Já não se importa se ganha pouco, se mora mal, se deturpam tudo o que diz. Só suspira.
O ar que entra pela janela é frio, mas não muito. Decide sair. Quem tem medo de assaltos? Já teve há até uns meses, mas todos os dias dezenas de pessoas são agredidas por marginais, às vezes por nada, os jornais são provas disso. Mas não conhece um só que tenha sido vítima de algo pior, então a possibilidade de ser... Ah, ao inferno! Se tiver que morrer assassinado e não sair, alguém entra na casa pretextando roubar o computador. Sai sem o celular mesmo. Nem sabe se ainda tem carga, faz quase uma semana que não chama nem liga. Mais um suspiro e sai.
Fazia tempo que não saía depois das vinte e duas horas. Mais tempo do que pode se lembrar. Só se lembra das luzes de natal, que via na infância. Hoje só por televisão, que também está há dias sem funcionar. Não está quebrada, só não quer ligar mesmo. Quer ficar realmente só e a solidão do apartamento estava se tornando uma companhia incômoda.
Engraçado ver tanta gente sorrindo e namorando! Pelo que ouvia, todos deveriam estar encolhidos e mantendo, no mínimo, um metro de distância da criatura mais próxima. Mas essa alegria vai desaparecendo, ele imerge em sua solidão voluntária e continua andando. Sem rumo, sem horário, sem compromissos, só segue.
Faz tempo que não namora. Também faz tempo que não tem interesse em namoro. Na verdade faz tempo que não se interessa por cousa alguma.
Já cogitou o suicídio. Mas a razão, mesmo sua razão atéia, o chamou para um canto e colocou tudo em pratos limpos. Ainda que morresse dormindo e fosse para o vazio inexistencial, seu sofrimento não acabaria. Mesmo inconsciente o corpo transmitiria de alguma forma a agonia da morte prematura e, sendo a última cousa a sentir, caso não haja mesmo uma vida pós-túmulo, essa agonia seria eterna, pois nada mais haveria além dela. Não, a agonia que sente já é horrível o bastante. Quer ter a chance de acabar com ela, o que por agora não consegue.
Aha! Beleza! Começou a chover! E daí? Só está com documentos e um cartão de crédito e débito, é tudo plástico, não vai estragar.
A chuva ensopa aos poucos sua roupa de tiozão. Calças pretas (de alfaiate) com riscas-de-giz, camisa pólo branca com um bolso, sapatos de amarrar e meias no mesmo tom de preto. Deixa de se importar quando a cueca também ensopa e os cabelos conspiram com o temporal. Segue. É tudo matéria morta mesmo, não vai gripar. Se o corpo gripar, então consegue o tempo de que precisa para meditar sobre sua vida. Nem sente o banho de lama que um ônibus lhe dá. Até porque o aguaceiro limpa tudo depressa.
Se olhasse ao redor, não saberia dizer onde está, mas com certeza nem se importaria. Não há marginais agindo sob o temporal, não há gente apressada atropelando sob o temporal, não há ninguém além dele andando no meio da rua, feito um maluco, sob o temporal. As luzes dos postes são suas únicas testemunhas. Testemunhas arrogantes, diga-se de passagem.
Há uma ameaça de demissão. Duas décadas dedicadas àquela empresa e um menininho, um fedelho ainda cheirando a cocô, vem acusá-lo de atrapalhar a companhia. Pois amanhã se demite. Chega meia hora mais cedo, vai ao departamento de recursos humanos e volta para casa. Os relatórios acumulados? O directorzinho "emebeático" não se acha o suprassumo da humanidade? Então que se vire. Aquele salário já não paga há anos as agruras que lhe custa. Quando vai ao banco, em vez de extrato, o caixa electrônico lhe dá um atestado de pobreza. Não foi por falta de lutar, esse remorso ele não leva ao túmulo. Tudo o que estava ao seu alcance, tudo o que poderia ter feito para subir na vida, ele fez. Exceto usar os outros como escada. Talvez tenha sido isso.
As pessoas não gostam de gente boa e honesta, chegou a esta conclusão faz alguns meses. Todos reclamam de todos, da corrupção, da má educação, do jeitinho maldito, da desconsideração dos outros para com o próximo e tudo mais. Mas o que acontece quando aparece um homem honesto? É trouxa. Sai daqui, perdedor! Homem bom só serve para levar chifres e pagar contas. Todos querem que o mundo tenha gente honesta, mas a uma distância mínima de cem metros. Honestidade incomoda, faz os podres aparecerem.
Há alguém ouvindo "Solitaire" por Karen Carpenter. Então ele pára para ouvir. Sua vida é mais ou menos isso, só que não quer jogar sujo. Sente-se em um filme noir branco-e-preto. Mas nenhuma estrela de cinema vai aparecer na chuva para abraçá-lo. Na verdade, nem precisaria ser famosa, nem mesmo popular. Nem sabe do que precisa, mas sabe que tem a ver com aquela música.
Vê uma movimentação logo à frente e por ela é visto. Nem tinha notado o fim da chuva, talvez por ainda estar ensopado feito macarronada da nonna. Uma moça se aproxima e oferece uma toalha. Não vê seu rosto, mas naquela momento é a mulher mais linda do mundo, simplesmente porque se importou consigo. O grupo o acolhe e lhe dá uma sopa. É só o que têm, mas ele nem tinha fome, come por gratidão. Vê gente miserável sendo servida sob o viaduto, provavelmente aquela é a única refeição de muitos deles, naquele dia findouro. Nem sabe como, mas aquela moça vai puxando conversa e ele acaba falando tudo, até o que não sabia que tinha a falar. Também não sabendo como, acaba se enturmando e ajudando. Afinal não é um desabrigado. Pode se manter no apartamento por uns três meses até conseguir outro emprego, pois o actual está definitivamente descartado de sua vida. Ouve um "Obrigado, meu filho" de uma boca banguela, não sabe dizer se é idosa ou idoso, sabe que foi o primeiro agradecimento que recebeu em anos. Novamente alguém toca Carpenters, com "Sing". Aprendeu inglês suficiente para saber do que a música trata e canta junto.
Mas que diabos! Saiu na esperança de desaparecer e deixar de existir, agora está feliz da vida! Pô, Deus! Ele nem acredita em Vós e vais se metendo assim na vida dele? O que quereis? Que ele seja feliz? Estais agora fazendo que confie em gente religiosa? Justo quem mais o decepcionou? Para quê? Ele tem muito medo de se decepcionar de novo! As pessoas foram muito cruéis com ele! O usaram como apoio e o descartaram assim que se reergueram!
Porque Meu filho trouxe até Mim a cruz que lhe pedi, ainda que sob provações torpes que não coloquei em seus ombros, Eu lhe dou a Minha Paz. E um emprego novo, pois também de pão vive o homem.
Ah, o raiar do Sol. Desde os dezoito anos que não via o Sol nascer! O Sol nasceu.
10/06/2008
25/05/2008
O Herói fala

Antes de mais nada, quero que não entendam este desabafo como ameaça (não sou dado às bravatas) nem choramingo (prantos são para quem os merece) de minha parte. Falo pelas mãos do blogueiro que me emprestou sua consciência na dimensão de vocês.
Meus pais adoptivos são verdadeiros deuses. Eles, bem mais do que eu, merecem ser chamados de heróis. Sou um extraterrestre, mesmo assim souberam me fazer sentir um humano normal, me valer das dificuldades humanas para resolver meus problemas e os dos próximos, pelo que minhas faculdades alienígenas só são usadas quando realmente necessário. Aprendi a ser humilde. Poderia ter dominado o planeta de vocês sem dificuldade, o que uma educação equivocada ou negligente teria causado. Mas esses dois terráqueos conseguem ser mais fortes do que eu, basta que digam "sente-se e ouça" para me neutralizarem completamente, ao passo que nem os buracos negros resistem à minha força física. Eles sim, mereceriam uma série e uma revista só para eles, para que ensinassem as pessoas a educar seus rebentos. E é por esta educação exemplar, que beira a perfeição, que desabafarei agora, pois a mim ninguém atinge. Eles tornaram meu carácter mais invulnerável do que meu corpo, mas atingiram as duas pessoas que mais amo no universo, isso sim feriu meu coração. Sim, eu tenho e ele está ferido.
Eu nunca fui contra o progresso, as evoluções sociais e a passagem do tempo. Já tenho sete décadas de criação e minha maturidade me permitiria aceitar até o fim das minhas publicações. Pequenas alterações nos meus trajes, Louis ficou com um gênio ainda pior do que nas primeiras estórias e eu só me apaixonei ainda mais por ela. Um conselho aos mais moços, prefiram as bravas, como a Esther da publicação lá em baixo, são as melhores esposas e mães. Moscas mortas e submissas são um passaporte para o adultério.
