos, um corpo harmonioso é belo e a beleza não é um crime.

 

Sarah acaricia as bochechas da filha, pensando em que tipo de mundo ela vai crescer, se desde que se sabe por gente ele só tem piorado. Se lembra de quando participou de um concurso informal de pinups no colégio e, justo na sua apresentação, o salão foi invadido por gremistas que queriam reprimir o evento e proibir futuros, gritando palavras de ordem sem dar chance de resposta, apontando dedos e acusando os presentes como se fossem criminosos, apesar de todos terem participado por seu próprio arbítrio; ninguém interferiu nos protestos pró drogas que aqueles fizeram dias depois. Fizeram outro concurso depois, em ambiente privado, mas aquilo não lhe sai da memória, nem a intervenção furiosa de seus pais na sala da reitoria. Ela olha para a mãe e toca no assunto…

- Eu acompanhei a vida de cada um deles, naquela época… metade já morreu de overdose.

 

Sarah arregala os olhos em uma expressão de terror que não surpreende Esther.

 

- Adivinha se houve mea-culpa ou mesmo um lamento pelo caminho que os idiotas escolheram…

- Aposto que não… exigiam respeito sem ter que respeitar a decisão alheia. Quando descobriram que eu fui premiada no estilo Alberto Vargas, apareci como pária no jornal do grêmio.

- Como foi quando decidi ser exclusivamente dona de casa. Meu corpo, minhas regras. Eu decidi preservar o que é naturalmente feminino em mim, e foi por isso que as pistoleiras se viram no direito de tentar sabotar meu casamento… e havia feministas incentivando, justo aquelas que me jogaram pedras na escola…

 

Sarah suspira fundo, vê nas edificações modernas os resultados disso, tem verdadeiro horror por fachadas de vidro, tanto pelo racionalismo patológico de conjuntos habitacionais financiados pelo Estado…

 

- Assumir a beleza é um risco.

- É um risco… muita gente usa da própria inveja para insuflar essas manifestações, fazendo direitinho o jogo dos cafajestes, que têm a chance de aprisionar uma mulher bonita que se sente culpada por sê-lo. Irônico, não?

- Não, nem um pouco irônico. É hipócrita mesmo.

 

Esther anui. Sarah dá o bebê à mãe e se levanta, vai ao espelho da sala, ajusta a camiseta e se admira, nota os glúteos que se formaram com as inúmeras vezes diárias em que sobe e desce os três andares que separam seu escritório do térreo, arregala os olhos, puxa uma perna das calças e nota a tonificação da perna, escancara o sorriso e olha para a mãe, que aplaude sendo imitada pela pequena…

 

- Quer saber? Vou encomendar um ensaio photográphico.

- Estou ansiosa para ver você finalmente assumir a sua beleza!

- Espera! Fique assim, do jeito que está!

 

Sarah saca o celular, abre a câmera e pega distância. Enquadra bem a cena explícita de feminilidade de sua mãe de vestido médio azul claro com a neta no colo, naquele sofá minimalista em cinza mescla claro, com flores nas mesas laterais e o jardim ao fundo. Ajusta a exposição, dá a maior resolução possível e presenteia a família inteira com aquela cena. Esther enrubesce, mas não perde a pose.

11/02/2022

The last goodbye

Audrey Hepburn

 

Don't cry so much because of me!

Because of me! Because of me!

I'm going away! I'm going away!


So far away! So far away!

I'm goind away! So far away!


You'll start your life over with someone who'll love you. Who'll love you!

Don't stop your life remembering the good times! Our sweet times!

The good times! Our sweet times!

The good tiems! Our sweet times!


All that moments with you was wonderfull! So wonderfull!

My life by your side had a great sense. So clear sense!

So clear sense! I had plans!

I had plans! A plans for us!


But honey, the life doesn't care about our feelings!

Don't care about our feelings! 

Don't care about our feelings!


Our feelings! Our feelings!

Our feelings! Our feelings!


Don't cry so much, get up and go ahead! Enjoy your life! Your single life.

Do it for me, walk away and live! Go and live. You're alive!

