03/09/2015

O Facebook é do Zuckerberg e ele deixa eu postar o que eu quiser!

Cortesia da Beth!
  Houve época em que eu até ajudava a disseminar apelos, campanhas e cousas mais. Sempre fui selectivo, pensava duas vezes, mas ajudava assim mesmo. Era um direito meu, assim como eu sempre respeitei as tosqueiras que os outros postavam.

  Acontece que cansou. Não, eu não deixei de me importar com as criancinhas famintas do Sifuquistão, nem com a ameaça de extinção da ararinha cor de abóbora de topete verde da tundra ocidental, assim como não deixei de me indignar com a corrupção e tudo mais. Acontece que cansei mesmo!

  Em parte porque eu vejo muita gente compartilhando muita coisa sem muito resultado. A maioria é de causas muito específicas que afetam pouco ou quase nada a população, com isso é muito restrita e quase sempre efêmera. Não questiono os méritos, só quem compartilha algo sabe que intenções tem com isso, às vezes nem a pessoa sabe, diga-se de passagem. O facto é que há uma explosão de causas e protestos que não se via desde a biodiversidade louca do cambriano. A coisa está tão longe do controle, que tem gente compartilhando até hoje o apelo pela cirurgia para extirpar o câncer no cérebro do garotinho que morreu em 2006.

  Nem vou me dar o desgosto de tratar das amizades combalidas por motivos ideopatológicos, dogmáticos, xenológicos, generológicos e analógicos. Muitas vezes até ficar do lado do Capitão América, no Guerra Civil, é motivo.

  As pessoas têm compartilhado até cinco vezes seguidas, eu contei, publicações de sua simpatia sem ler direito, aparentando mal terem lido o enunciado, sem perceber que a íntegra do texto é uma metralhadora giratória que acerta até mesmo a própria mãe. Algumas vezes amigos praticamente me chamaram de canalha, ao defender algo e atacar outros. Sem perceber mesmo, sem (muita) maldade, só discurso prolixo e politizado de qualquer porcaria politipatizada.

  Tudo o que escrevi até agora é só a cabeça da tênia, não vou ocupar seus olhos já sofridos com tudo o que já vi, as tristezas que enumerei já dizem o que se passa sem eu precisar me ater à sordidez.

  Eu estou me lixando para quem me considerar alienado, há um botão de "desfazer amizade" e outro de "bloquear" disponíveis no cabeçalho dos perfis. Podem usar, eu não guardo rancores e, sinceramente, não vou chorar por quem escolher ir embora. Se fosse para guardar mágoas, eu teria motivos de sobra; não consigo guardar nem dinheiro!

  Um dos parâmetros para decidir o que publicar, é "por que publicar isso?" Mas é um parâmetro bem rígido, não há espaço para discursos de quem pensa que é intelectual porque decorou obras de "pensadores". Outro parâmetro é "o que quero que aconteça se eu publicar?" Para não ser mais um compartilhador biônico que repassa cegamente tudo o que os heróis disso ou daquilo mandam. Outro é "quem realmente se importa?" que leva a "as pessoas vão realmente ler isto?" e lendo "alguém realmente sério vai levar a termo?".

  Ocupar minha concessão só para mostrar politização, ideologia, engajamento, hai hai hai mil vai pra fora do Brasil, não me interessa. Me desculpem, mas absolutamente não me interessa. Quando alguém, me confia um problema, se eu aceitar, eu o resolvo e ele nunca mais dá as caras. Mas é resolver mesmo, não trocar um problema por outro, na velha trapaça política de tirar de um grupo para fazer média com o outro. Eu não me rendo a discussões intermináveis de quem PENSA QUE SABE o que está fazendo e dizendo, só porque o outro lado quer e não admite que ele consiga.

  Decidi não fazer coro com os que gritam para o próprio ego ideológico ouvir, e isso me custou amizades caras, já aviso aos que têm essa mesma decisão em mente. Minhas escolhas, meu caminho, minhas pedras.

  Eu tenho publicado cousas bonitas, pelo menos cousas que agradam meu senso estético. Já fui taxado de racista, machista, esculhambolista e nãodesista só porque gosto da estética clássica européia. Por que eu deveria esconder isso? Gosto, publico e publicarei enquanto tiver o espaço para isso. Não vou publicar alguma coisa só para ajudar um artista regional, se ele for ruim. E como tem gente ruim apontando o dedo para os bem sucedidos, culpando-os pelo seu fracasso! Passasse menos tempo reclamando e se dedicasse mais à arte, quem sabe conseguisse algo?

  Não escondo em momento algum minha preferência pelo meio de século passado, tanto que assino e freqüento o Mid Century Fashion, é um pequeno paraíso virtual, a Beth é uma simpatia. Também tenho uma página vintage, muito modesta, mas limpinha e com minhas contribuições, o Klub Retro Revival. Tenho especial apreço por essa época porque ela foi uma explosão de esperança no futuro, houve uma democratização do bom gosto e as pessoas REALMENTE tentaram ser melhores; não terem conseguido é outra conversa, falem com um profissional de saúde mental a respeito.

  Também tenho publicado imagens da alvorada da janela do meu emprego. Infelizmente o tempo está tão seco, que não há nuvens para formar os desenhos e o gradiente do escarlate para o amarelo claro. Os encontros de veículos antigos também têm álbuns, cada um com centenas de imagens de boa qualidade. Ultimamente, os leitores mais antigos sabem de meu viés levemente monárquico, tenho publicado coisas que encontro quase sempre acidentalmente a respeito. Sabia que a princesa de Liechtenstein é negra? Quem se importa? Eu me importo, ou não teria publicado no meu perfil. Se não se importas, o problema é só teu e ninguém tasca.

