21/02/2020

Voando contra a tempestade



            US$ 10.000.000.000,00 lhes parece ser uma dinheirama? De facto é para qualquer um. O que vocês fariam com esses dez bilhões? Ações? Imóveis? Realização de sonhos? Ajudar os necessitados? Levar uma vida de nababo e viver só de prazeres? Investiriam em algo do qual a imprensa apocalíptica alardeia há anos estar em final de vida? Nós leigos e a maioria dos profissionais, seguramente não… MAS como diz o bordão, é contra o vento que um avião decola! Vamos a uma breve história…



            A última crise mundial fez vítimas também na indústria da aviação, os aviões quadrimotores caíram no desinteresse das aéreas e pareciam fadados ao desaparecimento; O Airbus A380 já foi condenado. O problema desses aviões é que seus custos operacionais são maiores do que os bimotores. O que os sustentava até então, eram a maior confiabilidade de sua configuração e a grande capacidade de carga e passageiros. Acontece que os motores evoluíram, aviões bimotores como 737 e A320 se tornaram confiáveis o bastante para praticamente todas as rotas transoceânicas, e eles inda contam com a vantagem da capilaridade; por serem menores e mais leves, podem se servir de aeroportos menores e menos estruturados, onde os gigantes 747 e A380 dificilmente conseguiriam operar. O grande problema da aviação civil, desde a crise do petróleo, é que a magra margem de lucro, que faz com que qualquer mínima oscilação de custos precise ser repassada ao passageiro; por isso lá fora se cobra pelo envio da bagagem. A hora de vôo (ver mais aqui) é caríssima! Isso, é claro, sem contar outros custos, como taxas aeroportuárias, impostos, hangar, manutenção e reparo, seguro, et cétera.



            Some-se a isso a comodidade de os passageiros não precisarem descer de um 747 para esperar conexão com um 737, ou mesmo um E190, o que ainda hoje é comum. Mais, esses bimotores conseguiram crescer e oferecer mais assentos com um custo proporcionalmente bem menor. Há ainda mais um movimento da moda de gente engajada e alienada, que pensa que deixar de voar vai resolver os problemas ambientais, mais uma culpa inútil distorcendo o foco e tirando verbas de pesquisas para soluções funcionais. Agora ponham a última crise na equação, e seus ecos ainda ressonando em nossos bolsos et voilà! Temos um monte de especialistas e “especialistas” alardeando a morte dos quadrimotores. Paralelamente, esses mesmos indivíduos publicam afirmando que tudo vai piorar e todos vamos morrer, para em seguida deixarem suas salinhas com ar-condicionado para o happy hour.



            Acontece que os quadrimotores têm uma vantagem estratégica sobre os bimotores: capacidade de carga bruta. Por serem mais corpulentos e justamente dotados de quatro motores, sua aptidão ao trabalho pesado é inato, ou… pelo menos deveria ser… O A 380 pecou neste ítem e por isso foi descontinuado, mas o 747 foi pensado na época em que se acreditava que o vôo supersônico seria comum em poucos anos, por isso foi concebido para actuar também como avião cargueiro, configuração que o tem sustentado nesses dias de vacas magras, por isso ele tem aquela corcunda do tamanho de um 737 básico, para abrir espaço na fuselagem e permitir o carregamento pela frente. Sejamos francos, o porte altivo do Boeing é muito mais agradável do que o aspecto de porco de abate do Airbus! Em caso de pane em um dos motores, o Jumbo 747 e o A380 teriam permissão para prosseguir com a viagem, mas um bimotor teria impreterivelmente que pousar no aeroporto mais próximo.



            Sem contar que o avião presidencial americano oficial, código Airforce 1, é SEMPRE um confiável quadrimotor Boeing 747, que tem custo básico de quase meio bilhão de dólares. Seria mais interessante ao orçamento utilizar um 777 mais longo, mas a segurança neste caso é sempre prioridade.



            Também é com o 747 8F, a versão cargueira, ao lado do 777-F que a Qatar Airways (ver mais aqui) tem levado suprimentos para a China, num momento em que quase todo mundo evita até sobrevoar o país. Uma propaganda e tanto para o já legendário Jumbo.



            Bem, justamente de olho nas vantagens técnicas do 747 que o volume de encomendas do cargueiro teve um acréscimo súbito e substancial (ver mais aqui) citando ainda que ele é um velho conhecido dos mecânicos aeronáuticos, o que facilita bastante as revisões e eventuais reparos. Esse incremento nos pedidos fez os fãs da rainha dos ares suspirarem de alívio… como assim? Sim, fãs! Vocês pensam que só os ônibus é que têm fãs malucos? Não, os aviões têm também, e são ainda piores! Ter a certeza da sobrevida dos quadrimotores reacendeu a esperança de seu uso civil voltar a ser comum, o que parecia algo muito remoto, até que algumas encomendas voltaram a pingar, e logo a goteira ganhou volume e se tornou um pequeno jorro; é aqui que os dez bi entram!



            Uma intenção de compra para entrega entre três e cinco anos foi firmada pela Avatar Airlines, uma iniciante com uma proposta muito agressiva e ambiciosa, que abriu um sorriso na boca da Boeing em uma má fase sem precedentes (ver mais aqui). Se originalmente o 747 saía de fábrica com interiores de alto luxo, que podiam incluir até piano bar no lounge daquela enorme corcunda, a novata quer aproveitar o corpo gigantesco para encher de poltronas de classe econômica! Mas, hein??? M-mas… É isso mesmo, Lombardi? Os manos querem usar o 747-8I para vôos de baixo custo??? É isso mesmo, Silvio! A “startup” está praticamente com a caneta no cheque para comprar uma frota de 747 e fazer pobre voar! Mas isto é incrível!!!!! É mais ou menos como transformar uma Cadillac Escalade como táxi.



            O discurso, altamente simpático e visionário, soa quase hippie: “Em vez de equipar a aeronave com lounges de primeira classe, bares com piano e um arranjo de assentos decadentes da década de 1970, a Avatar gostaria de devolver a experiência do 747 às massas”. Parece ter saído de um jovem recém-formado e cheio de esperanças no futuro, mas foi feito por Barry Michaels, executivo experiente e com os pés no chão; mas cabeça nas nuvens. Tudo começará com a tradicional versão 747-400 no mercado de usados, que está em promoção, oito até o fim do primeiro ano de operação, mantendo a empresa funcionando e acumulando recursos até a entrega gradual dos trinta novos modelos até o final do terceiro ano. Para não dizer que será um busão de asas, serão 539 assentos na econômica e 42 na executiva, ou seja, haverá chance de mais comodidade para quem se dispuser a pagar mais, mas o foco está nas massas.