Agora me digam, como com uma educação assim, eu poderia me corromper? Tendo me atirado uma série de vezes à morte certa, encarando a kriptonita e estrelas vermelhas, eu teria medo da dor? Aprendi a me virar como se fosse um humano comum, teria então medo de perder minhas faculdades especiais? Meus pais genéticos me salvaram sem pensar duas vezes e sem poderem se salvar, meus pais adoptivos me ensinaram a amar o trabalho honesto e tudo o que ele representa, eu jamais desonraria a doação que esses quatros santos me fizeram. Por isso não posso aceitar que um burocratazinho sem talento venha manchar a reputação que eu levei décadas para construir. Essa reputação deixou de ser minha quando o primeiro garoto, ainda nos anos 1930, começou a brincar de um herói que é uma pessoa normal durante a maior parte do tempo. Meu nome é Clark, o herói é um alter ego que protege minha vida privada, é isso que mais procuro ensinar: A pessoa é que faz o título. O resto é ilusão.
Se antes era honesto porque gostava, desde então sou também por obrigação, tenho satisfações a dar para quem se espelha em mim. E eu gosto disso, pois deixo de ser um simples entretenimento e passo a ter utilidade na dimensão de vocês. Isso vale mais do que todas as riquezas do universo.
Sim, na época da minha criação as crianças eram mais inocentes. Mas não se iludam, não eram estúpidas, percebiam o mundo ao seu redor, eram bastante espertas, em certos pontos até mais que as de hoje. É compreensível que linguagens e hábitos dos quadrinhos acompanhem a, perdoem o neologismo, espertificação precoce das crianças. Natural que tabus sejam abordados e que fique claro que ninguém é perfeito, não havendo motivos para que eu seja. Mas há um abismo entre ser imperfeito e ser medíocre. Estão mediocrificando a minha imagem.
Inventaram um marginal espacial que fizeram dar uma surra em "mim". Pela força ninguém me alcança. Pode parecer uma declaração arrogante, mas falsa modéstia não é o meu forte. Se o mal tivesse metade da força do bem, todos os filmes de terror que vocês já viram seriam brincadeiras de crianças. Se o mal triunfa em algum lugar, é porque os cidadãos de bem se omitem, quando agem a fraqueza dos maus se revela e os derrota. Todas as vezes em que a voz do cidadão honesto se levantou em massa, todas as hordas da corrupção se calaram, tremendo nas bases, pois elas sabem que serão massacradas se um dia enfrentarem vocês abertamente. O que esses idiotas estão fazendo é fomentar o louvor ao banditismo, a desesperança e a banalização das pessoas como coisas. Isso é hediondo! Estão destruindo sonhos, que são o que separa as pessoas da insanidade e a sociedade da barbárie. Uma pessoa sem esperanças não tem motivos nem ânimo para trabalhar por si mesma, é presa fácil para a influência dos vilões e seus mentores. Torna-se um bandido na primeira oportunidade, ainda que não tenha tendências sociopatas.
Em nome de uma falsa modernidade embruteceram o meu personagem, sendo que meus pais sempre me ensinaram (com sucesso) a ser polido com as pessoas, o que não significa que eu deva ser um bestalhão que coloca a cara como alvo de tortas. Pelo contrário, Dark Side conheceu meu aborrecimento e se arrependeu de tê-lo provocado. Não gostei do que fiz, mas farei de novo sempre que for necessário. Isso não é ser ultrapassado. Ser ultrapassado é usar um MP4 e se comportar como um huno em sociedade, dirigir um carro com piloto automático via satélite e jogar no bueiro as leis de trânsito como um medieval errante, chamar a atenção para os desmandos alheios e pilhar na especulação como se estivesse negociando escravos. Meus amigos, esse mundo que tentam vender a vocês só é moderno na aparência, é uma tinta brilhante, mas que se descasca ao menor toque. "Com licença", "Por gentileza", "Me desculpe" e "Disponha" não são cousas que devam ser esquecidas.
Há muitos hábitos bons da minha época de novato, que seriam de grande utilidade para o mundo da internet com vídeos. Eu já baixei um sem-número de músicas e episódios, sempre depositando os direitos de quem trabalhou por eles. Mas não querem que vocês façam isso. Aliás, querem, mas só com os gibis (gostei desse nome, melhor do que "comics") e cacarias que eles produzem. Com os outros eles mais querem que vocês tirem o escalpo, para poderem depois alegar "Todo mundo faz, então eu também posso". Não têm talento senão para arrancar seus suados dólares (ou reais, ou pesos, ou euros...) sem dar a mínima para a origem do dinheiro. Predação é um nome feio para os eufemismos politicamente correctos que inventam para seus actos, mas é o que fazem mesmo sabendo que o predado acaba. Acreditem, não me importo com a tanguinha roxa do último filme com o meu alter ego, embora prefira o velho calção vermelho. O que não quero é que, algum dia, um rapaz escreva uma carta dizendo que é meu fã e por isso decidiu ficar covarde e palermão "igual a mim". Se isso acontecer eu ficarei realmente furioso.
Há muitos hábitos bons da minha época de novato, que seriam de grande utilidade para o mundo da internet com vídeos. Eu já baixei um sem-número de músicas e episódios, sempre depositando os direitos de quem trabalhou por eles. Mas não querem que vocês façam isso. Aliás, querem, mas só com os gibis (gostei desse nome, melhor do que "comics") e cacarias que eles produzem. Com os outros eles mais querem que vocês tirem o escalpo, para poderem depois alegar "Todo mundo faz, então eu também posso". Não têm talento senão para arrancar seus suados dólares (ou reais, ou pesos, ou euros...) sem dar a mínima para a origem do dinheiro. Predação é um nome feio para os eufemismos politicamente correctos que inventam para seus actos, mas é o que fazem mesmo sabendo que o predado acaba. Acreditem, não me importo com a tanguinha roxa do último filme com o meu alter ego, embora prefira o velho calção vermelho. O que não quero é que, algum dia, um rapaz escreva uma carta dizendo que é meu fã e por isso decidiu ficar covarde e palermão "igual a mim". Se isso acontecer eu ficarei realmente furioso.
Eu sou um homem honesto, procuro ser gentil e prestativo, relevo as pequenas ofensas do dia a dia, cedo com prazer o táxi para a mulher com sacolas de compras. Não fumo, pois o cigarro dá prazer às custas do vício, e eu sou invulnerável. Nenhuma substância impressiona meu cérebro, apenas percebo o (no caso, mau) odor da fumaça por sinais eléctricos dos neurônios. Bebo porque uma bebida bem destilada tem um sabor refinado, mas não me causa prazer além do paladar. Gosto da vida tranqüila que levo. A maior parte do tempo eu nem lembro que existem ameaças, passam-se meses sem que eu precise sequer voar. Vivo como vocês. Portanto não é a um herói que estão ofendendo, é ao cidadão comum, que resiste à tentação do ganho ilícito e quer que o próximo também tenha uma subsistência digna. Ao contrário do meu amigo Batman, um herói de primeira linha que se disfarça de Bruce Wayne, eu sou Clark Kent e me disfarço de Super Homem para a maior parte dos salvamentos, pois às vezes posso fazê-los sem nem precisar sair das minhas roupas comuns. As aventuras que eu avalizava eram uma amostra pequena do meu cotidiano. Se estivéssemos na mesma dimensão, vocês passariam por mim sem se darem conta, a não ser pelo meu tamanho. O porte atlético é comum aos Kent e me pareço muito com eles. Tenho um bom carro, não é luxuoso nem vai a trezentos por hora, mas satisfaz às necessidades de minha família.
Estão vendo? Não sou um ser de outro mundo, só de outra dimensão. Pois adoptei a Terra como meu lar e aqui quero criar meus filhos, ensinando-os o que meus pais me ensinaram, mostrando que a vida como humano é muito mais divertida do que o pedestal dos heróis. Nisto os roteiristas de talento se baseavam para escrever minhas aventuras, nisto eu assentei toda a minha reputação. E são pessoas que fazem e deixam de fazer. Não existe mercado, nem moda, nem tendência, nem outra explicação canhestra para colocar a culpa do que acontece com o mundo. Só existem as pessoas, e as pessoas têm coração, são melhores e mais sensíveis do que fazem parecer, mas estão com medo de se revelarem.
Topo encerrar minha carreira nos gibis, se isso significar o fim do louvou ao que não presta. Se isso significar que vocês passarão a olhar para o seu semelhante como semelhante, não como "o outro", que é o que eu sempre procurei ensinar nas entrelinhas de minhas aventuras. Se vocês não compram, eles terão que mudar para não fecharem as portas. Podem brincar à vontade: Supermongo, Supersucker, Supermané, Super-ado; eu não me importo. É sabido que a sátira neste nível inverte a realidade, apenas para fazer rir. Eu rio.
Topo encerrar minha carreira nos gibis, se isso significar o fim do louvou ao que não presta. Se isso significar que vocês passarão a olhar para o seu semelhante como semelhante, não como "o outro", que é o que eu sempre procurei ensinar nas entrelinhas de minhas aventuras. Se vocês não compram, eles terão que mudar para não fecharem as portas. Podem brincar à vontade: Supermongo, Supersucker, Supermané, Super-ado; eu não me importo. É sabido que a sátira neste nível inverte a realidade, apenas para fazer rir. Eu rio.
