28/02/2009

Maria Cristina 2

Pessoa íntegra, de caráter ilibado, lúcida de suas convicções, adora banana frita com açúcar e canela, entre outras besteiras.
Ela é a pessoa mais fiél e honesta que já conheci. Beleza refinada sem artifícios e educação esmerada por uma família dedicada. Dá um boi para não entrar numa briga, mas para sair...

Tudo o que falei de Maria Cristina há dois anos não foi o bastante, embora ela tenha achado que falei demais. Até pediu que eu tirasse, com medo que as pessoas lessem, patati e patata.

Ela fez aniversário no último dia Vinte e Cinco de Fevereiro. Passou o dia inteiro ajudando alguém, sem um minuto sequer de repouso para seu corpinho cansado, que há anos pede pelas férias que nunca mais tirou.

É fácil se apaixonar por essa menina, mas tão fácil é também se morder de inveja e ciúmes, até odiá-la. Pois há os espíritos de porco que a odeiam. Suspeito que muitos sejam por paixão não assumida, mas a maioria é porque ela é uma pedra no sapato de marxistazinhos de boutique, que usam de seus cargos e proximidade partidária para perseguir e obter privilégios. Radicais de direita e esquerda são farinhas do mesmo saco, só que com aromas (fedores) diferentes. Em ambos os casos, a medicina se esforça para combatê-los, pois estragam o organismo em que se instalam, destruindo a mais sólida reputação da mais tradicional instituição que se possa imaginar.

Maria Cristina está nessa frigideira, gastando sua juventude para evitar que aventureiros de costas quentes arruínem o trabalho que ela levou anos para construir. Por isso a perseguem, por isso tentam fazê-la de todo modo abandonar seu posto, mas ela não cede.

Seu imenso amor ao próximo a impele ao trabalho árduo que, porém, tem lhe custado muito de sua vida pessoal, de sua já delicada saúde, do convívio com sua família e seus amigos mais caros.

Vocês vão pensar que estou transformando-a em um anjo de candura, quando a primeira face que conheci dela foi a de seus defeitos. Bem, pois estou mesmo, porque aquela figurinha agitada e frenética não consegue esconder o coração maternal que tem, não de mim. Conheço-a há dezenove anos, desde que aquela mocinha petulante segurou o braço de um lutador em plena marcha, e conseguiu detê-lo. São dezenove anos do que é certamente a maior e mais preciosa conquista da minha vida: a amizade e o respeito dela.

Temos tido poucas oportunidades para destilar nossas peçonhas em particular, pelo que muito assunto fica atrasado, alguns já perdidos na memória. Praticamente só quando sozinhos no carro dela, seguindo para algum compromisso, é que conseguimos conversar, até algum bocó chamar pelo celular e nos interromper. Vocês não imaginam quanto conteúdo a conversa mais banal recebe, quando é ela quem fala. Pela experiência que relato, pensa-se ser uma idosa, até se ouvir sua voz e ver seu rostinho maroto que adora debochar da minha caretice. Mesmo com seis anos, dois meses e quinze dias a mais, ela é nitidamente mais jovial do que eu. E mesmo com sofrimentos que não são para serem publicados, mas desbastaram sua saúde física, ela continua linda, meiga (quando quer), afetuosa, uma dama que faria sucesso em qualquer país civilizado.

Eu sempre ficava triste quando sabia de ela ter terminado com um namoro. Primeiro porque é uma moça de educação católica e, embora não reclame, ter sua família constitui um sonho que ela merece; Segundo porque me faz perder ainda mais a fé na raça masculina, principalmente a goianiense. Mas vai ter homem frouxo assim no inferno! Esta cidade tem homens casados, bichas e frouxos, com raras exceções. Posso dizer porque moro aqui desde os cinco anos, ou seja, não sou daqui. O pior é que são frouxos machões, mas que morrem de medo de assumir um compromisso matrimonial, ainda mais com uma mulher forte e independente. Juro que se eu tivesse sido um desses namorados, teria sido o último, porque ela não teria escapado do altar. É triste ver a carinha dela se fazendo de forte, aquela boquinha arqueada e os olhos sonolentos, forçando uma vigília que o organismo mal consegue manter. Os amigos que amealhou a ajudam como podem, mas cada um (incluso eu) tem seus próprios dramas e ocupações, pois vontade de ficar vinte e quatro horas por dia à disposição dela não nos falta. O que lhe resta? Uma equipe reduzida, um departamento com instalações muito precárias, gente de fora que não faz metade do que é paga para fazer e a sobrecarrega, e um governo federal que não dá a mínima para funcionários como ela que, em empresas privadas, já estaria rica com tanta produtividade e horas extras. A última conta que fiz foi em 1998, ela tinha pouco mais de três meses de horas extras; de lá para cá não houve redução.

Eu rezo por ela. Ultimamente tenho rezado dois terços para ela e um terço para mim, inclusive para ter um meio de ajudar mais a criatura mais cristã no melhor sentido da palavra que já conheci.

De vez em quando ela ri do meu jeito tiozão, de eu ficar pasmo com cousas dos jovens, de estranhar ouvir ela dizer "gatinha" ou "gatinho". Passo pelo ridículo com o maior prazer se isso a alegra, pois ela precisa muito. Ela é um broto legal, sensacional, uma brasa, mora.