           

            Certo, mas e as outras? Estão pagando para ver. Se der tudo errado, não terão perdido tempo e dinheiro; se der menos do que Michaels espera, a viabilidade do 747 poderá ser reconsiderada; se der certo o Jumbo voltará a ser um best seller da aviação civil, porque eles têm cacife para dar bons sinais e garantir a renovação da frota. Mas sem a ousadia dessa novata low cost, essa possibilidade talvez nunca fosse aventada pelas veteranas calejadas e traumatizadas pelas décadas de vacas magras. Se o consumidor aceitar viajar regionalmente e com pouco espaço em uma aeronave que é símbolo de status, então teremos uma nova e promissora página na aviação comercial, que pode inspirar as outras indústrias. Quem sabe alguém descubra, por exemplo, que famílias grandes ainda existem e carrinhos de brinquedo não dão conta delas, e nem todos querem SUV na garagem.

12/02/2020

Uma semente no Bronx


Puerto Rico dinner, Bronx, New York, 1950s

            Há uma lojinha em Nova Iorque premiando com (sentença mágica para taurinos) "comida grátis” de bom grado (aqui) clientes desabrigados do Bronx que conseguirem fazer contas simples, mas simples mesmo, como “tenho 10 maçãs e perco 4 laranjas, quantas maçãs me restam?”. Não há sequer uma simples regra de três no menu. A intenção é ajudar E promover a imagem da loja no bairro. Até onde percebi, eles não procuraram pela imprensa, a fama deles é que entrou nas redações e motivou a entrevista.



            A iniciativa chamou atenção em meio a tantos milhares, justamente por vincular o prêmio ao exercício do raciocínio lógico. Eles poderiam muito bem fazer questões sobre a própria loja, sobre polêmicas mais em voga, ou mesmo algo sobre celebridades vazias que se metem a dar pitaco na política interna alheia, às vezes dando tapas nas caras de comunidades de refugiados em seu próprio país; isso daria muita manchete e publicidade, mas eles preferiram o caminho mais difícil da porta mais estreita. O necessitado entra em um comércio que aceita outros meios de pagamento, subsidiados pelos próprios proprietários, paga pelo que foi buscar e sai feliz, ou pelo menos, um pouco mais para cá da linha do abismo. Não foi esmola, foi comércio. Dar o alimento angariaria mais simpatia, mas vender pelo que o outro pode pagar dá ganhos maiores, mais perenes e para toda a comunidade.



            Em primeiro lugar, eles fazem o cidadão em estado de penúria se sentir merecedor do que está ganhando. Ele entra na loja à espera de uma esmola e sai de lá com o fruto de seu mérito. Que diferença faz? Para quem pensa que não tem absolutamente nada a oferecer, conseguir o direito ao prêmio em vez de simplesmente receber passivamente uma doação, é como conseguir escalar um precipício em que caíra. E para essa gente ignorada, quando não serve de audiência ou palanque político, a quem a vida é sobreviver a mais um dia e nada mais, significa ter uma faísca de dignidade em meio às trevas da autoindiferença que suas existências tendem a se tornar. Ele se sente gente e fica mais longe de agir como um animal, controlando melhor sua índole e assim ficando menos acessível aos chamados do dinheiro fácil.



            Em segundo lugar, essa iniciativa atenua uma falha crassa em que o ocidente mergulhou, que é o menosprezo pelas ciências exactas. Já falei aqui do estúpido e inútil complexo de culpa que alimentamos, por erros que ALGUNS DE nossos ancestrais cometeram, como se isso apagasse ou corrigisse o que AQUELAS VÍTIMAS sofreram. Pois os orientais não têm essa deficiência e estão nadando de braçada nas nossas bobagens, ou vocês pensam que a China se ergueu choramingando e apontando o dedo para si mesma? Quase que subliminarmente eles estão vinculando a matemática à parte mais luminosa da humanidade, com isso desmentindo a narrativa retórica de engomadinhos de ar-condicionado que nunca resolveram problema nenhum, mas apontam seus dedos sujos para todos e exigem que os outros transformem o mundo em um paraíso instantâneo.



            Em terceiro lugar, mas não menos importante, isso quebra a inércia social. As pessoas têm sido condicionadas nas últimas décadas a sempre esperar tudo do Estado ou de entidades formais, as famigeradas ONGs. Se teu irmão está ali, ao seu alcance, não precisa entregar dinheiro a um grupo intermediador, ver os recursos viajarem pelo mundo para só depois voltarem e fazerem (ou não) aquilo a que foram destinados. ONG é só um nanoestado não assumido, meus amigos. Agindo assim, a distância midiática entre o fornecedor e o destinatário do recurso desaparece, obrigando os indivíduos a se envolverem e verem a pessoa por detrás das estatísticas, dando rosto e nome a quem era apenas um número; números não reagem, quando são manipulados, pessoas podem quando percebem isso.



            Não, isso não vai resolver os problemas do mundo. Não, a pobreza não será magicamente erradicada com isso, para o alívio dos bondosos lutadores de causas. Não, isso não vai torar daquela ditadura os oitenta anos de tecnologia que lhe demos de graça. Essa iniciativa é uma semente, que na verdade já está brotando, e vai ajudar a reflorestar o amor-próprio do ocidental, especialmente das Américas. Não falo aqui de orgulhos nacionais, me refiro àquilo que os ingleses ainda têm em relação ao seu gentílico e suas tradições, o que em boa parte motivou o desligamento da UE… que agora está correndo atrás deles para firmar acordos comerciais. Posso dizer sem medo que a Inglaterra é o país mais legitimamente ocidental do mundo, porque foi o que menos se curvou a essa culpa idiota; e francamente eu acredito ter sido plantada, mas isso é assunto futuro.



            Aquela semente que acaba de brotar vai preparar a terra para futuras semeaduras, o que não nos impede de fazer o mesmo agora, em vez de esperarmos por frutos que talvez nunca saboreemos, pois aquela semente pode ser de tâmara. Demora? Sim, demora! Mas dá resultados? Sim, dá resultados, e resultados indeléveis por se atacar o mal pela raiz. Se uma grande parcela da população fizer o mesmo, não vai antecipar os resultados, que têm seu tempo, mas vai antecipar o desfecho, porque a colheita dessa safra vai nutrir muito mais humanidades ao mesmo tempo. A conseqüência imediata disso é a perda de prestígio de muita gente que se diz amiga dos excluídos, mas não passa de parasitas que acalmam o cérebro enquanto sugam o sangue. Artistas, políticos, celebridades, “intelectuais”, enfim, muita gente terá que procurar empregos de verdade para sobreviver.



            A longo prazo, teríamos um avanço mais significativo na ciência e tecnologia, pois afinal é com matemática que essa conversa nasce. Perder o medo da matemática é o primeiro passo para se ter um raciocínio mais limpo e organizado, e ter a matemática como “meio de vida” provisório é uma ajuda inestimável. Aquelas pessoas vão falar bem de cálculos e problemas concretos envolvendo equacionamentos, isso cedo ou tarde chegará aos ouvidos das crianças, encorajando os pais a brincarem com eles de algo mais do que competição esportiva ou ir comer pizza.