  O que eu espero conseguir com tudo isso? Nada. Absolutamente nada. Só quero tocar a vida e tentar dar cabo dela antes que ela dê cabo de mim. eu não devo satisfações a terceiros e o que eu faço para mudar a situação do país e do mundo, é restrito ao meu escopo. Eu sei o que e como estou fazendo, gostaria de poder fazer muito mais, ninguém de fora do meu círculo secreto e conspiratório precisa saber. A CIA provavelmente sabe, mas deve achar que eu não represento risco, por isso ainda estou vivo.

  Sinceramente? Eu gosto do que é belo, e meu conceito de beleza está atado à harmonia entre os elementos de um conjunto. Estou espalhando beleza pela rede social, com isso tenho conseguido ajudar muito mais gente do que revoltadinhos acadêmicos repetidores de discursos prontos. Como eu consigo isso é algo que eles não estão abertos para compreender, nem me interessa que compreendam. O Zuckerberg deixou, eu publico. Simples assim.

23/08/2015

Nem todos são caçadores

  Paulo Coelho disse certa feita que as pessoas são, basicamente, caçadores ou fazendeiros. Gostar ou não do que ele escreve, é outra conversa, até porque só os iniciados em magia tiram o devido proveito de seus livros. A questão aqui é outra.

  Recentemente a Ford trocou o nome do Focus sedan para Focus Fastback, com a alegação dos marqueteiros de que não queriam a imagem de carro de tiozão... De novo isso, não bastava a Nissan perder minha preferência. Não é de hoje que a indústria pegou phobia de maturidade, tentando a todo custo parecer adolescente em todas as circunstâncias. Será que terei que construir eu mesmo meu próprio carro?

  Quem é o tiozão, nos termos ditos? É o fazendeiro ao qual Coelho se refere, ele mesmo um caçador assumido. O fazendeiro é aquele cara que tem compromissos com um lugar e as pessoas que o habitam, por isso mesmo é muitas vezes taxado de conservador, às vezes até é mesmo, mas isso não significa que a máscara festiva do caçador não esconda um conservador ainda mais arraigado, uma noite não mostra o que um ano de convivência escancara. Bem, eu sou tiozão, já disse isso aqui.

  O fazendeiro não procura por emoções novas a cada noite, ele prefere cultivar a família e as amizades consistentes a conseguir dez amigos rasos de balada a cada noite. Estranha quando ouve "novos amores a cada fim de semana" porque se doar a um relacionamento, em vez de simplesmente sugar o que pode de uma noite, é o que ele entende por "amor". Jogar pessoas fora por causa de uma decepção, para simplesmente evitar um sofrimento, não faz parte da política do fazendeiro. Ele tenta até não ter mais como.

  Sim, há caçadores disfarçados de fazendeiros, esses são os piores, praticamente psicopatas que aprenderam a chorar com convicção. Assim como há fazendeiros que aparentam em tudo um caçador.

  Alguém que não sabe o que é cultivar a própria cozinha, experimentar suas próprias invenções, emergir suas próprias novidades, aprimorar as receitas tradicionais, tatear as verduras e preparar algo apenas para o lanche da tarde, sem tentar ser "cool", não pode falar da vida de um fazendeiro. Não pode falar nem da própria, seria como ler notícias da imprensa oficial, que só diz o que agrada ao governo. O fazendeiro geralmente tem, por isso, uma casa grande, porque pretende ficar nela o máximo de tempo possível, assim como pretende que seus hóspedes fiquem mais do que durar uma comemoração, quem sabe para pernoitar.

  O facto de os fazendeiros não tentarem aparentar a idade que já não têm, mesmo que seus trajes esbanjem frescor e leveza, rende tanta ou mais implicância do que a minissaia curtíssima da adolescente. As pessoas parecem ter medo de que a "velhice" aparente do fazendeiro seja contagiosa, a ponto de repreendê-lo publicamente por não se vestir como um garotão descolado, aí, mano, tamos nas quebrada... Argumentação mesmo, nenhuma.

  A tragicômica busca por juventude ganhou impulso com as redes sociais, novamente beneficiando a vida do caçador em detrimento do fazendeiro. Fazer sua vida parecer uma eterna balada já excedeu as raias da sanidade. O fazendeiro até gosta de festas... Ok, nem todos, mas a maioria não faz muitas objeções. Mas ele tem os pés no chão, sabe que a diversão é SEMPRE sustentada pelo trabalho de alguém, e que faz muito bem o festeiro trabalhar para financiar suas noitadas. A vida, ele sabe bem, tem o lado B e está ciente de que precisa lidar com ele, em vez de simplesmente reclamar.

  Note-se que as cenas de noitadas em comerciais, nos últimos anos, têm desprezado totalmente o entretenimento familiar, que o fazendeiro aprecia. Mostrar amigos em um restaurante não tem mais apelo, tem que ser uma lanchonete de flash food repleta de slogans, em um ambiente feito para se ficar por poucos minutos. Foi-se a época em que oferecer o ambiente social era parte do programa. Muita gente, mas muita gente mesmo sente falta dessa interação calma e pormenorizada.

  Isso porque o fazendeiro não pode se dar o luxo de aprender os sinais e só procurar por ameaças, ele precisa atentar aos detalhes da fazenda, todos os dias. Tudo é relevante. com isso ele aprende a também cultivar os mínimos detalhes de uma relação, inclusive familiar; às vezes irrita, reconheço. O fazendeiro ganha então ares de uma mamma calabresa da mais pura linhagem. Você simplesmente odeia amar alguém assim, nunca assume, mas geralmente ama.

  Não ter vergonha de não estar actualizado com absolutamente todas as novidades da internet, não é motivo de vergonha para ele. É motivo de receio o péssimo tratamento que recebe de quem se diz aberto e livre de preconceitos, porque para este tipo não basta não gostar, é preciso localizar, identificar e hostilizar quem gosta. Por isso o fazendeiro se desilude rapidamente de redes sociais, ao contrário do caçador, que simplesmente se cansa e procura outra. Se ele consegue um bom número de contatos ou mesmo tem uma página temática, simplesmente passa a ser menos visível e evita os desconhecidos... Se bem que esse comportamento é típico dele mesmo na vida real... Abandonar o que conseguiu construir é uma opção muito remota.