Ainda espero poder vê-la indo para casa, no máximo cinco horas depois do expediente, feliz a pensar na refeição quente que terá e certa de que uma equipe terá encaminhado tudo quando voltar, no dia seguinte.

Até lá, dedico todo o tempo que puder em seu auxílio, deixo meus ombros à sua permanente disposição, levo sempre que posso a única refeição que ela terá tido ao longo de todo o dia. Enquanto um merecedor de suas núpcias não aparece para ajudá-la, eu me dedico de corpo e alma à criatura mais elevada e levada da breca que a cidade já conheceu.

Feliz aniversário, minha opala de oito matizes.

21/02/2009

Disciplina disciplinada

Foi embora de onde não o queriam mais, a virtude é para ser admirada e não praticada em plena luz do dia. Ele praticava.
Sem bom e honesto não é para ser mostrado em público, eles não gostam.

Preferem as sombras frescas do cinismo, esperando que um messias em seu cavalo branco resolva todos os problemas no fim do mundo.

Protegem os maus que lhes sugam e abandonam quando satisfeitos, embora expressem horror com os noticiários que se recusam a deixar de ver.

Foi para o sítio, experimentar a clausura que bem funcionou por seis meses e pouco. Mas logo vem um fazer visitas, depois outro a pedir conselhos. Mas só ficando o tempo de resolverem seus problemas, depois indo embora.

As noites em que a televisão fica calada duram pouco, às vinte e uma está na cama, para acordar com o raiar do sol e preparar seu dia. Respira ar fresco e orvalhado.

Vai à cidade quando precisa, uma vez ou duas por mês. Mas a cidade vai três ou quatro vezes por semana ao sítio. Está de bom tamanho. Os amigos vêm, desabafam e vão embora antes de implicar por bobagens.

O sítio bem cuidado prospera. A vida frugal ajuda no progresso. Aproveita agora, não sabe se um dia se casa e crianças precisam de mais do que frugalidades. Mas as amigas que tem, com alguma chance de se interessar por ele, não são afeitas à vida campestre.

De todos os detalhes ele se esqueceu do mais básico. Ninguém é perfeito. O sítio é avizinhado da cidade, o que facilita sua vida e a dos visitantes, mas também a fagocitose urbana. A cidade cresce e logo envolve novamente sua vida, os amigos se mudam para perto e tudo do que queria fugir volta, embora muito menos intenso.

Casas e condomínios quadruplicam o valor do sítio, bem como os impostos que paga por ele. Os burburinhos dos motores já são constantes e de edifícios os curiosos bisbilhotam sua vida com binóculos. Ainda assim o sítio é um oásis de temperatura amena em meio aos extremos climáticos do asfalto. De ar fresco em meio à asfixia petrolífera.

Vender? Se fosse por dinheiro já o teria feito. Quer a paz que trabalhou para conseguir e não abre mão dela.

Quer ser saudável sem ter que ser politicamente patético. Quer ser gentil sem que lhe dêem um panfleto de uma boate gay. Quer ser honesto consigo mesmo sem que o acusem de ser chato e de querer tolher a diversão alheia. Poderia ter ficado no meio urbano se o aceitassem assim.

Em alguns pontos, porém, acha que os amigos têm alguma razão. Tamanho rigor, tanta disciplina e o isolamento o tornaram muito rígido. Com as regras muito claramente expostas, permite que façam reuniões e festinhas no sítio. Também reconhece que o respeitam, até certo ponto, por não espalharem pela internet e jornais que há um hetero de quarenta e cinco anos que nunca sequer beijou. Não está disposto a ser atração de circo em programas de baixo calão, nem que artistas vulgares disputem quem será a primeira a desvirginá-lo, ganhando assim a notoriedade e contractos com revistas pornôs.

Mas a solução para afastar uma mulher leviana é uma mulher honesta, de preferência brava. Ente uma festinha e outra de amigos (não aceita alugar para eventos) ela aparece. Totalmente diferente, arredia à vida campestre, expansiva, perua assumida, festeira, regateira e adora comer besteiras. Mas longe de serem opostos, o que falta em um há no outro, e o sítio já está dentro da cidade. Lojas, shopping center, condomínios, escolas, concessionárias, repartições públicas, linhas de ônibus e tudo mais o cerca. É o melhor dos dois mundos.

Entre um dente voando e tufos de cabelos tingidos nas mãos, ela defende o seu homem das aproveitadoras. Ele, por sua vez, usa de cavalheirismo marcial para afastar dos ex-namorados a idéia de reconquistá-la. Ela o convence a comprar um Ecosport, mas ele não vende sua Variant amarela. O Eco é para ela.

No sítio se dá o casamento, enquanto os outros festejam o casal dispensa preservativos e pílulas anticoncepcionais. Ela o convence a permitir alguns eventos no sítio, mas ele condiciona à seleção dos usuários. Só com a indicação de amigos se consegue o espaço, após a devida triagem, que aquilo é casa de família.

Ela mudou completamente seus planos, a tevê já fica ligada até tarde, (ou até cedo) o rock rola directo pelo computador, não dá para ignorar o barulho que uma criança produz e os aromas da mesa de refeições são mais mundanos. Mas não voltaria um milímetro se lhe fosse permitido.