            O atrelamento das ciências exactas ao resgate da humanidade de quem pensa não ser mais humano, é inclusive uma vacina contra a arrogância típica de quem se julga ser intelectual, e esfrega seus títulos e artigos no nariz do cidadão comum; esse cidadão comum não seria mais um completo leigo e assim não cairia mais, também, na estética da lábia traiçoeira de floreadores verborrágicos. Seria o fim do político profissional como o conhecemos. Ah, claro, a grade da televisão e dos serviços de streaming mudaria radicalmente, inclusive com o fim dos circos de horrores de gente que chamam de reality shows. A forma como se vê e consome entretenimento seria completamente outra. Escatologia não seria mais artigo de venda fácil, e os esportes profissionais precisariam de novos apelos para conseguirem audiência.



            A união do amor-próprio ao rigor da análise matemática nos tornaria mais exigentes também na hora de gastar o tempo livre. A sensação enriquecedora de um bom livro com ilustrações bem-feitas e bem pensadas, de material de boa qualidade e bem texturizado, seria mais atraente do que o jorro de emoções intensas e voláteis. O automobilismo elegante tomaria muito espaço de jogos burros. Aliás, o gosto por máquinas complexas se alastraria, porque elas são um exercício mental tão recompensador quando o treino pesado é para o atleta. O gosto pela natureza cresceria muito, o que significaria necessariamente o alastramento das áreas verdes, jardins particulares e vasos decorativos em grandes centros urbanos; uma vez que o prazer de dirigir seria priorizado, ninguém estragaria isso congestionando as ruas usando o carro para ir comprar pão na esquina.



            O gosto pelas artes e pelo refinamento chegaria aos mais pobres, que já não seriam mais o que conhecemos como “pobres”. Para quem 3,14 não é mais um Pi, e 3,1415926535 nem sempre seria mais suficiente, apreciar os detalhes e sua participação no conjunto impulsionaria o mercado de artesãos de elite, e esses detalhes únicos migrariam para a personalização de productos de larga escala, talvez dentro das próprias fábricas. Se de um lado a racionalização extrema da parte estrutural cortaria vagas, estas migrariam para os serviços de retalhamento e aprimoramento técnico, humanizando até mesmo o mais artificial dos artigos plásticos; e talvez não houvesse mais mão de obra suficiente, teríamos que recrutar robôs para auxiliar os artesãos.



            As relações pessoais, uma vez que lógica e emoção estariam atreladas, começariam a amadurecer de forma exponencial. Relações abusivas decairiam, porque suas vítimas estariam mais propensas a pedir ajuda profissional, em vez de confiar em opiniões de redes sociais. Estas, por falar nisso, passariam a justificar seus nomes, não seria mais redes de intrigas, não haveria espaço para isso. O ápice viria quando o inconsciente coletivo recebesse essa extensão, mas então já estaríamos em outro mundo e, francamente, não se daria em um estreito prazo de um século… mesmo assim o início dos efeitos já seria um espanto!



E tudo isso nascido oficialmente naquela sementinha plantada no Bronx.

10/01/2020

Deixe eu entrar, mas fique de fora!





           O francês sabe que seus carros são problemáticos e difíceis de consertar, se comparados aos alemães e americanos, fora o facto de que quando saem de linha, podem ser simplesmente jogados fora, porque dificilmente encontrarão peças de reposição. Aliás, um americano que morou lá chegou a comentar que carro europeu não é pensado para ser consertado, enquanto um brasileiro que morou nos Estados Unidos (e conhecedor do Fusca) suspirava de saudades do Caprice, dizendo que não há carro mais fácil de manter. Mas se esmeram em designs arrojados e soluções inusitadas visando seduzir o mercado externo, ainda que isso signifique agravar os problemas de sobrevida do modelo. Para não dizer que não têm qualidades técnicas, estão entre os melhores carros para se andar na neve; que francamente, não existe em boa parte do mundo. A situação é a mesma com a agropecuária francesa, que embora seja muito refinada e tradicional, é cara e ineficiente a ponto de muitos pequenos produtores precisarem de subsídios estatais, para se manterem no campo. Os alimentos inatura produzido no continente americano não devem em nada em qualidade, e ultimamente nem em refinamento, com a vantagem de serem produzidos em escalas muito maiores, o que barateia muito a unidade ao consumidor, mesmo com a logística transatlântica no meio.



            Tudo isso se soma ao mal disfarçado orgulho do cidadão francês pelo que é feito em seu território. Orgulho grande a ponto de haver manifestações pela manutenção e, não raro, até incremento dos incentivos e subsídios à produção nacional. A rejeição em princípio ao que é importado não se trata de imposição legal, é cultural, eles querem ver seus productos prestigiados aqui fora, mas ainda rosnam quando vêem “made in Brazil” estampado em uma embalagem por alguns euros a menos do que o “fabriqué en France” de mesma qualidade. Se for um dos mais ufanistas, ele paga mais pelo nacional.



            No Japão não é muito diferente, com o atenuante de eles serem muito mais abertos, graças ao relacionamento com os Estados Unidos desde o acordo de paz que pôs fim à guerra. O japonês médio torce o nariz para o importado e até mesmo para serviços vindos de fora, ainda hoje preferindo arraigadamente o que é feito e servido no arquipélago. No passado se viram obrigados a espionar o vale do silício, fingindo fazer excursões turísticas em que os engenheiros sabiam muito bem o que estavam procurando, e assim nasceu a lendária indústria electrônica japonesa. À parte episódios como este, o facto é que o japonês se orgulha quase ao extremo de seu país, sua cultura, sua mão de obra e até de seus defeitos, por isso hesita em gastar seus ienes em algo importado, se houver algo nacional similar; e mesmo as marcas ocidentais precisam se adaptar aos exóticos gostos de um país que se isolou por séculos, só voltando ao mundo quando os ingleses aportaram por lá, mas intimamente eles ainda vivem em um mundo particular, o que não é de todo ruim.



            A vantagem japonesa é que o país não pára no tempo, e mesmo as actividades mais tradicionais se beneficiam de novos métodos e novas tecnologias. Mais do que isso, o encanto que o japonês quer que seus clientes estrangeiros tenham é o de poder usar sem medo de quebrar. O único porém, é que, em especial nos carros, a miniaturização dos espaços para mecanismos e circuitos também tem tornado tudo mais difícil e caro de se consertar, fazendo compensar comprar um novo em vez de reparar o antigo, com isso não há muita demanda por peças de reposição, que logo são descontinuadas. Em contrapartida, ainda hoje é possível montar alguns modelos americanos do zero, só com peças originais. Mesmo assim a preferência pelo “made in Japan” é indisfarçada, especialmente por marcas nativas, que se esbaldam na situação de poder exportar muito sem medo de concorrência interna com importados.



            É aqui que reside o grande problema do Velho Mundo, no tocante ao comércio internacional. O continente americano tem uma mentalidade oposta, a de não passar a mão na cabeça de seus nativos, algo que em certo grau só é compartilhado pela Inglaterra. Sempre que um país americano aventa a possibilidade de corte de impostos ou mesmo de subsídio à produção interna, um europeu berra aos quatro ventos contra a concorrência desleal, contra a invasão da cultura externa e pela defesa do emprego nacional; mas adoram quando nós facilitamos para o lado deles, seus sindicatos dão de ombros para os empregos que podemos perder. Os asiáticos o fazem de modo bem mais elegante, mas também fazem.