I don't regret anything I did! I did my best in everything.

I love you, but right now my live is ending.


I love you! I love you!
This is the end! This is the end.


I love you! I love you!

I love you! I love you!


I'd wish to live with you for ever! For ever! Anyway!

But life doesn't care about our feelings! Our plans.

Don't cry too much this is not our fault.

My life is ending! Is ending!


My life is ending! My life is ending!

I'm dying! I'm dying!


I'm dying! I'm dying!

I'm dying! I'm dying!


Good bye...



22/01/2022

Façam seu próprio doodle, se quiserem um




             Não é só aqui nesta porção do ocidente que as festividades de natal fazem a diferença, mito mais para o bem que para o mal, diga-se de passagem. Elas salvam as peles de muita gente no mundo inteiro, simplesmente porque a demanda comercial desta época gira a máquina econômica no mundo inteiro desde o início do século XX, desde a extração da matéria-prima bruta até a logística das encomendas. Não vou repetir aquela ladainha de condições de trabalho porque a mídia faz isso todos os anos sem o mínimo de graduação, e seus repetidores compulsivos alardeiam essas notícias execrando o natal sem JAMAIS fazerem absolutamente nada de concreto para melhorar as condições daquelas pessoas, pelo contrário, querem é destruir a única oportunidade certa de trabalho que muitos têm ao longo de um ano inteiro. Aceitar pagar mais para eles ganharem mais e viverem melhor? Não! Absolutamente não! Nem pensar! Qualquer coisa mais cara do que "de graça" para esses tipos é exploração pelo lucro. Mais do que isso, não só mais ideólogos neopentecostais que se metem nessa sanha utopista, tratando como pecado capital aquilo que na realidade salva milhões de mesas todos os anos, por três meses ou mais. Agora as ditas "big tecs", cujos rendimentos dependem das empresas que lucram alto, ou pelo menos se safam da falência nos meses que rondam o natal, também passaram a tratar ele e virtualmente TODAS as tradições cristãs como confissão de culpa; em resumo, aquele bebê recém-nascido já é culpado pelo que seu ancestral de 1650 possa ou não ter feito.


            Deixo claro que não sou contra, muito pelo contrário, que lembrem tradições de outras culturas, outras religiões, outros povos e até tragédias de comoção global. Quanto mais cultura, melhor. O típico e acomodado cidadão das Américas precisa mesmo saber que existem outras coisas para além de seus mundinho e suas fronteiras, e que as pessoas fora deles não são necessariamente alienígenas que se aproximam para dizer "phone... home..." ou qualquer outra coisa. Um doodle afim, por exemplo, é mais do que perfeito para lembrar e fixar isso na memória coletiva. Nenhum problema em lembrar do pessach e do ramadã, por que haveria? O problema é que por causa de "tradições históricas de povos historicamente oprimidos ao longo da história", povos esses que quase nunca chegaram aos locais em que estão de modo pacífico, às vezes nem poupando quem já estava lá, as estúpidas empresas de serviços virtuais de rede estão simplesmente desprezando as tradições justo dos povos que as sustentam. Falam em "multiculturalismo", mas são as primeiras a deixar claro que as milenares e nem um pouco mais culpadas do que as outras tradições do resto do mundo tradições cristãs, não têm lugar nesse mundo "multicultural". Isso não é de hoje. Só aceitam multiculturalismo com culturas dos outros, aquelas que os mantiveram vivos na juventude e os sustentam até hoje, não servem. Para muitas dessas culturas, aliás, o que eles defendem é pecado capital. Historicamente, mente muito mesmo!





