22/05/2013

Três reais? Mais barato andar de Opala.


Está ficando caro andar de ônibus. Não só porque passou de 2,70 para 3,00, de ontem para hoje. Está caro porque aumentou sem uma melhora sequer. Pior, aumentou com as condições piorando.

Quem conhece um pouco de macânica, pelos ruídos percebe que a manutenção desses ônibus é bem mais precária do que alardeiam as concessionárias. Freios funcionando com metal contra metal, são rotina.  Botoeiras que não funcionam e te fazem perder o ponto, mais ainda. Imundice já nem é mais notada, já é sinônimo de transporte público goianiense.

Hoje tive a terceira camisa danificada em um desses paus de arara, que o prefeitinho jura que é transporte de primeiro mundo, mas ele escomungava antes de se sentar naquela cadeira.

A alegação é a de sempre, o aumento estava previsto no contracto, decorrende da licitação que correu na surdina e contemplou os malandros que já espoliavam a população há décadas, cujo partido do prefeito jurava de pés juntos que expulsaria da cidade, algum dia.

Há alguns anos, empresas de fora se candidataram a tomar o lugar delas, quando reclamaram que estavam tendo prejuízos, e que só se mantinham santamente no árduo labor de bem servir à população, porque estavam contractualmente obrigados a fazê-lo até 2006.

Foi as de fora se manifestarem, e até garantirem que os itinerários curtos garantiriam uma boa redução no preço da passagem, que eles se calaram. Ninguém respondeu mais às perguntas da imprensa.

Quando anunciaram o fim da figura do cobrador, ou trocador em algumas regiões, fizeram uma campanha tosca, que sugeria que eles passariam a ser orientadores nos pontos de ônibus. Mal deu um mês eles sumiram. A partir daí os acidents graves se multiplicaram, com o motorista sozinho no ônibus, sem o colega que avisasse sobre o passageiro que não terminara de descer, geralmente um idoso debilitado.

Com freqüência, colocarm motoristas em rotas que ele desconhecem, mandando que se virem, forçando-os a contar com a ajuda dos passageiros mais antigos, que nem sempre estão à disposição. Há um GPS ridículo no veículo, mas que só diz qual é o próximo ponto, nunca como chegar lá. Só serve para facilitar punições.

E por falar em punições, é o motorista que paga o pato, quando há um acidente. E por falar em motorista, eu não caí na encenação do sindicatozinho pelego, que fecilitou a deflagração da greve para convencer a população que pagar caro, é melhor do que andar à pé.

Como de praxe, a rmtc fez vistas grossas à especulação dos vendedores de bilhetes, que se negaram a vender mesmo quando eram vistos com os ditos nas mãos. Como de praxe, os portadores dos cartões viram o dinheiro depositado nele, valer menos, porque nele consta o valor comprado, não o número de viagens compradas.

Fazendo as contas, sem incluir factores imensuráveis como respeito, dignidade, segurança, mas só dinheiro, um Opala guiado com boas técnicas de pilotagem pode sair mais em conta, especialmente se houver caroneiros para ratear os custos. Ainda mais que eu saio de manhã muito cedo, quase sem trânsito. Mas o mesmo prefeito que xingava os concessionários e hoje os adula, é o mesmo que adulava os funcionários públicos e hoje os sufoca com vencimentos irrisórios e péssimas condições de trabalho. Por enquanto, o carro fica no mundo dos planos por executar.

01/05/2013

Os Dragões de Titânia - A queda do César - Resenha


Renato Rodrigues é meu amigo pessoal, sujeito que prezo muito e a quem dou liberdade para certas brincadeiras, que ele faz se cerimônia... Inclusive com minha idade. Com tudo isso, eu me vejo no direito de fazer críticas constructivas, de apontar falhas e dizer que não gostei de algo. Bem, caríssimi, não é o caso. Novamente Don Renatonski acertou em cheio, mesmo nas partes em que eu gostaria de puxar sua orelha até virar cachecol. Por que ele fez aquilo com aquela menina???

Vamos ao livro e ao que vocês aprenderão com ele, se forem bons leitores. Mas antes, um aviso a muitos que parecem não ter compreendido a linguagem dele. Renato é nerd, casado com uma nerd e vive cercado de nerds, um nerdster por excelência. É fã de video game, RPG, quadrinhos, séries de televisão, cinéfilo, entre outras drogas pesadas do gênero. Quem não estiver familiarizado com a linguagem dessa cultura pop, realmente vai encontrar dificuldades em acompanhar sua narrativa. Ela é muito ágil e conta com a inteligência activa do leitor, quando pensas que a espada está voando, a cabeça já rolou e a turma já está amargando o luto, no dia seguinte.

O livro começa onde o anterior terminou, o que mostra que meu amigo não é essa bagunça que vocês pensam dele. Apesar disso, quem (EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ) não leu A batalha de Argos vai conseguir compreender a trama, se estiver com o raciocínio em dia. Entretanto, o aprendizado que o livro oferece, fica mais bem sucedido que o anterior já estiver devidamente digerido. Vejamos...