Tirar qualidades dos heróis não ajuda senão aos que ganham com o ilícito, com o tráfico de armas, de drogas e com o escravagismo. Gostaria muito que isso voltasse a ser motivo para as páginas policiais e não as colunas sociais e revistas de artistas.
Gostaria muito de voltar a ouvir, sem o disfarce azul e vermelho, uma criança dizer "Para o alto e avante".
Gostaria muito de voltar a ouvir, sem o disfarce azul e vermelho, uma criança dizer "Para o alto e avante".
16/05/2008
Cousas do Brasil: Pumpkin City

Este meme não é irmão da Mymi, mas também vale à pena. Falarei de minha cidade natal, onde (de uma colônia espiritual muito confortável) me jogaram sem dó nem piedade: Rio Verde. A convite da amiga Andréa Motta.
Logo nas proximidades da cidade, a região já mostra sua veia cômica. A uns oitenta quilômetros da entrada, fica a cidade de Santo Antônio da Barra, mais conhecida como Pito Aceso (!), nome pelo qual todos os moradores da região a chamam. Alguns quilômetros à frente temos o povoado de Santa Cruz das Lajes, mais conhecido pelo nome popular: Levanta Saia (!). Por que? Dizem que ele surgiu ao redor de uma casa de tolerância... E o Pito Acesinho logo atrás.
Passei alguns anos sem visitar Rio Verde e, quando fui, vi uma extensão muito grande avançando para o norte. Minha Pumpkin City tinha crescido. E continua crescendo. No fim da década de 1980 os sulistas começaram a invadir a cidade. Ficou esquisito para os meus conterrâneos verem aqueles gaúchos quilométricos andando pelas ruas, abaixando as cabeças para não se enroscarem nos fios da rede eléctrica. Mas cordial (no melhor sentido) como é, o rioverdense não deixou de acolher bem aquela gente, que precedeu a onda de paulistas, cariocassssh, catarinenses e outros bichos esquisitos.
Uma advertência para quem, ao final deste texto, quiser visitar a cidade: Se não sabes brincar, não vá. Rioverdense é gozador por natureza. Se não apelar, o apelido pega; se apelar, vira nome. Adão Pinguinha, Paulo Doido, Paulo Funfun, Torradeira e Beiçuda são os mais carinhosos. Avisados? Então continuemos.
O cognome Pumpkin City, versão modernosa para Riverde das Abobra, foi dado na época em que o município era grande productor de abóboras das mais diversas espécies. Hoje só não planta pequi, porque só agora as mudas comercialmente viáveis para a agricultura estão sendo finalizadas nos laboratórios da Embrapa, mas é questão de tempo. Gado então, ainda mais com a gauchada instalada e bem à vontade, é o que não falta. A cidade está mais cheia de chifrudos do que na minha época de menino... Ehê! Não vá pensar besteira, sô! Estou falando dos bovinos da pecuária, os domésticos são outra história, não me meto em cornos alheios.
Após o choque de um desenvolvimento subito e acentuado, acompanhado da completa reformulação do perfil do cidadão local, o povo está se acostumando com a nova cidade, pois há bem pouco tempo Rio Verde ainda era provinciana, calçamento era para poucas ruas e os atoleiros proliferavam a cada chuvisco. Além do crescimento demográphico e da modernização meio forçada, os abobrenses ganharam uma cidade com um charme meio europeu. Casas dos anos 1920 até 1980 dividem espaço com edifícios arrojados. As áreas verdes dão, de uma vista aérea, a impressão de que o asfalto ainda não chegou. Jardins em frente às casas são quase uma instituição que delicia os olhos, o rioverdense colabora preferindo a grade ao muro. E mesmo com tanta árvore e tanto asfalto a poeira corre solta. É poeira vermelha, daquela que tinge a roupa e fica, se não houver uma lavagem rápida e bem feita. Trabalhar com roupa branca é uma missão ingrata, estará rubra antes do fim do dia, pois a cidade cresceu ao redor de fazendas, e o clima propício permite que se trabalhe o ano todo. Colheu cana, planta abóbora, depois milho, descansa (exceto a poeira), vai um feijãozinho básico, um pouco de soja, girassol e a prole do quimbim. Fora isso, é divertido. A humidade relativa do ar é boa e bem regular, os muitos aclives e declives proporcionam um bom condicionamento físico, mesmo andando pouco. O Calçadão da Nascimento é cheio de lojinhas charmosas e foi feito privilegiando o pedestre, deixando uma só pista para os carros. Sempre há uma festa agendada, sempre há um Fusquinha envenenado e customizado para ser sorteado em algum mês do ano, sempre há um rioverdense por nascer nove meses após cada festinha dessas. Fazer o quê? O povo não previne.
Minha família era conhecida como Queixada. Era gente brava, temida, até perigosa. Conta a minha avó que, certa feita, uma sirigaita começou a dar em cima dos homens da família. As mulheres se reuniram e deram um ultimato à dita cuja, que fez troça da ameaça. Quem tiver, ponha a trilha de "O Poderoso Chefão" que a cousa ficou feita. Despiram-na, seguraram-na e encheram-lhe a pequiquita de pimenta até o fundo. A infeliz correu desesperada e pelada pela cidade, aos gritos, desaparecendo depois de ter que retirar tudo em uma cirurgia, do útero até o clítoris. Já os Queixadas de pitos acesos, eu estranhava, quando criança, ver homens não tão velhos com tantos dentes faltando. Depois que meu avô também levou um pontapé e caiu na cidade, a história começou a mudar. Homem sábio, embora meio irresponsável, calmo e cheio de autoridade, conseguiu domar a índole genocida da família. Daquela época só ficou a fama de gozação, que deu origem a Cabeção, Farofa, Jacaré e outros apelidozinhos tão fofinhos. Mas é bom não folgar.
Conta também que, na época da Segunda Grande Guerra, houve uma epidemia de uma doença que matou quase todos os habitantes. Dos que não foram embora, só restou o meu avô Joaquim, o sêo Quimbinha, que enterrou o último. O moço ficou sozinho na cidade até o perigo passar e os outros voltarem. Pois esse mesmo moço, décadas mais tarde, aprontou uma com a família. Me pegou (pouco mais que um pacotinho ambulante) e me levou para passear, no decorrer dos doces, picolés e pipocas, ele percebeu que ficara meio tarde e, na volta, viu o desespero instalado. É, fiotes, o celular é uma praga, mas tem sua utilidade.
A rua onde minha avó ainda mora (Rua Goiânia, n° 171) já foi passagem de boiada. Hoje o desfile é de Caminhões modernos, carros Mercedes-Benz, BMW, Fusion, Ômega, picapes do tamanho de um trem; que convivem com Fuscas, Corcéis, Brasílias, Rurais, Jeeps e outros do gênero. Não há discriminação, até porque as estradinhas secundárias ainda têm muitos trechos precários e dá dó colocar um Vectra novinho para arrebentar a suspensão, melhor usar um que agüenta o tranco. Aliás, há um Corcel amarelo (1975, creio) que há até pouco tempo ainda era usado como táxi, agora é carro de passeio, o folgado.
Fora aquele "Cristo Redentor" meio cafona (não sou afeito a modismos e imitações descriteriosas) posto em frente à rodoviária, toda a cidade ficou mais bela. Supermercados modernos, mas não muito grandes, garantem uma diversidade de confeitos difícil de encontrar em Goiânia, pois o paladar do rioverdense ficou mais refinado que o do goianiense. A maior proximidade com São Paulo também ajuda, claro, são duzentos e quarenta quilômetros a menos de buracos e assaltantes para fazer o transporte. O melhor foi o nativo ter aceito bem e aderido, o que mostra que a mentalidade também evoluiu, pelo menos um pouco. Um porém, é que ele continua dirigindo como se estivesse no carro de boi. Imagine isso em uma carroça, forte, mas muito lenta; agora imagine isso em um carro que passa dos cento e vinte por hora sem que o motorista perceba. Atravessar ruas em Rio Verde pode ser uma aventura. Mas compensa, asseguro que compensa. Dá para encher vários cartões de photographia e não esgotar os motivos, especialmente o pôr do sol que, com toda aquela poeira e poucos edifícios no horizonte, é um espetáculo. E olha que nem falei do destemor das moças pelo frio, é preciso o termômetro maltrar muito para a minissaia voltar ao armário... e pouco para um pai bravo correr atrás do abusado. Apenas contemplem, por obséquio. Quem sabe uma gentileza e consigamos a amizade da família, que nos apresenta a mais beldades, quem sabe evolui, quem sabe em um ano ou dois os filhos nascem e o vovô coruja agradece pelos netinhos. Vamos com jeito, que melhor cousa do Brasil é o povo, mas também pode ser a pior para quem não souber se portar.
Pumpkin City recebe bem, mas vá de estômago vazio, na primeira amizade vão te enfiar comida até pelos ouvidos.
04/05/2008
Para Audrey Com Carinho

Aos cuidados de Joanna de Angelis.
Feliz aniversário, Audrey. Hoje faz setenta e nove anos que tivemos a alegria de tua companhia. Parece que foi ontem que Bruxelas guardou segredo do nascimento de um anjo. Quatro de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Nove, logo no auge dos anos loucos nasceu um ícone de elegância e serenidade.