  Às vezes o fazendeiro dá a louca e destrambelha pelo mundo, mas isso não é uma rotina e ele não está em busca de emoções tão intensas quanto superficiais, tampouco se sempre obrigado a fazer selfies para todo mundo acreditar que está feliz em um lugar descolado agitando altas sei lá o quê. O fazendeiro sai do ninho para espairecer ou por necessidade, mas sempre com a intenção de voltar. Não se iludam, sua rejeição à superficialidade o faz aprender muito com o que vê e vive, umas poucas viagens lhe ensinam muito mais do que uma vida cigana à maioria de vocês.

  Por tudo isso o fazendeiro se ressente da indústria, inclusive, como disse, da automotiva. Essa mania dos marqueteiros acharem que todos são "mucho locos, mano" afasta um tipo de consumidor que simplesmente sustenta uma marca em crises prolongadas. O caçador, vendo que não há caça, se manda e não quer saber do resto, quem cultiva e cuida da terra para voltar a produzir, é o fazendeiro. Alguém aí notou que as marcas retrô progrediram, enquanto os outros encolheram ou desapareceram, no pior da última crise mundial? Uma olhada pelo Facebook, uma busca rápida por esse tipo de página e vocês verão o que digo.

  Não preciso dizer que o gosto pela mansidão e pela rotina já produz rejeição sumária, privando os preconceituosos de conhecerem o fazendeiro e sua história de vida, que ao contrário das lorotas de caçadores ávidos por aplausos, é real. Muita gente provavelmente acabaria descobrindo que é fazendeira, contrariando tudo o que alimentava até então; é um risco que poucos querem correr, seria uma perda brutal de popularidade.

  Desdenhar um público é perigoso, especialmente um tipo emotivo e teimoso como o fazendeiro. Ele pode interpretar isso como um fora ou, pior, como uma traição. Trair o fazendeiro é ter certeza de perder para sempre, inclusive o cliente. Essa neurose estúpida não vai durar muito mais, ela cansa, os próprios consumidores que as campanhas idiotas adulam, um dia se cansam delas. Da mesma forma é um equívoco acreditar que um tratamento aceito pelo senso comum, vai agradar a todos, nem todos gostam de intimidades com estranhos, muito menos em público.

  Se lhe parece pífia e sem sal a vida do fazendeiro, bem, boa sorte na tua vida louca, mano! Só não se esqueça de manter o devido respeito, porque disso ele faz questão. Caçadores que se prezem sabem bem que o fazendeiro, para defender seu rebanho, aprendeu a administrar vários alvos móveis ao mesmo tempo, ciente de que nenhum deles pode sair vivo da invasão.

29/07/2015

Alugam-se legendas

  Ei, você! Sim, você mesmo! Cansado de ser um total inepto, de ter sua mentalidade esdrúxula contestada só por disseminar suas idéias estapafúrdias? Sonha em ter vencimentos gordos, incompatíveis com seu intelecto desprezível? Em ser chamado de doutor mesmo mal sabendo desenhar seu nome? Em algum dia ter poder quase ilimitado sobre a vida dos outros, mesmo sendo incompetente até para gerir a própria? NÓS TEMOS A SOLUÇÃO!

  Alugue uma legenda! Candidate-se e tenha a chance de mamar no erário mesmo sem ser eleito! Não se importe com as dívidas de campanha, de um jeito ou de outro é o eleitor otário quem vai pagar.

  Não importa a sua ideologia, sua orientação sexual, sua religião, seus planos de vida ou mesmo a total ausência de tudo isso, nós temos a legenda que cabe no seu bolso e na sua capacidade em se fingir de homem honrado! Facilitamos tudo no cartão de crédito, no carnê, aceitamos carro, imóvel, jóias e tudo o que puder ser transformado em dólares em paraísos fiscais.

  Aproveite a oportunidade de ser catapultado pela votação expressiva a pseudocelebridades que temos de monte em nossos partidos de aluguel. Com a lei do quociente eleitoral, (como aqui) basta um deles atingir uma votação mínima e você terá a chance de alçar seu primeiro vôo político, mesmo que nem você tenha votado em si mesmo! Mesmo que sua votação seja negativa, os seus segundos no horário eleitoral gratuito (uma ova, é pago pelo erário) já valerão sua participação.

  Lei? Que lei? Nós as fizemos, nós sabemos como contorná-las! Ninguém precisa ficar sabendo! Não perca seu tempo trabalhando honestamente, nós mesmos fizemos por onde para isso não compensar neste país, ou seja, você não tem escolha! A não ser de legenda, é claro! Temos dezenas, todas com discursos que agradam em cheio sua clientela, todas elas em condições de te dar o sonhado certificado de ficha limpa, e a chance de ser um laranja aprendiz de um cacique com ficha mais suja do que pau de galinheiro.

  Não se preocupe com seus discursos, está tudo incluído no preço! Fazemos algo compatível com o seu nível, por mais baixo ou insignificante que seja, mas sem fazê-lo parecer o completo idiota que realmente é. Nós te faremos falar directo ao coração e às cabeças vazias do mercado consumidor a quem vai vender sonhos que JAMAIS serão entregues... talvez até sejam, em pequenas porções, a dois ou três mortos de fome, para divulgação na mídia. A verba de gabinete dá e sobra para isso. Teores homophopbicos, misóginos, eterophobicos, xenophobicos, de apologia às drogas e tudo o que é ilegal não são problema, te ensinaremos a fazer-se de vítima e sair como perseguido político por expressar sua livre express]ao de acordo com os dispostos na carta magna de 1988 e suas emendas, com base na declaração universal dos direitos humanos e amparado pelos preceitos bíblicos; Discursos pra enrolar e enganar são nossa especialidade.