O anterior mostrou como nascem as conspirações, pois A Queda do César mostra sem disfarces como ela se desenrola. O leitor vai aprender que não deve ser surfista político, indo na onda de uma multidão que adora, teme ou adora e teme um figurão. O dito cujo, que está sob holofotes, é apenas uma marionete, que será descartada assim que não servir mais, ou que sua preservação for menos interessante do que sua ruína. Aliás, o autor mostra em detalhes, com a sutileza de um beija-flor e a frieza de um psicopata. Ele não te poupa da verdade, ainda que sob andrajos de uma ficção. É como se ele dissesse "Eddie, eu vou esquartejar esse cara legal aqui e já vou almoçar".

Às vezes ele dá a impressão de que seus livros são escritos a vários pares de mãos, às vezes me dá a certeza de que sim.

Acontece que as pessoas realmente sujas, são discretas. Elas se preservam da ira popular, porque sabem que é implacável. Quem viu o jogo de manipulações no livro anterior, ainda assim vai se impressionar com as dimensões que toma neste.

Aprenderá que a causa mais nobre e bem intencionada pode ser facilmente corrompida, se o grupo radicalizar sua posição. Por que? Porque os manipuladores estão atentos, prontos para suprir as necessidades imediatas em troca de submissão. As pessoas não precisam saber que estão sendo submissas, há muitas formas de o serem sem que percebam. e quando percebem, já é tarde, estão viciadas na vontade do manipulador. E serão descartada assim que não servirem mais, ou ele encontrar marionetes melhores.

Quando falo em descartar, não digo que vai deixar ir embora livremente, me refiro a assassinato cruél e exemplar. Isso acontece todos os dias e o amigo Renato esmiuça os requintes de crueldade, na ficção. Não pensem que quem elegemos é menos demoníaco do que o Castellian, só não tem as mesmas ferramentas.

Aprenderá ainda que as motivações de um evento gigantesco, podem muito bem ter origem em um facto cotidiano, uma frustração ou mesmo uma dor de cotovelo. Mesmo uma figura sagrada perde completamente seu valor, quando o ego está em jogo. Aliás, não é esta a causa primaria de todos os conflitos? Todas as guerras, no fundo, foram e são guerras de egos. A vida ensina de forma dura, mas o renato nos mostra isso no conforto de uma leitura, antes que a pancada nos atinja, por falta de prevenção.

Aprenderá que não existe danação eterna, simplesmente porque as pessoas não são infinitas, então não têm condições de fazer algo de tão ruim que jamais tenha conserto. O eterno e o infinito não pertencem às criaturas. Mas um manipulador de modo algum admite que se compreenda isso, porque lhe tira poderes. Ele fará de tudo para te convencer de que és impotente à sua presença, sem escrúpulos e sem medir conseqüências.

Esses que se vangloriam de terem se livrado dos manipuladores, mas continuam em sua senda de maldades,  se pegarão cedo ou tarde mais comprometidos com eles do que quando cooperavam. O mal é uma marca, ele te encontra onde que que estejas e sabe exactamente onde e como te fragilizar. Não hesitará em usar teu corpo como luva, que descartará sem puderes para não deixar pistas de sua ação.

Aprenderá também, se ler direito, que a convicção não deve ser confundida com certeza. Uma convicção arraigada, então, de modo algum deve ser vestida de certeza absoluta, pois esta só tem quem não erra, e quem não erra não aprende, quem não aprende não tem respostas e tampouco certezas. Se uma placa de trânsito avisa que há um barranco logo à frente, não significa que devas manter a direção e se estabacar lá em baixo.

Os próximos livros, A Dama da Montanha e Crônicas de Leemyar - O Necromante, este da Eddie, trarão surpresas adicionais e luzes novas, com mais do que os sete habituais matizes a que nossos olhos preguiçosos se habituaram... Só que trarão ainda mais perguntas do que respostas, então treinem a arte da paciência.

Aprenderá ainda, por fim, que não importa o quanto o seu grupo esteja ferrado, é muito melhor estar ferrado em grupo do que sozinho. O grupo te dá algo em que se apoiar ou, no mínimo, alguém em quem colocar a culpa.


15/04/2013

Compre um gerador

Fonte: Malcriados
Aconteceu de novo, desta vez um caso mais escandaloso. Segundo nossa diarista, que mora em Aragoiânia, o caso é recorrente e a Celg, vulga Hellg, trata quem a sustenta com o descaso de quem é comandada por um incompetente indicado pela pasta-base aliada do governo, que faz de conta que a população mente e está tudo maravilhoso, como nas propagandas pagas a preço de ouro pelo erário.

Infelizmente é generalizado, virtualmente todas as companhias eléctricas do país estão cobrando aumentos absurdos pelos péssimos serviços nem sempre prestados, já que é rotineiro uma cidade do interior passar um ou mais dias totalmente às escuras; com productos perecíveis perecendo, se o cidadão não tiver geração própria de energia.

No caso citado, a dona de casa pagava cerca de R$ 150,00 por mês, mas repentinamente a conta saltou para 300,00, depois para 450,00 e chegou a mais de R$ 1.500,00. Absolutamente nada foi encontrado de errado. Os fantoches com diploma de técnicos, jogando a ética profissional no lixo, em vez de acionar seu sindicato para ter respaldo e fazer a devida denúncia, acusou a cidadã de ter adulterado o medidor, que provavelmente veio adulterado da própria Hellg, que tem o monopólio de tudo, e disseram para ela ir à justiça, se não concordasse.