14/02/2009

No seco

Hoje é dia de São Valentin. Não se trata de uma data americanóide comercialista burguesa que oprime as massas hai hai hai mil vai pra fora do Brasil. Ao contrário do dia dos namorados, esta sim uma data planejada para o comércio em uma época de vendas fracas.
Tutto benne, já disse aqui que não sou contra os comerciantes garantirem o franguinho na mesa, por isto mesmo não vou atacar o comércio e não farei uma campanha declarada contra o doze de Junho, já nos bastidores é outra história. Só sou favorável à retomada do Quatorze de Fevereiro e de suas implicações mais sólidas.

Hoje, no resto do mundo, as pessoas mandaram presentes não só para seus amados amantes, mas também para amigos e pessoas às quais simplesmente querem bem. Da mesma forma como cartas-bomba com lindas mensagens de "MORRA!" circularam em vários países.

Tenho uma lista interminável de pessoas às quais teria mandado umas cartinhas, mas o bocó só viu ontem a data no calendário da Eddie. Mas desta vez me perdôo, só desta vez.

Mas se nos ativermos à esphera dos amantes, namorados, noivos, cônjuges e tico-ticos-no-fubá, então eu não teria a quem mandar cousa alguma. Não tenho uma boca para beijar, um outro corpo para acariciar, uma voz que me responda com palavras doces à overdose de glicose que teria acabado de declamar. Não é a situação mais triste do mundo, já estou acostumado, mas é estranho pra chuchu.

Quase todas as pessoas que conheço e têm mais de dezesseis anos, estão namorando, noivando ou casadas. Sem problemas. De vez em quando aparece alguém mostrando a photo dos pimpolhos, me arrepiando os cabelos pelo tamanho que os guris já têm, já que os vi ontem dentro de mijões e hoje estão andando de bicicleta.

É do balacobaco ver gente que conheço progredindo e bem resolvidas em suas vidas afetivas. Mas às vezes me sinto um alienígena, há um tempão sem dar um abraço sequer, ouvindo o outro descrever o que sentiu na noite anterior... Com requintes.

Uma amiga termina de falar comigo e vai se agarrar ao sujeitinho que apareceu. E eu vou para onde? A conversa estava tão boa, com tanto conteúdo de tão alta qualidade e foi interrompida por um "Aí, gata!". Juro que não consigo chamar alguém de "gatinha".

Abismos de linguagem à parte, minha caretice não consegue até hoje compreender (mas respeitar sim) alguém ter dois ou três namoros por ano. Passam a impressão de que só querem ter uma boca, um aconchego e um sexo exclusivo para desestressar da semana de trabalho.

Tenho uma amiga que é linda de cair de costas, inteligente, culta, independente, honesta, enfim. Já conheci uns três ou quatro namorados dela. Com todas as qualidades descritas, os frouxos a deixaram escapar! Só posso acreditar que se enquadram no parágrapho acima, e que eu sou realmente um alienígena. Claro, que ela é geniosa, voluntariosa, compra brigas das quais os outros fogem, mas são detalhes irrelevantes. Eu não teria deixado ela escapar.

Estou sozinho há muito tempo, mais tempo do que tenho de blogueiro. Não sofro por isto, mas a idade chega e pergunta o que farei da vida, quem vai me amparar na velhice, a quem dedicarei minhas poesias, com quem dividirei as pizzas do porvir. Não sofro por isso, mas já começa a incomodar. Há alguns meses o meu alfaiate, que dirige um centro espírita, vem me cutucando no assunto, tenho certeza de que percebi uns três ao redor dele, soprando idéias matrimoniais. De quebra, minha avó disse que morreria sossegada se me visse bem casado. Será um complô?

De repente minhas mãos se acariciam mutuamente, como se uma fosse mão de moça, delicadamente, então percebo que a hora se aproxima. Por estar tão sensível, também fico às comemorações na data certa, que infelizmente não vejo no Brasil.

Que mais hei de falar a respeito?