  E por falar em discursos, não tema por sua inexperiência! Para isso serve a tecnologia! Com pontos electrônicos, você poderá fingir que está ensaiando seu discurso e o terá em tempo real durante o comício. Simpatizantes com sua cara feia em camisetas, para fazer número e aplausos estão incluídos no preço.

  Tenha também a oportunidade de ter sua photo digitalizada e montada em santinhos coletivos, com políticos tradicionais com eleitorado consolidado. Sua cara de imbecil não é problema, foi para isso que inventaram o editor de imagens. Ainda temos a opção de photos em monumentos públicos, onde o discreto merchandising de nossos corruptores dará direito a pose exclusiva. Insiste em aparecer com um figurão e o monumento? Melhor ainda! sua imagem vai infestar a cidade e demorará muito a decidirem a quem culpar por isso., talvez mais do que o prazo do seu primeiro mandato. De um modo ou de outro, você já terá eleitorado e sempre poderá se abrigar no meio dos trouxas.

  Por um módico acréscimo, que dividimos em prestações confortáveis, forjamos factos heroicos e dramas comoventes com base da sua insignificante e tediosa história de vida... Se é que podemos chamar isso de vida. Os escândalos podem facilmente ser convertidos em vida agitada e plena, capacitante à lida com a juventude e toda a baboseira que temos de sobra em nosso cabedal. frases banais com abordagens dramáticas, efeitos de luz e sombras, temos tudo para até você parecer saber do que fala.

  Os jingles mais grudentos e irritantes estão praticamente prontos, só esperando para serem adaptados ao seu nome de guerra. Nenhum direito autoral precisará ser pago, e se cobrarem não pagaremos. O aluguel inclui a adaptação de músicas com alto apelo popular em letras que, acredite, conseguimos fazer piores do que as originais. Temos candidatos fajutos para entulhar o tribunal eleitoral justamente para fazer suas infrações parecerem pequenas e insuficientes para merecerem sua atenção, em comparação com as atrocidades que nossos fajutos farão durante o pleito.

  E ATENÇÃO PARA A MAIOR PROMOÇÃO DA HISTÓRIA! Se você concordar em levar a culpa pelas danuras de um dos nossos caciques, sua campanha pode sair absolutamente de graça! ISSO MESMO, DE GRAÇA, porque quem vai pagar é o erário e a classe média não sabe que impostos paga, então suas reclamações legítimas serão rechaçadas pelas nossas direita e esquerda de redes sociais. E tem mais! se sua candidatura for impugnada, você receberá um alto cargo como homem de confiança de uma de nossas múmias políticas, ganhando os tubos para fazer porcaria nenhuma pelo povo, e ainda voltar como herói nas próximas eleições!

  Então, o que está esperando, seu paspalho? Filie-se agora mesmo! Não se preocupe com as legendas grandes e tradicionais, é de baixo que se começa, inclusive nos métodos... E você realmente acredita que há diferença entre partidos? Que nossas legendas de aluguel não são meros puxadinhos para caixa dois de outros? Pois é! Se suas ambições são tão altas quanto sua moral for baixa, então você é um de nós! Sigam-nos os maus!

17/07/2015

Quinhentos anos de conversa

  O céu tomado de nuvens densas, de horizonte a horizonte, impedia qualquer orientação visual. Se dependessem da luz para enxergar, estariam completamente cegos naquele lugar. A escuridão e os ventos fortes baixavam tanto a temperatura, que só por debaixo do espesso gelo a água conseguia correr. Avistam sua figura no cume daquela montanha, um pensamento quase obsessivo nos últimos anos...

- Vamos para casa.
- Estou em casa.
- Aqui não é lugar para você.
- Meu lugar é onde me respeitarem.
- Quem te respeita aqui, neste deserto gélido?
- A solidão sozinha me respeita mais do que todos durante a vida inteira.

  Novamente aquela queixa. Dez anos de solidão não bastaram, naquele exílio voluntário, para que esquecesse das falhas que caíram sobre seus ombros...

- Você poderia ter ignorado, era sua escolha.
- Queriam que eu fingisse alegria com uma lâmina rasgando minha carne?
- Então é isso?
- Isso pode ser reparado.
- Por que não repararam?
- Ainda não era hora. Não se poderiam tolher suas oportunidades de então.
- As oportunidades que me interessavam foram tolhidas desde o começo. Antibióticos não fazem efeito em tecido necrosado. Se insistem em colocar seu tempo ridículo sobre as necessidades lineares, então não queriam realmente reparar cousa alguma.
- Você teve oportunidades.
- Para o que não presta. Só para o que não presta. Baixar a cabeça aos quadrúpedes nunca me conveio. Alegria na marra não existe.
- Vai continuar aqui?
- A quem isso importa?
- Você sabe, não faça injustiça.
- Se a alguém importou, por que não houve providência? Se alguém se importou, a este também não foi permitido agir segundo sua consciência, então tudo foi mais grave do que sei. Deixem-me, daqui não atrapalho vocês.

  A frustração é acrescida pelo pedido não atendido de bem quistos e preciosos membros. A mágoa ainda era visível nos tons ocres de sua fala. Talvez devesse-se ter-lhe permitido recobrar a aparência antiga, talvez isso tivesse atenuado a níveis toleráveis o desconforto, talvez o auto exílio não tivesse ocorrido com essa demonstração mínima de respeito... Novamente o item "respeito". Retornam quando os ventos estão mais claros, tendendo para tons pastéis e aromas remotamente cítricos, sinal de que um pouco de paz se instalara. Sua fronte, no entanto, permanecia melancólica como antes, como sempre desde que decidiu-se pelo exílio...

- Pensou melhor?
- Com a paz da solidão, sempre pensa-se melhor.
- Solidão mão é boa companhia.
- Não vos estou impondo o que me apraz.
- Você deixou muitos tristes, com sua saída.
- Alguns voltaram sem sequer terem te reencontrado.
- Já não tiveram o que queriam de mim? Não cumpri com tudo o que me foi imposto?
- Queremos você.
- Sua inactividade física não te impediu de trabalhar nestes cem anos. Sabemos que os últimos acontecimentos tiveram sua influência.
- Portanto não precisam que eu saia de onde escolhi ficar.