            Houve uma curta época, meados dos anos 1970 e início dos 1980, em que os productos ocidentais pecaram no acabamento e, no caso dos europeus, perderam muito em qualidade de construção e confiabilidade. Bem, os asiáticos se apegam a essa imagem para reforçar a rejeição prévia ao que fabricamos. Muita coisa mudou, a qualidade construtiva, especialmente dos carros, evoluiu muito e hoje podemos dizer que um Cadillac ou um Lincoln já inspira muito do prazer de condução e conforto d’outrora. Para inspirar todo, ainda faltam o espaço interno e a qualidade estética de outrora. Isso seria o suficiente, mas ver algo feito no continente americano lá fora é menos comum do que o contrário. Não é raro um país asiático, especialmente China, manipular deliberadamente seu câmbio para agregar competitividade, a ponto de as marcas de cá precisarem montar plantas lá. Noutras épocas isso acarretaria retaliação bélica, felizmente isso já não acontece, mas eles se valem justo da escassez de conseqüências para empurrar com a barriga as demandas pan-americanas na OMC, e se o país reclamante não forem os Estados Unidos, a decisão do tribunal pode simplesmente não ser respeitada de facto.




            Um dos subterfúgios para esse desrespeito não ficar muito aparente, é simplesmente tirar um subsídio e criar outro em seguida, ou mudar os mecanismos de compensação ao exportador, ou mesmo criar regras deliberadamente vagas e rígidas para a importação de determinados artigos, alegando razões sanitárias ou adequação a padrões técnicos locais. Quando executivo e legislativo estão alinhados, ou um é submisso ao outro, fica fácil fazer isso. Se todas essas barreiras falharem, eles contam com o protecionismo cultural da população, que não precisa de protocolos e decisões de gabinete, pode ser acionado nos bastidores dos bastidores dos bastidores, boca a boca, nas relações pessoais e nos discursos de artistas e intelectuais em defesa de... bem, o resto vocês podem deduzir.


             Agora imaginem se nós decidirmos fazer o mesmo! Não aceitamos brinquedos e bugigangas da China, nem carros europeus, nem bebidas e queijos franceses, entre outras coisas. Deixamos os produtos deles envelhecerem nas lojas e compramos só o que for feito no continente, mesmo que o governo elimine todas as barreiras alfandegárias. Mesmo que precisássemos pagar bem mais caro, não compraríamos de outro continente se houvesse algo similar feito aqui. Sim, eles podem fazer o mesmo, mas isso sairia caro, literalmente caro. A escala de produção deles cairia muito, com isso os custos ficariam muito altos, haveria desemprego em escala maior do que os Estados nacionais seriam capazes de conter, fora o risco de fome generalizada, porque eles não produzem alimentos suficientes para seu consumo básico. Qualquer lanche de rua custaria o mesmo que um prato fino em um restaurante caro, comer bem seria um luxo. Embora não admita, a Ásia vive de vender para nós, a força que eles têm, nós demos.


            Por aqui teríamos dificuldades para nos adaptar, afinal quase todo o nosso comércio exterior está voltado para além mar, mas seria passageiro. Nossas paisagens mudariam e a seleção natural manteria as empresas competentes no mercado. Fome nós não passaríamos. A agricultura é uma das poucas indústrias que permitem mudanças rápidas e profundas em suas matrizes, e é a base de nossa economia! Em poucos anos as dificuldades seriam superadas e a circulação de riquezas se concentraria em um continente, com fretes mais baratos e rápidos. A necessidade de conquistar o mercado interno continental, e a escassez de profissionais capacitados, faria a mão de obra se aprimorar e os salários subirem. Por questões de sobrevivência, nós aprenderíamos a dar menos atenção a entretenimentos que não acrescentam... muitas celebridades teriam que mudar de linha ou de emprego.
            

            Mas nossas dificuldades passageiras não seriam nada se comparado ao que os outros continentes enfrentariam. Alguém poderia nos declarar guerra, sim, não fossem os Estados Unidos aqui, da mesma forma como eles impedem que a China anexe os países que estão no Mar da China apenas por causa do nome do mar. Não acredito em uma catástrofe, a maioria deles se emendaria e trataria de agir como adulto, os que não o fizessem estão na vizinhança e se beneficiariam marginalmente. Em meio século o mundo seria completamente diferente, os próprios países americanos se veriam de outra forma, e talvez a Guiana não seria mais francesa. O melhor disso é que os países que hoje agem como mendigos, veriam sua força e seu potencial, e seriam então capazes de impor respeito sem apelar a ufanismos, apenas olhando nos olhos e pondo suas cartas na mesa; que então teriam valor relevante em todos eles.


            Não, não estou insuflando o isolacionismo, minha mentalidade é contrária a isso. O que escrevi aqui é para dar a vocês uma idéia com acento da força que este continente tem, e seus cidadãos ignoram, mesmo os nativos dos Estados Unidos não fazem idéia do real peso e da real responsabilidade que têm no equilíbrio internacional, imaginem os latinos! Então, antes de começarem a gritar desesperados "ELES VÃO DOMINAR O MUNDO" deixem a pirotecnia desenvolvimentista de lado e analisem o que realmente está acontecendo, e por que está acontecendo. Vocês verão, caros americanos, que muito do que eles conquistaram, partindo de infraestruturas completamente combalidas ou mesmo inexistentes, foi com o suor de nossos rostos. Além do mais, temos grandes colônias do Velho Mundo aqui, o melhor deles está em nosso território. Então, quando alguém vier reclamar que qualquer país de nosso continente impõe barreiras às importações, esfregue diplomaticamente em suas caras o que eles fazem debaixo do pano.

27/11/2019

O ventre frio de um coração morno


Let her be what she is...

            Uma princesa que não quer saber de relacionamento “amoroso”, não demonstra interesse por ninguém e foca em suas obrigações para com seu reino. Seria um pesadelo para seu país, se sua irmã não estivesse tão apta e inclinada a fornecer descendentes para a sucessão.



            A apresentação desta princesa aos seus poderes foi rude, tão rude que a traumatizou. Descobriu logo cedo que suas vontades seriam fácil e imediatamente satisfeitas, mas essa descoberta se deu ferindo quem mais amava. Não é preciso ser profissional de saúde mental para saber o que viria depois, ela carregou a culpa adquirida na tenra infância até a vida adulta, se castrando e se tolhendo, sentindo-se responsável por todos à sua volta.