07/02/2009

Preço faz parte

Eu entro em uma loja, procurando um liquidificador, já com cor, marca e modelo escolhidos. Saracoteio por mais ou menos meia hora dentro do estabelecimento e ninguém olha para a minha cara. Não sou tão feio assim, não estava mal vestido e cheirava razoavelmente bem. Vou buscar uma vendedora, que faz uma cara de "já faço o favor de te atender". Ela não sabe se no estoque tem um preto, nem sabe se há a marca que fui procurar, mesmo havendo caixas do modelo (só que branco) debaixo do seu narigão.
Noutra loja saracoteio por algum tempo, mas parece que serei atendido. Ledo engano. Sou mais empurrado do que contribuinte em repartição pública cheia de apadrinhados. O que pensar de vendedores de electrodomésticos que nunca ouviram falar da Walita?
A peregrinação dura o dia inteiro, até que entro em uma loja e espero bem pouco. O vendedor conhece a marca, informa que o modelo e a cor estão disponíveis no estoque e diz que o preto é mais caro. Eu conheço produção industrial, sei que a cor preta reduz custos, mas é uma questão de demanda e foi a cor que me pediram, então concordo em levar aquele liquidificador, por um preço 25% maior do que o que aquela rede que diz "Preço é tudo" cobra.
Mais irritante do que vendedor que te olha como se tu fosse de uma casta inferior, é consumidor que se comporta como se fosse de uma casta inferior, mendigando a atenção de bobocas que são simplesmente contractados e jogados no salão de vendas, sem sequer conhecer o que estão vendendo. Não conhecer uma das marcas mais antigas e tradicionais do país é um atestado de incompetência.
Faz algum tempo que parei de comprar as marcas mais populares de bombons, simplesmente porque elas não fazem mais bombons, fazem doces delgadamente cobertos com chocolate, e olhe lá. Tu morde e o cheiro de caramelo aromatizado te enche as narinas, nem sentes o sabor do chocolate que, convenhamos, tem mais amido de milho do que cacau. Nossas marcas de chocolate estão decaindo rapidamente, no afã de oferecer caixas quase de graça estão esquecendo de qual é o ramo em que trabalham. Já há garotinhas vendendo bombons caseiros pelas ruas com muito melhor qualidade, inclusive sanitária. O povo estranha quando eu dou R$ 1,25 por um único bombom de boa qualidade, mas é um acepipe que eu comerei com calma, sentindo de facto o sabor de chocolate com recheio seja lá do que for, e geralmente aquele chocolate de primeira linha é suficiente, não tenho que esgotar uma caixa para me dar por satisfeito. No fim das contas, acabo gastando menos. Para mim já é nítida a diferença entre um chocolate bom e a gordura hidrogenada achocolatada.
Agora imaginem a cena estapafúrdia a seguir: O vendedor manda o carro deitar, o carro deita; manda dar a rodinha, ele dá a rodinha; manda balançar o porta-malas, ele balança; manda fingir de sucateado, ele finge. Cabaré de cego? Não, é uma figuração dos vendedores de carros que acham que o motor bicombustível tem que ser adestrado. Pessoas, o motor é uma máquina, ele não aprende cousa alguma, já sai da fábrica programado para queimar mais de um combustível. O recomendado é colocar um pouco de outro combustível, de vez em quando, para que um limpe as sujeiras do outro, fora isto não existe essa conversa de "adestrar o motor flex". Para economizar estão colocando vendedores tarimbados, mas para vender artigos que não conhecem. Asseguro que raros concessionários sabem que Ford usava, até o advento da Autolatina, na verdade, um motor Renaut envenenado. Para baratear custos, estão negando o treinamento mínimo aos funcionários, como conhecer a história completa e as características básicas da marca. Sabiam que o Daewo Espero usa a mesma mecânica e plataforma do Vectra antigo? Pois é, os vendedores também não.
Em resumo, temos que pagar bem mais caro que quisermos ser atendidos como nossos pais eram. Só entrar em lojas caras, com mercadorias exclusivas e personalizáveis, daquelas que só fazem propaganda dirigida, porque sabem que preço não é tudo. Faz diferença, mas nem sempre faz falta.
Se queremos móveis de madeira, teremos que concordar em pagar R$ 1000,00 por uma cama, só como exemplo. Mas o vendedor saberá dizer de que madeira é feita, como conservá-la, quem pode consertar, como transportar, quanta carga suporta, o conchão mais adequado, enfim, detalhes importantes que os de outrora invariavelmente sabiam. Mas para as quais hoje se precisa pagar bem mais caro. E eu pago.
Se não puder comprar algo de boa qualidade em uma loja que me receba como cliente, então eu fico sem. Lamento, mas respeito também conta.
Nas propagandas, as lojas ditas populares mandam tanta conversa em tão pouco tempo, e em um tom de voz tão autoritário, que me dá a impressão de que se eu não amanhecer à porta, com um folheto em mãos, vão me pegar de pau na rua.
Claro, não posso me esquecer das livrarias. Há alguns anos procurei "Grace" de Robert Lacey, queriam me empurrar "Grease, nos tempos da brilhantina". O vendedor de livros não conhece livros. Fui a uma livraria cara, a vendedora identificou de pronto a obra, mas estava em falta. Pelo menos fui bem atendido e bem compreendido. As mais caras têm uma grande variedade de títulos, a maioria enche as prateleiras com best selers que logo entupirão os sebos por um real cada. Meus livros fazem parte de um acervo, não os comprei por causa de propagandas.
Ainda lembro que os funcionários de uma rede de lojas hoje decadente, em seu auge nos anos 1980/90, se esforçavam para atender bem, tentavam convencer o freguês a levar o artigo, eram simpáticos, e a loja era barateira. Hoje ganha mais vendendo empréstimos com um atendimento sofrível do que com mercadorias.
Eu sou exigente, muito exigente. Conheço técnicas industriais, também as comerciais, de marketing, sei como um liquidificador é construído, mais ainda como um carro é construído, já trabalhei com a imprensa, et cétera. É isso que me capacita a repetir que preço faz parte, mas nem de longe é tudo. Se o fosse, o Gordini teria tirado o Fusca de linha, aconteceu justamente o oposto. Mas infelizmente o grosso da população não se preocupa em se informar, muitos acham mesmo que pobre não tem direito a ser bem tratado e se submetem. Se endividam comprando um monte de porcarias que se acabarão antes do fim das prestações, ou sairão de moda na metade do prazo e se verão obrigados a se endividar mais.
Hoje não existe desculpa para ser mal informado, entretanto, para ser bem informado é preciso saber filtrar as informações. Assim as pessoas saberiam o que há por detrás daquelas mega liquidações espalhafatosas, do enlouquecimento do gerente que não perde vendas, da peça igualzinha pela metade do preço. Mas dá trabalho se informar, é preciso ir atrás de algo nem sempre prazeroso.
Estão colocando o prazer como meta e não como conseqüência da satisfação pela conquista, acreditar que se está levando vantagem pelo aparentemente barato, é um prazer imediato. Mas também volátil. O prazer de ter uma impressora que escaneia e tembém copia, que custou quase o dobro da mais barata, mas não dá problemas é perene. Pesei isto na hora de comprar meu equipamento de informática. Até o cartucho é mais em conta. Meu programa é original, se der pau eu tenho a quem recorrer sem pagar nada a mais. Meu monitor é de cristal líquido, o preço a mais eu abato com a economia na conta de luz. Isto sim é ter prazer, porque de dor de cabeça o cotidiano já me supre o suficiente.
Se eu não pudesse pagar por esses artigos de boa qualidade, simplesmente não teria comprado, não por orgulho, mas por uma questão de princípios. Faltaria com o respeito para comigo se comprasse algo só porque é mais barato, bem como fomentaria a produção de descartáveis e o desprezo pela presença humana, que retunda no desemprego de vendedores de carne e osso. Não que o que eu paguei vá reverter o drama do desemprego no país, mas consta nas estatísticas e ajuda a engrossar o time dos que não se deixam enganar pelas propagandas mal feitas, com isso os que fazem bem feito e atendem direito vêem que têm para quem vender. Que sua mão de obra tem o que fazer e ainda é necessária. Isto também faz parte.