Muitos preferem lembrar de tua partida, mas eu não gosto de celebrar prantos, celebro a vida, pois foi a lição que nos deixaste. Ela van Heemstra talvez não soubesse do legado que deu à humanidade, quando trouxe para nós aquela bolinha de carne tão fofa e dengosa. Talvez para que não se assustasse com a responsabilidade de educar um espírito tão elevado e próximo da perfeição.
Se parecias com qualquer menina dos anos 1930, embora não fosses robusta como se gostava na época. Passarias desapercebida se fosses cega, mas teus olhos arregalados e curiosos intimidavam. Por eles deixavas aparecer a tua autoridade moral, e aquela meia-franja charmosa para a esquerda não deixava dúvidas, teu estilo era e continua sendo só teu. És imitável, pois a tecnologia de hoje transforma qualquer atração do circo de horrores em uma beldade, mas ninguém te iguala. Bastaria abrir a boca para, por mais instruções que recebesse, que a mortal revelasse a abissal distância que separa uma “celebridade” de uma pessoa célebre. Pois tu e tudo o que te diz respeito merece ser celebrado.
Decerto que tua educação foi rigorosa, talvez um pouco dura demais. Mas teus pais não poderiam ter corrido o risco de falhar da lapidação de um diamante do teu quilate. Hoje sabes o quanto o conservatório te fez bem, assim como o mundo agradece teus genitores pela educação que foi a tua maior herança. Teu berço, Audrey, é a união do melhor de dois mundos; todo o refinamento aristocrático de uma Europa que já não existe, combinado com o desprendimento e amor ao próximo que raríssimas pessoas têm, mas muito raramente se encontra entre os actuais ricos.
Ah, boneca, foi tão bom! Tão bom! Tanta cousa que queria te dizer, mas as circunstâncias não me permitiram fazê-lo pessoalmente.
Dividimos o mesmo orbe por duas décadas, mas não tive a chance de apertar tua mão e trocar correspondências. Às vezes é o que mais me entristece, Audrey. Muito pior do que perder uma presença da tua estirpe é, talvez, jamais ter tido a chance de beber da fonte que te deu tamanha sabedoria. Tenho que me contentar com os respingos que ainda restam.
Sonia Gaskell e Marie Rambert nem de longe imaginavam a responsabilidade que tinham em mãos, talvez quando viram “Holanda em Sete Lições”, mas teu brilho não se revelaria antes da hora. Elegância e paciência são sinônimos. Provavelmente tremeram nas bases quando “Sauce Tartare” entrou em cartaz, pois tua presença sempre foi maior do que a cena. Se tivessem falhado, teria sido a maior falha da história das artes.
Mas a produção já quase esquecida pelo grande público deu o seu recado. Audrey Kathleen Hepburn-Ruston já não era propriedade da Europa, mas patrimônio cultural do mundo.
Curioso foi assistir “A Princesa e o Plebeu” e pensar “ela está realmente interpretando?”, afinal a tua educação foi a de uma rainha e isso era absolutamente natural para ti. “Sabrina” teve outras intérpretes, mas nenhuma foi dona da personagem como tu. E quando soltaste a voz em “Bonequinha de Luxo” em 1961! “Moon River” nunca mais teve uma voz tão bem encaixada. “My Fair Lady” deixou, entretanto, patente o gigantismo que teu corpinho esbelto escondia. Tu foste uma caipira da melhor categoria. Eu ri das mancadas convincentes, na tentativa de transformar uma pedra bruta no brilhante que tu já eras.
A tua obra cinematográphica é imensa, Audrey. As alegrias que, mesmo a custa de lágrimas, deste ao mundo não tem preço, faz o ingresso mais caro do cinema mais esnobe ficar barato. Mas nem de longe a sétima arte se compara com o teu real legado, o bom exemplo.
Ainda não era moda nem politicamente correcto se preocupar com os famintos. Na época era cousa de gente visionária sem os pés no chão. Bem, com a educação que tiveste e a tua experiência materna (Sean vai me dar razão) não há como não ter os pés no chão. Tu não só se preocupaste como, em vez de dar festinhas grã-finas para arrecadar roupinhas rasgadas, arregaçaste as mangas e foste pessoalmente ver, à margem dos riscos que corria, a realidade de perto. Pés no solo árido, um chapéu para proteger tua pele européia do sol causticante, abraços em crianças das quais a maioria queria distância, brincadeiras com uma garotada que só conhecia a vida rude e embrutecedora, que ainda hoje impera em grande parte do mundo.
Audrey, isso ainda hoje é raro! Quase ninguém faz isso! As pessoas têm medo até de adolescentes que andam a pé, imagine uma criança faminta que não tem o que perder e não fala o teu idioma! Muito marmanjo foge de medo. Mas tu foste. Tu foste! Foste bela mesmo em um cenário degradado, foste elegante mesmo sob condições de curvar a coluna, foste digna em episódios reais que fazem qualquer um chorar de culpa e desespero. Eu te amo, Audrey. Nunca trocamos uma palavra, mas tenhas certeza de que sou teu súdito leal.
Hoje é difícil alguém se esmerar em fazer uma obra artística de qualidade, ter boa vontade de deixar para a posteridade um acervo que valha à pena preservar. Apenas isso já tornaria uma pessoa célebre de verdade. Mas o teu legado é muito maior do que o cinema, o teatro, a música e qualquer quimera bonitinha que inventem. O Mestre disse “Amai ao próximo como Eu vos amei” e tu obedeceste. Sem hesitar. Sabes quanta gente com a bíblia mofando debaixo do braço faz isso? Menos gente do que as pessoas que podem e vão à África, arriscar seus pescoços milionários para fazer algo que preste. Tu foste rica, na Terra, tinhas mais do que o necessário para sobreviver. Pois era pouco. Mereceste cada centavo que ganhaste, cada viagem de férias e tudo o que uma encarnação humana não é suficiente para oferecer. Ser bilionária, para ti seria pouco. Merecias ter tido tudo.
Não vou me iludir, acreditando que és perfeita. Mas sem dúvida estás bem próxima disso. Também tenho os pés muito firmes no chão e sei o quanto isso nos torna chatos, perfeccionistas e exigentes. Mas tu soubeste direcionar para o bom caminho o que torna insociável a maioria das pessoas.
Confesso que, recluso como sou, em 1993 não me dei conta da perda que tua ascensão nos causou. Mas na época eu era cético, um bobo triste que achava que poderia deduzir toda a existência com a matemática fria e primitiva de que dispomos. Bem, as cousas mudaram. Hoje sei que sou apenas responsável pelo meu destino, não posso controlar de facto seus rumos. Mas posso usar da humildade que as surras da vida me deram e reconhecer a tristeza de, entre 1972 e 1993, jamais ter tido a mínima chance de me sentar no banco de uma praça e dar de cara contigo. Vinte e um anos praticamente desperdiçados. Tu ririas da minha seriedade e da dificuldade que tenho em perceber uma brincadeira. Da mesma forma com a qual sorrias para crianças que só conheciam o ranger de dentes e o ruído do estômago vazio. Pois na época eu precisei disso.
Mesmo assim agradeço. Já não execro a humanidade. Há pessoas seguindo os teus áureos exemplos. Ainda poucas, mas são essas pessoas que realmente importam no mundo, as outras podem se afogar em suas mesquinharias hipócritas e que não me amolem. A onu não é mais a que representavas. Está nas mãos de uma ditadura. Ainda bem que não estás mais ao alcance dela, tuas ações seriam incômodas para essa gente. O clima de optimismo e esperança não voltou, como alguns esperavam, na verdade parece mais um conto-de-fadas do que um registro histórico.
Agradeço, Audrey, do núcleo deste coração castigado, por teres aceitado a missão de descer a este mundo ainda torpe. O que fizeste é indelével e impagável. Encobre com folga os teus erros, paga e dá troco pelas tuas faltas.
O que mais posso te dizer? Feliz aniversário, Audrey. Que tua estadia no plano confortável em que se encontras ainda seja longa, apesar de perdermos com isso. Que tua próxima encarnação possa refletir ao menos um pouco da imensa luz que emanas. Que teus descendentes continuem honrando a obra que deixaste. Que tua fundação só acabe para ser transformada em instituição global. Que tuas bolsas vendam como Mustang. E que eu tenha a sorte de ainda te encontrar quando também subir, embora vá ficar em um plano ligeiramente mais baixo.
Feliz aniversário, Sabrina.
Feliz aniversário, Audrey. Hoje faz setenta e nove anos que tivemos a alegria de tua companhia. Parece que foi ontem que Bruxelas guardou segredo do nascimento de um anjo. Quatro de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Nove, logo no auge dos anos loucos nasceu um ícone de elegância e serenidade.
Muitos preferem lembrar de tua partida, mas eu não gosto de celebrar prantos, celebro a vida, pois foi a lição que nos deixaste. Ela van Heemstra talvez não soubesse do legado que deu à humanidade, quando trouxe para nós aquela bolinha de carne tão fofa e dengosa. Talvez para que não se assustasse com a responsabilidade de educar um espírito tão elevado e próximo da perfeição.