  Voltam com mais uma frustração. Da próxima vez, um será substituído, tem outro retorno a fazer e não pode mais adiá-lo. Alguns subiram e também se frustraram não só pela ausência, mas também pelos seus motivos. O frescor da nova companhia talvez traga novas esperanças, é o que esperam. O semblante ainda duro e as lágrimas retidas ainda estão lá, mas os tons pastéis se estabeleceram e os aromas florais se anunciam. Canções do século XX ainda permeiam todo o ambiente, com suas lembranças e suas oportunidades perdidas. Alguns de seus intérpretes voltaram mais de uma vez, mas aquela figura que já se confunde com a paisagem continua lá...

- Queremos agradecer pelo bálsamo derramado.
- Não respondeu.
- Mas sabe que estamos aqui. Talvez você tenha sucesso.
- Sente-se confortável?
- Não busco por conforto.
- Entre não buscar e rejeitar dessa maneira, existe um abismo.
- É onde estou.
- Irônico... O abismo em um cume...
- Você não é o pouco que pensa.
- Não me for permitido ser o que sou.
- Não poderia ter se esforçado em ser feliz naquela trilha?
- Ninguém é feliz no caminho alheio. O meu foi-me negado.
- Mas era o que você tinha, não poderia ter trabalhado nele?
- Trabalhei, paguei pela minha liberdade e não quero perdê-la.
- Mas você sempre foi livre.
- Para o que não me convinha.

  Apesar do ambiente mais ameno, a voz continua em um bemol gutural e bastante pausado. Poderia ser aproveitada em algum filme antigo de suspense. Sabem que aquela aparência não corresponde totalmente à realidade, provavelmente assim como sua aparência não corresponde à realidade que vestira. Apesar de não mais mover um músculo desde que se sentou naquele cume, seus serviços de então em diante não podem ser ignorados, só não estão mais sujeitos à hierarquia que abandonou. A longa pausa lhes permite apreciar um pouco do que lhes fora dito, antes de saírem a mais uma tentativa. É muito difícil se sincronizarem àquela condição, há tantos e tão grandes espinhos ao seu redor, que só quem se acostumou a eles poderia mesmo suportá-los. Sentam-se cada um a um seu lado, sem ambicionar muita coisa...

- Algumas cosias que você fez naquele vale estão servindo de norte.
- Era questão de tempo para tanto. Não está feliz?

  O silêncio permanece, exceto pelo vento ainda gélido, que daria cabo de qualquer ser vivente em poucos minutos. Está trabalhando. Olham para o vale e acompanham, pela primeira vez, uma figura de longos cabelos ondulados em um longo vestido branco cinturado a pairar sobre os demais. Não se contenta em pegar o lixo, recicla-o e devolve-o como algo de proveito. A facilidade com que o faz demonstra a longa prática no exercício, sua facilidade beira o inacreditável. A figura desaparece, eles se voltam para aquela fronte e testemunham ainda tênues e ínfimos pontos de luz se desvanecendo naquele cenho franzido. Voltam para contar e demonstrar o que viram, foi para isso que foram desta vez. Quando chegam, percebem que algumas de suas manchas também foram limpas.

  Voltam e vêem o ambiente mais ameno. Ainda está escuro, mas cores e odores já poderiam ser dados aos cuidados de inexperientes. O vento, no entanto, continua inclemente. Qualquer carne sucumbiria imediatamente àquela glaciação. Lá está quem a produz, ainda naquela posição, naquela mesmíssima posição, teimosamente há mais de dois séculos. Sentam-se ladeando e aguardando. Assim que sentem o aroma de frutas...

- Você não sente falta das pessoas que deixou?
- Me deram lembrar de quando nos encontramos pela última vez.
- Arco com as conseqüências de meus actos e escolhas.
- Ele não é frio assim, eu me lembro!
- Não é frieza, é dor. Lembra-se de como se recolhia, quando sentia dores?
- É dor? Dê-me então a mão, quero ajudar.

  Tenta tocar-lhe a mão, mas a dor irradiada faz-lhe recolher rapidamente a própria. Se olham, ambos sentiram. Voltam agora mais preocupados do que frustrados, aos outros. Dedica-se a curar a dor alheia, mas não consegue sequer atenuar a própria. A avalanche de lembranças que partilharam não é, provavelmente, um átimo da que lhe atormenta, mas foi suficiente para comprometer-lhes a respiração naquela fração de segundo. Contam tudo, olham todos para o horizonte e aquela nuvem tempestuosa continua lá. Perguntam-se se é aquela nuvem aterrorizante que habita seu coração. Verificam o monitoramento, impressiona-lhes o controle que tem dos pensamentos, mais ainda de isso não lhe tirar daquela condição.

  Voltam com uma companhia. Eles sentam-se aos lados e o terceiro paira à sua frente..

- Você não deveria estar aqui nem por um segundo, quanto mais por quinhentos anos.

  Não responde. mantém os olhos fechados, a palma esquerda virada para cima e a direita para baixo. Os aromas são definitivamente primaveris, as cores estabilizadas em tons pastéis, mas a escuridão e o frio permanecem ali. Recorda-se da última conversa, ríspida, mas civilizada que tiveram. Era para que aprendesse uma lição, mas descobriram que também lhes cabia uma...

- Nós não somos perfeitos.
- Agiram como se considerassem-se. Tiveram o que queriam, respeitem meu exílio.
- Você sabe que não está só. Ninguém está só, ou não haveria o desejo de ter-lhe novamente conosco.
- Tem muita coisa nova acontecendo desde que você subiu e depois se afastou.
- Nada é novidade. Nada.
- Como poderíamos ter-te de volta e ajudar-te a recompor-se?
- Nada o faria.
- Nada?
- Nada.
- Quase quinhentos anos aqui e você nunca disse isso. As guerras já foram extintas, em parte por tua intervenção, mas só agora compreendo. Nada te demoverá?
- Nada me demoverá.
- Você acaba de trocar minha culpa pela esperança. Nada te demoverá, mas não será interrompido seu trabalho e não será desrespeitada a sua vontade. Vamos, o que se deveria fazer, está feito.