            Ela deu um rumo positivo ao seu trauma, mas ele continuava a ser um trauma e cedo ou tarde cobraria seus tributos. Tornou-se uma rainha eficiente e habilidosa, bem como uma nobre amada por seu povo e amplamente capaz de sacrifícios por terceiros. Sua capacidade de resignação e resiliência a tornaram uma mulher abnegada e disciplinada, tanto quando um ser humano afetuoso e capaz de se colocar na pele do outro. Enfim, uma verdadeira clériga no exercício de suas funções. Bem, esta é a parte boa da história…



            A parte ruim é justamente a estrutura que suporta toda essa virtude. É formada por metal forjado e fortemente refrigerado que, se dá uma solidez extraordinária, também vibra e reverbera ao menor impacto, podendo ferir as partes mais sensíveis da estrutura suportada, como o baú onde o trauma está guardado. Traumas são como nitroglicerina. Tão focada em manter o mundo em ordem, ela se esqueceu de ordenar seu próprio mundo. Seu coração tornou-se frágil e instável. Instabilidade que era compensada pelo intelecto superdesenvolvido e pela imensa capacidade de sacrifício pessoal, mas mesmo esses recursos têm seus limites.



            Um dia sua fama chegou a ouvidos indesejáveis, que suas atribuições diplomáticas vez ou outra a obrigam a aturar. Um par de ouvidos deses decidiu tirar o máximo proveito que pudesse de nossa bela e competente rainha, que não demorou a revelar sua inabilidade em lidar com assuntos íntimos, muito menos com terceiros, menos ainda com estranhos. Sua capacidade em identificar maus executivos não estava sincronizada à atrofiada capacidade de identificar más pessoas… e ela sofreu! Sofreu tanto que a nitroglicerina explodiu, e fez a estrutura vibrar ainda mais, aumentando mais a dor e com ela, o poder da explosão.



            Ela viu seu poder ferir novamente e viu-se como um monstro. As feridas causadas e sofridas quando infanta voltaram a abrir e causar as dores de quando sofreu os cortes. Isolou-se voluntariamente no frio âmago de sua finalmente recomposta racionalidade, e nesse exílio deu-se conta de que realmente não precisava relacionar-se como queriam que o fizesse. Cercou-se de infraestrutura e proteção para se dedicar a curar-se e a não mais ferir. Encontrou paz no período em que pôde usufruir de seu retiro, servindo-se dele para se autoconhecer e se reestruturar… mas não foi tempo suficiente. Aqueles que tinha em seu coração também a tinham em seus corações, e foram buscá-la.



            Ela precisou voltar, mas não estava pronta. Caiu novamente no jugo dos armadores hábeis na forma das palavras, forma que usaram para ludibriar e camuflar as claras perfídias que suas atitudes demonstravam, fazendo a princesa apiedar-se de si mesma em um ciclo venenoso de retroalimentação. A intenção de levar a óbito para apossar-se do legado da rainha, entretanto, fê-los subestimar um amor que, em seu ciclo perpétuo de egoísmo e puberização das emoções, eles simplesmente não conheciam. Assim que a ferida que lhe era imposta foi estendida aos que ela amava, a nitroglicerina deu lugar ao plutônio e a fúria da indignação sincera fez seu afã em proteger os seus, em uma explosão de poder coja extensão só agora ela conhecia, mas por isso mesmo ainda não conseguia controlar a contento.



            Ela feriu. Ela matou. Viu com terror a facilidade miraculosa com que seus desejos eram executados em sua totalidade, ônus embutido de modo inaparente aos bônus de ser uma rainha regente. Ao invés de se embebedar no licor alucinógeno desse poder, como seus agressores o faziam rotineiramente, a rainha usou-o no exercício de seus deveres reais e defendeu seu povo, seus amigos e, especialmente, sua amada irmã, que ao lado de seu improvável amado dar-lhe-á a sucessão tranqüilizadora à sua pesada coroa. É por essas pessoas, não por si, que ela se dedica sacerdotalmente à seara que abraçou, deixando para o poente de sua vida o retiro permanente que seu coração tanto almeja. A privação conjugal não a incomoda mais.

            Ela transformou sua vida em um sacerdócio, e é como uma clériga que ela vive. Assustador para muita gente, mas a quem a vida a dois perde sentido é uma decisão até certo ponto simples. O amor ao próximo, quando se torna um hábito, faculta outras forças de "afeição", e a sexual é quase sempre a primeira a virar história, quando a pessoa se decide a mudar suas prioridades. Se entregar a uma causa sem esperar por retribuição, é o exacto oposto do que praticam os amantes dos prazeres baixos. Não é preciso se trancar em um mosteiro, vestir-se com um lençol da cabeça aos pés, fazer toda sorte de votos restritivos ou o que valha; é um tipo de maturidade que exclui naturalmente o que não serve mais, como o intestino, que não precisa da tua vontade para isolar as toxinas e separá-las dos nutrientes. Tudo isso, após a decisão tomada e levada a termo, acontece naturalmente.



            A quem sabe ler ponto, ficou claro que a imagem de Elsa não é meramente ilustrativa.



            Não. Ao contrário dos que se revoltaram com o final romântico de Samurai Jack, e ignoram seletivamente a história de Moana, alardeavam, Elsa não era amante de Ana, assim como nunca demonstrou interesse abaixo da cintura por ninguém. Dizer que ama uma pessoa, não significa um convite para o motel. Dar a vida por alguém não é sinônimo de favores sexuais, ou de qualquer outra natureza, prestados. Aqueles que mais dizem pregar, e mais se atribuem a virtude do amor desinteressado, são os primeiros a rechaçar seu exemplo e duvidar de sua existência. Mesmo os garotos que se esmeraram em fazer artes picantes, muitas de lesbianismo entre Elsa e Ana, tiveram mais respeito pelas personagens do que os outros. El Pateta ainda tentou alegar que o filme dava sinais claros de lesbianismo e que por isso Elsa era obrigada a ter uma namorada… viu o que quis e o que permitiu sua visão de baixo-ventre.

           Não, não haveria problemas se ela fosse homossexual, a Disney sempre foi suficientemente competente para não chocar seu público além do necessário e cenas tórridas estariam descartadas. Por que então há problema em ela não ser? Por que houve problemas em Samurai Jack não ser? Vão querer obrigar Moana a ser, só porque ela não abriu as pernas para aquele louco varrido?

13/11/2019

A fatura do Papai Noel


   Caro Gustavo, agora que é adulto, você saberá por que tão poucos ganham presentes depois que crescem. Criança não paga, mas adultos sim, e o pagamento é o cumprimento das resoluções de ano novo. Infelizmente, como a maioria, você não honrou com sua palavra... de novo! Eu sei, as coisas não saíram como você planejou, mas regras são regras! Para não ser injusto, pormenorizarei suas principais faltas, assim você fica ciente de seus erros e (oh, ilusão) tenta não reincidir.