Se parecias com qualquer menina dos anos 1930, embora não fosses robusta como se gostava na época. Passarias desapercebida se fosses cega, mas teus olhos arregalados e curiosos intimidavam. Por eles deixavas aparecer a tua autoridade moral, e aquela meia-franja charmosa para a esquerda não deixava dúvidas, teu estilo era e continua sendo só teu. És imitável, pois a tecnologia de hoje transforma qualquer atração do circo de horrores em uma beldade, mas ninguém te iguala. Bastaria abrir a boca para, por mais instruções que recebesse, que a mortal revelasse a abissal distância que separa uma “celebridade” de uma pessoa célebre. Pois tu e tudo o que te diz respeito merece ser celebrado.
Decerto que tua educação foi rigorosa, talvez um pouco dura demais. Mas teus pais não poderiam ter corrido o risco de falhar da lapidação de um diamante do teu quilate. Hoje sabes o quanto o conservatório te fez bem, assim como o mundo agradece teus genitores pela educação que foi a tua maior herança. Teu berço, Audrey, é a união do melhor de dois mundos; todo o refinamento aristocrático de uma Europa que já não existe, combinado com o desprendimento e amor ao próximo que raríssimas pessoas têm, mas muito raramente se encontra entre os actuais ricos.
Ah, boneca, foi tão bom! Tão bom! Tanta cousa que queria te dizer, mas as circunstâncias não me permitiram fazê-lo pessoalmente.
Dividimos o mesmo orbe por duas décadas, mas não tive a chance de apertar tua mão e trocar correspondências. Às vezes é o que mais me entristece, Audrey. Muito pior do que perder uma presença da tua estirpe é, talvez, jamais ter tido a chance de beber da fonte que te deu tamanha sabedoria. Tenho que me contentar com os respingos que ainda restam.
Sonia Gaskell e Marie Rambert nem de longe imaginavam a responsabilidade que tinham em mãos, talvez quando viram “Holanda em Sete Lições”, mas teu brilho não se revelaria antes da hora. Elegância e paciência são sinônimos. Provavelmente tremeram nas bases quando “Sauce Tartare” entrou em cartaz, pois tua presença sempre foi maior do que a cena. Se tivessem falhado, teria sido a maior falha da história das artes.
Mas a produção já quase esquecida pelo grande público deu o seu recado. Audrey Kathleen Hepburn-Ruston já não era propriedade da Europa, mas patrimônio cultural do mundo.
Curioso foi assistir “A Princesa e o Plebeu” e pensar “ela está realmente interpretando?”, afinal a tua educação foi a de uma rainha e isso era absolutamente natural para ti. “Sabrina” teve outras intérpretes, mas nenhuma foi dona da personagem como tu. E quando soltaste a voz em “Bonequinha de Luxo” em 1961! “Moon River” nunca mais teve uma voz tão bem encaixada. “My Fair Lady” deixou, entretanto, patente o gigantismo que teu corpinho esbelto escondia. Tu foste uma caipira da melhor categoria. Eu ri das mancadas convincentes, na tentativa de transformar uma pedra bruta no brilhante que tu já eras.
A tua obra cinematográphica é imensa, Audrey. As alegrias que, mesmo a custa de lágrimas, deste ao mundo não tem preço, faz o ingresso mais caro do cinema mais esnobe ficar barato. Mas nem de longe a sétima arte se compara com o teu real legado, o bom exemplo.
Ainda não era moda nem politicamente correcto se preocupar com os famintos. Na época era cousa de gente visionária sem os pés no chão. Bem, com a educação que tiveste e a tua experiência materna (Sean vai me dar razão) não há como não ter os pés no chão. Tu não só se preocupaste como, em vez de dar festinhas grã-finas para arrecadar roupinhas rasgadas, arregaçaste as mangas e foste pessoalmente ver, à margem dos riscos que corria, a realidade de perto. Pés no solo árido, um chapéu para proteger tua pele européia do sol causticante, abraços em crianças das quais a maioria queria distância, brincadeiras com uma garotada que só conhecia a vida rude e embrutecedora, que ainda hoje impera em grande parte do mundo.
Audrey, isso ainda hoje é raro! Quase ninguém faz isso! As pessoas têm medo até de adolescentes que andam a pé, imagine uma criança faminta que não tem o que perder e não fala o teu idioma! Muito marmanjo foge de medo. Mas tu foste. Tu foste! Foste bela mesmo em um cenário degradado, foste elegante mesmo sob condições de curvar a coluna, foste digna em episódios reais que fazem qualquer um chorar de culpa e desespero. Eu te amo, Audrey. Nunca trocamos uma palavra, mas tenhas certeza de que sou teu súdito leal.
Hoje é difícil alguém se esmerar em fazer uma obra artística de qualidade, ter boa vontade de deixar para a posteridade um acervo que valha à pena preservar. Apenas isso já tornaria uma pessoa célebre de verdade. Mas o teu legado é muito maior do que o cinema, o teatro, a música e qualquer quimera bonitinha que inventem. O Mestre disse “Amai ao próximo como Eu vos amei” e tu obedeceste. Sem hesitar. Sabes quanta gente com a bíblia mofando debaixo do braço faz isso? Menos gente do que as pessoas que podem e vão à África, arriscar seus pescoços milionários para fazer algo que preste. Tu foste rica, na Terra, tinhas mais do que o necessário para sobreviver. Pois era pouco. Mereceste cada centavo que ganhaste, cada viagem de férias e tudo o que uma encarnação humana não é suficiente para oferecer. Ser bilionária, para ti seria pouco. Merecias ter tido tudo.
Não vou me iludir, acreditando que és perfeita. Mas sem dúvida estás bem próxima disso. Também tenho os pés muito firmes no chão e sei o quanto isso nos torna chatos, perfeccionistas e exigentes. Mas tu soubeste direcionar para o bom caminho o que torna insociável a maioria das pessoas.
Confesso que, recluso como sou, em 1993 não me dei conta da perda que tua ascensão nos causou. Mas na época eu era cético, um bobo triste que achava que poderia deduzir toda a existência com a matemática fria e primitiva de que dispomos. Bem, as cousas mudaram. Hoje sei que sou apenas responsável pelo meu destino, não posso controlar de facto seus rumos. Mas posso usar da humildade que as surras da vida me deram e reconhecer a tristeza de, entre 1972 e 1993, jamais ter tido a mínima chance de me sentar no banco de uma praça e dar de cara contigo. Vinte e um anos praticamente desperdiçados. Tu ririas da minha seriedade e da dificuldade que tenho em perceber uma brincadeira. Da mesma forma com a qual sorrias para crianças que só conheciam o ranger de dentes e o ruído do estômago vazio. Pois na época eu precisei disso.
Mesmo assim agradeço. Já não execro a humanidade. Há pessoas seguindo os teus áureos exemplos. Ainda poucas, mas são essas pessoas que realmente importam no mundo, as outras podem se afogar em suas mesquinharias hipócritas e que não me amolem. A onu não é mais a que representavas. Está nas mãos de uma ditadura. Ainda bem que não estás mais ao alcance dela, tuas ações seriam incômodas para essa gente. O clima de optimismo e esperança não voltou, como alguns esperavam, na verdade parece mais um conto-de-fadas do que um registro histórico.
Agradeço, Audrey, do núcleo deste coração castigado, por teres aceitado a missão de descer a este mundo ainda torpe. O que fizeste é indelével e impagável. Encobre com folga os teus erros, paga e dá troco pelas tuas faltas.
O que mais posso te dizer? Feliz aniversário, Audrey. Que tua estadia no plano confortável em que se encontras ainda seja longa, apesar de perdermos com isso. Que tua próxima encarnação possa refletir ao menos um pouco da imensa luz que emanas. Que teus descendentes continuem honrando a obra que deixaste. Que tua fundação só acabe para ser transformada em instituição global. Que tuas bolsas vendam como Mustang. E que eu tenha a sorte de ainda te encontrar quando também subir, embora vá ficar em um plano ligeiramente mais baixo.
Feliz aniversário, Sabrina.
28/03/2008
"Quem matou o carro elétrico?"

Acreditem, não foi um productor de petróleo temeroso pela falta de demanda. Há mais de uma década a indústria automobilística se tornou mais poderosa do que a de combustíveis, e o petróleo pode ser transformado em muitas cousas. O impacto de todos os carros do mundo passarem a usar baterias aumentaria a demanda por plásticos, pois baterias são pesadas e a redução de massas seria necessária. Teria que ser muito incompetente para quebrar por causa disso.
Tampouco foi a indústria de autopeças. O motor eléctrico quase não pede manutenção, é praticamente instalar e esquecer que ele existe, dispensa transmissão com escalonamentos de marchas na maioria dos carros. Mas suspensão, direção, freios, rodas, equipamentos de segurança e de conforto continuam existindo. Eles pedem manutenção, alinhamento, balanceamento, retífica, reparos, quem sabe um upgrade. Fora que os antigomobilistas jamais abandonariam seus bebedores de combustível, apesar de este se tornar muito caro, no contexto proposto.