É claro que se ela o fizer, ficará sem energia por meses, até anos, até quando o oficial de justiça encontrar alguém. Com a secretaria de Estado de saúde foi assim, com gente morrendo à míngua e o titular da pasta pulando os muros do fundo, para não ser encontrado! Porque a prisão já fora decretada.

Encerro aqui meu manifesto de indignação, para propor ao leitor uma solução prática. Providencie um gerador diesel. Não temam pelo meio ambiente, não temam pela conta de combustível e manutenção no fim do mês, não temam nem com o hipotético risco de o motor parar de repente. Bons motores diesel são brutos na lida, os eléctricos ainda mais. Não são brutos com o dono, mas o são com o trabalho, não rejeitando condições adversas de funcionamento.

Esqueçam aquela conversa mole de que gerar energia com queima de combustível é transferir a poluição de lugar. Motores diesel são muito mais eficientes do que os ciclo otto, como o de velas que equipa o teu carro. Se acertados para funcionar em escalas fixas de potência, a eficiência aumenta. Um motor ou gerador mediano, sem absolutamente nada de extraordinário, sem nenhum refinamento tecnológico, tem mais de 85% de eficiência. Um motor diesel bem refinado tem cerca de 33% de eficiência térmica, um motor à gasolina raramente passa de 25%. Fora que a transmissão come de 20% a 30% do que é produzido, enfim...

Um bom gerador diesel de, vamos imaginar 50 cavalos de força, consegue entregar facilmente 25kWh. Sim, mas o que essa potência faz? Ela é simplesmente o consumo de uma casa de classe média muito bem equipada, com tudo funcionando ao mesmo tempo, na potência máxima; chuveiro fervendo, microondas assando carne, ferro passando lona, aspirador sugando os pecados do dono da casa, et cétera. Claro que esta potência não é consumida integralmente em nenhuma residência do porte citado, até porque a fiação entraria em combustão com a maior facilidade, se não for super dimensionada.

Breves picos de 20kWh, como os dias de preparativos e andamento de uma baita festa, por exemplo, são o máximo que acontece. Na prática, a casa vai consumir menos de 50kWh ao longo do dia inteiro. Nem preciso dizer que uma casa modesta se satisfaz com menos da metade da potência instalada.

É, eu sei, um gerador é caro, a famigerada relação custo/benefício ainda é desfavorável. Mas vou dizer uma cousa triste e bela para vocês, essa mentalidade de "custo/benefício" é justo o que nos impede de dar com o pé nos fundilhos de 90% dos corruptos do país. Mesmo quem pode pagar com algum conforto o salgado preço de um gerador de grande porte, está a esperar que barateie, porque os prejuízos pessoais por falhas no fornecimento, não lhe parecem justificar o investimento.

Caríssimos, não se trata de um (maldito) mercado especulativo. Estou me referindo à tranqüilidade de suas famílias, da saúde pela conservação de alimentos e medicamentos termolábeis, da segurança pela continuação do funcionamento da iluminação e sistemas de alarme. Eu não falo aqui da famigerada mentalidade que gerou a bolha, que ainda hoje mantém o mundo imerso em uma crise financeira sem precedentes, estou falando do risco que suas vidas e as de suas famílias correm, pelo risco iminente de um corte injustificado no fornecimento, cujo restabelecimento só se daria ao bel-prazer de quem o interrompeu, ou com o risco de um decreto de prisão.

Repito: Nossas vidas estão em risco. Esses fulanos não tem caráter, nem ética, muito menos apreço para com nosso bem-estar. Eles contam com as costas-quentes de serem indicados por quem suga o dinheiro dos hospitais, das polícias, das escolas e da evacuação de áreas de risco. Se algo acontecer, acontecerá a laranjas, pois quem manda não suja as próprias mãos com o crime. Esqueçam o fator investimento monetário, o investimento aqui é na sua dignidade, na tranqüilidade de saber que quando a Hellg falhar DE NOVO, tudo continuará correndo a contento.

É mais ou menos como pagar por um bom, se é que existe no Brasil, plano de saúde. Não existe mensuração para os benefícios esperados, o cidadão de juízo capaz de arcar com os custos, paga o melhor que seu orçamento permitir.

Motores otto nem tanto, mas os diesel têm uma flexibilidade sem par, só equiparada pelos caríssimos motores a jacto. Tanto, que o óleo de cozinha usado, com algum processamento, serve de combustível para ele; rende menos, mas a um preço ridiculamente menor. E em todos os casos, pode-se utilizar metano, o popular GNV, que pode ser obtido até do esgoto doméstico. Claro que aqui demanda maquinário mais sofisticado, mas seria só uma rede de postos se interessar e dar andamento nos planos. Todas as restrições de combustível e modificações existentes para automóveis, não valem para grupos geradores. Eles podem queimar o combustível que estiver disponível, qualquer um mesmo.