            Há muitos anos, desde o começo do século (como podem ver clicando aqui) o Google se recusa de modo arrogante a fazer o doodle de páscoa. Também não é de hoje que essa gente tem medo patológico de polêmicas e desavenças, por isso mesmo prefere desabilitar uma busca, piorando ainda mais os serviços que nem de longe são os que eu conheci por muitos anos, do que assumir seus erros e acatar as demandas do público; não aquela gente que vive numa bolha e pensa que vai salvar a humanidade que odeia, mas o público mesmo, o montante tratado como ignorante e que na realidade sustenta todo o planeta. Se recusaram a fazer os doodles de páscoa, de semana santa, de natal e nada indica que esses cristofóbicos vão fazer algum para este ano. Fizeram para as festas NÃO CRISTÃS, celebrando prazeres, as diversões o vampirismo mútuo, mas nem pensar em lembrar o sentido original das celebrações que renegam. Isso não significa que não haja gente usando algo bom para fazer o mal, Hitler fez isso, Mussolini fez isso, Hirohito fez isso, Stálin fez isso, Mao fez isso, ninguém além de seus seguidores nega. No entanto, em vez de chamar as pessoas para o sentido mais nobre das celebrações ocidentais, se resumem a fingir que elas não existem, isso quando nas as demonizam. Chamar as pessoas para a partilha? Fazer lembrar o próximo em dificuldades? Mostrar que o presente é um meio e não o fim em si? NÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!!!!!! É muito mais fácil, cômodo e divertido ser simplesmente contra e tentar fazer o mundo esquecer de suas origens. Apesar do que eles fazem parecer, existem sim altruísmo e filantropia sincera entre as pessoas mais tradicionais, não é nossa culpa terem escolhido lidar com as pessoas erradas.


            Vamos ser claros, nada na humanidade é perfeito, nada chega sequer a ser bom na maior parte do tempo, mas tem funcionado. Se não funcionasse, bestas, já estaríamos extintos, do jeito que seus mentores ideopatas querem, apesar de posarem como benfeitores filantropos altruístas. Se a SUA família é uma miséria que só existe para dar desgostos e depois finge que está tudo bem, o problema é SEU! Seu e de mais ninguém! Todas as famílias têm problemas e isso se estende até mesmo na natureza, não só no reino animal, mas até entre as plantas; uma semente que caia muito perto da árvore terá problemas. Bem ou mal, as famílias se protegem, protegem seus membros, os socorrem com podem e à amiúde deixam as diferenças de lado na hora da emergência. Essas cutucadas que vocês vêem em redes sociais são só isso mesmo! Ninguém ficaria junto, mesmo que de forma virtual, se um décimo do que os detratores dizem fosse verdade. Funciona! Funciona tanto que desde o século XVIII não é mais bem visto o comportamento bruto e cruel tolerado na idade antiga, desde o XIX não é mais bem visto comercializar pessoas, desde o XX não é mais bem visto tratar gente diferente como desmerecedora de dignidade. Isso tudo não foi conseguido por esses bocós de mula, foi feito pelos avós e bisavós que eles hoje desprezam e tratam como criminosos. Falam mal da riqueza sem abrir mão das fortunas rápidas que conseguiram com publicidade na internet. Nem vou repetir o que já digo há tempos sobre a tolerância que eles têm com ditaduras, enquanto censuram da forma mais sem-vergonha a opinião alheia, e tentam fazer doenças como obesidade e anorexia não serem vistas como doenças.





            Já faz tempo (ver aqui) que os descontentes buscam alternativas ao rebelde, com essa demanda os concorrentes surgem a todo momento e, é claro, a receita fica comprometida. Da mesma forma como deturpam as celebrações, usam dos mesmos expedientes para fazer o usuário acreditar que não pode viver sem eles, se baseando em facilidades, prazeres, vantagens e todo tipo de apologia à indolência, com isso fomentando o egoísmo que dizem combater. Mas contradições só a outra parte tem, a deles é bem intencionada e voltada para a preservação do meio ambiente, o mesmo que os países aos quais se curvaram moem e queimam todos os dias sem ninguém dar um piu. Pensando bem, a obra fala mais do que as palavras, então isso explica muita coisa! São reles fariseus digitais! Eles sabem no fundo que não servem para nada, vivem de enrolar as pessoas e tirar dinheiro dos incautos, vendendo cada passo e cada gesto seu na internet a quem pagar por isso. Então são até piores do que Judas! Ele fez aquela asneira acreditando que o pior não aconteceria, já aqueles o fazem sabendo que o pior vai acontecer! Se tu não pagas, não ajudas ou mesmo não encaminha a quem possa ajudar, então o serviço "grátis" cobra um preço bem alto! Pago o que posso, se não posso eu fico sem e continuo vivendo.