31/01/2009

Geração despreparada

Ok, é proibido reprovar. Ainda que o sujeito erre o alvo, ao se atirar ao chão, ele tem que ser aprovado, senão fica com traumas retóricos politicamente incorrectos. E ai de quem der menos de cinco se ele só assinar a prova e entregá-la vazia.
Também tem que agüentar xingamento. O aluno precisa se expressar livre irrestritamente, ainda que que o professor saia da sala de aula com hematomas. E se o pivete te chamar para transar, a culpa é sua. Quem mandou usar saias acima da unha do pé e decote abaixo do queixo?

O trombadinha trouxe uma arma para dentro da sala? É tudo uma questão sócio cultural antropológica de um sistema injusto e segregador, que aliena as massas e desprotege o indivíduo, obrigando cada um a se virar como pode, então cala a boca senão leva chumbo.

Que foi, bem? Não gostou? Então vá trabalhar noutra profissão. Os demagogos que aprovaram as barbáries supra citadas precisam dos votos da juventude.

O que eu escrevi acima não é piada. A pretexto de gerar inclusão e poupar os alunos de frustrações, as escolas públicas (e muitas particulares) se transformaram em circos. Trabalhei em escolas, tenho parentes que trabalharam em escolas, sou amigos de professores e conheço a tragédia de perto.

Eu sou plenamente a favor de estimular e recompensar os alunos. Estímulo e recompensa é um factor básico para o aprendizado. Mas não é, ao contrário do que as propagandas oficiais tentam passar, o que está acontecendo.

Os alunos não estão recebendo estímulos, estão sendo carregados nas costas. Gente que mal sabe desenhar o próprio nome vai para a quinta série. Alguns deles mal abriram os livros ao longo de toda a vida escolar, certos de que serão recompensados assim mesmo. O professor lá na frente, tentando expor um mínimo de conteúdo, derrepente alguém lá atrás liga o som no último volume e faz ameaças a quem tentar interferir. Pronto, a sala de aula virou um baile funk, com toda a permissividade inerente.

Ei, isto não é uma situação hipotética. Isto está acontecendo nas escolas. Não hoje, sábado, mas está acontecendo de segunda à sexta.

Eu trabalhei por dois anos em um colégio estadual. Quando entrei, era o que descrevi acima, contando inclusive com tráfico de drogas; cocaína, maconha, cigarros, cedê de funk, de axé, revistas de fofoca e outras barras pesadas. Certa feita, a directora conseguiu alguma proteção policial e me autorizou a firmar o pulso. Nunca mais deixei ninguém entrar atrasado sem justificativa, ninguém ficava à entrada durante as aulas, eu dava bronca por mau comportamento sem dó, mas com critério. Resultado: a média que suava para se manter nos 4,5 passou para 6,5 sem empurrismos. Os alunos que ficaram tinham tranqüilidade para chegar no fim da tarde e começar a jornada de estudos, sair ao intervalo sem medo de briga de facas ou mesmo uma bala na testa.

Mas não foi um mar de rosas. Foi quando recebi minha primeira ameaça de morte, de um ex-aluno traficante. Ah, a primeira ameaça a gente nunca esquece, depois vai perdendo a graça e fica muito banal. Alunos que farreavam ao portão e não deixei entrar, chegaram a jogar pedras na escola. Algumas vezes se aproveitavam da vulnerabilidade da rede eléctrica pública, jogando barras de ferro nos fios e causando curtos, deixando o bairro inteiro (cheio de clínicas e hospitais) às escuras, obrigando ao encerramento precoce das aulas da noite. Foram dois anos de luta, de descaso dos pais, de pressão da secretaria sem educação para emburrecer os garotos. Mas enquanto a nossa equipe lá estava, aquilo era uma escola de verdade, com alunos, professores e funcionários já se respeitando na medida do razoável.

Não, eu nunca bati em alunos, não usei palmatória e não tranquei ninguém na solitária. Mas a experiência confirmou o que eu já acreditava, crianças precisam de limites, de pulso firme, de reconhecer a autoridade e a hierarquia, pois elas existem no mundo real e são implacáveis. Se um sujeito tratar o chefe como trata o professor, na primeira frase já leva o pé na bunda, é rua com justa causa. Pergunte aos teus avós se eles foram infelizes por não terem esfaqueado um professor, quem conhece e reconhece os próprios limites sabe aproveitá-los.