Havendo combustível, ele não pára. Um gerador de boa qualidade pode funcionar por dias. Ainda há a opção de comprar baterias modernas, de phosphato de ferro ou plímero de lítio, caso se queira mandar a companhia ao RQP de uma vez por todas. Será uma responsabilidade a mais para arcar, mas a liberdade proporcionada não tem preço. Quando elas estiverem perto de esgotar, recomento manter 1/4 de carga como sinal de partida, o gerador entra em ação e as recarrega, só funcionando em tempo integral quando a solicitação for muito alta.

Há ainda outro bônus, como se liberdade não bastasse. A presença de um gerador daria aos moradores, especialmente às crianças, a noção de que a energia utilizada vem de algum lugar. Não é como o efeito psicológico da rede pública, que faz parecer que tudo está disponível sem restrições a qualquer momento, o que é uma grande e redonda mentira, convenhamos. Vendo in loco que algo precisa ser acionado e recursos movidos, para se obter o conforto desejado, a criança cresce com uma relação de consumo muito mais madura e saudável.

Há algum tempo reconsiderei a compra de um gerador pequeno, para evitar aborrecimentos e prejuízos. Eles baratearam muito, um bom de 1kWh custa menos de setecentos reais. é mais do que suficiente para manter geladeira e iluminação funcionando.

A diversidade de preços e configurações é imensa. Há geradores com partida por cordonil, que podem ser levados por uma alça, na mão, e outros que só saem do lugar desmontados, de tão grandes. Tenham a certeza de que existe um apropriado para a sua necessidade. Há a possibilidade de o cidadão com conhecimento de causa e vocação para Professor Pardal, construir seu próprio grupo gerador. Há vantagens e desvantagens, uma destas é a ausência de assistência técnica. Mas como mais vale um gosto do que um caminhão de abóboras...

A seguir, links de fabricantes, com seus respectivos catálogos. Se eu tiver esquecido algum fabricante com sede nacional, podem me avisar e mandar o link:

Agrale.
Bambozzi.
Branco.
Buffalo.
Caterpillar.
Cummins.
Deutz.
Honda.
MWM/International.
Perkins. Perkins 1. Perkins 2.
Scania.
Toyama.
Volvo.
Yamaha.
Yanmar.

12/04/2013

Perdidos no tempo




A casa é ampla, arejada, cheia de plantas ao seu redor. O estilo é meio bucólico, do tempo em que os goianos ainda estavam aprendendo a viver na cidade... Convenhamos, esse aprendizado jamais foi concluído.

Há a porta bipartida na sala, com portinholas para se ver com mais discrição, quem está chamando ao portão. Um recurso relativamente barato e estranhamente ignorado, em uma época de histeria pela insegurança pública. Ficam quase sempre abertas.

No jardim sempre está a dona da casa, a cuidar como tem feito nos últimos quarenta anos. Apesar de todos os lutos e provações que a idade lhe impôs, e de ter um ar tão bucólico quanto a casa, é uma mulher sorridente, talvez celebrando por ter sobrevivido a tudo.

Foram morar no bairro quando ainda era um lugar tranqüilo, com pouco trânsito, que tinha hora certa para começar e terminar. Mas isso faz muito tempo, muito tempo mesmo! Era época em que o silêncio era tamanho, que de longe identificavam o carro, só pelo ruído do motor. Fora, claro, que a temperatura média anual era menor, ajudava o clima de tranqüilidade. Hoje praticametne não há mais inverno na cidade.

O lote é grande, de antes de a especulação imobiliária se instalar na capital. Nos fundos há uma horta diversificada. Há uns doze anos os filhos os convenceram a aceitar uma piscina, pequena, simples, de fibra-de-vidro, mas uma piscina que acabou ajudando na fisioterapia do pai. O gramado, a sombra do maracujá, enfim, tudo ajuda a deixar a temperatura uns três graus célcius mais fresco do que no restante do bairro.

O interior é o esperado de uma casa feita nos anos cinqüenta, que tem o ano de construção em relevo, na fachada: 1957. As paredes são grossas, sólidas, mas sofreram várias intervenções em função de instalação eléctrica e hidráulica. nada que descaracterize a arquitetura. O forro paulista já foi trocado, por conta de uma goteira que levaram anos para solucionar. Quando viram, era uma vigota empenada, que empenava ainda mais na época da chuva, e assim abria um espaço maior entre as telhas.

Os cômodos são amplos e todos ainda têm as janelas originais, bipartidas de madeira e vidro. Com a parte de vidro aberta, para dentro, a de madeira pode ficar fechada, têm aberturas para ventilação. O piso é de elementos de cimento decorado, vermelho escuro com losangos amarelos, hoje dificílimos de encontrar. Há algumas improvisações artesanais, que os próprios moradores fizeram; até que não ficaram muito diferentes dos outros.

Na estante, em um quarto transformado em biblioteca, há uma encoclopédia de três volumes sobre artesanato, comprada no início dos anos setenta, que a dona da casa ainda utiliza regularmente. Menos, ainda utiliza a máquina de costura.

Eles temem pela violência, sim, mas a juventude saudável ficou arraigada demais para se esconderem de qualuer estranho que olhe para sua direção. O muro baixo ganhou uma grade vermelha alta, mas foi só. O velho Opala sedan 1972 verde ainda está lá, com seus bancos inteiriços, pronto para levar motorista e cinco passageiros, exposto à admiração dos passantes que souberem fazê-lo. Os netinhos o adoram.