            O ditado "façam o que eu digo, não façam o que eu faço" é pouco, agora é "façam o que eu digo e nem olhem para o que eu faço" porque o risco de represálias é real. Eles querem que todos finjam estar em harmonia plena, que sejam submissos aos governos, que não vivam sem tirar os olhos de uma tela luminosa com acesso às redes sociais. Na verdade muita gente não consegue mais viver sem essas porcarias, precisamos urgente de um tratamento em massa de desintoxicação, nos mesmos moldes dos alcóolicos e narcóticos anônimos. Vá questioná-los para ver, vá! Se for nas redes sociais, o risco de punição e censura é quase uma certeza. Se for cara a cara, cosia que os covardes evitam a todo custo, virão com discursos prolixos de "uma discussão ampla e democrática" enquanto em seu meio a opinião (como, não gosto de funk carioca) é tratada e punida como crime hediondo e inafiançável. A única rede social electrônica confiável era a lista de contactos do telephone analógico, e olhe lá!


Nem Pedro me negou tantas vezes!



            Quanto aos doodles de páscoa, não queimem azeite procurando pelo que quase certamente não vão encontrar, façam vocês mesmos os seus. Eu sugiro até mesmo que os publiquem em seus perfis, enquanto ainda não forem censurados por "promoção da opressão às culturas secularmente oprimidas dos povos ribeirinhos dos desertos", mas sem alarde, apenas para que seus contactos vejam, compartilhem e se dêem conta de que não estão sozinhos, porque o bombardeio de desgraças que a mídia faz diariamente, os faz crer que estão. Vão alardear os preços dos ovos de páscoa, pegar o gancho para falar da inflação, tentar colocar na culpa do seu chocolate a causa da miséria nos países africanos cujos antigos líderes se alinharam aos soviéticos, mas sob hipótese alguma vão lembrar e insistir que algo de bom e repleto de esperanças pode haver ali, vão focar no consumo, te fazer sentir culpa por comer chocolate, enquanto embolsam os lucros dos anúncios. Esses doodles que aparecem neste artigo, são montagens que eu mesmo fiz no simples e arcaico paint brush. Se eu fui capaz de fazer, vocês tiram de letra.

06/12/2021

O maldito opressor do bairro

  

Via Área de Mulher


           Pedro Exelissómenos era um homem comum de um bairro pobre comum, com uma vizinhança pobre comum, que preferia pagar cem por cento de juros em prestações a perder de vista em uma televisão maior do que a parede, a ter uma de tamanho médio e investir os recursos restantes no bem-estar da família. Pedro, porém, não se sentia confortável nessa situação, estava mais se espremendo para se adequar do que propriamente usufruindo da vida que levava. Certa feita, na volta para casa, o ônibus com suspensão e chassi de caminhão precisou fazer um desvio, passando por um dos poucos bairros nobres restantes, posto que a maioria se mudara para cidades privadas que chamam de "condomínio fechado", como se este já não existisse aqui dentro. Enquanto os outros se admiravam com a riqueza e alguns cuspiam nos carros estacionados, inclusive em um raro Mercedes-Benz SL500 com a capota baixa, Pedro observava o que até então lhe passava desapercebido. Não era só pela coleta mais freqüente que aquelas ruas eram limpas, todo o lixo era depositado em local adequado e bem organizado, mesmo as coisas que os ricos não queriam mais eram postas de modo a não atrapalhar o caminho dos vizinhos. A grama também era interessante por estar bem cuidada e bem aparada, enquanto sua rua era um matagal só. Bem, aquilo ele poderia fazer, não precisava ser rico para ser limpo e civilizado. De repente reconsiderou a compra daquele celular caro e badalado. Estava mesmo na hora de comprar um novo, mas optou por um modesto que, surpresa, atendeu com sobra a todas as suas necessidades. Como custou menos do que um carro usado, pôde parcelar em menos vezes e pela primeira vez sem juros.