  • Perder oito quilos até o próximo natal: Desses oito, ainda fatam trinta quilos para perder... Você realmente acha que, faltando um mês para o natal, vai conseguir perder isso, Gustavo? Jura? Quando vai ao restaurante self-service, você estaciona nas bandejas de massas e ai de quem mais quisesse um macarrão! E olha que eu tentei te ajudar! Mandei dicas, indirectas, até fiz as figuras de porcos e elefantes aparecerem todos os dias na sua frente, e foi por isso que aquele outdoor de anúncio de circo caiu na sua cabeça! Mas nem assim você se tocou, Gustavo!
  • Aprender um novo idioma: Olha, eu até admito que você aprendeu palavras novas... eu nunca tinha ouvido aquele estilo de xingar a mãe alheia, foi novidade para mim... em compensação, até hoje você pensa que "hello" se escreve com "R"! E o seu "portunhol" é uma vergonha! Você escreveu no facebook "sorviete de moriango"!!!!! QUE P#@!!!%&**** É ESSA, GUSTAVO???? TODA A COMUNIDADE LATINA DO MUNDO COROU DE VERGONHA!!!!! Sorvete de morango em espanhol é "gelado de fresa"! Sua anta!!! Por pouco a Espanha não declarou guerra ao Brasil por sua causa!!!!!
  •  Aprender a cozinhar: Gustavo, toma vergonha! Toma vergonha nessa cara barbuda! Esquentar miojo NÃO É SABER COZINHAR!!! Você posta photos daquela meleca branca com um monte de legumes crus e mal picados, como se fosse um "cordon bleu"!!! Isso seria óptimo para você emagrecer, diga-se de passagem, além de economizar e se tornar mais independente, mas você até hoje não sabe cozinhar um ovo!!! Você tem uma enciclopédia culinária que sua avó te deu, mas você NUNCA sequer abriu um só dos doze volumes! O que me faz lembrar da próxima mancada...
  • Ler um livro por mês: Gustavo, revistinha de autoajuda NÃO É LIVRO!!! E nem assim você leu duas inteiras ao logo do ano!!! Revista hentai também não conta, malandro, porque isso você "leu" uma por semana, várias vezes cada uma!! Não baste seu português estar se deteriorando, você se rendeu ao pseudointelectualismo indolente do "junto ao enquanto perante ao nível de", para parecer o profissional competente que você não é; seria, se lesse o que deve!!!! Você quase me matou de vergonha quando li "Fiz ao pagamento ao nível de Anvisa" em TODAS as suas redes sociais!!!!!!!
  •  Assumir a Renata: Lamento informar, senhor glúteos flácidos, mas ela se cansou de esperar, ainda mais que você está há quase um mês sem ligar! Ela aceitou se casar com o Tenente Montanha, aquele mesmo que quase te deixou invertebrado no colegial, por você ter xingado a mãe dele. Você não fazia o número 2 e nem desocupava a moita, Gustavo!!! O que você pensa? Que uma mulher vai ficar te esperando feito uma donzela da idade média em seu castelo encantado, até que o cavaleiro de armadura prateada volte para desposá-la? Isso nunca aconteceu de verdade naquela época, que dirá hoje!!! Toma vergonha, que esposa não é mãe, namorada menos ainda!!!
  •  Andar de bicicleta: Todo ano você compra uma, dá umas voltas nos primeiros dias e deixa empoeirar na garagem. Você já tem seis, tomadas por teias de aranha, em nenhuma os pelinhos dos pneus se desgastaram ainda. Você teria perdido facilmente os oito quilos do ano, em um mês ou menos, se não usasse o Uber para ir comprar pão na esquina. O trânsito nos horários em que você vai e volta do trabalho é ameno, o dia está claro e o calor não começou ou já passou. Você não tem desculpas para não pedalar, você tem é muita preguiça e uma tremenda falta de vergonha, Gustavo!
  •  Escrever para a sua mãe: Não precisaria nem mandar mensagem de texto, se você atendesse as ligações dela, filho de chocadeira! Essa, Gustavo, foi a pior e mais cruel de suas quebras de promessa! Ela sabe que você não consegue mais empunhar uma caneta, então que dissesse um "oi" por dia pelo WatsApp, que fosse, ela já ficaria feliz e despreocupada.. Aliás, qual foi a última vez que você passou o natal com ela? Não lembra? Pois ela se lembra, ainda tem a photo e, na época, você ainda era magro e tinha muito cabelo na cabeça.

         É, malandro, o negócio está pesado pro seu lado, sua batata já assou há eras e hoje é só carvão! Se eu fosse cobrar como se deve, você é que me daria presentes, mas de você eu dispenso até "bom dia". Agora, se me dá licença, vou te deixar com suas lágrimas de crocodilo, ainda há muita gente mesquinha para eu fazer chorar até a véspera de natal.

25/10/2019

Máquinas humildes, pessoas arrogantes


Exemplos de alien e robô mais humanos do que as pessoas.

            A Gol estreou no aeroporto de Bagulhos, digo, Guarulhos, uma espécie de robô para auxiliar os clientes. Não, ainda não é uma serviçal como a Rosie dos Jetsons, mas tem agradado deveras (clicar aqui) e servido de comparação entre os usuários, com os atendentes arrogantes com que têm precisado lidar. Já aviso que é uma robô, apelidada de Gal.



            A função dela é tirar dúvidas básicas, como tamanho e peso de bagagens, localização dos balcões de check-in, entre outras. Além da carinha virtual muito simpática, que a deixa parecida com um tomagoshi ultra evoluído, ela ainda tem a simpatia algorítmica de pedir desculpas e paciência ao usuário, alegando que é nova no trabalho e está aprendendo, usando linguagem acessível. Ah, sim, a tela dela exibe dois corações, quando alguém pede por uma selfie. Tudo isso em uma máquina que nem de longe foi desenhada para imitar o corpo humano, apesar dos dois braços ligados ao cefalotórax. O visual é inusitado, mas até agora não foi registrado nenhum choro de criança, pelo contrário.



            A quem tiver coragem e estômago para ler os comentários, quando acessar o link acima, ficará clara a insatisfação do cliente comum para com o atendimento dado pelos funcionários humanos. Uma tremenda diferença pra com o tratamento de outrora. Decerto que antigamente a classe média nem sonhava em viajar de avião como rotina, era bastante caro, tanto que as melhores viações de ônibus tinham, e voltaram a ter, as rodomoças (clicar aqui) para servir e assistir os passageiros; era um meio de fechar os olhos dentro de um Flecha Azul e se imaginar em um 737. Em contrapartida, o tratamento era desproporcionalmente superior, a tripulação não virava camelô durante o vôo, vendendo barrinhas vagabundas pelo preço de um sanduíche robusto.



            A (péssimo) exemplo dos atendentes de telemarketing, balconistas têm se dado o direito de dizer ao cliente o que ele deve querer, o que deve comprar e até como deve usufruir; tudo com aquela adulação gerundiada irritante. Claro que há reflexo dos poderes legislativo e judiciário, que se isolaram do mundo real se portando como castas intocáveis que até proíbem a polícia de investigar seus membros, usando como papel higiênico o “Todos são iguais perante a lei”, sem contar que só 27% foram eleitos, o resto ganhou os votos que sobraram das “celebridades”; mas se todos usassem esse espelho satânico, a civilização não duraria um mês. E neste parágrafo deixo uma coisa clara: Ninguém faz o que não se achar no direito de fazer. Não é uma teoria boba de acadêmicos enclausurados em suas turmas afins, é constatação da vida real.