  O casal o acompanha sem compreender. O ancião aparente explica que deveria ter sido menos hierárquico e cedido naquele ponto desde o começo, mas sem perceber a ajuda acabara de ser solicitada e estava em andamento. Antes do meio milênio se completar, uma criança de curto corte chanel toma o lugar dos que tanto tentaram e se frustraram. Ela se aproxima em seu vestidinho de cores vivas entre as flores que dançam à brisa matinal. Só se vêem nuvens no horizonte, poucas e tingidas de ruivo pelo sol matutino. O cheiro da relva úmida se mescla com o das flores sob o céu de azul ainda cálido, a uma temperatura tão confortável que é quase monótona. A menina se põe diante da figura já coberta pela grama e nada acontece. Nada acontece. Nada diz, a criança apenas mostra seu dedinho anelar esquerdo, que exibe uma quase imperceptível ferida por espinho. Mostra e espera. Nada diz. A figura move seu rosto pela primeira vez desde que lá sentou-se e encara a criança. Nada diz. Nada! Nada diz, ajeita seus longos cabelos ondulados, seu vestido em um tom ultra claro de azul e põe a menina no colo. Nada diz, beija seu dedinho e cura-o.

  É com surpresa e estupefação que todos vêem-na voltando, sóbria, mas não mais taciturna, com a menina nos braços. Nada lhe diz, quem vê apenas admira aquela mulher irradiando luz azul. Não é mais aquela figura que saíra segurando os prantos, nem mais se parece com o que se foi, agora é o que deveria ter sido. Se esforçaram em demovê-la de sua decisão, quando na verdade precisava enfrentar seu inferno sozinha. Nada deveria ter feito. Nada.

10/06/2015

Raoni diz love


  Findada a abertura, uma dos membros do fã clube vai perguntar a um grupo mais próximo de beatlemaníacos sobre uma canção de que nunca tinha ouvido falar. Bem, nem eles. A estranheza é generalizada. Nenhum deles tinha ouvido falar dessa canção premonitória, assim como todos os outros membros no ambiente. Vão à directoria elucidar o mistério...

  - Como é que é???
  - Uma canção premonitória sobre o cacique Raoni.
  - Sua diarista ouviu essa canção e a rádio confirmou o grupo, é isso?

  Pesquisam o acervo de milhões de páginas, mas nenhuma faz sequer menção à canção. Falam com clubes do mundo inteiro, mas nem os da Inglaterra têm notícias da obra. É sabido que os Beatles fizeram muitas músicas que jamais lançaram, inclusive algumas na esperança remota de a banda se reunir, então a dúvida procede. Decidem falar com a diarista, para evitar desprendimento de esforço desnecessário.

  Na terça-feira, um grupo visita a sócia e aguarda a diarista desocupar...

  - Uai! Cês que é fã não sabe? Eu que não sô ovo quase todo dia! Eles previro que o cacique Raoni ia existir e ia precisar de moral, então fez a música pra ele. Eles era só talentoso não, era também preventivo.

  Pane! Não só pelos maus tratos ao idioma, mas também porque alguém afirma que os garotos de Liverpool eram videntes. Agora doeu-lhes nos brios. Aquilo é quase como chamá-los de analphabetos e incompetentes. Pedem que cante um trecho, já que ela não sabe inglês, mal sabe português, mas afirma se lembrar direitinho da música...

  - É assim, ó: Num sei lá o quê, num sei lá o quê... Tra lá lá... Tra lá lá... Raoni diz love, pa pararara...

  Lhe providenciam um cursinho de inglês e português básico e encerram o caso.

04/06/2015

A gangue da Femme Fatale


  O cidadão vai com a família para o centro, tentar alguma diversão grátis para seus filhos pequenos, enquanto tenta vender o velho Dodge Dart Sumatra, já caindo aos pedaços e bebendo mais óleo do que gasolina. Para poupar gasolina e lubrificante, está fazendo um quilômetro e meio por litro com um e trinta com o outro, pega um atalho que seria totalmente contraindicado quando a tarde cai. Não vê problema em ir com a manhã tão clara e com as ruas próximas tão movimentadas.

  Engano fatal. Assim que fazem a curva e são ocultados pelo bambuzal, uma Sprinter 815 preta ainda com os plásticos nos bancos os fecha, atrás deles para um gigantesco e tão novo quanto Axor preto de três eixos com um baú de quatro. Da van descem elementos uniformizados, mascarados e fortemente armados. Uma femme fatale de fartos cabelos negros e apenas uma máscara ao redor dos olhos se aproxima, é a chefe da gangue que o governo tenta a todo custo deter, mas está ocupado demais destacando força policial para acompanhar prefeitos e vereadores em seus passeios com seus cãezinhos.

  O olhar dela não é frio, é jocoso. Ela zomba, faz ironias com a situação precária da família e dos restos mortais daquele outrora glorioso esportivo. Rosto perfeito, lábios em um vermelho vinho aveludado, decote largo e profundo, corpo escultural e uma cintura que não sabem como consegue, com uma das pernas totalmente exposta pela abertura do justo vestido extremamente negro. Após fazer troça dos pedidos de clemência do casal, que a todo momento se dizia pobre e coitadinho, vão os quatro e o cachorro para a Sprinter, enquanto o baú do Axor recebe o Dart. O caminhão nem sai e já ouvem o carro ser desmontado.