Decerto que a persistência tem seu preço. Eles pagam sem reclamar, mas é alto. Todos os vizinhos já perderam contacto. Suas casas foram demolidas e deram lugar a edifícios. A casa tornou-se um vale entre gigantes de concreto armado, com sombras incômodas de Junho a Setembro durante boa parte do dia. Fora qu a concentração populacional acabou com a diversão de identificar os carros só pelo ruído do motor.

Na realidade a casa tornou-se uma cápsula temporal no bairro. Na realidade, permitir um vão para o vento passar e dispersar a poluição, constirui uma recompensa íntima para eles. na realidade, mesmo com os contras, são felizes. Uma filha ainda mora consigo, os outros três os visitam com muita freqüência, de vez em quando dormem com suas famílias nos quartos da residência, ajudam no que podem, praticamente moram na casa.

Eles têm internet "banda larga", se é que existe isso no Brasil, sem fio. Têm tevê por assinatura, um gerador diesel para compensar a inépcia estatal, a casa é equipada com o que há de moderno. Mas tudo isso convive com os quadros, cujo mais novo tem vinte e cinco anos, pendurados nas paredes da ante-sala e da sala. O recado é claro, aquilo não é só uma construção de tijolos, é um lar.

Conseguiram manter a casa movimentada, com vida, mantendo do lado de fora a neurose de um mundo que pensa que é moderno. Um dia aqueles edifícios serão desmontados, já há planos para condomínios fechados de sobrados, para daqui a cinco anos. Os moradores estão indo embora tão rápido quanto chegaram. Quando isso acontecer, sabem que boa parte da tranqüilidade d'outrora será reestabelecida, e será suficiente.

A casa do texto é fictícia, mas existem centenas delas pela cidade, ainda hoje resisitndo à deterioração da qualidde de vida que um dia tivemos.

05/04/2013

Gente Torpe Vilipendiando

Aldeia Engodal Telecomunicações, bom dia... Aguarde enquanto nossos atendentes estão estando sendo liberados...

Senhor, a sua internet foi cortada por não ter estando poagando a fatura, senhor... Não, senhor. A confirmação do pagamento não está estando em nossos sistemas. O senhor poderá estar imprimindo a segunda via pela internet, senhor... Sim, senhor, nós estamos sabendo que a sua internet está estando cortada, mas é preciso que o sehor esteja estando baixando o boleto, e depois esteja pagando junto à lotérica, para estar tendo reestabelecida a sua rede em até dois dias úteis, senhor.

Sim, senhor, sabemos que a sua internet está estando cortada... Entendo, senhor, então a fatura ainda não está estando chegada... Ah, há meses que não tem estado chegando, e o senhor tem estado pagando informando o número do telephone... E esteve fazendo o mesmo desta vez... então estarei passando a sua ligação para nosso supervisor. Esteja aguardando um minutinho, enquando estamos tocando a musiquinha de órgão de brinquedo...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Esteja esperando.... Toooo... toooo... toooo...

Aldeia Engodal Telecomunicações, bom dia... Não, senhor, não estamos tendo nenhum registro de sua ligação recente... Queira estar passando seus dados, senhor... Então, senhor, esteja informando em que podemos estar lhe ajudando... Em nossos sistemas não está constando nenhum pagamento, senhor... Lamento, senhor... Estarei lhe passando para nosso supervisor, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Aldeia Engodal Telecomunicações, Supervisão, bom dia... Basta o senhor estar pagando a conta, senhor... Impossível, senhor, não é possivel estar pagando apenas informando o número de telephone, senhor... Nós sempre mandamos a fatura em dias, senhor... estaremos investigando o seu caso, senhor, enquanto isso o senhor pode estar imprimindo o boleto para pagamento pela internet, senhor... A sua internet, senhor... Sim, a que foi cortada, senhor...

Estarei então passando a sua ligação para nossa gerência, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Esteja esperando mias um minutinho, senhor...

Esteja esperando mais um minutinho, senhor...

Estej... Toooo... toooo... toooo...

Aldeia Engodal Telecomunicações, bom dia...

- Aqui é Chuck Norris. Vocês sabem de onde estou ligando e quem é o reclamante, então vou pedir educadamente que reestabeleçam a internet do meu amigo, que já foi paga, mas o que foi vendido a ele, não o que o governo permite que vocês forneçam. Não me obriguem a dar uma ordem.

A ligação é reestabelecida imediatamente. Mas como vivo no (i)mundo real e não sou amigo do Norris, continuarei a ter dificuldades para actualizar meus blogs, peço desculpas e a compreensão dos amigos.

27/03/2013

Vôo sentado é pago à parte

Discussão acalorada entre um cidadão e sua namorada com, segundo ele, crises de saudosismo.

- Cara! Prohas! Em que época você vive, heim?
- Na época da dignidade minima. Isto aqui já foi um quintilhão de vezes melhor, e nem faz tanto tempo assim.
- O quê era melhor, me fala!
- Dá uma olhada geral e raciocina.