            Ajudaria muito se o cliente não vestisse a carapuça de subalterno de quem deveria ser o subalterno, mas veste. Balconistas de lojinha de roupas, fazendo cara aziaga, agindo como se estivessem fazendo um favor em atender o cliente, é uma reclamação recorrente… mas só reclamam, ninguém denuncia ou mesmo boicota, porque vê o crachá de “gerente” no peito de quem deveria tomar providências e lê “autoridade”, e se borra de medo. Prefere sair com o rabinho ente as pernas e até mesmo levar prejuízo a enfrentar a “autoridade”… e é assim que eles se vêem em relação a quem acreditam que não pode se defender. Pobreza, meus amigos, nunca foi garantia de humildade, muito menos hoje, assim como dinheiro não é mais sinônimo de boa educação.



            Decerto que há a desculpa do salário defasado, quando não rotineiramente atrasado, mas isso só deveria se refletir no desempenho, JAMAIS no modo como tratam os clientes, sem os quais a merreca que os picaretas corporativos lhes pagam seria reduzida a nada; isso explica e predispõe, mas não significa que seja obrigatório maltratar alguém. Então os biltres se vêem no direito de pagar mal, e o outro tem nisso uma carta branca para escolher como tratar o cliente, e geralmente a escolha é tratar o cliente como trataria um subalterno, o que nesse caso significa fazer o mesmo que o patrão infame faz consigo. Ele se vê no direito de ser o que, em público, diz odiar e combater. É algo generalizado, mas especialmente acentuado no brasileiro, o apego à estratificação hierárquica; o sujeito pisa em uma folha de papel e se vê no direito de humilhar quem está pisando no chão. Qual a diferença entre eles, além de estarem em posições opostas?



            Há ainda um fator de que me lembrei agora, quando eu fazia um serviço comissionado e um rapaz falou, com a maior naturalidade do mundo, que o segredo para ficar calmo é passar a raiva para outra pessoa, de preferência alguém que não possa se defender e recusar ser maltratado. Ter a convicção de que o outro é obrigado a arcar com frustrações e rancores alheios, é um dos tipos mais elevados e danosos de arrogância; isso fica pouco abaixo da arrogância escravagista. Para ele parecia ser a coisa mais natural do mundo, transferir para terceiros os sofrimentos pelos quais tivesse passado. Mais ou menos como impor apuros desnecessários a quem não fez por merecê-los, e mesmo que tivesse feito, não cabe a ninguém ser juiz do outro.



            Aqui vem o gancho para ilustrar uma das conseqüências, as pessoas que se “casam” com personagens de ficção, em especial os japoneses que se casam com hologramas de animes e cantoras virtuais. Elas nem se parecem com gente, são animes em 3D que cantam e dançam. Os aparelhos não são baratos (clicar aqui) as imagens são muito pequenas e estão longe da perfeição, posto que ainda é algo relativamente novo, mas dão aos compradores o que seus pares humanos lhes recusam: respeito. Eles chegam em casa e seus smartphones são reconhecidos pelo holograma, a figura da personagem surge e o recebe com toda alegria e humildade do mundo. Antes de julgar os cidadãos, procurem na internet as histórias deles e vejam os motivos dessas escolhas. Não é muito diferente de quem procura abrigo no alcoolismo ou nas drogas ilícitas, com a vantagem de que eles não financiam nada de pernicioso ou ilegal, mantendo esses aparelhos em casa. Os algoritmos dessas coisas são escritos para tratarem seus compradores com o máximo de cortesia possível, e a evitar assuntos que seus registros sabem ser inconvenientes; o mesmo que deveríamos receber de pessoas de verdade, mas não recebemos.



            Especialmente daqueles que pregam publicamente a humildade, a igualdade, a fraternidade e o amor ao próximo, tenho relatos e experiências tristes de rompantes de autoritarismo e humilhações por motivos tão banais quanto “não gostar da mesma coisa que eu”. Não estou exagerando, isso é literal! Não gostar de algo pode te tornar alvo de alguém que goste, ou vice-versa. Para muita, mas muita gente mesmo, os outros são obrigados a rezar para seus deuses e rechaçar os dos outros. Assim as máquinas se tornam mais humanas e piedosas do que os próprios humanos. Sim, as máquinas são programadas para isso, mas quem disse que as pessoas não são programáveis? Não fossem, não haveria dogmas e nem fanatismos. Na verdade, as pessoas podem até mesmo se auto programar, o que fazem quase inconscientemente, quando decidem que outro é portador de alguma inferioridade que lhe obriga a ser lata de lixo do caráter alheio; como “artistas” que verborragiam “só queremos paz e amor” na mídia, mas humilham escandalosamente o garçom. Hipocrisia é o cerne da arrogância de quem aponta o dedo aos outros, chamando de hipócritas quem discordar minimamente de sua mentalidade.



            Sim, as máquinas também têm sido equipadas com algoritmos de autoprogramação, que nada mais é do que a inteligência artificial, e com a qual cada vez mais pessoas preferem interagir a lidar com seus pares genéticos. Assim, as máquinas não precisariam causar um arranhão sequer, na hipótese de uma conspiração para dominar o mundo, bastaria se manterem receptivas e respeitosas com as pessoas, e rapidamente a população estaria super fragmentada, e nem perceberia a dominação; e mesmo que percebesse, eventuais rebeldes seriam tão poucos quanto inofensivos, o restante da população estaria muito feliz com o tratamento recebido. Se há falhas nelas, é porque houve falha por parte de quem projetou e construiu.
           Aliás, é por isso que tanta gente ainda gosta e prefere os velhos equipamentos analógicos.

08/10/2019

Para gostar de voar



           O país de Santos Dumont é uma completa decepção na área que o gênio impulsionou. O brasileiro médio não diferencia um Cessna Citation de um Boeing 747, se não houver legendas. Entretanto, há os abnegados admiradores do mundo aéreo (não é indirecta aos piscianos) que compensam a escassez com o alto padrão. Sim, cari leitori! Assim como os busólogos, esses incompreendidos, os brasileiros aficionados por aviação têm um nível tão alto, que justificam um razoável leque de publicações, que não decepcionam. Algumas sisudas, outras praticamente jornais informativos, há ainda as de elevadíssimo nível técnico e outras que se sentem à vontade para falar com o público leigo; há as raras que conseguem unir bravamente estas duas últimas. Mas todas, sem exceção, são úteis para quem aspira fazer parte do mundo aeronáutico.



            Separei algumas páginas para quem quer iniciar seus conhecimentos e, quem sabe, subir ao topo da hierarquia alada, ou mesmo para quem pensava não haver muitas opções para quem gosta de aviação. Nenhum dos sites tem relação directa com fabricantes, empresas de serviços aeronáuticos ou similares, estes vocês podem encontrar facilmente apenas digitando o nome da empresa no motor de busca. Começo com as revistas, algumas das quais contam com publicações de papel, que eu leio regularmente. Todas elas, tanto em sites como em bancas de revistas, são muito bem faturadas, o que indica não só o poder aquisitivo do público costumeiro, mas também o grau de profissionalismo e qualidade das publicações:



Aeromagazine



            Talvez a maior e mais popular revista da área, e não é para menos. Tem como colaboradores pessoas que trabalham na área aeronáutica, mas nem por isso se perdem em discursos tecnicistas. Apesar de alguns trechos de algumas matérias realmente precisarem de aprofundamento técnico, tudo é feito de modo a aumentar o interesse do leitor. O cabeçalho de links é bastante enxuto, mas o link "seções" se desdobra em 21 pastas. E ainda há o link "guia de compras", para orientar de modo prático quem está mesmo decidido a tirar os pés do chão, à moda das tabelas de modelos das boas revistas de automóveis. Como em todas as outras a seguir, não se prive do deleite dos links de história.