  O que se segue é estarrecedor. São os cinco submetidos a um rigoroso, emergencial e necessário tratamento dentário intensivo, têm suas arcadas praticamente restauradas. O seqüestro continua com uma reconstrução estética completa, são mergulhados nus, em uma banheira com loção de limpeza profunda; pai, mãe, irmãos e cachorrinho em sucessivos banhos que restauram peles e pelos, dando brilho e toque aveludado aos corpos maltratados pela pobreza, mas também pelos maus hábitos.

  São levados em cadeiras de rodas para um depósito imenso, lotado de roupas caras, de corte e acabamento perfeitos. A crueldade chega ao ponto de o desempregado sair do lugar vestido como um rei, em nada lembrando o mulambo decrepito e cambaleante que saiu da cama nesta manhã. O trauma do rapto, de ver sua esposa ser completamente reconstruída, seu casal de gêmeos receber cuidados dignos de bilionários, seu vira-latas ficar com aspecto de cão de exposição, tudo em poucas horas. Mas onde está não tem noção de tempo, para ele parece ter sido uma eternidade, enquanto ouvia dos seqüestradores um português perfeito, falado com dicção tão limpa, que aprendeu rapidamente a pronúncia correcta das palavras, e elas não saem mais de suas cabeças.

  São levados de volta ao lugar do rapto, onde o velho Dart os espera completamente reconstruído e com placas pretas. Meu Deus, que temerosidade! Que tipo de criatura faz isso com uma família humilde? Por quê? Estavam de mãos vazias, com dez reais enrolados em um saquinho de padaria, agora pai e mãe têm carteiras de couro com quinze mil reais em notas de cem, cada um. Tudo o que queriam era chegar ao lugar, de cabeças baixas e perguntar se poderiam entrar com a família, mas agora podem pagar diversões caras em lugares luxuosos e ainda dar gordas gorjetas. Levam malas caríssimas, com sensores e aparelhagens que nem sabiam que existiam, cheias de roupas que seus vencimentos não comprariam nem com um ano de economia total.

  E o carro? Seu pobre Dodge Dart com pintura Sumatra, comprado e remendado com tanto sacrifício, usando um pneu de cada medida, que esperavam vender por mil reais, hoje não sai da garagem por menos de setenta mil. Pobre Sumatra, deve estar rendendo mais do que quando novo. Abrem o porta-malas, para colocar a bagagem e, bem posicionada em um canto do imenso espaço, há uma grande e luxuosa cesta de piquenique. A crueldade não tem limites! Os bandidos investigaram a genealogia da família e colocaram os brasões de suas descendências na cesta. Dentro dela há vinhos caros, sucos da mais pura procedência, cristais, porcelanas, prataria, acepipes finos e toalhas finamente bordadas.

  Entram no carro e estranham tudo, pois absolutamente nada faz barulho. O ranger das portas, que precisavam de três ou quatro batidas para fechar, mas agora se fecham com um toque. A suspensão emudecida e disciplinada, que não balança mais quando alguém entra. O cheiro de estofado novo, sem riscos de alguém se ferir gravemente em um arame exposto. Luzes funcionando, vidros descendo sem o menor esforço, cintos de segurança limpos e funcionais. No porta-luvas a mulher encontra mais vestígios do sadismo; chaves electrônicas de um sobrado no alto do Jardins, reservas e programa de férias em um resort na Califórnia, carteiras de sociedade perpétua para toda a família em clubes e programas de fidelidade de empresas idôneas, e o contracto social de uma loja de artigos finos em um shopping de alto padrão.

  Estão desolados. Seguem para a delegacia, certos de que não vão conseguir fazer nada, mas precisam denunciar a ação dessa quadrilha, para pelo menos as pessoas se prevenirem. Antes passam no banco, para verem se ainda há alguns reais na conta. Para seu completo desespero, agora são clientes Noble Class, e o que vêem tem tantos zeros à direita, que não sabem dizer que número é aquele. Correm para a delegacia e são tratados como párias, como os verdadeiros criminosos. O delegado avisa que só não vão presos agora, porque agora são bilionários. Cometeram o crime mais hediondo do país, estão bem e felizes sem terem pedido favores ao governo, sem terem se humilhado ao "dotô político", sem terem se feitos de coitados e vítimas para militantes, sem terem molhado mãos de funcionários corruptos e lesado o erário. Não há perdão para este crime, mas como sempre criminalizam as vítimas.

  São achincalhados, tratados como traidores da pátria, dos valores mais arraigados e tradicionais, das causas populares, de terem mandado matar o Piscina, de tudo o que imaginam. Mas não vão atrás do bando, ele é poderoso demais para ser punido, já recuperou o caráter até de traficantes presos, que em momentos de fraqueza se renderam aos argumentos de que a melhor vingança contra um sistema corrompido, é derrubar a corrupção e pisar nela. Foi por isso que transferiram os coitadinhos dos chefes de tráfico para prisões exclusivas, para haver menos chances de esses dignos colaboradores do Estado serem "honestificados" pela gangue da femme fatale.

  O que mais resta àquela pobre e bilionária família? Tentar seguir a vida nova, porque a gangue invadiu seus perfis no facebook e todo mundo está sabendo de tudo, foram completamente reconstruídos e restaurados, como o Dart. Não são mais as mesmas pessoas, não têm mais os mesmos interesses, não vão mais furar fila porque todo mundo fura, jogar garrafa vazia pela janela do ônibus, compartilhar vídeos de cãezinhos sendo queimados vivos, xingar e ameaçar adeptos de uma ideologia enquanto fazem vistas grossas para as mazelas da sua, já não riem mais daquelas piadas, não gostam mais daqueles programas, não suportam mais aqueles cantores e não conseguem mais nem ver as capas daquelas revistas. Sua vida, que foi ruminada com carinho e de boca aberta por tantos anos, está destruída.

  Em outro ponto da cidade, em outro lugar obscuro, a femme fatale e sua gangue esperam pela próxima vítima, qualquer um que tenha um lampejo de dignidade e esqueça, por um segundo que seja, de ruminar a miséria e a mediocridade. E a próxima vítima, tome cuidado, pode ser você!