Menos ainda uma conspiração internacional para conquistar o mundo, tudo o que um ditador não quer é um povo doente e insatisfeito. Quanto mais puro o ar e silenciosas as cidades, mais calma e saudável é a massa, portanto mais apta ao trabalho. Meio sinistra, esta parte.
"Quem matou o carro elétrico", como escandaliza a frase que infesta a internet, fomos nós. Por que? Porque não o compramos, simples assim. Se compramos, é produzido. Ponto final.
O motor eléctrico é uma maravilha. Silencioso, eficiente, quase indestructível, produz várias vezes mais torque do que o melhor motor a combustão com mesma potência. E ao contrário deste, que precisa girar rápido para gerar força, aquele gera até parado. Por isso muitas vezes dispensa marchas e reduções. Também é muito simples, praticamente é um eixo cheio de bobinas girando dentro de uma carcaça com mais bobinas, fácil de reparar, fácil de envenenar, só consome a potência mínima necessária ao funcionamento na velocidade em que estiver.
Agora, meus amigos e minhas amigas, vocês se perguntam o motivo de termos rejeitado algo tão maravilhoso. Alguma cousa há que eu não expliquei. E há.
As baterias de hoje são, praticamente, os mesmos trambolhos do fim do século XIX. Volumosas, pesadas, caras e armazenam pouca energia. Estão surgindo novas baterias, mas é só agora que elas estão surgindo e ainda são caras demais, mesmo assim ainda não são páreo para um tanque cheio de álcool e um câmbio de cinco marchas. O porém é que raramente andamos mais de oitenta quilômetros por dia, um carro eléctrico consegue facilmente exeder cem quilômetros de autonomia a cem quilômetros por hora ou mais. Devagar, na cidade, uma carga pode durar três dias ou bem mais. E a electricidade é muito barata, se comparada aos combustíveis.
"Então, tio, por que a gente não pegou essa bocada?" é o que me perguntam. Resposta: preconceito. No início do século XX os eléctricos eram grande maioria. Nessa época ainda se girava uma manivela para o carro pegar, o que literalmente quebrava braço de muito marmanjo desatento ao motor. Por isso as mulheres preferiam as baterias a usar gasolina/gás/querosene/et cétera. Também eram (e ainda são) extremamente silenciosos, em uma época em que nível de ruído e poluição não preocupavam senão poucos gatos pingados. Imaginem então, qual motorização uma mulher de posses preferiria. Vejam bem: Mulheres conseguiam dirigir com relativa tranqüilidade. Logo os machões reclamaram e iniciaram a difamação, dizendo que esses carros eram "suaves" demais para um homem de verdade, que macho tinha que fazer força, ouvir barulho e cheirar fumaça. Em um mundo tão conservador e patriarcal, isso caiu como uma bomba. É por isso que muitos idiotas retiram o silencioso do escapamento, para parecerem mais "machos". Só que a inspeção veicular já está começando, terão por força de lei que restaurar os escapamentos, ou seus veículos não sairão do pátio do Detran. Sem a demanda de motores potentes, os investimentos para novos acumuladores minguaram.
Alguém deve estar pensando que isso foi há muito tempo e já não tem valor. Pois se engana. O caso do EV-1, o mais notório de todos, foi quase a repetição. Donos de carros ruidosos e fumacentos usaram a velha mentalidade e espalharam que "carro eléctrico é para mariquinhas". A sociedade retrógrada da maior economia do mundo acatou de imediato. O EV-1 foi vendido na forma de leasing, ao fim do qual deveria ser devolvido à General Motors (isso pegou mal) e, sem a pressão popular em prol daquele carrinho bonito, elegante e arrojado, os "donos" tiveram que devolver. Foram todos destruídos em prensas. Estupidez? E como! Mas estupidez principalmente dos consumidores. Não existe indústria poderosa, organização poderosa, país poderoso, meninas super poderosas. Se nós não compramos deles, eles não têm verba para manter poder algum. Nós (eu, tu, ele, nós, vós, eles) é que damos e tiramos poderes de empresas e governos. Se tivesse havido uma comoção, o EV-1 talvez até tivesse sido descontinuado, mas estariam todos os exemplares ainda rodando, pois ninguém é besta de peitar quem lhes garante os lucros: nós. Ou seja, os electrocidas fomos nós mesmos.
Há, entretanto, uma nova chance aparecendo. Infelizmente ainda são muito caros, mas esportivos eléctricos de alto desempenho e boa autonomia já estão sendo vendidos em algumas partes do mundo desenvolvido. Tendo o triste evento ocorrido há tão pouco tempo, é bem provável que os novos modelos vinguem. Quem sabe a demanda, que é maior do que os fabricantes esperavam, possa baratear e possibilitar um carro familiar.
Mas, ei, há muitos engenheiros mecânicos de talento desempregados! Também há muita gente que não sabe onde gastar seu dinheiro, e que vive reclamando dos ônibus fumacentos e do barulho das metrópoles. Não quero dizer onde cada um deve gastar sua verba, mas se querem melhorar alguma cousa, dêem o exemplo e comecem. Freqüentemente há leilões de carros batidos, pelos quais ninguém dá mais que uma ninharia, mas que um profissional competente consegue facilmente colocar para rodar, em silêncio, sem fumaça e sem marchas. Manhã de inverno em São Joaquim? Blé! Liga a chave e acelera que ele anda, sem essa de aquecer o motor para poder dar partida. Infelizmente o banco já não me dá mais extrato, me dá atestado de pobreza, então não posso ajudar senão com alertas e idéias. Aquela caminhonete só roda na cidade, fazendo entregas? O motor está fazendo dez quilômetros por litro de lubrificante, após a sexta retífica? Tem algum para investir? Acopla um trifásico de vinte cavalos na transmissão, põe um sub-chassi com umas dez baterias e manda ver. O resultado vai surpreender, pois já há gente fazendo isso pelo mundo inteiro, inclusive no brasil.
Talvez eu esteja sendo um pouco subversivo, mas às vezes é necessário uma chacoalhada para as pessoas acordarem. Às vezes precisamos sentir falta de ar puro e silêncio, o que não falta geralmente não tem o valor reconhecido.
O que digo aqui vale não só para o tema do texto, mas para qualquer assunto. Se tu não compras, ninguém fabrica, ninguém se esforça em aperfeiçoar; seja carro, electrodoméstico, brinquedo, programa de televisão, o escambáu. Aliás, sugiro que evitem programas de tevê apelativos, que não acrescentem bulhufas. Eles alienam, gente alienada não reclama e compra o que lhes é empurrado. A retomada das pesquisas não se deu de boa vontade, a legislação contra emissões pesou na balança, agora as montadoras estão em uma corrida pela bateria eficiente, inclusive a General Motors. Alguém pressionou, e pressionou feio.
No fim das contas, ninguém perde com uma evolução. E geralmente são os ranhetas, antes contrários, os que mais gostam quando ela dá os devidos frutos.
09/03/2008
Onirautas V: As cores ocultas.

Muito tempo depois, retomo as postagens e a Onirisséia.
Há um ditado que diz "Até um macaco aprende a desenhar, a composição de uma obra de arte precisa mais que aprendizado". É o que diferencia o artista do mero ilustrador. O ilustrador copia e adapta imagens que já conhece, o artista as concebe. O ilustrador simplesmente entrega o que foi encomendado, o artista lega um tesouro à posteridade. Não vou desmerecer o trabalho árduo dos ilustradores meramente técnicos, sem eles as obras-primas ficariam confinadas aos museus e acervos de milionários, eles fazem cópias praticamente perfeitas e permitem que qualquer pessoa possa ter um Bosch na sala de estar ou no quarto.
O artista, porém, concebe a obra porque já a conhece previamente. Ele já "sonhou" com ela. Muitas vezes o que vai para a tela, ou para a pedra, está imerso na correnteza de desejos e frustrações do artista, não sendo assim o fiel do que ele queria materializar. Por isso alguns artistas de verdade têm chiliques de vez em quando, porque o mundo material jamais consegue prover os recursos necessários para a perfeita execução do trabalho. Não se enganem com aquele amarelo maravilhoso e aquele azul de tirar o fôlego. Nem chegam perto do original.
Dizem os espíritas que, além dos sete matizes que o olho orgânico consegue enxergar, existem mais vinte e cinco. Podem imaginar o que seria enxergar mais vinte e cinco matizes? É como se um cego, de uma hora para a outra, passasse a enxergar aquilo que só conhecia pelos relatos alheios.
Aqui temos, mais uma vez, a importância de se dar valor aos sonhos. Quem o faz recebe idéias muito menos comuns (posto que nada há de original sob o sol) do que os demais. Um sonho, principalmente consciente, nos revela todo o potencial que vai desde nossos instintos mais baixos, até a mais elevada de nossas virtudes. É assim que a aparentes bagunças de Picasso e Miró conseguem encantar, causar espanto, e até arrancar lágrimas dos observadores. São obras que vão muito além do que as palavras (ainda ineficientes, basta ver as guerras) não conseguem, a objectividade mecanicista ignora completamente e conseguem tocar as pessoas lá no âmago, dentro do mais profundo rincão do espírito. Esses dois foram artistas de verdade.