            Pedro chegou em casa e viu aquela baderna em frente à sua porta. Na falta de um tesourão, pegou um facão e deixou aquele mato com cara de grama, voltou para dentro a tempo de pegar o lixo e o colocou em uma caixa à porta, então foi tomar seu banho. Para quem passava em frente, a diferença era gritante, a casa de Pedro estava cercada me mato que os vizinhos esperavam que a prefeitura roçasse. Com o lixo bem acondicionado, os coletores levaram rapidamente sem deixar cair nada pelo caminho, com isso sua frente também estava bem mais limpa do que as dos vizinhos. Até aqui tudo bem, era só uma casinha mais limpa do que as outras, situação que pensavam que não fosse durar muito tempo. Mas durou. Com aquela imagem de civilidade pulsando em sua mente, Pedro começou a prestar mais atenção à sua casa e à sua família, mudando suas prioridades e realocando seus parcos recursos para seu lar. Em vez de comparar aquele televisor O-led de cem polegadas com imagem tridimensional e sistema de som tetradimensional, manteve o seu de quarenta que já tomava boa parte da parede. O dinheiro não gasto foi investido na família. Pôde pagar um tratamento dentário em uma clínica melhor e não deixou de prestar atenção à decoração que, olhando de perto, poderia fazer similar em sua casa com madeiramento que vê jogado fora no bairro. Não foi difícil encontrar a matéria-prima de precisava. Tratamento com óleo queimado, cortes bem feitos em uma marcenaria e pronto. Toras mais brutas se tornaram um caminho do portão à porta de casa, que por dentro recebeu painéis de madeira em todos os ambientes, que inclusive permitiam pendurar prateleiras e elementos de decoração.


            Para os que passavam a trabalho pelo bairro, era como ver uma casinha de classe média em um espaço limpo no meio do lixão. O carteiro já não confundia mais os endereços, inclusive porque o da casa estava bem nítido e ladeado por pastilhas de cerâmica azul, enquanto na vizinhança o melhor que havia era algo pintado à mão em pedaços de lata que a ferrugem já carcomia, muitas vezes ilegível. Por dentro as mudanças eram comentadas pelas visitas, porque eles estavam comendo melhor, não necessariamente gastando mais, mas os hábitos da casa estavam se refinando quase que inconscientemente. Nem tudo vinha mais do supermercado do bairro, que já não supria mais as necessidades da família, muita coisa era trazida de lojas mais centrais, o que também não deixou de ser notado pelos vizinhos, que não viam mais Pedro torrando seu dinheiro nos botequins próximos. Alguns amigos se afastaram e gente nova tomou seu espaço, acentuando mais as mudanças, que não demoraram a se refletir na indumentária, eles não aceitavam mais pagar caro para parecerem mendigos e fazerem propaganda grátis para marcas da moda. Um discreto e eficiente Prisma branco não demorou muito mais a encontrar vaga na garagem daquela casinha, do lado oposto ao do alpendre com seus bancos rústicos de madeira de toras descartadas em podas m al feitas pela prefeitura. Estavam tão imersos nessa nova vida, que só os comentários dos parentes os fez se darem conta do que estavam fazendo. A bem da verdade, só trabalharam com o que já tinham, em cima daquela mesma casa que passaram a cuidar melhor, e isso por si já tinha feito uma gigantesca diferença, o facto de estar limpa e com a pintura em dia a destacava das demais.