Não sou a favor de castigos, punições, vexamentos nem qualquer gerador de traumas desnecessários. Me indigna ver gerações inteiras sendo enganadas por pedabobos biônicos, que só visam o lucro dos chefes ou seus vôos políticos. Gente com muita capacidade sendo legada ao ócio das conquistas fáceis e sem méritos, que assim passa a usar essa capacidade ociosa na busca de sensações cada vez mais intensas, mas totalmente sem significado, gerando o círculo vicioso da delinqüência mesmo em jovens abastados. Estes pensam que não têm o que temer, os mais carentes pensam que não têm o que perder. Mas têm. Não entrarei nos méritos da espiritualidade, me aterei ao mundo material. Eles só vêem que tinham o que perder ou temer, quando sentem a vida esvaindo e se desesperam à foice da morte iminente. Então papai e mamãe não podem mais ajudar.

Aliás, engana-se quem pensa que o problema é de escolas públicas. Uma amiga era professora de uma dessas "unimoney" da vida, na faculdade de pharmácia. A pressão da directoria sobre os professores é desumana, para qualquer situação dão razão ao matriculado, já que aluno mesmo a maioria não é. Certa feita, ela ameaçou suspender um filhinho de papai (idiota, que não terá a quem deixar as empresas) e ele respondeu "Então me dá logo duas semanas que eu viajo pra Europa". Se lixando, assim como as Secretarias sem Educação, para o aprendizado, a universidade deu razão ao turista que pagava as mensalidades. O salário era bom, mas não compensou o desgaste e os prejuízos que ela, pharmacêutica, prognosticou com precisão. Não sei vocês, mas me preocupa saber que esses retardados vão atender pacientes e fazer cirurgias.

Então entram em cena as escolas militares. Lá a pedabobice empurrista não entra, lá aluno não ofende nem agride professor, lá quem quer estudar consegue estudar. Propaganda? Não, absolutamente. Apenas afirmo o que minha experiência comprovou: a criança que aprende de seus limites, de respeito ao próximo, de disciplina, de noções de autoridade e hierarquia se desenvolvem muito melhor. Disciplina, Autoridade e Hierarquia são basais para qualquer civilização. E pasmem, marxistazinhos de boutique, os alunos dessas escolas são felizes, os pais fazem fila para tentar uma vaga ao menos para um de seus pimpolhos, e eles respeitam sim a legislação vigente para menores de idade. Digo o mesmíssimo para as escolas católicas. Não me alinho muito com o catolicismo, mas não existem escolas melhores do que os caros colégios católicos, como o Santa Clara, que ilustra o texto. Maria Cristina, de quem tanto falo, estudou em um colégio católico, nem por isso virou uma carola fanática e irascível. Pelo contrário, é mais alegre e jovial do que a maioria das adolescentes.

E onde entram os pais nesta muvuca? Entram na base. De pouco adianta ter excelentes professores, uma estrutura de primeiro mundo, horário integral e tudo mais, se os panacas simplesmente dizem "Vê o que cêis faiz pra nóis aí", quando são chamados a responder pelos filhos. Se os genitores não dão a mínima, mesmo o colégio mais completo e rigoroso pouco pode fazer, além de lamentar e tentar preparar o aluno para a deficiência que fatalmente enfrentará.

Aliás, internautas que sabem ler em português, deficiência é um elogio para o que eu conheço do sistema de educação de hoje. Dão a entender que estão se lixando se o mundo desmoronar em quinze anos, por falta de animais raciocinantes para sustentá-lo. Eu vejo sim é o surgimento de uma sociedade de castas: os pensantes e os ruminantes, estes a imensa maioria. Não uma separação meramente protocolar, mas simplesmente porque os dois grupos não vão conseguir se comunicar a contento, tampouco um conseguirá viver no ambiente do outro por mais que umas horas por dia. Isto, queridos alunos, já está acontecendo. Não é uma projeção sombria e pessimista, eu já vejo isto, em menor escala, no meu cotidiano. Gente que olha para as letras dos jornais e não consegue ler mais que umas poucas palavras mais familiares, para depois se prender às imagens para compreender o que se passa. Tevê, claro. Mas só entretenimento, tanto melhor quanto mais baixo o calão, que tentar compreender os motivos não faz parte da alçada. Eu, me perdoem que gosta, descobri ontem que não consigo mais ficar além de dois minutos seguidos diante daquele aparelho, salvo raras exceções. Sim, isto pode parecer pedante, que estou me colocando deliberadamente na casta dos pensantes, mas se assim não fosse eu não estaria levantando a questão.

Quando D'us me conceder o direito à paternidade, que esperneiem os pedabobos alienados, mas educarei meus petizes em casa, com todo o rigor e todo o carinho de que necessita uma criança. Decerto que enfrentarão alguma impopularidade, mas não deixarei meus rebentos à mercê da estupidificação massificada em que se transformaram as escolas. Isto, lamento, provavelmente inclui a dos teus filhos.

24/01/2009

Eu não vi. Já acabou?