Quem vê as obras de Dali, pode pensar que ele só trabalhava sob efeito de alucinógenos. Não é de todo mentira, a pintura era o seu ópio e Gala, sua alucinação mais cara. Não vou entrar nos méritos de seus métodos, isso é para a imprensa ou a polícia, não me importa agora. Importa ver o que aquele homem era capaz de fazer quando sonhava acordado. Era simplesmente a imagem mais próxima possível de sua psiquê, como também a da maioria das pessoas do mundo. Ele deixava o sonho correr solto. Ilustrava, quando precisava de dinheiro, mas sua fama e fiabilidade artísticas eram firmadas pelos sonhos que ele eternizou na tela. Em vários quadros explicitava seu medo de ser vazio, o medo de perder a esposa, bem como sua religiosidade muito particular. Ele conseguiria isso se fosse meramente acadêmico, passasse horas e horas em um auditório refrigerado, discutindo as mazelas do mundo e a péssima idéia de o homem ter sido criado? Acredito que não. Guernica de Picasso mostrou isso tudo de uma só vez, sem longos e enfadonhos discursos de caráter meramente retórico.
Beleza! Então é só eu tomar um sonífero na veia que fico rico, tio Nanael? Alto lá, eu não disse isso. Há características inatas a serem levadas em conta. Essas pessoas tinham abertura para artes plásticas, não simplesmente uma portinha entreaberta, mas um terreno completamente sem muros, nos quais sonhos e emoções andavam livremente.É aí que entra a figura do ilustrador, que um bom pintor precisa ser. Ele sabe organizar ainda que sob aspecto caótico, todas as nuances que se apresentam durante o sonho e a inspiração em vigília. É o que diz aquela propaganda de pneu, potência sem controle, não é nada. Mas também não adianta ter uma banda de rodagem de fibra de carbono com silicone e usar um motorzinho de enceradeira! Controle sem potência não serve de nada. É aí que o ilustrador precisa deixar eclodir a porção, por pequena que seja, do artista que todos têm. Não que vá chegar a um George Petty, mas a qualidade dos trabalhos crescerá bastante.
Uma característica do verdadeiro artista, é dar graça e encanto aos factos cotidianos, como a obra de William Bouguereau que ilustra este texto. Notem que ele deu vida ao quadro, colocando elementos sutís que uma visão meramente mecânica deixaria passar. A criança fecha os olhos para a visão não ofuscar os outros sentidos, a moça tem um sorriso sereno e terno. Não é algo que um computador conseguiria produzir, só reproduzir. Computadores não sonham.
Quem se habitua a se deixar sonhar, consegue expressar muito melhor e com mais clareza o que sente. Algo muito importante para pessoas com travas de infância, como eu. Se essas pessoas não tivessem essa abertura, teriam perecido muito cedo, pois a força criativa acabaria por sufocá-las, em vez de sustentá-las. É como um medicamento, uma ministração equivocada pode matar em vez de curar. Sonhar não é supérfulo, ainda que em vigília. Há quem confunda sonho com ilusão, geralmente fazendo o mesmo com a fé. Falta-lhes estudar a fundo o que estão dizendo. Ilusão é a impressão de haver algo que não existe de verdade. O que faz um sonho é mostrar do modo mais acessível possível, aquilo que a pessoa não consegue ver conscientemente. Já a fé, ao contrário da contemplação passiva que muitos pensam que ela é, se trata da confiança de atingir o almejado. Até o mais egoísta e arrogante executivo tem fé no que faz, ou não vislumbraria resultados que justificassem seu trabalho.
Aqui vale novamente lembrar que procurem questionar os eventos, quando estiverem sonhando. É a diferença de sonho (ou fé) cego e sonho consciente. O cego tateia e não faz a mínima idéia do que existe ao seu redor, o consciente usa todos os sentidos para explorar o ambiente onírico, com isso sabe o que sonhou e porque sonhou. Resultando em uma obra mais elaborada, quase sempre contando com elementos simbólicos que intrigam quem vê e enriquecem o trabalho. Basta ver a Monalisa, que até hoje gera polêmina, e todos os dias aparece alguém dizendo que decifrou seu segredo definitivamente. Sim, Da Vinci dormia pouco e salpicadamente, mas ele delirava legal, bicho! Meu, o cara sacou o helicópdero, mó viagem! Gênios não precisam dormir para sonhar.
Um pequeno adendo. Fico a imaginar se Audrey Beathan, a famosa Mica Mancada, não se permitisse ter suas onirisséias. Sempre insisto para que ela escreva uma auto biographia, é certeza de que seria topo de vendas por muito tempo. O que ela pinta? Pinta o sete e borda o oito. É uma pessoa que não pode ser deste mundo, ela não foi parida, a mãe sonhou com ela e a materializou.
Muitos artistas de grande talento são sinestetas. Eu não acredito quando dizem que se trata de um fenômeno meramente neurológico, pois ver losangos de seda vermelha enquanto se está ao volante causaria muitos acidentes, se os olhos e o tato fossem os mesmos usados para eventos reais, e o cérebro é muito facilmente enganado por ilusões. Na sinestesia não há ilusões, as sensações existem mesmo. Há mais cousas nesse baú do que o manto colorido que o cobre. Acredito que só nos sonhos os sinestetas conseguem usufruir de todo o potencial de adição de sentidos de que dispõe. A visão que citei não substitui o que os olhos enxergam, é uma visão à parte, como que um terceiro olho aberto, uma segunda pele tateando, uma terceira narina independente, et cétera. Aliás, se algum sinesteta estiver lendo isto, favor comentar e dizer o que lhe parece. A vida deles, apesar de dificultada pelo excesso de informações, é bem mais rica. Não há quadro nem tinta que consiga reproduzir o que eles percebem, mais ou menos como acontece no quadro "Campo de Girassóis" de Van Gogh. Encontraram milhares de tons de amarelo naquelas flores pintadas, tudo tão bem distribuído e organizado, que não pode ter sido acidental. Van Gogh tentou a todo custo reproduzir os matizes que viu quando seu corpo dormia, obviamente em vão. Se ele era sinesteta, não se pode ter certeza, o termo é muito recente e os estudos (que não tentam "curar" a sinestesia com drogas) mais ainda.
Sonho, acompanhado da ação, não é bobagem. Não deixem substituir os teus por drogas ilegais ou de laboratórios famosos. O preço que a vida vai cobrar depois é muito mais alto do que imaginas. Agora sugiro que dê uma busca pela rede, que procure os Norman Rockwell da vida e aprecie com calma as obras, vale à pena. Depois os sonhos saberão recompensar.
25/01/2008
Profissão: Dona de Casa

Esther troca receitas e figurinhas com as outras mães, enquanto espera pelo início da reunião de pais de alunos, quando chega a directora da escola. Sarada, antenada, bronzeada, liberada e outros "adas" saltam aos olhos. Calça de malha preta bem justa, camisão com a estampa "Girl Power", óculos escuros, tênis que custaram mais do que todo o restante da indumentária, enfim, parece dez anos mais jovem do que é. Esther, por sua vez, parece ter saído dos anos 1950; vestido xadrez sem mangas com cintura marcada e sandálias baixas, cabelos curtos e volumosos, falsas pérolas no cólo e uma cor bem mais discreta. A compleição falsamente frágil e o olhar sereno não denunciam seu poderio matriarcal, nem as agruras que suportou com a dignidade de uma rainha, durante os seis primeiros anos de casamento, que também já esteve por um fio. Dona Mirtes, de bermuda jeans e uma camiseta com a estampa de Chê Guevara, entrega a última receita trocada. Sempre comentou o quanto essa directora é eficiente, mas também que não gosta muito de donas de casa, não sabe o porquê.
Quadra cheia, todas sentadas, burburinhos encerrados, a directora começa a falar. Solta as saudações de praxe, dá o calendário de praxe, fala das dificuldades de praxe e praxeia como de praxe. Chega a hora dos tópicos mais aprazíveis, como os testes vocacionais. Esther se espanta com a quantidade de alunos que não fazem a mínima idéia do que querem fazer da vida, ao contrário de seus filhos. Ah, seus pimpolhos nunca tiveram moleza, mas os mimos maternos foram proporcionais à dureza imposta, Sarah quer ser ilustradora e Jacob arquiteto. Pensa que os dois poderão até trabalhar juntos, pois um terá a técnica e a outra o talento para promover a produção. A voz da locutora fica mais grave e os devaneios passam...
- Mas muito me preocupa a quantidade de meninas que não sabem o que querem fazer! Ao que me parece, elas não estão recebendo a orientação adequada em casa, porque é justo onde algumas delas querem ficar! Querem viver às custas de um homem, em vez de trabalhar!