22/05/2015

Selva urbana


  Foi-se o tempo em que ter cara de pobre te livrava do meliante, hoje ele te dá uma surra, se não tiveres qualquer coisa que lhe interesse; surra e um tiro, dependendo do grau de paranóia do bandido. Eles se tornaram muito cruéis nos últimos vinte anos, alguns matam só pelo gosto de ver para que lado o corpo cai, dá status na quadrilha, entendem?

  Não reagir também não te safa, pelos mesmos motivos, e se reagir ainda há o risco de processo por lesão corporal ou mesmo homicídio, como tem acontecido muito. Pois é, o bandido da história é VOCÊ, que só quis sair vivo do assalto. Pelos mesmos motivos os trânsito não se resume às regrinhas infantilescas do Contran. Em resumo, estamos por nossa conta e risco.

  O que fazer? arranjar um bunker? Se mudar para outro país? perder a vergonha na cara e virar político? Não, não podemos ser tão drásticos, pelo menos não enquanto ainda houver chance de sair de um ponto e chegar com vida ao outro. Uma dica é ser discreto. Não adianta parecer um mendigo, levas porrada do próprio povo porque ele tem pavor de indigentes, pensa que todos vão sacar um estilete e matar para sustentar um vício, simplesmente porque a imprensa só divulga esses casos, as organizações "sociais" viram as costas para a vítima e tratam todos indistintamente como coitadinhos, e o poder público dá de ombros.

  Seja discreto. Não é proibido ter um tablet de última geração, mas é idiotice ficar com ele em mãos o tempo todo, em ambiente público. Alguém vai ver e te esperar lá fora, ou avisar alguém lá fora, especialmente em repartições públicas. Aja o mais naturalmente possível, porque quem demonstra medo de algo acontecer, expõe involuntariamente sua fragilidade e chama mais a atenção de quem quer que algo aconteça. Roupas escancaradamente de marca cara, que muitas vezes são propagandas da própria marca, devem ser deixadas para ocasiões específicas. Para o pavor de muitos, aconselho que sejas careta, sem ostentação, isso pode gerar a rejeição de gente "descolada", na hora, mas te torna menos visível aos biltres.

  Quanto menos se depender do transporte público, melhor. Não é raro o cidadão subir vestido e descer pelado, só então percebendo que foi furtado; e dê graças por ter sido só furtado. Como carro não é troco de padaria, ande o máximo possível, a passos largos e sempre atento, usando a órbita ocular para ver tudo ao redor do modo mais discreto possível. Pode parecer, mas não é exagero, ao menos não no Brasil. Se não for o bandido, a ameaça pode ser uma construção ou reforma irregular, sem a menor preocupação com a segurança, muitas vezes empurrando o pedestre para o meio da rua; inclusive obras públicas, como a cara, demorada e desnecessária reforma da Praça Cívica.

  E por falar em meio da rua,não subestime os anêmicos motores de mil cilindradas, eles são mais letais do que qualquer carroça que conheças, mesmo os mais antigos te alcançam antes de chegares ao outro lado da rua. A velha regra de olhar para os dois lados agora inclui avaliar a velocidade e a distância. Se estiver de mãos vazias, até dá para arriscar, porque fica fácil parar e pular para trás, caso contrário, não confie no sinal vermelho, ele diz que o motorista deve parar, não é capaz de obrigá-lo.

  A hora da travessia ainda esconde outra armadilha, a multidão. Gatunos não perdem uma chance, e uma multidão atravessando a rua é das melhores, todo mundo se esbarra e se atropela, é tão fácil perder um celular quanto tê-lo furtado, e muita gente perde o maldito acreditando que o colocou no bolso, então a ação de mal intencionados fica fácil. É também por isso que evito aglomerações, não só porque me dão agonia. Mantenha SEMPRE uma distância civilizada do cidadão à frente e de um dos laterais.

  Durante as compras a situação é a mesma, com alguns agravantes. Crianças sem limites pensam que estão em suas casas e empurram carrinhos lotados entre as gôndolas, ou pior, adolescentes sem limites pensam que estão em suas casas e empurram carrinhos lotados entre as gôndolas. Preciso dizer o quanto é perigoso e que não há leis de trânsito para isso? Temos ainda o risco do ar condicionado a toda potência, em um ambiente com ventilação forçada e pouca ou nenhuma luz natural, que se dá conforto, é um grande disseminador patogênico, porque nem sempre os aparelhos são limpos. Foi isso que matou Tancredo Neves.

  Mas o maior risco é mesmo encontrar animais selvagens pelas ruas. A maioria usando roupas caras e à bordo de carros da moda  Foi-se o tempo em que não caçar encrenca te livraria de uma, eles saem justamente para preencher suas vidas vazias com auto afirmação, sem se importarem com métodos e conseqüências. Eles querem testar os limites que não tiveram em casa e estão dispostos a tudo para não arcar com eles, tudo mesmo, inclusive matar um pai de família só porque ele pode ter olhado feio para alguém, ou porque a camisa dele se parece com a de alguém do time adversário. Não importa, se não houver motivos, eles agem só por agir mesmo.

  Em casa há menos riscos, mas eles existem. As chances de encontrar visitas indesejadas são grandes, tanto mais quanto mais ausente for o Estado na região. O que também ajuda na proliferação de animais de rua e insetos epidemiológicos, o Aedes aegypti é só um deles e nem de longe o mais perigoso. Não pense que o especulador que comprou o lote ao lado vai se importar com uma morte em sua família, faça o que puder para ajudar a limpar o terreno, não tem outro jeito, porque a prefeitura também não se importa.

  Não se iludam com o calendário, estávamos mais avançados no meio de século passado do que neste início. Houve uma tentativa de civilização que não deu certo. No Brasil houve o agravante de zonas medievais ainda existentes, com famílias tratando Estados como capitanias hereditárias e sindicalistas querendo tomar seu lugar apenas para conseguir esse poder, usando o povo como massa de manobra.

  Cuide-se!