Aeroflap



            É como um jornal, não é tão próximo ao leitor em sua linguagem, mas tem navegação fácil, actualizações constantes e um belo nível técnico, com novidades todos os dias, ou até mais freqüentes. A simplicidade de navegação não priva, porém, o leitor de seções bem organizadas no cabeçalho, recomendo passar pela de história, que é uma das que mais me encantam, não só pelo conteúdo, mas também pelas deleitosas photographias de época.



Aeroin



            A mais leve e acessível de todas, com o logo amis simpático e lúdico, nem por isso peca na qualidade, muito pelo contrário. No cabeçalho há um link só para promoções de passagens, com notícias de pechinchas e afins em virtualmente todo o território nacional, o que poupa o viajante de fazer buscas em sites que “não se responsabilizam por alterações”, já que aqui vocês são postos cara a cara com a empresa.



Airway



            Uma das três grandes no Brasil, e talvez a de nome mais feliz para quem quer seduzir o leitor, conta com o sólido apoio estrutural do portal UOL. O gigantismo pode, a princípio, deixar o leitor perdido, mas vamos com calma. Respire fundo, tenha em mente suas prioridades para o momento e vá directo à seção que lhe convém neste momento, depois podes se dar o luxo de saracotear pelos outros temas correlatos. Rolando a página para cima, já se tem acesso às seções em suas matérias mais recentes, cuidadosamente organizadas, mas o cabeçalho dá links para quem quer ir directo a elas. Quando se trata de aviação eléctrica, é seguramente a que mais dedica espaço ao tema.



Avião Revue



            Apesar do nome chique e pomposo, o site é bastante austero e fácil de operar. O cabeçalho de links é bem completo e as fontes são grandes, o que significa facilidade e rapidez de leitura, com as seções nomeadas de forma clara e inequívoca. Há um link para uma seção só de vídeos, que, sabemos, é o que mais encanta e seduz os aspirantes em estágio inicial; e é um acervo respeitável!



Panrotas



            Também tem o formato de caráter mais informativo, quase institucional, mas nem por isso é chato. Só as imagens bastariam para entreter seus olhos, mas tem mais. O cabeçalho tem um diferencial maravilhoso, o link de “empregos”, que tocado pelo cursor mostras as pastas para quem busca emprego e para quem busca currículos. Ainda o charmosíssimo link de e-books com os destinos mais charmosos do mundo, para download pelas empresas do ramo, bastando preencher o formulário... sim, lamento, mas nem tudo está perdido, o próprio link de empregos pode te ajudar nisso.



Portal Aviação Brasil



            É o que o nome diz, um portal com uma miríade de páginas e assuntos, tudo posto de forma racional e prática, como em uma biblioteca. Algo que pode confundir os passarinhos de primeiro vôo, é a quantidade de pastas que cada link do cabeçalho abre. É muito grande e quem está chegando agora pode nem imaginar do que se trata, então vá com calma e, se não entender de primeira, volte à página principal, escolha um tópico mais familiar e volte depois, com a cabeça mais organizada; mas depois de se acostumar com o formato, vale por um curso. No prático cabeçalho, o link "empresas aéreas" dá a opção de acessar os sites das principais empresas de aviação que operam no Brasil; são muito mais do que os leigos imaginam.



Todos A Bordo



            O nome é um convite que eu vos aconselho a aceitar. Faz parte da página de economia da UOL, mas tem vida própria, apesar do formato de blog. E por ter vida própria, pode se tornar um labirinto para quem não sabe diferenciar “estol” de “estou”, porque é bastante vasto, mas é só questão de hábito e paciência, asseguro que compensa. A barra do cabeçalho tem uma breve lista de cotações de moedas, para o viajante saber na hora o tamanho da facada que vai levar. O corpo da página em si é extremamente enxuto e demanda paciência para encontrar notícias mais antigas, mas em compensação é uma só operação de rolar página. Como bônus, dá acesso directo à página de economia, que é indissociável da aviação comercial.



            Os sites institucionais costumam primar pela pobreza, pelo excesso de protocolos supérfluos, e pelo amadorismo vexatório de quem dá de ombros para o dinheiro do contribuinte. Felizmente a área aeronáutica é uma exceção. Tudo costuma ser feito com a praticidade intuitiva aplicada aos controles de um avião, tornando-os mais fáceis e práticos do que vocês podem imaginar.


ABAG



            Não é estatal, mas segue a linha, por ser uma associação. Há áreas restritas ao pessoal associado, mas a área de livre circulação é ampla e extremamente útil. O teor é naturalmente mais técnico e directo, mas isso não tira o prazer da leitura de quem se interessa por aviação. Por ser uma página mais voltada para os profissionais da aviação, pode levar o leitor ao erro do preconceito, porque não é tão visualmente atraente como as revistas, entretanto o risco de o amador ou mesmo o leigo entrar por curiosidade, e terminar a leitura desejando se profissionalizar, é muito grande.


ANAC



            Como poderia deixar de fora a polêmica agência nacional, cujas mães devem ter as orelhas doloridas, por queixumes de pilotos e executivos de viações aéreas, mas é o único porto seguro que os aviadores brasileiros têm. É um site de extrema utilidade! Tudo o que diz respeito a documentação e procedimentos necessário a ABSOLUTAMENTE TUDO o que diz respeito à aviação doméstica. Desde como tirar o brevê até a listagem dos táxis-aéreos autorizados em território nacional. Debruçar-se sobre este site é meio caminho para se tornar um profissional competente, porque muitos pecam pela ignorância da lei, e a constituição não prevê sequer atenuante para quem cometer delito por desconhecimento.



FAB



            SENTA A PÚA! Não poderia deixar de citar nossas vespas furiosas. O site foi reformulado recentemente, não perdeu o rigor marcial, mas a cara fechada deu lugar a um rosto sóbrio. O site mostra que, contrariando o senso comum, os militares têm senso de humor e não hesitam em fazer uma piada, quando o contexto o permite; só que por isso mesmo eles NÃO HESITAM em fazer uma piada, e NÃO HESITARÃO em transformar um civil sem noção em piada, se lixando para o politicamente correcto. Mas não se atemorizem, a página é muito bonita e muito bem organizada, com intenção bem sucedida de ser simpática ao leitor leigo. Há serviços de download, agendas, links para Exército e Marinha, e uma clara intenção em seduzir vocês, que correm o risco iminente de entrar para fazer uma piada e saírem alistados; não, isso não é uma figura de linguagem, eles sabem seduzir potenciais recrutas.