Agora ela acertou no fígado. Esther é dona de casa por opção, vê isso como um sacerdócio que abraçou de boa vontade. Mirtes sai de fininho, quando vê no rosto da vizinha a sombra de seu gênio. É uma mãe exemplar, cuida das finanças da casa como se fosse mágica, seus filhos estão sempre bem arrumados, o marido sempre alinhado, ela mesma sempre impecável e a casa, esta sempre como se fosse um comercial de margarina. Mas a imagem de submissão passa longe dessa mulher. Ela mesma plantou uma muda de marmelo para ter bons correctivos para a família, manuseia rodo e vassoura com uma agilidade marcial, detendo eventuais fugas de seus rebentos antes que saiam do seu alcance, até o mastim Israel sabe pelos olhos quando é seguro se aproximar de sua senhora. Enfim, ela é a soberana de sua família e não se ouve contestação, enquanto as outras mães enfrentam o inferno da adolescência rebelde sem causa. Mas ela dá a contra partida, exige disciplina e dá o exemplo. É uma mulher bonita de encher os olhos, sabe andar com elegância, comer com classe, se levantar com dignidade de um tombo. Não xinga, age. Pois essa "directorazinha atrevida está pedindo e vai receber"...
- Não se ofendam as frustradas aqui presentes, mas aspirar prendas domésticas, é querer ser prostituta de um homem só...
Esther se levanta. Mirtes começa a rezar. Esther avança com a calma mais falsa e traiçoeira do mundo, a directora só a percebe quando ela sobe ao palco e, antes que peça para voltar ao seu lugar, recebe um gancho no maxilar que a desacorda...
- A tua mãe talvez tenha sido prostituta de um homem só, posto que não se preocupou em te ensinar o respeito ao próximo, mas aqui somos todas trabalhadoras.
Olha para as outras mães, toma o microphone e usa uma de suas armas, o tom de voz com o qual dá aos filhos o primeiro aviso...
- Amigas, lamento ter interrompido essa revoltinha fútil que vocês estavam absorvendo tão placidamente. A discussão é o futuro profissional de nossos filhos? Então vamos conversar de mãe para mães. Eu sou dona de casa, a maioria de vocês me conhece, às demais sou Esther Gutemann, mãe de Sarah e Jacob, os melhores amigos que seus filhos podem ter. Escolhi essa carreira de livre e espontânea vontade, sou pharmacêutica de formação. Trabalho vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, mais hora extra a cada quatro anos. E querem saber? Eu amo isso. Reconhecimento? Não, eu não espero. Férias? Eu sabia que não as teria quando Sarah me acordou pela primeira vez, às 02h43, para mamar. Salário? Eu já trabalhei fora, mas quando Joseph conseguiu o emprego que um homem de verdade como ele merece, decidi me concentrar nos meus filhos. Eu acordo cedo e não tenho hora para dormir, vejo no escuro um grão de poeira fora do lugar, sei de cor e salteado o que há e o que falta na despensa, sei de todas as visitas médicas e odontológicas de cada um de nós, inclusive do nosso cão ao veterinário, pelos próximos doze meses. É, eu sei que é uma vida dura, mas mais dura sou eu. Não pensem que mantenho este corpo e esta pele nas academias. Não, minhas amigas, esta forma física é fruto do trabalho doméstico. Só que eu preciso representar a minha família, sou a embaixadora e cartão de visitas da casa. Por isso mesmo tenho truques que vou dividir com vocês, para não estragarem as mãos e os cabelos durante a labuta. Como ia dizendo, ser mãe é um sacerdócio, não é para qualquer um. Por isso metade da população nasce homem, e a outra não atinge os cem por cento de adesão. Aprendi a ser dona de casa com minhas ancestrais e estou ensinando Sarah. É uma missão de suma importância, pois somos nós, mães, que educamos ou estragamos nossos filhos. Eu não vou deixar uma empregada ou a escola educar meus filhos, é função minha. Se eu falhar, eles também falham. Vocês estão enfrentando a tal crise da adolescência, não é? Pois eu não sei o que é isso. Há coisas que um bom psicólogo conserta, mas as outras precisam ser cultivadas, como a disciplina, o respeito pelos outros, a responsabilidade, o gosto pelo trabalho, a honestidade, a paciência e o amor à família. Por favor, sem hipocrisias. Não sou governista, militarista, direitista-esquerdista, terra-a-vista ou coisa que valha. Sou mãe, dona de casa, estou formando dois cidadãos de fazer inveja aos suecos, é isso que uma dona de casa faz. Não precisa ter a dedicação exclusiva que eu tenho, mas precisa se dedicar. Por melhor que esteja a novela, o drama da televisão não vai afetar a sua vida, o da sua filha vai; por mais colorido que esteja o shopping center, os problemas do seu filho podem acinzentá-lo se não forem cuidados. Para nós, adultos, os dramas dessas crianças podem parecer bobagem, mas para elas é muito importante. Isso desde que aprendem a falar, não só quando começam a procurar problemas.
Eu sei o quanto cada uma de vocês é desvalorizada. Eu sei o quanto os homens preferem o objectificado, até que levam um par de cornos e reclamam da sorte. Eu sei muito bem o quanto este mundo machista e degenerado desrespeita a nós mulheres. Mas acreditem, boa parte da culpa é nossa. Eu já disse que somos nós que educamos ou estragamos nossos filhos, pois não estragamos só pelos mimos, mas também pela omissão. Se vocês não os educam, o mundo insensível e materialista lá fora vai fazê-lo à sua maneira, sem se importar com os estragos. Outro erro crasso que muitas cometem é querer competir com os homens. Por Moisés, isso é ridículo! É um general receber ordens de um recruta novato. Algumas chegam ao extremo, como esta pessoa aqui deitada, e se tornam tão agressivas e masculinas quanto eles. Esta pessoa que agora ronca feito uma motosserra afogada, é um homem de vagina. Homens não sabem educar, com raríssimas exceções, nem a si mesmos. Imaginem um mundo educado por eles: materialismo, imediatismo, desconsideração para com o próximo, busca por prazer físico a qualquer custo. Viram isso tudo em alguma manchete de jornal? mendigos queimados, bad-boy-olas quebrando boates e miando fino nas delegacias, uma juventude que acha que ser sincero é ser rude, que despreza quem trata bem o tempo inteiro, chama de falso quem não tem o que maldizer de alguém. Jacob já foi expulso pelos colegas, durante a educação física, porque apazigua os ânimos nesta escola, foi um trabalho danado em casa. E quando tudo isso começou a se dar? Não estou ouvindo? Começou quando nós passamos a agir pela lógica masculina do cada-um-por-si-e-todos-contra-todos. Falta a mão da mulher na sociedade de hoje. Competir o tempo todo é patológico, minhas amigas, mas essa juventude de agora não aceita se não for assim.
Eu não sou uma cortesão em minha casa, sou a Senhora de minha casa. Eu mando, a família obedece, é assim que tem que ser. Não precisávamos ter abandonado isso para ter nossas conquistas, muito pelo contrário, somos perfeitamente capazes de trabalhar fora (como já fiz) e manter a glória de nossa feminilidade à pleno vapor. Vamos, repitam comigo: fe-mi-ni-li-da-de. Feminilidade não é fragilidade, da mesma forma que prendas domésticas não é um eufemismo para prostituição. Eu conversava até ontem com a Dona Mirtes, o quanto essas actrizes novas estão feias! Você olha para elas e vê uma agressividade, que aprece que têm medo de serem mulheres, né, Mirtes?
- Nem me fala, menina, parece até homem capado! O meu sobrinho, o Nêgo, gritou que tavam mostrando uma actriz pelada e o Valti correu pra sala... e broxou. Falou que até a vassoura de palha do quintal é mais mulher, precisava ver. Umas não têm carne, outras é tudo empelotada, que horror!
- Ou seja, parecem homens. Mães, não tenham vergonha das prendas domésticas. Ninguém deve ser obrigado a assumir, mas quem assumir que o faça com amor. Três décadas sem essa profissão nos renderam pelo menos quatro gerações de pessoas egoístas, insensíveis, obcecadas pela beleza (é, deturparam a palavra) e juventude, vovôs que se recusam a envelhecer com dignidade e fazem plásticas como quem faz maquiagem. Essa "felicidade" artificial custa caro! E não resolve. Querem mesmo que seus filhos tenham um mínimo de chance na vida? Assumam-nos. Punir é desagradável, mas às vezes é necessário. Acordar às seis da manhã não é sacrifício coisa alguma. Menino deve saber cuidar da casa sim senhoras, ou não saberá dar valor ao que vocês fazem. Não perguntem aos seus maridos se eles querem jantar fora, simplesmente marquem e pronto, vocês têm o orçamento da casa e sabem o que podem gastar. Aprendam a diferenciar sensualidade, sexualidade e vulgaridade, porque as moças não estão sabendo, e os garotos... Bom, dois bilhões de neurônios a mais só servem de peso morto mesmo. Não, ninguém precisa se vestir como eu, isto aqui é um capricho meu e uma praticidade na hora de ir ao sanitário, mas não é isso que me torna uma dona de casa. Se vocês forem as donas de suas casas, ficará muito mais fácil serem mães de seus filhos, que saberão melhor o que querem ser na vida. É uma ocupação bonita, que precisa de pulso, mas não é um bicho de sete cabeças. E então, vamos às dicas? Mirtes, vamos deixar esta pessoa dormindo enquanto passamos nossas receitas de beleza. Nada de coisas caras, só truques domésticos...
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