Ele cede, desta vez. Das últimas, tinha se negado terminantemente a fazê-lo. Olha para os outros clientes, presta atenção, não vê nada de mal. Dá uma olhada nos funcionários, estes realmente parecem ter recebido uniformes tamanho único, feito com tecido-não-tecido "costurado" com cola quente, fora isso está normal. Volta a olhar para alguns clientes e vê que realmente estão um pouco desconfortáveis, nada fora do que considera aceitável... Fácil acreditar nisso, quando se tem 1,7m e 67kg. Os vendedores de quitutes estão de uniforme, como manda o figurino, melhor do que a maioria dos camelôs dos estádios de futebol. Está acostumado com aquelas porqueiras, acredita que talvez por isso não veja nada de errado com eles, pelo menos são limpos.

- É, reconheço que poderia estar melhor, mas para mim parece tudo razoável!
- "Razoável"? Você acha razoável pagar cinco reais por uma barrinha de cereais, que eu compro por um real na padaria, e cuja caixa com duas dúzias me custa reles quinze reais???
- Meu amor, mas o ambiente é chique! A gente não paga só pela comida, paga também pelo ambiente!
- Eu conheço esse tipo de serviço o suficiente para saber o que é chique e o que não é. A única coisa chique aqui é a propaganda enganosa que eles fazem! Eu nasci dentro de um ambiente desses, lembra? Tenho pelos antigos serviços, as mesmas saudades que tenho por músicos de verdade, por rock, pop, funk, cowntry, sertanejo de verdade. Eu conheci tudo isso.

Faz-se uma pausa, em que ele ri baixinho. Lembra bem do ataque de risos que teve, quando soube das condições em que ela nasceu, entre fronteiras, e a confusão que foi para registrá-la, já que na época não havia a precisão de navegação por satélite que qualquer um pode comprar barato, hoje em dia. Lá do fundo ouvem uma discussão. Alguém trouxe lanche de casa. Um funcionário terceirizado mostra as letrinhas miudinhas do contracto, com uma lente de aumento, para mostrar que tudo que for comestível lá dentro, deve render dividendos á companhia. Mal sabe o cidadão que suas coisas foram confundidas com o lixo da empresa e já estão compactadas, dentro do caminhão de coleta.

Um vendedor sai perguntando quem vai querer pipoca, só cinco reais o saquinho de 100ml. Se a qualidade do óleo for tão boa quanto o cheiro, ela vai preferir passar fome mesmo. Outro vende água para um cidadão na fila ao lado, abrindo uma garrafa térmica e enchendo um copinho de 50ml, um real cada.

Ele sabe que ela é veterana no ramo, até trabalha para uma concorrente estrangeira, que infelizmente precisou recorrer à porqueira dos serviços de uma nacional. Na realidade, havia um pequeno abismo financeiro entre os dois, que ela o ajudou a eliminar. Ele reconhece, na realidade ainda se deslumbra um pouco com os péssimos serviços de que ela reclama...

- Tá, eu pensei bem... O que te dá essa nostalgia toda, então?
- Pra começar, como é ainda hoje na empresa em que trabalho, falando só entre nós, a alimentação está incluída no preço do serviço. E lá não é lanchinho comprado da fábrica sem a embalagem, para economizar ninharia. Você vai ver, nossas refeições incluem frutas com doces, pães e bebida no desjejum. Almoço e jantar tem filé de salmão, meu querido...
- Put... putz que paralho, meu!
- Enfim, a alimentação não tem um peso tão grande nos custos operacionais. O que eu ressinto de todas, é a qualidade do atendimento, do início ao fim. Já ouvi falar de gente que foi verbalmente agredida por ter pedido papel higiênico, quando estava no banheiro. Perdeu-se totalmente a noção do que é o nosso ofício! Fora a asneira daquela cantora, que lamenta ver o porteiro do seu prédio sentado ao lado dela, estão fazendo economia onde não cabe, para tirar centavos do preço da ala econômica. Você viu que a Escanteio está falindo, não viu?
- Li a respeito, mas não imaginava que fosse por isso.
- Tem uma diferença enorme entre investir e gastar, que vai ser a próxima fase do teu aprendizado. Assim como há uma diferença gigantesca entre economia e avareza. As companhias nacionais... Vou falar ao teu ouvido, senão me trolam aqui dentro. Eles investiram mal o dinheiro ganho no começo da euforia. Ao contrário do consumidor comum, os bancos não se deixam enganar por propagandas, eles são profissionais e sabem quando alguém tem ou não condições de honrar uma dívida.
- Ou seja, a gestão das companhias nacionais é incompetente, é isso?
- Tão incompetente, que não atinou que as pessoas não se importavam tanto assim com os preços, o tratamento recebido era muito mais importante.
- E hoje, com essa facilidade em pagar...
- É uma mina de ouro que eles esnobam! O consumidor que se acostuma a ser bem tratado não aceita serviço ruim! Mas nas cabeças ocas deles, bom tratamento é custo.
- E como ser gentil vai encarecer a passagem?
- Não encarece. O problema é que isso demanda um investimento inicial que eles não querem fazer. Os custos de um adicional salarial não são um horror, o eventual aumento na passagem é justificável e o passageiro paga. Paga e sai fazendo propaganda para a companhia.

Faz uma pausa, para segurar os ímpetos de xingar todo mundo, respira fundo e continua...