Eu não vi a última novela. Não que não tenha dado uma olhada para ver se valia a minha audiência, eu dei uma olhada e por isso decidi que não valia. Não vou entrar em pormenores, mas aquela trama da Clara com a Dounatelha me soou um grande engodo.
Eu não vi o bbb. O BB já me dá dores de cabeças que bastam, não preciso de mais um "b", nem de gente tentando me convencer de que eu preciso aumentar a conta telephônica para ouvir o que eles falam. As maledicências que eu leio aqui me dão uma idéia do que não estou perdendo, de um modo muito mais aprazível do que ter que assistir.

Eu não revi Pantanal, não vi nem quando era na Manchete. Bicho, eu acordo cedo, trabalho num lugar melindroso com uma responsabilidade muitas vezes maior do que o meu salário. Eu saio de casa às 06h, tenho que dormir cedo e acordar com a cuca fresca.

Também não vi a noveleca dos mutantes mutretas, nem programas onde famílias expõe seus podres para o mundo inteiro. Meus neurônios ameaçaram executar uma apoptose coletiva se eu o fizesse. Ainda se tivessem baseado a novela nos quadrinhos da Marvel.

Eu não vi as notícias do marido daquela actriz veterana, que foi suicidado. Da mesma forma como não vejo notícias de gente que tenta anunciar desesperadamente que fez uma lipo na semana passada, mas ninguém soube.

Eu não vi nenhum especial de natal de nenhuma rede. O fim de ano não foi bom para mim e quase tudo o que mostram eu sei de cór e salteado, só trocaram os artistas por canastrões famosos. Nem tem mais Zé Colméia ou a turma do Charlie Brown e Snoopy.

Eu não vi o último lata velha. Aliás, faz tempo que não vejo. Tudo ficou tão repetitivo e as transformações me parecem tão tolas (como portas com abertura canivete em um Del Rey) que não merece mais minha audiência. Mas sou minoria, eu não conto. Fala, injeção eletrônica e outras cousas úteis não poderiam entrar no cardápio?

Todo mundo comenta do casamento da Sandy, mas eu não quero saber, mas o povo insiste em me contar mesmo assim. Eu não vi, não me interessa. Disseram até que o noivo blogou em plena lua de mel, o que me arrancou risos, mas simplesmente não me interessa.

Algumas emissoras demitiram em massa, no último Dezembro. Disso fiquei sabendo, mas ninguém noticiou.

A General Motors do Brasil está, praticamente, sustentando a matriz. Disso fiquei sabendo, mas ninguém comenta, mesmo sabendo que o assunto me interessa.

Uma tradicional fábrica de desinfetantes em Goiás fechou, mas agora está fabricando clandestinamente, passou a perna nos funcionários e tudo mais. Eu trabalho em uma Vigilância Sanitária, sei disso, mas ninguém fala a respeito. Deve ser porque água sanitária não rebola na tevê.

Eu não quero ofender, mas às vezes é inevitável. Quem me conhece sabe o quanto eu sou alérgico a futilidades, principalmente futilidades vendidas agressivamente como essenciais. O simples facto de eu dizer que não gosto de ver um monte de gente à toa, dentro de um cenário, fingindo naturalidade e sendo chamada de heróis por um sujeito suspeito, já me rendeu reprimendas ríspidas, quase uma agressão física. A pessoa se sentiu ofendida. E o que é pior, essa pessoa é minha mãe.

Eu não vi o último jogo do brasileirão. Já começou, não começou? Não? Bah! Tenho preocupações reais numa vida real, com conseqüências reais para me ocupar.

Também não vi o desfile das escolas de samba. Ver camarote de celebridades? Vinhetas irritantes a interromper o desfile? Uma certa emissora condenando ao aninomato quem não se curva às suas vontades? Comentários que poderiam não ter sido feitos? Competição de agremiações? Uma mini série baseada nos velhos bailes me despertaria alguma atenção. Mas um evento que se transformou em uma reles vitrine de exibicionismo de famosos (não para mim) e de gente que quer posar pelada, eu passo. Como assim, ainda vai começar?

Eu estou ficando velho, rabugento, ranzinza. Mas eu conquistei o direito de ser rabugento e ranzinza, cuidando de assuntos que realmente me fazem a diferença. Como estudar bicicletas de bambu.

17/01/2009

Não sou ela; 3 de 3

O Responsável pelo albergue chega à casa dos Aldrin Foster. Quer falar com os três, mas principalmente com Audrey. Foco na garota de salopete xadrez e blusa branca. Entram e vão directo ao assunto, o albergue tem conseguido mais doações desde que ela saiu nas páginas dos jornais e na tevê. Ele é franco, avisa do mundo que é o das celebridades instantâneas, de toda a sujeira e da nojeira que ele mesmo viu pessoalmente, há mais de dez anos e trinta quilos atrás...

- É uma fogueira de vaidades como não existe em nenhum outro ramo, minha filha, a não ser na política. Mas graças à sua exposição, nossas despensas estão abarrotadas, nossas contas estão rigorosamente em dia, enfim. Seria muito bom para a nossa causa se você alçasse esse vôo.

- Eu compreendo, mas é que eu não tenho mesmo nenhuma queda pela fama. Não pense o senhor que eu fico presa à minha casa, eu estou aqui de livre arbítrio. Sou caseira, não gosto de baladas, de aparecer e de todas essas coisas que as pessoas se matam (literalmente) para fazer. Já pensei em ser freira, só mudei de idéia por causa do albergue...