            Pedro e sua família começaram a pegar gosto naquilo em que estavam vivendo, em poucos meses sua humilde casinha já não tinha mais "suja" e "sufocante" como adjetivos. Só com material descartado, e algumas velhas revistas de decoração, conseguiram transformar sua casinha humilde em uma humilde ilha de beleza e bom gosto naquela vizinhança. Sua parte da calçada estava limpa e com a grama aparada, o lote contando com jardins verticais e lugares para se sentar e descansar. Claro que nem tudo fugia à regra, eles tinham suas contas em redes sociais, então publicavam normalmente imagens e vídeos curtos, cuja diferença paulatina foi notada e comentada pelos contactos, até chegar ao ponto em que pareciam ser uma família de classe média não deslumbrada. Agora não só comentavam como compartilhavam as postagem aos milhares, fazendo o mundo ver gente pobre sem pobreza mental, arrancando elogios de várias partes do mundo, com o bom gosto e a originalidade arrebanhando fãs pelos quatro cantos do mundo. Ah, isso foi demais! Quem eles pensam que são para querer parecer mais do que seus vizinhos? Não demorou para um ou outro jogar seu lixo na frente daquela casa, e as queixas não demoraram a serem respondidas com violência, então parecia que o bairro todo jogava seu lixo na calçada bem cuidada deles. Facilitou a vida da coleta, mas os coletores não gostavam do que estavam vendo, aquilo de jeito nenhum era lixo de uma casa só.


            Pedro conseguiu em uma demolição uma grande estrutura de condomínio para o lixo, acreditando que isso resolveria o problema, mas não. Ignorando a providência, continuaram jogando lixo em sua calçada, e eles tiveram que trabalhar mais para manter sua frente limpa. A ousadia, nutrida pela impunidade, posto que o poder público deu de ombros para as denúncias, fez os autores publicarem em vídeo o que faziam, e nesta era em que o podre tem mais apoio do que a sanidade, os vândalos conseguiram fãs. Não demorou a aparecerem fezes bem na saída da casa, e o lixo ser jogado para dentro do lote. Com tristeza a família Exelissómenos decidiu se mudar, mas em silêncio, sem nem mesmo contar aos parentes. Em um dia de jogo de futebol, com todos amontoados e berrando em poucos lugares, conseguiram ir embora levando o que conseguiram de toda aquela decoração já feita, mas muita coisa simplesmente não podia ser transportada. Findado o jogo, com a derrota amargando e sendo nutrida pelo álcool, alguém aventou que Pedro seria torcedor do time vencedor, então graças a Deus que saíram cedo e sem alarde, porque o que eles puderam destruir, foi destruído. Só não tiveram o linchamento que pretendiam porque a esta altura Pedro estava ajudando a organizar sua nova casinha, ajeitando como podia os elementos de decoração que tanta ira atraiu daquela vizinhança. Aos filhos autorizou continuarem a postar imagens e vídeos, desde que não revelassem seu endereço.


            Mas para a felicidade deles, estavam mais próximos daqueles internautas que tanto elogiaram suas postagens, e reconheceram de cara o estilo enquanto passavam por aquela nova rua. Ao baterem à porta para pedirem indicação, encontraram o próprio artista, cujas feições e olhar não escondiam suas origens humildes e sofridas, mas já não era aquele olhar de derrota e rancor de outrora. A tristeza então era pelas circunstâncias que obrigaram sua família a sair à francesa daquela casinha, que virou ponto de tráfico e aterroriza a antiga vizinhança. Ele começou orientando os novos vizinhos sobre o que poderiam fazer com o pouco que tinham, no caso dos passantes mais abonados como não parecerem cafonas deslumbrados. Como gosta de crianças, fez coisas com compartimentos secretos, surpresas, elementos que mudam de forma e se transformam em outra coisa, com isso encantando até os adultos. Foi no primeiro Dezembro na casa nova, com a decoração deslumbrando e virando notícia, que Pedro precisou deixar seu emprego, porque as insistentes encomendas de lojas e residências tomaram todo o seu tempo, precisou abrir um CNPJ e colocar a família para trabalhar. Decorações de natal com compartimentos secretos, surpresas, alta interatividade e alto grau de personalização deram início à vida para a qual então já estavam realmente prontos e familiarizados. Comprar celular caro? Televisor gigantesco? roupa brega e cara com jeito de mendicância fazendo propaganda para a grife? Atormentar a vizinhança com som no último volume e obrigar todo mundo a ouvir o que eles querem? De jeito nenhum! Até porque o que eles gostam de ouvir hoje, simplesmente não combina com exibicionismo, não combina com pobreza mental.