- O problema maior é que o empresariado(?) brasileiro aprendeu a só investir com ajuda estatal. Confia que há muito dinheiro e se esquece de dois fatores importantes: A quantidade de candidatos a receber esse dinheiro também é enorme, então acaba não sobrando tanto assim para todo undo, nem a qualquer hora do dia ou da noite, como se fosse caixa electrônico de banco; Existe favorecimento no governo, eles sabem disso, sabem que quem tem mais amizades, tem prioridade, e a malandragem se vira contra o malandro. Entendeu?

Mais uma pausa, abrindo um sorriso de leve, lembrando de quando era criança e vivia viajando de avião, quando o comissariado de bordo era quase que um corpo de enfermagem...

- Olha, eu ainda lembro de ver os bancos todos limpos e impecáveis, cheirando a novo. Mesmo em aeronaves já rodadas. O faturamento não era tão grande assim, se comparado ao que é hoje, e mesmo assim não víamos esses remendo escandalosos, esses encostos encardidos, nem essas... moças com cara de TPM perpétua. Perder malas era um escândalo para a companhia...

Ela explica pacientemente que nem tudo o que viu no passado, deveria ter ficado lá, e a qualidade dos serviços é uma delas, uma vez que a tecnologia permitiu uma redução significativa de custos em todas as áreas. Assim que entram em espaço aéreo americano, os valores são convertidos. A água de R$1,00 passa para US$1,00. Por isso ela o obrigou a comer muito bem e esvaziar a bexiga, antes de embarcarem. Mais uma hora e desembarcam, só levaram a bagagem de mão, para garantir que não seria extraviada.

22/03/2013

A finesse nossa de cada dia - generalidades

Confundidos, e tratados por muitos como frescura, os bons modos são negligenciados por gerações que se apegaram à superficialidade e ao efêmero, sem se darem ao trabalho de saber os motivos de sua existência. Talvez seja mesmo difícil cobrar isso de quem é efêmero e superficial em tudo o que almeja.

Vamos aos dois países ocidentais mais reconhecidos pela boa educação de seus respectivos cidadãos. Bem, na realidade essa boa educação tem muito de mito. França e Inglaterra são vistas como referências de finesse e sofisticação, especialmente por quem tem o hábito de fazer comparações entre o Brasil e outros países. Não é mentira, mas também não é de todo verdade.

O francês é visto pelos outros europeus como mau-humorado e intolerante com quem não domina seu idioma. É tido por alguns como anti higiênico, especialmente o parisiense, que tem o hábito de comprar pão e levá-lo debaixo do braço para casa, nem sempre embrulhado. A fama de pervertido é muito mitológica, mas tem algum fundamento.

O inglês é taxado sem dó de hipócrita. Tem uma certa polidez que não esconde a agressividade de seus ancestrais.  Piadas de mau gosto, humor negro, ironias ferinas, arrogância à flor da pele e outros mais, são aspectos que fazem muitos europeus reconhecerem os britânicos em uma descrição. Fora a conhecida belicosidade que os americanos herdaram deles.

Well, mes amis, vocês vão me perguntar que diabos então torna esses dois países tão admirados, se são tão escrotos? Eu respondo: Porque nós também somos, não menos e sem um décimo da maturidade civilizatória deles. França e Inglaterra deram os moldes da sociedade ocidental pós idade média. Tudo o que nossos países são, devem a eles, gostem ou não.

Acontece que essas duas nações não ganharam a admiração dos mais bem instruídos à toa. De quando ambos viviam sob o comando do mesmo trono, podemos dizer que são parentes na marra, com similaridades que um não admite ter em comum com o outro, mas me permitem falar de ambos ao mesmo tempo.

Mesmo com essa fama toda, francos e bretões têm regras muito claras e rigidamente observadas de convivência. Elas permitem que inimigos mortais se sentem à mesma mesa, sem o risco de se engalfinharem no meio do jantar. Sabem aquelas cenas exageradas dos filmes de James Bond à mesa do vilão? É um exagero sim, mas tem um fundo muito forte de verdade.

São regras muito arraigadas, que eles seguem desde pequeninos, às vezes na marra, o que cria muitos episódios do brutal humor britânico. Por essas regras, o mais abrutalhado herói de guerra consegue conviver com jovens civis, que ajudou a impedir que precisassem virar alvos de artilharia. Muitos de vocês são ávidos pesquisadores e sabem o quanto esse choque de experiências pode ser combustível.

O que a finesse tem a ver com isso? Dear friends, a finesse é o conjunto dessas regras de convivência. O que ela fez pelos nossos amigos, foi ajudar a controlar sua índole. Embora muita gente faça uso superficial das regras de etiqueta, elas ajudaram os dois países a controlarem sua força e sua tendência destrutiva.

Explico, mon ami. Sabe aquela propaganda de pneu que diz "Potência sem controle não é nada"? Ela diz a pura verdade. As regrinhas chatas de finesse têm o mesmo efeito das artes marciais, condicionando o praticante a controlar sua força. Isso, aliás, está claro no tipo de utensílios utilizados no aprendizado; louças finas, porcelanas delicadas, vidraria cara, e similares.

Quando quebrar uma xícara significa ter um prejuízo grande, naturalmente dispensa-se mais cuidado no seu manuseio. É mais ou menos como acelerar as conseqüências da vida, fazendo o indivíduo ver de imediato no que dá o seu descontrole emocional, seu desajeito, sua arrogância ou seja lá o que se precisar trabalhar.