Aos pais isso alivia, mas eles contam da conversa que tiveram com sua avó, sua preocupação com o futuro e tudo mais. A convencem a fazer uma sessão de photos para divulgar os trabalho do albergue. No dia seguinte ela está no estúdio improvisado, com pantalonas verde escuro e uma camisa curta de gola careca. Dão-lhe outras roupas para o trabalho. Ela consegue disfarçar o desconforto. Em uma semana está dando uma entrevista na tevê, em prol do albergue. Em um mês vira garota-propaganda da loja onde trabalha. Em um ano é uma celebridade que, ao contrário da imensa maioria, tem muito conteúdo a oferecer. Não gosta, mas tira de letra. Sempre ressalta, porém, que não é Audrey Hepburn e não faz questão de sair de Rochester, sua amada "Rochacha", como lhe disse uma Audrey brasileira. Esta, com cara de psicóloga e uma longa lista de micos pagos em público e em casa, costuma visitar a homônima para tricotar e lhe acalmar os ânimos, quando inventam alguma para vender revistas bobas. Mas o albergue está de vento em popa, até colaborando com creches e asilos. É o que motiva a moçoila. Se lhe perguntam por que ainda não tem uma filmagem acertada, responde...

- Eu não sou Audrey Hepburn. Estou neste ramo por causa do nosso albergue, não para estrelar um filme.

- É tão estranho ouvir isso! Quer dizer, você tem idéia da fila de artistas esperando por uma primeira chance? É muita gente quase implorando para ter um papel e você não se importa!

- Este é o sonho deles, não o meu.

Já não dá para levar a vida sossegada de antes, é pelos necessitados que expõe sua imagem. De um deles, abandonado pelos filhos, ajuda a cuidar e fazer curativos. Muitos não acreditam que ela seja tão certinha, acreditam que ninguém gosta de certinhos e a pose é um artifício para vender o peixe. Embora não saiba, câmeras a seguem o dia inteiro à espera de um deslize. Só passam raiva. A educação austera moldou toda a personalidade de Audrey. Plano geral. Ela ainda anda naquele Caprice 1980, que já ficou marcado, todos sabem que ela está chegando quando o vêem, embora já lhe tenham oferecido carros mais modernos.

Audrey vai morar com a avó. Após um mês em coma induzido, quando viu o edifício em que os pais estavam desabar. Ninguém sobreviveu. Agora precisa mais dos albergados do que eles de si. Por influência de Irvana, passa a aceitar convites para comerciais e se torna de facto uma estrela. A imprensa comemora intimamente as mortes de Kate e Orson, por conta disso. Também por sugestão da avó, se filia à fundação da diva, o que dá um fôlego grande ao albergue. Audrey trabalha às vezes dezessete horas por dia, encontra consolo e esperanças no trabalho. A avó a obriga a tirar uma semana de férias pelo menos uma vez por ano, longe dos holofotes, mas mesmo de férias se ocupa com algo, como cantar, compor, qualquer cousa que lhe acalente o coração. Reclusão não lhe passa pela cabeça, mas os motivos para sair ficaram menores, além do quê se empenha de corpo e alma naquilo a que se propôs. Cinco anos depois da tragédia, Audrey está sozinha. Se muda para um pequeno apartamento ao lado do albergue. O glamour que só público vê, não reflete a vida franciscana que passou a levar. Só tem aos albergados para cuidar, ganha dezenas de vezes mais do que precisa para se manter, não tem o mínimo interesse pelos excessos do americano típico. A imprensa explora esse estilo de vida, programas de auditório ganham fortunas com o patrocínio a debates televisionados sobre o tema.

Audrey atende à porta, usando um longo vestido azul claro de gola em "V". Vê aquele homem de pólo branca e calças pretas. Meio detrás da porta, olha para ele longamente, amolecendo aos poucos. Close no rosto, no brilho dos olhos, nos lábios reticentes em soltar algo. O presidente da fundação em que se transformou o albergue apresenta-lhe o filho, seu braço direito. Mas vê que precisa ficar calado até os dois saírem do transe. A moça pede que entrem, diz que há um bolo recém assado, biscoitos no armário, suco na geladeira, almofadas aos montes entre as poltronas. O que mais dizer? Se casam pouco antes do natal, no natal seguinte ela já amamenta uma menina. Não pretende lhe dar uma educação tão austera, acha que não cabe, mesmo assim será uma mãe austera. Leva a pequena tanto ao albergue quanto às filmagens dos comerciais. O apoio de um marido afim facilitou seu trabalho, adoçou as lembranças da família e a fez aceitar o primeiro papel no cinema. Os repórteres têm a coletiva que pediram de joelhos, literalmente...

- Então foi Edward quem a convenceu a ser actriz?

- Sim, foi. Ele me ajudou a planejar tudo de modo que não comprometa a minha vida lá fora.

- Seus pais apoiariam sua carreira?

- Pergunte a eles. Mas não teriam nada contra um trabalho honesto. A educação que me deram foi um excesso de zelo, não tinham ressalvas contra o cinema.

- Vai adoptar o sobrenome artístico Hepburn?

- Seria uma falta de respeito. De jeito nenhum. Podem me chamar de Audrey Foster.

A coletiva dura o tempo programado e nenhum segundo a mais. Agora ela vai ensaiar seu papel, para depois voltar para casa e se dedicar à família. Este sim, era e ainda é o seu sonho. Sabe que as comparações de agora em diante, com a fidalga, serão contínuas. Mas foram eles que pediram pelo seu ingresso no cinema.