A hora do chá, herdada de chineses, indianos e japoneses, é uma das ferramentas comportamentais mais poderosas. A função desse ritual não é empanturrar, até porque as quantidades são pequenas, grandes refeições têm hora para acontecer, no máximo num piquenique.

O rito que envolve o serviço do chá ensina e condiciona o cidadão que tudo tem sua hora e sua ordem de acontecimento, em resumo, ensina disciplina social. Por isso, aliás, as casas de chá não costumam cobrar barato, mesmo as mais simples. Aquilo não é um restaurante, é uma academia. Seus freqüentadores têm necessariamente que deixar a ansiedade e o estresse do lado de fora, por isso muitas proíbem o uso do celular em seus recintos.

Por isso muitos jovens repudiam e tacham de hipocrisia, certos rituais sociais, porque não aprenderam a ter paciência e foco, não aprendendo a ler nas entrelinhas e reconhecer a utilidade do que lhes precedeu. E deixar o celular desligado, para a maioria deles, é um sacrilégio. Mas seria garantia de levar um pontapé dos freqüentadores de uma casa de chá.

Esses ritos são também um meio de se fugir do mundo, sem precisar virar zumbi toxicômano. É um modo de se ter algo sob algum controle. Pode parecer pouco, mas é um momento em que o cidadão se torna dono de uma parte de sua vida. Questão de saúde mental, entendem?

O hábito de se apreciar obras de arte, cuja imitação cega acabou gerando estereótipos de alto grau vexatório, tanto do público quanto dos "artistas", é um exercício de finesse. A apreciação de uma obra de arte, como nas regras de etiqueta, consiste em saber interpretar e ler as entrelinhas. Um artista de verdade sabe propiciar isso. Um apreciador bem educado sabe reconhecer um artista de verdade, por isso muitas vezes parece ser arrogante... Às vezes é mesmo.

Eu, por exemplo, aprendi a apreciar automóveis antigos. Embora goste do conjunto em geral, contrario um pouco o status quo, prefiro os carros familiares, quando o mais comum é se admirar os esportivos. Faz parte. Não se deve fingir que gosta do que a maioria gosta, isso sim é hipocrisia. Pessoas realmente finas sabem reconhecer um hipócrita e sempre o deixam pensando que é bem-vindo, quando na verdade o isolam educadamente.

O que não significa que não perdem a calma. Quando perdem, é de uma vez, mas isso nunca acontece sem muitos avisos de que se está ultrapassando limites. As dicas são claras, mas infelizmente a idiotice crônica que tomou o mundo, deixou a maioria insensível a elas. A lida habitual com a delicadeza treina o quando, quanto, onde e até quando usar a força.

Com o tempo, e a incorporação do hábito, a pessoa passa automaticamente a se limitar ao seu espaço, até estranhando quando vê duas pessoas sozinhas tomando toda a largura de uma calçada. Sabe que violar a regra do espaço alheio é estar às portas de uma agressão desnecessária. E quem diria que isso seria aprendido tomando chá? Pois foi.

Os latinos, mais despachados e sem o contacto com o extremo oriente que os ingleses tiveram, praticamente não aprenderam isso. Questão de oportunidade perdida... E de jamais terem corrido atrás do prejuízo. Deixo claro que regras de etiqueta não te tornam uma pessoa melhor, mas te ajudam a ser. Não preciso dizer que uma população mais refinada não vota em qualquer um, por isso brasileiro é tão estimulado a ser grosseiro.

A irritação de nossos amigos com quem fala alto demais, tem um fundo sólido de pragmatismo. Eles gostam de ouvir suas próprias vozes e a de seus interlocutores, sem que precisem contar para todos no ambiente o que estão conversando. Questão de privacidade, não gostam mesmo de saber que o fulano da mesa lá longe, pode ter escutado detalhes de uma conversa reservada. Nos negócios e na vida íntima, sigilo é ouro.

Não sei se preciso falar de bons modos á mesa... Talvez precise dar uma passada rápida. O facto de tu gostares do que comes, não significa que os outros sejam obrigados a saber o que estás comendo, seja vendo ou ouvindo a mastigação. Tem mais, quem come aos poucos, come menos, sente melhor o sabor do alimento e consegue manter a boca fechada. Falar com a boca cheia  atrapalha a dicção, causa mal entendidos, enfim, teus pais não te repreendiam à toa.

À parte as conseqüências nefastas de interesses egoicos, como ambições e conspirações de família, a finesse não tolhe a espontaneidade de uma pessoa, só lhe dá o controle dela. É como mandar o cavalo para um bom adestrador, ele compreenderá muito melhor o que o cocheiro deseja, e reconhecerá melhor os perigos da estrada. Ele continua correndo e saltitando, quando em descanso, continua copulando, continua comendo, vivendo sua vida, só que leva a carruagem com muito mais eficiência.

Eu poderia escrever um livro a respeito, que ainda assim não abrangeria toda a utilidade pessoal e social da finesse, mas não da frescura. Mas creio que o que temos aqui já atiça suas cabecinhas bem intencionadas. Então, um ou dois torrões?